quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Sete dúvidas sobre a conta fiscal de Flávio Bolsonaro, por Alex Ribeiro

Valor Econômico

Reação positiva do mercado esbarra em questões sobre se as medidas seriam adequadas e fortes o suficiente para equacionar o problema

O mercado reagiu positivamente ao primeiro turno das eleições, que aumenta a chance de um ajuste fiscal num eventual governo Flávio Bolsonaro, mas ainda há muitas dúvidas sobre se as medidas seriam adequadas e fortes o suficiente para equacionar o problema.

Abaixo, sete questões que sugerem por que a matemática do ajuste conhecido até agora pode ser insuficiente para estabilizar a dívida bruta, que está em elevados 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) e que, neste ano, subiu 4,2 pontos percentuais (pp) do PIB apenas de janeiro a agosto.

1) O ajuste fiscal será grande o suficiente para estabilizar a dívida bruta?

A campanha de Flávio Bolsonaro ainda não disse, oficialmente, qual será a sua meta de superávit primário e vem falando em “tesouraço” nos gastos públicos, sem citar números. Em conversas informais, alguns assessores do candidato vêm mencionando um ajuste entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões no primeiro ano de governo.

O esforço ajuda, mas não resolve. Em junho, o governo tinha um déficit estrutural de 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo cálculos da Instituição Fiscal Independente (IFI). O pacote de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões equivale a um ajuste entre 1,1% do PIB e 1,5% do PIB, o que é insuficiente para gerar o superávit primário necessário para estabilizar a dívida bruta.

2) O candidato está fazendo uma aposta exagerada na queda dos juros de mercado para facilitar o ajuste fiscal?

A intenção declarada da equipe de Flávio Bolsonaro é fazer justamente o oposto do que fez o governo Lula, que expandiu os gastos em R$ 200 bilhões no seu primeiro ano, para ter um ganho de credibilidade e derrubar os juros de mercado.

De fato, os juros de mercado caíram mais de 1 ponto percentual desde o primeiro turno das eleições, refletindo o favoritismo do candidato e a maior chance de um ajuste fiscal.

Mas seguem altos, em cerca de 7% ao ano, o que hoje exige um superávit de 3,25% do PIB para estabilizar a dívida bruta, tomando como base um crescimento sustentado do PIB de 2% e já considerando que o deflator do PIB costuma ficar cerca de 1 ponto percentual acima da inflação.

O objetivo é repetir o efeito do regime do teto de gastos do governo Temer, que derrubou o juro real a 3%, o que reduziria o superávit primário necessário a apenas 0,8% do PIB. Naquele período, porém, os Estados Unidos praticavam juros negativos, e as condições internacionais mudaram.

Há dúvidas se o Brasil poderia ter um juro real de 3% ao ano, enquanto os Estados Unidos pagam uma taxa real perto de 2%. Estimativas mais conservadoras indicam que, com um ajuste fiscal bem feito, os juros reais poderiam cair a 4% ou 5%. Isso exigiria um superávit primário de 1,6% a 2,5% do PIB para estabilizar a dívida bruta.

Outro ponto importante é que, depois da queda inicial diante da perspectiva de mudança de regime fiscal, leva tempo para haver ganhos mais expressivos nos juros. No caso do governo Temer, esse período levou de dois a três anos.

3) O ajuste fiscal será por meio de medidas estruturais ou haverá repressão de despesas que não geram economia orçamentária permanente?

O governo Bolsonaro fez um superávit primário estrutural de 0,1% do PIB em 2022, segundo a IFI. Uma parte relevante dele foi conquistada com ajustes na estrutura do gasto produzidos pela reforma da Previdência, mas outra parte se deveu a ganhos de arrecadação gerados pela inflação da pandemia e à repressão de reajustes e despesas, incluindo o aumento da fila para a concessão de benefícios pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Ajustes como esses costumam ser efêmeros.

