sexta-feira, 6 de abril de 2012

Bancos privados aceitam negociar redução de juros

Após a ofensiva deflagrada por Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal para cortar juros, os bancos privados já se preparam para fazer o mesmo – mas querem mudanças na legislação que abram caminho para financiamentos mais baratos. Na semana que vem, dirigentes de instituições financeiras vão ao Ministério da Fazenda, em Brasília, para encaminhar sugestões. Entre as alternativas, há mudanças no Cadastro Positivo (de bons pagadores), além de autorização para ampliar o leque de garantias das operações (como os investimentos em previdência privada). Outra opção é permitir que os consumidores que estão na Justiça contra juros abusivos não deixem de pagar o principal da dívida

Bancos privados contra-atacam

Instituições levarão ao governo propostas para reduzir juros ao consumidor. Entre elas, facilitar execução de dívidas

Geralda Doca, Gabriela Valente

Sob pressão, depois do anúncio da derrubada dos juros pelo Banco do Brasil (BB) e pela Caixa Econômica Federal, os bancos privados, que já tinham sido convocados pelo governo, irão a Brasília na próxima terça-feira apresentar um conjunto de sugestões para reduzir o custo do crédito no país. Eles querem mudanças no Cadastro Positivo (que permite aos bancos conhecer o histórico do cliente); medidas para facilitar a execução da dívidas de inadimplentes; e permissão para que os tomadores possam oferecer como garantia quotas de previdência privada; além de redução de impostos.

O conjunto de medidas foi elaborado por um grupo de trabalho, formado por diretores da área de crédito e risco dos bancos privados, coordenado pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban). O encontro será no Ministério da Fazenda e terá a presença do presidente da entidade, Murilo Portugal.

Segundo interlocutores, os bancos privados avaliam que o spread (diferença entre o custo da captação e o valor cobrado do tomador final) somente cairá com a adoção de medidas de longo prazo, que melhorem as condições legais e tributárias e não apenas corte de juros "na canetada". Eles acreditam ainda que, mesmo com os cortes significativos nas taxas cobradas pelos bancos públicos, não vão perder clientes, porque há uma resistência natural em trocar de banco.

Os bancos alegam que o Cadastro Positivo, aprovado em junho do ano passado, não está servindo para reduzir os juros. Embora o instrumento permita à instituição saber se o cliente é bom ou mau pagador para medir o risco da operação (quanto mais alto, maior a taxa), a forma como o texto foi aprovado no Congresso e sancionado pela presidente Dilma Rousseff em junho do ano passado dificulta sua aplicação, argumentam as instituições. A lei exige autorização do cliente a cada consulta ao cadastro e a responsabiliza o banco pelo uso da informação, que é prestada por terceiros.

"Consumidor é o elo mais fraco"

Eles defendem que o governo mexa nesses dois pontos da lei, que foram acrescentados à proposta original do governo no Congresso, atendendo aos órgãos de defesa do consumidor. Na época, as entidades comemoraram os dois itens. A advogada Leila Cruz alerta que, sem a autorização do cliente, os bancos vão usar os dados sempre contra o correntista.

- O consumidor é sempre o elo mais fraco na relação de consumo, À vezes, o consumidor pode ter ficado com o nome sujo por algum eventual problema. Sem poder dar essa explicação, ele será avaliado de forma unilateral, o que é prejudicial. E o banco não quer assumir essa avaliação, já que esse tipo de coisa sempre se transforma em medida judicial - disse Leila, que comanda escritório com seu nome.

Fontes do próprio setor, que preferem não se identificar, admitem que não há garantias de que os efeitos das medidas propostas sejam repassados para os consumidores. Segundo um executivo, o cadastro tem que funcionar para o lado do cliente. Ou seja, ele precisa ser informado qual é seu risco e qual é a taxa em função disso e o que pode fazer para melhorar. Hoje, o banco guarda a informação só para ele e cobra o que quer do cliente, disse.

Outra proposta do setor privado é alterar a legislação para permitir que o princípio do "incontroverso" possa ser aplicado em todas as modalidades de crédito. Esse mecanismo vale hoje apenas para financiamentos imobiliários e permitirá ao devedor questionar judicialmente os juros, caso os considere abusivos, mas continue pagando a dívida principal.

Há um entendimento de que os financiamentos para veículos podem ser fortemente beneficiados por essa medida. Revendedores estão se queixando que a demanda continua forte, mas que estão enfrentando dificuldades na liberação do crédito por parte dos grandes bancos. Um dos receios do mercado são as liminares a favor de credores que compram o bem e pouco depois entram na Justiça, alegando juros abusivos e lei da usura. Com isso, param de pagar toda a dívida e, quando o processo chega numa instância superior, o carro já se desvalorizou.

- Essa medida pode reduzir os custos de execução. Para cobrar uma dívida vencida, o banco tem custos de advogado, certidões, formalidades, preparar documentos, etc. Quanto mais baixos forem, mais espaço tem para baixar a taxa cobrada - explicou uma fonte.

Outra sugestão seria permitir que os tomadores possam oferecer como garantias de empréstimos quotas de previdência privada, como VGBL - sigla para Vida Gerador de Benefício Livre. Em 2011, a carteira de planos de previdência abertos atingiu R$ 159,8 bilhões, segundo dados da Federação Nacional de Previdência Privada e Vida (Fenaprevi) - um universo de 10,6 milhões de contas, de acordo com a Superintendência de Seguros Privados (Susep).

Segundo fontes, a maioria das propostas do setor privado é focada na regulação do crédito. Apesar desta questão ter a simpatia da Fazenda, o próprio setor privado está "desanimado", porque não acredita que o governo esteja disposto a ceder com corte de tributos, por exemplo (IOF, PIS e Cofins).

Nos bastidores, a pressão dos bancos privados foi um dos entraves que tiveram de ser derrubados pelo governo para tocar em frente o pacote de redução dos spreads. Representantes dos maiores bancos mantiveram conversas com a equipe econômica e reclamaram, principalmente, do momento, já que a inadimplência está alta.

FONTE: O GLOBO

Transposição do São Francisco vai custar 78% a mais

Apesar dos atrasos na maior obra pública em execução no país, empreiteiras se valeram de aditivo previsto na Lei de Licitações e conseguiram elevar o custo da transposição, que passou de R$ 4,6 bilhões para R$ 8,18 bilhões nos últimos cinco anos

Jeitinho para ganhar mais e fazer menos

Um dispositivo previsto na Lei de Licitações, chamado aditivo supressivo, permitiu o reajuste no valor das obras da Transposição do Rio São Francisco com a diminuição de obrigações contratuais das empreiteiras

João Valadares

A explosão no custo da transposição do Rio São Francisco, maior obra pública em execução no Brasil com expectativa de beneficiar 12 milhões de pessoas, que nos últimos cinco anos passou de R$ 4,6 bilhões para R$ 8,18 bilhões (77,8% a mais), expõe um acordo para atender demanda das empreiteiras. Realizados a toque de caixa e com baixo detalhamento técnico, em razão da promessa oficial de inaugurar o Eixo Leste no último ano do governo Lula para fortalecer a candidatura Dilma Rousseff, os projetos executivos foram mal elaborados.

No início das obras, as empresas pressionaram o governo para assinaturas de contratos aditivos milionários acima de 25% do valor original, teto permitido pela legislação. Em alguns lotes, de acordo com dados repassados pelo próprio Ministério da Integração Nacional no ano passado, os novos valores precisavam ser aumentados em até 60%. O governo federal resolveu respeitar o limite legal. No entanto, para evitar um desgaste ainda maior com os recorrentes atrasos, usou o mecanismo do chamado aditivo supressivo. O ministério retirou das construtoras algumas obrigações contratuais. Com o drible sutil, a conta fechou. É bem simples. Mais dinheiro, com o aumento de 25% em relação ao contrato inicial, e menos trabalho.

Questionado quanto foi suprimido em cada um dos 14 lotes da obra, o Ministério da Integração Nacional, por meio da assessoria de imprensa, preferiu não informar. Comunicou que os quantitativos retirados e os valores só seriam disponibilizados no momento em que ocorressem as licitações dos resíduos em questão. O discurso oficial é de que a obra precisava ser destravada. Essa foi a ordem da presidente Dilma Rousseff para o ministro Fernando Bezerra Coelho.

Em 2011, a transposição ficou praticamente parada. Avançou apenas 5%. Foi justamente o ano dos acordos com as empreiteiras para a retomada das obras. Nove lotes chegaram a ficar parados. Hoje, os lotes 3, 4 e 7 estão abandonados e serão licitados novamente. O lote 4, por exemplo, que prevê a construção de cinco segmentos de canal, túnel, barragem, pontes e passarelas, em Pernambuco e no Ceará, teve apenas 13% de execução física, o pior avanço de toda a transposição. O que chama a atenção é que, mesmo com a ineficiência e o ritmo lento, foram celebrados quatro aditivos no valor de R$ 20,2 milhões. O lote 3, que em dezembro do ano passado tinha 42% dos serviços previstos executados, ganhou cinco aditivos no valor de R$ 5,4 milhões.

