domingo, 30 de junho de 2013

Vantagens e desafios de Marina

Se Marina Silva desponta como a candidata que mais poderá se beneficiar com as manifestações devido ao seu perfil, Aécio Neves (MG) tenta resgatar as bandeiras do PSDB para recuperar o terreno perdido. Unânimes em apontar boas perspectivas para a ex-senadora, especialistas avaliam que o possível crescimento não se dará pela defesa ambiental, algo que pouco apareceu nos protestos.

– Não é pela sustentabilidade, mas pela sinceridade do discurso dela. O que transparece para a população é uma nova maneira de fazer política – afirma o cientista político Manuel Sanches, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

A ex-senadora pelo Acre, entretanto, terá barreiras para superar. Está presa ao processo de criação da Rede, contará com pouco tempo de TV e alianças políticas escassas. Outro complicador é o posicionamento diante de temas como aborto, homossexualismo e drogas. Em 2010, Marina foi conservadora ao abordar as pautas.

– O desempenho da Marina dependerá de como irá lidar com a questão religiosa – diz Sanches.

A situação de Aécio divide opiniões. O cientista político Valeriano Costa faz avaliação pessimista:

– A oposição está encurralada, limitada a desqualificar propostas do governo, espremida entre o Planalto e os manifestantes, com os quais não encontrou diálogo.

Uma outra vertente aponta que Aécio pode crescer na abordagem da economia, assunto em que Marina não costuma obter destaque.

– Aécio está com uma pauta muito clara de combate à inflação. E isso coincide com a avaliação das pessoas, que percebem o aumento do custo de vida – diz Hermilio Santos, da PUCRS.

Fonte: Zero Hora (RS)

Porque a reforma política será difícil

No que depender do Congresso, temas como financiamento de campanha e fim das coligações tendem a avançar pouco, dizem especialistas consultados pelo Correio. O motivo é prosaico: quem se beneficia do jogo não está disposto a mudar as regras.

Planalto minimiza reprovação a Dilma

Para os governistas, a queda de 27% na avaliação positiva da presidente é um mero reflexo da onda de protestos.

Por que os políticos não querem mudar

O nó que amarra a reforma política no Brasil nunca foi desatado. O motivo é simples. Não há interesse. Historicamente, parlamentares só mudam as regras em benefício próprio. Quem tá dentro do jogo não quer sair. Agora, com o empurrão que veio das ruas, o país se questiona: as mudanças no sistema político e eleitoral serão levadas adiante? Financiamento de campanha, fim das coligações, unificação do calendário eleitoral e ampliação da participação popular são os principais pontos. O Correio ouviu ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), cientistas políticos e advogados.

O cientista político da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Figueiredo diz que é bastante difícil modificar regras que atrapalhem os políticos. "É muito difícil o meio político gestar uma reforma que seja contra os seus interesses. O que tivemos até aqui foram aperfeiçoamentos a exemplo da Ficha Limpa, fidelidade partidária e proibição de distribuição de brindes", afirma.

O ministro aposentado do STF Carlos Velloso atesta que nunca houve real vontade política do governo em realizar as transformações. "Bastaria que tivesse firme vontade política por parte do líder maior da maioria no Congresso, que é o presidente da República, principalmente num governo, como o atual, que se apoia numa coalizão de partidos", alega.

Na opinião de Carlos Velloso, a pressão popular assume papel determinante. "O Congresso votou, em menos de 60 dias, a Lei Complementar 135, a denominada Lei da Ficha Limpa, que foi de iniciativa popular. A matéria, uma ampla reforma política, nunca foi posta num projeto em que o chefe do Executivo tivesse manifestado vontade política na sua aprovação. Pesquisem os anais do Congresso nos últimos 10 anos", declara.

Para muitos, um dos maiores responsáveis pela deformação é a livre coligação nas eleições proporcionais. O ex-ministro do TSE Torquato Jardim alega que a maneira mais eficaz e prática de melhorar o sistema político brasileiro é impedi-las. "Plebiscito é golpe de estado no melhor estilo Hugo Chávez. As opções são muito técnicas para o povo se posicionar. Escapa ao controle. Basta proibir a coligação proporcional. O resto é consequência", opina.

Um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa, o juiz Márlon Reis, diz que, agora, a situação é insustentável. "A reforma política só anda com pressão popular. Há um sentimento claro e generalizado pela sociedade de que o sistema eleitoral brasileiro é uma fábrica de corrupção. Não alterá-lo neste momento corresponderia a uma omissão imperdoável", diz.

De acordo com ele, o Congresso nunca quis uma reforma política de verdade. "Nunca houve interesse real das maiorias parlamentares. Um deputado federal me disse recentemente que não houve impasse sobre a reforma política, mas uma decisão consciente do Congresso de manter as coisas como elas estão."

Senador pelo Rio Grande do Sul, Pedro Simon (PMDB) também critica a classe política. "Não espere reforma política do Congresso, do governo ou do Supremo Tribunal Federal. Ninguém faz. Não há coragem. A verdade é essa", comenta. O parlamentar diz, no entanto, que chegou o momento. "A hora é essa. O Congresso só se movimenta quando o povo empurra. Temos que aproveitar." Ele defende um grande entendimento pluripartidário. "Só vai funcionar se for assim. Itamar Franco, quando assumiu a Presidência da República no lugar de Fernando Collor, chamou todos os partidos para o Palácio do Planalto. Disse que estava ali por uma decisão do Congresso e queria governar com todos. A reforma só vai adiante se houver um entendimento nesse nível", diz.

Limites de gastos

Se todos concordam que o momento da reforma política é este, não existe consenso nem mesmo dentro dos partidos em relação ao conteúdo das transformações. Sobre o sistema eleitoral, há quem defenda modificações na proporcionalidade dos votos. Hoje, para cargos executivos, o sistema é majoritário. Ganha aquele que tiver mais votos. No legislativo, há um sistema proporcional com lista aberta por meio de um quociente eleitoral. Uma das propostas é acabar com esse mecanismo.

Em relação ao financiamento de campanha, existem pelo menos três propostas. Hoje, no Brasil, há o sistema misto. Empresas ou pessoas físicas podem realizar doações para os candidatos. As siglas dos concorrentes também recebem dinheiro público via fundo partidário. Uma das propostas de modificação prevê o financiamento público exclusivo com um teto de gastos. Há a sugestão de que o mecanismo seja atrelado a um fundo nacional. Nesse caso, empresas não poderiam realizar doações diretamente. O dinheiro seria depositado numa conta gerida pelo Tribunal Superior Eleitoral. Alguns segmentos querem que pessoas físicas possam doar desde que se respeite um limite estabelecido.

"Já não há deputado ou senador que não saiba que o sistema se esgotou. Não é possível para o povo ser obrigado a voltar às urnas por uma só vez sob as regras vigentes. O sistema eleitoral brasileiro está morto", ressalta o juiz Márlon Reis.

A legislação eleitoral permite atualmente que os partidos façam coligações nas eleições para deputados e vereadores. Muitos criticam essa fórmula porque estimula o surgimento dos chamados partidos de aluguel. Alguns defendem a proibição das coligações e outros acham que seria possível a coligação desde que seja respeitado um tempo mínimo estabelecido. Outro ponto bastante debatido é o calendário eleitoral. O objetivo é unificar todas as eleições em apenas uma data de quatro em quatro anos. Uma das saídas é ampliar, em 2016, o mandato de prefeitos e vereadores para seis anos. A unificação só ocorreria em 2022.

"A hora é essa. O Congresso só se movimenta quando o povo empurra. Temos que aproveitar o momento"
Pedro Simon, senador da República

"Bastaria que tivesse firme vontade política por parte do líder maior da maioria no Congresso, que é o presidente da República"
Carlos Velloso, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal

"Basta proibir a coligação proporcional. O resto é consequência"
Torquato Jardim, advogado e ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral

"O sistema construiu uma armadilha: uma vez dentro do parlamento, passaram a fazer regras para assegurar sua permanência"
Márlon Reis, juiz, um dos idealizadores da Lei da Ficha Limpa

Fonte: Correio Brazilirnse

Valeu a pena?

Vozes de mais de 1 milhão de pessoas que saíram em protestos estão sendo ouvidas e, em pouco mais de duas semanas, conseguiram mudar a agenda política brasileira. Violência e morte são o lado ruim de um movimento que faz o país avançar como há muito não se via.

