domingo, 3 de novembro de 2013

O feitiço contra o feiticeiro - Ferreira Gullar

Há muito mais necessitados do que Lula pensava e todos passaram a querer também bolsa, casa, geladeira etc.

Sinceramente, você acha que Lula contava com tamanho descontentamento popular, após dez anos de governo petista?

Acredito que não. Pelo menos, é o que poderia deduzir dos tantos discursos que fez, quando presidente da República, e que foram repetidos depois por sua substituta, Dilma Rousseff, pelos ministros de ambos os governos e pelos dirigentes petistas. O Brasil nunca antes, em tempo algum, foi tão feliz. Por isso mesmo, insistem em fazer de conta que o descontentamento, que se manifesta todos os dias nas ruas, não tem nada a ver com eles.

Mas tudo tem limite. Por isso mesmo, Lula, esperto como é, veio a público dizer que, quando líder sindical, nunca participou de vandalismos. É verdade. Mas o problema maior, para ele, não é o vandalismo, que todo mundo condena.

O que é mais preocupante, para o governo, nessas manifestações, pelo que reivindicam e pelo que denunciam, é a demonstração de que algo deu errado nos governos petistas, que vieram para contentar os trabalhadores e o povão.

Não resta dúvida de que Lula, ao ampliar o assistencialismo com o Bolsa Família, ao aumentar o salário mínimo e tomar medidas estimuladoras do consumo, possibilitou a ascensão de um amplo número de pessoas a condições de vida um pouco melhores.

Esse fato teve reflexo positivo na vida econômica --mas no quadro social do país, como advertiram os economistas, tratava-se de uma melhoria momentânea, incapaz de ampliar-se e mesmo sustentar-se por muito tempo. É que os investimentos imprescindíveis em setores estruturais, de que depende o crescimento econômico efetivo, não foram feitos, certamente porque não trariam consigo o mesmo apelo eleitoral. Essa é uma característica do populismo, coisa antiga no Brasil.

A preocupação em conquistar o eleitor --e especialmente o eleitor mais carente e menos informado dos problemas do país-- foi desde o início a marca do governo petista. E não por acaso. Todos se lembram da declaração de José Dirceu, dada naquela época, garantindo que o PT ficaria no governo por 20 anos, pelo menos.

Dez anos, ele já ficou; quanto aos outros dez, pelo que se vê agora, restam sérias dúvidas. Mas, por isso mesmo, a preocupação essencial do governo Dilma é a mesma que a do governo Lula, mas com algumas concessões que foi obrigada a fazer, como privatizar aeroportos e, agora, permitir a participação de empresas privadas estrangeiras no leilão do campo de Libra.

Por suas raízes ideológicas, o PT nasceu sonhando com uma revolução do tipo cubana no Brasil e, consequentemente, contra o capitalismo. Foi difícil manter-se nessa posição, com as mudanças ocorridas no mundo, após queda do Muro de Berlim.

O radicalismo petista --que o levara a negar-se a assinar esta nova Constituição que está em vigor-- amainou-se após as sucessivas derrotas de Lula como candidato à Presidência da República. Ele obrigou o partido a recuar e passar a falar mais manso. Graças a isso, foi eleito e passou a viver um dilema: se se mantivesse esquerdista, não governaria. De qualquer modo, abraçava Bush e fazia questão de mostrar que sua verdadeira simpatia para Ahmadinejad.

Aqui dentro, a coisa era mais complicada: como privatizar os aeroportos se sempre condenara as privatizações? Mas tinha de fazê-lo e passou, então, a chamar as privatizações de "concessões" e pôr nelas exigências que as inviabilizavam. Agora, teve que recuar. Por outro lado, restava-lhe o caminho ambíguo do populismo chavista. E assim ampliou em vários milhões os beneficiados pelo Bolsa Família e financiou o consumismo das faixas mais pobres.

Sucede que, no Brasil, há muito mais necessitados do que Lula pensava e todos passaram a querer também bolsa, casa, geladeira, fogão, televisão de graça. Por outro lado, a economia exige que o Estado se abra à iniciativa privada. Ou faz isso, ou o país para de crescer. Aliás, já há quem preveja, para breve, crescimento zero.

Assim, Dilma abriu o leilão de Libra a empresas estrangeiras, o que foi certo, mas os operários do petróleo não pensam assim; pensam como Lula lhes ensinou: privatizar a exploração do petróleo é trair a pátria. Com essa ele não contava.

Fonte: Folha de S. Paulo / Ilustrada

Cheios de dedos - Dora Kramer

Caso estejam mesmo pretendendo algo além de apenas competir na eleição presidencial de 2014, convém que os candidatos de oposição à reeleição da presidente Dilma Rousseff preparem armas e façam as bagagens para enfrentar uma parada dura. Não a presidente, cujo favoritismo não supre suas evidentes deficiências nem obscurece o fato de que, com todas as facas e os queijos à sua disposição, conta com 38% nas pesquisas de intenção de votos. O x da questão é o ex-presidente Lula da Silva, a quem todos eles prestam a maior reverência, a quem todos parecem temer.

A ele todos respondem com punhos de renda enquanto são atacados por mãos de aço. Simulam indiferença para não dar mais corda e fazer exatamente o que ele quer: chamar a briga para si, atrair as luzes, consciente que é da própria mítica, da capacidade de alimentá-la e da carência de atributos de sedução eleitoral de Dilma Rousseff.

Ocorre que não vai adiantar. Bem recuperado de saúde e indiferente à promessa de fazer “churrasquinho em São Bernardo” quando deixasse a Presidência a fim de ensinar a antecessores como devem se comportar chefes de nações após o exercício do poder, Lula está a toda velocidade e, por que não dizer, ferocidade. Não que quando ocupasse de direito o Palácio do Planalto fizesse alguma cerimônia nos quesitos distorção da verdade, atropelo da lei, elogio à incoerência e desapreço pela civilidade no trato de quem lhe faz oposição. Mas agora, livre de questionamentos legais, está solto para dizer o que quiser de quem bem entender, no tom que melhor lhe convier como, de resto, tem feito.

E o que faz a oposição? Faz-se de desentendida. Pega leve. Seja na expressão do tucano Aécio Neves, que convida o ex-presidente a parar de “brigar com a história” (como se não fosse este um dos truques mais batidos e repetidos por Lula) ou nas palavras do governador Eduardo Campos que, diante das provocações, ressalta suas ótimas relações pessoais com o ex-presidente.

Amenidades apenas táticas, certamente. Mas em se tratando do personagem em tela, isso não o paralisa nem o sensibiliza. Não se sugere aqui a socialização da grosseria e da mentira. Fala-se de algo mais simples, da confrontação de Lula com os fatos, a exposição de suas mistificações, a crítica ao seu desprezo aos valores tão exaltados por adversários como Marina Silva. Mas para isso é preciso ter coragem.

Demagogia. Não fica em pé e falta também cabeça à emenda constitucional aprovada semana passada na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara instituindo regra que altera o modelo de composição dos legislativos federal, estaduais e municipais para reservar um mínimo de um quinto e o máximo de 50% das cadeiras existentes a parlamentares que se declarem de origem negra. Note-se que a proposta é muito diferente daquela que exige dos partidos uma reserva de 30% das vagas de candidatos para mulheres. A ideia agora é que o eleitor vote duas vezes, sendo uma especificamente para preencher a cota.

Primeira pergunta: a outra escolha deverá ser necessariamente em brancos? Têm-se aí um desenho perfeito de segregação a ser reproduzido na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e nas câmaras de vereadores.

Segunda pergunta: a cor da pele determina ou assegura o desempenho, a compostura, a identificação das ideias, a confiabilidade e até a representação social?

Terceira pergunta: onde fica a igualdade de condições eleitorais como determina a lei?

Quarta pergunta: não fossem essas e tantas outras questões que por certo serão levantadas, desde quando é de se esperar que o Congresso aprove uma reserva de mercado racial? Tal emenda seria apenas mera demagogia não fosse, sobretudo, ridícula.

Fonte: O Estado de S. Paulo

O tempo que resta - Tereza Cruvinel

No ocaso da legislatura, com a demanda do Executivo reduzida, o Congresso tem sua última chance de buscar a sintonia perdida com a parcela frustrada da sociedade civil

Em julho, os líderes da coalizão governista queixaram-se à presidente Dilma da inundação permanente do Congresso por medidas provisórias que trancam a pauta e impedem qualquer outro tipo de deliberação. Ela prometeu usar menos MPs e mais projetos de lei. De fato, editou apenas uma MP em cada um dos últimos três meses. Se a dieta for mantida, o Congresso poderá agora montar uma agenda mais autônoma, aproveitando o que lhe resta da legislatura para buscar a sintonia perdida com a parcela da sociedade civil frustrada com a política.

