quarta-feira, 16 de julho de 2014

Dilma inicia campanha com a CUT 'como nos velhos tempos'

• Comício de abertura no dia 31 de julho em São Paulo lembrará as origens do PT

Simone Iglesias – O Globo

BRASÍLIA e SÃO PAULO — A CUT será a anfitriã do primeiro grande comício da campanha da presidente Dilma Rousseff à reeleição, no dia 31 deste mês, em São Paulo. Na semana seguinte, Dilma fará outro evento para reunir as centrais sindicais UGT, CGTB, UST e CTB. Os petistas esperam levar também a esse segundo comício a “ala dilmista” da Força Sindical, segunda maior central do país cujo comando apoia o tucano Aécio Neves.

A ideia, ao fazer um ato de largada com os sindicatos, é aproximar a campanha petista de sua origem e tentar garantir uma “onda vermelha”, antes do começo da propaganda eleitoral de televisão.

Dilma evita corpo a corpo
A campanha da presidente, no entanto, deve ser marcada por poucos eventos de rua. Os seus coordenadores estimam que, além desses dois comícios, serão realizados mais cinco ou seis e que, dificilmente, Dilma fará caminhadas nas grandes cidades.

A presidente foi convidada para participar de evento do gênero nesta sexta-feira, em São Paulo, com o candidato do PT ao governo, Alexandre Padilha, mas não irá. A justificativa, que será repetida durante toda a campanha, é que, “por questão de segurança”, a presidente não pode se expor dessa forma em público.

A campanha priorizará as gravações para a TV e vídeos curtos de Dilma para serem divulgados em sites, blogs, e redes sociais, principalmente. Além da questão de segurança e da falta de tempo — já que a presidente tem de governar e pedir votos ao mesmo tempo — para a realização de comícios, o PT quer evitar saias-justas nos estados onde há conflitos regionais. No Rio, não se decidiu ainda o que fazer. Possivelmente, disse um integrante da coordenação, a solução será fazer eventos que reúnam artistas e intelectuais num palanque, como em 2010, em vez de se reunir com os candidatos ao Palácio da Guanabara.

O fato de Lula estar disposto a rodar o país fazendo campanha também pesa na decisão de fazer poucos comícios com Dilma. A estratégia será fazer o ex-presidente subir no maior número de palanques possível, priorizando os dos candidatos do PT. No Rio, afirmou um dirigente, poderá haver, no mesmo dia, um ato de campanha de Dilma com movimentos sociais, e de Lula com Lindbergh Farias (PT), senador que concorrer ao governo.

Em reunião da coordenação, segunda-feira, o núcleo político fez uma avaliação da Copa do Mundo e do sucesso de sua realização no Brasil.

— Foi o fracasso total da torcida contra e dos agourentos — disse um integrante.

A Copa, porém, deixará de ser central no debate político, concluíram os dirigentes. A partir de agora, a tônica será a economia e as propostas de governo.

O presidente do PT, Rui Falcão, negou que o ex-ministro Franklin Martins deixará a campanha e disse que o post que ele publicou no site “Muda Mais”, com críticas à CBF, não foi motivo de estresse entre os integrantes da coordenação.

— Faz parte de qualquer campanha a divergência de ideias. Todo mundo pode divergir, eu, a presidente Dilma, qualquer um. Isso não significa crise, tensão, fogo amigo. Não causou desunião, nem o afastamento de ninguém — disse Falcão.

Lula fala nas redes sociais
O presidente do PT afirmou que o episódio foi superado e que não haverá, por iniciativa do partido, nenhum tipo de filtro ou controle nos textos publicados nos sites da campanha.

— Não tem censura, não existe controle de conteúdo. Isso seria contrário à vida dos sites — afirmou o presidente.

A campanha de Dilma usou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nas redes sociais e no WhatsApp, para criticar o discurso apartidário adotado por grupos que foram às ruas protestar no ano passado e durante a Copa do Mundo.

— Se a gente quiser mudar a política, só tem um jeito: é entrando nela. Porque, negando ela, tudo vai ficar pior — afirmou o ex-presidente em vídeo gravado pelo Instituto Lula.

O ex-presidente citou o início da sua formação sindical quando, aos 23 anos, também negava a representação partidária. Para Lula, a “desgraça de quem não gosta de política” é ser governado por “aqueles que eles acham que são ladrões”:

— A desgraça de quem não gosta de política é que é governado por quem gosta. Então, fica na rua protestando, dizendo que nada vale a pena, que está tudo errado, que ninguém presta. E não faço nada, e não entro para disputar o jogo. Não coloco a minha cara. Não vou eu ser candidato para provar que sou capaz de fazer melhor do que aqueles que eu critico, a política continua a mesma. Então, eu digo para a juventude: a desgraça de quem não gosta de política é (ser) governada por quem gosta. E se quem gosta for sempre a minoria, significa que a maioria bem intencionada, a maioria que nega tudo, é sempre governada por aqueles que eles acham que são ladrões, por aqueles que eles acham que são espertos.

(Colaborou Renato Onofre).

Juízes para a Democracia condenam ‘repressão às mobilizações populares’

Fausto Macedo – O Estado de S. Paulo

Juízes para a democracia condenam a “intensificação da repressão estatal às mobilizações populares”. Em nota da entidade que os representa, os magistrados repudiam “a prisão de manifestantes antecedente à prática de fato pelo qual possam ser responsabilizados, a prisão de advogados que lhes assistem, de educadores por posicionamento filosófico-ideológico, de jornalistas-documentaristas de manifestações, a detenção de pessoas a pretexto de testemunharem a execução da ordem judicial de prisão e a exposição de pessoas presas temporariamente”.

A Associação Juízes para a Democracia é uma entidade “não governamental e sem fins corporativos, que tem por finalidade estatutária o respeito absoluto e incondicional aos valores próprios do Estado Democrático de Direito”.

A nota é subscrita pelo juiz André Augusto Salvador Bezerra, presidente do Conselho Executivo da Associação Juízes para a Democracia. Os magistrados avaliam que “a prisão temporária sem individualização de condutas e sem explicitação dos fatos que a legitima viola a lei na qual se fundamenta”.

“A custódia com base em eventos futuros e incertos denota cerceamento da liberdade antecedente a prática de qualquer ilícito, viola os princípios constitucionais de liberdade de expressão e reunião e coloca o poder Judiciário em situação de subalternidade e auxílio à arbitrariedade policial, quando seu papel é o de garantidor de direitos.”

Os juízes para a democracia entendem que “a prisão indiscriminada de advogados, sob o fundamento de associação criminosa aos seus clientes, viola prerrogativa de atividade essencial para a Justiça”.

“Ainda que advogados tenham sido sequestrados e torturados durante a ditadura empresarial-militar de 1964 não se tem registro de que algum tribunal, mesmo manietado pelo regime, tenha tido a ousadia de decretar prisões em razão de exercício profissional”, alerta André Bezerra.

Ele alerta que a Constituição, em seu artigo 133, impõe que o advogado é indispensável à administração da Justiça, “sendo inviolável por seus atos e manifestações”.

“No âmbito de sua atividade profissional, ainda que no seu ministério privado, o advogado presta serviço público e exerce função social.”

Para a Associação Juízes para a Democracia, o Judiciário não pode ser instrumentalizado para a supressão de direitos da sociedade. “Pelo contrário, à atividade jurisdicional é constitucionalmente atribuída independência perante os demais poderes do Estado para assegurar os direitos democráticos dos cidadãos.”

A entidade “pugna pela liberdade de expressão e reunião, repudia prisões antecedente a fatos que as justifique, bem como prisões sem individualização de conduta ou destituída de provas, e conclama pela garantia dos valores constitucionais, cuja asseguramento é papel do Judiciário”.

Campanha de Dilma dá prioridade a eventos fechados

• Com popularidade em baixa, presidente vai participar de comícios com diferentes grupos sindicalistas no começo da disputa

Vera Rosa - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O comitê da reeleição decidiu blindar a presidente Dilma Rousseff da campanha de rua nessa largada da disputa. Com a popularidade em baixa, Dilma participará mais de eventos fechados e de meia dúzia de comícios, mas seu primeiro compromisso de campanha será com sindicalistas, em São Paulo. Para "vender" a imagem da presidente que está "ao lado do povo", Dilma vai vestir o figurino de candidata na plenária da Central Única dos Trabalhadores (CUT), no próximo dia 31, organizada sob medida para enaltecer os feitos do governo.