SIM

O povo deu o recado. Protestou, gritou e obrigou os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário a tomarem decisões sobre temas que se arrastavam havia anos. Em 6 de junho, jovens em defesa do passe livre começaram atomar as ruas de São Paulo e, sete dias depois, o movimento chamou a atenção de todo o país e se multiplicou. Desde então, houve conquistas como redução dos preços de passagens de ônibus, derrubada da PEC 37, que tiraria o poder de investigação do Ministério Público, e destinação de 75% dos royalties do petróleo para a educação e de 25% para a saúde. Para da há duas décadas no Congresso, a reforma política agora está na ordem do dia. Corrupção virou crime hediondo. E pela primeira vez um deputado em exercício foi preso, condenado por desvio de dinheiro público.

MAS...

A população e o país estão pagando um preço alto demais. Infiltrados nas manifestações, vândalos já causaram prejuízo acima de R$ 6 milhões ao patrimônio público. Muitos deles são seguidores do Black Bloc, que se movem por ideais anarquistas e destroem tudo por onde passam. Entre empresários e comerciantes que tiveram lojas saqueadas e depredadas, as perdas ainda são calculadas, enquanto decidem se continuam nos endereços atacados por criminosos. Naescaladados protestos, seis pessoas já morreram, uma delas em BeloHorizonte: o jovem Douglas de Oliveira Souza, de 21 anos.

Clamor fez resposta ser rápida

Onda de protestos levou os três poderes a atender de imediato as demandas da sociedade. Para analistas, é preciso agora fiscalizar as ações

Político corrupto atrás das grades, votações rápidas de projetos de lei que respondem a demandas da sociedade, transparência e redução de preços no transporte público. Se até três semanas atrás isso parecia utopia para os brasileiros, depois da onda de protestos que levou mais de um milhão de pessoas às ruas do país, hoje virou realidade. A pressão foi forte e a resposta dos políticos, alvos do grito de insatisfação, imediata. Para analistas políticos, o recado, que anunciou uma crise de representatividade, já foi percebido e é hora de os movimentos evoluírem para formas mais permanentes de cobrança. Dessa evolução ou não, vai depender a continuidade da postura ativa percebida nos últimos dias no Executivo, Legislativo e Judiciário.

Para o cientista político da Universidade de São Paulo (USP) Rubens Figueiredo, a onda de protestos no país, que ganhou força a partir do dia 6, quando o Movimento Passe Livre levou 2 mil pessoas às ruas da capital paulista, foi surpreendente. "Havia uma insatisfação latente na sociedade que não foi captada por analistas ou institutos de pesquisa. Essas manifestações têm uma vertente econômica, porque as pessoas estão consumindo menos e devendo mais, e o lado dos governos, longe de dar respostas àquilo que faz as pessoas sofrerem." As respostas, assim como os protestos crescentes, vieram de todo o Brasil. Desde a presidente, que anunciou pactos nas áreas de transporte, educação, saúde, responsabilidade fiscal e o plebiscito para uma reforma política, até governadores e prefeitos que reduziram custos de passagens de ônibus (veja quadro).

Para Figueiredo, houve uma chacoalhada institucional. "Nunca um movimento teve resultados tão rápidos. Nem na marcha de 1968, nem nas Diretas Já ou no pedido de impeachment do Collor", avalia. O Legislativo tirou a poeira de propostas que dormiam nas gavetas sem perspectiva de aprovação. Para que tudo isso ocorresse houve milhares de eleitores com demandas diversas nas ruas, mas também houve quebradeira de grupos infiltrados nos protestos. "Isso atrapalha, porque a sociedade pode criar resistência contra os movimentos. O povo não quer isso", disse o professor. Segundo ele, os movimentos escolheram pontos simbólicos, como sedes do Executivo e Legislativo, para demonstrar com quem estavam descontentes e a resposta veio. Agora é o momento de trégua. "É difícil ter um movimento dessa amplitude, com esse ímpeto, defendendo tanta coisa, durante muito tempo. Já está se acalmando", afirmou.

Para a professora de Ciências Políticas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Helcimara Teles, os movimentos refletem não uma crise, mas um problema de vínculos escassos entre partidos e eleitores, o que leva a organizações como essas. "Eles têm muito potencial criativo de pressionar, mas, por outro lado, não conseguem formar uma organização futura, a médio prazo, capaz de manter essa fiscalização que se deve ter no sistema democrático", avalia. Ela considera "problemático" o fato de parcelas majoritárias desses manifestantes ter feito uma proposta antipartidária. "Trazer uma pauta contra partidos é um risco para a democracia, porque eles são parte essencial do sistema."

O fato de as ruas terem cobrado elementos como transparência dos poderes públicos levou a uma resposta ágil, mas, para Helcimara, ainda não é suficiente. "Melhor resposta seria introduzir elementos maiores de participação direta que convivam com a democracia representativa, como a introdução de plebiscitos e referendos não em situações excepcionais como hoje, mas que sejam rotineiros. Também é preciso adotar mais elementos de fiscalização do poder público", afirma. Um perigo apontado pela professora é que, no Brasil, os movimentos sem líderes e contra tudo podem resultar na emergência de candidatos outsiders, ou seja, alguém que, ocupando um vácuo institucional, aparece como uma espécie de salvador da pátria. "Em 1989 apareceu o Fernando Collor, como um caçador de marajás. Agora pode aparecer um caçador de mensaleiros. Essa característica de desencanto sempre favoreceu lideranças neopopulistas."

Para a professora, com as respostas do Congresso e Executivo, e as ações nas esferas estadual e municipal, é hora de os manifestantes saírem das ruas. "A resposta foi bastante positiva e várias demandas foram votadas com agilidade. Ficar na rua o tempo todo é uma solução da Argentina, que não é a melhor, fazendo piquete e não reconhecendo o espaço institucional. A classe política já mostrou que entendeu o recado", afirma.

Recado dado. O mesmo pensa o coordenador do Núcleo de Estudos Sociopolíticos da PUC Minas, Robson Sávio Reis Souza. "A sociedade precisa esperar um pouco a reação dos outros poderes. É difícil fazer mobilização por tanto tempo, mas o recado está dado, que a democracia representativa não pode se distanciar do que o povo coloca como prioridade", diz.

Ao questionar os gastos com a Copa das Confederações, por exemplo, o povo mostrou que não está satisfeito quando os governos mostram rapidez para construir estádios que vão servir a poucos enquanto são morosos com políticas fundamentais como as de saúde, educação e segurança pública. Para Robson Sávio, os protestos mostraram o poder de mobilização da classe média e das redes sociais, mas é preciso evoluir. "O Parlamento só é pró-ativo quando percebe que o cidadão está monitorando suas ações. Espasmos de protestos servem para acordar as instituições, mas o que vai modificar é o processo de acompanhamento sistemático", disse.

Fonte: Estado de Minas

Os dias que marcaram o País

As manifestações que tomaram conta das ruas levaram a presidente Dilma e o Congresso a acelerar as mudanças

Carolina Albuquerque

Três semanas sem que milhares de pessoas deixem as ruas em várias cidades do País. É em plena Copa das Confederações. É ano pré-eleitoral. A pressão das ruas leva a presidente Dilma Rousseff (PT), o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal (STF) e vários prefeitos e governadores do País a agir. A proposta de um plebiscito para a reforma política é feita pelo governo federal. Antes apoiado por grande parte dos deputados, a PEC 37 é derrotada por um placar de lavada. O Senado desengaveta e aprova o projeto de lei, ainda que com limites, que torna corrupção um crime hediondo. Pressionados, gestores estaduais e municipais aprovam o "Passe Livre" e cancelam o aumento de tarifas para o transporte público. Esta que foi a reivindicação primeira da "Revolta dos R$ 0,20", que analistas já descrevem como a de maiores proporções na história recente, deixando para trás a massa que tomou o Brasil pedindo "Fora Collor", em 1992.

Nos últimos 24 dias, os brasileiros estão sendo observados pelo mundo. Os olhos estão arregalados. E não é pelo futebol. É impossível mensurar o impacto político e social nas instâncias de Poder provocado pelo movimento de bandeiras "dispersas", como apontam analistas. De slogans publicitários: #OGiganteAcordou e #vemprarua. O professor e cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Marcos Costa Lima enxerga como principal causa da "Revolta dos R$ 0,20" o distanciamento que se aprofundou entre representados e representantes. "Aqui temos uma democracia, um governo que conseguiu distribuir renda. Mas as tecnologias também permitiram uma mobilidade e liberdade maior das informações que não existia antes. Fez com que a juventude passasse a dialogar e criticar o que vem acontecendo. Há um distanciamento da articulação da alta política, dos governos e instituições com a população. E isso gera um terreno muito fértil", diz.