Há anos ouve-se nas duas Casas, e especialmente no chamado baixo clero, a ladainha de que os projetos dos próprios parlamentares não são votados porque o chicote do governo não deixa. Desde que não tratem de instituir o dia do cortador de banana e coisas assim, os mais relevantes podem agora ser pautados. Até porque, com o fim da legislatura, vão todos para o arquivo. O critério para a seleção devia dar prioridade, obviamente, aos que respondam à manifesta frustração da cidadania com os políticos e o sistema, corrigindo distorções ou aprimorando o exercício da representação. Um bom exemplo, a emenda que acaba com o voto secreto nas cassações, que o Senado deve aprovar conclusivamente esta semana. Mas vai muito além desse ponto a pauta institucional que poderia ser construída para ser tocada neste suspiro final da legislatura, depois que suas excelências aprovarem o inescapável e perigoso orçamento impositivo das emendas orçamentárias.

Não só para reduzir a tensão com os aliados Dilma vai aliviar sua demanda parlamentar, seja através de MPs seja de projetos de lei com urgência constitucional. O fato é que, desde o dia 5 passado, entramos para valer no chamado período eleitoral. Nesta altura, tendo apenas 11 meses de gestão pela frente, os governos concentram-se na rotina administrativa, na conclusão de projetos e na entrega de obras. É tarde para invenções, lançamentos e iniciativas. A própria Dilma admitiu isso aos líderes: dificilmente agora ela enviará ao Congresso MPs que precisem ser aprovadas como casos de vida ou morte, como a dos Portos ou a do Mais Médicos. As duas últimas, por exemplo, uma de 3 de setembro, outra de 25 de outubro, tratam de créditos suplementares, uma rotina na execução do orçamento.

Com a pauta mais livre, o Congresso poderá também resgatar algumas faturas que está devendo, concluindo a aprovação de projetos inconclusos que ficaram pelo caminho. É o caso do projeto de regulamentação dos direitos dos trabalhadores domésticos. Depois do louvor geral à aprovação da emenda constitucional que acabou com uma herança escravista, a regulamentação aprovada pelo Senado parou na Câmara. E, com isso, o FGTS das domésticas continua no papel.

“Nós temos, de fato, uma excelente oportunidade de fazer uma agenda própria, mas temos que evitar a tentação dos malabarismos, aprovando, nesta altura do campeonato, a menos de um ano da eleição, propostas como essa da autonomia do Banco Central. Certas coisas não podem ser feitas em fim de governo”, diz o vice-presidente do Senado, Jorge Viana. Dilma fez chegar ao presidente do Senado, Renan Calheiros, sua contrariedade com a possível votação do projeto, de autoria do senador Francisco Dornelles. Ele respondeu que não fará um cavalo de batalha por isso. Mas tem ele, como seus pares das duas Casas, o desafio de apresentar agora à sociedade uma agenda do próprio Congresso. Acabou a desculpa de que o governo não deixa.

Raça e gênero
A baixa representação política de negros, índios e mulheres faz parte da nódoa indelével do racismo e do preconceito de gênero que só recentemente começaram a ser esmaecidas pelas políticas de cotas, com resultados positivos no acesso ao ensino superior e a algumas carreiras de Estado. Mas o Congresso, diria Cláudio Lembo, continua dominado pela “elite branca”. Embora a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara tenha autorizado sua tramitação, alguns juristas já apontaram inconstitucionalidade na proposta de emenda constitucional dos deputados petistas João Paulo Cunha e Luiz Alberto, fixando uma cota de cadeiras para candidatos negros nos legislativos do país. Eles comporiam uma lista na qual cada eleitor votaria pela segunda vez.

Esse debate vai longe, e como está apenas começando, vale pontuar: qualquer medida corretiva terá de colocar no mesmo patamar a vergonhosa subrepresentação das mulheres. Somos maioria na população e no eleitorado, mas as deputadas somam apenas 8,9% e as senadoras, 12,3%. Diferentemente do que está sendo proposto para os negros, a cota existente para mulheres não é de cadeiras, mas de 30% das candidaturas de cada partido. Entretanto, sem acesso aos recursos, inclusive financeiros, para disputar com os figurões, surtiram pouco efeito. Na Câmara, a fração feminina passou de 5,6%, em 1998, para 8,9%, em 2010.

Mas só agora?
Os grupos violentos e radicais ajudaram a murchar as manifestações de junho. Causaram enormes prejuízos materiais ao patrimônio público e privado. Respondendo apenas com a repressão policial, o Estado ajudou a fermentá-los. Dois jovens de 17 anos perderam a vida e um oficial da PM foi espancado. Coincidência ou não, só depois da revelação de que 95% da população reprovam o vandalismo é que os entes federados resolveram se unir para combater a insurgência mascarada, que, mesmo tendo motivações reais e justas, ultrapassa a fronteira das liberdades democráticas, que foram conquistadas para todos. Não só para os revoltados.

Fonte: Correio Braziliense

O dízimo do reino de Eike - Eliane Cantanhêde

Eike Batista tinha o império X, bem de acordo com a paixão da família pelo Japão. Mas as empresas ruíram e o que sobra é uma grande história a ser contada, com cenários de contos de fadas, bastidores sórdidos, personagens controvertidos.

De um lado, o mítico Eike, que teve tudo na vida, foi casado com o símbolo de desejo do país e sonhou ser o homem mais rico do mundo. Chegou bem perto, na 8ª posição.

De outro, os médicos, engenheiros e assalariados em geral que jogaram nas chamas da assembleia do reino de Eike seus recursos, sua inocência e a falta de informações confiáveis. Foram dormir acreditando na solidez e nas perspectivas apetitosas das companhias de Eike. Acordaram num pesadelo sem fim.

Essas histórias pavorosas se repetem, com empresas que estavam no céu e vieram abaixo a caminho do inferno, levando de roldão as economias de seus clientes como se fossem dízimos de fiéis incautos.

Há a lembrança fresca da Encol, que, dias depois de reluzir na capa da "Gazeta Mercantil" como estrela entre as empreiteiras, deixou na mão 11 mil funcionários e 42 mil crentes (como eu) que compraram imóveis e nunca receberam nem o imóvel nem o dinheiro de volta.
E quem se esqueceu de Edemar Cid Ferreira, do Banco Santos, e Ângelo Calmon de Sá, do Econômico? Eles tinham riqueza, ostentavam riqueza, exalavam riqueza. O mundo deles desabou na cabeça dos que foram levados a acreditar num reino de Deus aqui na terra brasilis. No céu, o lucro era principalmente deles. No inferno, a desgraça maior é dos correntistas e investidores.

Eike Batista deve tantas explicações quanto Edemar, Ângelo e Pedro Paulo de Souza, da Encol, entre tantos "pastores" que estão por aí. Quem, como, onde e por quê? De onde veio e para onde foi o dinheiro?

Entre meias verdades, as vítimas vão para o inferno e os réus ficam eternamente no limbo da boa vida.

Fonte: Folha de S. Paulo

Miséria do debate - Míriam Leitão

O Brasil não está ficando burro. Mas parece, pela indigência de certos debatedores que transformaram a ofensa e as agressões espetaculosas em argumentos. Por falta de argumentos. Esses seres surgem na suposta esquerda, muito bem patrocinada pelos anúncios de estatais, ou na direita hidrófoba que ganha cada vez mais espaço nos grandes jornais.

É tão falso achar que todo o mal está no PT quanto o pensamento que demoniza o PSDB. O PT tem defeitos que ficaram mais evidentes depois de dez anos de poder, mas adotou políticas sociais que ajudam o país a atenuar velhas perversidades. O PSDB não é neoliberal, basta entender o que a expressão significa para concluir isso.

A ele, o Brasil deve a estabilização e conquistas institucionais inegáveis. A privatização teve defeitos pontuais, mas, no geral, permitiu progressos consideráveis no país e é uma política vencedora, tanto que continuou sendo usada pelo governo petista. O PT não se resume ao mensalão, ainda que as tramas de alguns de seus dirigentes tenham que ser punidas para haver alguma chance na luta contra a corrupção. Um dos grandes ganhos do governo do Partido dos Trabalhadores foi mirar no ataque à pobreza e à pobreza extrema.

Os epítetos “petralhas” e “privataria” se igualam na estupidez reducionista. São ofensas desqualificadoras que nada acrescentam ao debate. São maniqueísmos que não veem nuances e complexidades. São emburrecedores, mas rendem aos seus inventores a notoriedade que buscam. Ou algo bem mais sonante. Tenho sido alvo dos dois lados e, em geral, eu os ignoro por dois motivos: o que dizem não é instigante o suficiente para merecer resposta e acho que jornalismo é aquilo que a gente faz para os leitores, ouvintes, telespectadores e não para o outro jornalista. Ou protojornalista. Desta vez, abrirei uma exceção, apenas para ilustrar nossa conversa.

