Folha de S. Paulo
Campanha da reeleição chega à reta final
míope aos erros e sem conseguir atingir o ponto de virada
Populismo pode surtir efeito, mas não apaga a
fadiga com a longevidade de um presidente no poder
Pleito batendo à porta, a campanha da
reeleição ainda está no modo
"onde foi que erramos?", sem conseguir chegar ao ponto de
virada. Houve um equívoco de origem que Luiz Inácio da Silva e o PT não cometeram sozinhos.
A quase totalidade do mundo político e adjacências compartilhava a visão de que Flávio Bolsonaro (PL) seria presa fácil, escolhido pelo pai para manter o nome da família na roda. Era essa a impressão que davam os telhados de vidro e a falta de lastro do moço.
Pois eis que a má avaliação do governo se
juntou à identificação bolsonarista, encontrou abrigo na soberba petista e
produziu o cenário de empate que flerta com aquela vitória considerada
improvável.
Mesmo quando o transcorrer da campanha
sinalizava desmentido à interpretação inicial, continuou dominante a
indiferença aos fatos. O despertar veio tardio e improvisado, na forma de
medidas tão populistas quanto irresponsáveis para tentar reduzir o presumido
prejuízo.
Reação pautada pela suposição de que o
eleitorado —ou a parcela mais necessitada— está sempre à venda. Não se levou em
conta a fadiga do país com Lula
e com um partido que chegou aos quase 18 anos no poder sem um plano para tirar
o Brasil do atraso.
Seria de se esperar que gente com expertise
de cinco governos e inúmeras campanhas eleitorais nos 46 anos de vida do PT
percebesse que a luta era dura, que a população queria outro tipo de diálogo,
que era preciso falar do futuro como gente grande.
No entanto, prevaleceu o projeto de culto à
personalidade de Lula, a submissão ao líder, a suposição de que ele seria uma
fonte inesgotável dos votos necessários à sobrevivência da esquerda. Não se
ouviu o bom conselho da autocrítica que facilita o discernimento entre desejo e
realidade.
O corre-corre
de última hora até pode atingir o objetivo de obter os votos que
tirarão a diferença na urna, mas não apagará o fato de que Lula e o PT não
levarão o país a um bom lugar nos próximos quatro anos se não se dispuserem a
mudar.

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