A assessoria de imprensa do Ministério da Integração Nacional salientou que, nesses casos específicos, os lotes vão ser licitados novamente, uma vez que os novos serviços necessários para a conclusão das obras, não contemplados pelo atual contrato, ultrapassariam os 25% estabelecidos pela legislação.

Fiscalização


O governo resolveu juntar os resíduos dos serviços que deveriam ter sido realizados pelas construtoras que atuam na obra para fazer pacotes de licitação. Até o fim de abril, serão licitados quatro conjuntos de intervenções no valor de R$ 2 bilhões. Em junho, mais outros dois que totalizam R$ 650 milhões. A promessa é que o lote 5, cuja obra nunca foi iniciada, também seja licitado até o fim do primeiro semestre.

Uma conta simples chama a atenção. O valor total das obras dos lotes 3 e 4 seria de R$ 363 milhões, já com os aditivos. Acontece que o pacote da chamada meta 1N, que tem serviços que deixaram de ser realizados nos mesmos lotes, custa R$ 677 milhões. É o equivalente a quase o dobro da soma dos dois contratos. As mesmas empresas que abandonaram as obras podem, segundo o Ministério da Integração Nacional, participar normalmente da nova concorrência. A transposição é um projeto com dois canais, o Eixo Norte e o Leste, que somam 713km de extensão (leia Para saber mais).

Diante de todos os atropelos e da suspeita de má gestão dos recursos públicos, o Senado já autorizou a criação de uma comissão especial temporária de parlamentares para acompanhar de perto o andamento da obra de transposição do Rio São Francisco. De acordo com o senador Cícero Lucena (PSDB-PB), autor do pedido de criação da comissão, o grupo será formado por 10 integrantes. Ele explicou que, além de audiências públicas para debater o projeto, haverá visitas aos canteiros de obra. "Há uma preocupação grande porque a transposição está bastante atrasada. Vamos analisar a fundo o projeto e verificar com detalhes o andamento. A comissão é formada por integrantes de vários partidos." O Eixo Leste da obra deveria ter sido entregue em 2010. Em relação ao Eixo Norte, a garantia era de que ficaria pronto neste ano. Agora, o prazo oficial é de que tudo esteja concluído em 2015.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Contra a polarização de tucanos e petistas

Para evitar a briga isolada entre PT e PSDB na disputa pela prefeitura de São Paulo, seis legendas fecham acordo na tentativa de montar uma chapa mais forte

Paulo de Tarso Lyra

Os partidos coadjuvantes na eleição de São Paulo acertaram uma estratégia para evitar que a disputa pela prefeitura paulistana se transforme em uma polarizaçao entre tucanos e petistas. PMDB, PSB, PCdoB, PDT, PV e PRB — desses, apenas verdes e socialistas não têm candidatura própria em outubro — acertaram um acordo de procedimentos para que, em junho, quem estiver em melhor situação nas pesquisas eleitorais, tenha o direito a indicar a cabeça de chapa. "Por que vamos deixar passar a imagem de que só o PT e o PSDB estão disputando essa eleição?", indagou o pré-candidato do PRB à prefeitura, Celso Russomano.

Mais do que evitar o protagonismo das duas principais legendas políticas brasileiras, o objetivo desses partidos é minar a tentativa de cooptação por parte de PSDB e PT, de olho no tempo de televisão que cada um deles pode oferecer. Com alguns candidatos bem colocados, como Russomano e Netinho de Paula (PCdoB), essas legendas são vistas como aliadas estratégicas para a disputa de outubro. "Nós estamos com 20% de intenção de voto, o Haddad (Fernando Haddad) tem apenas 3%. Por que nós temos de abrir mão para apoiá-los?", indagou Russomano.

Isoladamente, o namoro entre PMDB e PRB ocorre há mais tempo. Russomano e o pré-candidato peemedebista, Gabriel Chalita, já conversaram, inclusive, sobre a possibilidade de uma dobradinha. O PRB traria à candidatura de Haddad um viés social e popular — baseado na defesa dos direitos do consumidor protagonizado pelo candidato da legenda — e Chalita angariaria votos nas classes média e alta.

As negociações foram paralisadas quando a presidente Dilma Rousseff chamou o senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para o Ministério da Pesca. Foi uma tentativa do governo federal de atrair o partido para a candidatura de Fernando Haddad, além de angariar alguns votos na comunidade evangélica, já que Crivella é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus.

Interior

Por enquanto, o PSB não tem candidatura própria. O presidente nacional da legenda e governador de Pernambuco, Eduardo Campos — que trabalha com afinco para uma aliança com o PT —, deu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva o mesmo prazo de junho. Dentro do partido, já há quem defenda que, nessa data, se Haddad continuar patinando nos 3% de intenção de voto, o partido poderia lançar um nome à prefeitura. Se isso ocorrer, a favorita é a deputada Luíza Erundina. "A Erundina adoraria, seria um fechamento político de uma carreira de destaque", disse ao Correio um integrante da direção do PSB.

Responsável pelas articulações políticas do partido, o vice-presidente Roberto Amaral prefere não colocar mais lenha na fogueira. Admite que existem as conversas com os demais partidos, mas garante que, até o momento, elas limitam-se a avaliações de parcerias nas cidades do interior de São Paulo, não na capital. "É o máximo que posso dizer no momento", desconversou Amaral.

O PT acompanha a distância a movimentação dessas legendas menores. E não acredita que elas devam prosperar porque, na avaliação dos petistas, todos esses candidatos têm um teto curto de crescimento por conta do baixo tempo de televisão. "Na eleição anterior, para o Senado, o Netinho (de Paula, do PCdoB) foi até o fim na campanha e acreditava que seria eleito. Acabou sendo ultrapassado por nós, com a Marta Suplicy, e pelo PSDB, com o Aloysio Nunes Ferreira", lembrou o secretário de Organização do PT, Paulo Frateschi.

Para o deputado Luiz Fernando Machado (PSDB-SP), a maior parte dos resultados positivos desses pré-candidatos deve-se ao recall de eleições anteriores ou à exposição natural que eles têm na mídia. Netinho, por exemplo, antes de ser vereador pelo PCdoB, foi vocalista de uma banda de pagode com relativo sucesso na década de 1990 e depois teve um programa de televisão no qual realizava o sonho de meninas carentes.

Já Russomano é jornalista com longa carreira na tevê. "Quando a campanha começa de maneira efetiva na televisão, a tendência é que o debate de propostas predomine e esses pré-candidatos, com menos espaço para expor duas ideias, acabem perdendo o fôlego", completou Machado.

Os postulantes

Apesar de a entrada de José Serra na disputa pelo Palácio do Anhangabaú produzir um cenário de polarização entre o PT de Fernando Haddad e o PSDB, o tabuleiro paulista ainda está embaralhado. Nomes fortes ameaçam confirmar a candidatura própria em vez de desembarcar nas campanhas de Haddad e Serra. Confira os principais pré-candidatos da disputa na capital paulista.

» Escolhido há 10 dias como o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra é o trunfo dos tucanos para tentar frustrar os planos do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de eleger o ex-ministro da Educação Fernando Haddad. Com uma vasta experiência nas urnas, disputou o cargo de prefeito da capital paulista em três oportunidades. Venceu em 2004, abrindo mão do mandato depois de menos de um ano e meio, e acabou derrotado em 1988 e em 1996.

» O ex-ministro da Educação Fernando Haddad foi elevado ao posto de pré-candidato do partido para disputar a prefeitura da capital avalizado por Lula. A seu favor, Haddad tem a popularidade do ex-presidente, que terminou recentemente um tratamento contra um câncer na laringe, o staff do governo federal, mas pode ser alvo dos adversários se os concorrentes utilizarem polêmicas de sua gestão no Ministério da Educação como artilharia.

» O aliado do PT no plano nacional trabalha para reforçar o nome do deputado Gabriel Chalita (PMDB-SP) como pré-candidato. Chalita é conhecido do eleitorado católico por seus livros e programas de televisão. Apesar de ter migrado do PSB para o PMDB, suas raízes em São Paulo são tucanas. Chalita entrou para a política pelas mãos do ex-governador Franco Montoro e foi secretário de Educação do governador Geraldo Alckmin.

» Oriundo do PP do deputado federal Paulo Maluf, o ex-deputado e apresentador de TV Celso Russomano chegou a liderar as pesquisas de intenção de voto — caiu para segundo lugar logo após a confirmação da candidatura de Serra. Russomano tem apelo popular graças a seus programas com o mote de defesa do consumidor. Analistas políticos atribuem a um "recall" o resultado das pesquisas, pois ele concorreu ao governo do estado em 2010 e ficou em terceiro lugar.