A estratégia de aproximação com os movimentos sociais não para aí. No dia 7 de agosto, Dilma receberá o apoio de dirigentes de cinco centrais num megaencontro marcado para o Ginásio da Portuguesa. Até um grupo da Força Sindical, entidade que aderiu à campanha do candidato do PSDB, Aécio Neves, reforçará o coro pró-Dilma. O ato reunirá, ainda,

dirigentes da União Geral dos Trabalhadores (UGT), da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), da Conlutas, da Nova Central e da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB).
Irritada com a rede de intrigas e o fogo "amigo" que tomaram conta do núcleo de sua campanha, Dilma pediu ao presidente do PT, Rui Falcão, que acalme o partido e abafe as divergências na equipe. A ordem é investir na divulgação de números positivos do governo e polarizar cada vez mais a disputa com Aécio.

Na eleição de 2010, a então candidata do PT teve apoio quase unânime de todas as centrais. Nos últimos tempos, porém, a presidente sedistanciou dos movimentos sociais e enfrentou protestos. O temor do comitê da reeleição é que Aécio e o candidato do PSB, Eduardo Campos, ganhem espaço nesse terreno, que tradicionalmente sempre foi fiel ao PT.

Coordenador da campanha, Falcão procurou amenizar, nesta terça, 15, a queda de braço no comitê da reeleição, que já preocupa o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Desde a semana passada há tensão e mal estar no Palácio do Planalto e no comitê com o jornalista Franklin Martins, ex-ministro da Comunicação de Lula e responsável pelo monitoramento das redes sociais na equipe de Dilma. Motivo: o site "Muda Mais", sob a responsabilidade de Franklin, publicou no dia 9 um post com fortes críticas ao presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), José Maria Marin.

Dilma não gostou e o comitê foi alvo de rumores de que Franklin -- em rota de colisão com o marqueteiro João Santana -- entregaria o cargo, o que não ocorreu. Na prática, Franklin e Santana têm várias discordâncias sobre como conduzir a comunicação da campanha. "Houve uma divergência momentânea, totalmente superada", afirmou Falcão. "Ter ideias diferentes faz parte de qualquer campanha. Isso não significa crise. Temos todos uma relação de respeito, sem estresse". O presidente do PT negou que, a partir de agora, as publicações do site "Muda Mais" tenham de passar pelo seu crivo ou pela análise de Dilma. "O Muda Mais não tem autocensura nem é controlado pelo PT", insistiu Falcão.

FHC para Lula: o Brasil se cansou de ataques infundados

- Observador Político

Lula insiste em dizer que houve corrupção “escondida” no meu governo. Cita comumente dois episódios em sua assertiva: o caso SIVAM e a compra de votos na aprovação da emenda da reeleição, assuntos ocorridos há quase duas décadas, e que foram esmiuçados e devidamente esclarecidos na época. Eis o resumo deles:

a)O Sistema de Vigilância da Amazônia (SIVAM) foi aprovado durante o governo Itamar Franco, em 1993, através do Conselho de Defesa Nacional. Desse Conselho, então Ministro da Fazenda, eu não participava. Em 1994, o governo contratou a empresa norte-americana Raytheon para executá-lo. Em 1995, já no meu governo, gravações de conversas telefônicas, previamente autorizadas pela Justiça, mostravam o suposto envolvimento de um assessor presidencial efetuando tráfico de influência na implantação do SIVAM. Trazido à tona pela Revista Isto É, o caso se tornou notório, causando crise política. Injuriado, o Ministro da Aeronáutica pediu demissão. A investigação do caso foi exaustiva no Executivo, através de Comissão de Sindicância interna da Presidência, Comissão de Inquérito do Itamaraty e Procuradoria Geral da República. Sindicância da Polícia Federal não comprovou a suspeita inicial. O TCU instaurou 16 procedimentos, incluindo 6 auditorias, tendo em dezembro de 1996 considerados “regulares os procedimentos adotados pelo Ministério da Aeronáutica”. No Senado, relatório de avaliação, finalizado em fevereiro de 1996, não apontou irregularidades. Na Câmara dos Deputados, uma CPI se completou sem comprovar nada ligado à corrupção. Os detalhes dessa história foram por mim relatados em meu livro “A Arte da Política (A história que vivi)”, nas páginas 270 a 276. (ver abaixo)

b)A Emenda Constitucional nº 16, que permite a reeleição dos chefes de Executivo no Brasil, foi aprovada pelo Congresso Nacional em 1997. Na Câmara dos Deputados, o primeiro escrutínio se realizou em 28 de janeiro de 1997, mostrando 336 votos a favor, 17 contra, com 6 abstenções; no segundo turno, o resultado foi de 369 a favor, 111 contra, com 5 abstenções. O quorum mínimo para aprovação de PEC, de três quintos, exige 308 votos. Era larga, portanto, a margem de aprovação. Em 13 de maio, antes da votação no Senado, o jornal Folha de S Paulo publicou trechos de gravações indicando que cinco deputados federais do Acre – Ronivon Santiago, João Maia, Zila Bezerra, Osmir Lima e Chicão Brígido – teriam recebido R$ 200 mil cada um para votar a favor da reeleição. Nenhum era do PSDB. Um misterioso “Senhor X”, que mais tarde se soube ser o ex-deputado acreano Narciso Mendes, teria gravado as fitas. A matéria diz que um dos deputados se referiu ao Ministro das Comunicações, Sergio Motta e aos governadores do Acre e do Amazonas (pois a reeleição caberia também para governadores e prefeitos). O Congresso abriu sindicância para apurar os fatos. Em 21 de maio os deputados Ronivon Santiago e João Maia renunciaram aos seus mandatos. A CCJ abriu processo por quebra de decoro parlamentar contra os demais deputados, não encontrando, porém, provas para encaminhar a cassação. Nenhum outro deputado sofreu processo investigatório. Não houve acusação formal ao Ministro Sérgio Mota que, mesmo assim, espontaneamente foi depor na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Ninguém mais do governo precisou se manifestar. Em meu livro, já citado, esmiúço essa história entre as páginas 284 a 305. (ver abaixo)

Falando à imprensa no último dia 02 de julho, Lula avançou suas declarações habituais, arrolando outros dois casos para atingir minha honra. O primeiro deles é insignificante: trata-se da revogação, feita por mim, de um Decreto que instituíra uma inoperante comissão de fiscalização pública. Em seu lugar, criamos o Conselho de Ética, que até hoje funciona. Ou seja, meu governo aperfeiçoou o controle da conduta dos funcionários públicos.

O segundo, mais evidenciado, se referia à “pasta rosa”, uma lista de supostas doações de campanha efetuadas pelo Banco Econômico, referente às eleições ocorridas em 1990. O documento foi encontrado após a intervenção federal no Banco, em agosto de 1995, e continha o nome de 49 políticos, supostamente financiados de forma irregular. Entre eles se encontravam ACM, José Sarney, Renan Calheiros, Benito Gama. O presidente do Banco, Ângelo Calmon de Sá, acabou indiciado, por outros motivos, pela Polícia Federal. Em fevereiro de 1996, o procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, pediu o arquivamento do inquérito sobre as doações irregulares por falta de provas.

Tem sido assim há anos, desde quando estourou o escândalo do mensalão. Aliás, em nenhum momento Lula explicou de forma detalhada os acontecimentos que levaram ao maior escândalo de corrupção da história republicana, caracterizando-o, na época, como um simples problema de caixa 2, ocorrido às suas costas. Noutro dia, no exterior, chegou até a dizer que os principais envolvidos nem eram pessoas de sua confiança. Omitiu-se por completo.

Para se defender, Lula ataca. Jamais se explica, sempre acusa. Acostumado a atirar pedras, Lula é incapaz da autocrítica. Quando deveria, de forma rigorosa, abominar a prática da corrupção, ele tenta distrair a opinião pública jogando culpa nos outros. Ora, a grandeza de um líder está em assumir a responsabilidade, por si e por sua equipe, dos possíveis erros cometidos, buscando corrigi-los e superá-los, não em levantar suspeitas sobre outrem com o claro objetivo de se esquivar de seus compromissos éticos e políticos.

Ainda recentemente, quando em viagem para Johanesburgo, ao conversarmos sobre o mensalão, disse-lhe que deveria virar esta página, já julgada pela Suprema Corte. Mas não, Lula insiste em continuar distorcendo fatos para dizer que todos fizeram algo parecido. Eu não caio nessa cilada.

Aproveito para renovar a proposta que lhe fiz naquela ocasião: por que não nos juntamos para corrigir o que de malfeito há na vida política brasileira, em vez de jogar pedras uns nos outros? O Brasil se cansou de ataques infundados. O país percebe que seu futuro depende de decisões honestas e corajosas, entre as quais a de evitar que o debate eleitoral se restrinja a baixarias e falsas acusações.

