sexta-feira, 20 de março de 2015

Na lista, doleiros envolvidos em escândalos

• Nomes citados na Lava-Jato, no mensalão e no caso PC Farias aparecem como correntistas do HSBC

Chico Otavio, Cristina Tardáguila e Ruben Berta – O Globo

Doleiros citados em escândalos como a Operação Lava-Jato, o mensalão e o caso PC Farias aparecem na lista dos 8.667 brasileiros que tinham contas numeradas no HSBC da Suíça em 2006/2007. Em todos os casos, eles foram investigados pela suspeita de terem operado dinheiro de origem duvidosa e acobertado operações financeiras ilegais. Os citados negam irregularidades.

Na base de dados do HSBC suíço, vazada em 2008 por um ex-funcionário do banco, aparecem Henrique José Chueke e sua filha, Lisabelle Chueke (caso PC Farias); Favel Bergman Vianna e Oscar Frederico Jager (propinoduto); Benjamin Katz (Banestado); Dario Messer (mensalão); Raul Henrique Srour (Lava-Jato) e Henoch Zalcberg (Operações Roupa Suja e Sexta-feira 13).

Henrique José Chueke, tido nos anos 1990 como um dos doleiros mais ricos do Rio, foi acusado de ter alimentado as contas do empresário Paulo Cesar Farias, tesoureiro de campanha de Fernando Collor de Melo, e de Ana Acioli, secretária do ex-presidente. Quando o escândalo veio à tona, os jornais publicaram que, só entre maio de 1991 e junho de 1992, o escritório de Chueke, situado no mesmo endereço da Belle Tours, empresa de sua filha Lisabelle, havia recebido 27 telefonemas da EPC, empresa de PC Farias. Nos registros do HSBC, Chueke tinha, em 2006/2007, uma conta com US$ 1,1 milhão.

"Mercado paralelo"
Favel Bergman Vianna e Oscar Frederico Jager foram envolvidos no escândalo do propinoduto, revelado em 2003. Vianna foi assassinado com um tiro dentro de seu Audi, na Avenida Atlântica, no Leme, em março daquele ano - 23 dias depois de o Departamento de Justiça dos Estados Unidos ter bloqueado US$ 9 milhões que ele mantinha em uma conta bancária em Nova York. O bloqueio estabelecido pelos americanos atendia a um pedido da Justiça suíça. Na época, as autoridades brasileiras suspeitaram que a conta de Vianna havia sido usada para remeter ao exterior dinheiro obtido ilegalmente pelos fiscais da Receita envolvidos no escândalo. O Ministério Público Federal também suspeitou que a conta de Vianna servia para lavar dinheiro da contravenção carioca.

Em 2004, os Chuekes, Jager e Vianna apareceram numa ação do Ministério Público Federal decorrente da Operação Farol da Colina, da PF. Eles foram acusados de evasão de divisas, formação de quadrilha e operação de instituição financeira sem autorização.

Nessa ação, Vianna ainda foi acusado pelos procuradores de ter sido sócio de Jager em uma empresa chamada Eleven Finance Corporation, aberta nas Ilhas Virgens Britânicas. Na opinião do MPF, a offshore teria sido criada para administrar uma conta com recursos de operações ilegais de câmbio. Nas planilhas do HSBC, os dois surgem dividindo uma conta identificada pelo nome "Eleven". Ela foi criada em outubro de 1988 e fechada em outubro de 1991. Em 2006/2007, estava zerada.

Benjamin Katz foi investigado pela CPI do Banestado por "operar fortemente no mercado paralelo". Não houve relatório final por divergência entre os membros da comissão. O nome de Katz aparece no caso SwissLeaks ligado a uma conta que durou apenas 15 dias, entre 1 e 16 de outubro de 1991.

No mensalão, o doleiro Antonio Oliveira Claramunt, mais conhecido como Toninho da Barcelona, disse que Dario Messer recebia dólares do PT em sua offshore no Panamá e entregava ao partido o valor correspondente em reais no Banco Rural. Segundo a PF e o Ministério Público Federal, entre 1998 e 2003, Messer enviou irregularmente ao exterior ao menos US$ 1 bilhão. Em 2005, a CPI dos Correios pediu à PF que o localizasse, mas ele havia embarcado para Paris. As planilhas do HSBC indicam que, em 2006/2007, Messer tinha US$ 69 mil depositados na Suíça.

Raul Henrique Srour foi citado na investigação da Operação Lava-Jato. De acordo com o Ministério Público, ele fez parte do grupo do doleiro Alberto Youssef e atuou no mercado negro, fraudando identidades para realizar cerca de 900 operações de câmbio. Segundo os dados do banco suíço, Srour teve três contas, mas todas elas já haviam sido fechadas em 2006/2007.

Henoch Zalcberg foi alvo de duas operações da Polícia Federal, a Roupa Suja e a Sexta-feira 13, realizadas em 2005 e 2009, respectivamente, para desbaratar uma quadrilha acusada de fraudar licitações, evadir divisas e lavar dinheiro. Em 2006/2007, a conta de Zalcberg no HSBC estava zerada.

Herança dos Safra
Nas décadas de 1970 e 1980, como a moeda americana servia para proteger os brasileiros da inflação, parte da classe média brasileira costumava recorrer a doleiros. Com a abertura da economia, a maior parte dessas operações passou a ser feita à luz do dia e sem a ajuda dos doleiros. Mas essa profissão ilegal continua a existir, como se observa nos sucessivo escândalos descobertos pela PF e pelo Ministério Público.

Os doleiros têm hoje basicamente duas funções. A primeira é facilitar operações internacionais que são feitas com dinheiro ilegal. A segunda é acobertar movimentações financeiras feitas por quem quer fugir de taxações ou não tem como comprovar a origem do dinheiro. Há também a operação inversa. Uma pessoa tem dinheiro no exterior e precisa trazê-lo ao Brasil. Nesse caso, o doleiro fica com os dólares que estão lá fora e entrega o valor equivalente, em espécie, aqui no Brasil. A taxa cobrada gira em torno de 2%. O negócio é lucrativo porque, em geral, envolve grandes quantias.

A hipótese mais provável para a presença de doleiros na base de dados do HSBC está relacionada à expansão do banco em território brasileiro na década de 1990. Em 1999, o HSBC adquiriu por cerca de US$ 10 bilhões os bancos Republic New York Corporation, nos Estados Unidos, e o Safra Republic Holding, na Europa. Ambos pertenciam ao banqueiro Edmond Safra - irmão de Joseph e Moise Safra, donos do Banco Safra no Brasil.

Durante muitos anos, os brasileiros enxergaram na família Safra um sinônimo de segurança para guardar suas fortunas. Quando o HSBC assumiu as carteiras do Republic New York e do Safra Republic Holding, muitos clientes brasileiros foram juntos. Os arquivos do HSBC foram vazados em 2008 por um ex-funcionário do banco.

Na festa de 70 anos, Marta rifa PT e chama PSB e PSDB para o seu aniversário

• Da lista de convidados, saem Lula e Rui Falcão e entram o governador Geraldo Alckmin e seu vice Márcio França

Julianna Granjeia e Tatiana Farah – O Globo

SÃO PAULO - A senadora Marta Suplicy deixou de lado os velhos companheiros do PT e convidou novos amigos para a festa de seus 70 anos na noite desta sexta-feira, em São Paulo. Da lista de convidados, saem Lula e Rui Falcão e entram o governador Geraldo Alckmin (PSDB) e seu vice, Márcio França (PSB), o que confirma que a quase ex-petista está de malas prontas para ingressar no PSB, partido ao qual se filiará até maio. Se trocou os amigos, o banqueteiro é o mesmo das festas sempre elegantes de Marta, Toninho Mariutti.

Marta vai reunir um grupo de cem pessoas, entre políticos, artistas e integrantes da alta sociedade paulistana. A organização ficou por conta da empresa do marido da senadora, Márcio Toledo, articulador da saída de Marta do PT e de seu ingresso no PSB, com aval dos líderes tucanos.

Há exatos 13 anos, quando começava a campanha do PT à Presidência, a ex-ministra comemorava seus 57 anos em uma festa conjunta com o então presidente do partido, José Dirceu — hoje condenado pelo mensalão. Lotaram um bar paulistano com estrelas petistas e artistas, sempre ao som de música brasileira e cubana.

Este ano, nem o ex-presidente Lula foi lembrado. Tampouco o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, que Marta escalou como secretário quando era prefeita da cidade, ou o presidente da legenda, Rui Falcão, que já foi vice-prefeito de Marta. Também ficou fora da lista de convidados o ex-marido de Marta Eduardo Suplicy.

A comemoração será realizada no salão de festas do apartamento de Toledo e Marta, nos Jardins, área nobre da capital paulista. O convite enviado por e-mail tinha um fundo cor de rosa, mas os convidados mais importantes receberam telefonemas e visitas de Toledo, que comanda todo o evento.

O governador Alckmin deve declinar do convite por ter agenda no interior de São Paulo. Deve representá-lo o chefe da Casa Civil, Edson Aparecido, que recebeu telefonema de Toledo na semana passada.

Já o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, sairá nesta sexta-feira às pressas da reunião estratégica do partido em Brasília para prestigiar a senadora. Deputados da bancada também devem participar da festa de Marta.

Na reunião em Brasília, a pauta do PSB é justamente a disputa municipal de 2016. Marta quer ser a candidata a prefeita pelo PSB, “o que casa muito bem com os planos do partido de ter o máximo de candidaturas em grandes cidades”, como disse Siqueira nesta quita-feira.