Recentemente, Suzana Singer foi muito feliz ao definir como “rottweiller” um recém- contratado pela “Folha de S.Paulo” para escrever uma coluna semanal. A ombudsman usou essa expressão forte porque o jornalista em questão escolheu esse estilo. Ele já rosnou para mim várias vezes, depois se cansou, como fazem os que ladram atrás das caravanas.

Certa vez, escreveu uma coluna em que concluía: “Desculpe-se com o senador, Miriam”. O senador ao qual eu devia um pedido de desculpas, na opinião dele, era Demóstenes Torres. Não costumo ler indigências mentais, porque há sempre muita leitura relevante para escolher, mas outro dia uma amiga me enviou o texto de um desses articulistas que buscam a fama. Ele escreveu contra uma coluna em que eu comemorava o fato de que, um século depois de criado, o Fed terá uma mulher no comando.

Além de exibir um constrangedor desconhecimento do pensamento econômico contemporâneo, ele escreveu uma grosseria: “O que importa o que a liderança do Fed tem entre as pernas?” Mostrou que nada tem na cabeça. Não acho que sou importante a ponto de ser tema de artigos. Cito esses casos apenas para ilustrar o que me incomoda: o debate tem emburrecido no Brasil. Bom é quando os jornalistas divergem e ficam no campo das ideias: com dados, fatos e argumentos.

Isso ajuda o leitor a pensar, escolher, refutar, acrescentar, formar seu próprio pensamento, que pode ser equidistante dos dois lados. O que tem feito falta no Brasil é a contundência culta e a ironia fina. Uma boa polêmica sempre enriquece o debate. Mas pensamentos rasteiros, argumentos desqualificadores, ofensas pessoais, de nada servem. São lixo, mas muito rentável para quem o produz.

Fonte: O Globo

Painel - Vera Magalhães

Oriente-se
Na esteira do cancelamento da viagem de Estado que faria aos EUA em outubro e do acordo com a Alemanha para uma ação conjunta contra a espionagem norte-americana, Dilma Rousseff reforçará a guinada em sua política externa. A presidente acertou a primeira visita oficial ao Brasil do presidente da China, Xi Jinping, em abril. Assessores do Planalto lembram que foi com Xi que a presidente acertou a entrada das petroleiras chinesas no leilão de Libra, que ocorreu no mês passado.

In loco O detalhamento da agenda de Xi Jinping no Brasil será um dos temas da viagem que o vice-presidente da República, Michel Temer, fará à China nesta semana.

Para fotos Apesar da movimentação de aliados de Aécio Neves para antecipar a formalização de sua candidatura ao Planalto, o time de José Serra mantém no calendário previsão de evento em março para demonstrar "unidade" do PSDB e dar saída honrosa ao ex-governador.

Cada um... Enquanto isso, Serra continuará viajando pelo país e Aécio manterá suas visitas a São Paulo. O PSDB paulista organiza um ato com o senador mineiro em Bauru, ainda neste mês.

... na sua Geraldo Alckmin, por ora, prefere continuar distante da pré-campanha nacional e articular a própria aliança à reeleição.

Vipões Lula e Dilma serão as estrelas do congresso do PC do B, que acontece entre os dias 14 e 16, em São Paulo. O partido fará a troca no comando nacional: depois de 12 anos, Renato Rabelo será substituído pela ex-prefeita de Olinda Luciana Santos.

Vipinho Uma saia-justa cerca a festa do partido comunista: uma ala quer convidar Eduardo Campos, dada a aliança histórica entre a sigla e o PSB. Outros, porém, temem melindrar a presidente colocando a seu lado na mesa o potencial adversário na eleição de 2014.

Quem é vivo... O embaixador José Viegas Filho é mais um ex-ministro de Lula a engrossar o time de colaboradores da dupla Eduardo Campos e Marina Silva.

... sempre aparece Viegas, que foi ministro da Defesa no primeiro mandato do petista, participou na semana passada do seminário do PSB e da Rede. Disse que mantém boa relação com Lula, mas atendeu convite dos ex-colegas de Esplanada.

Foto oficial Campos e Marina têm canal aberto ainda com Roberto Rodrigues e Luiz Furlan, ex-titulares da Agricultura e do Desenvolvimento na gestão petista. O trânsito dos novos rivais de Dilma com seus antigos colaboradores incomoda Lula.

A jato 1 A Frente Nacional de Prefeitos começou a pressionar o Senado para levar a plenário na terça-feira o projeto que define novos indexadores da dívida de Estados e municípios. Antes, no mesmo dia, o texto deve passar por duas comissões.

A jato 2 Prefeitos telefonaram para pedir pressa ao senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), que preside a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), que vai avaliar o projeto. Seu reduto eleitoral, Campina Grande, é um dos municípios beneficiados pela mudança no indexador.

Vem pra rua A Prefeitura de São Paulo tenta acordo para abrir as 800 vagas do estacionamento da Assembleia Legislativa para os frequentadores do Parque do Ibirapuera aos domingos, quando a entrada de carros é proibida.

Mergulho A Secretaria do Verde também estuda a instalação de piscinas de lona e jatos de água nessas áreas de estacionamento aos domingos durante o verão.

Tiroteio

Padilha aceita enviar médicos reprovados para o interior. Vão se somar a postos de saúde sem equipamento e sem material.

DO DEPUTADO ESTADUAL PEDRO TOBIAS (PSDB-SP), sobre os 48 profissionais que foram reprovados no Revalida, mas que participarão do Mais Médicos.

Contraponto

Soprando velinhas

O senador Magno Malta (PR-ES) apareceu alegre na sessão da Comissão de Constituição e Justiça de 16 de outubro, seu aniversário. O parlamentar aproveitou a data para conseguir pequenos privilégios com os colegas.

-V. Exa. me concede a palavra, em nome do meu aniversário? -solicitou o senador ao presidente, brincando.

Malta pediu até que um de seus colegas se curvasse um pouco para que pudesse enxergar um interlocutor.

-Vou gastar todos os pedidos hoje, porque amanhã...

-Ainda bem que aniversário é só uma vez por ano, ou ninguém aguentaria! -disse Vital do Rêgo (PMDB-PB).

Fonte: Folha de S. Paulo

Panorama político - Ilimar Franco

Sem autonomia
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), não vai pôr em votação o projeto de autonomia do Banco Central. A presidente Dilma é contra, mas ele diz que “a oposição interditou o debate”. Na terça-feira, tendo como testemunha o senador José Sarney, o ex-presidente Lula advertiu Renan de que ele não devia embarcar nessa canoa. O enterro será amanhã, quando Dilma o receberá.

Acordo costurado
O ministro Paulo Bernardo (Comunicações) e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), firmaram um acordo na Anatel. O ministro encaminhou ao Planalto a indicação de Igor Vilas Boas, sugerido pelo senador, para a vaga de conselheiro da agência. Renan, por sua vez, assumiu o compromisso de apoiar a recondução de João Rezende para a presidência do organismo, como é o desejo de Paulo Bernardo. A intenção é enviar as duas indicações na mesma data para o Senado. Mas a de Rezende, cujo mandato vence na próxima sexta-feira, pode ser enviada antes. O nome de Igor está na fase da triagem na Secretaria de Segurança Institucional.

“A polarização (PT x PSDB) é óbvia, Onde está dito que a disputa não será Aécio e Eduardo? O imponderável acontece. Veja o Collor”
Marcus Pestana
Presidente do PSDB de Minas Gerais e deputado federal

No mundo da espionagem
Os ministérios da Justiça, das Comunicações e da Defesa trabalham na criação de mecanismos de defesa cibernética. Já foi definido que o ideal é o Brasil ter satélites próprios e sua rede de cabos submarinos. Hoje, o país aluga esses serviços.

O preferido
A ex-deputada Luciana Genro (RS) e o senador Randolfe Rodrigues (AP) estão medindo forças no PSOL para concorrer à Presidência. Em 2006, Heloísa Helena fez 6,8% dos votos. Já a oposição torce para que o candidato seja o deputado Chico Alencar (RJ). Aposta que ele retiraria percentual relevante de votos da presidente Dilma.

Arrebentando a boca do balão
A secretária Izolda Cela Coelho, candidata do governador Cid Gomes (CE) à sua sucessão, está sendo cantada em prosa e verso no MEC. Ela é apontada, graças aos indicadores do estado, como a melhor secretária de Educação do país.

Luta federativa por terras
O Piauí está em guerra com o Ceará para redefinir seus limites territoriais. A primeira pendência vem do reinado de D. Pedro II (1840) e envolve 13 municípios, reclamados pelo Piauí, numa área equivalente ao território de Sergipe. Em junho, o Piauí acionou a AGU porque descobriu que o Ceará fez um assentamento rural de quatro mil hectares na cidade de São Miguel do Tapuio (PI).