Merval Pereira: Oposição ou dissidência?

- O Globo

Criticar até não poder mais o governo da presidente Dilma, para marcar uma posição oposicionista, mas poupar o ex-presidente Lula, para não perder os votos de petistas desiludidos com o governo, pode estar dando uma caráter dúbio à candidatura do ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos, do PSB, mas ele está convencido de que esta é a estratégia mais adequada.

Foi bastante explícito sobre isso numa declaração à revista “Piauí”, quando afirmou que não criticava Lula porque esperava que muitos eleitores do PT o escolhessem como alternativa a Dilma.

Ontem, em debate promovido por “Folha de S. Paulo”, UOL e rádio Jovem Pan, insistiu em que discutir com Lula era uma armadilha em que o PSDB está caindo:

“Você acha que eu vou entrar nessa do PSDB, de ficar debatendo com o Lula?”, indagou. “Nós vamos ficar fazendo debate com quem não é candidato?”.

Por trás dessa tentativa de dar um ar estratégico à sua postura, o que Campos esconde é o objetivo de ser trocado por Dilma como candidato petista à Presidência, situação semelhante à que acontece hoje em São Paulo, onde o candidato petista ao governo, Alexandre Padilha, está sendo “cristianizado” em favor do candidato do PMDB, Paulo Skaf.

A diferença, além de que Dilma está na liderança nas pesquisas, e Padilha não consegue decolar, é que o presidente licenciado da Fiesp não quer se confundir com o PT nem com Dilma, embora evidentemente não renegue eventuais votos de petistas dissidentes.

Já Campos gostaria de ser ligado a Lula para dar efetividade a seu plano de se transformar na terceira via da eleição presidencial, mas, ligando-se indiretamente a Lula, tem perdido o caráter de oposição, papel que deixou para o candidato do PSDB Aécio Neves, para ser quase um dissidente. Opor-se ao PT e a Dilma, mas aspirar a ser um herdeiro presuntivo do lulismo, pode ser uma tarefa excessivamente sutil para o eleitorado.

A tentativa de quebra da polarização entre PT e PSDB na disputa presidencial é estudada pelo cientista político da PUC-Rio Cesar Romero Jacob, que é cético quanto ao êxito dessa empreitada, pois, desde a redemocratização, não há repetição de uma terceira via solidamente implantada no território, que é onde, segundo sua definição, faz-se a política, com máquina, militância, uma ação no plano do territorial.

A terceira via tem sido questão muito episódica, lembra Romero Jacob.

Em cada eleição houve uma preponderância: Brizola era bem votado no Rio e no Rio Grande do Sul. Enéas, no entorno metropolitano. Ciro Gomes era centrado no Nordeste. Garotinho, no Rio e nos territórios evangélicos.

Desta vez, quem aparece nesse papel é Campos, porque a exsenadora Marina Silva, a candidata da terceira
via de 2010, apesar da excelente votação que teve (20% dos votos) não conseguiu organizar seu partido a tempo de concorrer e entrou no PSB como candidata a vice.

De maneira indireta, ela confirma a tese de Romero Jacob de que os candidatos da terceira via sofrem de uma espécie de maldição que pode ser medida pelo retrospecto dos candidatos que chegaram em terceiro lugar nas recentes eleições presidenciais.

Ninguém emplacou na eleição seguinte. Brizola, em 1989, teve 16% dos votos, quase foi para o segundo turno contra Collor. Em 1994, teve apenas 3%. Em 1998, foi vice de Lula e terminou a carreira política sendo derrotado para senador. Enéas teve 7% de votos em 1994, caiu para 2% em 1998 e, em 2002, candidatou-se a deputado federal. Ciro Gomes teve 11% em 1998, 12% em 2002, mas, em 2006, candidatou- se a deputado federal. Garotinho tenta retomar o protagonismo e disputa o governo do estado,
depois de ter sido deputado federal.

Isso se deve, segundo o cientista político, ao peso de São Paulo no jogo eleitoral: o estado tem um terço do PIB nacional e um quarto do eleitorado, e os partidos solidamente implantados em São Paulo são o PSDB e o PT, o que, para ele, condiciona o resto.

Por isso, Campos resistiu à oposição de Marina e decidiu participar da coligação para a reeleição do governador Geraldo Alckmin em São Paulo. E também por isso o candidato do PSDB Aécio Neves escolheu o senador Aloysio Nunes Ferreira para seu vice, um paulista para trabalhar o eleitorado do estado e não deixar que a chapa “Edualdo” (uma associação de Eduardo com Geraldo) tenha vida fácil.

Dora Kramer: Cada pingo com seu i

- O Estado de S. Paulo

Graças à existência de um fator chamado massa crítica a presidente Dilma Rousseff pode comemorar a realização de uma Copa do Mundo muito bem-sucedida, mesmo tendo o Brasil levado uma lavada histórica dentro de campo e fora dele o governo deixado de cumprir boa parte dos compromissos assumidos em relação ao "legado" de infraestrutura.

Expectativa lá embaixo, resultado lá no alto.

Houve improvisos, houve atrasos, houve superfaturamento e isso está demonstrado nos números, seja pela quantidade de obras que ficaram pelo caminho ou que ainda não foram entregues, seja pelos custos muito superiores aos previstos. Tudo isso foi apontado e o conjunto da ópera não autorizava ninguém a fazer uma previsão otimista.

Saiu tudo muitíssimo melhor que a encomenda? Ótimo. A ninguém satisfaria hoje contabilizar desastres e lamentar episódios que pudessem nos transformar em objeto de vergonha mundial. O sentimento de regozijo é compartilhado como se pode constatar em todos os veículos de comunicação.

Não há, portanto, razão para a presidente da República dizer, como se fosse marechal de espada em punho diante do batalhão, que derrotou os "pessimistas".

Não houve derrotados porque ninguém estava disputando coisa alguma; nem havia pessimistas, mas uma imprensa, no Brasil e no mundo, acompanhando os preparativos com olhos realistas e espírito crítico aguçado. Como deve ser. Diferente ocorreu na área da imprensa esportiva onde, salvo as exceções de praxe, imperou o otimismo. Cronistas mais experientes mantiveram-se com o regulamentar pé atrás. Mas, no geral, o tom foi de submissão aos ditames do "comando".

A convocação do time aceita sem contestações e o mantra "já estamos com a taça na mão", agora analisado como sinal de prepotência, abraçado com naturalidade. De que adiantou mesmo tanto otimismo? Não se construiu nada com ele. Só uma expectativa lá no alto para um resultado lá embaixo.

Nem por isso é cabível dizer que houve "derrota dos otimistas". Não disputavam. Talvez tenham apenas se intimidado de ir contra corrente e, assim, passarem a integrar o índex dos "pessimistas" aos quais parecia haver certa obrigação de fazer um contraponto.

Tudo normal se a gente entender que a benevolência do elogio não garante êxito nem tampouco o exercício da crítica contundente significa aposta no fracasso.

Contraste. O estado de espírito da presidente Dilma Rousseff em ambientes fechados é muito diferente daquele exibido quando exposta ao público. Que o digam os sorrisos durante a cerimônia do balanço da Copa em contraposição ao semblante fechado no Maracanã. Em nada parecia a representante de um País cuja alegria da população era celebrada como um dos trunfos dessa Copa.

Gente bronzeada. Você conhece alguém que já foi "pesquisado" sobre intenção de voto? A pergunta é recorrente, decerto pela dimensão reduzida da amostragem em relação ao universo ao nosso lado.
Já a pesquisa sobre o grau de satisfação dos visitantes estrangeiros com a Copa é de facílima constatação. Não só pelo amplamente noticiado, mas pelas histórias que cada um tem para contar comprovando a aprovação de 95% sobre a hospitalidade brasileira apontada na pesquisa do Datafolha.

A minha veio da Austrália. Um grupo de 10 jovens, cujas impressões bem resumidas são as seguintes: paisagem impecável, comida esplêndida e variada (só detestaram goiabada, mas adoraram churrascarias rodízio), povo de primeira no quesito amabilidade, moças lindas e rapazes "muito abusados".

No dia da final, vestidos com a camisa da Austrália, verde-amarela como a do Brasil, foram hostilizados por argentinos e, se antes estranhavam a torcida contra, saíram daqui entendendo perfeitamente a razão da pinimba.

Fernando Rodrigues: Padrão pós-Copa

- Folha de S. Paulo

O futebol volta à vida real nesta quarta-feira (16). O Campeonato Brasileiro será retomado. Os jornais publicarão depois as estatísticas dos estádios, todos com menos público do que na Copa. Os os jogos são às 22h por determinação da TV patrocinadora do evento.