A disputa pela prefeitura de São Paulo é o maior temor dos petistas, que avaliam que Marta dificultará a tentativa de reeleição do prefeito Haddad. Por outro lado, é a maior aposta do PSDB para enfraquecer seus eternos rivais na capital.

Marta Suplicy avisa PSB que deixará o PT

• Senadora quer deixar atual partido até maio para concorrer à Prefeitura de São Paulo em 2016 pela sigla de oposição

• Alckmin deu aval ao movimento político; petistas acham que é pouco provável que ela recue da decisão

Gustavo Uribe, Marina Dias - Folha de S. Paulo

SÃO PAULO - Com a intenção de disputar a Prefeitura de São Paulo em 2016, a senadora Marta Suplicy avisou ao PSB que se desfiliará do PT até maio.

A informação foi repassada à cúpula estadual do partido pelo empresário Márcio Toledo, namorado da petista e principal articulador de sua candidatura.

O empresário também informou a intenção de Marta a um auxiliar do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que deu aval ao movimento. O PSB é o principal aliado dos tucanos em São Paulo. Seu presidente estadual, Márcio França, é o vice-governador do Estado.

Para se candidatar, a petista precisa estar filiada a um partido até outubro, um ano antes da eleição municipal.

A antecipação da desfiliação visa dar mais tempo à senadora para articular uma candidatura competitiva, com o apoio de siglas como PPS, PV e Solidariedade.

A adesão de Marta ao PSB conta com o apoio da cúpula nacional do partido, mas enfrenta resistências entre lideranças da sigla em São Paulo, que receiam que a petista transfira ao PSB parte da rejeição ao PT no Estado.

Entre petistas, a avaliação majoritária é que é pouco provável que Marta recue da decisão. As investidas do comando do PT não tiveram resposta da senadora, que tem intensificado as críticas ao governo de Dilma Rousseff.

Para petistas, o último sinal negativo ocorreu na última semana, quando Marta convidou Alckmin e secretários estaduais para sua festa de 70 anos e não contatou seus aliados petistas.

Segundo a Folha apurou, no entanto, ela ainda estaria disposta a continuar no PT caso o ex-presidente Lula garantisse à petista a candidatura do partido ao governo de São Paulo em 2018, o que é considerado pouco provável.

O PT em São Paulo tem monitorado o ânimo da militância. Os resultados apontam descontentamento dos eleitores de Marta, que têm achado a senadora "agressiva".

Centrais sindicais vão pressionar Congresso

• Sindicalistas recuam e, em vez de tentar derrubar MPs do ajuste fiscal, negociarão para perder menos direitos

Geralda Doca, Eliane Oliveira e Simone Iglesias – O Globo

BRASÍLIA - As principais centrais sindicais do país vão abandonar o discurso em defesa da retirada das medidas provisórias 664 e 665, que restringem direitos trabalhistas e previdenciários. A partir da próxima semana, os dirigentes sindicais vão tentar alterar as medidas nas comissões especiais criadas ontem para analisar as MPs, num corpo a corpo com os parlamentares. Segundo um sindicalista, a alternativa será fazer ajustes no texto para reduzir os efeitos para os trabalhadores.

- Os parlamentares nos informaram que querem negociar, e o processo vai envolver as centrais e o governo - disse um dirigente sindical, que prefere não se identificar.

Na quinta reunião com o governo, realizada ontem no Ministério da Previdência, representantes das centrais defenderam a retirada das MPs, mas não tiveram sucesso. Reservadamente, as centrais sindicais já admitem que as propostas serão aprovadas no Congresso, com algumas alterações. Já os ministros encarregados de negociar as MPs admitem abertamente a possibilidade de alterações.

- Estamos negociando desde que as medidas vieram para o Congresso. Estamos abertos para discutir e encontrar soluções - disse ontem o ministro do Trabalho, Manoel Dias, após audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado.

Insatisfeitos com as medidas de ajuste fiscal apresentadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, parlamentares do PT se queixam da falta de uma espécie de "animador", papel desempenhado pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e do ex-presidente Lula em 2003.

- A diferença é que, naquela época, Lula acabara de ser eleito, estava no auge. Levy deveria mudar seu discurso pessimista, falar menos sobre a necessidade do ajuste e mais sobre crescimento. Além disso, agradaria e muito o partido a cobrança de impostos sobre a herança - disse um senador petista.

"Governo quer o bode na sala"
Também o líder do PMDB no Senado, Eunício Oliveira (CE), disse que os textos deverão sofrer alterações no Congresso.

Segundo integrantes do governo que estão participando das reuniões, o Executivo aceita fazer ajustes no cálculo da pensão por morte, no prazo de carência de dois anos para requerer a pensão, além de reduzir o prazo de carência para acesso ao seguro-desemprego - já alterado para 18 meses na primeira solicitação. O prazo anterior era de seis meses.

O governo aceita ceder em vários pontos, mas quer preservar o objetivo das medidas que é corrigir distorções e reduzir gastos. No caso das mudanças nas pensões, por exemplo, a economia será de R$ 120 bilhões em prazo de 11 anos (até 2025), de acordo com estimativas do Ministério da Previdência.

Já em relação às alíquotas da contribuição previdenciária sobre o faturamento das empresas, outra medida do ajuste fiscal, a pretensão do governo é enviar ao Congresso nos próximos dias um projeto de lei com pedido de urgência constitucional propondo a revisão das alíquotas.

Reservadamente, o governo sinalizou que aceita a revisão das alíquotas como forma de viabilizar a aprovação da medida no Congresso, mas, segundo fontes, em reunião com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chegou a sugerir o envio do projeto com alíquotas ainda mais altas que as propostas na MP 669 (rejeitada por Calheiros) para que o Congresso reduzisse as alíquotas ao patamar da MP - 2,5% a 4,5%.

- O governo quer colocar o bode na sala, mas não há chance disso prosperar. O Congresso só vai aprovar esse projeto com redução das alíquotas - disse um senador.

Procuradoria lança pacote anticorrupção

• Propostas do Ministério Público serão apresentadas hoje por integrante da Lava Jato e incluem responsabilização de partidos políticos

Beatriz Bulla e Talita Fernandes - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Ministério Público Federal vai apresentar na manhã de hoje uma série de propostas para combate à corrupção. O "pacote" elaborado pelo MPF será divulgado dois dias após a presidente Dilma Rousseff ter anunciado um conjunto de projetos de lei e um decreto com a mesma temática.

Os procuradores elaboraram medidas em "dez frentes", segundo pessoas envolvidas no trabalho, e divididas em três grupos temáticos: transparência e prevenção; efetividade; e celeridade e eficiência. Entre as propostas incluídas no pacote que será anunciado hoje estão a gradação do crime de corrupção e medidas de responsabilização dos partidos políticos, entre outras.

O Ministério Público Federal também sugere a melhoria das regras de transparência e mecanismos para previsão das formas de se recuperar o lucro derivado do crime de corrupção.

Resposta. O anúncio foi marcado para dois dias depois de o governo federal apresentar sete medidas de combate à corrupção como cumprimento de promessa de campanha e resposta aos protestos contra o governo federal, ocorridos em todas as 27 unidades da Federação no domingo passado.

Fazem parte do pacote do governo federal: um projeto de lei que criminaliza o caixa 2, uma proposta de emenda constitucional (PEC) para confisco de bens; pedido de urgência para um projeto para alienação de bens apreendidos; estabelecimento de ficha limpa para cargos de confiança; regulamentação da Lei Anticorrupção, de 2013; e a criação de um grupo de trabalho para cuidar do tema.

Dos pontos apresentados por Dilma em solenidade no Palácio do Planalto, apenas o decreto relativo à Lei Anticorrupção, que entrou em vigor em janeiro do ano passado e desde então aguardava regulamentação, tem validade imediata.

A regulamentação da lei é vista por advogados ligados a empreiteiras acusadas de participar de desvios de recursos da Petrobrás no âmbito da Operação Lava Jato como uma forma de acelerar os acordos de leniência entre as empresas e o governo federal. O Planalto conta com esses acordos para evitar uma "quebradeira" das empreiteiras e prováveis efeitos sobre a economia do País.

Caixa 2. O ponto de convergência entre os projetos do governo e do Ministério Público é a criminalização do caixa 2. As propostas da procuradoria serão apresentadas pelo subprocurador-geral da República Nicolao Dino e pelo coordenador da força-tarefa da Lava Jato que atua na Justiça do Paraná, Deltan Dallagnol.

Embora o governo e o Ministério Público tenham apresentado propostas distintas e em dias diferentes, ambos já discutiram no passado ações de combate à corrupção. A discussão dessas medidas foi o motivo apontado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) para se reunirem às vésperas da entrega dos pedidos de inquérito contra políticos citados na Lava Jato enviados ao Supremo Tribunal Federal.

Prévia da inflação acumula alta de 7,90%

• Energia e combustíveis puxam os preços. Em 12 meses, acumulado é de 7,90%, o pior resultado desde maio de 2005

- O Globo

RIO - A inflação medida pelo IPCA-15, índice considerado uma espécie de prévia do IPCA, que é o índice oficial de variação de preços no país, ficou em 1,24% em março, informou o IBGE nesta sexta-feira. Houve desaceleração na taxa, já que em fevereiro, foi registrada uma alta de 1,33%, enquanto o IPCA fechou o mês passado com elevação de 1,22%. Em março de 2014, o IPCA-15 ficou em 0,73%.