Favoritos
O governador Renato Casagrande (PSB) está estourando a fita no Espírito Santo, com 50% de intenções de voto. Seu único adversário é Paulo Hartung (PMDB), por ora candidato ao Senado, que, no Ibope, tem 70% das intenções de voto.

Mudando a regra
Pela primeira vez, a presidente Dilma pode levar o PT a uma vitória em Santa Catarina. Desde que passou a ter o apoio do governador Raimundo Colombo (PSD), Dilma lidera todas as pesquisas de intenções de votos à reeleição no estado.

TUDO AZUL. Congresso, Planalto e ministérios serão iluminados de azul nesta segunda-feira, em campanha pela prevenção do câncer de próstata.

Fonte: O Globo

Brasília-DF - Denise Rothenburg

O discurso da Copa
Lula dá pitaco em quase tudo. Agora, quer o governo Dilma empenhado em montar uma estratégia de comunicação em defesa da Copa do Mundo da Fifa. Ele já percebeu que, embora o futebol seja a chamada “paixão nacional”, a Copa das Confederações expôs uma certa frustração por parte da população, que não obteve as prometidas melhorias de vida. Por isso, a ideia do ex-presidente é bater bumbo desde já, seja nas inaugurações dos estádios, seja na mobilização de petistas dia e noite para falar maravilhas da realização dos jogos aqui, em termos de geração de emprego — fator que, na cabeça de Lula, vai ajudar a segurar a campanha pela reeleição de Dilma.

Enquanto isso, no empresariado…
A ideia é aproveitar o embalo para se contrapor à ladainha que os petistas ouvem de empresários a respeito da presidente Dilma Rousseff, em especial, à falta de segurança dos marcos regulatórios. De bate-pronto, os detentores do financiamento das campanhas dizem que estarão divididos entre o senador Aécio Neves, do PSDB, e o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, do PSB.

Pé no freio
Depois de reunir os ministros no sábado, Dilma pretende arrancar dos líderes partidários nesta segunda-feira o compromisso de não votarem projetos de lei que ampliem os gastos públicos. O pedido vem a calhar. Em 12 de novembro, estará em pauta o aumento dos valores pagos aos agentes de saúde. E onde passa esse “boi”, passa a boiada.

Na casa do ferreiro…
A mesma Agência Nacional de Saúde (ANS) que cobra das operadoras de planos de saúde a implantação de serviços de ouvidoria para receber queixas dos clientes desmontou a sua. O cargo de ouvidor da agência está vago desde agosto e servidores do setor foram transferidos para outras áreas. Não sobrou viva alma.

Obsessão
Além de se empenhar por Dilma, o ex-presidente Lula tem dito que fará tudo o que estiver ao seu alcance e mais um pouco para eleger Alexandre Padilha governador de São Paulo.

Convers@ de domingo
No site www.correiobraziliense.com.br, a deputada Rose de Freitas (PMDB-ES) fala sobre o Novembro Azul, a campanha de alerta para prevenção do câncer de próstata, uma doença com índices de mortalidade em ascensão por causa do preconceito dos homens em relação ao exame.

Depois da OGX...
Com a derrocada da empresa de Eike Batista, voltam à baila os empréstimos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) a grandes empresas. O deputado Carlos Magno (PP-RO) deu parecer favorável à proposta de Rubens Bueno e Moreira Mendes, apresentada em 2011, para que o Tribunal de Contas da União fiscalize as operações do BNDES com o grupo JBS (FriBoi).

…vai ferver
A tendência é de aprovação do pedido, uma vez que os deputados estão revoltados. Tudo porque existe um zum-zum-zum de que o empresário Ricardo Saud, do grupo JBS, teria dito que nada seria aprovado porque ele tinha 10 deputados na Comissão de Agricultura.

Mágoas do Zé/ O ex-deputado José Dirceu fez chegar a vários colegas de partido seu desapontamento com a presidente Dilma Rousseff. Esperava mais atenção por parte da sucessora de Lula.

Foi ele!/ Pelo menos uma autoridade governamental quase passou um pito no presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Quando Barbosa assumiu a consultoria jurídica do Ministério da Saúde, houve problemas de distribuição do espaço físico. O então consultor decidiu que não ficaria sem condições de trabalho. Foi aí que o então ministro Carlos Santana disse que não aceitaria o pedido de exoneração: “Deixe isso pra lá e vamos trabalhar juntos”.

Suspense/ Por causa do feriadão de quinta e sexta do Poder Judiciário, ficou para esta semana a decisão judicial sobre a eleição do Iate Clube de Brasília, o mais badalado da cidade.

Cidadão/ O presidente do TST, ministro Carlos Alberto Reis de Paula, recebe o título de cidadão honorário de Brasília nesta terça-feira. Mineiro de Pedro Leopoldo, Carlos Alberto mora em (e adora) Brasília desde 1998, quando foi empossado ministro do tribunal.

Fonte: Correio Braziliense

Política – Claudio Humberto

• Dilma quer começar 2014 com novos ministros
Os ministros do PMDB que disputarão as eleições em 2014 já estão de sobreaviso para começar a encaixotar os pertences. Na contramão do desejo de alguns de permanecer no cargo até março, a presidenta Dilma Rousseff avisou ao vice Michel Temer que pretende começar o ano de 2014 já com o quadro renovado na Esplanada. A petista negociará os cargos em troca de apoio para sua reeleição em 2014.

• Lá vem briga
Terceira maior bancada da base, o PP já está de olho no Ministério da Integração, prometido ao senador Vital do Rêgo (PMDB-PB).

• Nome forte
Com o ministro Aloizio Mercadante (Educação) na coordenação da campanha de Dilma, Carlos Gabas é o mais forte para a Casa Civil.

• Dificuldades
Cotado para substituir Ideli Salvatti na Secretaria de Relações Institucionais, Ricardo Berzoini (SP) enfrenta resistência até no PT.

• Nervos de aço
O Tribunal de Contas da União faz “inspeção extraordinária” há dez dias no Tribunal de Justiça do Rio, por ordem da ministra Ana Arraes.

• Governo tenta evitar ‘pauta bomba’ de fim de ano
O Planalto negocia com a base aliada para tentar evitar a votação de um combo de projetos que geram aumento de gastos para o governo. A presidenta Dilma teme que a proximidade das eleições leve os parlamentares a votar medidas populistas, como a criação de piso remuneratório aos agentes de saúde, o fim do fator previdenciário e a PEC 300, que prevê piso nacional para policiais militares e bombeiros.

• Toda ajuda…
A ministra Ideli Salvatti pediu ajuda aos líderes do PTB, senador Gim Argello (DF), Jovair Arantes (GO) e o presidente Benito Gama.

• …tem preço
Durante a reunião, os petebistas avisaram que não têm qualquer compromisso com o governo, que até hoje não lhes deu ministério.

• Azucrinador-geral
Alvaro Dias (PSDB-PR) se diverte no Senado azucrinando a presidenta Dilma, agora ameaçando uma CPI da Copa. Ele a chama de “Ô Dilmo”.

• Não vai dar certo
No Brasil com 200 milhões de habitantes, cerca de 26 milhões pagam imposto de renda para sustentar 50 milhões de pessoas no Bolsa Família. Ignora-se como vivem 124 milhões, e o futuro dessa equação.

• Só falta o nariz
Para o senador Cícero Lucena (PSDB-PB), “o Congresso faz papel de palhaço” ao aceitar que o governo vote em outra medida provisória os termos da renegociação da dívida dos agricultores do Nordeste, ignorando todo o trabalho realizado por parlamentares na comissão.

• Vistoria
Após visitar antiga sede do DOI-Codi no Rio, as comissões da verdade da Presidência, Câmara e Senado farão nova diligência na sexta (8) na Base Aérea do Galeão, para procurar supostas celas subterrâneas.

• Contra black blocs
O deputado Esperidião Amin (PP-SC) protocolou na Comissão de Constituição Justiça parecer ao projeto de Eduardo Azeredo (PSDB-MG) para dobrar as penas para vândalos, previstas no Código Penal.

• Feudo
O deputado Esperidião Amin (SC) acredita ser praticamente impossível o PP faturar o Turismo na reforma ministerial. “Pelo que escutei na CNBB e no hospital Sírio-Libanês, a vaga é do PMDB”.

• Pesou
O senador Aécio Neves (PSDB-MG) teme que os violentos ataques dos black blocs em São Paulo, enfrentando o governador tucano Geraldo Alckmin, acabe prejudicando sua candidatura à Presidência, em 2014.

• Falha matemática
A Fecovinho garante que já entregou 4,5 milhões de litros dos sucos de uva adquiridos pela Conab, mas a empresa do Ministério da Agricultura menciona 2,9 milhões. Relatório aponta que ainda faltam 1,2 milhão de litros a Nova Aliança e 540 mil da Aurora. A Garibaldi já entregou tudo.