A equipe de campanha de Flávio Bolsonaro, até agora, não se comprometeu com medidas estruturais que mudem a situação fiscal de forma permanente, como a desvinculação dos benefícios previdenciários do salário mínimo, uma nova reforma da previdência que atinja o setor privado e setores que foram preservados na anterior (como os militares) e a revisão do sistema de abono salarial e de seguro-desemprego. Sua promessa é fazer a reforma administrativa, mas o espaço para ganhos é relativamente limitado nessa despesa.

4) O ajuste fiscal de curto prazo sinalizado vai desacelerar a economia e derrubar a arrecadação?

Não está claro o “timing” em que a equipe de Bolsonaro, em caso de vitória, pretende fazer o ajuste de R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões sinalizado informalmente a participantes do mercado.

A aposta é que a contração da atividade causada pelo corte de despesas seja compensada pelo impulso positivo que será dado com a melhora das condições financeiras e das expectativas.

Não há consenso entre os economistas sobre o assunto: alguns acham que, se o corte de gastos for muito pronunciado no curto prazo, a economia pode sofrer uma desaceleração e derrubar a arrecadação, o que dificultaria o ajuste fiscal.

Ajustes estruturais, em geral, evitam esse problema: geram ganhos em termos de credibilidade, e o efeito na demanda agregada da contração fiscal se dilui ao longo do tempo.

5) O prometido corte de impostos vai atrapalhar o ajuste fiscal?

Flávio Bolsonaro tem indicado a intenção de cortar impostos. Uma redução da carga tributária bem desenhada, que desonere empresas e o custo de capital, pode, em tese, incentivar investimentos e ampliar a capacidade de crescimento da economia.

Se porventura o crescimento de longo prazo da economia subir, por exemplo, de 2% para 3%, o resultado primário necessário para estabilizar a dívida pública cai para valores entre zero e 0,8% do PIB, considerando que os juros reais recuem para 4% ou 5% ao ano.

De novo, esse é um ponto sobre o qual os economistas costumam divergir. Os Estados Unidos são sempre lembrados como um exemplo em que cortes de impostos promovidos pelo Partido Republicano tiveram o efeito de aumentar o déficit e a dívida. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad é um dos que argumentam que o corte de impostos do governo Bolsonaro fragilizou as contas públicas.

6) A venda de mais de R$ 1 trilhão em patrimônio da União vai resolver o problema fiscal?

A promessa já foi feita no governo Bolsonaro por Paulo Guedes, mas os economistas questionam a capacidade de vender esses bens de forma acelerada. O governo do Distrito Federal fracassou, recentemente, na tentativa de reunir bens semelhantes num fundo para resgatar o Banco de Brasília (BRB).

Se a estratégia for bem-sucedida, haveria um ajuste patrimonial relevante, capaz de reduzir a dívida bruta para 75% do PIB. Essa queda ajuda, mas não resolve a raiz do problema. Entre 2020 e 2021, a inflação da pandemia e os juros muito baixos foram decisivos para uma redução de 10,6 pontos percentuais na dívida bruta. Mas o alívio não alterou a trajetória de crescimento nos anos seguintes.

7) O ajuste fiscal vai incluir os Estados e municípios e as emendas parlamentares?

Uma parte relevante do ajuste fiscal depende dos Estados e municípios, que registram um superávit primário de apenas 0,06% do PIB, apesar de suas receitas terem sido fortalecidas pela alta internacional do preço do petróleo. Em períodos de maior disciplina, os entes subnacionais geraram resultados primários entre 0,5% e 1% do PIB, ou até maiores.

O governo federal tem algum espaço para restringir a tomada de crédito por meio do Conselho Monetário Nacional (CMN), mas tem tido pouca força política para barrar projetos no Congresso que dão alívio na dívida de Estados e municípios com a União. O projeto de orçamento de 2027 reservou R$ 44,8 bilhões para emendas individuais e de bancadas estaduais.

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