Haverá uma certa ressaca. Dilma Rousseff sabe disso. Resolveu então começar a semana reunindo mais de 15 ministros para martelar que esta foi a Copa das Copas. O slogan é um jogo de palavras um pouco infantil e ingênuo. No século 21, Copa é igual a computador: sempre haverá um melhor e mais atraente a cada quatro anos. Só que numa campanha eleitoral, às vezes ganha quem ocupa espaços, sintetizando ideias e repetindo uma versão "ad nauseam".

O problema é a realidade. A do futebol é uma delas. Assisti a cinco jogos da Copa do Mundo no estádio Mané Garrincha, em Brasília. É uma edificação melhor do que eram as arenas pré-Copa? Claro que sim. Custou R$ 1,4 bilhão (valor oficial). Mas o acabamento é de quinta categoria. Vi várias portas quebradas nos banheiros --não por vandalismo. O material é de péssima qualidade. Havia exemplos por todos os lados.

No aeroporto de Brasília, o piso na segunda-feira à noite pós-Copa já estava imundo. O local continua em obras. Durante o torneio houve a preocupação de lustrar o que era possível. Agora, nos guichês das companhias aéreas já há menos gente trabalhando. Padrão pós-maquiagem.

É evidente que alguma coisa ficará do torneio hospedado pelo Brasil. Estádios novos, algumas obras de mobilidade urbana, aeroportos quase prontos. E a memória dos brasileiros do mês de semiférias coletivas no país, com vários feriados sucessivos para que tudo pudesse funcionar.

Para efeito eleitoral, o impacto ainda está para ser apurado. Dilma tenta faturar enquanto pode. Faz parte. Só não está claro o quanto os brasileiros vão comprar dessa versão tão edulcorada sobre a Copa das Copas.

Rosângela Bittar: Sangria de votos

• O PT ainda vê recuperação via esquema tático

- Valor Econômico

Considerando apenas três Estados, dos mais importantes, cujo arranjo eleitoral foi mal resolvido, evidencia-se para o PT a necessidade de aplicar, em todos eles, um bom esquema tático para suprir o mau planejamento estratégico na fase preliminar. O Partido dos Trabalhadores não demonstrou competência nesse quesito, até o momento, e deixou que se avolumassem seus problemas em região onde habita parte substantiva do eleitorado.

A opção preferencial de Lula, no comando de fato do seu partido desde a primeira candidatura vitoriosa, foi segurar o poder federal da forma possível, com qualquer tipo de aliança, da extrema direita à extrema esquerda, deixando que nos Estados a natureza política, incontrolável em se tratando das forças regionais, determinasse as associações como quisesse.

Ainda há, presentes no cenário de hoje, testemunhas conhecidas de um jantar organizado por amigos de Lula, na fase preparatória das eleições de 2002, somente para que anunciasse, na sala apinhada de políticos e jornalistas, que sem alianças a torto e a direito não seria mais candidato a nada, o PT que se virasse e resolvesse se queria perder ou ganhar.

Contrariando os seus próprios desígnios, o ex-presidente, certamente acreditando que o poder federal já estava bem seguro, resolveu fazer o contrário do que mandava e adotou, em 2014, a estratégia de dar força às chapas petistas em confronto com aliados nos Estados. Certamente não contava com a astúcia do PMDB, partido que Lula esperou segui-lo como carneirinho. O PT acabou ficando mais isolado do que imaginava e agora não dá mais para refazer o caminho, terá que ir à frente com um plano tático competente para o próximo período da campanha.

No Rio, o PT pagou para ver e quase ficou a ver. O candidato Lindbergh Farias (PT) apostou na desgraça eleitoral que parecia ter encontrado morada junto ao ex-governador Sergio Cabral e imaginou que fosse fácil ocupar integralmente o espaço. Provou-se que a equação Rio era muito mais complexa que a baixa popularidade de Cabral e o acampamento de manifestantes em frente ao apartamento em que morava. O PT perdeu o PMDB para o candidato Aécio Neves e terá em sua chapa, como candidato ao Senado, um representante do candidato Eduardo Campos, o ex-jogador Romário (PSB), tendo que fazer contorcionismo real para definir-se com alguma nitidez diante do eleitorado.

No Paraná, o PT tem uma candidata forte, Gleisi Hoffmann, nutrida no esquema eleitoral de primeiro mundo da candidata à reeleição, Dilma Rousseff, e tem também um candidato aliado mais forte ainda no PMDB, Roberto Requião. Será uma humilhação para o partido ter que entregar ao PMDB a candidatura Gleisi Hoffmann (PT), que perdeu muito de sua possibilidade de ir ao segundo turno com o lançamento do candidato próprio do PMDB. Mais provável presença no segundo turno, para disputar com o governador Beto Richa (PSDB), candidato à reeleição, não é impossível, mas difícil, que Requião e Gleisi se enfrentem na segunda etapa. Se isto vier a ocorrer, não se imagina possível a transferência dos votos do atual governador para a candidata petista. Situação ruim por todos os lados.

Em São Paulo ocorreu um fenômeno parecido com o do Paraná, envolvendo também PT e PMDB. Formulador das soluções, o ex-presidente Lula optou por lançar um candidato-poste do PT, Alexandre Padilha, que vinha de uma gestão apagada no Ministério da Saúde. Lula tentou, claramente, repetir o fenômeno Fernando Haddad, que egresso de uma gestão igualmente pálida no Ministério das Educação foi o poste eleito prefeito da capital paulista por obra de Lula.

O ex-presidente confiou, e ainda confia, na sua estrela, mas até agora Padilha não decolou. Sua candidatura foi ferida de morte com o lançamento do candidato do PMDB, Paulo Skaf, ao governo, catapultado pela poderosa máquina da Fiesp, que presidiu e de onde armou durante anos seu lançamento eleitoral.

O problema para o PT é que Skaf, tendo em vista a baixa aceitação do petismo em São Paulo, não quer se identificar com a candidatura Dilma. Nesse caso o inverso constitui um drama maior ainda: Skaf está muito mais à direita do que o PT gostaria de ter na sua aliança, e se for para o segundo turno terá que apoiá-lo no confronto com o candidato à reeleição, Geraldo Alckmin (PSDB).

Skaf tem sua candidatura ancorada em um símbolo entre os adversários históricos do PT, a Fiesp, com quem os movimentos sociais liderados pelo Partido dos Trabalhadores sempre duelaram.

A presidente Dilma terá ainda uma semana de agenda presidencial, com a cúpula dos Brics, e a partir do dia 20 mergulhará na campanha eleitoral. Nos últimos dias, a equipe que trabalha para a reeleição registrou a necessidade de uma recuperação tática, usando para isso o período que vai de agora até o início da propaganda na TV. Para isso, procurou por um negociador, alguém que pusesse o guizo no pescoço do Skaf, do Requião, e de Pezão, numa tentativa de inserir a presidente candidata à reeleição no suposto sucesso que as pesquisas apontam para esse PMDB até agora alforriado. Ontem, o vice-presidente Michel Temer, candidato à reeleição na chapa de Dilma, anunciou que reassumirá hoje a presidência nacional do PMDB, exatamente para tentar evitar riscos para o PT, como os que já correu na convenção nacional que por pouco quase derrubava a aliança. Temer passará, assim, a ter participação em todas as decisões do partido durante o período da campanha. Poderá funcionar como uma barreira às decisões antipetistas que poderiam esvaziar de votos a chapa de que participa.

O PT e o governo dedicam-se, ainda a esta altura, a fazer carga contra a candidatura de Eduardo Campos (PSB). O argumento principal é que a candidatura já se desfez, e ele deveria abrir logo a possibilidade de reintegrar-se ao projeto petista para que Dilma Rousseff volte a ter chances de vitória em primeiro turno. Para o PT, com a propaganda intensa na TV, a candidata à reeleição passará logo dos 40%, e as pesquisas semanais mostrarão que o passe para o poder ficará mais caro. Eduardo Campos, porém, parece estar mouco ao canto de sedução.

Luiz Carlos Azedo: Uma opção estratégica

• O Brasil se distancia dos Estados Unidos e da União Europeia para se aproximar politicamente da Rússia e da China. Perdeu o "complexo de vira-latas", dirão os porta-vozes do governo, mas entra numa briga de cachorro grande

- Correio Braziliense

O Brasil assinou ontem um acordo com a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul — os demais integrantes dos Brics — para a criação do chamado Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), com sede em Xangai, cujo objetivo será o financiamento de projetos de infraestrutura em países emergentes. É um contraponto ao Banco Mundial e o coroamento de uma guinada na política externa brasileira iniciada no governo Lula. O NBD terá o capital inicial de US$ 50 bilhões, divididos igualmente entre os membros fundadores.