• Conversa fiada
A bancada do PMDB decidiu votar contra a proposta do governo de mandar instalar no país os principais data-centers de provedores de conteúdo à internet, sob avaliação de que não impedirá a espionagem.

• Vendo para crer
Dilma foi alvo de gozação por inaugurar pela terceira vez uma via expressa na Bahia. Queria ter certeza da inauguração, diria o outro.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Escaninho errado - José de Souza Martins

Estranho que o MP, inflexível e exigente, seja tão benevolente em relação ao próprio e admitido erro

A suspeito de fraude na licitação para obras de expansão do metrô de São Paulo e pagamento de propina pela empresa francesa Alstom ficou mais ampla e complicada do que poderia ser. Em 2011, um pedido de diligência suplementar feito pela Suíça não foi atendido. A Procuradoria dá República em São Paulo explica em nota que não houve atendimento devido a uma "falha administrativa". "Foi arquivado erroneamente numa pasta de documentos auxiliares", quando deveria ter sido juntado ao "processo de cooperação internacional principal." Sempre se poderá considerar estranho que um órgão com o poder e a importância do Ministério Público, compreensivelmente inflexível e exigente em relação aos supostos desvios que apura, seja ao mesmo tempo tão benevolente em relação a seu próprio confessado erro. Que garantia tem o cidadão de que se trata de uma falha administrativa? A refuncionalização do Ministério Público, pela Constituição de 1988, para dele fazer um órgão abrangente do direito e da Justiça, verdadeira ponte entre os cidadãos sempre desconfiados e o Estado sempre suspeito de lesá-los, acarretou-lhe imenso respeito.

Deu a muitos a íntima confiança de que mesmo que o direito de todos, especialmente dos frágeis, esteja permanentemente ameaçado em vários âmbitos, há uma instituição vigilante e destemida que exige esclarecimentos, investiga e, finalmente, acusa eleva a julgamento quem se atreveu a sobrepor-se ao direito. Mas essa "falha administrativa" pode corroer nossas incontornáveis ilusões.

Não há como deixar de ver essa falha no cenário de outras notícias da semana e suas eventuais repercussões no entendimento popular do que é a política. Especialmente neste preâmbulo de uma eleição presidenciais que poderá remover do trono os que ali já ficaram tempo suficiente para fazer o que deles se esperava. O desgaste do discurso polarizado dos supostamente insubstituíveis é muito claro e a demanda popular de novos horizontes políticos também o é. São fatos que podem contribuir para o advento de reorientações na docilidade eleitoral dos brasileiros. As manifestações de rua iniciadas há alguns meses são apenas indícios do efeito detonador dos muitos e reiterados abusos e desvios de conduta, de pessoas e instituições. Se havia plácidas certezas de alguns há dois anos, elas já não existem. Veremos o que acontece, como dizia com graça Miriam Muniz, na apresentação de uma peça de Molière no Teatro de Arena, em São Paulo, nos anos 1960.

Vários tópicos do mesmo gênero do mencionado no início ocuparam o noticiário nestes dias, aumentando as dúvidas dos cidadãos quanto a que país é este. Um deles, apontado também pelo MP, é relativo a fraude na Prefeitura de São Paulo, envolvendo quatro fiscais municipais que atenuavam tributos de grandes empresas em troca de dinheiro grosso, causando feios prejuízos ao lindamente chamado erário público. Muita grana deixando de entrar nos cofres da Prefeitura para entrar nos bolsos de servidores públicos de interesses privados.

Sempre associamos esses casos a um figurão do poder, de qire os peixinhos, como os mencionados no noticiário dos dois casos, seriam meros asseclas e cupinchas na arrecadação de benefícios fora dos bons costumes. No entanto, o caso Alstom é outra coisa, é caso de formação de cartel, isto é, de um acordo entre empresas para impor preços para obter ganhos extraordinários. Claro que o tesouro público é sugado em mais do que seria se pagasse preços concorrenciais pelos produtos que consome e os serviços que utiliza. É, no fundo, fazer o povo pagar mais do que vale por aquilo que recebe. Na consciência coletiva isso é roubo por que, no fim das contas, lesa a maioria silenciosa dos contribuintes impotentes. A não ser os especialistas, ninguém está interessado em filigranas jurídicas. Roubo é roubo, diz o vulgo.

É inútil, portanto, tentar tirar vantagens eleitorais de anomalias que de fato podem não ter nada a ver com governadores e prefeitos, provavelmente também eles vítimas da função que personificam. O fato relativo aos fiscais da Prefeitura de São Paulo diz respeito a funcionários concursados e não a funcionários apadrinhados. Gente, portanto, que, sem mandato, descobriu a enorme fração de poder de sua função num setor vital da administração pública e, aparentemente, resolveu utilizá-la em benefício próprio. Provavelmente, o serviço público brasileiro ainda está minado por milhares de focos de pequena corrupção, que se avantaja quando a clientela é poderosa e desonesta o suficiente para propor negociatas e tentadoras vantagens pessoais a servidores com dificuldade para resistir à tentação. A principal importância do Ministério Público é, pois, mais moral que judicial. Lembrete permanente de que há um olho invisível que tudo vê, mesmo que demore. Dadas as enormes e crescentes facilidades de corrupção que há na estrutura do Estado brasileiro, o MP não pode comportar falhas de Sancho Pança nem exageros de Dom Quixote.

José de Souza Martins é sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros, de A sociologia como aventura (Contexto)

Fonte: O Estado de S. Paulo / Aliás

Eike Batista, o bilionário-celebridade - Elio Gaspari

A banca esqueceu-se dos exemplos de empresários como Amador Aguiar, Antunes e Sebastião Camargo

A quebra da OGX de Eike Batista era pedra cantada e foi a maior concordata da história do país. Em 2010 suas ações valeram R$ 23,27. Para desencanto de 52 mil acionistas e algumas dezenas de diretores da grande banca pública e privada, saíram da Bolsa a R$ 0,13. Todo mundo ganhará se disso resultar algum ceticismo em relação à exuberância irracional da cultura das celebridades poderosas. Nela juntam-se sábios da banca que se supõem senhores do universo e autoridades que se supõem oniscientes.

Admita-se que um vizinho propõe sociedade num empreendimento. Ele é um homem trabalhador, preparado, poliglota, esportista e bem-sucedido. Apesar disso, expôs sua vida pessoal mostrando que tem um automóvel de luxo na sala de estar, comunica-se em alemão com o cachorro. (O bicho chegou ao Brasil num Boeing privado, com dois treinadores.) Sua mulher desfilava numa escola de samba com uma gargantilha onde escreveu o nome dele e deixou-se fotografar de baixo para cima usando lingerie transparente. Nomeou para a diretoria de uma de suas empresas um filho que declarou só ter lido um livro em toda a vida. Revelou que estava ligado em astrologia, confiando no seu signo (escorpião) e disse coisas assim: "Tenho alguma coisa com a natureza. Onde eu furo eu acho". Quando suas contas começaram a ter problemas, defendeu-se: "Meus ativos são à prova de idiotas". Tem jogo?

Eike tornou-se uma celebridade, listada por oráculos da imprensa financeira como o homem mais rico do Brasil, oitavo do mundo, e anunciou que disputaria o primeiro lugar. Até junho, quando as ações da OGX estavam a R$ 1,21, sentavam-se no seu conselho de administração figuras respeitáveis como o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan e a ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Ellen Gracie. Lula visitava seus empreendimentos. A doutora Dilma Rousseff dissera que "Eike é o nosso padrão, a nossa expectativa e sobretudo o orgulho do Brasil quando se trata de um empresário do setor privado". Quem entrou nessa, micou, inclusive a doutora.

Em seus delírios, Eike Batista criou uma fantasia que pouco tem a ver com a real economia brasileira, ou com as bases dos setores de petróleo, mineração e infraestrutura. Parte do mico ficou para os gênios da banca internacional. Cada um acreditou no que quis e deu no que deu. Falta de exemplos, não foi. Para falar só de grandes empresários que já morreram, a austeridade foi a marca de empreendedores como Augusto Trajano de Azevedo Antunes, que criou a mineradora Icomi, Leon Feffer, criador da Suzano Papel, e Amador Aguiar, pai do Bradesco. Não foram celebridades. Descontando-se o fato de que "seu" Amador não usava meias, não tinham folclore.

Eike e as contas
Se o processo de recuperação judicial da OGX levar peritos a examinar saques feitos nos últimos meses no caixa de empresas do grupo, a coisa ficará feia.

Eike e os poços
Entre as lições deixadas por Eike Batista há uma que vai em benefício dele e de todos os empresários perseguidos por maledicências. Quando Eike criou a OGX e levou para sua equipe ex-diretores da Petrobras, a sabedoria convencional estabeleceu que capturara os segredos das pesquisas geológicas da empresa. Essa suspeita foi vocalizada até mesmo pela cúpula da Petrobras. Era lorota. Se eles soubessem onde estava o petróleo, a OGX não teria quebrado.

