Folha de S. Paulo
No padrão da família, candidato derrotado
foge da polícia e quer subverter política
Fuga lança tumulto nas fileiras da oposição a
Lula 4 e inspira adeptos da 'direita cheirosa'
A fuga de
Flávio Bolsonaro dá o que pensar sobre o destino da oposição a Lula
4 e sobre a montagem de um projeto da direita para 2030. Talvez os Bolsonaros
se façam de mártires da desdemocratização do Brasil, de vingadores dos
oprimidos pelo "sistema", mote fundamental da família e das extremas
direitas.
Podem meter os pés pelas mãos se tentarem, com sucesso, apoio do governo americano para campanha qualquer contra o Brasil. Por exemplo, Donald Trump poderia aceitar um processo de asilo político para os Bolsonaros. Diria assim que o regime brasileiro não é democrático, que persegue politicamente cidadãos. Pelo meio do caminho, haveria sanções, políticas ou comerciais.
Quanto ao mais doméstico, imediato e
previsível, a escafedida de Flávio
Bolsonaro promove tumulto nas fileiras dos
partidos adversários de Lula 4, a começar
pelo PL. Até segunda (26), esse senador com mandato terminal se
coroava líder da oposição. A capacidade de Flávio liderar qualquer coisa, mesmo
como estafeta ou garoto de recados do pai, causava certa descrença mesmo no PL e entre bolsonaristas
de outros partidos. Agora, Flávio está fugido e não se sabe o que pretende
—discursaria ainda nesta semana nos EUA. Sim, acontece de haver líderes de
oposição que vivem fora do país deles. Em geral, tentam insurreição contra um
governo autoritário, sem política viva.
O PL é um tanto gelatinoso, sem coesão. Há
implicâncias com bolsonarismos mais extremados e divergências entre
bolsonaristas. Que rumo vai tomar? Embarcaria em um projeto "antissistema"?
Na oposição, é preciso pensar mais nos custos e no risco de perder emendas.
Por um lado, a família tem muito poder sobre
as bases. Por outro, a fuga, uma campanha antinacional ou até golpista podem
enfraquecê-la. Essa hipótese inspira aquelas pessoas que os Bolsonaros chamam
de "direita cheirosa": deu ânimo àqueles que pregam a ideia de que a
direita deve se afastar do bolsonarismo.
Essa direita terá condição de liderar
políticos, grupos sociais e econômicos e a massa da militância, de resto em
atrito com os Bolsonaros? Note-se que o evangelismo político, o agro, militares
e forças de segurança de diversos tipos juntaram-se ao bolsonarismo, o
constituíram ou nele pegaram carona para assumir poder direto de fato, de modo
inédito. Mudariam de barco assim, sem mais, para essa hipotética ou fantasiosa
nova direita?
Essa nova direita conseguiria disputar com
sucesso o comando daquilo que o filósofo
político Marcos Nobre chama de "partido digital bolsonarista"?
Isto é, um partido informal que se estrutura e sustenta pelas redes e assim
também cria organizações de base no mundo dito "real", típicas de um
"partido de massas", e que parasita um partido formalmente
constituído, que agora é no caso o PL.
Quem defende a tese da direita
pós-bolsonarista é muito simpatizante do governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos). Como o
governador levaria adiante um projeto eleitoralmente viável sem
contar com o eleitor bolsonarista de alma? É a questão de qualquer candidato a
líder ou a presidente direitista em 2030. Os Bolsonaros concederiam o lugar de
liderança sobre esses eleitores? Tarcísio até apareceu nas redes nesta terça
(27), como líder de um "a
luta continua", da "união e reconstrução", versão direitista,
propondo um programa e dizendo "a eleição passou, o Brasil não". Vai
disputar o poder com seus mentores?
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