Para Costa Lima, a juventude, que lançou a primeira faísca no protesto em São Paulo, soube "oportunizar" o momento. "Não existe uma causa só. Há também o catalizador do Congresso, que está se lixando para o que pensa a opinião pública, tem salários extravagantes e mordomias. Que quando o País está querendo se abrir para políticas dos direitos humanos, antirracista, vem o Congresso e indica deputado pastor Feliciano na direção contrária", disse. O cientista político e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Manuel Sanches, acredita que agora dá para notar apenas sinais de mudança no comportamento político. "São pontuais e ocorreram sob pressão. Podem se cristalizar até as eleições. Mas não há nenhuma mudança institucional, nada que altere o jogo político", opinou.

Definição da consulta ocupará o debate

Na história recente, o plebiscito foi aplicado em duas ocasiões. Especialistas dizem que ferramenta faz bem à democracia

Plebiscito ou referendo para a reforma política? É este, certamente, o debate que tomará os próximos dias. É mais um fruto da "Revolta do R$ 0,20". E caso aconteça, concordam analistas consultados pelo JC, será uma das mais profundas mudanças estruturais. O plebiscito é um instrumento poderoso que depende de perguntas-chaves, e sua elaboração, das várias forças e interesses políticos aí estabelecidos.Embora prevista na Constituição, o instrumento de consulta popular só foi utilizado duas vezes para questões de ordem política pela recente democracia brasileira: em 1993, para escolher o sistema de governo, e em 2005 sobre a proibição da comercialização de armas de fogo. "A nossa Constituição diz que o exercício da soberania se dará de maneira direta ou indireta. O fato de não haver um costume maior é porque, na realidade, a nossa democracia é pautada em uma certa apatia política. As instituições se distanciaram da população. O plebiscito vai permitir a ideia de que a democracia tem uma base direta. Nesse caso é importante que nos enfatizemos consultas assim quando as questões forem de fato relevantes", defende o cientista político da Universidade Federal de Pernambuco Francisco Assis Brandão.

Professor de Ciência Política da UFPE, Marcos Costa Lima argumenta que instrumentos diretos fazem bem à democracia. "A gente sabe que começam a parecer setores que vêm bombardeando a questão, pois estão mais preocupados com a eleição do ano que vem. Esse não é um processo fácil, mas de maturação. Certas questões nacionais de grande envergadura têm que sofrer uma consulta da população. A energia atômica é um deles. Levantar uma pauta sobre o que vai fazer com a Amazônia é outra. Como qualificar o desenvolvimento das cidades? Essa é uma luta política e tem muita gente que não quer mudar", pontuou. "A Suíça faz plebiscito frequentemente. Temos uma pauta imensa e esse é um momento muito oportuno."

Cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Manuel Sanches pondera que o tempo da rua é diferente do da classe política e que, por isso, as manifestações tendem a ficar menores daqui pra frente. "O tempo é diferente. A classe política tende a discutir por um período mais longo. O tempo da rua é abrupto, o que significa dizer refluir para manifestações menores. Mas é possível que haja uma nova erupção, especialmente se a classe dirigente não demonstrar que está atento aos anseios populares", analisa. (C.A.)

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Entrevista: Manuel Castells - "O povo não vai se cansar de protestar"

Por Maurício Meireles

Para o sociólogo catalão Manuel Castells, boa parte dos políticos é de "burocratas preguiçosos". Ele é um dos pensadores mais influentes do mundo, com suas análises sobre os efeitos da tecnologia na economia, na cultura e, principalmente, no ativismo. Conhecido por sua língua afiada, o espanhol falou ao GLOBO por e-mail sobre os protestos.

Os protestos no Brasil não tinham líderes. Isso é uma qualidade ou um defeito?

Claro que é uma qualidade. Não há cabeças para serem cortadas. Assim, as redes se espalham e alcançam novos espaços na internet e nas ruas. Não se trata, apenas, de redes na internet, mas redes presenciais.

Como conseguir interlocução com as instituições sem líderes?

Eles apresentam suas demandas no espaço público, e cabe às instituições estabelecer o diálogo. Uma comissão pode até ser eleita para encontrar o presidente, mas não líderes.

Como explicar os protestos?

É um movimento contra a corrupção e a arrogância dos políticos, em defesa da dignidade e dos direitos humanos - aí incluído o transporte. Os movimentos recentes colocam a dignidade e a democracia como meta, mais do que o combate à pobreza. É um protesto democrático e moral, como a maioria dos outros recentes.

Por que o senhor disse que os protestos brasileiros são um "ponto de inflexão"?

É a primeira vez que os brasileiros se manifestam fora dos canais tradicionais, como partidos e sindicatos. As pessoas cobram soberania política. É um movimento contra o monopólio do poder por parte de partidos altamente burocratizados. É, ainda, uma manifestação contra o crescimento econômico que não cuida da qualidade de vida nas cidades. No caso, o tema foi o transporte. Eles são contra a ideia do crescimento pelo crescimento, o mantra do neodesenvolvimentismo da América Latina, seja de direita, seja de esquerda. Como o Brasil costuma criar tendências, estamos em um ponto de inflexão não só para ele e o continente. A ideologia do crescimento, como solução para os problemas sociais, foi desmistificada.

O que costuma mover esses protestos?

O ultraje, causado pela desatenção dos políticos e burocratas do governo pelos problemas e desejos de seus cidadãos, que os elegem e pagam seus salários. O principal é que milhares de cidadãos se sentem fortalecidos agora.

O senhor acha que eles podem ter sucesso sem uma pauta bem definida de pedidos?

Acho inacreditável. Além de passarem por uma série de problemas urbanos, ainda se exige que eles façam o trabalho de profissional que deveria ser dos burocratas preguiçosos responsáveis pela bagunça nos serviços. Os cidadãos só apontam os problemas. Resolvê-los é trabalho para os políticos e técnicos pagos por eles para fazê-lo.

Com organização horizontal, esse movimento pode durar?

Vai durar para sempre na internet e na mente da população. E continuará nas ruas até que exigências sejam satisfeitas, enquanto os políticos tentarem ignorar o movimento, na esperança que o povo se canse. Ele não vai se cansar. No máximo, vai mudar a forma de protestar.

Outra característica dos protestos eram bandeiras à esquerda e à direita do espectro político. Como isso é possível?

O espaço público reúne a sociedade em sua diversidade. A direita, a esquerda, os malucos, os sonhadores, os realistas, os ativistas, os piadistas, os revoltados - todo mundo. Anormal seriam legiões em ordem, organizadas por uma única bandeira e lideradas por burocratas partidários. É o caos criativo, não a ordem preestabelecida.

Há uma crise da democracia representativa?

Claro que há. A maior parte dos cidadãos do mundo não se sente representada por seu governo e parlamento. Partidos são universalmente desprezados pela maioria das pessoas. A culpa é dos políticos. Eles acreditam que seus cargos lhes pertencem, esquecendo que são pagos pelo povo. Boa parte, ainda que não a maioria, é corrupta, e as campanhas costumam ser financiadas ilegalmente no mundo inteiro. Democracia não é só votar de quatro em quatro anos nas bases de uma lei eleitoral trapaceira. As eleições viraram um mercado político, e o espaço público só é usado para debate nelas. O desejo de participação não é bem-vindo, e as redes sociais são vistas com desconfiança pelo establishment político.

O senhor vê algo em comum entre os protestos no Brasil e na Turquia?

Sim, a deterioração da qualidade de vida urbana sob o crescimento econômico irrestrito, que não dá atenção à vida dos cidadãos. Especuladores imobiliários e burocratas, normalmente corruptos, são os inimigos nos dois casos.

Protestos convocados pela internet nunca tinham reunido tantas pessoas no Brasil. Qual a diferença entre a convocação que funciona e a que não tem sucesso?

O meio não é a mensagem. Tudo depende do impacto que uma mensagem tem na consciência de muitas pessoas. As mídias sociais só permitem a distribuição viral de qualquer mensagem e o acompanhamento da ação coletiva.

Fonte: O Globo

Entrevista - Arminio Fraga: "Há um receio de populismo no ar"

Por: Daniel Haidar, Janaina Lage

Apesar do nervosismo nos mercados, Arminio Fraga estava bem-humorado na última quinta-feira. Na sede da Gávea Investimentos, no Leblon, só hesitou quando perguntado sobre a maior preocupação para o país no cenário externo. "Deixa eu pensar na ordem, tem muita coisa acontecendo", disse, abrindo um sorriso, antes de listar a perspectiva de redução de estímulos à economia americana, a restrição ao crédito na China e a recaída da economia europeia como principais ameaças. Já sobre o cenário doméstico, o economista não titubeou. Para ele, é hora de rever a política de governo que tornou a ida a Brasília uma rota de peregrinação de empresários em busca de crédito e subsídio. É também o momento de reforçar o compromisso com o controle de gastos e a meta de inflação.