Eike e os bônus
Numa das explicações que Eike Batista deu para suas dificuldades estava a queixa de que diretores de suas empresas inflavam expectativas e resultados para engordar os bônus de fim de ano. A lição vale para todos os empresários. Basta ligar um desconfiômetro. Qual dos diretores seria capaz de sustentar projetos e iniciativas que garantem seu bônus em dezembro e quebram a empresa daqui a alguns anos, quando ele estará na praia? Das diretorias de Eike Batista pelo menos dez executivos saíram com mais de R$ 100 milhões no bolso. Alguns, com R$ 200 milhões. Nenhum micou.

Eike em Hollywood
Um produtor de cinema americano veio ao Brasil para oferecer a Eike o conglomerado da "Playboy" ameri-cana. Durante o jantar, o empresário ofereceu-lhe um negócio melhor: um filme sobre a sua vida. Punha duas condições, o Eike jovem deveria ser Leonardo DiCaprio; o maduro, George Clooney.

Eike e o poder
Recordar é viver. Em junho do ano passado, quando Eike Batista emprestou seu jatinho a um poderoso amigo para um feriadão na Bahia, respondeu às críticas dizendo o seguinte: "Tive satisfação em ter colocado meu avião à disposição do governador Sérgio Cabral. (...) Sou livre para selecionar minhas amizades, contribuir para campanhas políticas [e] trazer a Olimpíada para o Rio." Tudo verdade, menos o piro da Olímpiada.

Eike e Frick
Faz tempo, um homem de negócios chamado Henry Frick habilitou-se para um empréstimo no banco Mellon. O dinheiro saiu, mas os arquivos do banco mostram que havia uma recomendação de cautela em relação a ele, porque comprava muitas obras de arte. Frick comprou três dos 34 Vermeers conhecidos. Mais três Rembrandts, dois Goyas e até um Cimabue, do século 13. Sua casa, projetada para ser museu, tem uma das melhores coleções do mundo. Até janeiro, quem quiser poderá ir lá para ver a "Menina com o Brinco de Pérola", emprestado pela Holanda. O banco Mellon não arriscava, nem Frick.

Eike e o elevador
Despencou mais um empresário que tem elevador privativo em sua empresa, ou bloqueia-o quando está chegando ao prédio. Juntou-se a um grupo onde estiveram Richard Fuld, que destruiu a Lehman Brothers, Angelo Calmon de Sá (Banco Econômico), Theodoro Quartim Barbosa (Comind) e Edemar Cid Ferreira (Banco Santos).

Eremildo, o idiota
Eremildo magoou-se ao saber que Eike Batista disse que seus negócios eram à prova de idiotas. Ele continua botando fé no doutor.

Eike, Eduardo Paes e a Marina da Glória
Em 2009 Eike Batista comprou a concessão da Marina da Glória, uma área tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Seu plano era transformá-la num anexo náutico do Hotel Glória, construindo um centro de convenções que jamais esteve no projeto original.

Esse patrimônio da Viúva estava nas mãos da Prefeitura do Rio de Janeiro. Até maio passado o prefeito Eduardo Paes explicitou em diversas ocasiões seu apoio ao projeto. Sua assessoria dizia que ele fora aprovado pelo Iphan, mas era patranha. Logo depois a Justiça suspendeu a concessão.
Eike pôs à venda o hotel e passou adiante a marina. No dia 29 de junho, Paes criou uma comissão para definir o futuro da área: "Queremos deixar as regras claras, criar parâmetros. Vai poder ter lojas e centro de convenções? Não vai poder?"

Caso de curiosidade tardia para quem assumiu a prefeitura em 2009.

Fonte: O Globo

O nosso carbono 14 - Gaudência Torquatto

Uma campanha política abriga complexa cadeia de vetores, entre os quais, pesquisas, discurso, comunicação, articulação, mobilização das massas, recursos, agenda e logística. Cada ciclo tem sua natureza, seu clima e suas circunstâncias, as quais, por sua vez, determinam maior ou menor ênfase em um ou outro componente de agregado eleitoral. Um ponto em comum, porém, tem balizado as campanhas eleitorais ao longo dos últimos 60 anos, ou, mais precisamente, desde a vitoriosa campanha de Getúlio Vargas, em 1950, quando percorreu todos os 20 Estados da época, lendo em palanques escorreitas peças que tratavam dos problemas e demandas de cada comunidade. Desde aqueles tempos de grande carência logística para chegar às regiões até os dias atuais, os discursos elegem como alavanca o culto ao "eu". A prevalência dos perfis pessoais sobre a representação coletiva, expressa por "nós", decorre do caráter individualista que é marca da política nacional, mesmo nos tempos em que os entes partidários acentuavam suas distinções, como foi o caso do velho PSD (representando a aristocracia rural) e da UDN (representando as elites urbanas).

Os principais atores individuais da cena política distinguiam-se por traços inconfundíveis, a denotar a admiração popular por figuras como o herói, o guerreiro, o pai dos pobres, o amigo do povo, o homem de palavra. Vargas vestia o manto de pai dos pobres; Juscelino Kubitschek era charmoso, sorridente e pé de valsa; Jânio Quadros, com seu jeito histriônico, simbolizava a autoridade, portando a vassoura da limpeza contra a corrupção; João Goulart assumia a imagem de herdeiro de Getúlio, desfraldando a bandeirado trabalhismo; os presidentes da ditadura militar, sob a espada do "combate ao comunismo e aos movimentos subversivos", tinham cada qual o seu estilo, com realce para o duro general Garrastazu Médici, que fez fama como torcedor do Grêmio (RS) e do Flamengo (RJ); o acelerado general João Figueiredo, com seu hobby de criar cavalos de raça; e o desenvolvimentista Ernesto Geisel, que não escondia a fé luterana.

No ciclo da redemocratização, José Sarney, com a imagem de cacique político; Fernando Collor, que fez a abertura econômica e saiu por impeachment do Congresso; o imprevisível Itamar Franco, fiador do Plano Real; Fernando Henrique Cardoso, elevado ao patamar de responsável pela estabilidade da moeda; Luiz Inácio Lula da Silva, o novo "pai dos pobres"; e Dilma Rousseff, sobre a qual se procura desenhar a imagem de faxineira da gestão pública.

Até houve tentativa de instalar por aqui a era do culto ao "nós", dentro da qual se descortinaria um horizonte pontilhado de formas inovadoras de fazer política. Nele, um ambiente asséptico impregnaria a administração pública, irradiando pelas instâncias federativas valores éticos e critérios de promoção do mérito e eliminando as correntes contaminadas por indicações politiqueiras para cargos e funções.

A modernidade foi uma promessa da era Collor. Feneceu por causados piores males da República. Os tempos tucanos de FHC também foram promissores na perspectiva da modernização institucional. Afinal, tinha-se no comando da Nação um renomado scholar. Os ares encheram-se de expectativas. Vislumbrava-se uma gestão racional e com foco em resultados. Mas, ao fim de oito anos, a velha política fincou pé. Lula chegou, em 2003, com o verbo mudar abrindo uma peroração cheia de esperanças. A ascensão do PT ao centro do poder assim era traduzida: "Os velhos costumes estão com os dias contados, o País abriu uma agenda ética". O sentimento era de que o Brasil, finalmente, encontrava o caminho da redenção moralizadora.

Um massacre de marketing fez a demarcação das fronteiras entre os puros e os impuros, os éticos e os imorais. Outros conceitos foram intensamente massificados: bons e maus, pobres e ricos. Em determinados momentos parecia que os discursos de Lula e colegas tinham como foco o resgate da velha luta de classes. De maneira escancarada, o discurso insistia em propagar a existência de um edifício com duas torres: uma habitada pelos pobres, a outra, de propriedade das elites. Por deliberada estratégia de criar um projeto de poder de longo prazo, sob a égide da bandeira socialista, o PT desprezou (e ainda despreza) o fato de que o convívio com as velhas práticas o tornou passível do fenômeno da mimese. Igualou-se a outros entes do espectro partidário, indo mais longe: foi apanhado com a mão na cumbuca. A Ação Penal 470 (também chamada de mensalão) jogou o partido no pântano da política.

Portanto, o culto ao "nós", que nos dois mandatos de Lula foi entronizado nos palanques, não chega hoje com prestígio para convencer as massas. Neste ponto, convém lembrar que o marketing da louvação, em intenso desenvolvimento no País, desde os tempos galopantes de Collor (que fazia uma corrida diária de cooper acompanhado de jornalistas), subiu ao pódio do descrédito. Essa é uma das boas-novas que se podem anunciar na arena eleitoral do próximo ano. Os últimos governos rebocaram com tanta argamassa as paredes da gestão que elas ameaçam abaular e desmoronar. Tanto o governo federal - com sua planilha de grandes obras - quanto os governos estaduais deverão passar pelo teste do nosso carbono social. Ou será que não se percebeu a existência de novo processo para medir o tempo (cronogramas) e conferir promessas? (Lembrando: os testes de datação de objetos da mais remota Antiguidade - para descobrir, por exemplo, a verdade sobre o Santo Sudário de Turim - são feitos com o carbono 14, um isótopo radioativo e instável que declina em ritmo lento a partir da morte de um organismo vivo.)

