domingo, 26 de janeiro de 2014

Apoio declarado a Aécio

Presidente do Solidariedade, Paulinho da Força Sindical reafirma oposição ao governo federal e anuncia adesão à candidatura à Presidência do senador tucano, que renova críticas a Dilma

Bertha Maakaroun

Paulinho, Aécio e Alckmin comemoram aniversário do parlamentar e aliança no pleito de outubro

O deputado federal Paulo Pereira da Silva (SP), o Paulinho da Força Sindical, fundador do partido Solidariedade (SDD), reiterou ontem, durante comemoração de seu aniversário em um clube da capital paulista, que o apoio de sua sigla nas eleições presidenciais será ao senador Aécio Neves, presidente nacional do PSDB, pré-candidato tucano para disputar o Palácio do Planalto. "Quero lhe garantir, Aécio, que o nosso partido vai decidir em pouco tempo, oficialmente, o apoio à sua candidatura", discursou, dirigindo-se ao tucano. Declarando ter construído o Solidariedade na oposição – ele era do PDT –, Paulinho avisou que fará "de tudo para tirar o PT do poder". Na rota da oposição, as centrais sindicais ligadas ao Solidariedade também planejam incentivar e dar força a eventuais manifestações de rua por causa da Copa do Mundo.

"Acho que as manifestações vão voltar antes da Copa e nós vamos dar uma mão", disse. "Vamos dar uma mão, já que o governo Dilma não cumpriu nenhum dos compromissos que assumiu conosco", declarou. "O governo federal está quebrando as principais empresas do país e permitindo a volta da inflação", acrescentou o parlamentar sindicalista, antes do almoço que reuniu políticos, trabalhadores, além do senador Aécio Neves e do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. Segundo ele, esses fatores vão influenciar a insatisfação social, que será maior em pleno processo eleitoral.

Ao salientar a disposição de engrossar em qualquer circunstância a oposição à candidatura Dilma Rousseff (PT), o parlamentar sindicalista deixou claro que se em um eventual cenário de segundo turno estiverem concorrendo Eduardo Campos (PSB), governador de Pernambuco e pré-candidato à Presidência da República, e Dilma Rousseff, o Solidariedade apoiará Campos. Em São Paulo, Paulinho disse apoiar a candidatura à reeleição do governador tucano Geraldo Alckmin e, no Rio de Janeiro, a tendência é fechar com o PMDB do governador Sérgio Cabral, que terá como candidato mais provável ao Palácio das Laranjeiras o atual vice-governador, Luiz Fernando Pezão.

"Irreal" Depois de considerar o Solidariedade "uma esperança nova que surge na vida política brasileira", Aécio Neves, também em crítica a Dilma Rousseff, afirmou que a presidente, ao discursar em Davos, na Suíça, sobre a economia brasileira, falou sobre um Brasil que não é real. "Assistimos à presidente da República em Davos falando de um país que, infelizmente, não é o nosso. Infelizmente também as palavras não têm o dom mágico de mudar a realidade", declarou o senador mineiro.

Aécio disparou: "A presidente fala que o Brasil é um país que respeita contratos ao mesmo tempo em que assistimos à mais violenta intervenção que o setor elétrico, por exemplo, já assistiu, para falar apenas em um setor". O tucano continuou: "A presidente fala que o Brasil sempre busca alcançar o centro da meta inflacionária. Ela vai terminar o seu último ano de mandato lutando e contendo preços, como os de combustíveis, de transportes, de tarifas de energia, para não ultrapassar o teto da meta". De acordo com Aécio, o "Brasil do discurso da presidente não tem conexão com o Brasil real". Para ele, o país gera desconfiança em razão do que chamou "manipulação dos nossos números fiscais".

Citando o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Aécio criticou a alta da inflação da cesta básica. "Vimos uma pesquisa recente, feita em cerca de 10 capitais, onde a cesta básica, em todas elas, ultrapassou alta de 10%. No caso de Salvador (BA), chegou a 17% nos últimos 12 meses. Onde não está a inflação?", questionou. "A fantasia da propaganda oficial não consegue mascarar, não consegue mudar a realidade", disse. Para Aécio, o Brasil está no "fim da fila" daqueles que querem investir. "E a situação interna se agrava a cada dia. Seja na maquiagem para se alcançar o superávit primário, seja para se alcançar um saldo mínimo na balança comercial. Assistimos no Brasil a uma desconfiança generalizada", disse, apregoando acreditar que seja a "hora de a oposição voltar a governar o Brasil".

Fonte: Estado de Minas

Cabral decide exonerar petistas de seu governo

Governador envia e-mail a presidente do PT comunicando decisão que será formalizada na sexta-feira

Cássio Bruno

RIO — Irritado com a decisão de o PT do Rio antecipar a saída de sua administração de 31 de março para 28 de fevereiro, o governador Sérgio Cabral (PMDB) resolveu partir para o ataque. Ele vai exonerar os cerca de 700 petistas que fazem parte de sua administração na próxima sexta-feira. A demissão em massa inclui os dois cargos de primeiro escalão: os secretários Carlos Minc (Meio Ambiente) e Zaqueu Teixeira (Assistência Social).

Cabral comunicou a iniciativa, por e-mail, na madrugada de sábado, ao presidente regional do PT, Washington Quaquá. Os dois vão se encontrar na segunda-feira no Palácio Guanabara. Quaquá, por sua vez, entregará a Cabral a lista dos petistas que têm cargos no governo.

— Ele (Cabral) me mandou um e-mail hoje (sábado) de madrugada. O PT quer entregar os cargos desde novembro do ano passado. Só não o fez porque o próprio Cabral nos pediu. Se ele preferir, as demissões podem ser segunda-feira (amanhã) mesmo — disse Quaquá ao GLOBO.

Cabral confirmou o e-mail. Em nota, agradeceu ao presidente do PT “pelos sete anos e um mês de convívio fraterno”.

A manobra de Cabral tem um objetivo: atrair aliados para compôr a chapa do vice-governador Luiz Fernando Pezão (PMDB), que concorrerá à sucessão estadual em outubro deste ano com o apoio do governador. O PT disputará com o senador Lindbergh Farias.

A Secretaria estadual de Assistência Social deverá ser entregue ao Solidariedade. O partido foi criado, em 2012, pelo deputado federal Paulinho da Força. O parlamentar se reuniu com Sérgio Cabral na última semana. A legenda foi convidada por Lindbergh para indicar o vice (a vereadora Rosa Fernandes ou o filho dela, o deputado estadual Pedro Fernandes).

Já a pasta do Meio Ambiente e mais um secretaria serão entregues ao PSD e ao PDT. O PSD, do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab, apresentou a pré-candidatura do ex-deputado federal Índio da Costa.

Segundos aliados, Cabral considerou "uma afronta" do PT informá-lo, também por e-mail, meia hora antes, sobre o evento petista do último dia 17, no Sindicato dos Bancários. Neste encontro, que teve a participação de Lindbergh e do presidente nacional do PT, Rui Falcão, foi anunciada a saída do partido do governo Cabral em 28 de fevereiro. Em seu discurso, Lindbergh atacou Cabral, principalmente na área da Segurança Pública.

Duas horas depois da reunião do PT, Cabral confirmou que deixaria o cargo no mesmo dia (28 de fevereiro) para dar mais visibilidade a Pezão, que aparece com apenas 5% nas pesquisas de intenção de voto. Lindbergh tem 15%, o mesmo percentual do ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB). O deputado federal Anthony Garotinho (PR) é o líder com 21%.

- Cabral achou uma afronta a forma que o PT o comunicou - contou um aliado próximo de Cabral.

A decisão de Cabral põe fim a uma novela que se arrasta desde os meados do ano passado. À época, ganhou força dentro do PT fluminense a pré-candidatura de Lindbergh. Revoltado, Cabral recorreu ao ex-presidente Lula. O PT, então, por três vezes, adiou a entrega dos cargos.

A pedido do próprio Lula, os petistas combinaram de deixar Cabral apenas no dia 31 de março já que não houve acordo para uma aliança entre PT e PMDB no estado. O ex-presidente temia que com a briga prejudicasse a aliança nacional e a reeleição da presidente Dilma Rousseff. O PMDB é o principal aliado do PT no Congresso.

Pezão já tem agenda de governador. Participa de inaugurações de obras e lançamentos de projetos do governo do estado. Na semana passada, o vice-governador anunciou que fará agendas com a presidente Dilma, do mesmo partido de Lindbergh.