» O nome do partido para disputar a prefeitura é o da ex-vereadora Soninha Francine. Por enquanto, o PPS não admite a possibilidade de aderir à campanha do PSDB, com José Serra pré-candidato. Soninha foi a coordenadora da campanha de Serra na internet durante a disputa presidencial de 2010.

» O deputado e presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), apresenta-se como pré-candidato da legenda para concorrer à prefeitura de São Paulo. O PDT, no entanto, faz parte do governo de Geraldo Alckmin, comandando a Secretaria Estadual de Trabalho.

» Derrotado na disputa pelo Senado, o vereador Netinho de Paula surge na corrida paulista pela prefeitura como o pré-candidato do PCdoB. O artista está entre os mais lembrados pelo eleitor, dividindo com Celso Russomano (PRB) o segundo lugar.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Recife: Bloco das oposições unido só no discurso

Embora as articulações prossigam, ofensivas de Mendonça Filho (DEM) e de Raul Henry (PMDB) expõem dificuldades de acordo para uma possível aliança no bloco

Débora Duque

Se no PT, a fissura interna se apresenta como um fato consumado na pré-campanha do Recife, nas oposições o contexto não é diferente. A unidade do grupo permanece, por enquanto, apenas no plano das intenções. A três meses do início da campanha oficial, nenhum dos quatro pré-candidatos mostrou, publicamente, qualquer sinal de recuo. Muito pelo contrário. Embora as articulações ainda estejam em curso, o que todos os pretensos postulantes têm buscado é emplacar suas respectivas candidaturas. E, na falta de um critério objetivo para retirá-las em prol de algum aliado, já se admite a possibilidade de um fracionamento completo do campo oposicionista.

A mais recente demonstração dessa ordem partiu do deputado federal Mendonça Filho (DEM). Apesar das resistências veladas ao seu nome - semeadas, inclusive, no próprio partido –, ele contrariou as especulações de que seu ingresso na disputa estava condicionado ao apoio das demais legendas. Obstinado, disse que não foge à batalha e mostrou-se disposto a ir à “briga”, mesmo sozinho. A ofensiva somou-se a dos demais pré-candidatos. No intervalo de um mês, o deputado federal Raul Henry (PMDB) retomou o fôlego para participar do pleito e Raul Jungmann (PPS) oficializou, em ato, sua pré-candidatura.

Primeiro a indicar que não abriria mão da disputa, o deputado estadual Daniel Coelho (PSDB) vê a tese de que estaria “isolado” cair por terra junto com as chances da formação do bloquinho PMDB-DEM-PPS. “Era um discurso falso dizer que o PSDB estava afastado dos demais. O que há são estratégias partidárias. É legítimo. Ninguém tem o direito de pedir para o outro partido desistir”, pontuou.

Do outro lado, Jungmann ainda não descarta as chances de haver algum tipo de composição até as convenções, em junho. Nos bastidores, comenta-se a possibilidade de o pós-comunista declarar apoio a candidatura de Henry. No entanto, ele avisa que a postulação do PPS é “irreversível” e diz, inclusive, enxergar “vantagens” na fragmentação da oposição. “Teremos muitas vozes criticando o governo e ocupando espaços. A desvantagem é que essas vozes, talvez, não ganhem tanta amplitude. Mas é o que se apresenta no momento e temos que conviver com isso”, afirma. Ao contrário dos pleitos anteriores, segundo ele, todos os candidatos da oposição encontram-se em condições políticas e financeiras “semelhantes”. “Não há candidato natural. Não há coordenação. Não tem como rifar ninguém, a não ser pela livre e espontânea vontade de cada um”, assinalou.

Apesar da falta de consenso, Henry é um dos que ainda apostam nas alianças. Para ele, o ideal é que a oposição lance, no máximo, três candidatos. Admite, porém, a dificuldade para construir uma solução comum aos demais. “Nós podemos chegar ao cenário de quatro candidaturas, mas também podemos ter menos. Só que cada partido tenta consolidar legitimamente seu projeto e isso tem que ser respeitado”, disse. A solução, segundo ele, é intensificar o diálogo e, claro, zelar pela boa convivência entre os quatro possíveis candidatos. Até porque, dependendo do desfecho eleitoral, todos precisarão marchar unidos num eventual segundo turno.

PMDB NA TV

A pré-candidatura de Raul Henry ganha reforço, hoje, com as inserções do partido na TV. No estilo discreto e sem ataques diretos à atual gestão, o prefeiturável estrela três programas que apresentam o mote “o PMDB tem soluções para o Recife”. Todas as cenas foram gravadas em estúdio e têm como pano de fundo imagens da capital. Em cada vídeo, um tema específico é abordado.

No primeiro deles, o foco é a saúde pública. No segundo e terceiro são tratadas as políticas para educação e juventude, respectivamente. Os vídeos foram produzidos pela empresa Luni, com direção de Lula Queiroga, amigo de Henry. Também entram nas inserções a candidata à Prefeitura de Olinda Isabel Urquiza e postulantes à Câmara dos Vereadores do Recife – André Ferreira, Jayme Asfora e Liberato Costa Júnior.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Rede política de Cachoeira chega a pelo menos 5 partidos

Além de Demóstenes (ex-DEM), contraventor buscou aproximação com integrantes de PT, PSDB, PP, PTB e PPS

Andrea Jubé Vianna

BRASÍLIA - A investigação da Polícia Federal que desmantelou a chamada máfia dos caça-níqueis montada em Goiás e nos arredores de Brasília mostra que o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, apontado como chefe do esquema, controlava uma bancada multipartidária no Congresso, além de manter ligação indireta com pelo menos dois governadores. Além do senador Demóstenes Torres (GO), ex-DEM, Cachoeira era próximo de parlamentares de mais cinco partidos: PT, PSDB, PP, PTB e PPS.

Os grampos da PF na Operação Monte Carlo revelam que ele tinha relações de intimidade com parlamentares, com quem tratava de negócios e falava sobre quantias em dinheiro, devidas e a receber. Os deputados goianos Rubens Otoni (PT), Carlos Alberto Leréia (PSDB), Sandes Jr. (PP) e Stepan Nercessian (PPS-RJ), flagrados em conversas com Cachoeira, já respondem a processos na Corregedoria da Câmara. O líder do PTB, Jovair Arantes (GO), admitiu que é amigo de Cachoeira e pediu o apoio dele à pré-campanha à prefeitura de Goiânia.

O petista Rubens Otoni teve de explicar uma doação não declarada de R$ 100 mil de Cachoeira à campanha dele à prefeitura de Anápolis. Otoni disse que Cachoeira queria a ajuda dele para desenrolar a papelada de um laboratório na cidade.

O tucano Leréia ainda não explicou um depósito de Cachoeira destinado a ele, rastreado pela PF, no valor de R$ 100 mil. Leréia usava um telefone Nextel cedido por Cachoeira e habilitado nos Estados Unidos para dificultar grampos. O tucano disse que só vai se pronunciar depois que sua defesa tiver acesso ao inquérito. Ao contrário da direção do DEM, que cobrou a expulsão imediata de Demóstenes, o presidente do PSDB, deputado Sérgio Guerra (PE), pediu um tempo para que o tucano se explique. "Desejamos esclarecimentos", disse.

Leréia é aliado do governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), que teve de dar explicações sobre a proximidade com o contraventor. Ele admitiu que esteve com Cachoeira em "reuniões festivas", inclusive na casa de Demóstenes. A chefe de gabinete de Marconi, Eliane Pinheiro, pediu exoneração do cargo depois de aparecer em conversas em que passava informações sigilosas sobre operações policiais que tinham Cachoeira como alvo.

Outro governador indiretamente envolvido é o petista Agnelo Queiroz, do Distrito Federal. Grampos indicam que um integrante do governo dele participou de uma operação para direcionar um contrato milionário para a máfia dos jogos. Nos grampos da PF, Sandes Jr. fala no edital de uma concorrência pública e dá satisfações sobre o recebimento de cheques, cujos valores seriam divididos com Cachoeira. O deputado declarou que era uma "brincadeira" de Cachoeira a suposta divisão dos valores. Stepan Nercessian licenciou-se do PPS para esclarecer as ligações com o bicheiro.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Bicheiro queria Demóstenes na base de Dilma

Além de pretender estender seus negócios ilegais a outros estados, o bicheiro Carlinhos Cachoeira queria ter influência no Planalto. Gravações feitas pela PF revelam que ele pressionava o senador Demóstenes Torres a ir para o PMDB e, assim, integrar a base de Dilma

Aposta alta de Cachoeira

Bicheiro pretendia ter influência até com a presidente Dilma, por meio de Demóstenes

Paulo Celso Pereira

As ambições do contraventor Carlinhos Cachoeira ultrapassavam as divisas de Goiás. Gravações feitas pela Polícia Federal revelaram que o bicheiro tentou ano passado estender seus negócios a Mato Grosso, Distrito Federal e Tocantins. Mais do que isso: ele sonhava colocar seu principal operador político, o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), próximo ao gabinete da presidente Dilma Rousseff.