Por que a população foi às ruas?

O recado me parece claro. A população está insatisfeita, insegura, indignada. E resolveu se posicionar. Com um núcleo majoritário, existem pequenos grupos agindo de forma violenta, às vezes de forma mais organizada. Queremos mais, queremos um governo melhor. A coisa do preço dos transportes foi um gatilho, mas trouxe à tona outros temas mais fundamentais.

Há um pano de fundo econômico?

Sim, apesar do desemprego baixo. A população anseia ter melhores serviços de saúde, educação e transporte urbano. A carga tributária é alta, as pessoas têm um grau de informação maior e questionam "o que o governo está fazendo com nosso dinheiro?" Isso traz questões como gasto público, corrupção e inflação. Já se vão quase 20 anos desde a hiperinflação, mas ela vive na imaginação das pessoas que viveram a tragédia social daquela fase. Hoje, começam a sentir que o dinheiro que recebem não compra mais o que comprava antes. É conhecido no Brasil o efeito regressivo da inflação: o pobre é quem acaba pagando mais o pato.

Os protestos afetam a percepção do investidor estrangeiro?

Vários aspectos afetam a percepção do investidor. No caso da infraestrutura, são investimentos de longo prazo, intensivos em capital, que exigem financiamento e segurança. Caso se consolide a percepção de que as tarifas estão sujeitas às pressões do ciclo econômico e políticas, certamente vai se reduzir o apetite por investimento no setor. A própria pressão das ruas precisa ser processada pelo governo e transformada em resposta coerente com a responsabilidade fiscal. A noção de que não há mais meta fiscal e que o governo vem usando artifícios e brechas - de forma transparente - preocupa bastante. Num momento em que a inflação anda pressionada, dificulta o quadro, e gera pressão sobre o BC, que terá que trabalhar dobrado ao aumentar juros ou aceitar inflação mais alta.

A inflação pode sair do controle?

Sempre há risco de descontrole, em qualquer lugar do mundo. O BC sinalizou que vai correr atrás da meta. Tem apoio do governo, até porque o governo entende que se a inflação sair de controle vai perder muito nas pesquisas. Há certo receio de descontrole macroeconômico neste momento de protestos. O governo foi cuidadoso e pôs no topo da lista a responsabilidade fiscal. Espero que ocorra na prática. Todo cuidado é pouco.

O governo jogou fora o tripé de câmbio flutuante, controle de gastos e metas de inflação?

Flexibilizou bastante o tripé, há quem diga que jogou fora, eu não iria tão longe. Acho que ainda não jogou, mas caminha nessa direção. A administração do tripé está muito focada na demanda, e as políticas públicas em geral pouco focadas na oferta... Se ficar claro que as metas de inflação e o superávit primário não são para valer, teremos problemas sérios.

Seria o caso de um choque de juros?

Não creio que seja a melhor resposta. Talvez seja melhor uma resposta mais equilibrada, que inclua mais cuidados na área fiscal e de crédito. O BC tem que aumentar juros no que for necessário para trazer a inflação para meta. Mas vai ter que elevar muito menos se tiver apoio fiscal e do crédito. Há também a taxa de câmbio, que depende um pouco de confiança. Hoje há um certo receio de populismo no ar.

É possível cumprir a meta fiscal?

Possível é, mas me parece difícil, especialmente diante dos acontecimentos recentes, as manifestações. Já se vê nos jornais contas de especialistas dizendo que as respostas às demandas poderão custar mais de R$ 100 bilhões por ano. Essa disciplina de processar as demandas e dar o que é a resposta possível é a responsabilidade fiscal, que não pode ser perdida.

O senhor tem um envolvimento com causas sociais. A elite lavou as mãos?

Não acho. Vejo o Brasil vivendo um momento de discussão muito rico. A imprensa tem tido e terá sempre um papel muito importante. A elite empresarial tende a se adaptar às regras do jogo. E se o governo define que a regra é ir a Brasília pedir subsídio e proteção, a elite empresarial vai fazer isso, podendo até reforçar este modelo. Mas a maioria dos empresários preferiria que as regras fossem diferentes, que o custo Brasil fosse mais baixo, e as regras, mais simples e claras. É fácil apontar para as elites, mas não é papel do empresário necessariamente participar da vida pública.

O que preocupa no cenário externo?

A maior preocupação é com a redução no grau de estímulo da política monetária americana. Os mercados tiveram uma reação forte às colocações do Ben Bernanke (presidente do BC dos EUA), confirmando que as saídas de políticas ultraexpansionistas são difíceis. A segunda é a China. Estive lá, voltei preocupado. A China no pós-crise de 2008, por receio de uma recessão maior, tomou medidas agressivas que liberaram a China Velha. Essa China dos bancos públicos, das estatais, dos governos locais funciona a pleno vapor, provavelmente gerando retornos muito baixos ou destruindo valor. Com isso, acumula desequilíbrios. Houve um boom de crédito como poucos na História. Já se vê capacidade ociosa em vários setores. O governo novo vem dando sinais de que pretende abordar estas questões. É possível que a China passe por um período de crescimento mais baixo e há sempre o risco de uma crise um pouco maior. Já se fala em menos de 7% (de crescimento), suspeito que possa ser menos de 6% por um período. São riscos. Em terceiro lugar, a Europa passa por uma recaída, e como numa gripe, às vezes a recaída é pior.

E, num cenário nem tão ruim, o Brasil cresceu só 0,6% no primeiro trimestre ante o quarto trimestre de 2012...

Houve uma ilusão no período de boom da economia mundial, que começou por 2003 e foi até a crise, de que a festa ia durar para sempre. Nossa taxa de crescimento aumentou talvez meio ponto ou um ponto ao ano, é difícil estimar. Se acontecer o oposto, a taxa de crescimento se reduzirá, talvez meio ponto ou um ponto.

As atuações do BC brasileiro no câmbio são uma estratégia eficaz?

O governo vinha atuando pouco. Havia uma percepção equivocada de que o governo tinha uma banda de R$ 2 a R$ 2,10 como meta. Nunca acreditei nisso. Um mercado financeiro sofisticado como o nosso impede que essas medidas tenham efeito permanente. Talvez (o objetivo) seja administrar um pouco a volatilidade. O BC tem sido cuidadoso, não tem entrado muito no mercado e se o fizer em dias mais complicados está dentro do script .

O que mudaria na política econômica?

Muita coisa, mas nem estou, nem sou candidato a nada... Escrevi com colegas dois artigos argumentando que o Brasil vivia uma encruzilhada. Poderíamos estar caminhando rumo a um modelo que deu errado, parecido com o da década de 70, com pouco foco em produtividade, bancos públicos com papel grande demais, pouca capacidade de mobilizar investimento em infraestrutura, mas sem prejuízo no combate à pobreza, na melhoria da distribuição de renda, isso é essencial. Agora parece que o Brasil tende a ir na direção que deu errado. Esse modelo onde Brasília passa a ser destino de peregrinação de empresários pleiteando subsídios, proteções, crédito barato é um modelo muito ruim, inclusive do ponto de vista distributivo. É um modelo pró-empresa e não pró-mercado. Melhor reduzir o custo Brasil e deixar os empresários competirem. A política de combustíveis e automóveis carece de mudanças: o Brasil subsidia carbono e automóvel, quando o mundo parece querer focar mais em transporte público, menos poluente e "engarrafante". Quando o governo segura a gasolina para afetar a inflação, se vê o Brasil em direção contrária da correta.

O crescimento focado em consumo se esgotou?

O Brasil já tinha que ter passado para uma fase em que o crescimento tem também no investimento uma locomotiva. É provável que a fase de crescimento mais acelerado do crédito tenha ficado para trás porque as famílias se endividaram muito. E o crédito ainda é caro. Não gosto do modelo excessivamente focado no consumo alavancado. Não gera crescimento a médio prazo. É um modelo perneta.

Perdemos o bonde dos novos acordos comerciais?

Sim. Nossa política externa pecou ao ser excessivamente terceiro-mundista. Acho bom o Brasil ser líder de países em desenvolvimento. Mas predileção manifesta por Cuba, Líbia, Irã, Venezuela não consigo entender. É negativo para o Brasil. Perdemos algumas oportunidades. Até tenho simpatia pela visão mais multilateral. Mas há décadas o multilateralismo tem se mostrado pouco frutífero, vários países buscaram parcerias. O Brasil ficou para trás.

Ainda conversa com Aécio Neves?