No acumulado em 12 meses, o IPCA-15 acelerou para 7,90% — o maior desde maio de 2005, quando ficou em 8,19%. O resultado é maior que o teto da meta do Banco Central (6,5%) para o IPCA fechado. Com isso, é possível que o indicador de março, a ser divulgado no início de abril pelo IBGE, se distancie ainda mais do objetivo do governo. No acumulado nos três primeiros meses do ano, o IPCA-15 já registra alta de 3,50%, acima dos 2,11% de igual período do ano passado.

O 1,24% de março deve-se principalmente ao aumento na conta de luz, nos preços dos combustíveis e dos alimentos que foram responsáveis por 77,42% do índice do mês, com impacto de 0,96 ponto percentual. A alta da energia elétrica (10,91% ), fez o grupo Habitação registrar o maior resultado no mês de março, com 2,78%.

A energia elétrica também foi a responsável pelo maior impacto individual no IPCA-15, de 0,35 ponto percentual, devido aos reajustes que passaram a vigorar a partir do dia 2 deste mês. Só a bandeira tarifária vermelha, válida no momento, teve alta de 83,33%, passando de R$ 3 para R$ 5,50. A alta no preço da conta de luz teve maior impacto em Curitiba (14,89%) devido ao reajuste extraordinário de 31,86%. No Rio de Janeiro, o custo da energia subiu 9,71%, devido ao reajuste de 21,05%.

Gasolina subiu 6,25%
Os combustíveis subiram 6,25%, gerando um impacto de 0,31 ponto percentual no IPCA-15. A maior parte, 0,26 ponto percentual, veio da gasolina, cujos preços subiram 6,68%. O preço nas bombas reflete o reajuste das alíquotas do PIS/Cofins a partir de 1º de fevereiro. O etanol ficou 5,32% mais caro e o diesel, 4,05%. Assim, o grupo Transportes fechou o mês de março em 1,91%.

O grupo alimentos registrou alta de 1,22%, pressionado por cebola (19,07%), cenoura (18,32%), tomate (13,04%), ovos (12,01%), hortaliças (7,62%) e feijão-carioca (4,17%).

Seguro de veículo (3,01%), higiene pessoal (2,17%), ônibus intermunicipal (1,82%), ônibus urbano (1,39%), automóvel novo (1,37%), mão de obra para pequenos reparos (1,23%) e eletrodomésticos (0,94%) também pressionaram o IPCA-15 em março.

Na outra ponta, comunicação registrou recuo nos preços de 0,78%, enquanto vestuário teve a segundo maior queda, de 0,11%. Despesas pessoais e artigos de residência subiram 0,41% e 0,44%, respectivamente. Educação teve elevação de 0,74%. Já saúde e cuidados pessoais aumentaram 0,96%.

Das 11 regiões pesquisadas, Curitiba registrou a maior alta, com 1,72%, seguida por Fortaleza e Porto Alegre, ambas com 1,38%. A menor ficou com Belém (0,72%).

O Rio de Janeiro, ficou com a terceira menor variação em março, de 1,10%, com desaceleração frente ao 1,59% de fevereiro. No acumulado em 12 meses, porém, a região tem a terceira maior taxa, de 8,69%, atrás apenas de Goiânia (9,33%) e Porto Alegre (8,82%).

O IPCA-15 é considerado uma prévia da inflação. Tem a mesma metodologia do IPCA, mas é calculado pelo IBGE em períodos diferentes, a partir do meio do mês. Os preços foram coletados entre 12 de fevereiro e 13 de março e comparados com os que estavam vigentes de 14 de janeiro a 11 de fevereiro.

“Credibilidade é fundamental para diálogo”, diz Marina

Entrevista – Marina Silva

Valor Econômico


Para acessá-la basta clicar no link abaixo:
"Credibilidade é fundamental para diálogo"

Corrupção na Petrobras é 'uma mocinha de muito poucos anos, quase um bebê', diz FH

• Ex-presidente ressaltou que o escândalo que acontece na estatal não 'é uma senhora idosa', como disse a presidente Dilma

O Globo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso disse na noite desta quinta-feira, em entrevista ao programa "Diálogos", da Globonews, que o atual escândalo de corrupção na Petrobras 'é uma mocinha de muito poucos anos, quase um bebê'. Na segunda-feira, em entrevista coletiva, a presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou que a corrupção no Brasil 'é uma senhora bastante idosa', ao rebater as acusações do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de que o mal está no Executivo, e não no Legislativo.

O ex-presidente afirmou que a organização criada na estatal é algo novo, dos governos petistas.

— Ouvi a presidente dizer que a corrupção 'é uma senhora idosa'. Mas o que é isso? É a conduta errada de pessoas. Nós não estamos discutindo no Brasil que A, B ou C fizeram alguma corrupção. Nós estamos dizendo que uma organização que junto com funcionários nomeados pelo governo, da Petrobras , sustentação por parte de governo, por parte de partidos, ligação com empresas para formar um caixa para ser usado na política, isso é fato novo, digamos. Tem algo disso no mensalão — disse FH.

— Getúlio (Vargas) nunca organizou um sistema para se manter no poder às custas dos cofres públicos, que é o que está acontecendo hoje. Você acha que esse sistema pode ser organizado sem os partidos? Você acha que os governos não percebem? Eu não estou acusando, porque eu não tenho nenhuma prova, mas não posso imaginar que todo mundo seja ingênuo. Em Brasília, todo mundo falava do que acontecia com a Petrobras. (esse sistema) isso é fato novo. Não é a corrupção da senhora antiga. É uma corrupção de uma mocinha de muito poucos anos, um bebê, quase — acrescentou.

O tucano disse que a atual crise do governo é econômica, de condução política, social e moral.

— Essa (crise) de hoje é um conglomerado de crises.

Segundo ele, o grande problema do governo Dilma é de credibilidade.

— Não é questão de popularidade, é de credibilidade. No meu governo, eu perdi a popularidade mas não a credibilidade. Fui até o fim com maioria no Congresso, apoio dos setores de investimento e recuperei.

Segundo FH, o Brasil vive um momento de cooptação política, e não de coalizão. Defendendo a reforma política, o tucano acrescentou que hoje o país tem poucos partidos de fato no Congresso.

— Nós não vivemos mais no regime de coalizão, e sim o de cooptação. Na coalizão, você junta dois ou três partidos que são diferentes, mas tem um programa, uma sustentação, legitimação. A partir de certo momento, isso foi desaparecendo. Começou com a crise no mensalão. Em vez do presidente Lula fazer aliança com o PMDB, fez aliança dispersa que não deu muito certo. Agora, o que está acontecendo no Congresso? Vinte e poucos partidos no Congresso, 30 no Brasil, 39 ministérios. É receita pro fracasso. E não são partidos. Alguns são, poucos, dois, três, quatro. O resto são aglomerados de pessoas que se juntam para ter um pedaço do orçamento.

Em resposta a Dilma, FHC diz que corrupção é 'um bebê'

• Ex-presidente rebate declaração da petista de que prática de desvios no País é 'senhora idosa' e afirma que esquema na Petrobrás é fato novo

Ana Fernandes - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) rebateu a afirmação da presidente Dilma Rousseff (PT) de que a corrupção é uma "senhora idosa" no Brasil. Em entrevista à Globo News, o tucano disse que o escândalo de corrupção na Petrobrás traz à tona algo completamente novo em termos de corrupção praticada no País, em que uma organização de pessoas estabeleceu um sistema de sustentação de partidos e ligação a empresas para abastecer os caixas das legendas. "Isso é um fato novo. Essa corrupção não é uma senhora idosa, é uma mocinha, um bebê quase", disse o tucano.

FHC repetiu a declaração que tinha dado ao longo da semana de que, pela proporção que a corrupção ganhou na Petrobrás, considera impossível que o ex-presidente Lula e Dilma não soubessem, pois algo assim acaba sendo do conhecimento de todos no governo.

A declaração de Dilma foi feita um dia após os protestos contra o governo, no domingo, 15. Na avaliação do Palácio do Planalto, a corrupção foi o principal motivo que levou a multidão às ruas. Ao afirmar que práticas de desvios são antigas no País, Dilma tenta rebater tentativas da oposição de associar a corrupção ao seu governo.

O ex-presidente argumentou que, em seu governo, a indicação política para cargos de diretoria na estatal, feita por partidos da base, era bem mais incomum. Ele se disse lembrar de duas indicações políticas - de José Coutinho Barbosa e do hoje senador petista, mas à época integrante do PMDB, Delcídio Amaral.

Impeachment. Apesar de dizer torcer para que Dilma possa terminar seu mandato, FHC voltou a defender que o impeachment, diferentemente dos clamores por golpe militar de alguns grupos, é um instrumento da democracia. E comparou os pedidos para afastamento da petista àqueles que ele viu durante o seu segundo mandato (1999-2002). "Esse 'Fora Dilma' é como o 'Fora FHC'. A Dilma hoje simboliza, é alvo dessa irritação. Mas não creio que seja transcrito em passos exatamente para tirá-la do poder. Vai depender da comprovação de delitos e da opinião pública", afirmou.

Mas o tucano ponderou ver diferenças entre as crises enfrentas por Dilma e por ele, em seu segundo mandato. "Foi diferente. No meu governo, eu perdi popularidade mas não credibilidade, continuei com apoio do Congresso, de setores econômicos", afirmou.