Com as novas revelações, os negócios do bicheiro, que já haviam alvejado os dois principais partidos oposicionistas (DEM e PSDB), passaram a constranger os dois maiores partidos da base aliada. Conversas telefônicas divulgadas pela revista "Época" mostram Cachoeira incentivando Demóstenes a se filiar ao PMDB e se aproximar da presidente.

- Fica bom demais se você for pro PMDB... Ela quer falar com você? A Dilma? A Dilma quer falar com você, não? - pergunta Cachoeira.

O senador responde:

- Por debaixo, mas, se eu decidir, ela fala. Ela quer sentar comigo se eu for mesmo. Não é pra enrolar.

O bicheiro então se anima:

- Ah, então vai, uai, fala que vai (para o PMDB), ela te chama lá.

O diálogo ocorreu em abril de 2011, quando Demóstenes negociava sua entrada para o PMDB, o que não prosperou. À revista, o Planalto informou que Dilma não conversou com Demóstenes desde que assumiu a Presidência.

As gravações de conversas do bicheiro também deixaram em maus lençóis o ex-governador do Tocantins Marcelo Miranda e colocam o governo do petista Agnelo Queiroz no Distrito Federal sob suspeita. Na conversa em que trata da ida de Demóstenes para a base aliada, Cachoeira pede que o senador use sua influência para que o Supremo Tribunal Federal aceite um recurso de Miranda e o emposse no Senado.

- Ele (Miranda) é um cara nosso - diz o contraventor.

Demóstenes promete então ajudar. Miranda havia sido eleito para a vaga, mas foi impedido de tomar posse por ter sido condenado por abuso de poder político nas eleições de 2006.

Cachoeira e o então o diretor da Delta Construções, Cláudio Abreu, discutiram fazer negócios com o maior adversário de Miranda no Tocantins, o atual governador, José Wilson Siqueira Campos. Abreu contou ao contraventor que Eduardo Siqueira Campos, filho do governador e secretário de Relações Institucionais do estado, teria direcionado um contrato para o grupo.

- Eduardo também é bom, Carlinhos. Não pode falar mal dele, não, cara - diz Abreu: - Ele mandou dar o negócio pra nós lá: a inspeção veicular do Tocantins.

Siqueira Campos negou o favorecimento e lembrou que não há definição de quem fará os serviços. Miranda disse mal conhecer Cachoeira.

A maior preocupação da base é com Agnelo. Desde o início da operação da PF, parlamentares da oposição insinuam no Congresso que o governo do DF tinha relações com o bicheiro. Ontem, vieram à tona gravações mostrando que o bicheiro e um comparsa trabalhavam para garantir um contrato com o DFTrans, órgão que gerencia o transporte público no DF.

Nos diálogos, de junho de 2011, eles dizem ter acordado com um um funcionário a destinação do contrato de bilhetagem eletrônica dos ônibus do DF, estimado em R$ 60 milhões, para a Delta, que integraria o esquema. Segundo a PF, o funcionário seria o diretor financeiro e administrativo do DFTrans, Milton Martins de Lima Júnior, que negou envolvimento. Segundo ele, empresas o procuraram para apresentar tecnologia, mas ninguém falou em nome de Cachoeira. Milton afirmou que nenhuma nova empresa foi contratada para a bilhetagem e que os valores citados são distantes dos atuais, que não chegam a R$ 1,5 milhão .

Colaborou Fernanda Krakovics

FONTE: O GLOBO

Toquinho & Vinicius de Moraes - Tristeza

O fim da política sem sonho :: José Aníbal

O PSDB é um partido que tem uma história de bons serviços prestados ao Brasil. Por isso mesmo, depois de perder três eleições para a Presidência da República, o PSDB precisava se renovar. Apostamos na democracia interna e realizamos prévias para a prefeitura de São Paulo. Estabelecemos a representatividade partidária como critério para definir o candidato. O resultado foi um sucesso.

O próprio equilíbrio da votação mostra o indiscutível rejuvenescimento do PSDB. A finalidade da política é o enfrentamento, o debate, a concorrência de programas. Não é função do voto fabricar conciliações ou unanimidades. E nem sempre é fácil escolher. Mas, ao popularizar o fórum de decisão partidária, o PSDB se colocou na contramão dessa despolitização que algumas legendas estão sofrendo. E que as enfraquece.

Nunca tivemos tantos partidos, e nunca tantos foram governistas. As alianças se estabelecem cada vez mais como consórcios políticos. E novos partidos já nascem sem princípios sólidos. O resultado é uma base de sustentação obesa, o que contribui negativamente para um Estado como o brasileiro, ineficiente e marcado por dificuldades federativas. Algumas siglas, aos poucos, estão deixando de fazer política.

Virou senso comum atribuir ao malfadado "presidencialismo de coalizão" as dificuldades do governo no Congresso, mesmo com ampla maioria. Isso é uma bobagem. O conflito político nunca impediu a disputa saudável de agendas e a construção de maiorias voto a voto. O problema real é que, despolitizados, alguns partidos se rendem a um pragmatismo paralisante.

Com as prévias, voltamos a fazer política. As prévias abrem o caminho para uma nova agenda partidária. O PSDB só conseguirá uma adesão social forte o bastante para 2014 se construir uma candidatura com respaldo democrático, mergulhada na realidade brasileira e comprometida com as prioridades das pessoas. E mais: a qualidade do debate só vai melhorar se atrairmos o cidadão comum. Sem transparência e projetos claros, isso não vai acontecer.

A agenda do Brasil de hoje é praticamente consensual: melhorar os serviços públicos, aumentar a eficiência dos gastos e investir mais; instaurar a meritocracia no funcionalismo, combater a corrupção e dinamizar a economia; desburocratizar a Justiça, enfrentar a violência e cuidar do meio ambiente. Mas há dez anos não se fala seriamente em reformas no Congresso. Mesmo com as facilidades numéricas para levar esta agenda adiante, pouco acontece.

A implementação de uma agenda efetivamente nacional passa pela capacidade de agregar e de construir pontes entre aqueles que querem mudança. Mas passa também pelo debate político transparente, democrático e cidadão. Pela centralidade na ação permanente de combate às desigualdades. As pessoas querem falar, propor soluções, dividir responsabilidades. Sem elas, resta esse pragmatismo paralisante. Essa política sem sonho.

José Aníbal é secretário de Energia do Estado de São Paulo, deputado federal licenciado e foi presidente nacional do PSDB

FONTE: O GLOBO

A praga da corrupção:: Merval Pereira

Enquanto no país prevalecer a postura de tratar a corrupção dos aliados e correligionários como uma questão política, e demonizar a corrupção dos adversários, não teremos condições de controlar essa verdadeira praga, que não é "coisa nossa", pois está espalhada pelo mundo globalizado, mas que tem encontrado entre nós um acolhimento incomum devido à legislação frouxa e à cultura da impunidade que por aqui impera.

Por isso, quando volta e meia relatórios do Departamento de Estado dos Estados Unidos ou de outro governo qualquer classificam nossa corrupção de endêmica, é preciso entender a palavra como uma metáfora, e não ficar com o nacionalismo à flor da pele.

Não se diz que a corrupção no Brasil é endêmica por se tratar de uma doença típica dos trópicos, por exemplo, mas para explicar que ela se espalhou pelo organismo social do país, e essa parece ser uma verdade irrefutável.

No índice da Transparência Internacional, o Brasil caiu da 45 para 73 posição entre 2002 e 2011, uma piora considerável durante os governos petistas.

Mas o partido que está no poder usava o combate à corrupção como sua marca antes de chegar à Presidência, e tentou manter as aparências nos primeiros tempos de poder central.

O ex-ministro José Dirceu cunhou o slogan, que repetia seguidamente, "este é um governo que não rouba nem deixa roubar", até que seu assessor político Waldomiro Diniz foi denunciado por um vídeo, que o mostrava recebendo propina do bicheiro Carlinhos Cachoeira quando trabalhava nas Loterias do Rio de Janeiro no governo Garotinho.

O vídeo era antigo, mas revelava uma aptidão de seu principal assessor no Congresso nada adequada aos cargos que ocupava.

Com a revelação do mensalão, e de métodos nada ortodoxos de atuação política de petistas à frente de prefeituras pelo país, especialmente paulistas, ficou claro que a diferenciação do PT dos outros partidos que acusava existia apenas no marketing político.