Segundo Pezão, Dilma vai inaugurar com ele a Transcarioca (transporte com ônibus BRT que vai ligar a Barra ao Aeroporto Tom Jobim (Galeão), em 10 de maio e o Arco Metropolitano (estrada que ligará Itaguaí a Itaboraí, passando por municípios da Baixada Fluminense), previsto para começar a funcionar até julho.

Fonte: O Globo

Eleições: Dilma prepara 'festival' de entregas de máquinas a prefeituras no 1º semestre

Rafael Moraes Moura, Daiene Cardoso

BRASÍLIA - Uma das principais apostas do Planalto para aumentar a capilaridade das ações do Executivo e estabelecer uma relação direta com prefeituras, o PAC Equipamentos será uma das prioridades do governo federal no primeiro semestre, quando pretende concluir a entrega de todas as máquinas previstas para o ano. São motoniveladoras, caminhões-caçamba, caminhões-pipa e pás carregadeiras doadas a cidades com até 50 mil habitantes do País.

O Ministério do Desenvolvimento Agrário quer conciliar o calendário turbinado de entrega dos equipamentos com a agenda da presidente Dilma Rousseff, que tentará reeleição. A partir de 5 de julho, as agendas públicas da presidente terão de obedecer à lei eleitoral. Ela não poderá participar pessoalmente das cerimônias de inauguração ou entrega de benefícios.

Levantamento da Confederação Nacional de Municípios mostra que, até o fim do ano passado, 57% dos equipamentos prometidos por Dilma haviam sido entregues (10.259 de um total de 18.073). O ministério pretende entregar, portanto, 8 mil equipamentos que restam num prazo de, no máximo, seis meses. Ou seja, fazer em 180 dias praticamente o que demorou dois anos para fazer até agora.

Segundo o ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, o cronograma das doações já estava previsto para ser concluído no primeiro semestre. Vargas nega que as datas estejam relacionadas com a proximidade das eleições presidenciais (Mais informações abaixo).

No ano passado, Dilma participou de 14 cerimônias em que entregou chaves de máquinas para prefeitos - a última foi em São Francisco do Sul, Santa Catarina, em novembro passado.

A legislação eleitoral proíbe "a distribuição gratuita de bens, valores ou benefícios por parte da Administração Pública" a partir de 5 de julho, exceto para situações em que forem declarados calamidade pública e estado de emergência. No entanto, a lei permite a manutenção de programas com execução orçamentária incluída no ano anterior, como é o caso do PAC Equipamentos.

Ampliação. Inicialmente, o programa previa apenas a entrega de retroescavadeiras, mas devido à demanda dos prefeitos e ao pedido de Dilma de incluir pás carregadeiras, motoniveladoras, caminhões-caçamba e caminhões-pipa, o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Equipamentos foi ampliado e ganhou uma segunda fase.

Um dos empecilhos que podem minar a intenção do governo federal de concluir a entrega das máquinas neste semestre é a capacidade produtiva dos fabricantes, que acabaram sobrecarregados pelo programa em 2013. "O importante é que as entregas estão ocorrendo e a própria indústria, às vezes, não tem como fornecer tudo de imediato", disse o presidente da Confederação Nacional de Municípios, Paulo Ziulkoski.

De acordo com o levantamento da entidade, o governo federal conseguiu entregar 100% das retroescavadeiras previstas (5.071), mas só distribuiu 52% das 5.061 motoniveladoras, 27% dos 5.061 caminhões-caçamba, 52% dos 1.440 caminhões-pipa e 32% das 1.440 pás carregadeiras prometidas.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário, todos os 5.061 municípios de até 50 mil habitantes que solicitaram as doações receberam até o fim de 2013 pelo menos um equipamento. Apenas o Distrito Federal não foi contemplado no programa. "Se isso vai render voto ou não, não sei. A verdade é que conheço uma centena de prefeitos de pequenas cidades que estão muito exultantes com as máquinas", comenta Ziulkoski.

No ano passado, a presidente intensificou a agenda de eventos Brasil afora, em cerimônias que ganharam caráter eleitoral. Para o Palácio do Planalto, é prioridade a entrega de casas do Minha Casa Minha Vida e de chaves de máquinas a prefeitos, além da divulgação de investimentos em obras de mobilidade urbana. O script deverá se repetir neste ano, pelo menos dentro do prazo da lei eleitoral.

Fiscalização. Os equipamentos do programa são doados para municípios com menos de 50 mil habitantes e devem ser utilizados para abertura, recuperação, readequação e conservação de estradas vicinais na zona rural de municípios com predominância de agricultores familiares e também para mitigação dos efeitos da seca nas regiões do semiárido.

Em dezembro, o Estado revelou que a Controladoria-Geral da União (CGU) intensificou a fiscalização para acompanhar de perto o uso das máquinas em 110 cidades e verificar a utilização adequada dos equipamentos. Multiplicam-se os casos de prefeitos que utilizam para fins particulares as retroescavadeiras e motoniveladoras doadas pelo governo federal.

Um dos casos mais emblemáticos é o de Santa Fé do Araguaia (TO), onde uma motoniveladora que deveria auxiliar a recuperação de estradas vicinais foi utilizada para a melhoria das estradas internas da propriedade de um aliado do prefeito, conforme ação civil pública movida pelo Ministério Público Estadual. A auditoria da Controladoria-Geral da União ainda não foi concluída.

Fonte: O Estado de S. Paulo

22 anos depois, o PPS comemora mais um aniversário de fundação

Manifesto de fundação do PPS
"Aos seres humanos que, por nascimento ou opção, habitam terras brasileiras,o PPS dedica seus 70 anos de lutas, e todas as lutas futuras"

Há uma crise, no mundo e no Brasil, e todos podemos senti-la. Uma crise que solapa a esperança, que chega ao fundo dos corações, gerando frustrações, descrença e cinismo. Frente aos desafios destes novos tempos, seu compromisso de luta por uma sociedade mais justa e mais humana, o X Congresso do PCB oferece à sociedade brasileira um novo instrumento de luta, o Partido Popular Socialista - PPS.

Um Partido que, desde sua formação, é plural, aberto à participação de todos os que acreditam que é possível, a todos os seres humanos, viverem iguais e livres. Um Partido que, num mundo de mudanças, assume o compromisso central com a vida, entendendo-a como indissociável da natureza e da cultura. Um Partido, que quer contribuir para a construção de uma nova ética, em que o ser humano, sem nenhuma discriminação, seja protagonista e beneficiário das transformações sociais.

Um Partido novo, democrático, socialista, que se inspire na herança humanista, libertária e solidária dos movimentos sociais e das lutas dos trabalhadores em nosso país e em todo o mundo, prolongando hoje a luta que travamos desde 1922. Um Partido que não use o povo, mas seja um instrumento para que cada cidadão seja sujeito de sua própria história. Um Partido socialista, humanista e libertário, que tenha como prática a radicalidade democrática, que permita a cada ser humano exercer sua plena cidadania, na área em que reside e no planeta em que habita.

Um Partido que tem como metodologia de ação política, a não violência ativa, e que repudia toda e qualquer forma de violência (econômica, racial, religiosa, física, psicológica etc). Um Partido que faz da eliminação da miséria a questão primeira de sua política. Porque enquanto houver um ser humano sem comida, sem moradia, sem educação ou sem as mínimas condições de acesso à saúde, nossa luta tem e terá razão de continuar.

Um Partido que defende que a propriedade dos meios de produção e de comunicação deve ser social, com propostas autogestivas, cogestivas e cooperativistas, contrapondo-se aos modelos neoliberais.Um Partido que se empenhará para que o desenvolvimento científico e tecnológico seja considerado prioridade nacional, pois como não haverá progresso social sem o amplo desenvolvimento científico e tecnológico.

Um Partido que tem como objetivo a reforma democrática do Estado para que ele não tutele, mas que seja controlado pelos cidadãos e pela sociedade.

Um Partido que luta por um programa radical de desenvolvimento que tenha o ser humano como sujeito e que seja capaz de eliminar a injusta distribuição de renda, acabando com a brutal concentração hoje existente. A consolidação da democracia política e a retomada do desenvolvimento, pondo fim à recessão e ao desemprego, são claras prioridades para a construção da cidadania.

Um Partido que lutará pela implantação do parlamentarismo, pelas reformas estruturais de que o país necessita e pela preservação dos direitos consagrados constitucionalmente. Um Partido que se dispõe a repensar tudo, 'mas que não abre, de forma alguma, seu compromisso de luta por uma sociedade mais justa e mais humana.

Um Partido que é e será um espaço aberto à participação de todos os que têm aspiração de construir essa sociedade. Um Partido que assume sem medo compromissos com o presente e o futuro, recusando a infalibilidade e o dogma, mas tendo em conta a experiência do passado.