Em pouco mais de meia hora de entrevista, FHC foi mais crítico ao governo Dilma, mas não deixou de mencionar o governo Lula. Disse lhe doer pensar que o Brasil não soube aproveitar o boom das commodities da década passada para dar um impulso de desenvolvimento. "Me dói como brasileiro, ver a perda de oportunidades históricas e a responsabilidade é do partido que está no poder, sem dúvida", afirmou.

Ele também afirmou que, no primeiro momento de crise de falta de apoio ao governo Dilma, havia uma sensação de que o governo Lula tinha sido bom e que ela havia conduzido mal a sucessão. Mas que, agora, a população passa a identificar como um processo somado e não quer "nem um nem outro".

Sobre os cartazes e manifestações no dia 15, mesmo que minoritários, mas que pediam a volta da ditadura, FHC avaliou que são resultado da falta de coordenação atual entre as forças políticas organizadas. O vácuo, permite, segundo ele, o alastramento de ideias radicais. Mas, Fernando Henrique não acha que há espaço para esse tipo de ideia prosperar. "Eu não me amedronto com isso.

Em muitos momentos da história, essa irritação é natural, mas não creio que isso vá prosperar pois a sociedade brasileira está bem organizada."

Merval Pereira - Dilma x Lula

- O Globo

A presidente Dilma está pagando para ver com a decisão de não fazer a reforma ministerial que a parte mais forte do PT, com o ex-presidente Lula à frente, está exigindo nos bastidores. Tirar Aloizio Mercadante do Gabinete Civil e Pepe Vargas da articulação política é o sonho de consumo desse grupo, para incluir o PMDB no núcleo duro do poder.

Mas nem Dilma nem o PMDB querem, por motivos diferentes. A presidente aparentemente se sente mais segura tendo Mercadante a seu lado do que Jaques Wagner, que seria o substituto ideal para Lula. Parece que a ela bastaram os quatro anos em que teve em sua cola Gilberto Carvalho na Secretaria Geral da Presidência, um homem de Lula no Palácio do Planalto.

E o PMDB neste momento se sente obrigado a anunciar que não quer o Ministério da Educação, depois de Cid Gomes ter dito com todas as letras que o motivo do desentendimento com o partido era a divisão de cargos, e não um sentimento de repulsa pretextado pela Câmara.

Para mostrar ainda mais seu desprendimento, o PMDB, pasmem, passou a defender a redução dos ministérios, de 39 para 25. Como Dilma disse que vai escolher o substituto de Cid Gomes fora dos partidos, temos então no meio da crise duas decisões corretas por motivações tortuosas.

A redução dos ministérios seria uma decisão de ampla repercussão positiva para o governo, pois não apenas estaria reduzindo seus gastos como tornando a máquina governamental mais ligeira, sem tantos compromissos partidários.

E se a escolha do ministro da Educação da "pátria educadora" for feita em bases técnicas, e não partidárias, estaríamos vendo pela primeira vez na formação desse Ministério uma escolha voltada para um projeto de Estado, e não uma ação entre partidos aliados onde cada um tem direito ao seu quinhão.

É bom lembrar que a escolha de Cid Gomes foi feita quase à sua revelia, que resistiu muito em aceitar a tarefa. Não havia nenhuma motivação razoável para colocá-lo onde estava, e parece que a Educação foi a pasta que sobrou para gratificar um aliado de primeira hora.

O paradoxo ficou maior ainda quando a presidente Dilma anunciou em seu discurso de posse um segredo que guardara de todos durante a campanha: o slogan de seu governo seria "pátria educadora". Imagino que o próprio Cid Gomes tenha ficado assustado com tamanha responsabilidade, sem verbas e sem projetos, e a partir daí tenha procurado um jeito de abrir mão desse abacaxi, ainda mais quando o governo começou a se desmanchar.

Não acredito que tenha sido premeditada a declaração sobre a existência de 300 ou 400 achacadores na Câmara. Como seu irmão Ciro, o ex-ministro da Educação tem a língua solta e fala o que pensa, sem prestar atenção no estrago político que possa causar.

Aliás, Ciro Gomes, indagado por um jornalista o que seu irmão deveria fazer quando fosse ao Congresso, receitou: "Repetir tudo o que disse e sair de lá com a cabeça levantada". Retrucado pelo repórter sobre se essa atitude não prejudicaria a relação da presidente Dilma com o Congresso, deu de ombros: "Não sei, nem me importa".

Foi o que o irmão mais velho fez, no mais puro estilo da família Gomes, que agora se qualifica para surgir como exemplo dos que enfrentam o Congresso de "achacadores". Provavelmente o arroubo do ex-ministro acabou lhe dando a chance de deixar o barco governista em situação favorável perante a opinião pública.

Mantidas as posições, quem fica nas mãos do PMDB é a presidente Dilma, que se distancia de seu mentor Lula e da parte mais ativa do PT, sem poder se livrar do peso do petrolão.

Eliane Cantanhêde - Infecção braba, antibiótico fraco

- O Estado de S. Paulo

A política é definida de fora para dentro do Congresso. Quanto mais vibrantes as ruas, mais fracos os governos; quanto mais fracos os governos, mais fortes a Câmara e o Senado e mais tonitruantes os líderes partidários.

Milhões de pessoas gritando "Fora Dilma", a aprovação da presidente despencando para 13%, a rejeição disparando para 62% e um documento do próprio Planalto admitindo o "caos político" e que "não será fácil virar o jogo"... Pois é, depois dessa sequência de tragédias para o governo, tudo o que Dilma Rousseff teve a oferecer foi o tal pacote anticorrupção.

Primeiro, o pacote não contém novidade e vem rolando preguiçosamente pela burocracia desde ao menos junho de 2013. Segundo, desabou sobre a opinião pública como um traque se comparado ao estrondo das ruas e das pesquisas. Terceiro, depende de aprovação do Congresso, controlado por dois alvos do Supremo e um PMDB conflagrado.

Para piorar, o anúncio das medidas, pela presidente e pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi atropelado pelo bólido Cid Gomes, que chegou desgovernado e na hora do rush, ou da crise. O que ele falou sobre os "300 ou 400 achacadores" tem lá boas doses de verdade, mas ninguém fala o que quer, na hora que bem entende. Principalmente se é ministro de um governo atolado numa crise que poucas vezes se viu.

Gomes, famoso por levar a sogra para passar o carnaval em Paris num jatinho alugado com dinheiro público, reuniu fanfarronice, arrogância e inabilidade política no seu embate com o Congresso e sai do Ministério da Educação sem deixar saudade - nem no Planalto nem na própria pasta. E ainda vai responder a processo por danos morais apresentado ontem pela Câmara.

Mas o mais grave do pacote anticorrupção é o quinto aspecto, digamos, de cunho prático: se já estivessem em vigor, medidas como a criminalização do caixa 2, o confisco de bens obtidos ilicitamente e a aplicação da Ficha Limpa para servidores públicos teriam evitado o escândalo da Petrobrás?

O pacote seria capaz de impedir que um único diretor da Petrobrás amealhasse a bagatela de US$ 100 milhões, como aconteceu? Que o esquema rateasse mais de R$ 1 bilhão entre seus beneficiários?

Que empreiteiras assaltassem a empresa, políticos extorquissem, diretores embolsassem tanto, doleiros lavassem como nunca? Improvável. É um antibiótico fraco para uma infecção braba.
O resultado de tudo isso é que Dilma tenta manter a pose em público, mas está frágil, perdeu o controle da situação e não demonstra capacidade de reação minimamente razoável às ruas, às pesquisas, à força do PMDB, aos presidentes da Câmara e do Senado.

Tem-se, então, um círculo vicioso: povo nas ruas, governo fraco, PMDB forte, popularidade despencando e mais povo nas ruas, ou batendo panelas, ou fazendo buzinaços nos grandes centros. O 15 de março passou, a ameaça continua no ar.

Ok, manifestações são coisa de elite e de classe média mesmo, como nas Diretas-Já e no impeachment de Collor, mas o descontentamento atual, como naqueles momentos, vai muito além e atinge todas as regiões e todas as faixas de renda e de escolaridade.

Vejamos: pelo Datafolha, a rejeição a Dilma (e ao que ela representa) bate em 60% entre os que ganham até 2 salários mínimos e em 66% na faixa de 2 a 5 mínimos. E o desemprego mal começou a botar as garras de fora.

É assim que se esvai o último discurso dos que resumem tudo a um chilique das elites, a uma guerra entre ricos e pobres, brancos e negros, olhos azuis e castanhos. Quem faz um diagnóstico tão primário está errado e vai se arrepender. Principalmente se for presidente da República.

Alvissareiro. Para o Itamaraty, o reatamento dos EUA com Cuba pode ser entre 30 de março e 9 de abril, antes da Cúpula das Américas. Oremos!

Bernardo Mello Franco - O ministro e o lodo

- Folha de S. Paulo

O ministro da Cultura, Juca Ferreira, está irritado com o tom dos protestos contra o governo. Na contramão de colegas que evitaram criticar os atos do último dia 15, ele afirma que as manifestações deram voz à direita radical e "remexeram o lodo da sociedade".

Filiado ao PT, o ministro se diz indignado com o que chamou de "demostrações de ódio" ao partido. Ele cita uma imagem que correu a internet: dois bonecos de Lula e Dilma pendurados por cordas no pescoço em Jundiaí, no interior paulista.

"Parece que remexeram o lodo da sociedade. Boneco enforcado em praça pública, gente defendendo golpe militar. Um horror", critica.