O nosso carbono 14, ou melhor, para 2014, é a onda centrípeta, das margens para o centro, com suas percepções e decepções da política. Engodos até podem continuar a engabelar as massas. Há, porém, um culto ao "nós" menos sujeito a firulas demagógicas. É o olhar mais agudo da sociedade sobre as tramoias da política.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Riscos mobilizam Lula - João Bosco Rabello

A entrada em cena, ainda em 2013, do ex-presidente Lula sinaliza que a campanha da presidente Dilma Rousseff entrou em estado de emergência. Não que configure surpresa, afinal ele próprio já antecipara a sua disposição de ser o cabo eleitoral da afilhada política, mas o momento ruim do governo e a preocupação explícita do líder petista são um recibo do risco que enxerga para o projeto de reeleição.

Não há coincidência entre a chegada às pressas de Lula a Brasília, o rombo recorde nas contas públicas e a desconfiança do empresariado com o governo, que alcançou seu auge. O mau momento também agrava a insatisfação interna do PT com Dilma, extensiva ao PMDB, aliado nacional, mas adversário indigesto nas disputas regionais.

Já se sabe, a essa altura, que o projeto de autonomia formal do Banco Central, desarquivado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), tinha, senão a iniciativa, a aprovação de Lula. Um gesto radical, análogo à Carta ao Povo Brasileiro, uma desesperada tentativa de resgatar a confiança do mercado, abortada por Dilma.

O recuo por determinação de Dilma só serviu para consolidar nos investidores a certeza de que num eventual segundo mandato, ela agravará o cunho intervencionista de seu governo, percebido sempre que a participação privada se faz incontornável, seja pela reduzida margem de lucro, seja pelo tratamento de mal necessário que dispensa aos interlocutores - ou ambas.

Já antes, na fala em rede nacional de rádio e televisão providenciada para capitalizar eleitoralmente o leilão de Libra, a ênfase dada para negá-lo como um processo de privatização foi uma reafirmação da linha estatizante em que acredita como norte gestor. Para o mercado, Dilma não mudará jamais, o que explica a nostalgia do antecessor.

A aceleração da piora econômica encontra a presidente com o índice de aprovação estacionado há dois meses em 38%, frustrando a aposta de seus conselheiros que ao comemorarem a leve melhora depois dos protestos de junho previram a reconquista do patamar anterior às manifestações. Considerada a overdose de exposição ministrada à candidata, o diagnóstico deixa de ser o de uma queda passageira para se consolidar como um a perda de capital político.

A boa notícia para Dilma é que a oposição também parece mergulhada em seus próprios problemas, longe de capitalizar o momento adverso da concorrente. O distinto público continua sem saber se o candidato do PSDB será Aécio Neves ou José Serra e também se o do PSB será Eduardo Campos ou Marina. A má notícia para a presidente é que agora essa mesma dúvida volta a visitar a aliança PT/PMDB. Será Dilma ou Lula?

Fonte: O Estado de S. Paulo

Neoliberal Bolsa Família - Suely Caldas

A História se encarrega de juntar ideias e fatos, fazer justiça, costurar acontecimentos e narrar os fatos reais que a política tentou embaralhar, falsear e, por vezes, negar. Só que as duas - a História e a política - protagonizam tempos diferentes. Porque trabalha com o momento presente, a política não tem compromisso com a verdade e se aproveita do mais oportunista apelo do momento. A História trabalha com tempo mais longo, seu papel é recolocar em seus lugares ideias e fatos que a política falseou no passado e contar como se passou a verdade.

Entre o que o Partido dos Trabalhadores (PT) pregou antes e praticou depois que assumiu o poder, passou pouco mais de toma década. Tempo curto, do ponto de vista da História, mas a metamorfose foi tão rápida, flagrante e abrupta que precipitou a percepção da verdade.

O fato mais conhecido desse enredo foi a súbita apropriação da política macroeconômica de Fernando Henrique Cardoso (excomungada e rotulada pelo PT de neoliberal) pelo ex-presidente Lula desde o primeiro dia de seu governo, em 2003. Mas há outros, e vou tratar aqui de três: a privatização, a autonomia do Banco Central (BC) e o programa Bolsa Família. Os três foram gerados em ventres liberais, experimentados e aprovados mundo afora e viraram políticas universais de Estado em países democráticos.

Começando pelo programa Bolsa Família, que acaba de completar dez anos e foi comemorado pelo PT, por Lula e Dilma Rousseff com festa eleitoral. Quem ouve Lula falar imagina que partiram de sua cabeça a concepção e a criação do programa. E com a sua marca: nunca antes experimentado no mundo. O senador petista Eduardo Suplicy conhece e poderia contar ao amigo Lula sobre sua origem e autoria.

Nada nasce de um dia para o outro. A ideia de criar programas de transferência de renda nasceu nos anos 1960/1970 e seu autor foi o economista norte-americano Milton Friedman, o mais talentoso formulador do liberalismo econômico do século passado, criador da teoria monetarista e responsável pelo ideário liberal dos Chicago Boys - referência pejorativa da esquerda da época aos alunos seguidores de Friedman na Universidade de Chicago, onde ele lecionou por 30 anos. A partir Fome Zero - que conceberam para recomendar programas de transferência de renda aos países pobres e em desenvolvimento, entre eles o Brasil.

Por aqui, os conselhos do Banco Mundial foram rechaçados pela esquerda (inclusive o PT), tratados como maldição. "Não se combate pobreza com esmola", indignavam-se os petistas.

Contra essa maré sempre remou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP), que des-i de os anos 8o defendia um programa de renda mínima universal - pobres e não pobres - e citava o liberal Milton Friedman em seus argumentos. Coerente, Suplicy apresentou o projeto ao Senado em 1991, que foi sancionado por Lula em 2004, mas nunca executa-1 do. Também em 1991 o economista da j PUC-Rio José Mareio Camargo escreveu o texto Pobreza e garantia de renda mínima, apoiando o projeto de Suplicy, mas fechando o foco só nos mais pobres e acrescentando duas sugestões: excluir os idosos e restringir o acesso às famílias com crianças matriculadas na escola.

A ideia foi ganhando forma no início dos anos 90, em discussões de um grupo de economistas do Rio de Janeiro, entre eles Ricardo Paes de Barros, André Urani, Edward Amadeo e Ricardo Henriques (que no governo Lula ajudou a formatar o cadastro único), além de Camargo. Curiosamente, coube a um tucano (o prefeito de Campinas José Roberto Magalhães Teixeira) e a um petista (o governador de Brasília Cristovam Buarque, hoje no PDT) a primeira iniciativa - em 1995 - de criar um programa de transferência de renda no Brasil, que recebeu o nome de Bolsa Escola*

Em alcance nacional, foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso quem primeiro implantou o programa I- também com o nome de Bolsa Escola em 1998, focalizando nos mais pobres e criando duas exigências para as famílias terem acesso: comprovada frequência na escola e carteira de vacinação atualizada da criança. Na época, o j PT foi contra e chamava o programa de "Bolsa Esmola". Em sua gestão, FHC também criou outros programas sociais, entre eles o Vale Gás e o Bolsa Alimentação.

O mérito de Lula foi unificar cadastros e concentrar todos os programas ; sociais de FHC em um único, que chamou de Bolsa Família. Lula e o PT não | criaram nada e ainda abandonaram o | Fome Zero - que conceberam para concorrer com o Bolsa Escola - e se apropriaram do programa que combateram em 1998. O mérito maior de Lula, no entanto, foi apostar no êxito do Bolsa Família como meio para reduzir a pobreza. Nos últimos dez anos, o número de famílias beneficiadas mais do que dobrou, saltando de 5 milhões, do fim do mandato de FHC, para 13,8 milhões, atualmente. E ajudou muito a tirar milhões de brasileiros da extrema pobreza e outros milhões a ascenderem à classe média.

Ao criar agora o Brasil sem Miséria, a meta de Dilma Rousseff é erradicar a miséria no País. A mesma meta que tinha o ultraliberal Milton Friedman quando concebeu os programas de transferência de renda há cinco décadas. É assim a História.

Privatização e BC. Diferentemente do Bolsa Família, a adesão de Lula, Dilma e do PT à privatização e à autonomia do Banco Central é envergonhada e incompleta. Menos ideológico do que Dilma, Lula respeitou o acordo feito com Henrique Meirelles e lhe deu autonomia de decisão no BC em seus oito anos de gestão. Mas na semana passada fez coro ao PT manifestando-se contra a autonomia em lei - ou porque não quer abrir mão do poder ou porque imagina usar is so como bandeira eleitoral.