Conversei algumas vezes. Tenho a impressão de que a campanha antecipada não é boa, mas parece ser realidade. Tenho minha vida aqui na Gávea, que demanda horário integral. Mas torço pelo Aécio e quero ajudar.

Fonte: O Globo

Revolta do vintém – José de Souza Martins*

A ilusória prioridade aos pobres deixou de lado a classe média e suas demandas cidadãs

Propor uma Constituinte neste momento é propor um golpe contra a Constituição, que é boa, abrangente e inovadora. O povo não foi às ruas pedir um golpe de Estado. Foi à rua pedir o cumprimento da lei. Convocar um plebiscito para votar as políticas a serem adotadas em relação aos problemas levantados agora pelas multidões pode ser um sinal de fraqueza e insegurança. O plebiscito já foi feito, nas ruas.

O que está acontecendo nestes dias não tem dimensão partidária, a não ser por implicação. Desenrola-se no plano da indignação moral acumulada em anos de abusos contra o interesse público, desdém pelas carências populares e pouco caso pela inteligência da população em obter, processar e compreender a informação cada vez mais acessível a todos. No plano moral, os manifestantes antepuseram a nação aos partidos. O Brasil foi às ruas exigir do governo um projeto de nação e não um projeto de classe social; e políticas para todos, não para facções.

Cartazes,palavras de ordem, monumentos e edifícios visados, símbolos atingidos, mostram que o Brasil das ruas exige que a política se sujeite à moral e aos bons costumes; que os valores sociais e éticos sejam antepostos aos interesses antissociais da economia escusa e do poder corrupto.

O povo foi às ruas para dizer ao governo e à sociedade o que devevir antes e o que deve vir depois, que a educação, a saúde, os direitos sociais, a vida e o bem-estar de todos, são mais importantes que o futebol monumental, das despesas bilionárias, do espetáculo para inglês ver, mais importantes do que as obras faraônicas e inacabáveis. Tudo indica que a era das esperanças messiânicas e do silêncio cúmplice esteja chegando ao fim.

Os manifestantes questionaram a política de pão e circo. Fizeram a crítica ruidosa da política de coalizão e cumplicidade, do Estado fragmentado e loteado, dos favorecimentos, do toma lá dá cá, do poder pelo poder. A rua disse aos poderosos que o poder é do povo, que o mandato é representação política e não privilégio de casta, é temporário e precário.

Eleição, no Brasil, tem sido uma renúncia, a vontade política do povo sequestrada pelos eleitos e pelos partidos, que raramente representam o eleitor de vontades e carências, representando muito mais os grupos de interesse que o instrumentaliza. O poder do lobismo junto aos parlamentares e ao governo confirma essa distorção. O sistema político brasileiro tornou-se um sistema de silenciamentos e cumplicidades. A crítica social foi inviabilizada pelos donos oficiais da verdade, seja a crítica popular, seja a crítica profissional dos especialistas. O cala-boca virou instrumento de dominação. Partidos e movimentos sociais organizados ignoram ou desqualificam as interpretações que não venham de seus próprios quadros. Não há debate. Criou-se no Brasil o mero teatro da participação política e a real exclusão da diversidade e das demandas sociais emergentes, as que não foram capturadas pelo sistema de conivências, cumplicidades e temores. Um extenso silêncio acumula, na verdade, um elenco extenso de demandas sociais não reconhecidas nem pelo governo, nem pelos partidos, nem pelos grupos de mediação que fecharam os canais de comunicação entre o povo e o poder.

Esse sistema político deteriorado está claramente presente na crítica contida nos descontentamentos destes dias.Uma grande massa de silenciados no cotidiano encontrou uma brecha para gritar suas diversificadas e desencontradas demandas e manifestar sua crítica do poder e dos governos. Num regime político baseado em pautas de negociação de grandes quantias e grandes porcentagens, foi uma simples demanda de redução de 20 centavos na tarifa dos ônibus que disseminou a revolta, aglutinou o elenco das pequenas demandas sociais e fez emergir um novo sujeito político, que é o das demandas residuais tratadas como irrelevantes.

A nova revolta do vintém colocou no centro do processo político brasileiro a fome de palavra e a fome de direitos sociais. Trata-se de uma nova pobreza, a pobreza de direitos, nos abusos que reduziram o transporte público a uma punição, a educação a uma condenação à falta de destino e de futuro, a saúde pública a uma doença. Henri Lefebvre, eminente sociólogo francês, estudioso da revolta estudantil de 1968, foi quem trabalhou teoricamente a revolta dos subterrâneos, a insubmissão das demandas que não foram capturadas pelo poder, a coalização dos resíduos do que não encontrou canal de expressão nos meios políticos e institucionais. Aqui, também, o fato de que as manifestações não se enquadrem em nenhum dos esquemas convencionais de interpretação sugere que estamos em face da irrupção do descontentamento dos que não foram contemplados pelas políticas sociais dos governos. A demagógica e ilusória prioridade aos pobres deixou de lado a classe média e suas demandas justas e cidadãs. Os órfãos de políticas sociais foram às ruas, cercaram os palácios e querem já uma revisão do poder e da concepção de poder.

* José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e autor, entre outros, de a Sociabilidade do homem simples (Contexto)

Fonte: Aliás / O Estado de S. Paulo

A conjuntura atual e as nossas tarefas – Alberto Aggio

A conjuntura avançou por conta da iniciativa ou da reação do governo com a proposta do plebiscito. Um cenário contraditório se estabelece: a presidente vê sua popularidade cair para 30% e se dá o mesmo na ultima pesquisa Datafolha para os candidatos a presidência em 2014. Por outro lado, a proposta do plebiscito tem alcançado um índice de aprovação muito alto (68%) e já aparece como tabua de salvação da candidatura Dilma.

A outra questão está no plano mais intelectual em relação à disputa do campo da esquerda, que nós estamos fora ou fomos jogados para fora, a despeito dos nossos esforços. Apesar dos tropeços, a mídia mais ativa nesse campo ainda valoriza muito as bobagens escritas ou faladas pela Marilena Chaui, mantêm forte presença e garante espaço ao esquerdismo enragè do Vladimir Safatle e agora faz um grande estardalhaço com a publicação do instant-e.book do Marcos Nobre que expressa um forte saudosismo em relação ao PT de 1989. Intelectualmente é essa esquerda que está ai, tratada como tal.

Acho que há uma tarefa a cumprir da nossa parte e precisamos definir campos, projetos, valores, instrumental para nos apresentarmos na cena como expressão da "esquerda democrática". Tanto mais isso é necessário porque já há forte movimentação no sentido de o chamado neomarxismo recém desembarcado aqui (ou nem tão recente) tratar como o maior problema para uma política de esquerda a existência da democracia representativa e do Estado de Direito Democrático. Acho que temos que pensar em algo como uma manifestação/documento dos intelectuais da "esquerda democrática", em Braslia ou em algum outro lugar, para demarcar esse terreno e ingressarmos ativamente nessa batalha.

* Peço licença também para postar abaixo um argumento que acho razoável desenvolvido pelo Azedo. Vale a pena refletir sobre ele. Está ai para discussão. Da minha parte, me parece interessante jogar a questão da reforma política para o contexto das campanhas antecipadas, especialmente porque a proposta de reforma do PT é muito impopular: lista fechada e financiamento exclusivamente público.

"Tudo pode acabar em pizza

Não existe democracia sem Congresso eleito, funcionando, com as devidas prerrogativas. Executivo forte e presidente popular não são garantias de democracia, pelo contrário. Nós já tivemos um que foi muito popular na década de 1970; general, assistia jogo no Maracanã ouvindo radinho de pilha. Fracos, menos ainda.

Falo isso porque o Congresso está sendo atropelado pelo Palácio do Planalto, embora venha reagindo de forma positiva aos protestos da população. No momento, a popularidade de Dilma Rousseff está desabando, os partidos estão desgastados, o dólar está subindo, a inflação também. E os atos de vandalismo se repetem por todo o país, após as manifestações (sejam de 300 mil ou de 500 gatos pingados).

Não gosto desse cenário, essa é a rota de uma crise institucional. Chegará uma hora que a maioria da população derivará para uma espécie de "Basta!". Prefiro é que tudo isso desague nas eleições, respeitando as regras do jogo vigente.Que cada candidato apresente na campanha a sua proposta de reforma política e, depois de eleito, as encaminhe ao Congresso, que também será eleito e renovado. Se for mudar alguma coisa imediatamente, deveria ser para a inscrição de candidaturas avulsas.