Para Juca, os grupos que pediram a saída da presidente, reeleita em outubro, flertaram com o "golpismo". Ele considera que defender o impeachment é "uma bobagem".

"Quem perde as eleições tem que se conformar", diz. "Isso é uma tentativa de interromper o processo democrático. A qualquer dificuldade, querem derrubar o governo. No futebol é assim: o time perde dois jogos e o técnico dança. Querem igualar o Brasil ao Campeonato Brasileiro."

Segundo Juca, a oposição "não pode se associar a tendências obscuras". O partido Solidariedade, que apoiou o tucano Aécio Neves em 2014, coleta assinaturas a favor do impeachment. "Isso é se associar ao lodo", ataca o ministro. "A presidente foi eleita e não vai ser meia dúzia de malucos que vão derrubá-la."

Para ele, os protestos foram maiores em São Paulo porque o Estado é "o principal reduto do maior partido da oposição", o PSDB. Juca também reconhece que há um forte "mal-estar" com a economia e que o ajuste fiscal "vai demorar a fazer efeito".

Apesar disso, o ministro diz não estar preocupado com o tombo na popularidade de Dilma. "Outros governos já sobreviveram a crises como essa", diz ele. "Na turbulência, tem gente que acha que o avião vai cair. O que o comandante faz? Manda apertar o cinto e avisa que vai passar."

José Casado - O espírito revolucionário no Palácio do Planalto

- O Globo

O governo deveria fazer uma revolução apoiada por robôs. É o que sugere um documento obtido no Palácio do Planalto pelos repórteres Valmar Hupsel Filho e Ricardo Galhardo, aparentemente produzido pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República. Ontem, ao reconhecê-lo, a presidente preferiu qualificar como "não oficial".

Desde os manuscritos em papiro, sabe-se que papel aceita tudo - inclusive estas linhas. Nesse documento "não discutido pelo governo", segundo a presidente, escreveram-se mais de 1.500 palavras, para a reflexão de Dilma Rousseff nas 48 horas seguintes ao desfile de multidões nas ruas de 160 cidades, na noite de domingo, e ao panelaço que se estendeu na noite de segunda-feira.

Ele contém um receituário de pílulas para a presidente atônita com o ruído das ruas, num país em que não existe crise institucional - apenas um governo sem rumo e com menos de três meses de mandato realizado.

Sugere aspirinas de obviedades: "Não adianta falar que a inflação está sob controle, quando o eleitor vê o preço da gasolina subir 20% de novembro para cá ou a sua conta de luz saltar em 33%." Ou ainda: "É preciso aceitar a mágoa desses eleitores (insatisfeitos), reconquistá-los."

Seu grande momento é a proposta de meios para reversão da crítica coletiva a Dilma, a Lula e ao Partido dos Trabalhadores. No texto - por sinal, mal escrito -, propõe-se a criação de um autêntico exército de robôs para uma operação clandestina de defesa, em regime de prontidão permanente, 24 horas por dia, sete dias por semana.

Atuaria de forma oculta, ardilosa, em missões típicas de sapadores: "A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele."

Argumenta-se que o crescimento da insatisfação se deu no período pós-eleitoral. Em confissão, lembra-se nesse documento "não oficial", que "a partir de novembro, as redes sociais pró-Dilma foram murchando até serem quase extintas".

"Principal vetor de propagação do projeto dilmista nas redes, o site Muda Mais acabou" - acrescenta. "Os robôs que atuaram na campanha foram desligados e a movimentação dos candidatos do PT foi encerrada."

Em contrapartida, "a tática do PSDB foi exatamente a oposta". Alega-se: "Cerca de 50 robôs usados na campanha de Aécio continuaram a operar mesmo depois da derrota de outubro. Isso significou um fluxo contínuo de material anti-Dilma, alimentando os aecistas e insistindo na tese do maior escândalo de corrupção da História, do envolvimento pessoal de Dilma e Lula com a corrupção na Petrobras e na tese do estelionato eleitoral. Tudo com suporte avassalador da mídia tradicional."

"Em estimativas iniciais" - continua -, "a manutenção dos robôs do PSDB, a geração de conteúdo nos sites pró-impeachment e o pagamento pelo envio de WhatsApp significaram um gasto de quase R$ 10 milhões entre novembro e março. Deu resultado. Em fevereiro as mensagens/textos/vídeos oposicionistas conseguiram a capacidade de atingir 80 milhões de brasileiros. As páginas do Planalto mais as do PT, 22 milhões. Ou seja, se fosse uma partida de futebol, estamos entrando em campo perdendo de 8 a 2."

Conclui: "De um lado, Dilma e Lula são acusados pela corrupção na Petrobras e por todos os males que afetam o país. Do outro, a militância se sente acuada pelas acusações e desmotivada por não compreender o ajuste na economia. Não é uma goleada. É uma derrota por W.O.."

Em meio à crise, alguém no Palácio do Planalto produziu e levou à presidente um documento "não oficial" propondo-lhe enfrentar os protestos nas ruas liderando uma revolução com um exército clandestino de robôs.

Dilma não deveria perder a chance de mandar imprimir uma placa e deixá-la à vista na sua sala de trabalho: "Errar é humano, mas, para se produzir um monstruoso erro, é preciso um computador." Depois, pode cair na gargalhada.

O ruim consegue ficar pior – Editorial / O Estado de S. Paulo

A demissão de Cid Gomes do Ministério da Educação exibe a uma nação perplexa o teatro do absurdo em que se transformou o governo Dilma Rousseff, o da "Pátria Educadora", na qual se aprende que numa crise política fora de controle a situação nunca é tão ruim que não possa ser piorada.

É tão absurda a cena protagonizada pelo agora ex-ministro de Dilma na tarde de quarta-feira no plenário da Câmara dos Deputados, que a respeito dela qualquer especulação é válida. Desde que se tratou de uma encenação previamente combinada com o Palácio do Planalto para marcar posição na queda de braço de Dilma com os parlamentares, até de que foi simplesmente a melhor maneira encontrada pelo encrenqueiro ex-governador do Ceará para, sob a aura de destemor no combate à corrupção, pular fora do barco que soçobra.

De qualquer forma, o bate-boca no plenário da Câmara prestou ao País o desserviço de estimular o descrédito nas instituições democráticas. Mas há, como sempre, quem tenha contabilizado lucro. Aproveita o PMDB, porque, afinal, Cid Gomes ministro era uma peça na armação palaciana para enfraquecer politicamente o maior partido aliado do governo. E lucra, em particular, Eduardo Cunha, que capitaliza mais uma derrota do governo e fortalece sua posição de herói do baixo clero.

Chama também a atenção neste mais recente escândalo da República - o que ajuda a torná-lo ainda mais surreal - o fato de, a bem da verdade, todos os envolvidos terem razão. Cid Gomes cometeu a deliberada provocação de falar de corda em casa de enforcado, mas não há como negar - até porque a Operação Lava Jato não deixa - que entre os nobres deputados há um número expressivo de suspeitos de se enquadrarem na categoria de achacadores. Não há espírito de corpo que possa contestar essa evidência.

Por outro lado, não se pode confundir a instituição parlamentar com o eventual desregramento de alguns de seus integrantes, por maior que seja o número deles. Ou seja, o ex-ministro cometeu o pecado de não dar nomes aos achacadores. Por fim, Cid Gomes subiu à tribuna da Câmara na condição de ministro de Estado, representante do Poder Executivo, e, por uma questão de decoro, tinha a obrigação de tratar com respeito a instituição que naquele momento o convocava a prestar esclarecimentos sobre declarações desabonadoras que fizera sobre deputados. É legítima, portanto, a indignação dos parlamentares com o comportamento de Cid Gomes, mesmo por parte daqueles que possam ser moralmente vulneráveis.

O enredo desse teatro do absurdo é tão antigo quanto a história da humanidade - a luta pelo poder -, a encenação é farsesca no pior sentido, até porque não tem direção, e o elenco de canastrões é péssimo. Não é à toa que a plateia dá clara demonstração de não gostar do que está assistindo.
Dilma Rousseff - que não tem vocação para a cena pública nem consegue aprender o métier - tenta prestar atenção nas deixas e dizer sua fala. Mas só consegue provar que não é do ramo: quando alguém mete um caco no texto, dá-lhe um branco e ela não consegue emendar um improviso aceitável. O resultado tem sido desastroso.

Mas, quando o gênero em cartaz é o absurdo, o que é atentar contra a lógica e o bom senso? Um bom exemplo é o caso do senador Romero Jucá, que tem participação especial nesta e em qualquer outra peça - já foi devotado tucano no governo FHC e hoje presta sua fidelidade não ao governo do PT, pois ele é governista, mas não é tolo, mas ao espírito corporativo da chamada classe política.

No momento em que se discute a reforma política, o que pode implicar a proibição de doações de pessoas jurídicas para a atividade partidária; em que o escândalo da Petrobrás inibe os grandes doadores privados; e em que o governo tenta cortar gastos como condição essencial ao ajuste fiscal, nesse momento Romero Jucá, relator da proposta orçamentária, se apresenta como o providencial salvador dos políticos. Triplicou o Fundo Partidário e aumentou a dotação para as emendas parlamentares. A Pátria, entristecida, lamenta.