Além da intensificação das trocas comerciais já existentes, o acordo abre uma nova possibilidade de financiamento para as grandes empreiteiras brasileiras que atuam no exterior, principalmente na África, e para a ampliação das exportações de commodities agrícolas e de minérios. A Índia terá o direito de indicar o primeiro presidente e, a Rússia, o presidente do Conselho de Governadores. O presidente do Conselho de Administração será um brasileiro. A África do Sul sediará o Centro Regional Africano do banco. Haverá rotatividade na presidência da instituição.

O Brasil se distancia ainda mais dos Estados Unidos e da União Europeia para se aproximar politicamente da Rússia e da China. Perdeu o "complexo de vira-latas", dirão os porta-vozes do Palácio do Planalto, mas entra numa briga de cachorro grande: a queda de braço da Rússia com os países da Otan (Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha e França, principalmente) por áreas de influência no Leste Europeu e a forte concorrência entre os EUA e a China pelo controle dos mercados afro-asiáticos.

Índia e África do Sul são importantes, mas não protagonizam a grande política mundial, atuam como coadjuvantes. Têm, porém, indiscutível peso regional e são players do Hemisfério Sul. O Brasil até agora não havia conseguido chegar a acordos com a Rússia e a China em relação a questões importantes para nossa diplomacia brasileira. Como a indicação de um nome de consenso para presidir o Banco Mundial ou a reestruturação do Conselho de Segurança da ONU, com a entrada do Brasil e da Índia no restrito grupo de países com poder de veto sobre decisões da guerra e da paz no mundo.

Aposta de risco
A presidente Dilma Rousseff fez uma aposta de risco ao aprofundar essa estratégia diplomática, que se sustenta nas contradições Norte-Sul. O acrônimo Bric foi uma criação do economista Jim O"Neil, do Goldman Sachs, num um estudo de 2001 intitulado "Building better global economic Brics". Ele acreditava que Brasil, Rússia, Índia e China, as chamadas potências emergentes, teriam um papel proeminente no desenvolvimento da economia mundial.

O"Neil excluiu a Coreia do Sul e o México desse conjunto por considerar esses países desenvolvidos e plenamente integrados à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), criada em 1948 para gerir a reconstrução europeia (o Plano Marshall), sob os princípios da democracia e da economia de mercado.

O que o economista do Goldman Sachs não previu foi que o líder russo Vladimir Putin agarraria a tese com unhas e dentes para tirar a Rússia do isolamento e formar um novo bloco geopolítico, para o qual foi fundamental a inclusão da África do Sul, cuja economia nem de longe se equipara às dos demais integrantes do grupo. O país de Nelson Mandela, porém, tem um papel estratégico para o reposicionamento da África nas relações Norte-Sul.

Em tese, a formação do banco e a criação do fundo de estabilização de US$ 100 bilhões também são uma vitória da diplomacia brasileira. O novo presidente chinês, Xi Jinping, aderiu ao projeto. Com isso, foram criadas instituições de socorro aos países parceiros em caso de turbulências financeiras à margem do Fundo Monetário Internacional (FMI), que impõe rigoroso controle de contas públicas e outras exigências para liberar recursos.

Agora, quando governos da América Latina, da África e da Ásia estiverem com problemas temporários no balanço de pagamentos, poderão pedir recursos e recebê-los em dólares; em contrapartida, fornecerão sua moeda aos países contribuintes. Ou seja, a China, responsável por US$ 41 bilhões; o Brasil, a Índia e a Rússia, por US$ 18 bilhões cada; e a África do Sul, que entrou com US$ 5 bilhões.

Essa estratégia brasileira, porém, é objeto de grande polêmica nos nossos meios financeiros, empresariais e diplomáticos, pois distancia o Brasil dos Estados Unidos e da União Europeia. Ainda mais porque o Mercosul, para esses críticos, virou um entrave ao comércio do Brasil com os países desenvolvidos e à própria integração econômica latino-americana.

O recrudescimento dessas críticas decorre do fato de que as economias mais desenvolvidas começam a sair da crise global, enquanto os Brics enfrentam um cenário de baixo crescimento, com exceção da China. Mesmo assim, o gigante asiático, que é a segunda economia do mundo, reduziu o ritmo. Além disso, tornou-se um voraz concorrente da nossa indústria.

Elio Gaspari: Na TV, Dilma terá bons roteiros

• O problema surgirá nos debates, sobretudo se houver segundo turno, com tempos iguais para os dois candidatos

- O Globo

As últimas falas da doutora Dilma, listando realizações num estilo que despreza o fim das sentenças e o encadeamento dos raciocínios, indicam que, durante a propaganda gratuita de televisão, ela estará blindada. Conseguirá despejar uma enciclopédia de números capaz de mostrar os aspectos exitosos de sua administração. Na TV essas informações serão arrumadas por João Santana, e seus efeitos especiais — os 11 minutos e 48 segundos diários, contra 4 minutos 31 segundos e meio de Aécio Neves, e 1 minuto e 49 segundos de Eduardo Campos — farão sensível diferença. Isso no primeiro turno.

Se houver segundo turno, cada candidato terá o mesmo tempo. Pior: nele o debate pesará muito mais, pois será um mano a mano, sem candidatos fazendo perguntas teatrais. Pior ainda: os dois principais adversários da doutora falam com clareza, enquanto ela se perde em estatísticas. Aécio Neves exagera nos adjetivos grandiloquentes. Eduardo Campos, nos adjetivos fáceis. Mesmo assim fazem mais sentido que ela. Sempre vale lembrar que na primeira campanha de Bill Clinton à Presidência dos Estados Unidos, o marqueteiro James Carville proibiu-o de pronunciar a palavra “infraestrutura”. Na campanha brasileira pode-se acrescentar que “centro da meta" pode ser a marca do pênalti.

Até hoje, as propostas concretas de Aécio Neves e Eduardo Campos somam benignas platitudes. Aécio quer a “introdução de um novo conceito de cultura na política pública brasileira, com prioridade para uma visão integrada da ação cultural, abrangendo todas as instâncias governamentais e de estímulo a toda a produção cultural nacional, em todos os seus segmentos”.

Campos quer passe livre em transportes públicos para todos os estudantes. Tudo bem. Passe livre para a garotada da Escola Britânica do Rio? Lá a mensalidade vai a cerca de R$ 4.500. Será que eles precisam? Se é o caso de se prometer gratuidades, porque não entregá-las só a quem pedir? Já a doutora oferece como novidade um Brasil sem burocracia. Logo ela, que tem 25 ministérios e 15 comissários com status de ministros. Ao contrário dos outros dois, a doutora tem o que mostrar e o êxito da Copa lustrou-lhe a imagem de gerentona. (Registre-se o surgimento de uma piada macabra: o novo 7 x 1: sete por cento de inflação e 1 por cento de crescimento. Pelo andar da carruagem, vem aí um 6 x 1.)

Não se pode saber até que ponto as tensões registradas no comissariado da campanha derivam de maus números chegados ao Planalto ou da simples autofagia petista. A doutora já sofreu um processo de corrosão com o “Volta Lula”, não precisa de outro.

A temática oferecida pelas falas de Dilma sugere que sua campanha depende muito das obras e pompas do marqueteiro João Santana e de sua capacidade de administrar o capital do tempo na televisão. Essa tática poderá ser eficiente num primeiro turno. Depois, a eleição será outra. Pelas ansiedades que se percebem no comissariado, usando-se um verbo criado pela psicóloga Maria Regina Brandão, há o risco de o PT “panicar”, como panicou a turma da Granja Comary. Um PT “panicado” seria uma reedição da velha técnica de “partir pra cima”, radicalizando o que for possível radicalizar.

Elio Gaspari é jornalista

José Nêumanne: Felipão, o professor de gestão de Dilma

- O Estado de S. Paulo

Dilma Rousseff disse, em 1.º de julho de 2013, que seu governo tinha o "padrão Felipão", em resposta a uma pergunta sobre se seus ministros tinham "padrão Fifa". Referia-se ao ex-técnico da seleção brasileira Luiz Felipe Scolari após reunião ministerial depois da vitória sobre a Espanha por 3 a 0 no Maracanã, onde ela seria vaiada várias vezes domingo, na final da Copa, antes e ao entregar a taça ao capitão alemão, Philipp Lahm. A comparação havia sido feita na temporada de protestos nas ruas em que o povo exigiu "padrão Fifa" para a gestão pública federal, nada exemplar. Apesar de ter escolhido o treinador como modelo, ela não foi entregar a Copa das Confederações ao time que ele treinou. Um ano e 13 dias depois, tendo o mesmo time sofrido hecatombes inéditas nos jogos finais da "Copa das Copas", ela o relegou ao ostracismo para se refugiar no verso de um samba de Paulo Vanzolini ("levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima") e na criatividade ("a derrota é a mãe de todas as vitórias").