Diferentemente dos outros partidos, no entanto, no PT ser corrupto não invalida a atuação política de um líder importante.

Ao contrário, o partido, mesmo que tenha no primeiro momento que fingir estar se livrando do filiado apanhado em flagrante, assume a proteção de seus políticos acusados até que o tempo ajude a nublar a memória do cidadão mediano.

E todos vão sendo acomodados novamente na burocracia partidária ou mesmo nos diversos escalões dos governos que o PT assume, como se não devessem nada.

O caso do senador Demóstenes Torres é emblemático. Seu ex-partido, o DEM, abriu um processo de expulsão que o obrigou a se desfiliar, o mesmo tratamento dado anteriormente ao ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda.

Quem o PT expulsou de suas fileiras nos últimos anos, quando escândalos de diversos quilates estouraram no seu colo?

Apenas seu tesoureiro à época do mensalão, Delubio Soares, que nunca perdeu sua situação de prestígio dentro do partido e foi finalmente reconduzido oficialmente de volta no ano passado, antes mesmo do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, numa tentativa de inocentá-lo publicamente antes do veredito oficial.

José Dirceu continuou com tanta importância dentro do PT que se tornou um consultor de empresas altamente requisitado justamente por seu prestígio pessoal junto aos presidentes petistas e demais autoridades governamentais.

Ele mesmo admitiu em entrevista que um telefonema seu tinha um peso diferenciado.

O PSDB teve o mesmo comportamento do PT em relação ao hoje deputado federal Eduardo Azeredo, acusado de ter dado origem ao esquema do mensalão na campanha em que se candidatou a governador de Minas com o mesmo Marcos Valério que mais tarde surgiria organizando o mensalão petista.

É verdade que Azeredo perdeu a presidência do partido e o prestígio interno quando o escândalo estourou, e não conseguiu legenda para tentar se candidatar a senador, tendo se contentado a disputar uma vaga de deputado federal.

Em sua defesa, ele alega que sua situação nesse esquema é idêntica à do ex-presidente Lula, que não foi envolvido em nenhuma investigação do mensalão do PT.

Essas situações evidenciam que a questão da corrupção continua sendo um tabu entre nossos políticos, e a tendência de absolver seus pares é quase uma questão de autopreservação.

Agora mesmo não se consegue quem queira presidir a Comissão de Ética do Senado para iniciar um processo contra o senador Demóstenes Torres.

É impensável que o Senado não encare esse problema, e o mais provável é que ele seja julgado e condenado por quebra do decoro, mas todos os constrangimentos da corporação estão expostos aos olhos da opinião pública.

Uma outra característica de casos como os do bicheiro Carlinhos Cachoeira é que eles são multipartidários, isto é, acabam envolvidos parlamentares de vários partidos, independente de ideologia ou tendência política.

Por isso, a CPI do Cachoeira dificilmente será aprovada, pois não interessa a nenhum dos principais partidos: o PT, além de ter alguns deputados envolvidos nas escutas, não quer remexer no caso Waldomiro Diniz às vésperas do julgamento do mensalão.

O PSDB tem o governador Marconi Perillo perigosamente colocado em zonas de suspeição, já tendo uma assessora pedido demissão depois de flagrada em conversas telefônicas com Cachoeira em um Nextel.

Os dois, aliás, deram desculpas esfarrapadas sobre seus casos. A assessora disse que foi confundida com outra pessoa, e o governador que recebera o bicheiro a pedido do senador Demóstenes, e que Cachoeira jurara que já abandonara a contravenção.

Os petistas que acusam a mídia de ter "inventado" Demóstenes, transformando-o em um ícone da oposição mesmo sendo ele quem era, esquecem-se do caso do ex-ministro duas vezes Antonio Palocci, que nos governos Lula e Dilma foi tratado pela mesma mídia como o grande garantidor do equilíbrio político e econômico das gestões petistas.

Os dois, o ex-ministro e o senador, realmente exerceram os papéis que a mídia lhes atribuía. Só que, por baixo dos panos, tinham outras atividades desconhecidas até serem denunciadas.

FONTE: O GLOBO

Vício insanável:: Dora Kramer

Nada, por enquanto nada mesmo, autoriza a crença na disposição da Câmara de seguir adiante na ideia de abrir uma CPI para apurar o envolvimento de deputados de vários partidos com o "esquema Cachoeira" ou mesmo de levar suas excelências a se explicar perante o Conselho de Ética.

É possível até arriscar um palpite sobre o real empenho do Senado na abertura de processo de cassação do mandato de Demóstenes Torres: pelo jeitão do corpo mole parece que a maioria ali prefere dar-se por satisfeita com a desmoralização do senador e tocar a vida sem correr o risco de reabrir antigas feridas.

Noves fora as exceções, o Legislativo anda bastante contente com a paz (de cemitério) reinante com a desmobilização dos instrumentos de fiscalização das instâncias internas de depuração.

Não faltam temas para CPIs nem candidatos a julgamentos sobre a observância ao decoro. No entanto, há tempos não se acionam nem um nem outro, assim como já não servem para coisa alguma os convites a autoridades para prestações de esclarecimentos ao Parlamento.

Reativar tais mecanismos não parece ser intenção da maioria. Dado o volume do passivo acumulado, do ponto de vista do instinto coletivo de autodefesa poderia significar a abertura de um precedente perigoso.

Demóstenes Torres não seria beneficiado pelo "vício insanável da amizade" – expressão usada pelo notório Edmar Moreira (o deputado do "castelo") para definir o principal obstáculo a punições –, pois os amigos que fez ali estão entre as exceções e os demais confirmam a regra.

Por terem sido alvos do senador na face clara de sua vida agora descoberta dupla, podem querer mostrar-se ao público em brios. O problema, porém, é a falta de credibilidade.

Só no Senado dois ex-presidentes – Renan Calheiros e Jader Barbalho – tiveram de renunciar ao posto, e um deles ao mandato por envolvimento em escândalos de corrupção e tráfico de influência.

A despeito de todas as avaliações sinalizarem a cassação e apesar da existência de motivos suficientes para que seja esse mesmo o desfecho, não se deve descartar a hipótese de Demóstenes Torres acabar tirando proveito da ausência de autoridade moral do Congresso para tratar do assunto quebra de decoro.

Um terço dos integrantes dos conselhos de ética das duas Casas tem contas a prestar ao Supremo Tribunal Federal, sendo o presidente do colegiado da Câmara ninguém menos que um réu do processo do mensalão.

Nesse ambiente, francamente, convém desconfiar antes de depositar alguma esperança no bem feito.

Liturgia. O governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), tenha paciência, mas a um tipo como Carlos Augusto Ramos, vulgo Cachoeira, mal se deve atender ao telefone, muito menos conceder audiência.

Seja a pedido de quem for. Ele alega ter atendido solicitação do então prestigiado senador Demóstenes Torres e de "outras duas pessoas" e que recebeu o contraventor "como empresário" para tratar de "assuntos relativos à indústria de medicamentos".

Para essas coisas existem anteparos, assessores encarregados de, entre outras funções, fazer a triagem de quem pode ou não entrar no gabinete do governador.

Se Marconi Perillo usasse seu discernimento, não cedesse a condições outras e recusasse reunião com quem já protagonizara flagrante oferta de propina (a Waldomiro Diniz), hoje não teria de explicar o inexplicável.

Os tucanos reclamam do "vazamento seletivo de informações" por parte da Polícia Federal, mas deixam de lado o exame do fato de possíveis implicações decorrentes.

Olho por olho. A formação de um bloco parlamentar com o PTB não apenas não significa que o PR tenha recuado da posição de confronto com Dilma, como indica que para o governo às vezes pode ser mais vantajoso ter uma base desunida que uma unidade construída com base na lei de Talião.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Eternamente vítimas:: Eliane Cantanhêde

A chocante decisão da 3ª Seção do STJ (Superior Tribunal de Justiça), inocentando um homem que estuprou três crianças de 12 anos, virou um caso internacional. A Unesco já tinha condenado o voto. Ontem foi a vez do escritório da ONU para Direitos Humanos na América do Sul.

Em nota, o escritório "deplora" a posição do STJ, que não apenas surpreende como entristece e mata de vergonha todos nós, brasileiros, sobretudo nós, brasileiras. "Essa decisão marca um precedente perigoso e discrimina as vítimas tanto por sua idade como pelo seu gênero", disse Amerigo Incalcaterra, representante do órgão para a região.

O tribunal inocentou o réu e culpou as vítimas, sob o argumento de que as três meninas eram prostitutas. Logo, podem ser estupradas à vontade e sofrer ainda mais violência do que já sofrem? Já seria um absurdo no caso de prostitutas adultas, imagine-se quando se fala de crianças -e de crianças jogadas às ruas, ao desamparo e à infelicidade.