A sabedoria das massas nos protestos do dia 15

• Depois de manifestações gigantescas contra sua gestão, Dilma Rousseff enfrentará dificuldades para reinaugurar seu segundo mandato presidencial

The Economist - O Estado de S. Paulo

A presidente Dilma já esperava que os protestos de 15 de março fossem grandes. Por isso, reuniu um grupo de crise em sua residência oficial, a fim de monitorá-los. Mas ninguém, nem mesmo os organizadores, imaginava que eles teriam as proporções que tiveram. Em São Paulo, pelos cálculos da polícia, mais de 1 milhão de pessoas esteve na Avenida Paulista. Já o instituto Datafolha estima o número de manifestantes em 210 mil. Trata-se da maior manifestação política ocorrida na maior cidade do País desde as Diretas-Já, em 1985. Nacionalmente, a polícia calcula que 2,2 milhões de pessoas compareceram aos protestos em cidades dos 27 Estados do País. É um número superior ao dos que saíram às ruas no auge das manifestações de 2013.

As centrais sindicais, que dois dias antes haviam organizado atos a favor do governo Dilma, acusaram os manifestantes de pertencer à "elite branca". Contudo, havia muitos que não se encaixavam nesse estereótipo. "Sou negro, pobre e quero a Dilma fora", declarou um manifestante, do alto de um dos nove caminhões de som espalhados pela Paulista. Muitos dos que estavam lá vestiam a camiseta verde-amarela da seleção brasileira. Os políticos da oposição se mantiveram à distância. Compreenderam que sua presença ofuscaria a mensagem das ruas e serviria para reforçar as alegações do governo de que por trás dos protestos estavam os perdedores ressentidos das eleições de outubro último.

As queixas veiculadas em junho de 2013 eram difusas. As de domingo tinham dois alvos bem claros: Dilma e o PT. Alguns manifestantes, cerca de 25% dos que estiveram na Paulista, segundo um levantamento, defendiam o impeachment da presidente por conta do escândalo da Petrobrás. Entre os demais, a maioria queria mostrar sua indignação com a corrupção e a má gestão econômica do governo, que fez a inflação subir e deve provocar uma recessão este ano. Um grupo de extremistas clamava por intervenção militar - mas sua gritaria histérica foi abafada.

Implicação. As perspectivas de impeachment são reduzidas. Um presidente em exercício só pode ser deposto em virtude de delitos cometidos durante o mandato em curso. As investigações na Petrobrás têm como foco propinas pagas a agentes públicos num período que antecede o início do atual mandato de Dilma. Além disso, a presidente não foi pessoalmente implicada.

A verdadeira preocupação do governo é que a insatisfação popular, somada a um contexto de obstrução parlamentar, frustre os planos de Dilma para seu segundo governo. A classe trabalhadora, onde se concentra o apoio à presidente, não engole as medidas de austeridade que precisam ser adotadas para combater o déficit fiscal - atualmente em assustadores 6,75% do PIB - e evitar o rebaixamento da nota de crédito do Brasil.

Os participantes dos atos em favor de Dilma, ocorridos em 13 de março, protestaram contra cortes em benefícios sociais e acusaram o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, de ser um "liberal infiltrado" no governo. Em fevereiro, caminhoneiros bloquearam rodovias em protesto contra o aumento no preço dos combustíveis e de outros custos do setor. O governo cedeu à pressão e aceitou muitas das exigências dos manifestantes.

As duas casas do Congresso são comandadas por partidos governistas. Mas muitos dos aliados do governo são movidos a oportunismo mesmo quando as coisas vão bem. Com o escândalo da Petrobrás e a queda acentuada na popularidade da presidente - apenas 13% dos eleitores acham que ela faz um bom governo -, é muito provável que esses políticos deixem o governo em apuros.

O Supremo aprovou a abertura de investigações criminais contra 34 parlamentares. Entre eles também estão Eduardo Cunha e Renan Calheiros, presidentes, respectivamente, da Câmara dos Deputados e do Senado, ambos do PMDB. Todos negam qualquer malfeito.

Quanto maior for a preocupação dos congressistas implicados no escândalo em limpar seus nomes, menor será sua disposição de votar a favor de medidas econômicas impopulares. Calheiros, antes um defensor leal do governo, recentemente devolveu ao Executivo uma medida provisória que reduziria a desoneração das folhas de pagamento das empresas. Isso obrigou Dilma a reenviar ao parlamento a proposta, agora sob a forma de projeto de lei e com pedido de urgência constitucional. Na semana passada, o Congresso por pouco não derrubou os vetos presidenciais a dois projetos de lei potencialmente prejudiciais à disciplina fiscal. Os congressistas votaram majoritariamente contra a presidente, mas não em número suficiente para derrubar os vetos.

Na terça-feira, o Congresso aprovou o Orçamento deste ano. Isso ajudará o ministro Levy a manter sua promessa de alcançar um superávit primário de 1,2% do PIB. Mas a série de vitórias apertadas indica que ele terá de agir com cautela e consultar amplamente o Congresso antes de adotar novas medidas econômicas. Assim, o ajuste fiscal demorará mais tempo do que ele gostaria para acontecer e será preciso cruzar os dedos para que a nota de crédito do Brasil não seja rebaixada.

Dilma tem se esforçado para reinaugurar seu governo. Na coletiva de imprensa que deu na segunda-feira, a presidente prometeu "humildade" (nove vezes) e "diálogo" (12 vezes). Anunciou leis anticorrupção severas e se comprometeu com a realização de um reforma política.

Nada disso deve sensibilizar as pessoas que tomaram a Paulista no domingo. Rogério Chequer, do Vem Pra Rua, o maior dos grupos organizadores da manifestação, diz que seu coletivo planeja novos protestos. O Movimento Brasil Livre, de tendência liberal, já marcou uma para 12 de abril. Essa "vai ser maior", promete o grupo. É melhor Dilma encontrar boas razões para que os manifestantes fiquem em casa.

Traduzido por Alexandre Hubner

O roto e o rasgado – Editorial / Folha de S. Paulo

• Enfrentamento entre Cid Gomes e deputados federais presididos por Eduardo Cunha constituiu espetáculo deplorável, mas revelador

Não apenas os ministérios e governos mas também os ditados populares necessitam, vez ou outra, de renovação. Seria pouco dizer simplesmente, a respeito das cenas presenciadas na quarta-feira (18) na Câmara dos Deputados, que o roto se ria do rasgado.

Entre Cid Gomes, ministro da Educação que viria a ser demitido em seguida, e os congressistas presididos por Eduardo Cunha (PMDB-RJ), as altercações e enfrentamentos foram além do que se descreve no clássico bordão.

O roto rasgou o rasgado ainda mais, o esfarrapado esfarrapou os andrajos do andrajoso, e estranhamente as partes em conflito cantaram vitória após a rinha deplorável.

Cantou vitória, naturalmente, a ave mais alta do triste galinheiro. O presidente da Câmara pareceu derrubar mais um nome governista, em tempo recorde. Depois de vetar o deputado Henrique Fontana (PT-RS) como líder da presidente Dilma Rousseff (PT), fulminou o ministro da Educação --aliás, com bons argumentos.

Mais uma vez, Cunha pôde transfigurar em defesa da instituição o que, de outro ponto de vista, surge como mera pressão fisiológica sobre um governo atônito e destituído de um mínimo de competência.

Cid Gomes havia qualificado de "achacadores" os deputados que negociam com o governo. Termos impróprios nem sempre são os mais mentirosos, mas cumpria ao ministro, sem dúvida, penitenciar-se pela estouvada generalização.

Todavia, o mea-culpa anda em desuso na política brasileira --mesmo porque ninguém faria outra coisa se quisesse adotá-lo a sério.

Confrontado com acusações a que não poderia responder de forma convincente (como a de que pagou R$ 650 mil para um show de Ivete Sangalo na inauguração de um hospital), o ex-governador do Ceará redobrou seus ataques.

Não era difícil, quando se sabe que Eduardo Cunha está sob investigação no escândalo da Petrobras. Não era ilógico, quando se sabe que seu partido (PMDB) ocupa vários ministérios, mas negaceia apoio às medidas de ajuste econômico do governo ao qual pertence.

Mas não foi nada bonito, quando se percebe que, a caminho de sua demissão pela presidente da República, Cid Gomes confere a si mesmo e a seu partido (o PROS) uma aparência de desassombro a recobrir subserviências governistas.

Tratava de abandonar um barco que naufraga, acusou um deputado. Sobraram, de fato, indícios de que Cid Gomes agia de maneira personalista, preocupado em exibir-se a seu público como defensor intransigente da moralidade política. Ele sai, mas persiste a crise.

Uma crise de credibilidade a pesar sobre o Executivo e o Congresso, cujas dimensões são bem maiores do que as da escaramuça, tão lamentável quanto instrutiva, da última quarta-feira. É a "Pátria educadora" mostrando as coisas da política como elas são.

Recursos públicos sustentam rede de propaganda petista – Editorial / O Globo

• Se o Congresso quer ocupar seu espaço institucional, precisa investigar esta grande zona de sombras por onde trafega muito dinheiro do contribuinte

Enquanto as investigações da Operação Lava-Jato e seus desdobramentos jurídicos desvendam o desvio de dinheiro público do caixa da Petrobras para PT e aliados, um documento apócrifo, com digitais da Secretaria de Comunicação da Presidência (Secom), aponta para o mesmo grave delito na ação petista na internet e na administração da publicidade oficial. Na essência, são desvios comparáveis: nos dois casos, “privatizam-se” recursos públicos para ajudar o partido na luta política e eleitoral.