Dilma não atuou na seleção nem a treinou. Não é também dirigente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Mas não resiste a recorrer ao dito esporte bretão para parecer simpática. Nascida em Minas, comemorou a conquista da Libertadores da América pelo Atlético Mineiro em 2013 em redes sociais. "Congratulo (sic) com toda a torcida do Atlético pela conquista do título. Eu sou torcedora do Atlético e, quando criança, ia com meu pai a muitos jogos do Galo no Mineirão", postou. Não faltou quem nos mesmos veículos lembrasse que 1) como nasceu em 1947, tinha 18 anos e, portanto, não era criança quando o estádio foi inaugurado; e 2) que o pai morrera em 1962, três anos antes de sua inauguração.

Consta que Clio, a deusa da história, é irônica. Pelo visto, os deuses do futebol também. Em 8 de julho o estádio foi palco da derrota mais humilhante que o Brasil sofreu na história, ao perder de 7 a 1 na semifinal da Copa. Dela o técnico saiu como padrão de incompetência, e não de excelência.

Nenhum torcedor dotado do mínimo de bom senso teria apostado pesado no time de Scolari na Copa: ganhou da Croácia com a ajuda do juiz, empatou com o México contando com muita sorte e ao vencer Camarões passou para as oitavas de final contra o Chile, e não contra a Holanda, por absurdos erros do árbitro, que anulou dois gols legítimos dos mexicanos no jogo de estreia contra os africanos. A trave nos últimos segundos da prorrogação e no último pênalti carimbou o passaporte para as quartas de final contra a Colômbia, que nunca foi páreo para a canarinha nos melhores momentos dela e nos piores desta. O Brasil ficou entre os quatro melhores com a ajuda da sorte e de apito amigo.

Mas na véspera da semifinal contra a temida Alemanha a presidente resolveu apostar todas as fichas de chefe de governo e de Estado e de candidata à reeleição no "padrão Felipão" de excelente gestão. A página oficial da Presidência da República na internet, usada na campanha eleitoral com uma sem-cerimônia só comparável à do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao desconhecer o fato, divulgou sua "conversa" com internautas sobre a Copa. Chamou os adversários de "urubus", condenou o "pessimismo indevido" de um sujeito oculto chamado imprensa, vulgo "mídia golpista", e adotou como mascote de palanque o craque Neymar, cuja dor, ao ser atingido por um jogador do time que fora menos violento do que o Brasil no jogo, segundo ela, "feriu o coração de todos os brasileiros".

Para completar, sem se dignar a explicar o significado do gesto nem da expressão, copiou do astro do Barcelona o "é tóis", paródia criada por ele para o "é nóis" dos corintianos, com a letra T formada pelos braços e pelo cotovelo. E enquanto a torcida lhe fazia eco gritando o nome do ídolo ferido, os alemães impingiram à seleção mais campeã das Copas a pior goleada em semifinais do torneio.

Felipão, fiel a seu padrão de embromation, mal consumado o desastre elogiou o próprio trabalho, lembrando que seu "grupo" - sua "família", ou seja, as vítimas de suas doses patéticas de autoajuda - foi o primeiro a chegar a uma semifinal desde a Copa em que ele mesmo treinou o time campeão, em 2002, há 12 anos. O auxiliar técnico Carlos Alberto Parreira comprometeu o respeitável currículo de campeão mundial de 1994 lendo na entrevista a carta de uma fã que elogiou a preparação do time de um esporte cujos fundamentos ela própria dizia desconhecer.

Antes de o "padrão Felipão" ser submetido a outro vexame na disputa pelo terceiro lugar contra a Holanda na arena Mané Garrincha, com o nome de um gênio do tempo em que nosso futebol tinha cara e vergonha, os bombeiros do Planalto correram para salvar a chefe do incêndio. Descalçaram-lhe as chuteiras e ela pôs de novo o capacete de chefe de obras, para jogar espuma sobre a tentativa canhestra de barganhar o sucesso da seleção por votos na eleição. Apelaram até para o óbvio: "Futebol e política não se misturam". 

Fez-se isso com desleixo idêntico ao de estropiarem a frase de Nelson Rodrigues "a pátria em chuteiras" por outra, que só adquiriu nexo após o vexame: "a pátria de chuteiras". Dilma e seu professor (assim os pupilos chamam seus técnicos) usaram pátria, hino e bandeira para chutar a realidade para escanteio.

Dilma ainda contribuiu para o besteirol de político ignorante em esporte ao atribuir o chamado mineiratsen à exportação dos melhores jogadores nacionais para o exterior. O uso da palavra exportação, cabível para médicos cubanos, mas não para nossos craques, omite as evidências de que a seleção atuou em nível similar ao dos campeonatos locais por absoluta incapacidade de dirigentes que se recusam a aprender como se joga nos mercados que hoje vencem. E de governantes que perdoam as dívidas monstruosas acumuladas por estes bancando papagaios de pirata para ganhar votos, perdendo o pudor e as Copas.

José Nêumanne é jornalista, poeta e escritor

Miriam Leitão: Balanço sem palanque

- O Globo

A população recebeu bem. Os prazos das obras não foram cumpridos. O país encantou os turistas. Os serviços estavam muito caros, como hotéis, passagens aéreas e restaurantes. Não houve caos aéreo, mas nem todos os aeroportos ficaram prontos e as viagens de negócios foram praticamente suspensas. Ferrovias novas não há. O trânsito foi ajudado por feriados que prejudicaram a economia.

O balanço que a presidente Dilma fez tinha endereço eleitoral. Uma avaliação mais realistapermite aprender com o que não funcionou para que o Brasil se prepare para receber grandes eventos internacionais. Temos as Olimpíadas pela frente e, de novo, as obras estão muito atrasadas e de algumas conquistas já desistimos, como a limpeza da Baía de Guanabara.

A infraestrutura de tecnologia de comunicação continua deficiente. Precisamos melhorar muito nessa área e não pelos eventos, é por nós mesmos. A simpatia natural do povo brasileiro — reconhecido por todos como o ponto alto da Copa — pode ser aperfeiçoada com melhor ensino das línguas inglesa e espanhola para quem vai lidar diretamente com o público.

Não foi a Copa das copas. Isso é refrão de marqueteiro. É melhor avaliar o que deu certo, o que deu errado. Os alertas feitos pela imprensa não eram torcida contra. Toda imprensa livre tem o dever de fazer os alertas. Quem não gosta de imprensa livre pode ver como funciona na China, em Cuba, na Coreia do Norte. É o paraíso do governante, e a morte da notícia. Tudo filtrado, controlado, vigiado.

O Brasil não quer isso, por mais que o governo passe o tempo todo culpando a imprensa por qualquer fato que o desagrade.

Houve acidentes no Itaquerão durante a construção. Com mortes. O estádio que abriu o evento ficou pronto no último minuto, mas a imagem externa da abertura era deprimente porque não houve tempo para o trabalho do lado de fora. Um viaduto caiu em Belo Horizonte e também houve morte.

Ainda não se sabe o que será feito com certos estádios em locais onde não há tradição de futebol. Há um trabalho para fazer nesse pós-Copa para dar utilidade a essas obras caríssimas.

Houve dias de trânsito muito pesado, mas a mobilidade urbana foi ajudada por excessivos feriados. A suspensão de aulas e atividades produtivas não é apenas um prejuízo econômico, mostra que só se evita o pior se o país parar. Um grande evento tem que caber no país.

A conta dos feriados está batendo nos números já fracos da economia brasileira.

Os preços extorsivos cobrados por muitos hotéis e restaurantes, além de passagens aéreas, foram um tiro no pé. Ganha-se num mês, mas o risco é apequenar o principal legado da Copa, que é incentivar o turismo estrangeiro. Se o país fica com fama de caro, isso afasta o turismo potencial que nasce desse contato. Foi um erro dos empresários e falta de visão de negócios de longo prazo. Claro que se sabia que haveria maior demanda por esses serviços durante um mês, mas cobrar preços excessivos reduz atratividade no turismo.

Os jogos foram emocionantes, até aqueles dos quais não se esperava muito, e isso ajudou a consolidar a ideia de uma boa Copa. Fica a certeza de que é preciso renovar o futebol brasileiro, para melhorar o desempenho em campo e eliminar o desconforto de ter certas figuras nefastas no comando do esporte. O Cafu sendo barrado por José Maria Marin no vestiário, no dia da nossa maior tristeza, mostra a inversão de valores. O que cada um deles fez pelo Brasil? Basta comparar.