Mais concentradora e ideológica, Dilma deu sucessivas mostras de que não pretende abrir mão da palavra final em política monetária. E, além de não ajudar, exagerando nos gastos (o déficit fiscal de setembro ultrapassou R$ 1 o bilhões), deixa para a direção do Banco Central a solitária e inglória tarefa de controlar a inflação sem liberdade para manejar suas armas.

Quanto à privatização, os dois resistiram o quanto puderam. Lula por oportunismo político-eleitoral, Dilma por convicção ideológica. Mas ela foi obrigada a recuar por motivo simples e pragmático: precisa do capital privado para estimular crescimento e desenvolvimento.

Jornalista e professora de comunicação da PUC-Rio

Fonte: O Estado de S. Paulo

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Casuarina, Moinho - Rosa morena

A máquina do mundo – Carlos Drummond de Andrade

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.

sábado, 2 de novembro de 2013

OPINIÃO DO DIA – Gazeta do Povo (PR): Lula

“Por tudo isso, chega a suscitar pena e desalento que um homem que tanta importância teve no cenário da redemocratização do país chegue ao ponto de manchar sua biografia com lorotas tão evidentes, falsas e descabidas. Mas é preciso reconhecer: Lula é um homem de convicções firmes – dentre as quais está a ideia de impor indireta censura à imprensa sob o cerimonioso nome de “controle social da mídia” (ainda defendido por seus herdeiros). No entanto, não é a firmeza com que alguém defende suas convicções que as torna legítimas ou justas. Um falsário convicto da história do país não deixa de ser um falsário.”

Gazeta do Povo (PR). “Quem avacalha a política?”. Editorial, 1 de novembro de 2013

De olho nas eleições 1. Reunião com 11 ministros define agenda pré-eleitoral

Dilma cobra hoje projetos e obras sociais e de infraestrutura para poder apresentar até junho do ano que vem

Luiza Damé e Catarina Alencastro

-Brasília- A presidente Dilma Rousseff convocou um estratégico grupo de ministros para uma reunião hoje que definirá sua agenda pré-eleitoral. Dilma cobrará de cada área resultados que serão entregues nos últimos dois meses deste ano e no primeiro semestre de 2014, quando se encerra o prazo para participação de candidatos em inaugurações de obras. A prioridade são os projetos e obras de infraestrutura e da área social.

Em pleno feriado de Finados, Dilma receberá no Palácio da Alvorada os ministros Gleisi Hoffmann (Casa Civil), Miriam Belchior (Planejamento), Ideli Salvatti (Relações Institucionais), Edison Lobão (Minas e Energia), Tereza Campeio (Desenvolvimento Social), Izabella Teixeira (Meio Ambiente), Alexandre Padilha (Saúde), Aguinaldo Ribeiro (Cidades), Eleonora Menicucci (Mulheres), Aloizio Mercadante (Educação) e Pepe Vargas (Desenvolvimento Agrário), além do presidente da Caixa, Jorge Hereda. O grupo foi escolhido com a finalidade de montar um roteiro futuro, com ações que gerem notícias positivas para o governo — dos 11 ministros, sete são políticos.

A presidente vai averiguar com cada ministro a quantas andam os projetos e as obras dessas pastas e o que precisa ser acelerado para ser incluído na sua agenda de inaugurações dentro do prazo permitido pela legislação (até junho). No encontro, Dilma avisará que quer intensificar os eventos do Mais Médicos, a entrega de unidades do Minha Casa Minha Vida, a construção de creches, a distribuição de máquinas para as prefeituras e as cerimônias de formatura do Pronatec (ensino técnico). São essas ações que ela usará como marca de sua gestão durante a campanha.

A reunião está marcada para as 10h. Nela também será feito um balanço das metas das áreas" sociais e de infraestrutura. No meio deste ano, no auge dos protestos de rua, Dilma fez encontros emergenciais nos fins de semana no Alvorada. Também convocou uma reunião ministerial, na Granja do Torto, para montar a estratégia de reação do governo às demandas das ruas.

A partir de agosto, Dilma intensificou a agenda externa. Aumentou o número de viagens, com foco no Sudeste e no público jovem e de classe média; passou a receber grupos diversos no seu gabinete e a participar de cerimonias fora do Planalto. Nesta semana, por exemplo, Dilma foi ao Museu da República para a comemoração dos dez anos do Bolsa Família, com a participação de políticos aliados, servidores e beneficiários do programa, além do ex-presidente Lula.

Nos últimos dois meses, Dilma esteve duas vezes no Congresso e implementou uma recepção frequente aos líderes aliados no Planalto. A presidente voltará ao Rio Grande do Sul para mais uma inauguração na área de energia. Durante a semana, em Brasília, vai novamente receber parlamentares governistas.

Fonte: O Globo

De olho nas eleições 2. Dilma convoca ministros para acelerar obras e acertar discurso contra críticas

Calendário. Com a proximidade do ano eleitoral, presidente cobra prazos e planeja viagens estratégicas a fim de rebater adversários; ainda neste mês, petista pretende ir ao Nordeste visitar as obras da Transposição do Rio São Francisco, iniciadas ainda no governo Lula

A presidente Dilma Rousseff convocou para a manhã de hoje uma reunião ministerial no Palácio da Alvorada com 14 dos seus 39 ministros a fim de elaborar uma estratégia de ação para os próximos meses. Ela quer acelerar obras e cumprir uma agenda com o objetivo de rebater críticas de opositores e prováveis adversários na sucessão presidencial do ano que vem.

Para o encontro foram chamados ministros das áreas sociais e de infraestrutura, que deverão apresentar o quadro atual de investimentos, de projetos e de obras em andamento.

Uma das principais preocupações da presidente é com o projeto de Transposição do Rio São Francisco, que pretende levar água ao semiárido nordestino, iniciado ainda no governo de seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma quer ter o que mostrar em termos de avanço ainda neste mês, quando pretende fazer uma visita às obras, passando por pelo menos dois Estados: Ceará e Pernambuco.

A estratégia da presidente, nessa visita, é reforçar sua imagem no Nordeste, onde o governador pernambucano, Eduardo Campos (PSB), tem forte entrada, principalmente pela aprovação em seu Estado. A recente aliança de Campos com a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva é alvo de preocupação dos aliados e da própria Dilma.

A visita às obras do São Francisco também será uma resposta ao PSDB e ao senador Aécio Neves (MG), provável candidato ao Planalto. O tucano usou o último programa do partido na TV para mostrar trechos onde as obras estão paralisadas.

A presidente planeja visitar alguns locais para mostrar parte dos 6,5 mil trabalhadores em seus canteiros e mais de 1,8 mil equipamentos em atividade.

As datas e as cidades a serem visitadas estão sendo definidas, mas Dilma avisou a assessores que quer passar uma noite na região para mostrar sua interação com o Nordeste.

Dilma também deve cobrar de seus ministros o cumprimento dos cronogramas, de modo | que não sofram atrasos e os projetos possam ser lançados neste ano e no ano que vem. A presidente não quer, por exemplo, que haja problemas na concessão dos aeroportos de Confins (MG) e Galeão (RJ) estratégicos para a Copa de 2014.

O governo quer passar a ideia de que Dilma tem "muito a mostrar", seja em obras de mobilidade urbana, seja na área de plataformas de petróleo.

Multa eleitoral. O ex-presidente Lula participou ontem em Foz do Iguaçu (PR) de um seminário e foi questionado sobre sua campanha paralela pela reeleição de Dilma. "Eu não posso falar sobre esse assunto (a eleição). Já fui multado quatro vezes por acharem que eu estava fazendo campanha. E, se eu foi multado mais uma vez, não vou ter dinheiro para apoiar as campanhas da Dilma e da Gleisi (Hoffmann, ministra-chefe da Casa Civil e provável candidata do PT ao governo paranaense)", disse Lula em evento sobre desenvolvimento econômico.

O ex-presidente aproveitou para fazer um balanço dos dez anos de governo petista no País e destacar os resultados de programas como o Bolsa Família e o Luz para Todos, iniciativas que, segundo ele, mostram que é possível garantir desenvolvimento mesmo tendo como foco a população mais pobre. "Quando se acredita, pobre não é problema para nenhum país ou governante", disse.

Quanto ao Bolsa Família, que completou dez anos, Lula lembrou que algumas críticas apontavam o programa como "consagração da miséria" e que serviria para "criar vagabundos". "Pediam crescimento e, só depois disso concretizado, distribuição da riqueza. E, embora falte muito por fazer, o milagre do Brasil foi que conseguimos crescer e distribuir ao mesmo tempo." Colaborou Joana Lopes, especial para o Estado

Fonte: O Estado de S. Paulo