Essa posição do tribunal brasileiro reforça o que, vez ou outra, há muitos anos, sou obrigada a escrever neste espaço: no Brasil, uma vez vítima, serás sempre vítima. E tratada como culpada! A vida, os pais, a escola (ou a falta dela) e o Estado geram e eternizam a injustiça. A Justiça, como última instância, lava as mãos.

Do ponto de vista legal, o STJ está descumprindo tratados internacionais a que o Brasil se obriga a respeitar e a cumprir, como a Convenção dos Direitos das Crianças, o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra a mulher.

Do ponto de vista humano, a decisão é de uma brutalidade tal que choca o mundo, mas deve, antes de mais nada, chocar todos(as) e cada um(a) de nós. Nações democráticas garantem o futuro de suas crianças, as protegem e as resgatam quando necessário. O resto é barbárie.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

A inflação gorda está mais magra:: Vinícius Torres Freire

IPCA cai mais do que previa o mercado e menos do que o alardeado pelo governo. A "verdade está no meio"?

A inflação de março surpreendeu os rapazes do mercado. Foi bem menor do que a prevista. Assim como foi maior do que previsto o tombo que a economia levou no segundo semestre de 2011. Assim como ninguém esperava tamanha lerdeza na atividade econômica do primeiro trimestre deste 2012.

O marasmo econômico, que já dura nove meses, tem a ver com a queda da inflação de 7,31% (IPCA acumulado em 12 meses até setembro de 2011) para os 5,24% de março?

Decerto, embora a inflação ainda esteja alta, acima da meta. Ainda que alto, o IPCA caiu até rápido. A fim de baixar a inflação à meta teria sido necessária uma recessão? O remédio seria amargo, mas a cura seria firme? Quem se arrisca?

Os últimos acontecimentos indicam que a inflação vai "convergir para a meta" em 2012, como diz o BC? Sabe-se lá. Juntadas as projeções para o restante do ano com a inflação até março, para bancos e consultorias mais otimistas o IPCA chega a uns 4,7% em setembro e por aí fica até o final do ano.

Outros, mais ponderados, acham que o IPCA fica em torno de 5,2% da metade para o final de 2012.

E daí? Daí que os imponderáveis são tantos que a gente não deve se perder em discussões sobre decimais. Isto posto, ressalte-se que:

1) Já entrado o terceiro trimestre de 2011, povos do mercado falavam até em "descontrole inflacionário". Não acreditavam nem no desaquecimento forte da economia. Ficaram perdidos, pois o Banco Central inovou no uso de instrumentos para frear a atividade econômica (não usou apenas a alta de juros) e teve a colaboração do governo, que limitou o crescimento de seu gasto, fator que foi aliás desprezado por muita gente no "mercado";

2) O próprio pessoal do BC reconhece que a freada econômica foi mais forte que o previsto na casa;

3) A desinflação dos preços ao produtor e no atacado foi muito rápida, o que corroborou a interpretação de governo e BC que preços de commodities e fatores externos ajudariam a conter o IPCA 2012;

4) O uso de uma bateria de instrumentos para combater a inflação pode ser eficaz, embora sua calibragem seja talvez mais difícil. Talvez: o efeito da redução da taxa básica de juros (a Selic) sobre os juros para o tomador final de empréstimos tem também lá suas manhas.

Tal efeito variou nas campanhas de altas de juros de 2008, 2010 e 2011. O próprio pessoal do BC aponta para esse imponderável e diz que, a depender de outras políticas, o efeito da Selic no juro final pode ser variado mesmo. Logo, dizem, o importante é buscar a meta de inflação, com a variedade de instrumentos mais razoáveis à mão, fazendo ajustes no decorrer do processo;

5) O BC tolerou uma inflação mais alta, ainda não a levou à meta, talvez não a leve. Parece considerar que, por vezes, o custo de conter logo a alta de preços é alto demais (o BC não admite ser "tolerante").

Para alguns críticos, isso é brincar com fogo, com o risco de inflação crescente. Para outros, irresponsável é jogar na retranca e fazer a economia crescer muito menos para abater dois décimos do IPCA;

6) Tudo somado, o nível da "taxa de juros de equilíbrio" baixou no Brasil? Talvez a gente chegue a uma conclusão daqui a uma década. Quando o assunto talvez não tenha nem mesmo relevância acadêmica.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Inflação mais magra:: Celso Ming

A inflação de março, de só 0,21%, é boa surpresa. Terá importantes consequências na expectativa dos formadores de preços, no comportamento dos juros e, possivelmente, no avanço de outras decisões de política econômica.

A tendência é de que, até agosto, a inflação medida em 12 meses decline. Mas não dá para dizer que embica para os 4,45% em 2012, como conta o Banco Central, porque essa inflação mais baixa poderá, por si só, encorajar o governo a autorizar reajustes de preços há meses represados, como os dos combustíveis.

De todo modo, a aposta do Banco Central, embora de risco, está mais perto de ser concretizada do que a do resto do mercado, que na semana passada era de 5,40%.

Concorre pesadamente para uma inflação mais baixa a forte redução da contribuição da economia externa. A inflação dos países avançados se situa ao redor dos 2% ao ano, quadro que deverá ser mantido por muitos meses. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), por exemplo, avisou que não espera ataque da inflação nos próximos meses e que os juros básicos (Fed funds) permanecerão ao redor de zero por cento ao ano "até meados de 2014". Essa tendência provoca relativa estabilidade nos preços das matérias-primas e commodities, fato que se reflete no achatamento da inflação dos preços no atacado aqui no Brasil e no reajuste dos preços administrados pelo IGP-M (índice em que a evolução dos preços no atacado tem peso de 60%).

A grande incógnita para o comportamento da inflação nos próximos meses no Brasil será o comportamento do setor de serviços, de onde provêm as maiores pressões de alta. De todo modo, já se vê certa desaceleração no avanço dos preços também aí (veja o Confira).

Os comunicados oficiais do Banco Central apontam expansão dos salários acima dos índices de produtividade da mão de obra como fator de aceleração dos preços, por elevar a demanda por bens e serviços além da capacidade de oferta da economia. Também se pode contar com reajuste do salário mínimo bem abaixo dos 14,13% de janeiro. A regra já consagrada é a de que esse reajuste corresponderá à evolução da inflação do período mais a média do crescimento do PIB dos dois anos anteriores. Sugere que o reajuste do salário mínimo em janeiro de 2013, a ser levado desde já em conta, não passará dos 10%.

Boa pergunta quer saber se o Banco Central reduzirá os juros básicos (Selic) para abaixo dos 9,00% ao ano apontados na última reunião do Copom ou se os manterá estabilizados nesses patamares, como consta na última Ata do Copom.

O mercado financeiro deverá pressionar o governo para que mude rapidamente as regras da remuneração da caderneta de poupança, por temer o esvaziamento dos fundos de renda fixa. Mas o governo se empenha agora em baixar a margem dos bancos, como já fez na área do crédito (spread). Se a caderneta prometer rendimento acima do que o da maioria dos fundos, os bancos terão novo foco de pressão para reduzir as atuais taxas de administração cobradas nos fundos de renda fixa.

CONFIRA

Aí está, desde outubro passado, a evolução da inflação dos serviços no período de 12 meses terminados em março. Parece clara a tendência a certa desaceleração. Neste último intervalo, os campeões da alta dos serviços foram mudança (+ 29,69%) e passagem aérea (+28,63%).

Retificação. Na Coluna passada, ficou dito aqui que a manifestação contra a política industrial do governo organizada quarta-feira, em São Paulo, por sindicalistas e dirigentes da Fiesp, teve 80 mil pessoas. Cálculos mais precisos não contaram mais do que 10 mil.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Uma nova dinâmica da economia:: Luiz Carlos Mendonça de Barros

A reação dos consumidores tem sido a de pagar suas dívidas atrasadas e só depois voltar às compras

O analista neste início de ano tem que estar aberto para uma nova dinâmica da economia brasileira. Se não entender as novas forças que estão agindo sobre os mercados, corre o risco de errar em suas previsões.

Uma primeira lição que precisa ser aprendida é que hoje o Brasil segue de perto a dinâmica de economias de mercado mais estáveis e, portanto, dotadas de uma racionalidade própria. Livre dos choques inesperados que ocorriam no passado, o comportamento das variáveis macro e micro é mais fácil de ser entendido. Vou tratar hoje de um dos elementos mais importantes que visualizo nessa nova economia em nosso querido país: o comportamento do consumo das famílias, que é como o IBGE trata essa questão.

O consumo é hoje a força mais importante na formação do PIB no Brasil. Ele representa quase dois terços da demanda final contra 20% dos gastos do governo e 18% dos investimentos. O consumo é função de duas variáveis principais: renda real das famílias representada pela massa total de salários e crédito bancário. Vou mais longe nessa minha descrição: o consumo é hoje também influenciado pelo pagamento de dívidas das pessoas junto ao sistema bancário.