Essa proposta de plebiscito a toque de caixa, para uma reforma política ampla e irrestrita, mal discutida pela sociedade, a vigorar nas eleições de 2014, é muito voluntarista. Beira o golpismo. Faz um apelo populista às massas, mas não aponta um rumo para o país enfrentar a crise, que se agrava. Mais: a responsabilidade de administrar o país até às eleições é pessoal e intransferível: cabe à presidente da República, aos governadores e aos prefeitos. Não tem plebiscito que substitua isso". Luiz Carlos Azedo.

Alberto Aggio, historiador e professor da UNESP

Dilma em chamas - Eliane Cantanhêde

O Datafolha confirma para o leitor/eleitor o que oposições, Planalto e Lula já sabiam: a popularidade de Dilma esfarela e a reeleição vai para o beleléu. Uma queda de 27 pontos pode ser mortal.

Não foi por falta de aviso. Dilma entrou mal em 2013, autoconfiante com os recordes nas pesquisas, surda para o baixo crescimento com inflação alta, muda para os políticos e estridente com os auxiliares.

A popularidade já tinha despencado oito pontos antes mesmo das manifestações, pela falta de comando político e de rumo na economia. A explosão social fechou o cerco.

E não houve má vontade da mídia, tão demonizada no poder. Telejornais e jornais resistiram a admitir que a crise batia à porta da presidente, mesmo com o Planalto cercado na quinta-feira aguda. Não foi só o Exército que protegeu Dilma...

Mas o presidencialismo brasileiro é muito concentrador, e os louros e as culpas de tudo e qualquer coisa são sempre do (da) presidente. Dilma ainda pode se recuperar em parte, mas a abstrata reforma política não sensibiliza as massas e ela nunca mais será a mesma.

A perda de mais da metade da popularidade (8 mais 27) deixa o PT em pânico, desequilibra as peças no PMDB e mexe com os cálculos de toda ordem na complexa base aliada.

Do outro lado, reacende a candidatura Eduardo Campos, dá gás a Marina Silva e cria a sensação de "agora vai" na campanha de Aécio Neves, em que as atenções estão no PMDB, que tem faro para o poder.

Dilma ofendeu o vice Temer com a "barbeiragem" da constituinte exclusiva, bateu de frente com o deputado Eduardo Cunha, que manda na bancada, e não tem ideia do efeito arrastão que o PMDB pode ter nos outros partidos aliados.

Mas o mais devastador para Dilma é o efeito em Lula. Calado estava, calado continua. Soltou nota burocrática na sexta-feira e escafedeu-se para Lilongwe e Adis Abeba. Posto a salvo, enquanto Dilma vira cinzas.

Fonte: Folha de S. Paulo

Marina, a evangélica - Merval Pereira

A queda espetacular de popularidade da presidente Dilma registrada na pesquisa Datafolha de ontem - apenas 30% dos consultados consideram seu governo "bom"ou "ótimo", contra 57% na primeira semana deste mês - tem reflexos inevitáveis na corrida presidencial. O PSDB tem uma pesquisa nacional que mostra uma reversão de expectativas, com o segundo turno garantido e os adversários do PT tendo a maioria dos votos, embora a presidente Dilma continue à frente.

Pela pesquisa, a presidente teria hoje 40% dos votos; a ex-senadora Marina Silva, 22%; o senador Aécio Neves, 20%; e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, 5%. Mais uma vez, Marina surge como a grande beneficiária dos movimentos de contestação que ocorrem pelo país, pois, embora tenha sido senadora por 16 anos e fundadora do PT, ela não é percebida pela população como uma política profissional.

Mas Marina tem também um lado evangélico que, segundo estudos recentes, foi decisivo na sua votação na campanha de 2010. O professor Cesar Romero Jacob, diretor do Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio, lançou recentemente o e-book "Religião e Território no Brasil: 1991/2010", da Editora da PUC, trabalho que, ao analisar as transformações no perfil religioso da população brasileira, com o crescimento do número de evangélicos, pode ser útil para o entendimento do cenário eleitoral do ano que vem, considerando a participação crescente de pastores pentecostais na política.

Segundo Romero Jacob, o pluralismo religioso se consolidou no país, com a Igreja Católica perdendo 24 pontos percentuais. O número de católicos cai de 89% da população para 65% em 30 anos. No mesmo período, os fiéis do conjunto de Igrejas Pentecostais passam de 3% da população, em 80, para 13% em 2010. "O Brasil deixou de ser um país de hegemonia católica para ser um país de maioria católica".

Segundo o estudo, no Nordeste, em Minas Gerais e no Sul do Brasil, o percentual de católicos se mantém muito elevado, mas nas áreas de imigração para a fronteira agrícola e mineral do Centro-Oeste e Norte e na periferia das regiões metropolitanas os pentecostais crescem. "De um modo geral, diz Romero Jacob, nas áreas de expansão recente e, sobretudo, num certo caos social, o pentecostalismo se implantou".

Essa seria a razão da participação de Marina Silva em cultos evangélicos para a coleta de assinaturas em apoio à criação do seu partido, a REDE, como seus militantes fizeram ontem na Marcha para Jesus, em São Paulo. Apesar de o livro se ater à questão religiosa, os mapas permitem algumas ilações políticas, uma vez que os pastores têm demonstrado certo controle sobre o eleitorado evangélico pentecostal.

Na política, na época da eleição de 2010, na análise de Romero Jacob, Marina conseguiu atrair os insatisfeitos com a campanha do Serra, os petistas insatisfeitos com os rumos do governo do PT, os evangélicos e até os verdes, que não têm uma expressão tão grande assim do ponto de vista eleitoral. Mas o que parece agora, com dados novos, diz o professor da PUC, quando se analisa o mapa dos pentecostais e não determinados com o mapa da votação da Marina, "mesmo que não sejam exatamente iguais, têm pontos de contato muito nítidos".

Embora Marina tenha construído uma carreira em torno da questão ambiental, isso não significa dizer que os evangélicos não a tenham apoiado fortemente. "É claro que a Marina não é uma evangélica óbvia, ela tem uma sofisticação na fala, no sentido de não estar diretamente ligada à questão religiosa", analisa Romero Jacob, ressaltando que "quem é muito óbvio, como Garotinho e Crivella, tem uma rejeição muito alta exatamente pela mistura da religião com política". Ou, como define, "tem um piso alto, mas um teto baixo".

Em 2010, Marina tinha a agenda verde na mão, mas agregou pouco ao PV. Os 20 milhões de votos não aumentaram a bancada de deputados federais do PV. "Quando se vê Marina indo buscar assinaturas em cultos evangélicos para viabilizar seu partido, isso significa que aí ela se restringe", comenta Romero Jacob.

Entre 22% e 40% se declara evangélica no estado de São Paulo, que tem ¼ do eleitorado, o que dá a Marina robustez eleitoral, "insuficiente para levá-la ao segundo turno, mas suficiente para construir um segundo turno".

Os mapas indicam, segundo Romero Jacob, que a votação da Marina em 2010 foi menos dos verdes e dos eleitores insatisfeitos e mais dos irmãos, sobretudo no Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo. "Mesmo que a Marina não tenha feito campanha voltada para as igrejas, as igrejas fizeram campanha para ela".

Os pontos-chaves

1. O PSDB tem pesquisa mostrando que o segundo turno em 2014 é certo

2. O lado evangéllico de Marina foi decisivo para seu desempenho em 2010, segundo o professor Cesar Romero Jacob

3. Essa influência ocorreu sobretudo no Rio, em São Paulo e no Espírito Santo

Fonte: O Globo

Apropriação indébita - Dora Kramer

Quando o presidente do Senado - alvo de processo no Supremo Tribunal Federal por peculato, falsidade ideológica e uso de documentos falsos - posa como um dos principais condutores do processo de ouvidoria das ruas que reclamam, entre outras coisas, por uma trava da corrupção, há uma patente dissonância entre as mensagens e a confiabilidade dos candidatos a mensageiros.

O senador Renan Calheiros, suas suspeitas circunstâncias e a insensibilidade do Senado ao reconduzi-lo à presidência são componentes da bomba que explodiu em forma de exaustão. As excelências seguem tentando ignorar essa evidência; por cinismo ou impossibilidade de questionar institucionalmente um papel cuja legitimidade a Casa conferiu a ele, não importa.

Fato é que Calheiros no papel de arauto das ruas é o retrato resumido e invertido de todos os que agora reagem como se não tivessem nada a ver com a mensagem, tentando fazer bonito sem reconhecer tudo o que fizeram de feio nem se dispor a garantir que daqui para frente tudo vai ser diferente.