O melhor balanço é aquele que é feito longe dos palanques, e ele mostrará os pontos fortes e as lições do evento. Em todos os campos. l

Brasília-DF - Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

Os trabalhos de Michel
Ao reassumir hoje o comando do PMDB, o vice-presidente Michel Temer tentará arrefecer o ânimo oposicionista em alguns estados, especialmente, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde uma campanha pró-Dilma por parte do PMDB ajuda a conquistar votos além daquilo que o PT pode cabalar. O Rio de Janeiro, entretanto, é considerado caso perdido. Ali, os peemedebistas tratam das possibilidades de Michel como a piada que marca o convite dos cariocas para visitas cariocas, ou seja, o velho "passa lá em casa", mas não dá o endereço.

Enquanto isso, no Piauí...
Ao mesmo tempo que Michel deseja mostrar serviço engajando seu partido na campanha, há petistas interessados em ver o PMDB longe de Dilma. O senador Wellington Dias (PT-PI), candidato ao governo, comemorava ontem a perspectiva de ter a presidente exclusivamente em sua propaganda. "O PMDB lá já declarou apoio ao Aécio. Então, liberou a Dilma para o meu palanque."

Olho no TCU
Os governistas querem ficar de olho nos votos da ministra do Tribunal de Contas da União Ana Arraes. A ideia é juntar material para ver se é possível pedir a suspensão dela, em caso de votos muitos duros contra o governo. Tudo porque a ministra é mãe do candidato do PSB à Presidência da República, Eduardo Campos.

Virada eleitoral
O senador Aécio Neves planeja um programa de tevê diferente para exibir em São Paulo, de forma a voltar sua propaganda para os temas que interessem ao eleitor do estado, onde ele planeja fechar a conta para chegar ao Planalto. Ali, como na Virada Cultural, a ordem do PSDB é buscar votos 24 horas.

Hora dos negócios
Não é o show de Paulinho da Viola para marcar os 40 anos da retomada das relações bilaterais Brasil-China que mais interessa aos convidados nessa visita a Brasília. O que eles desejam mesmo é o ingresso de novos produtos de tecnologia chinesa no mercado brasileiro. Uma das grandes apostas é o Baidú, uma espécie de Google chinês.

Se brincar...
O governo se assustou com o placar da votação que deu urgência ao projeto contra o decreto presidencial dos conselhos consultivos. Com 294 votos, num período de campanha eleitoral, isso quer dizer que qualquer proposta mais polêmica passará sem grandes dificuldades. "Esse resultado é pior que os 7 x 1 da Alemanha", afirmou o deputado Miro Texeira (PROS-RJ).

Silhueta eleitoral/ A senadora Kátia ABreu (PMDB-TO) tomava café na sala ao lado do plenário quando, de repente, passa o senador Sérgio Petecão: "Nossa emagreceu, senador! Está de dieta?" Petecão enrubesceu: "Nada. É pressão do PT lá no estado!" Petecão apoia o candidato do PSDB.

Sem debate/ A Confederação Nacional de Agricultura (CNA) marcou para 7 de agosto o encontro com os candidatos a presidente da República. Somente três foram convidados a expor suas propostas: Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB). Cada um fará a sua exposição separadamente.

A aposta de Gleisi/ Candidata ao governo do Paraná, onde Dilma Rousseff perdeu em 2010, a ex-ministra da Casa Civil Gleisi Hoffmann (foto) fará toda a sua campanha colada na imagem da antiga chefe. "Todo o meu material de campanha será em conjunto com ela. Nada separado", diz.

Vai ferver/ Gleisi não se licenciará do mandato para fazer campanha. A ideia é que ajude, na tribuna do Senado, a defender o governo, uma vez que o candidato a vice-presidente pelo PSDB, senador Aloysio Nunes Ferreira (SP), também não se afastará do parlamento. Os embates, entretanto, devem se restringir as semanas de esforço concentrado.

Painel - Bernardo Mello Franco (interino)

- Folha de S. Paulo

Segurança e voto
O ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) anunciará na sexta-feira a criação de centros de comando permanentes em todos os Estados, nos moldes dos montados em cidades-sede da Copa. A promessa é integrar polícias estaduais, Polícia Federal e Forças Armadas para reforçar a fiscalização das divisas. Adotada na reta final do governo, a medida servirá como vacina eleitoral. A oposição responsabiliza o governo federal pela entrada e circulação de drogas e armas no país.

Tudo integrado A proposta será apresentada em reunião do ministro com secretários de Segurança dos 12 Estados que sediaram o Mundial. O projeto já foi discutido no comitê de Dilma Rousseff.

Prioridades Alguns Estados que não receberam jogos da Copa sofrem com problemas mais básicos na segurança pública. No Maranhão, por exemplo, a PM cruzou os braços em abril para pedir reajuste salarial de 12%.

Efeito colateral O debate sobre divisas e fronteiras deve ressuscitar promessa de Dilma, na eleição de 2010, de comprar 14 veículos aéreos não-tripulados. A meta não foi cumprida pelo governo, que só adquiriu dois.

Chuva... Dilma e o presidente da China, Xi Jinping, assinam amanhã um protocolo milionário na área de infraestrutura. Os chineses querem investir na construção de ferrovia que ligará Mato Grosso ao Pará, com saída pelo porto de Barcarena.

... de yuans O governo considera o porto paraense um ponto estratégico de escoamento da produção de soja do Norte do país.

Nos tribunais Até o fim da semana, a campanha de Aécio Neves (PSDB) promete acionar Dilma ao menos mais uma vez no Tribunal Superior Eleitoral. Em entrevista à rede de TV Al Jazeera, ela disse, na condição de presidente, que merece a "oportunidade de um novo governo".

Deixa pra lá Aécio está medindo palavras para evitar atritos com aliados em seu novo site. Publicou um gráfico para mostrar que Minas Gerais tem o melhor indicador do Sudeste em esperança de vida ao nascer, mas omitiu que o Rio, de Luiz Fernando Pezão (PMDB), tem o pior.

Pede... Após a sabatina de Eduardo Campos, a socialite Maria Christina Mendes Caldeira, ex-mulher de Valdemar Costa Neto, procurou o presidente do PSB paulista, Márcio França. Queixou-se de falta de apoio e perguntou como fazer para retirar sua candidatura à Câmara.

... para sair "É só mandar uma cartinha", respondeu França, em tom de ironia e dedilhando no ar. "Também posso ir à imprensa", devolveu a socialite. O deputado marcou outra conversa hoje.

Atleta Paulo Câmara (PSB), o candidato de Campos em Pernambuco, é tão desconhecido que só agora sua equipe descobriu que ele foi campeão de natação na juventude. As medalhas devem ser exploradas na campanha.

Bom garoto O primeiro jingle de Câmara, um rap, frisa que ele é "casado e pai de família". A música usa gírias pernambucanas para vendê-lo como um administrador firme: "O cabra é rochedo!"

Berço José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD), hoje rivais na disputa pelo Senado, terão marqueteiros com currículo em comum: PC Bernardes e Felipe Soutello já atuaram com Luiz Gonzalez.

Homenagem Os vereadores de São Paulo batizaram uma nova avenida na zona sul com o nome do ex-ministro Luiz Gushiken, que morreu em 2013. O projeto, de Antonio Donato (PT), foi sancionado na última sexta-feira.

Tiroteio
"Com um vice desconhecido, tive 16 milhões de votos. Se chegar a tanto, Campos terá de dizer se foi ele ou Marina quem recebeu a votação."
DO DEPUTADO ANTHONY GAROTINHO (PR-RJ), em resposta a Campos, para quem o PSB teve um programa melhor que o candidato ao Planalto em 2002.

Contraponto
O que discute a bancada da bola

Pouco antes da Copa, o deputado Jovair Arantes (PTB-GO) iniciou um debate sobre a destinação de recursos da Timemania com uma saudação aos cartolas presentes. Ao mencionar o deputado estadual Roberto Dinamite (PMDB-RJ), lamentou uma derrota recente do Atlético Goianiense, do qual é vice-presidente, para o Vasco.

--Não gostei da sua vitória, não. Fiquei chateado!

--Se for por esse motivo, eu só voto quando o Botafogo voltar a ganhar --brincou Rodrigo Maia (DEM-RJ).

Arantes devolveu:

--Aí é que não vai ter votação mesmo!

