Folha de S. Paulo
Finalistas escondem plano fiscal, discussão é
ruim e não se trata de outros assuntos
O que um Bolsonaro 2 fará de trabalho,
comércio exterior, pesquisa e desenvolvimento?
A discussão de programa
econômico dos candidatos a presidente quase inexiste. Sabemos de
inanidades, camuflagens e frases de efeito, soporífero ou revoltante, a
depender da bobagem.
Trata-se quase apenas do "fiscal", do que fazer de gastos do governo e impostos, que é assunto grave e urgente, mas longe de único. A possibilidade de que seja votado o fim da escala 6x1 levou os finalistas a se engajarem. Mas não se diz grande coisa sobre os problemas dramáticos do mundo do trabalho e do financiamento da Previdência (quanto mais pejotização, precarização e informalidades, mais faltará dinheiro, entre outros problemas). Lula defende o fim da 6x1, um projeto muito necessário, mas péssimo, na atual versão, com risco inclusive para quem trabalha. Flávio diz que vai libertar trabalhadores para negociarem seu tempo de trabalho com as empresas, escárnio que não precisa de comentário.
E quanto ao mais?
O que será feito das relações econômicas
internacionais, que vão além de comércio? De Luiz Inácio Lula da Silva ao menos
se sabe o que foram seus governos: protecionismo quase estável,
multilateralismo vago, "Sul Global", acordos limitados de abertura
comercial. De Flávio
Bolsonaro e do bolsonarismo
sabe-se da aliança carnal com os Estados Unidos, defesa da boca para
fora de livre-comércio e um histórico de gente perturbada nas relações
exteriores.
Flávio defende abertura comercial unilateral,
ainda que paulatina? Baixar impostos de importação sem haver necessariamente
contrapartida é liberal. O que vai fazer das violências trump-americanas? O
pacote de exigências inclui a colonização da mineração de
terras raras (exportação exclusiva para os EUA), por exemplo. Vai
bulir com a China, como Jair? Vai acertar com outro amigo, Javier Milei,
comércio livre de fato com a Argentina, no Mercosul? Sim, dá vontade de rir,
pois o lobby empresarial dos dois lados da fronteira é imbatível, para começar.
O que será da regulação de empresas de
tecnologia e das ora mortas tentativas mundiais de conter paraísos fiscais ou
outros arranjos multilaterais? Vai passar a boiada de "big techs" e
data centers? Como ficam acordos e programas ambientais, que afetam inclusive
financiamentos externos e comércio exterior? União Europeia e até os EUA de
Donald Trump querem barrar importações por causa de devastação ambiental.
O desempenho de Lula 3 quanto a pesquisa e
ciência foi medíocre. Sem pesquisa, ciência e reforma das universidades não
haverá bons planos de renovação tecnológica, transição energética e
desenvolvimento econômico. O relacionamento do bolsonarismo com universidades é
o horror sabido.
Quanto ao "fiscal", haverá algum
imobilismo ou estelionato eleitoral. Pelo que se sabe, Lula 4 seria de mudança
mínima, empurrando o problema com a barriga na ladeira rumo à mediocridade
econômica. Bolsonaro 2 promete grandes mudanças sem mudar nada (sem contenção
de gasto social) ou sem fazer lé com cré (baixa imposto, pouco muda a despesa).
Imobilismo vai dar besteira. Estelionato
eleitoral ou "mudança de rumo" costuma dar problema: Fernando Collor
(confisco e calote em 1990), FHC 2 (desvalorização do real em 1999), Dilma 2
("ajuste" e liberação de preços em 2015).
De resto, a discussão ora centrada no que
pode ser o "ajuste" anda muito mal, mesmo na especulação do que se
pode ou planeja fazer. É assunto para outra coluna.
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