O senador é apenas parte do cenário de desfaçatez e apropriação indevida dos reclamos. Nele atua um elenco enorme no Legislativo com seus atos secretos e convivência cordial com processados, investigados e condenados; no Executivo, com catequese ufanista e exuberante ineficiência emoldurada por 39 ministérios.

Esses atores contaram com a passividade da sociedade, que realmente parecia eterna, incurável e contagiosa. Quando a massa resolveu mudar o tom da conversa de maneira contagiante, transformaram-se todos subitamente em porta-bandeiras dos avanços como se não fossem eles mesmos os mestres-salas do atraso.

O Judiciário, a despeito de suas deformações sobre as quais dão notícia privilégios corporativos e maus serviços prestados no dia a dia, merece ressalva na figura do Supremo Tribunal Federal.

Foi o primeiro a perceber que era preciso abrir os ouvidos às demandas da sociedade e por isso foi acusado, pelos mesmos engenheiros de obra feita de agora, de praticar ativismo indevido e usurpar poderes dos Poderes inativos. Demorou, é verdade, mas deu uma resposta efetiva ao não permitir mais protelações na execução da pena do deputado Natan Donadon.

As demais providências - pactos, cancelamentos de reajustes, anúncios de investimentos, endurecimento de leis e um plebiscito sem fio terra - por ora são terrenos vendidos em paraíso imaginário. Produtos de uma hiperatividade de ocasião.

E até que se corrijam falhas, se reconheçam erros cometidos e se firme um compromisso em torno de procedimentos totalmente diferentes, não merecem credibilidade. Tanto soam oportunistas esses valentes soldados de causas até então solenemente ignoradas, que não há disposição de trégua à vista.

O governador Eduardo Campos, de Pernambuco, fez esse alerta. Não atraiu muita atenção e ficou perdido em meio a declarações e reações desencontradas de autoridades que, conforme apontou, ainda atuam no modo analógico enquanto a sociedade já opera "no sistema digital".

É um aviso importante para todas as forças políticas, de governo e de oposição: pegar carona nos movimentos não será suficiente para que nenhuma delas consiga capitalizar eleitoralmente o descontentamento.

Casa de Irene. A presidente Dilma Rousseff recebe amanhã a oposição para discutir o momento. Como gesto, vale o simbolismo. Do ponto de vista objetivo, efeito nenhum, pois o problema do governo não está do lado de fora, mas dentro da própria casa de onde partem as críticas mais ácidas, vicejam aflições represadas e diluem-se os receios de contestação na proporção direta da perda do capital político, hoje dependente do imponderável.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Escolhidos e excluídos - Tereza Cruvinel

Com o legado do lulismo em risco, petistas dizem que o maior erro de Dilma foi a desatenção para com a própria base social e política

"Quem joga os amigos ao mar não contará com eles na tempestade." Essa frase foi dita à presidente Dilma Rousseff, no início de seu governo, em conversa sobre o tratamento que vinha sendo dado a aliados e remanescentes do governo Lula. Mais que os amigos, dizem os petistas no calor da crise, Dilma foi desatenciosa para com a base social e política do próprio lulismo, que garantiu sua eleição. E a tempestade chegou. Na semana passada ela se dedicou a uma maratona de encontros com movimentos sociais – Passe Livre, centrais sindicais e LGBT – e com políticos aliados: presidentes de partidos e líderes que integram o Conselho Político do governo, que ela jamais tinha convocado.

Agora, quer ouvir a oposição, com a qual nunca houve diálogo, ainda que formal. Pessoas do governo procuraram outros segmentos abandonados. Porém, na avaliação de petistas, isso não bastará para quebrar o isolamento criado pelos protestos, mas também por erros políticos e de comunicação, antigos e novos.

Iniciada a tempestade das ruas, o mal-estar já era grande. A bancada do PT engolira suas mágoas enquanto as bancadas dos partidos aliados respondiam ao desprestígio com guerrilhas nas votações deste ano. Na segunda-feira, os governadores e prefeitos chamados ao Planalto se sentiram figurantes na reunião sobre um pacto que não foi discutido nem negociado previamente. A proposta de constituinte exclusiva, ao ser apresentada sem consulta prévia, irritou o Congresso e vitaminou a oposição. Nem sequer o vice-presidente, Michel Temer, constitucionalista, fora informado.

Os meninos do Passe Livre saíram praguejando contra a falta de objetividade. As centrais sindicais amuadas porque não se tratou da agenda delas, que inclui o fim do fator previdenciário e a redução da jornada. Na era Dilma, o latifúndio foi favorecido em relação aos índios e ambientalistas, e segmentos conservadores, como os evangélicos fundamentalistas, fortalecidos diante dos movimentos libertários.

Cobrou-se o silêncio de Lula, mas ele não esteve calado. O que evitou foi declarações pela imprensa. Conversou com líderes de movimentos sociais, os de sua base, e os estimulou a irem para as ruas. "Se querem luta de massas, vamos fazer luta de massas", teria dito antes de embarcar para a África. As centrais, todas elas, marcaram um ato conjunto para o dia 11, que pode ter o formato de protesto ou de greve geral. Isso elas ainda estão definindo, mas será um ato unitário e diferenciado dos protestos "difusos", do qual se aproveitam tantos grupos obscuros, inclusive uma extrema direita renascida. O ato das centrais terá articulação, líderes e propostas. A UNE e UbeS já mostraram a cara.

Julho, tudo indica, continuará movimentado. O Congresso terminou a semana entregando, com a eficiência ditada pelas ruas, uma boa cesta de votações, como a derrubada da PEC 37 e a nova criminalização da corrupção. Mas, tendo no colo a proposta de um plebiscito sobre a reforma política, que terá de viabilizar, embora a preferência nítida seja pelo referendo. Quando, no futuro, os historiadores escreverem sobre o levante junino, qualquer que seja o nome que lhe deem, alinharão muito mais que esses elementos para explicar como ocorreu tão brusca e veloz alteração na conjuntura que ameaça o legado do lulismo e do PT, na economia e no social.

Na verdade, a dilapidação foi lenta e contínua, e teve como corrosivo o descaso com a política e com a base social, sem falar na classe média.

Aulas no plebiscito

Se o plebiscito vingar mesmo, terá uma campanha curta em agosto. Os partidos – por mais que os manifestantes não queiram, eles são os atores da representação democrática – formarão frentes parlamentares para defender diferentes preferências. O tempo de tevê será igual para todos. O senador Rodrigo Rollemberg (PSB-DF) já defende, entretanto, que boa parte dele seja reservada ao TSE, para a veiculação de explicações didáticas sobre temas com o voto distrital e voto proporcional; lista aberta ou lista fechada; financiamento público ou privado de campanhas. A reforma política tem que ir além, mas outros pontos não devem entrar. Caberá ao Congresso entender o recado das ruas e aprovar as mudanças complementares.

Junto e misturado

Só não viu quem não quis que nesses protestos havia mais que indignação política. As forças de segurança já sabem que no Rio, por exemplo, atuaram mercenários do tráfico, em revanche contra as UPPs, que minaram seus negócios. Os donos de vans, do transporte pirata suprimido pelo prefeito Eduardo Paes, mandaram seus vândalos quebrar os ônibus. Outras forças ocultas estão sendo identificadas.

Fonte: Estado de Minas

A passeata de 1968 foi o fim de um ciclo - Elio Gaspari

Na semana passada, enquanto as multidões continuavam nas ruas, ecoou a memória da Passeata dos Cem Mil, de 26 de junho de 1968. A geração daqueles dias, com sua magnífica experiência, atribuiu-se uma capacidade de explicar o presente fazendo paralelos com o que viveu. Assim, além de não se explicar o presente, frequentemente muda-se o passado.

No dia 26 de junho de 1968, aconteceram duas coisas. Às 4h30m da madrugada, o soldado Mario Kozel Filho, de 18 anos, estava na guarita de sentinela do QG do II Exército, no Parque do Ibirapuera, e viu uma caminhonete C-14 vindo em direção ao portão do quartel. Desgovernada, ela parou num muro. O soldado foi ver o que era, e a C-14, com 50 quilos de dinamite, explodiu e matou-o. Horas depois, numa bela tarde do Rio, a passeata saiu pela avenida.

Contavam-se nos dedos as pessoas que gritavam "O povo unido jamais será vencido" dando importância à Vanguarda Popular Revolucionária, que explodira a bomba no Ibirapuera.

Seis meses depois, o governo baixou o AI-5, ninguém foi para a rua, e o Brasil entrou no seu pior período ditatorial. Não foi a passeata que levou a isso. Ela era o fim de um ciclo. A bomba e o interesse do governo em subverter a precária ordem constitucional da época foram o início de outro.