Um Partido que não tem fórmulas prontas e acabadas, e que se propõe a discutir e formular um Projeto para a Nação Brasileira, com a colaboração de todas as forças do campo democrático. Esse é o desafio lançado a todos os militantes deste novo Partido e o convite a todos os que queiram nele se integrar.

Manifesto de fundação do PPS, 26 janeiro de 1992, São Paulo, SP

Lula busca votos para Dilma no Nordeste e em SP

Viagens começam em março; petista quer acabar com hegemonia do PSDB paulista e combater Eduardo Campos

BRASÍLIA - Curado de um câncer que o impediu de participar efetivamente das eleições municipais de 2012, o ex-presidente Lula está determinado a rodar o país na campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff a partir de março, com foco especial no Nordeste, para se contrapor à candidatura do presidente do PSB, governador Eduardo Campos (PE); e em São Paulo, onde tentará acabar com a hegemonia do PSDB, há 19 anos no poder.

Na disputa presidencial, os petistas consideram o ex-aliado Campos um candidato mais forte do que o presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG). Nas análises feitas pelo comando informal da campanha de Dilma, a avaliação é que o socialista é melhor de debate e tem um discurso mais atraente. Os petistas também estão preocupados com a possibilidade de a ex-ministra Marina Silva, que teve 20 milhões de votos em 2010, ser vice na chapa do socialista.

Por enquanto, o entorno de Dilma aposta nos desentendimentos entre Campos e Marina. Petistas assistem com gosto as divergências entre o PSB e a Rede na formação de palanques regionais e avaliam que ele dará um tiro no pé se, para atender Marina, implodir a aliança com os tucanos em São Paulo e Minas Gerais.

Quando a campanha começar, os petistas pretendem explorar supostas incoerências entre o discurso de Campos e a prática, como a aliança com a família Bornhausen, ex-PFL e ex-DEM, e a defesa de uma nova política.

Aliados de Dilma também avaliam que Marina não terá este ano a mesma força que em 2010, porque se aliou a um político e a um partido tradicionais. Por enquanto, a estratégia de Dilma é não entrar pessoalmente no fogo cruzado da pré-campanha. Mas o Planalto tem cobrado do PT respostas a críticas ao governo feitas por Campos.

Em relação ao PSDB, o PT aposta no fogo amigo do ex-governador José Serra. Petistas atribuem a ele a aliança entre o PPS de Roberto Freire, aliado de Serra, e o PSB de Campos.

Economia é preocupação de petistas na campanha
No próprio quintal, a preocupação do PT, do ex-presidente Lula e do Planalto é com a economia e, principalmente, com o controle da inflação. Outro motivo de apreensão é a antipatia do empresariado em relação ao governo Dilma, considerado fechado, imprevisível e intervencionista. Lula tem se reunido com empresários para tentar reverter o quadro. Ele também tem costurado alianças nos estados para a formação dos palanques, além de tentar resolver os nós da reforma ministerial, fonte de irritação de aliados, como o PMDB.

Seguindo o roteiro da pré-campanha, Lula cancelou viagem a Minas, no dia 7, para participar da largada da campanha do ministro Alexandre Padilha (Saúde) ao governo de São Paulo. Tal é a disposição de Lula para rodar o país que auxiliares de Dilma traçam a logística da campanha como se houvesse dois candidatos: a própria presidente e Lula.

A ideia é articular a agenda dos dois de forma que, quando Dilma estiver no Sul, por exemplo, Lula estará no Norte. Ele terá a vantagem de fazer campanha em tempo integral, enquanto Dilma terá restrições impostas pelo cargo. Na organização das viagens, onde houver mais de um candidato da base aliada para governador, como no Rio, em vez de Dilma ir aos diversos palanques, será organizada uma atividade própria e os aliados serão convidados. Esse modelo tende a gerar menos saias-justas para Dilma.

Lula não estará preso aos compromissos firmados entre Dilma e os aliados. O PT quer que Lula priorize os candidatos petistas a governador, senador e deputado — outro problema com os aliados, que apostam na popularidade dele para conquistar votos.

— É natural que ele priorize os do PT. O que importa é a gravação para o programa de TV, é o palanque eletrônico, que é 99% da campanha — avalia o vice-presidente do PMDB, senador Valdir Raupp.

Fonte: O Globo

Luiz Werneck Vianna* : 'Este ano não vai ser igual àquele que passou'

"Este ano não vai ser/ igual àquele que passou", cantava a antiga marchinha de carnaval. Não vai, é certo, mas ainda estão ressoando em surdina no novo ano as toadas que tomaram as ruas nas jornadas de junho de 2013. E, como um encontro marcado, não há quem não espere o seu retorno, embora em diverso diapasão, com os jogos da Copa do Mundo e o processo de uma sucessão presidencial competitiva. Foram fundas as marcas deixadas pelo ano que passou: além de suspender o cotidiano com as ondas de protesto das manifestações populares, trouxe à luz novos personagens e um sentimento inédito de urgência quanto a demandas, desatendidas, da população nos serviços públicos.

As manifestações, é verdade, cessaram, mas estão aí presentes os mesmos motivos, o difuso mal-estar e os protagonistas de ontem. A política e os partidos, malgrado um tumultuado esforço despendido na produção legislativa a fim de responder ao clamor por mudanças, passado o susto pelo descontrole das ruas mantêm distância da sociedade, o que mais se agrava por ser este um ano a ser dominado pelo calendário eleitoral. Pior, já se reitera o vezo de um malfadado presidencialismo de coalizão que, na forma como o praticamos, reduz o papel dos partidos a máquinas eleitorais aplicadas à reprodução da classe política que aí está, em detrimento do que deveria ser a busca de rumos para uma complexa sociedade como a nossa.

Não se aprendeu nada, não se esqueceu nada. Não à toa esse dito clássico tem sido invocado por tantos - a política está entregue, como sempre, a próceres empenhados no escambo do horário eleitoral, especialmente no interesse das cúpulas partidárias, conforme um deles declarou sem rebuços dias atrás em entrevista a um importante jornal. Mas desta vez não haverá surpresa, como no ano que passou. A Copa do Mundo tem data, assim como a têm a eleição presidencial, a dos governadores e a parlamentar, para as quais não se deve prever céu de brigadeiro, tal como já se entrevê.

Depois dos idos de junho muita água correu debaixo da ponte: tanto o Estado como o governo se preveniram, em particular em política de segurança e na tentativa de minorar as carências da população em termos dos serviços públicos, embora não faltem à cena gatilhos novos, como, entre outros, a questão dos presídios e a dos indígenas. E a sociedade teve tempo para investir na reflexão sobre aqueles surpreendentes acontecimentos, como testemunha a produção editorial dedicada a eles. Sobretudo não se mostrou insensível ao significado de que eram portadores, qual seja, o de que estamos no limiar do esgotamento de um longo ciclo e já maturam as condições para sua superação.

Vários sinais apontam para essa direção, o principal deles se faz indicar pela recusa em aceitar a reiteração do padrão de discricionariedade irrestrita na administração pública, de imemorial tradição entre nós, terreno em que o Ministério Público se vem mostrando à altura do papel constitucional que a Carta de 88 lhe destinou. O Poder Executivo, especialmente o municipal, em alguns casos significativos, vem acompanhando essa tendência, abrindo canais de participação para a população envolvida em temas do seu interesse. O julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) da Ação Penal 470, com a condenação de importantes quadros do partido no governo, exerceu severa pedagogia quanto aos valores republicanos.

São mutações relevantes e em todas elas se registram ecos das manifestações espontâneas de junho que confirmaram, na tradução livre que imprimiram em suas faixas e seus galhardetes, o sentido visado por seus autores institucionais. De uma perspectiva mais larga, nem sempre perceptível a olho nu, essas são transformações que repercutem em cheio no modelo nacional-desenvolvimentista, latente na esquerda brasileira, desentranhado pelo governo do PT do baú da nossa História como resposta à crise financeira mundial de 2008, inclusive com elementos que recebeu da sua versão sob o governo Geisel, que depende visceralmente de um modelo político decisionista.

De passagem, registre-se que tal modelagem, na democracia da Carta de 88, vem sendo reproduzida pelas vias abertas pelo presidencialismo de coalizão à brasileira, ora ameaçado pela votação ainda em curso no STF de uma ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil com a finalidade de interditar o financiamento das competições eleitorais por parte de empresas. Sem a escora dessa peça, uma de suas vigas-mestras, o presidencialismo de coalizão somente poderia persistir em torno de programas, o que supõe ampla deliberação e adoção de rumos compartilhados, minimamente consensuais. Aí, mais um indicador de exaustão do ciclo a que ainda estamos submetidos.