O documento, cuja íntegra foi divulgada pelo site de “O Estado de S.Paulo”, aponta deficiências na atuação do partido no mundo digital em apoio ao governo Dilma. De acordo com o texto, falta uma melhor coordenação entre o braço governamental na internet e as forças políticas do lado petista distribuídas entre blogueiros chapas-brancas e até o Instituto Lula. “A guerrilha política precisa ter munição vinda de dentro do governo, mas ser disparada por soldados fora dele”. A frase, vazada em terminologia militar, confirma que a internet é usada pelo PT com apoio nos porões do governo. Esta é mais uma evidência do uso privado de recursos públicos. Em outra perigosa confusão de esferas que precisam ficar separadas — Estado e governo —, o documento afirma ser preciso “consolidar o núcleo de comunicação estatal, juntando numa mesma coordenação a Voz do Brasil, as páginas de sites, twitter e Facebook de todos os ministérios, o Facebook da Dilma e a Agência Brasil”. Na prática, subordinam-se instrumentos de comunicação do Estado ao governo petista.

Como reagir, na internet e mídia em geral, ao avanço da oposição foi discutido em reunião realizada esta semana entre o presidente da legenda, Rui Falcão, e deputados federais da bancada petista.

Nela, emergiu mais uma vez a visão distorcida do partido sobre o papel da imprensa profissional. Cobrir as manifestações de domingo, as maiores desde a campanha das Diretas Já, foi entendido como “apoio” aos manifestantes. Assim como terminou tachado de “golpista” o noticiário sobre o mensalão. O peso dos fatos não importa.

Teria sido defendida no encontro “uma nova política de anúncios para veículos da grande mídia”. Em português claro: cortar publicidade oficial, mesmo que sejam veículos de ampla circulação e audiência.

No documento, é sugerido que a verba de publicidade do governo seja destinada a São Paulo, onda há forte oposição ao Planalto, e o prefeito petista Fernando Haddad está em baixa. O objetivo é evidente: beneficiar veículos que apoiem os governos federal e municipal do PT. É assim que também funciona na “militância digital”: os blogueiros aliados, os “soldados”, recebem anúncios de estatais e outras ajudas.

Se o Congresso quer ocupar seu espaço institucional, precisa investigar esta grande zona de sombras, por onde trafega muito dinheiro do contribuinte sem a devida comprovação dos gastos.

Congresso precisa estar à altura da gravidade da crise - Editorial / Valor Econômico


Para acessá-la basta clicar no link abaixo:
Congresso precisa estar à altura da gravidade da crise

Juan Arias - Quem saiu às ruas não foi a CIA

• As manifestações não foram organizadas pelos EUA, e sim por um novo país, surgido das cinzas da Velha República, cada dia mais desgastada

- El Pais (Espanha)

A suspeita do líder do PT na Câmara, o deputado Sibá Machado, de que por trás das manifestações de protesto no domingo pudesse estar a mão negra da CIA, o serviço secreto norte-americano, é no mínimo uma ofensa à inteligência dessa maré de brasileiros que saíram às ruas espontaneamente para dizer à presidenta Dilma que “a paciência” tinha se esgotado.

Quem estava por trás daquela grande manifestação, inédita neste país por ter sido convocada pelas redes sociais, era o novo Brasil que está surgindo das cinzas da Velha República, que parece a cada dia mais exaurida e sem muito a dizer às novas gerações de brasileiros, cansados de ideologias que dividem, em vez de abraçar a todos numa mesma esperança de modernidade.

Os que resistem a aceitar que algo novo e melhor está despertando neste país das mil possibilidades e de tantos talentos desperdiçados (quantos prêmios Nobel tem o Brasil? Nenhum) procuram uma explicação em ultrapassadas intrigas internacionais.

Inicialmente se disse que tinham ido protestar somente os ricos e a classe alta, e que a classe trabalhadora tinha ficado em casa. Então os ricos e a classe média não têm também direito de se manifestar? E por que então esses “não ricos” não aproveitaram a marcha da sexta-feira anterior, convocada pelos sindicatos do PT e pelos movimentos sociais de esquerda, para sair em defesa do governo?

Não são hoje, na verdade, os mais ricos os que mais temem o PT, que governa há 12 anos e que permitiu que fosse triplicado o número de milionários e que eles e os banqueiros ganhassem como nunca antes.

Quem hoje está com medo de perder o que tem, especialmente o emprego, são aqueles mais afetados pela inflação descontrolada, pelos juros absurdos que fizeram 60% das famílias da classe média e baixa se endividarem, empurradas antes para um consumismo enganoso e sem freios. Foram também eles que saíram às ruas. Como me disse muito claramente uma pessoa que esteve domingo na Avenida Paulista, os manifestantes eram, simplesmente, “pessoas”.

Foi essa massa de trabalhadores, pequenos empresários, muitos deles jovens ainda, que estão começando a vida, os que temem que os cortes anunciados frustrem suas aspirações. Cortes sem dúvida hoje indispensáveis, mas que são o fruto maldito do fato de o Governo ter se endividado até o nariz com uma política econômica equivocada e perdulária. Uma política que só agora a presidenta Rousseff começa a reconhecer que foi equivocada, ainda que de má vontade.

Não, não foi a CIA que esteve por trás do protesto lúdico, massivo, espontâneo, gratuito, sem violência de domingo.

Por trás do estupor e do medo que aquela maré de brasileiros provocou nos palácios do poder estava um Brasil que sai de sua letargia. O Brasil que é consciente de que uma política econômica errada, alimentada pelo tsunami de uma corrupção cujo horizonte se alarga a cada dia que passa, pode devolver o país a seus anos de pobreza e atraso.

Por trás do êxito da marcha de domingo estavam aquelas famílias que quiseram sair levando seus filhos pequenos, para que começasse a pulsar nas ruas o coração da democracia conquistada e que desejam que seja herdada purificada e ampliada.

Não foi a CIA que tramou a manifestação que gritava “Fora Dilma” e “Fora PT”, como símbolos de uma forma de governar que já deu o melhor de si e que milhões de brasileiros, hoje quem sabe a grande maioria, desejam que sejam substituídos para que no país se abra uma nova era política, com as mãos menos sujas pela corrupção institucionalizada.

Foi o Brasil que quer acabar com o ambíguo e perigoso mantra que alimenta o ódio de ricos contra pobres, ao passo que hoje o que todos os brasileiros desejam é deixarem de ser pobres e se possível também serem ricos. Por acaso isso é pecado? E não é melhor para os ricos que todos o sejam e produzam mais?

A quem interessa manter essa luta surda de classes criada por ideologias que até a esquerda mais iluminada considera superadas e que semearam no mundo milhões de mortes?

Por trás do protesto estava a inocência das crianças sem medo dos uniformes militares da tropa de choque, com a qual tiravam fotos. Talvez seja uma profecia feliz: os brasileiros, em vez de terem medo das forças de ordem, veem-nas como seu escudo protetor numa sociedade em que podem sair às ruas sem medo de um assalto ou de uma bala perdida.

Estava também por trás da grande manifestação aquela mulher que mostrava visivelmente o bebê que chutava em sua barriga e que deve ter tido vontade de participar daquela festa da democracia com a esperança secreta de que seu filho pudesse viver amanhã numa sociedade que não o esmagasse com o peso da mentira política.

Talvez sonhasse com uma sociedade que velasse para que seu filho crescesse desfrutando em paz das oportunidades para abrir caminho na vida com dignidade. Essas oportunidades que, com um regime ou outro, nunca faltaram nem faltarão para os ricos.

O que o povo pedia no domingo e que estava escrito num cartaz com as cores da bandeira nacional era que lhes “devolvam o Brasil”, o Brasil melhor, muitas vezes ofuscado pelos pecados da política com letra minúscula. O que fica às vezes demasiadamente escondido e adormecido no coração deste povo e que às vezes conseguimos descobrir e desfrutar melhor nós que vimos de fora.

Por trás da grande festa de protesto de 15/15 estava apenas o Brasil que começa a se descobrir outro e que quer que sua voz conte e seja ouvida. O que deseja afirmar que para ser brasileiro legítimo não é preciso aderir a determinado partido ou ideologia.

Dizem que era gente de direita. Nem todos. E se fossem, ser de direita ou de centro é um estigma? A Constituição proíbe? Não são brasileiros também?

Todo o resto é somente uma tentativa de demonizar esses novos anseios por uma sociedade mais de todos, que não exclua ninguém do banquete que ainda hoje parece repartido por uma casta privilegiada com as mãos muitas vezes manchadas de ilegalidade.

Raquel Ulhôa - Dentes cerrados e pintados para guerra

Para acessá-la basta clicar no link abaixo:Dentes cerrados e pintados para guerra

Míriam Leitão - Não será rápido

- O Globo

Os ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa têm dito que os ajustes na economia farão o Brasil voltar a crescer rapidamente. Usam a estratégia para tentar convencer o PT e os partidos da base, que são contra os cortes de gastos. Além disso, estão começando a ceder partes do ajuste na negociação. Ou os ministros expõem a gravidade do quadro ou a arrumação da economia ficará pelo meio do caminho.

Claro que nesta conjuntura política é preciso conversar com o Congresso, mas não deveriam dourar a pílula. Não serão apenas alguns meses. Vai levar tempo para consertar o país, e isso exige cortes de gastos, suspensão de subsídios, juros altos por longo tempo. Os dois apertos - fiscal e monetário - vão comprimir ainda mais a economia já estagnada. Ao mesmo tempo, a inflação continuará alta pelos reajustes dos preços da energia e do aumento do dólar. Isso é remédio contra os erros do primeiro mandato, mas o PT está pronto para pôr a culpa na atual equipe econômica. Os ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa devem apontar o futuro de recuperação, mas precisam avisar que será um caminho longo.

