quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Fuga de Flávio abre disputa na oposição, por Vera Rosa

O Estado de S. Paulo

Presidente é aconselhado a ignorar rival e anunciar medidas para conter crescimento de despesas; petista não acredita em nova intentona golpista

A fuga do senador Flávio Bolsonaro (PL) para os Estados Unidos abre uma disputa acirrada pelo comando da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito para o quarto mandato. Até agora, o PL não definiu quem exercerá esse papel e há uma briga nas fileiras do bolsonarismo pelo espólio político de Jair Bolsonaro.

Embora o mandato de Flávio termine em 31 de janeiro de 2027, data em que perde o foro por prerrogativa de função, ele próprio anunciou, um dia após a derrota para Lula, que irá “organizar” a oposição ao governo. A portas fechadas, aliados de Flávio dizem que os senadores eleitos Michelle e Carlos Bolsonaro, ambos do PL, não têm esse perfil. Os dois, aliás, nem se falam.

Há, nos bastidores do Palácio do Planalto, o receio de que Flávio possa insuflar um movimento como o que ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando apoiadores de Jair Bolsonaro participaram de uma intentona golpista na Praça dos Três Poderes. Mas Lula, que nesta terça-feira completou 81 anos, disse não acreditar nisso.

Na época do quebra-quebra, Bolsonaro se encontrava nos Estados Unidos. Hoje, cumpre prisão domiciliar por tentativa de golpe. O ex-presidente confiava na eleição de Flávio para receber o indulto.

A cúpula do PL calibra o discurso de “perseguição” para justificar a fuga do senador após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ter determinado que ele entregasse os passaportes. “De onde Flávio estiver, continuará exercendo esse papel de liderança”, disse o deputado Sóstenes Cavalcante, líder da bancada do PL na Câmara. “Hoje, com as redes sociais, estar aqui ou em outro lugar do mundo é a mesma coisa”.

Alvo de dois inquéritos no STF, o senador é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro com apostas online, as bets, ao lado do advogado Willer Tomaz. Diligências da Polícia Federal indicam, ainda, que Flávio e Willer mantêm uma sociedade. Além disso, a PF apura onde foram parar os R$ 134 milhões que o senador pediu a Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, sob a justificativa de que o dinheiro seria para financiar o filme Dark Horse sobre a trajetória política de Jair Bolsonaro.

Lula foi aconselhado por aliados a ignorar Flávio de agora em diante e anunciar, nos próximos dias, medidas rigorosas para conter o crescimento das despesas, enviando um sinal de austeridade ao mercado. Ao que tudo indica, porém, o presidente não dará uma guinada na economia. Quem espera que Lula 4 seja o anti-Lula pode tirar o cavalinho da chuva. 

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