Essa variável ganhou importância nos últimos anos com a expansão do crédito às pessoas físicas. Segundo o Banco Central, o brasileiro gasta em média pouco mais de 20% de sua renda mensal com juros e amortizações de suas dívidas junto a bancos, cartões de crédito e cerca de 3% a 4% com outros compromissos com a compra de bens.

Essa maior alavancagem financeira faz com que as variações da renda real, gerada pela flutuação da inflação, tenham um impacto muito grande -muito maior do que em passado recente- nos gastos correntes da população e, portanto, na formação do PIB.

Vejamos o que aconteceu no segundo trimestre do ano passado, quando um choque de mais de 30% nos preços das commodities nos mercados internacionais chegou ao consumidor. O IPCA em 12 meses passou de 5,2% em outubro de 2010 para 7,3% em setembro de 2011, chegando a 5,2% em março de 2012.

Um ciclo de 12 meses na alta e de 6 meses na volta ao ponto de partida. A variação das taxas mensais foi maior ainda nesse mesmo período: em setembro de 2010 a inflação mensal era de 0,45% e chegou a 0,80% entre janeiro e abril de 2011, voltando a 0,21% agora em março.

A elevação brusca e inesperada da inflação fez com que o valor real dos salários despencasse e colocou o consumidor em dificuldade para honrar seus compromissos. Nessa situação, o consumo sofreu e a inadimplência junto aos bancos aumentou. O BC reagiu a esse pulo na inflação aumentando os juros, o que agravou ainda mais a situação do devedor. Finalmente -no último, mas previsível capítulo dessa história-, os bancos reduziram seu apetite para emprestar.

Nos meses seguintes o consumidor parou de gastar, principalmente em itens de maior valor, e aumentou sua poupança para normalizar sua situação junto a seus credores.

No Brasil de hoje, é muito difícil a vida do devedor inadimplente com todos os registros de seus atrasos circulando entre seus credores. O impacto sobre o crescimento demorou um pouco, mas chegou na segunda metade do ano passado.

Agora estamos vivendo o ciclo contrário. A inflação caiu -em março ela foi de apenas 0,21%-, os salários reais aumentaram e o dinheiro no fim do mês voltou a sobrar. A reação dos consumidores tem sido a de pagar suas dívidas atrasadas e só depois voltar às compras. Mas isso vai acontecer certamente nos próximos meses. Também os bancos vão mudar de comportamento e, com a queda da inadimplência que estará ocorrendo, vão voltar a emprestar ao consumidor.

O último capítulo dessa história vai trazer novo vigor nos investimentos das empresas, fazendo com que todos os motores que empurram o PIB estejam de volta ainda nos últimos meses do ano. Por essa razão, acredito que em 2013 as previsões sempre tão otimistas do ministro da Fazenda possam finalmente se realizar. E mais uma vez ficará claro para todos que um crescimento maior no Brasil ficará sempre dependente de inflação mais baixa.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, 69, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Tolstoi às avessas? :: Monica Baumgarten de Bolle

O "Princípio de Anna Karenina", articulado numa das frases de abertura mais famosas da literatura universal, diz que "todas as famílias felizes são iguais, enquanto as infelizes o são ao seu próprio modo". Aplicado à indústria, esse princípio parece funcionar às avessas. Todas as indústrias felizes o são ao seu próprio modo, enquanto todas as indústrias infelizes são iguais...

Digamos que a "felicidade" da indústria seja medida pela sua participação no PIB do país de origem. A ideia reflete o raciocínio atual do governo brasileiro, a julgar pelas recentes declarações e medidas para proteger a indústria nacional da tal concorrência predatória alardeada pelo ministro Mantega. Indústria feliz, segundo o governo, é aquela que gera a maior parte dos empregos e da renda do País. É preciso, pois, cultivá-la, mesmo que para isso se introduzam impostos diferenciados para os produtos domésticos e os importados, uma prática no mínimo antipática. Também é necessário usar medidas emergenciais, como o alargamento das compras governamentais para priorizar a aquisição de bens e serviços nacionais, ainda que isso onere os cofres públicos e tenha efeitos indesejados sobre a inflação. Não faz mal. O que importa é ser feliz. Mas onde estão as indústrias mais felizes?

De acordo com a métrica proposta, a Coreia e a Alemanha são igualmente "felizes": ambas têm indústrias de mais de 30% do PIB. Já o Brasil e os EUA são menos felizes: suas indústrias correspondem a uns 20% do PIB (a participação da indústria de transformação no Brasil é ainda menor, uns 13%). Nesses dois países, a situação já foi muito diferente. Por aqui não faltam comparações com a década de 80, quando a indústria correspondia a pouco mais de 30% do PIB, como na Coreia e na Alemanha. Mas os saudosistas de plantão se esquecem de que esses foram anos de brutal desarranjo macroeconômico no País, além de a economia ser muito fechada, a indústria era pouco exposta à competição internacional.

Os EUA também tiveram lá o seu grau de felicidade industrial à Alemanha e Coreia no início do século 20. O vigoroso capitalismo industrial que impulsionou a economia, tornando-a uma das mais importantes do mundo, sobretudo depois das duas grandes guerras e da débâcle dos regimes comunistas, perdeu fôlego. Ao longo do tempo, foi cedendo um espaço cada vez maior à ascensão do capitalismo financeiro, o modelo de crescimento econômico baseado no crédito farto e desregulado que culminou na crise de 2008.

Há muito pouco em comum entre a redução da participação no PIB da indústria brasileira e da americana. Mas há uma semelhança importante entre os dois modelos de industrialização. Tanto lá quanto aqui se optou pela diversidade, pela ampla gama de produtos industriais, de aviões a calçados, de engenharia e mecânica a móveis e utensílios domésticos, da siderurgia a têxteis, de automóveis a tecnologia de informação. Evidentemente, não é possível ser competitivo em todos esses setores simultaneamente. Tome-se como exemplo a indústria automobilística americana, o grande símbolo da revolução industrial dos EUA, o país que inventou o Modelo T, carinhosamente conhecido como Tin Lizzie. Tin Lizzie não resistiu aos Hondas, Subarus, Daihatsus, Toyotas - mais baratos, mais econômicos, mais resistentes.

E a Alemanha e a Coreia? Bem, esses países concluíram não ser possível competir em pé de igualdade com o resto do mundo em todos os setores. Resolveram priorizar um modelo de industrialização baseado na capacidade de produzir um determinado bem a um custo unitário menor, o que os economistas chamam de vantagem comparativa. A Alemanha, e sua inigualável engenharia, concentrou-se na indústria de processamento. A Coreia direcionou seus esforços para a capacitação tecnológica, tornando-se um dos polos mais importantes de fabricação de eletrônicos no mundo. Foram igualmente felizes na especialização. Enquanto isso, continuamos aqui, a discutir a proteção à nossa indústria universal. Parece que continuaremos infelizes na nossa diversidade.

Economista, é professora da PUC-RJ e diretora do IEPE/CASA DAS GARÇAS

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

E o vento levou:: Míriam Leitão

A presidente Dilma Rousseff falou de improviso na reunião do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas sobre a Rio+20. Não acertou o tom. Quem a ouviu falando em Copenhague, na COP-15, notou que ela avançou no entendimento da questão ambiental e climática. Mas ainda tropeça. Foi derrubada pelos ventos, pelas florestas, pelos atos do seu governo, pelas análises datadas que ainda não abandonou.

Segundo a presidente, não há espaço para fantasia. Certo. Melhor ficar nos fatos. "Eu não posso falar: olha é possível só com eólica iluminar o planeta. Não é. Só com solar, de maneira alguma. Por isso que tem que ter base científica a nossa discussão", disse a presidente.

Os fatos: nunca alguém defendeu iluminar o planeta apenas com vento e sol, mas sim aumentar a presença de fontes renováveis não convencionais, como essas duas. Cientificamente falando, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) fez um levantamento do potencial eólico e chegou a números que até parecem fantasia de tão bons. O potencial de energia dos ventos seria, segundo a EPE, de 143 gigawatts, ou seja, dez usinas da dimensão de Itaipu. E não tem feito medição offshore.

O vento é melhor, mais constante e necessário no Nordeste, exatamente a região que já não tem potencial hidrelétrico remanescente. Sol também não falta na região, mas ele tem sido tratado com ainda mais desprezo nas políticas públicas da área de energia. Esse descuido com os não convencionais está fazendo com que o Brasil perca a corrida pela ponta do processo.