A meta de superávit primário deste ano é de 1,2% do PIB, lembra o economista Sérgio Vale, da MB Associados, e subirá para 2% no ano que vem. O cinto ficará mais apertado. O economista alerta para mais um risco que parece estar passando desapercebido pelo governo. Ele acha que é preciso haver racionamento de energia, sob qualquer cenário de chuvas, para poupar água nos reservatórios das hidrelétricas. Sem isso, não haverá energia para o momento da retomada.

- Para se ter um 2016 melhor, é preciso racionar em 2015. Do contrário, não haverá energia para quando o país voltar a crescer. O governo poderá fazer um enorme esforço fiscal este ano, deixar a casa mais arrumada, e não haver energia para crescer. Avalio que o racionamento é inevitável. Será um erro muito grande não fazer, do ponto de vista econômico - afirmou.

Outros economistas acham que a recessão de 2015 reduz o risco de racionamento. Sérgio Vale acha que mesmo com recessão será preciso haver restrição de consumo de energia para aumentar as chances de crescer em 2016. Ele mesmo admite que com racionamento em 2015 a retração pode chegar até a 3% do PIB. A boa notícia é que a recuperação seria mais rápida, podendo crescer 3% no ano que vem. Sem racionamento, a queda estimada é de 1%, mas, no ano que vem, o crescimento será mais contido pela falta de oferta de energia. Sob qualquer cenário, os dois últimos anos de mandato da presidente Dilma terão crescimento máximo na casa de 2%, segundo Sérgio Vale.

A MB estima fechamento de mais de 600 mil postos de empregos formais este ano. Será a primeira vez que um ano fechará no negativo desde o início da série histórica, em 1996. Não houve isso nem em 2009, auge da crise internacional. O risco político, com as manifestações e a queda da aprovação presidencial, torna o ajuste ainda mais difícil de ser executado.

- Assim como a Europa está em uma armadilha política e econômica, um círculo vicioso quase sem solução no curto prazo, o Brasil se encontra em que a crise política que piora a econômica e vice-versa - afirmou Sérgio Vale.

Nos fundamentos da economia brasileira há uma série de problemas estruturais. Um deles está no forte déficit em conta-corrente, que passa de 4% do PIB. A alta do dólar ajuda a diminuir o déficit, mas eleva a inflação. Vale pondera que nem mesmo a valorização da moeda americana é certeza de que o déficit será revertido. Não há, ainda, garantia de crescimento das exportações.

- Em 2003 e nos anos seguintes, o déficit em conta-corrente foi ajustado pelo boom das commodities e por um período de crescimento mundial que puxou o PIB brasileiro. O contexto atual é de queda de preços. Nossa indústria também ficou menos competitiva nos últimos anos. Tivemos aumento da energia, aumento do custo do trabalho, aumento de impostos. O cenário é adverso para as commodities e os bens manufaturados - explicou.

O quadro externo é desfavorável, com a expectativa de alta dos juros pelo Banco Central americano. Não há, portanto, saída fácil e no curto prazo. O único caminho é o governo expor a gravidade da situação atual. Isso talvez ajude a conseguir mais apoio para as medidas de ajuste, que parece cada dia mais fraco.

Vinicius Torres Freire - Capital e trabalho contra Dilma

• Construção civil acusa governo pelas demissões em massa no setor, o que mais desemprega no país

- Folha de S. Paulo

Neste março agourento, os sem-teto de São Paulo e empresários da construção civil fazem protestos com alguns motivos idênticos, assim como trabalhadores demitidos de obras do PAC. Centrais sindicais e empresários do agrupamento Fiesp-BNDES também se associaram em críticas ao ajuste fiscal do governo. A coisa ora está mais quente na construção civil.

De qualquer modo, pode-se dizer de modo cínico que a ruína do governo Dilma 1 estimula insuspeitas alianças entre "capital e trabalho", "povo e burguesia", termos decrépitos que voltaram à conversa nestes dias de extremismos embolorados (precisamos de radicalismos novos).

Passando do geral ao particular, anteontem se confirmou o colapso no emprego na construção civil. Pelas informações do Ministério do Trabalho sobre o mercado formal de trabalho, a construção é o grande setor da economia que mais demite. O estoque de emprego formal caiu pela primeira vez desde 1999 de um ano para o outro. No conjunto, caiu cerca de 0,5%. Na indústria, quase 3%. Na construção civil, 7,5%.

O clima anda péssimo para o lado da construção civil, mas a notícia da queda do emprego formal e o ministro do Trabalho ter enfatizado que as empreiteiras demitem por causa dos rolos diversos decorrentes da Lava Jato entornaram o caldo. A Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil mandou protesto formal ao governo.

A turma ficara ainda mais irada com o fim abrupto e inesperado da desoneração dos impostos sobre a folha de salários (contribuição patronal para o INSS). Vinha de péssimo humor por causa dos atrasos de pagamentos do governo para várias obras, entre elas os trabalhos do Minha Casa, Minha Vida, querido da presidente e um dos poucos subsídios-investimento que vão restar depois do talho do ajuste fiscal.

Difícil dizer de quanto é a pendura, mas muita empresa está demitindo aos montes simplesmente porque não tem como pagar salário, dados os atrasos do governo. A baixa no emprego começara em abril de 2014, mais ficou inequivocamente feia em meados do ano, quando o governo passou a pendurar contas, pois o caixa minguava por causa da queda de receita e do descontrole geral de gastos.

O governo atrasa pagamentos mesmo para obras essenciais do PAC, como as da Ferrovia Oeste Leste, que deve ligar Tocantins ao litoral da Bahia. Já encrencado por tantas incompetências do governo, o projeto enguiça. O Sindicato dos Trabalhadores da Construção Pesada da Bahia diz que nesta semana houve mais de mil demissões, pois as empreiteiras não teriam recebido da estatal Valec.

Os empresários da construção de resto contam com o lançamento da ainda enrolada "terceira etapa" do Minha Casa, Minha Vida para amenizar a situação, reivindicação aliás que também motiva os protestos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto de São Paulo, que tem parado ruas por aqui nesta semana.

Enfim, a paradeira geral prejudica setores que vão da incorporação imobiliária à construção civil. Consumidores devolvem apartamentos comprados na planta, há muita loja às moscas em shoppings novos e o volume de obras pesadas diminuirá de modo triste, pois o ajuste das contas do governo, na falta de opção, vai recair sobre o investimento.

Nelson Motta - Causas e defeitos

• De que adianta que eles não roubem, se dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

- O Globo

Deu até pena ver o ministro Miguel Rossetto, abatido e amarfanhado, na coletiva pós-manifestações, dizendo que as multidões que foram para as ruas não eram de eleitores de Dilma. Perguntar não ofende: os 62% que agora julgam o governo Dilma ruim ou péssimo são eleitores de Aécio? São 125 milhões de golpistas? Ou querem um “terceiro turno”?

Zé Dirceu diz que o lucro mensal de sua empresa, que faturou 29 milhões em oito anos, foi de míseros 65 mil reais, em média, e que 85% do faturamento foram gastos com o “pagamento de despesas operacionais e recolhimento de impostos”. Quanto o guerreiro doou ao PT? Quantos trabalhadores petistas, que lhe deram dinheiro para pagar a sua multa de 971 mil reais no mensalão, ele fez de otários?

Sibá Machado, líder do PT na Câmara, denuncia que a CIA está por trás de tudo de ruim que está acontecendo no país, que há um plano para desestabilizar a Venezuela, a Argentina e o Brasil. Mas quem tem Maduro, Cristina e Dilma (e Sibá) precisa de algum plano externo para arrasar seus países?

Um eventual impeachment só pioraria as coisas, dividindo ainda mais o Brasil, como Lula queria, quando achava que estava em vantagem. Não quero ver Dilma sangrando, quero que ela coma, se fortaleça e reaja, reconhecendo seus erros e chamando pessoas competentes e honestas, acima de partidos, para ajudá-la a sair da lama e do caos. O problema não é só a corrupção, como provam os estragos do economista marxista Arno Augustin, ícone dilmista da incompetência máxima. De que adianta não roubar, se eles dão mais prejuízos ao país do que os ladrões?

Quantas vezes o Brasil o viu num palanque gritando “é nóis contra eles”? Quem estimulou mais do que ele o clima de confronto e intolerância? Quem dividiu o país entre povo e elites? Quem jurou que o mensalão nunca existiu? Quem era o beneficiário final do esquemão da Petrobras? Quem inventou Dilma?

Triplicar a já colossal verba do fundo partidário é uma bofetada em cada um que contribui com seu trabalho para sustentar partidos e políticos capazes de propor uma coisa dessas, numa hora dessas. Até quando?

Noite Ilustrada - Volta por cima (Paulo Vanzolini)

Cecília Meireles - Discurso

E aqui estou, cantando.

Um poeta é sempre irmão do vento e da água:
deixa seu ritmo por onde passa.

Venho de longe e vou para longe:
mas procurei pelo chão os sinais do meu caminho
e não vi nada, porque as ervas cresceram e as serpentes
andaram.

Também procurei no céu a indicação de uma trajetória,
mas houve sempre muitas nuvens.
E suicidaram-se os operários de Babel.

Pois aqui estou, cantando.

Se eu nem sei onde estou,
como posso esperar que algum ouvido me escute?

Ah! Se eu nem sei quem sou,
como posso esperar que venha alguém gostar de mim?