quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O risco do cheque em branco, por William Waack

O Estado de S. Paulo.

Os limites da euforia com os resultados até aqui das eleições estão na política

Os agentes econômicos consideram a eleição terminada e decidida contra o atual governo. De fato, os profissionais em pesquisas consideram bastante improvável uma virada de Lula no segundo turno, embora não seja impossível. Esse é o fator mais imediato da “euforia” traduzida em alguns números nos mercados.

O outro fator imediato é um dado inédito na recente história política brasileira, surgido do primeiro turno: a possibilidade (caso Flávio vença) de um presidente com maiorias confortáveis nas duas casas do Legislativo. O efeito manada entre as agremiações fisiológicas está em pleno curso no Congresso, atraídas pela perspectiva de poder. É a projeção dessa maioria no Senado e na Câmara que já levou Flávio a falar em alterações na Constituição.

O limite da euforia vai estar provavelmente na política, dominada por dois fatores “estruturais” cuja solução é impossível sem algum tipo de entendimento de forças que vá além – bem além – de vitória nas urnas. O primeiro é a notável dissolução na relação entre os Poderes, com distorções (particularmente em relação ao papel do Judiciário, mas também no Legislativo), que estão se acentuando.

O segundo é a incapacidade, até aqui, de uma força política majoritária organizar ao seu redor uma “agenda” de reformas necessárias. Pode-se chamar isso também de “concertación” – a capacidade de fazer convergir em torno de algo como “bem comum” também para adversários políticos. Estamos bem longe disso.

No caso das eleições em curso é bastante evidente o cansaço com o que existe, mas não está claro que tipo de mandato se está conferindo aos prováveis vencedores. “Mudança”, “antipetismo” e “antissistema” são fatores eleitorais. Não constituem plataformas seguras e duradouras – e nem coerentes – para transformações em torno de eixos de atuação política com sentido estratégico.

Ondas como a que se registra agora são notoriamente difíceis de ser dirigidas e controladas. Jair Bolsonaro surfou uma dessas em 2018, com os conhecidos resultados. Elas se compõem de muitos elementos, até opostos entre si, muitas vezes coerentes apenas naquilo que não querem ver mais no lugar e difusas quanto ao que pretendem instalar. E sujeitas a circunstâncias voláteis. No caso do Brasil, as mais imediatas são a crise fiscal e a desaceleração da economia, sufocada por dívida e juros. E choques externos, particularmente em combustíveis e fertilizantes, que atingem diretamente o principal segmento dinâmico da economia brasileira, que é a agroindústria.

O maior risco para os que se enxergam vencedores das eleições é achar que estão levando um cheque em branco.

 

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