Diário do Poder – Cláudio Humberto

- Jornal do Commercio (PE)

• Planalto breca Congresso para evitar nova derrota
O ministro Aloizio Mercadante (Casa Civil) se reuniu ontem com o presidente da Câmara, Henrique Alves (RN), e o líder do PMDB, Eduardo Cunha (RJ), tentando “dar férias” logo aos deputados e evitar votações que rendam novas derrotas à presidenta Dilma. O Planalto teme não conseguir impedir a base aliada de aprovar projetos com forte apelo eleitoral, mas que impliquem em gastos ao governo federal.

• Pauta bomba
Dentre as matérias que preocupam o Planalto está o aumento para 2% do Fundo de Participação dos Municípios (FPM), articulado pelo PMDB.

• Desprestígio
Líderes aliados ficaram irritados com a sensação de que estavam sendo levados no bico pelo ministro da Articulação, Ricardo Berzoini,

• Quem resolve
Enquanto perdiam tempo com Berzoini, os líderes viram Henrique Alves e Eduardo Cunha decidindo tudo com Aloizio Mercadante.

• Parou geral
Henrique Alves prometeu a Mercadante que só haverá esforço concentrado em uma semana em agosto e outra em setembro.

• Vargas aposta no esquecimento do seu escândalo
Em meio a processo que responde no conselho de ética por quebra de decoro parlamentar, acusado de manter relações promíscuas com o doleiro Alberto Youssef, o deputado André Vargas (ex-PT-PR) circula na Câmara dos Deputados, como aconteceu ontem, saboreando o progressivo esquecimento do escândalo de corrupção que protagonizou. André Vargas age como se nada tivesse acontecido.

• Parceria
André Vargas é acusado de fazer negócios e fazer lobby para o doleiro Alberto Youssef, que ontem teve nova prisão preventiva decretada.

• Separação conveniente
Apesar de oficialmente desligado do PT, o deputado André Vargas continua muito influente no governo e na bancada do ex-partido.

• Cobertura
O centro de mídia montado em Brasília, durante a Copa do Mundo, foi utilizado por mais de 1400 jornalistas, dos quais 433 eram estrangeiros.

• Goleada
Após paciente espera, o advogado Bruno Dantas foi finalmente aprovado pela Câmara dos Deputados, por 270×7 votos, para o cargo de ministro do Tribunal de Contas da União. Foi indicado pelo Senado.

• Eleição vergonhosa
O presidente da Fecomércio-RJ, Orlando Diniz, único candidato de oposição à presidência da Confederação Nacional do Comércio, deve ser impugnado pelo rival, Antonio Santos, presidente há 34 anos. Que julgará a impugnação e eventuais recursos. Sem efeito suspensivo.

• Campo minado
A presidenta Dilma convidou o senador Eunício Oliveira para o almoço com os presidentes dos Brics, em Fortaleza. Queria saber como anda o ambiente no PMDB. A resposta dele: “péssimo”.

• Direita raivosa
Tem gente, até no Congresso, que acha Vladimir Putin um “comunista”. Na verdade, entre o antigo regime e o presidente direitista russo, só há em comum o autoritarismo, a truculência e a ojeriza à Democracia.

• Partiu pra briga
O PV ameaça entrar com processo por crime de desobediência contra o presidente da Câmara, Henrique Alves, a quem acusa de protelar há um mês a posse de Denilson Teixeira (MG), determinada pelo STF.

• Tomando as rédeas
Com objetivo de retomar as rédeas do PMDB, o vice-presidente da República e candidato a reeleição Michel Temer assumirá nesta quarta comando nacional do PMDB, ocupado pelo senador Valdir Raupp (RO).

• Asilo para Snowden
Candidata ao Planalto, Luciana Genro (PSOL) participa hoje de ato em Brasília pedindo asilo político para Edward Snowden, americano que revelou espionagem do governo Barack Obama contra nações amigas.

• Zona franca
Aprovada na Câmara, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que amplia os incentivos fiscais à Zona Franca de Manaus por mais 50 anos, deverá ser votada nesta quarta-feira no Senado.

• Por 7 x 1
Se “meu governo é padrão Felipão”, como Dilma afirmou, a CBF foi mais realista: demitiu o Felipão.

Panorama político – Ilimar Franco

- O Globo

Vários tons da realidade
O governo Dilma, depois de meses de desgaste, procura bater o bumbo com o êxito da Copa fora do campo. A oposição tucana se esgoela acusando os petistas de tentarem se apropriar porque deu quase tudo certo. Já o time de Eduardo Campos está blasé e diz que esse embate é um frenesi pueril. Avalia que o tema não sobrevive e que, quando a eleição entrar no ar, restará uma memória rarefeita.

E agora, como é que fica?
A Justiça está pedindo o ressarcimento de um investimento de R$ 150 mil feito pelo ex-prefeito do Rio Cesar Maia. Mesmo sem enriquecimento ilícito ou desvio, ela alega apenas que o estado é laico e que o gestor não pode usar dinheiro público em favor de uma religião. No caso, a construção da igreja católica São Jorge, no bairro de Santa Cruz, na Zona Oeste. A deliberação pode vir a criar um precedente. Os governos federal, estaduais e as prefeituras usam dinheiro público para restaurar igrejas, invocando a manutenção do patrimônio histórico. Mas essas igrejas, após restauradas, são um púlpito para que religiosos, em sua maioria católicos, professem sua fé.
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“Ao reassumir a presidência do PMDB, Temer terá maior autoridade para tratar da presença da presidente Dilma e do ex-presidente Lula onde não formos aliados locais do PT”
Henrique Alves, presidente da Câmara (PMDB) e candidato a governador (RN)
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Cartão amarelo
A presidente Dilma tem mancado nos últimos dias. Ela tropeçou carregando o neto, Gabriel. E, para não cair, acabou batendo a perna na quina de uma cadeira. No futebol é assim: há risco de contusão mesmo estando fora de campo.

No outro mundo
O ministro Luís Roberto Barroso virou alvo de críticas dos juristas e da maioria do Congresso. Eles preveem o caos, caso seja aprovada a proibição da doação eleitoral pelas empresas. Comparam com a decisão de Luiz Fux, no caso da renegociação dos precatórios. Seu relatório foi aprovado, mas não aplicado. Ele quebraria prefeituras e estados.

Agora vai
O PT cobra do PMDB por que candidatos do partido aos governos estaduais abriram seus palanques para Aécio Neves (PSDB). A resposta: o candidato está com Aécio, mas os candidatos para o Congresso estão com a presidente Dilma.

Será que é isso mesmo?
Muitos são os que atribuem a derrota do Brasil na Copa à direção dos clubes e das federações. O craque alemão Schweinsteiger dedicou o título ao presidente do Bayern Munch, Uli Hoeness. O Bayern tem sete jogadores na seleção. E Uli está na cadeia, condenado a três anos e meio de prisão por evasão fiscal de 27,2 milhões de euros.

Burlando o ritual burocrático
Ao contrário do costume, o presidente do STF, Joaquim Barbosa, não nomeou uma equipe de transição para passar o bastão para o ministro Ricardo Lewandowski. Ele baixou resolução para que isso seja feito via um relatório de 60 páginas.

Em cima do lance
A Vigilância Sanitária vistoriou 8.292 restaurantes nas 12 cidades-sede da Copa. No Rio, foram 577. Em 21,7% desses, foram detectadas falhas relevantes; onze tiveram de ser fechados até a regularização.

NA INAUGURAÇÃO do Instituto Marcelo Déda, hoje à noite em Aracaju (SE), será lançado livro com os poemas do ex-governador: “Improvável Poética”

José Serra convida para o lançamento de seu livro no Rio

Editora Record e Livraria da Travessa convidam para Bate-papo e sessão de autógrafos de
22/07, terça-feira, a partir das 19 hrs.
Livraria da Travessa - Shopping Leblon
Av. Afrânio de Melo Franco, 290  - Loja 205 A

Maria Rita - Não deixe o samba morrer

Carlos Drummond de Andrade: Perder, ganhar, viver

Jornal do Brasil, 07/07/1982

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas…

E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.

Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos?

Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado.

A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.

Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres-diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.

Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.

E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano está na segunda metade?

Carlos Drummond de Andrade: Foi-se a Copa?

24/06/1978

"Foi-se a copa? Não faz mal.
Adeus chutes e sistemas.
A gente pode,afinal,
cuidar dos nossos problemas.

Faltou inflação de pontos?
Pendura a inflação de fato....
Deixaremos de ser tontos
se chutarmos no alvo exato.

O povo, noutro torneio,
Havendo tenacidade,
Ganhará, rijo, e de cheio, a Copa da Liberdade."

Carlos Drummond de Andrade, Poesia e Prosa, Nova Aguilar, 1999