A sensibilidade a esse novo estado de coisas está em todos, até mesmo, se valem os sinais, na presidente Dilma Rousseff e em sua equipe econômica, de que é exemplo sua decisão de comparecer ao encontro de Davos. Os fortes abalos da crise de 2008, que ainda sentimos, se importaram em ruínas e perdas materiais, têm devolvido vigor, aqui e alhures, a muitas lições esquecidas, como as de Marcel Mauss, Karl Polanyi e Antonio Gramsci, tão diferentes entre si, mas convergentes nos seus propósitos de regular o mercado pelo direito, por padrões eticamente orientados e pela política democrática.

Mudanças no modo de interpretar o mundo são influentes e, no caso, um livro recente chama a atenção por sua energia e coragem intelectual. O Mistério e o Mundo - Paixão por Deus em Tempos de Descrença (Rio de Janeiro, Rocco, 2013), da teóloga católica Maria Clara Bingemer, é mais um desses sinais, pois, longe de um diagnóstico desalentado, o que ela apresenta aos seus leitores é um chamado, na estrita linguagem da sua confissão religiosa, para uma ação política transformadora. De verdade, 2014 é um ano novo.

*Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador da PUC-Rio.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Tereza Cruvinel: Camiseta amarela

Os jovens, especialmente os que negam a política, precisam conhecer melhor a história da democracia de que desfrutam

Quase todos que hoje têm 30 anos ou menos ouviram falar da campanha das Diretas. Mas, como não viveram a ditadura e seus horrores, a supressão do voto para presidente e outros direitos, a troca dos generais combinada entre eles mesmos, por melhor informados que sejam, não podem avaliar o que foi aquela explosão. A comparação com as manifestações do ano passado é quase herética. Protestar na democracia é fácil e quase lúdico. Mas vestir uma camiseta amarela sabendo que a cavalaria do general Newton Cruz pode atacar não é fazer um rolezinho. Sabendo que a prisão podia levar ao enquadramento na terrível Lei de Segurança Nacional, embora a ditadura já fosse, então, um leão com alguns dentes a menos.

Muito foi dito e escrito, nos últimos dias, sobre a unidade política da oposição na campanha que reuniu nos palanques figuras díspares, como Ulysses, o líder maior, Lula, Brizola, Montoro, Tancredo, Fernando Henrique, Severo Gomes, Richa, Simon e outros tantos, do centro ou da esquerda. De Teotônio, o menestrel. A coordenação interpartidária da campanha tinha duas figuras mais "executivas": o publicitário Mauro Montorin, indicado por Montoro, pelo PMDB, e José Dirceu, do PT, indicado por Lula. Na democracia que ajudou a construir, Dirceu acabou preso na Papuda. Os dois organizaram juntos a infraestrutura e a liturgia política dos grandes comícios. Entraram também para essa história Osmar Santos, o locutor, Fafá de Belém, a diva, Cristiane Torloni, a musa.

Mas o povo, que vivia acuado, comparecendo aos simulacros eleitorais, foi o grande protagonista. O ascenso das massas em 1968, puxado pelo movimento estudantil, terminara com o AI-5, o recrudescimento da ditadura, da tortura, das cassações e perseguições. Sem caminho, a juventude mais aflita, inclusive a hoje presidente Dilma, jogou a vida na luta armada, apesar da desproporção de forças no confronto. A guerra foi suja, muitos morreram, os mais intrépidos, como Marighela e Lamarca, foram executados a sangue frio. Os do Araguaia foram dizimados, restando hoje dois ou três vivos. Um deles, José Genoino, em prisão domiciliar. A brutalidade do "combate ao terrorismo" calou fundo, e a população se recolheu. Os pobres amargaram o arrocho salarial, e a classe média desfrutou do "milagre econômico". O despertar começou em 1974, quando o PMDB elegeu a maioria dos senadores. Em 1982, a maioria dos governadores. A explosão veio em 1984, a partir do primeiro comício das diretas, que ontem completou 30 anos.

Falou-se pouco de quem, quase inadvertidamente, como quem solta uma borboleta, propiciou tudo isso. Dante de Oliveira chegara à Câmara em 1983 e o que primeiro chamou a atenção no jovem deputado por Mato Grosso foram os ternos brancos, eventualmente acompanhados pelo chapéu na mesma cor. E também o porte e a gentileza. Estávamos, uma tarde, num sofá do Salão Verde, um grupo de repórteres, e ele se aproximou quase constrangido: "Vocês já ouviram falar da minha emenda propondo eleições diretas para presidente? Pois o doutor Ulysses finalmente concordou em apresentá-la à executiva e propor uma campanha pela aprovação. Vocês podiam provocá-lo sobre o assunto". Iríamos todos fazer isso, mas com grande ceticismo. Como aprová-la se o regime tinha maioria no Congresso? O resto é história. Veio a campanha e, para os jornalistas, uma cobertura inesquecível. Dante morreu muito jovem, depois ter governado seu estado.

Em abril, lembraremos o dia em que as multidões foram derrotas no plenário da Câmara. Lembro-me nitidamente do momento em que o painel se abriu e mostrou o resultado: apenas 298 a favor. Faltaram 22 votos. Da lividez de Ulysses, do espanto da oposição, do constrangimento dos que ganharam mas não celebraram, das lágrimas incontidas. Segui o grupo que, com Cristina Tavares e Maria da Conceição amparando-o, conduziu Ulysses ao gabinete do subsolo, onde ainda funciona a presidência do PMDB. Vergado pela derrota, o Senhor Diretas, o timoneiro, titubeava sobre as pernas trôpegas.

A evocação das diretas é pedagógica, por isso mais essas reminiscências. Os jovens, especialmente os que negam a política, precisam conhecer melhor a história da democracia de que desfrutam. Deviam ler o livro de Ricardo Kotscho, Explode um novo Brasil, relato vivo da campanha. No prefácio, Ulysses escreveu, louvando o autor: "Poesia é encontrar uma árvore esquecida à beira de uma estrada e glorificá-la". Chico Buarque nos legou a canção que diz: "Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela". Muita gente guarda sua camiseta amarela. A minha dorme num baú de souvenirs políticos, resistindo a traças e trapaças.

Fonte: Correio Braziliense

Eliane Cantanhêde: Bolsa Manhattan

Do Brasil para a Suíça, da Suíça para Cuba e de Cuba de volta para casa, a presidente Dilma Rousseff tem um bom tempo de voo para discutir com o chanceler Luiz Figueiredo um assunto pouco diplomático e muito prático: os altíssimos custos de diplomatas e funcionários do Itamaraty no exterior.

Com as mortes e decapitações de presos no Maranhão, os escândalos políticos que se amontoam e a reforma ministerial, passou quase despercebida a informação da Folhade que o embaixador Guilherme Patriota aluga um apartamento em Nova York pelo correspondente a R$ 54 mil por mês.

Ele é irmão e segundo do embaixador na ONU, o ex-chanceler Antonio Patriota. E ambos moram na área mais nobre de Manhattan, um dos lugares mais luxuosos do mundo, ao lado de celebridades como Madonna, Al Pacino e Woody Allen.

Ok. Diplomatas têm de se apresentar bem e Nova York é cara. Mas embaixador brasileiro e até jovens secretários (deu no "NYT"!) precisam mesmo morar nos endereços mais exorbitantes? E é diferente na Europa? Na Ásia? E em pequenas embaixadas que não servem para nada?

A imprensa reclama de falta de transparência sobre custos --e luxos-- do Itamaraty. Mas a dificuldade não é só de jornalistas, é da Esplanada dos Ministérios também.

Se passou quase despercebida do grande público, a informação não passou tanto assim dentro do próprio governo. Até porque os exageros do Itamaraty e as perguntas acima estão no caderninho da equipe econômica desde o governo Lula.

Na época, o Planejamento fez um grande levantamento de salários e vantagens de funcionários das diferentes pastas, para efeitos de planos de carreira. Adivinha de onde veio a maior resistência? Do Itamaraty. O pretexto foi que os valores variam muito de um lugar para outro...

Explica, mas não justifica, pois os valores, somados, caem numa mesma conta: a minha, a sua, a nossa.

Fonte: Folha Online

Dora Kramer: Rede de intrigas

Pergunte-se a um aliado de Marina Silva que tenha os pés plantados no chão e a cabeça firme no pescoço se há alguma chance de a ex-senadora vir a ser a candidata do PSB a presidente, trocando de lugar com o governador Eduardo Campos com base nas pesquisas de opinião - onde ela aparece sempre à frente dele - e o que se ouve é o seguinte: trata-se de um sonho de uma noite de verão.

"Mal dormida", acrescenta o deputado federal Alfredo Sirkis (PSB-RJ), para resumir a ópera. Fosse para ser candidata, Marina teria se filiado a algum dos partidos que lhe ofereceram a vaga quando a Justiça Eleitoral recusou o registro da Rede Sustentabilidade a tempo de disputar a eleição deste ano.

De onde, a realidade é que o partido não existe de direito. E, como de fato seu único ativo é a figura de Marina Silva, há muito mais espuma que consistência nessa onda toda em torno das exigências que a Rede estaria fazendo ao PSB em relação às alianças eleitorais nos Estados, inclusive ameaçando não ocupar o lugar de vice na chapa de Campos.

Há de tudo um pouco na Rede: ecologistas, esquerdistas, evangélicos, correntes para todos os gostos com cada qual querendo dar seu palpite. Falar alto e em tom impositivo para também não capitular à condição de mero coadjuvante de segunda linha do PSB sem direito a voz, voto e veto.

Um exemplo foi a recente manifestação do grupo de Minas Gerais, prontamente desautorizado pela direção nacional, exigindo que o PSB se afastasse do PSDB no Estado, onde ambos mantêm uma relação longeva e na qual se embute uma espécie de acordo de cavalheiros entre mineiros e pernambucanos.

O senador Aécio Neves sabe que Pernambuco é território de Eduardo Campos, que tampouco tem a pretensão de disputar Minas com o tucano.

De exigência real o que existe mesmo é uma candidatura própria ao governo de São Paulo, com o consequente rompimento da aliança com o PSDB de Geraldo Alckmin. A avaliação é a de que o "conservadorismo" de Alckmin não faria bem ao projeto da "nova política" e que para Campos seria essencial correr em faixa exclusiva no maior colégio eleitoral do País, ao menos no primeiro turno.

De divergência objetiva que provocou obstáculos concretos houve a manifestação de Marina contra o apoio de Ronaldo Caiado, feita para marcar posição para o público interno. Resultou em avarias sérias com o setor do agronegócio.

No restante do País, inclusive no terceiro colégio eleitoral (Rio de Janeiro), o debate sobre as alianças ainda está no início, sem escolha de nomes, mas sob a égide de uma evidência: o PSB é um partido e a Rede, por ora, um símbolo.

Efeito retardado. Alguns tucanos não gostaram de ouvir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso dizer no fim da semana passada que prefere que Aécio Neves vá para o segundo turno com Dilma Rousseff, mas, se a vaga na etapa final for de Eduardo Campos, tudo bem também.

FH disse exatamente a mesma coisa no dia 8 de novembro do ano passado, a declaração virou manchete e não houve reação alguma. Esquisito.

Faca nos dentes. Em atenção ao DEM - aliado tradicional e que já concordou em não fazer grandes exigências - o PSDB oficialmente fala em apoiar Paulo Souto para o governo da Bahia.
Extraoficialmente, porém, os tucanos torcem para que Souto não seja candidato porque prefeririam se aliar ao ex-ministro da Integração Nacional Geddel Vieira Lima. Pelo perfil combativo, pelo fato de ser um dissidente do PMDB e pela gana dele em derrotar o PT.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Miriam Leitão: Povo e República

A República nasceu sem povo, mas 30 anos atrás foi invadida pelo povo na mais memorável onda de manifestações de rua, a das Diretas. Hoje, vive-se um momento diferente, com uma enorme insatisfação em relação ao sistema de representação. Ao reunir na mesma conversa um historiador e uma atriz, o resultado foi instigante para pensar o Brasil.

O Comício da Praça da Sé, dia 25 de janeiro de 1984, foi o ponto em que ficou claro que o regime militar não controlaria mais as ruas. No palanque, entre os políticos, brilharam atores, atrizes, cantores. Fafá de Belém cantava a capella o Hino Nacional. A atriz Christiane Torloni foi presença frequente. O historiador e cientista político José Murilo de Carvalho esteve no Comício da Candelária, de um milhão de pessoas. Ele sempre estudou os encontros e desencontros do povo e sua República. Por isso, chamei Christiane e José Murilo para um balanço do movimento, 30 anos depois, no programa da Globonews.

O professor José Murilo de Carvalho nos aponta na sua obra o começo descarnado da República e a lenta construção da cidadania. Os militares a instauraram diante da população apática. Perguntei se a campanha das Diretas fora o momento em que o povo reencontrou a República.

— Eu creio que o povo começou a entrar na República em 1945, porque, antes, apenas 5% votavam. Nem pelo voto havia povo. A partir daí veio uma curva ascendente muito forte, vieram as manifestações pela Petrobras. Houve uma invasão da República pelo povo, o sistema entrou em pane e veio o corte de 64 — disse José Murilo.

A atriz Christiane Torloni lembra as Diretas como uma retomada.

— Era a terra pulsando no ritmo do hino nacional; não era o hino roubado, institucionalizado, proibido. Foi o momento em que o povo cantou para dizer “é meu o hino". E ele fazia sentido.

— Símbolos são importantes. Os militares tinham sequestrado o hino, a bandeira. O hino tinha a forma certa de cantar, havia regras para o uso da bandeira. E Fafá cantava o hino fora das regras — completa José Murilo.

A cidadania foi reconquistada naqueles dias. O comício da Sé foi a explosão em número, mas o movimento começou com um encontro pequeno em Abreu e Lima, Pernambuco, convocado pelo PMDB. Depois, o senador Teotônio Vilela propôs uma campanha de rua. O outro comício foi em Goiânia, já a favor da emenda Dante de Oliveira. Depois, veio Curitiba. Aí aconteceu a Sé e seus 300 mil. Os últimos, na Candelária e Anhangabaú, dias 10 e 16 de abril, reuniram um milhão de pessoas. Um ano de movimento e três meses intensos, ao todo, 40 comícios e 4,5 milhões de pessoas.

— Nós íamos andando no meio das pessoas até o palanque, não tinha isso de irem os vips separados. Porque era uma volta para casa. Para a praça, para a rua, que também haviam sido sequestradas. Era o resgate da cidadania, sem ufanismo — diz Christiane.

José Murilo fez um paralelo inquietante. Lembrou dos políticos que estavam na frente do movimento:

— Ulisses, Covas, Montoro, Arraes, Brizola. Os novos eram Fernando Henrique e Lula. Havia confiança na política. Os políticos estavam ali liderando, e as pessoas confiavam neles e na política como instrumento. Nas manifestações de junho, foi o oposto. Aconteceu de repente. Ninguém esperava e houve rejeição aos políticos e à política. Significa que é necessário dar um passo à frente, reformar o sistema representativo que não está dando conta das necessidades. A juventude está perdida em relação ao sistema atual — diz José Murilo.

Christiane fez outra comparação das Diretas com o movimento de junho:

— Não acho que junho aconteceu de repente. Acho que estava atrasado. É muito estranho que a Nação tenha ficado calada durante tanto tempo. Quando começou, era de novo a volta para a casa. Mas depois houve os black blocs. Que gente é essa? São pessoas que gostam do Brasil? Não. Se gostassem, mostravam sua cara. Veja o palanque das Diretas. Tem alguém de máscara? Era o contrário, a gente queria mostrar a cara para dizer: eu sou você, somos um só, é o espírito da Nação. É como o amor, a gente olha a cara do outro.

É cheia de encontros e desencontros a relação da república brasileira e seu povo. Há 30 anos, houve uma bela página. Os eventos recentes estamos ainda tentando entender.

Fonte: O Globo

Elio Gaspari: Mercadante ou José Dirceu 2.0

A escolha do senador Aloizio Mercadante para a chefia da Casa Civil é um luminoso indicador do que é o governo da doutora Dilma e, sobretudo, do que virá a ser. Desde que o PT entrou no Planalto, esse cargo foi ocupado por dois comissários (José Dirceu e Antonio Palocci), dois quadros de perfil técnico (ela e Erenice Guerra), mais Gleisi Hoffmann, que teve um desempenho híbrido. Dos cinco, um está na Papuda e dois deixaram as funções no tapete manchado dos escândalos.

Mercadante será o terceiro comissário. Não tem as mesmas bases que Dirceu teve na burocracia partidária, nem as conexões de Palocci na plutocracia, apesar de buscá-las em cordiais jantares paulistas. Como Dirceu e Palocci, foi um dos fundadores do partido. Como os dois, teve sua carreira tisnada por uma operação que Lula classificou, sem se referir a ele, como obra de "aloprados". Na reta final de sua campanha pelo governo de São Paulo, em 2006, dois militantes petistas foram presos mercadejando dossiês. Um deles carregava R$ 1,7 milhão em dinheiro vivo. O Supremo Tribunal Federal absolveu Mercadante de qualquer relação com o caso.

Nomeado para os Ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação pela doutora Dilma, mostrou uma opção preferencial por projetos fantásticos, felizmente adormecidos. Por exemplo: um laboratório de pesquisas oceânicas em alto mar, ou a reciclagem de um plano delirante de Fernando Haddad, que pretendia comprar 600 mil tablets para alunos de escolas públicas, que Mercadante redirecionou para professores. (Em 2004, a Casa Civil de José Dirceu operava 36 grupos de trabalho e ele coordenava 16, inclusive um para tratar de hip hop.)

Como estrategista político, Mercadante fez parte do conclave de comissários que conceberam uma resposta do governo às manifestações de julho do ano passado. Propunha uma Constituinte exclusiva e um plebiscito para desenhar uma reforma política. Esse caos se desarticulou em três dias. Havia ainda uma proposta de cinco pactos. Um deles previa a abertura de mais vagas nos cursos de medicina. Mercadante deixa o Ministério da Educação enquanto a doutora vai a Cuba negociar a vinda de mais dois mil médicos e o Rio arrisca perder a maior faculdade (decadente) do País, com 2,4 mil alunos.

A grande virada do governo de Lula se deu quando ele trocou José Dirceu por Dilma Rousseff, pondo ordem na administração e mantendo-a parcialmente ao largo do troca-troca. Agora, deu-se o contrário, abrindo-se mais espaço para o projeto partidário. Foram muitos os enganos de José Dirceu. Talvez o maior deles tenha sido a ideia de que a Casa Civil poderia ser sua plataforma para chegar à Presidência da República.

Barbosa deu uma aula imprópria
No dia 2 de janeiro, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, decidiu a prisão do mensaleiro João Paulo Cunha, não assinou o necessário mandado e saiu de férias pouco depois. Tratava-se de autografar um despacho relacionado com um processo que relatara e os recursos que negara.

De Paris, ele condenou os colegas Cármen Lúcia e Ricardo Lewandowski, que o substituíram: "Eu, se estivesse como substituto, jamais hesitaria em tomar essa decisão".

Tudo bem, mas esteve, como titular, e não assinou.

Barbosa diz que a ministra Cármen Lúcia não discutiu com ele qualquer problema: "Ela não me telefonou. Não falou comigo".

Um curioso ouviu de Cármen Lúcia, numa conversa casual, anterior a essa declaração de Barbosa, que ela lhe telefonou no dia 3, falou e perguntou se o doutor deixaria alguma questão relevante sobre a mesa. Ele disse que não.

Copa é Copa
A militância que jogou na rede o slogan "Não vai ter Copa" está enganada.

Copa, todo mundo quer que haja. O que não se quer é roubalheiras na construção de estádios, mordomias para a Fifa e faculdades de medicina fechando.

Durante a Copa de 1970, quando a ditadura alavancava sua popularidade com os êxitos da seleção, houve dias em que militantes da Aliança Libertadora Nacional festejavam os gols acompanhando o foguetório com tiros de Winchester disparados de seus "aparelhos".

Tucanato tonto
A admissão, por Fernando Henrique Cardoso, de que o mensalão mineiro "foi, eventualmente, desvio de recursos para campanha eleitoral" mostra que o tucanato ainda não sabe o que fazer com a história da sua caixa mineira e com ex-governador Eduardo Azeredo, que à época presidia o partido.

"Desvio", o caixa dois nunca é. Pelo contrário: é tiro certo.

Isso tudo num aviário que também está tonto com o caso das propinas da Alstom e seu cartel.

Sinal amarelo
Diretores de uma grande empresa brasileira voltaram estarrecidos depois de um giro pela calota norte em busca de parceiros para uma de suas iniciativas. A América Latina pegou uma inhaca e mesmo que se diferencie o Brasil da Venezuela, surgiu uma tendência para associá-lo à Argentina, cuja moeda dá sinais de colapso.

Como diria José Genoino, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa, mas um pedaço do comissariado encanta-se com algumas medidas da senhora Kirchner.

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e está em busca de alguém que o ajude a fazer um site para receber doações. Decidiu-se ao saber que Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT e integrante do diretório da Papuda, pretende coletar na rede os R$ 466 mil que deve à Viúva por causa da multa que lhe impôs o Supremo Tribunal Federal.

Eremildo jura que não tem um tostão, mas espera melhorar suas finanças com alguns projetos que tem em andamento. O cretino não sabe nada, só lembra. Ele recorda que em 2004 a fazenda da família Soares, em Buriti Alegre (GO), dobrou de tamanho, chegando a 60 alqueires. A expansão teria um valor de mercado de R$ 800 mil, mas o valor declarado da transação foi de R$ 150 mil pagos em dinheiro vivo, levados num saco de pano.

Nessa época, Delúbio era conhecido pela qualidade de seus charutos.

Cheiro de queimado
O velho e bom BNDES empresta dinheiro a juros camaradas, e a taxa de juros do Banco Central voltou a subir.

Com isso, reativou-se uma modalidade de dinheirinho fácil. O sujeito pega dinheiro no banco (mais do que precisa), põe uma parte na empresa e outra em títulos do governo. Caso faça as escolhas certas, com aquilo que empresta à Viúva, ganha, garantidos, 4% ao ano. Numa parte dessa ponta virtuosa teria entrado o componente das doações de campanha.

Houve um tempo em que o velho e boníssimo BNDE emprestava dinheiro em condições semelhantes e muito mais vantajosas. Quem foi para o papelório continua rico. Quem investiu na produção quebrou.

Fonte: Jornal do Commercio / O Globo

João Bosco Rabello: Efeito colateral

Não é de todo ruim para o PSB o conflito interno com a Rede, que ganha visibilidade no estágio atual de construção das alianças regionais para as eleições deste ano.

Dissidente à esquerda, que troca a parceria com o PT pelo PSDB, Eduardo Campos se beneficia da crítica de Marina Silva aos tucanos, que sublinha o perfil socialista de sua candidatura, distinguindo-a da imagem neoliberal aplicada ao aliado natural do primeiro turno.

Não obstante a manipulação política que localiza o PSDB à direita, vitoriosa pela ausência de um partido conservador autêntico e atuante, ela se estabeleceu como verdade ideológica no imaginário do eleitor.

Nesse contexto, torna-se importante situar a aliança PSDB/PSB como uma união de forças oposicionistas empenhadas em convencer seus eleitorados de seu acerto estratégico.

Se limitados ao plano retórico, os excessos de Marina Silva, materializados nos vetos públicos a alianças estaduais, compensam os desgastes e se inserem no legítimo exercício político de preservar a individualidade de atores distintos unidos pelo objetivo comum de derrotar o mesmo adversário.

Marina, assim, vocaliza o que convém a Campos calar.

Papel comum também a correligionários de Aécio, quando este precisa reagir publicamente, permitindo vislumbrar na forma cavalheiresca, conveniente agora, os embates acirrados que os separariam na remotíssima hipótese de irem ao segundo turno. A solidez da parceria poderá ser avaliada na segunda quinzena de março quando o mapa das alianças de PSDB e PSB ganhará mais definição.

Essa leitura pode tornar precipitadas previsões sobre o desfecho de casos mais rumorosos como o suscitado pelo veto de Marina Silva à aliança com o PSDB em São Paulo.

Território caro a Marina pela expressividade na luta em defesa do meio ambiente, o Estado é, porém, mais estratégico eleitoralmente ao PSB, que administra o ímpeto da ex-senadora em favor da preservação de uma aliança já consolidada com os tucanos.

O partido informa dispor de uma pesquisa em que 46% dos eleitores de Marina, ou seja, 20% das intenções de voto no Estado, apoiam o governador Geraldo Alckmin, e outros 30% que defendem candidatura própria não a identificam em um candidato da Rede, mas do PSB.

São dados consistentes a desafiar o limite da concessão de Marina ao pragmatismo político, em favor do objetivo maior que motivou a aliança da Rede com o PSB. Desconsiderar a pesquisa, pode equivaler a avalizar o diagnóstico de tucanos, entre os quais o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, de que a Rede faz do PSB seu cavalo de Troia.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Diário do Poder- Cláudio Humberto

• Até a CGU aponta irregularidades na Conab
Auditoria sigilosa da Controladoria-Geral da União (CGU), em geral muito boazinha com órgãos do governo federal, apontou dezenas de irregularidades no Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) que motivaram operação da Polícia Federal na qual foram presos ou conduzidos coercitivamente altos funcionários da Cia Nacional de Abastecimento (Conab). A CGU avaliou repasses de R$ 1,3 bilhão dos ministérios da Agricultara e do Desenvolvimento Social só em 2013.

• Impunidade

Apesar das divergências nos dados da prestação de contas da Conab, a CGU lamenta: “Não foi observada a aplicação de penalidades”.

• Mau exemplo
Em uma das compras da Conab em Pernambuco, em 2011, apenas 8% dos R$ 575 mil em alimentos foram entregues a associações.

• Memória
Acusações de desvios na Conab resultaram na demissão de diretores como Sílvio Porto, apadrinhado político do ministro Gilberto Carvalho.

• Abastecimento farto
Os gastos da Conab com o PAA, fonte dos escândalos, representam 68,33% do total de 2009 a 2012. A informação é da própria CGU.

• Itamaraty ouvirá diplomata que libertou senador
O diplomata Eduardo Saboia, que ajudou o senador Roger Molina a fugir da Bolívia, deve prestar depoimento no Itamaraty nas próximas semanas. Após travar o processo por quase seis meses, o Palácio do Planalto autorizou seu andamento. Se ele for ouvido em fevereiro, a comissão terá dez dias para decidir se vai punir o diplomata que teve a coragem de salvar o senador perseguido pelo regime de Evo Morales.

• Prejuízo
Saboia está sendo submetido a perdas expressivas (salarial, moral e profissional) ao ser jogado no calabouço dos serviços burocráticos.

• Banzo
Em Brasília, Roger Molina aguarda ansioso pelas eleições na Bolívia, em outubro, para talvez viabilizar seu retorno à Bolívia.

• Renovação
A autorização de permanência de Roger Molina no Brasil vence em 24 de fevereiro, mas poderá ser renovado.

• Visão quadrada
O futuro ministro da Saúde, Arthur Chioro, enfrenta resistência na bancada do PT e sobretudo entre parlamentares ligados à saúde, que o acusam de ser “sectário” demais: “só favorece aos seus”. Clientes?

• Patriota com Campos
Circula no Itamaraty que o ex-chanceler Antonio Patriota opera como conselheiro informal do presidenciável Eduardo Campos (PSB), em política externa. Trata-se de uma grave ameaça: em caso de vitória do pernambucano, ele poderia voltar a ser ministro. Mangalô, três vezes.

• Só uns trocados
Nem mesmo o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), consegue liberar emendas: em 2013, ele só conseguiu R$ 4,6 milhões dos R$ 15 milhões que destinou para Alagoas, todo o ano de 2013.

• Tapas e beijos
Presidente do DEM, José Agripino (RN) vai cobrar do presidenciável Aécio Neves (PSDB) “mais diálogo” em dois estados onde os partidos divergem seriamente: Otávio Leite (PSDB) x César Maia (DEM) no Rio e Marconi Perillo (PSDB) x Ronaldo Caiado (DEM) em Goiás.

• Kassab sem saída
José Serra acredita que Kassab, que foi adversário político do PT durante seu mandato na prefeitura de São Paulo, ficará “liquidado eleitoralmente” se apoiar o petista Alexandre Padilha ao governo.

• Não é a praia da PRF
Há pelo menos dois anos uma quadrilha assalta regularmente ônibus que deixam Brasília pela rodovia BR 040, diante de uma Polícia Rodoviária Federal abobalhada, que demonstra na prática não ser qualificada para posar de polícia judiciária, como tem feito Brasil afora.

• Genial guia dos povos
Lula tinha razão: “nunca antes na história deste país”, o Brasil teve o maior déficit em conta corrente, a menor criação de empregos em uma década, e a confiança do consumidor mais baixa desde junho de 2009.

• Mesma direção
Na disputa pela liderança do PDT, Marcos Rogério (RO) garante que tanto ele quanto concorrentes Vieira da Cunha (RS) e Félix Mendonça (BA) seguem perfil de independência em relação ao governo Dilma.

• Pensando bem…
…como diria Dilma, quando você olha um Fórum Econômico Mundial sempre vê um grande capitalista por trás.

Fonte: Diário do Poder

Brasília-DF - Denise Rothenburg

Quando fevereiro chegar
Em ano eleitoral, a presidente Dilma Rousseff está com os olhos bem abertos para o que pode acontecer no Congresso Nacional durante votações consideradas importantes. Fevereiro está chegando e traz a reboque uma fila de 30 vetos presidenciais polêmicos para serem apreciados pelos parlamentares.
» » »
Não é novidade para ninguém que, com a campanha eleitoral, os deputados e senadores ficam mais vulneráveis às pressões. A novidade é que, agora, a sistemática é outra. Os vetos serão deliberados em votação aberta. Até agora, a desgastada ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, dá sinais de que vai permanecer na pasta. Terá trabalho dobrado para evitar contratempos e surpresas desagradáveis para o governo.
» » »
No cardápio indigesto a ser analisado com o início do ano legislativo, está o veto integral ao Projeto de Lei Complementar n° 416/08, que regulamenta a criação de municípios. O tema tem grande apelo eleitoral. Outros vetos importantes e não menos polêmicos são aqueles referentes à minirreforma nas regras das eleições e a questões orçamentárias.

Na pressão
O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), promete começar o ano legislativo colocando a boca no trombone. Vai tentar, junto ao governo federal, a retirada da urgência constitucional dos projetos que tratam dos royalties da mineração, do marco civil da internet e da mudança do FGTS. No ano passado, o esforço foi em vão. O Planalto fez ouvido de mercador, e a pauta ficou trancada por boa parte do tempo.

Convidados fantasmas
O deputado federal Paulinho da Força (SDD-SP) comemorou aniversário ontem em São Paulo. Políticos de variadas cores partidárias passaram no Clube Juventus, no bairro da Mooca, para abraçá-lo. A piada que circulava dava conta de que muita gente assinou a lista de presença e não apareceu na festa. Maldade em razão das fichas de apoio à criação do Solidariedade falsificadas pela sigla e validadas pela Justiça Eleitoral no ano passado.

Facebook eleitoral
Líder nas pesquisas de intenção de voto, a presidente Dilma Rousseff fica atrás do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e do governador Eduardo Campos (PSB-PE) quando se trata de curtidas na página oficial do Facebook. O tucano lidera, com 396 mil “likes”. Campos tem 270 mil e Dilma, 206 mil.

CURTIDAS
Regra três/ Caso o PSB faça a vontade de Marina Silva (foto) e resolva lançar candidato próprio em São Paulo, tirando o deputado Márcio França da vice do governador Geraldo Alckmin (PSDB), o PTB e o PRB estão de olho na vaga. Na sexta-feira, pleitearam a posição o presidente nacional do PRB, Marcos Pereira, e o presidente do diretório estadual do PTB, deputado Campos Machado.

Sina/ A delegada Martha Rocha, que deixa a Polícia Civil para se candidatar a deputada, é apenas mais uma da extensa lista de secretários de Segurança e chefes de polícia do Rio de Janeiro que escolheram o mesmo caminho. O ex-prefeito Cesar Maia lembra os casos: Helio Saboya (durante o governo Moreira Franco), Coronel Cerqueira e Helio Luz (na gestão Marcelo Alencar), Josias Quintal (Garotinho), Zaqueu Teixeira (Benedita), Álvaro Lins (Garotinho), Itagiba (Rosinha Matheus). Grande parte teve sucesso nas urnas.

Rolezinho bolchevique/ O paraibano Franklin Rabelo de Melo, estudante da UnB e um dos organizadores do rolezinho em Brasília, sugere que as autoridades deixem de monitorar os shoppings e passem a acompanhar de perto as áreas de Saúde, Transporte e Educação. O garoto lista como livro favorito O Estado e a revolução, publicado por Lênin às vésperas da Revolução Russa.

Fonte: Correio Braziliense

Panorama Político - Ilimar Franco

O caminho da expansão
Os investidores brasileiros se preparam para investir no "Chaco" do Paraguai. A região, de 250 mil km2, de matas e pastagens, tem população aproximada de 400 mil e faz fronteira com Mato Grosso do Sul. O presidente da Itaipu Binacional, Jorge Sameck, retornou de uma visita à região, que precisa de investimentos em irrigação para se tornar um novo celeiro produtivo.

Uns são mais iguais que outros
Os aliados do governo Dilma estão reticentes em relação à escolha do secretário petista Arthur Chioro para o Ministério da Saúde. Alegam que, se fosse um nome indicado por outro partido da base, a sociedade em uma consultoria que atua no setor detonaria o pretendente. Mas, como é do PT, passa. Estes aliados preveem uma dor de cabeça futura. E perguntam: "Qual prefeito do país não vai querer contratar a consultoria dirigida pela mulher do ministro?". Eles antecipam a próxima pauta: O crescimento da Consultoria Consaúde sob a administração de Roseli Régis dos Reis, mulher de Chioro, e que está assumindo a empresa.

"Nós estamos colocando Minas Gerais como uma grande oportunidade de negócios para grandes empreendimentos internacionais"
Antonio Anastasia
Governador de Minas, otimista com sua ida ao Fórum Econômico Mundial

Troca na Esplanada e insatisfação
A primeira tarefa do futuro chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, é desarmar a chamada pauta-bomba, que, se aprovada, poderá gerar novos gastos públicos, como o piso dos policiais.

A alternativa
Diante da posição do prefeito Márcio Lacerda (PSB) de permanecer na prefeitura de Belo Horizonte, os socialistas que defendem candidatura própria ao governo de Minas apostam agora no presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil. Ele queria disputar o Senado, mas desistiu devido à candidatura do governador Antônio Anastasia.

De olho nos eleitores
O Planalto está atento ao movimento para derrubar o veto da presidente Dilma à lei que permitiria a criação de 269 novos municípios. São muitos os deputados governistas que estão dispostos a se rebelar por causa das eleições.

Os nomes do colegiado
O candidato do PSDB ao Planalto, Aécio Neves, já tem alguns nomes para integrar o colegiado que vai comandar seu marketing. Na lista: o argentino Guillermo Raffo (atuou para o prefeito Márcio Lacerda), Paulo Vasconcelos (trabalhou para o governador Antonio Anastasia) e Rui Rodrigues (atuou nas duas do ex-presidente FHC).

Caçamba eleitoral
Em ano eleitoral, o governo quer faturar a entrega de caminhões-caçamba para municípios com até 50 mil habitantes. Amanhã, o Ministério do Desenvolvimento Agrário faz festa, em Brasília, para entregar as máquinas a 47 cidades de Goiás.

Nova fatura
O PCdoB, o mais tradicional aliado do PT, acaba de fazer mais um pedido de apoio aos petistas, além da reeleição do senador Inácio Arruda (CE). O partido quer a deputada Alice Portugal na vice da chapa de Rui Costa (PT) ao governo da Bahia.

MAIS de150 mil pessoas baixaram aplicativo do Ministério da Justiça para verificar a situação de um veículo, a partir do número da placa.

Fonte: O Globo

Gaudêncio Torquato* : A conta de chegar e a conta de sair

Não é de hoje que o Brasil vive o dilema de administrar duas contas: a de chegar e a de sair. A primeira abriga repertório, programas e atos que impulsionam o País, garantindo uma escalada crescente na esfera das nações, o que lhe confere respeito, credibilidade para levar a cabo metas e aspirações. Exemplo, o avanço alcançado pela política de inserção social, que propiciou a ascensão de cerca de 30 milhões de brasileiros às classes médias. Um tento.

A segunda reúne o acervo de demandas e carências, erros, falhas e ausências do Estado no exercício de suas funções constitucionais, que mancham a imagem do País na paisagem internacional e, por consequência, o impedem de ostentar a marca de grandeza. Exemplo, os recentes episódios no presídio de Pedrinhas, no Maranhão, cujos detalhes - decapitação de corpos, enforcamentos - ganharam espaço na mídia mundial, projetando estes nossos trópicos no ranking da barbárie e fragilizando seu discurso nos palcos da diplomacia. Uma vergonha.

Afinal, a maior ambição brasileira na esfera da política internacional não é ter assento permanente no Conselho de Segurança da ONU? Mesmo que reunisse condições para tal, é irrefutável que uma nação democrática, caso queira emprestar colaboração à meta de manter a paz e a segurança internacionais, função que compete àquele conselho, precisa demonstrar compromisso com sólida política de segurança interna. Não é o nosso caso.

Um território inseguro, assolado pela violência, que registra 50 mil homicídios anuais, um déficit de 200 mil vagas no sistema carcerário e cerca de 20 pessoas desaparecidas diariamente sob alarmantes violações dos direitos humanos, estaria confortável numa cadeira do órgão que define diretrizes para a segurança mundial? Não seria o caso de inferir que, ali, o Brasil acabaria produzindo incongruente discurso, do tipo faça o que digo, mas não o que faço?

O grau de arrogância e autossuficiência que se vê em diversas frentes da vida institucional - expandido no rastro do bordão "pela primeira vez na História deste país" - funciona como viseira de governantes incapazes de enxergar desvios, corrigir rumos e aceitar sugestões.

Antes que o epíteto de "catastrófico" seja jogado nestas linhas, façamos o exercício de identificar alguns traços da grandeza nacional. Somos uma potência emergente, com elevado papel nos fóruns de decisão política e econômica graças ao desenvolvimento obtido nas últimas décadas. O Brasil encontrou o fio da meada, pagou a dívida ao FMI, exerce papel de liderança entre os países da América do Sul, tem razoável influência na América Central e ajuda países da África, com os quais mantém estreitas relações.

Nossa democracia dá sinais de vitalidade, com o funcionamento pleno dos Poderes, apesar de tensões frequentes, não havendo ameaças de rompimento nos dutos democráticos. A população, já ultrapassando 200 milhões de pessoas, anima-se na trilha da mobilização de grupos e comunidades, a denotar crescente interesse em participar do processo político.

Nosso sistema de consumo se expande sob o empuxo de políticas de redistribuição de renda. Dispomos de moderna estrutura de produção, com monumental seara plantada pelo agronegócio, um animado setor de serviços em expansão, um parque industrial arrojado (mesmo padecendo agruras) e promissoras perspectivas nos campos da exploração de petróleo (pré-sal). O País conquistou, mais recentemente, o comando da Organização Mundial do Comércio, tem a China como principal parceiro comercial, sinaliza expansão na política multilateral e vontade de fortalecer vínculos com os EUA e a Europa. Integra o G-20, o grupo que toca a orquestra da economia internacional. E participou de operações de imposição de paz e ajuda a governos em diversos territórios, como República Dominicana, Canal de Suez, Angola, Moçambique, Líbano, Timor Leste e Haiti.

Essa é a base de um portentoso edifício ou, em outros termos, a conta de chegar para disputar espaços de mando e influência na textura das nações.

O que falta, agora, é estreitar a conta de sair, ou seja, atenuar e mesmo eliminar as tintas que enfeiam a paisagem dos nossos campos e cidades, a começar por declives e despenhadeiros nos vãos da segurança pública. O País tem afundado nesse lamaçal. Desde os anos 1990 se fragmenta o cordão da segurança. Já existem mais de 500 mil adultos encarcerados, número que cresceu 30% nos últimos cinco anos, mas 43% dessa população excede a capacidade do sistema prisional. E há 200 mil presos aguardando julgamento. Somam-se a esse contingente 20 mil adolescentes que cumprem medida socioeducativas com privação de liberdade.

As projeções são sombrias. Frágeis índices de escolaridade, desigualdade, tortura em delegacias e centros de detenção, quadros policiais muito violentos, execuções extrajudiciais, superlotação das prisões, impunidade para abusos, salários vergonhosos de policiais, pobreza nas periferias, ausência de espaços de lazer, falta de treinamento, desaparelhamento de estruturas, a par das angústias urbanas - deficientes sistemas de mobilidade, atendimento precário dos centros de saúde - arrematam a descosturada malha da segurança e elevam às alturas os índices de violência.

O copo das águas destoantes transborda. Os direitos humanos são hasteados nos mastros da cidadania, a deixar ver o apurado gosto nacional por verborragia bombástica. Mas o vento das ruas rasga discursos. Não por acaso, o assessor de Direitos Humanos da Anistia Internacional no Brasil, Maurício Santoro, proclama: "Há por aqui um déficit de justiça muito grande. O Brasil é um país com ótimas leis, mas que não são cumpridas". Ora, o velho barão de Montesquieu já lidava com esse mote, dizendo: "Quando vou a um país, não examino se há boas leis, mas se são executadas as que há, pois há boas leis por toda parte".

*Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP

Fonte: O Estado de S. Paulo

O que pensa a mídia - editorial de alguns jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Elis Regina: O Bêbado e a Equilibrista

Carlos Drummond de Andrade: A Máquina do mundo

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco o simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que tantos
monumentos erguidos à verdade;

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mão pensas.