Festejando-se a memória da passeata, varreu-se para baixo do tapete a lembrança de um erro catastrófico. Passaram-se 45 anos, e centenas de pessoas que participaram de atos terroristas maquiaram-se como combatentes da causa democrática. Lutavam contra uma ditadura, em busca de outra, delas.

É o caso de se perguntar: o que é que isso tem a ver com o que está acontecendo no Brasil de hoje? Nada. O professor Pedro Malan já disse que no Brasil não só o futuro é imprevisível, mas também o passado. O sumiço da bomba do Ibirapuera na memória do 26 de junho de 1968 mostra que ele tem razão. Quem queria golpear a democracia? Cada um tem direito a responder como bem entender. O que não se pode é achar que há 45 anos tanto o marechal Costa e Silva como os tripulantes do comboio que levou a bomba ao QG do Ibirapuera quisessem defendê-la.

Tarso Genro deveria devolver os livros

Governador do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Justiça, Tarso Genro deveria pedir à sua polícia que devolva aos militantes da Federação Anarquista Gaúcha os livros que capturou durante uma diligência feita em sua sede.

Apreender livros não fica bem para um governador que se diz empenhado numa "revolução democrática". A situação piora quando se vê que o chefe da Polícia Civil, delegado Ranolfo Vieira Jr., informou que "é importante dizer que foi apreendida vasta literatura, eu diria assim, a respeito de movimentos anarquistas".

O comissário Genro sabe que a expressão "vasta literatura" vem de outro tempo, quando apreenderam até "O vermelho e o negro", romance de Stendhal. No caso, admita-se que em muitos países do mundo se pensa, como em Porto Alegre, em recolher obras de Noam Chomsky. Em 2002 o professor esteve em Porto Alegre para o Fórum Social Mundial, festejado pelo PT. O comissariado mudou, e Chomsky não acompanhou os novos tempos.

O problema torna-se significativo quando se sabe que na "vasta literatura" estava um volume de "Os anarquistas no Rio Grande do Sul" com histórias e fotos de velhos militantes (todos mortos) do anarquismo local. Ele foi publicado em 1995, informando que os "direitos desta edição" eram da Secretaria de Cultura de Porto Alegre, na gestão do prefeito Tarso Genro. O autor, João Batista Marçal, jamais recebeu um tostão pela obra.

Plebiscito

O senador Francisco Dornelles listou as variáveis que deveriam constar numa consulta plebiscitária séria sobre um novo sistema eleitoral.

Por exemplo:

O voto distrital deve ser puro ou misto? Se for misto, como serão divididas as cadeiras? Quem ordenará uma lista fechada, os mandarins ou os eleitores? Como serão demarcados os distritos?

O voto deve ser obrigatório? As empresas perdem a capacidade de investir em candidatos? E os cidadãos? Poderão doar só para os partidos? Haverá candidatos avulsos? Nesse caso, quem os financiará? E a reeleição?

Numa conta conservadora, a cédula precisaria apresentar pelo menos 20 perguntas.

Isso se o assunto fosse tratado seriamente.

É ou não é?

No início da semana, Jilmar Tatto, secretário de Transportes do prefeito Fernando Haddad, condenou a ideia de se instalar uma CPI na Câmara dos Vereadores para discutir tarifas e serviços de ônibus de São Paulo. Foi claro:

"Sou totalmente contra, porque CPI, geralmente, quando se instala, é para ficar achacando o setor, não é para resolver, tirar dúvidas."

Para quem viu o que aconteceu com a CPI do Banestado na Câmara dos Deputados, ele tem um argumento forte.

Dois dias depois, a bancada petista apoiou a criação da CPI. Tatto desculpou-se por meio de uma nota lida por seu irmão Arselino, como outro (Jair), é vereador e petista.

Eremildo, o idiota, refraseou a condenação:

"Sou totalmente a favor, porque CPI, geralmente, quando se instala, é para ficar achacando o setor, não é para resolver, tirar dúvidas."

Aula de economia

Os repórteres Fernanda Odilla e Filipe Coutinho cavucaram uma cifra que poderia ajudar a doutora Dilma e o ministro Guido Mantega a entender os fenômenos da inflação de serviços e da prodigalidade com que se torra o dinheiro da Viúva.

Em nove pronunciamentos em cadeia nacional feitos até dezembro passado, cada maquiagem da doutora custou R$ 400. Nos três ocorridos entre dezembro de 2012 e março deste ano, cada serviço custou R$ 3.125, uma alta de 681%. Nem quando Yara Iavelberg levou-a para um corte no famoso Jambert o realce custou tanto. Dinheiro público tem um zero a mais.

No seu salão paulista, Celso Kamura, que cuida do visual da companheira em Brasília, cobra R$ 680 por um trato no cabelo e na estampa.

Em 1993 o presidente Bill Clinton pagou US$ 200 por um corte em Los Angeles, enquanto o Congresso tesourava o Orçamento. Deu um bolo danado.

A força do ronco

Antes do ronco da rua, o projeto do governo que destinava dinheiro do pré-sal para a Educação limitava-se a 75% dos lucros que o Tesouro obtivesse com aplicações de recursos. Era coisa de R$ 25,8 bilhões.

Com o ronco, a Câmara dos Deputados fez com que a percentagem incidisse sobre todo o lucro do Tesouro, o que decuplicou o investimento em Educação, para R$ 285 bilhões.

Drª Juliana

Tudo o que está publicado neste espaço é de pouca valia se for comparado com o texto "O dia em que a presidenta Dilma em dez minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros", da cirurgiã carioca Juliana Mynssen. O título é um pouco forte, mas é dela e permite achá-lo na rede.

Fonte: Folha de S. Paulo/ O Globo

Pesquisa zera a sucessão - João Bosco Rabello

A queda vertiginosa nos índices de aprovação, que a devolveu ao patamar histórico de votação do PT antes da primeira eleição de Lula, - 30% -, marca o ingresso da presidente Dilma Rousseff numa etapa em que a meta passa a ser salvar o que resta de seu governo.

A reeleição, em pouco mais de 30 dias, deixou de ser uma certeza para transformar-se em meta improvável, segundo avaliações da sua própria base de sustentação.

Estimulante para qualquer candidato que parte do zero, o índice a que desceu a presidente é dramático para quem está no cargo e pretende a reeleição. Não autoriza sequer a previsão de chegada ao segundo turno, o que no seu caso, indica uma velocidade inédita na corrosão de um capital político que, há 60 dias, avalizava a vitória no primeiro turno.

O tempo também conspira contra a capacidade de reação da presidente, cuja consistência depende de movimentos ousados que a indisporiam ainda mais com sua base, onde o descontentamento, principalmente no PT, já virou fogo amigo.

Possibilidade de reação existe, mas poucos acreditam que a presidente a encare pela ruptura que significaria com sua base, sem garantias de êxito. Como reduzir à metade os ministérios, por exemplo.

Passa também pela mudança de rumos da economia, cuja crise atingiu o bolso do eleitor bem antes do que previra a otimista área de marketing que orienta as ações de seu governo.

Como se vê, não é pouco, considerando as circunstâncias políticas desfavoráveis. A pesquisa agora divulgada traz índices que o Planalto já conhecia de suas consultas e responde pelo movimento queremista no PT pelo retorno de Lula.

Esse movimento, que o ex-presidente sugere avalizar com seu silêncio público, se materializado, terá o efeito de liberar os aliados dos compromissos com a reeleição.

Para partidos como o PMDB e o PSD, uma coisa é Dilma, outra, Lula - a primeira sem qualquer historicidade no PT; o segundo, o próprio PT.

E resta ainda a aventura embutida no retorno do ex-presidente, que provavelmente já não ostenta os mesmos índices com que encerrou seus dois mandatos e, portanto, já não seria uma aposta incondicional.

Em outro cenário, bem mais remoto, o PT teria de admitir não concorrer com candidato próprio - e aí o nome mais palatável ao partido seria o inimigo da hora, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB).

Efeito cascata

Também desgastado pelas ruas, o presidente do PT, Rui Falcão, tem sua reeleição ameaçada. O deputado Paulo Teixeira (SP) se lança ao posto na próxima quinta-feira, com apoio do governador Tarso Genro (RS) e do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.

Agenda positiva

O Congresso manterá a agenda positiva na próxima semana. A Câmara deve enterrar o projeto da “cura gay”. No Senado, Renan Ca-lheiros, alvo dos protestos, quer aprovar o passe livre para estudantes nos transportes públicos.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Antonio Carlos Jobim - Chega de saudade

Os ombros suportam o mundo – Carlos Drummond de Andrade

Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.