Segundo a Clean Edge, uma consultoria internacional especializada em tecnologias limpas, a receita global de fotovoltaica (solar), eólica e biocombustível subiu 31% de 2010 para 2011, de US$ 188 bilhões para US$ 250 bilhões. Isso foi puxado pelo crescimento de dois dígitos da energia proveniente do vento e do sol. No biocombustível o que subiu foi o preço. A China foi, em 2011, líder global em novas instalações de usinas de energia eólica pelo quarto ano consecutivo: 40% de todas as novas instalações no mundo. A União Europeia está em segundo, depois, Estados Unidos, Índia e Canadá. As novas instalações de fotovoltaica aumentaram 69% de 2010 para 2011. E, por isso mesmo, os preços dessas energias não convencionais, que sempre foram argumento no Brasil para o não investimento, estão despencando. Caíram mais de 40% entre 2010 e 2011. A previsão é que até 2021 vai declinar a um terço do nível atual. O preço global de fotovoltaica era, em 2007, US$ 7,20 por watt. Em 2012, foi a US$ 2,69.

No Brasil também tem vento a favor. O governo adiou o que pôde, mas os fatos se impõem. A capacidade instalada saiu de 22 MW em 2003 para 1.471 em 2011. Com os projetos já contratados a previsão é que chega a 8.088 MW em 2016. O preço médio caiu a um terço desde 2005. Ainda é 1,6% apenas da matriz. A Abeólica acha que chegará a 5,4% em 2014.

Dilma fez críticas ao carvão. Está correta. Mas este ano três termelétricas serão inauguradas para queimar carvão importado da Colômbia. E há outros projetos de térmicas a carvão.

A presidente disse que na questão da água fica difícil para a população entender o problema porque nós temos "água excedente". Ressalvou apenas os períodos de seca do Nordeste. A seca do Nordeste este ano está feroz, mas o Sul teve recentemente um cenário nordestino e a Amazônia tem tido períodos de estiagem que esvaziam até o caudaloso Rio Negro.

Dilma revisitou a tese de que o Brasil está na frente dos outros países na sustentabilidade. Fantasia. O país está aprovando uma mudança no Código Florestal para reduzir as exigências de preservação. Há duas versões: a da Câmara e a do Senado. Uma é melhor que a outra, mas ambas são piores que o Código atual.

Segundo a presidente, "nós temos a sorte de ter a Amazônia conosco, com a consciência e a nossa capacidade de lutar para preservá-la". É uma sorte mesmo ter a Amazônia. Mas a temos perdido um pouco a cada ano. O que o governo apresenta como avanço de preservação é apenas queda do ritmo de destruição.

A presidente também elogiou o Brasil pelo etanol, mas seu governo tem mantido a política que desequilibra a relação gasolina-etanol e põe em risco a indústria do álcool, pela qual o Brasil já pagou tão caro.

O país tem a grande vantagem da matriz energética, que mesmo com os combustíveis dá em torno de 50% de energia limpa. O grande problema é a aposta tão forte em megausinas hidrelétricas no meio da Amazônia, cujas construções provocam desmatamento. E mais: os conflitos trabalhistas nos canteiros são um problema das empresas privadas e seus empregados, mas são tratados como questão de segurança nacional. Mandam-se tropas federais.

A presidente, apesar de todos esses pressupostos, afirmou: "Eu não acredito que nós possamos construir um novo modelo de desenvolvimento sustentável para o mundo sem lidar com os impasses em relação ao clima." Boa frase. Pena que, na prática, o Brasil tem trabalhado nas reuniões preparatórias da Rio+20 para que a questão climática não entre na agenda. Se for assim, o debate do Rio periga virar uma fantasia.

FONTE: O GLOBO

Danos colaterais:: Nelson Motta

Em um mês, o senador Demóstenes Torres passou de acima de qualquer suspeita para abaixo de qualquer certeza, num episódio que desafia os romances policiais mais surpreendentes. Além da atuação implacável contra a corrupção, ele tinha a cara, vestia o figurino e se comportava como um incorruptível homem de bem - e talvez seja mesmo sócio da holding criminosa de Cachoeira. Ou talvez seja até um bom homem, que cometeu erros imperdoáveis mais por vaidade pessoal do que por ambição material. Ou um provinciano deslumbrado e metido a cosmopolita, que gostava de ser paparicado e desfrutar das benesses do poder. Ou um megalomaníaco traído por excessiva confiança na sua blindagem - e na estupidez e boa-fé alheias. Ou talvez tudo isso junto, que não o faz menos ou mais culpado dos fatos que o condenam.

Piores são os danos colaterais dessa cachoeira de lama. Todos que acreditaram na eloquência ética de Demóstenes - com todos os motivos para tanto - se sentiram traídos em suas últimas esperanças. Sua desmoralização reforça a crença nefasta de que os políticos são todos iguais e provoca irreparável desilusão no eleitorado. E júbilo entre mensaleiros e aloprados. Ao perderem seu melhor quadro, os demos - maldito nome, não poderia mesmo dar certo uma sigla que já nasceu para ser demonizada - estão com o pé na cova da irrelevância. Mas o PSD os receberá de braços abertos. No Conselho de Ética do Senado, paladinos da moralidade como Renan Calheiros, Humberto Costa, Romero Jucá, Lobão Filho e Gim Argelo julgarão as imoralidades de Demóstenes.

Mas ser honesto não basta. No Rio de Janeiro, em 1988, o prefeito Saturnino Braga, um engenheiro socialista de impecável trajetória política e probidade absoluta, fez uma administração tão desastrosa que encerrou seu mandato decretando a falência da cidade. A decepção foi tão grande que virou um clássico do humor carioca: do Leme ao Pontal se dizia que Saturnino desmoralizou a honestidade.

Como diria mestre Ancelmo Góis, deve ser terrível viver num país com tão poucos políticos competentes, mas desonestos - e tantos honestos, incompetentes.

Nelson Motta é jornalista.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Leitora nº 1 :: Ruy Castro

Desde a primeira vez, em novembro de 1990, foi impossível não notá-la. Quando cheguei ao Teatro dos Quatro, no Shopping da Gávea, onde haveria a sessão de autógrafos de meu livro "Chega de Saudade", ela já estava junto à mesa. Teria uns 60 anos e era pequenina e magrinha, mas fa lante e despachada. Disse o nome: "Ester Costa".

Parecia íntima de todo mundo que chegava: João Donato, Miúcha, Luizinho Eça, Ronaldo Bôscoli, Marcos Valle, Os Cariocas -e a todos pedia que autografassem a página em que apareciam. Depois, sumiu no tumulto daquela noite. Nos anos seguintes, publiquei outros livros e ela continuou a ser a primeira a chegar aos lançamentos.

Passei a vê-la também nos shows de bossa nova -sempre com seu "Chega de Saudade", colhendo autógrafos. Ester gostava de música, mas gostava ainda mais dos artistas que, como ela, envelheciam. Se soubesse de um que estivesse doente, ia visitá-lo todos os dias, instava os amigos a telefonar-lhe, fazia-o acreditar que era querido e lembrado, e só não o ajudava com dinheiro porque não tinha.

Um dia, sozinha e aposentada, mas sempre elegante e arrumadinha, precisou levantar algum. O jeito foi oferecer a um amigo o seu exemplar de "Chega de Saudade", já ensebado e com orelhas nas pontas, mas contendo assinaturas que não era mais possível conseguir. Isso lhe quebrou o galho e deixou o livro em boas mãos. Mas ela não ligava para a durindana. O que a alimentava era seu amor de décadas por pessoas como Doris Monteiro, Tito Madi, Pery Ribeiro, Billy Blanco, Orlann Divo e tantos outros.

Há meses, relancei um livro, "Rio Bossa Nova", pela Casa da Palavra, que dediquei por impresso a ela: "Para Ester Costa, minha leitora nº 1". Foi como se adivinhasse. Ester morreu nesta semana, em seu apartamentinho em Copacabana, aos 82 anos.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Estrela da manhã :: Manuel Bandeira

Eu quero a estrela da manhã
Onde está a estrela da manhã?
Meus amigos meus inimigos
Procurem a estrela da manhã
Ela desapareceu ia nua
Desapareceu com quem?
Procurem por toda a parte

Digam que sou um homem sem orgulho
Um homem que aceita tudo
Que me importa? Eu quero a estrela da manhã

Três dias e três noites
Fui assassino e suicida
Ladrão, pulha, falsário

Virgem mal-sexuada
Atribuladora dos aflitos
Girafa de duas cabeças
Pecai por todos pecai com todos

Pecai com os malandros
Pecai com os sargentos
Pecai com os fuzileiros navais
Pecai de todas as maneiras

Com os gregos e com os troianos
Com o padre e com o sacristão
Com o leproso de Pouso Alto

Depois comigo

Te esperarei com mafuás novenas cavalhadas
comerei terra e direi coisas de uma ternura tão simples
Que tu desfalecerás
Procurem por toda parte
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã