terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Molambos golpistas

Roberto Freire
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Mais do que ficar na superfície dos trapos juntados pelo deputado João Paulo Cunha (PT-SP) numa trouxa que vem sendo chamada indevidamente de reforma política, o País precisa estar alerta para a traça que se esconde dentro desse embrulho. Escolhido pelo governo relator da “reforma” - cuja admissibilidade já foi aprovada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara -, ele deu vida a uma tese do fim da reeleição com prorrogação de todos os mandatos - tanto de parlamentares quanto de prefeitos, governadores e presidente da República. Feita a modificação, estaria consolidada uma situação nova que - sonham alguns golpistas - talvez pudesse, quem sabe, em vez da imoral prorrogação, viabilizar uma emenda que desse direito a Lula de se candidatar novamente.

A grande vitória do PT e de seus aliados na admissão da proposta de João Paulo Cunha é que neste ano se poderá instaurar uma comissão especial para tratar da “reforma” que eles querem. Na verdade, de alterações que interessam ao Palácio do Planalto, mas que em nada mudam a relação entre representantes e representados. Mudanças mais substanciais, que iriam fazer diferença na vida do País e aprofundar a democracia, foram propostas no relatório da Comissão Especial da Reforma Política ainda em 2008.

Mas a maioria dos deputados da base aliada impediu a aprovação delas. Esses parlamentares não viram vantagens para si e para suas candidaturas com o fortalecimento dos partidos e o fim da troca de favores entre os que investem em candidatos e aqueles que conseguem chegar ao posto de representantes - sabe-se lá se da sociedade ou daqueles que os financiaram. As propostas de adotar listas fechadas, financiamento público e outras, que trariam mudanças realmente importantes para a democracia no Brasil, quedaram-se derrotadas diante de um plenário lotado mais de interesses próprios que de deputados.

É de perguntar se o próprio PT - que votara a favor do relatório que visa à implantação dessa reforma profunda - e o governo, também, não se uniram a essa tese de que é melhor maquiar o ruim e apresentá-lo como novo do que realmente mudar algo em favor do futuro, da ética, da legitimidade da representação da cidadania, enfim, de novos tempos na política. Ao ver o teor da esfarrapada “reforma”, não tenho dúvida: houve mais um retrocesso desse partido, que, não é de hoje, perdeu o constrangimento de cometer toda e qualquer ação que um dia condenou. Para comandar mais essa indignidade escolheram um homem dentre aqueles que já carregam a marca do governo Lula: o processado por corrupção. Assim, não paira dúvida alguma de que a coisa não é para ser séria.

Além de atender a interesses de algumas lideranças e partidos, os farrapos da “reforma” vêm infestados de larvas, como a tentativa de prorrogação de mandatos, a esdrúxula e antidemocrática tese de coincidência das eleições em todos os níveis de representação. Não convém esquecer que tal propósito prorrogacionista e de coincidência de mandatos só foi concretizado uma única vez em toda a nossa história, pela ditadura que começou em 1964, no tristemente célebre Pacote de Abril. Quem diria: o governo de Lula e do PT, além de explicitar, várias vezes, admiração por generais e tecnocratas do regime ditatorial, passa a adotar os expedientes e casuísmos políticos que mandavam às favas os escrúpulos! Péssimo exemplo para nele se mirar.

Já seria trágico se essa enganação terminasse naquilo que o petista mensaleiro encalacrado no Supremo Tribunal Federal propôs. Mas, não. Aninhada onde a cidadania não pode enxergá-la e protegida da luz do sol e da decência está a traça do terceiro mandato, verdadeiro objetivo dessa variedade de molambos da “reforma” que passa a tramitar na Câmara este ano. Aliás, Chico Science, um grande e criativo pernambucano que sabia das coisas, já dizia: “Molambo, boa peça de pano pra se costurar mentira/ molambo boa peça de pano pra se costurar miséria...” Infelizmente, os molambos dessa “reforma” política que o Congresso vai digerir em 2009 podem servir para costurar um golpe!

É certo que a praga da tentativa de assalto ao poder está atacando candidatos a ditador na vizinhança. Exemplo clássico é o do coronel Hugo Chávez, que sonha com reeleição ilimitada. Insulta a democracia e tem o discreto apoio do amigo Lula, que contemporiza dizendo que o que não falta na Venezuela é eleição. Chávez apela para plebiscitos para se manter no poder. Perdeu o último, mas não desanimou. Já anunciou para este mês de janeiro uma nova consulta. Disse que não foi derrotado, que o resultado foi apenas um “por enquanto”.

O “por enquanto” de Lula são duas propostas descaradas de deputados sobre plebiscito pelo terceiro mandato. Ele finge que não vê, desconversa, diz que é contra, mas, vira e mexe, reclama ao povo que oito anos são pouco tempo para fazer tudo o que o País necessita.

Enquanto a candidata anunciada pelo presidente à sua sucessão, a ministra Dilma Rousseff, não decola e as recentes eleições municipais demonstram que Lula não transfere voto, como seus aliados gostariam, os trapos de “reforma” acolhidos pela Câmara servem de cortina de marionetes que apontam para um outro caminho, digamos, alternativo: o fim da reeleição.

Até poderíamos discutir a possibilidade de acabar com a reeleição - embora, pessoalmente, eu seja favorável à sua vigência no País -, mas a condição sine qua non para isso seria que os princípios do respeito à democracia e à República presidissem o debate. O governo do PT, o presidente Lula e alguns partidos que o apoiam no Congresso, lamentavelmente, não possuem essa condição. Prova mais cabal disso é a própria “reforma”.

Não é com molambos que iremos costurar as mudanças que o Brasil reclama.

Roberto Freire é presidente do PPS

Visão oficial

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO

NOVA YORK. O jornalista Ricardo Kotscho, primeiro assessor de imprensa do presidente Lula, ensinou a ele a diferença entre notícia e propaganda: notícia é tudo aquilo que o governo não quer ver publicado. O resto é propaganda. Mas Lula, ao que tudo indica, não aprendeu. Dando sequência a diversas declarações espaçadas com críticas à imprensa, que considera que só vê o lado negativo, o número de janeiro da revista "Piauí" traz uma reveladora entrevista do presidente feita pelo editor-chefe da revista, Mario Sérgio Conti, especificamente sobre sua relação com a imprensa, uma relação, do seu ponto de vista, tumultuada e injusta desde que assumiu a Presidência da República, em 2003.

Mas, a se julgar pelo que está dito na entrevista, o que está tumultuada é a capacidade de julgamento do próprio presidente, a começar pelo fato de que ele admite que não lê jornais e revistas, não acessa a internet para ler notícias, não lê blogs de jornalismo, não vê televisão, porque tem azia.

Embora passe a entrevista reafirmando a importância da liberdade de imprensa e que não quer que apenas falem bem dele, o presidente Lula revela todo o seu desagrado com o noticiário crítico e, assim como quando se vangloria de ter chegado à Presidência sem ter uma educação formal estimula a falta de estudos, desqualifica a importância da imprensa na vida do país.

Então, como se informa o presidente da República? Além das audiências, onde recebe representantes da sociedade brasileira que lhe transmitem suas opiniões e sensações que seriam, segundo ele, um painel amplo do que acontece no país, Lula recebe informações especialmente de dois assessores diretos: de Clara Ant, assessora especial, e do jornalista Franklin Martins, ministro da Comunicação Social.

Quando consideram que merece a atenção do presidente, eles até lhes levam recortes de jornais e vídeos de reportagens. Na maior parte das vezes, porém, o que lhes transmitem, como fica claro na entrevista de Lula, são suas opiniões pessoais sobre o que está sendo publicado.

Clara Ant, por exemplo, conta que fica revoltada quando insinuam que o presidente Lula não gosta de ler. Na Casa Branca, diz ela, os relatórios que saem de uma imensa estrutura de seleção e análise de notícias acabam em um documento para a secretária de Estado, Condoleezza Rice, em pequenos parágrafos de não mais de quatro linhas cada.

O que Clara Ant não conta, ou não sabe, é que é assim porque também o presidente George Bush não é muito chegado a uma leitura. Quem conta é Richard Clarke, chefe do conselho de contraterrorismo da Casa Branca, no número de fevereiro da revista "Vanity Fair", já nas bancas:

"No início da administração, Condy Rice e seu adjunto, Steve Hadley, disseram francamente: não deem ao presidente um bando de longos memorandos. Ele não é um grande leitor".

Temos então um presidente que confessadamente se informa do que acontece pelo mundo ou com assessores que pensam como ele, ou com pessoas que pediram uma audiência e dificilmente vão ao Palácio do Planalto para criticar, mas para pedir favores ou decisões do governo.

Mas tanto o presidente Lula quanto o ministro Franklin Martins têm opiniões muito parecidas sobre a importância da grande imprensa. Os dois acham que o surgimento de canais de informações alternativos, com os novos meios tecnológicos, dá mais pluralidade ao noticiário e neutraliza a influência dos formadores de opinião, o que ajudaria o presidente Lula, em última análise.

Embutida nessa tese está a teoria da conspiração de que os grandes veículos de informação estão unidos contra o governo Lula. Em mais uma incongruência, Lula repete na entrevista uma tese que já havia firmado anteriormente, de que ele só chegou à Presidência graças à liberdade de imprensa existente no país.

Já que escrevo dos Estados Unidos, não é demais relembrar o grande jornalista Jack Anderson, considerado o pai do jornalismo investigativo, segundo quem a necessidade de a imprensa ocupar um lugar antagônico ao governo foi percebida com clareza pelos fundadores dos Estados Unidos, e por isso tornaram a liberdade de imprensa a primeira garantia da Carta de Direitos.

"Sem liberdade de imprensa, sabiam, as outras liberdades desmoronariam. Porque o governo, devido à sua própria natureza, tende à opressão. E o governo, sem um cão de guarda, logo passa a oprimir o povo a que deve servir".

Thomas Jefferson entendeu que a imprensa, tal como o cão de guarda, deve ter liberdade para criticar e condenar, desmascarar e antagonizar. "Se me coubesse decidir se deveríamos ter um governo sem jornais ou jornais sem um governo, não hesitaria um momento em preferir a última solução", escreveu ele.

Para o ex-presidente americano, o caminho mais eficiente até hoje encontrado para a busca da verdade é a liberdade da imprensa. "Por isso, é o primeiro a ser fechado por aqueles que receiam a investigação de suas ações".

A visão de Lula talvez se aproximasse mais da realidade, e ele saberia mais cedo que o mundo estava numa crise de proporções bem superiores a uma marolinha se, como todo cidadão interessado no país, lesse jornais, revistas, visse o noticiário da televisão, lesse os blogs, se informasse, enfim, com a pluralidade que a democracia oferece, e não apenas com subordinados ou dependentes.

Os canais de informação do presidente, porém, estão mais para propaganda do que para notícia. Ele montou uma estrutura de propaganda que não há no país talvez desde a Era Vargas, coroada pela criação de uma TV oficial, assim como, dentro de suas possibilidades, Evo Morales está lançando um jornal oficial na Bolívia.

Do que eles gostam mesmo é de uma imprensa oficial.

Gente que fala

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Visto assim do alto, o incentivo à gastança do presidente Luiz Inácio da Silva parece só mais um exercício de oratória à deriva, ainda mais quando em contraste com a defesa da contenção de gastos feita pela maioria dos prefeitos em seus discursos de posse.

A menos que o governo federal estivesse em vias de criar algum tipo de programa beneficente para municípios, uma espécie de bolsa-prefeitura, o que o presidente da República diz não guarda a menor relação com o que a realidade financeira dos prefeitos permite.

Examinada mais de perto, porém, a manifestação de Lula revela uma precisa intenção de natureza política: pontuar uma diferença, marcar um contraponto, prorrogar a identificação da era Lula com os tempos de bonança na economia, manter colada a imagem de Lula à fortuna, preservar a associação de sua figura à fartura.

Assim, quando os ventos mudarem e os efeitos dessa mudança trouxerem um cotidiano mais difícil, Luiz Inácio reinará consolidado como o arauto da boa sorte, do Brasil exuberante.

Fixada desse modo a lembrança, no mínimo fica garantido o registro histórico para sempre favorável. No máximo, pavimentado com bom asfalto o caminho de volta mais à frente se as circunstâncias permitirem.

Seja qual for a agenda da crise, sejam quais forem as necessidades de prefeitos, governadores, candidatos e até do futuro presidente, Lula continuará passando ao largo da adversidade enquanto os outros se encarregam de transmitir ao País as notícias mais realistas.

Ficam assim divididas as tarefas: “eles” fazem o que é preciso fazer e Lula fala o que lhe convém dizer.

Tal distribuição de trabalho serve tanto para os dois últimos anos de governo quanto para a campanha eleitoral de 2010 e, se for o caso, para o PT na eventualidade de voltar a ser oposição no próximo mandato presidencial.

A discrepância nos discursos não significa que os defensores da contenção sejam responsáveis e que Lula e a turma do todo vapor sejam desprovidos de juízo.

A estes talvez falte um pouco de escrúpulos quando vendem a exuberância, os investimentos, a melhoria da infraestrutura como se aqueles não abraçassem a mesma causa por ausência de sensibilidade ou de “vontade política”.

Detalhe que não chega a impressionar, muito menos a configurar novidade. Trata-se, aliás, de um dos aspectos em que Lula mantém a coerência. Sempre fiel à missão de renovar esperanças, não obstante a falta de compromisso com as circunstâncias objetivas.

Lua de fel

Há mais de um mês o PMDB tenta produzir uma conversa “sigilosa” e “definitiva” entre Luiz Inácio da Silva e José Sarney. No dizer da cúpula do partido seria uma conversa de “presidente para ex-presidente”, com a finalidade de resolver a questão da presidência do Senado.

Questão esta, diga-se, transformada em problema - o primeiro da série “rumo a 2010” - porque o PMDB assim deseja. Se o partido preferisse uma convivência pacífica com o governo, deixaria as coisas no curso natural, disputando a presidência da Câmara com o apoio do PT e apoiando o parceiro para o comando do Senado.

Como investe na desarmonia, inventa obstáculos e transfere para Lula a tarefa de remoção. Se o presidente da República estivesse mesmo interessado em se avistar com Sarney ou se enxergasse nesse encontro a solução de fato, já teria chamado o senador.

O PMDB, da mesma forma. Se visse nisso uma saída real e se quisesse mesmo preservar o sigilo da conversa, não tomaria a iniciativa de manter o assunto vivo no noticiário.

Portanto, o objetivo do partido não é outro senão o de criar dificuldades para depois pôr preço nas facilidades.

O presidente da República tem clareza do quadro e o PMDB sabe que Lula enxerga a existência de ocultas intenções, mas ambos se fazem de mortos. Até o momento em que um dos dois resolva dar o bote no coveiro.

Tal qual

Pode ser só uma coincidência. Mas pode também ter sido fruto de um conselho de um antigo amado mestre, a visita de surpresa a um hospital público feita por Eduardo Paes no domingo, aos primeiros acordes de seu mandato como prefeito do Rio.

A presença física em filas e hospitais foi a forma escolhida por José Serra para inaugurar sua gestão à frente do Ministério da Saúde, no governo Fernando Henrique. Obedecendo à seguinte lógica: se um problema é de difícil solução, o agente público deve pelo menos transmitir à população interesse por ele.

Antes de se filiar ao PMDB, depois de sair do PFL, Eduardo Paes foi do PSDB, onde ocupou a secretaria-geral por obra de José Serra, a quem continua muito ligado.

Medida provisória

A nomeação do delegado Paulo Lacerda como adido policial da embaixada brasileira em Lisboa é da maior relevância. Além de urgente, claro.

O primeiro embate rumo a 2010

Raymundo Costa
DEU NO VALOR ECONÔMICO

Lula joga duro nas eleições para as presidências da Câmara e do Senado. Em 2005, o presidente se omitiu numa disputa interna do PT e foi obrigado a engolir Severino Cavalcanti. Gato escaldado tem medo de água fria, e agora, no seu penúltimo ano de governo, ele tenta segurar a unha a sucessão para as Mesas do Congresso. É a prioridade política do governo no trimestre, mas está difícil.

O principal obstáculo é a insistência do PMDB, majoritário nas duas Casas, em eleger tanto o presidente da Câmara como o do Senado. Lula pensa diferente: é uma ou outra. Para o PMDB ficar com as duas, a condição é que no Senado seja eleito alguém da estrita confiança de Luiz Inácio Lula da Silva. Por lá, só um pemedebista atende esse requisito. Chama-se José Sarney.

O problema é o Senado porque supostamente a eleição na Câmara está resolvida por força do acordo firmado em 2007 entre PMDB e PT para eleger o deputado petista Arlindo Chinaglia. Agora seria a vez do pemedebista Michel Temer (SP) ser o nome do PT e da base do governo. Mas já há dois outros candidatos na praça: Ciro Nogueira (PP-PI) e Aldo Rebelo (PCdoB-SP).

Publicamente o PT diz que cumprirá o acordo firmado. Na prática, faz outras leituras da movimentação do PMDB e do presidente do partido, Michel Temer. Uma delas é a de que Temer, ao perceber que era movediça a areia na base de sustentação do governo, tratou de se aproximar rapidamente da oposição, reunindo-se com PSDB e DEM.

Nas palavras de um aliado de Lula foi como se Temer dissesse "olha, eu sou o candidato, vocês estão rompendo o acordo ou fazendo ouvidos moucos ao acordo, então eu tenho essa alternativa". Segundo esse petista Temer faria melhor se agitasse o acordo: "olha, nós temos um acordo, esse é o entendimento". Reunir com o DEM só serviria para queimar Michel Temer no governo tanto quanto ou mais do que a ligação de seu grupo com o governador de São Paulo, José Serra.

Se for cumprido à risca o acordo fechado pelo assessor de assuntos internacionais do Palácio do Planalto, Marco Aurélio Garcia, que à época presidia o PT, Temer ganha a eleição sem precisar do DEM ou do PSDB. Mas a realidade é que a boa prática política recomenda que o presidente da Câmara governe também com a oposição, que tem na Mesa da Câmara uma posição proporcional ao tamanho de suas bancadas. O presidente da Câmara não é pau mandado do Executivo, É chefe de um Poder independente, e o segundo na linha sucessória em casos de impedimento do chefe da Nação.

No Senado, a situação se resolve se Sarney concordar em ser novamente candidato. Do contrário, Lula torce o nariz para qualquer outro nome da bancada do PMDB.

Em encontro recente com integrantes de um partido aliado, Lula mostrou um enfado estudado com as eleições para o comando da Câmara e do Senado.

Na conversa disse não entender como deputados e senadores brigavam tanto pelos cargos das Mesas Diretoras, para no final eleger um Severino Cavalcanti. A referência cabia também em Garibaldi Alves (PMDB-RN), atual presidente do Senado, "um desnorteado", segundo a expressão usada durante o encontro com os parlamentares aliados.

Oficialmente, o "desnorteado" é o candidato da bancada do PT, muito embora seja discutível juridicamente se ele pode concorrer novamente ao cargo. Aliás, ao lado de intervenções inconvenientes em cerimônias públicas de outro poder, como a Presidência da República, a própria recandidatura Garibaldi tem um quê de "déjà vu" na política brasileira.

A opção do PT é o senador Tião Viana, do Acre. Viana tem problemas com mais de uma bancada, mas tem sido criticado mais por suas virtudes que pelos defeitos. O seu maior adversário é o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), que tenta recuperar espaço político depois que foi obrigado a renunciar à presidência do Senado, por razões amplamente conhecidas.

A eleição para as Mesas é o primeiro desafio, para Lula, de uma jornada política que começa agora em 2009 e termina nas eleições de 2010. O próximo será mudar o ministério, mesmo a contragosto. Uma reforma cuja extensão dependerá do tamanho do estrago que as eleições para a Câmara e o Senado fizerem na autoridade e na base do governo.

Raymundo Costa é repórter especial de Política, em Brasília. Escreve às terças-feiras

Reis mortos, rei posto

Eliane Cantanhêde
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

BRASÍLIA - Depois das baixas de um lado e de outro, petistas e tucanos acabaram sem nomes que possam ser considerados "naturais" na disputa por São Paulo, a joia da coroa entre os governos estaduais. É assim que emerge o novo prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho. Marta Suplicy não apenas perdeu a eleição para Gilberto Kassab como perdeu a compostura ao usar preconceitos sexistas, logo ela!, contra um adversário político. Ela tem voto, mas enfrenta resistências crescentes no próprio PT.

Aloizio Mercadante perdeu uma enorme chance de ficar na dele ao se enredar pela história, até hoje muito mal explicada, das malas de dinheiro para fabricar dossiês contra oposicionistas. Fernando Haddad faz boa figura, mas nunca disputou eleições assim e jura que não quer, João Paulo está soterrado sob o processo do "mensalão" e Antonio Palocci, esse, sim, seria um candidato de bom calibre.

Sua campanha, porém, tende a ser uma corrida de obstáculos, para saltar o julgamento do caso do caseiro Francenildo, explicar aquela turminha da pesada em Ribeirão Preto e sobreviver à pancadaria implacável da oposição.

Já Luiz Marinho... Bem, ele é amigo do homem, tem a origem sindical do homem, foi ministro do homem e teve suporte do homem -o que se traduziu em apoio em espécie. Um dos recordistas em arrecadação, o novo prefeito também foi o quinto maior doador de campanhas de vereadores aliados.

Ao recuperar São Bernardo para o PT, depois de 16 anos de abstinência, Marinho também surpreendeu anunciando um acordo com Kassab (DEM), que lhe rendeu dois votos dos demos e a maioria na assembleia. Não está aí para brincadeira.

Com tanto petista descendo a ladeira, o mínimo que se pode dizer é que Marinho, 50, embalou na subida. O problema é que, quanto mais Lula der um empurrãozinho para cima, mais os postulantes petistas tentarão empurrar para baixo.

Uma bolha nova e o rinoceronte


Vinicius Torres Freire
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Povo dos mercados nos EUA mais e mais fala sobre o risco da alta excessiva do preço dos títulos do governo americano

QUANDO OS estilhaços da bolha de ações ainda faziam estragos, em 2002, já havia alertas sobre uma nova bolha que se formava nos EUA: a imobiliária. Havia diagnósticos inteligentes e experts mercadejando profecias. Para citar apenas um nome ilustre, Paul Krugman, ora Nobel de Economia, escrevia assim: "Se tivermos, de fato, uma bolha imobiliária, e, se ela estourar, vamos [os EUA] ficar incomodamente parecidos com o Japão".

Não se tratava de discussão arcana, mas um rumorejo ao alcance de quem lesse jornais financeiros ou "papers" de seminários econômicos.

Escrevendo em setembro de 2002, um articulista da Folha observava: "Parênteses sobre a nova bolha: começa a se discutir nos Estados Unidos o perigo da bolha imobiliária. Isto é, uma valorização desmedida de propriedades imobiliárias, as quais serviriam de base para financiar gastos. Se desinflada, a bolha imobiliária criaria uma onda de calotes", com o que o valor de parte dos ativos escorados no preço de imóveis desapareceria.

O mercado de ideias e palpites econômicos sempre oferece adivinhações catastrofistas e otimismos abilolados para quem quiser comprá-los. Em geral, profecias erradas desfazem-se e são esquecidas como o papel barato em que foram escritas. Mas alguns palpites, ainda que se revelem errados, podem ser equívocos úteis. Pode ser o caso do rumor sobre a "bolha" do mercado de títulos do governo americano.

Comparada à inflação dos ativos "pontocom" e imobiliários, a alta dos preços dos títulos do Tesouro dos EUA é um problema muito menos "estrutural", digamos, e de dimensão menor. Mas o rumor sobre o risco da alta excessiva desses papéis fica cada vez mais intenso.

Os títulos americanos tornaram-se uma espécie de colchão universal. O temor do risco, entre outros fatores, levou investidores a comprarem tais papéis, que assim se valorizaram. Assim, o rendimento dos títulos que vencem em três meses flutua, desde setembro, pouco acima de zero, quando não é zero mesmo. No vácuo dessa fuga do risco, o valor de outros ativos despencou (embora por vários motivos), encarecendo o custo do crédito para o setor privado e barateando o financiamento da enorme e crescente dívida americana.

Se os investidores se cansarem do rendimento zero e/ou a economia mundial começar a se recuperar ("quando e se"), o valor de tais títulos cairá, os juros "básicos" americanos aumentarão e o valor de algum outro ativo vai inflar.

O governo dos EUA poderia, então, comprar seus papéis, baixando o seu custo de financiamento, mas despejando mais dinheiro na praça, em tese aumentando o risco de inflação e de o dólar perder valor (o que em tese poderia provocar alguma fuga de ativos dos EUA) etc. Como disse o economista Kenneth Rogoff, na atual crise, temer um pouco mais de inflação é como se preocupar com sarampo quando o risco é de peste. E o rápido e monumental aumento da dívida americana, e o movimento de placas tectônicas que tal fenômeno provoca, talvez nem seja uma "bolha".

Mas que isso parece com um rinoceronte bravo preso dentro de uma loja de cristais, ah, isso parece.

Por um pacifismo radical

Marcos Nobre
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

É PRECISO tomar posição nos conflitos no Oriente Médio. Mas qual? E, sobretudo, como? A única coisa de certo no momento é que Israel tem de ser obrigado a parar sua ofensiva militar. Se o objetivo for a guerra, basta tomar posição por um dos lados. Mas e se o objetivo for a paz, e não derrotar um inimigo?

Os ataques de Israel podem ser qualificados, sem medo de errar, de massacre. (Em vista das barbaridades perpetradas na história, no século 20 em particular, a expressão "genocídio" deveria ser utilizada com muito critério). Mas é fato também que o Hamas tem por objetivo a destruição de Israel, e não a convivência entre dois países soberanos. Há uma aliança perversa entre os que desejam aniquilar o outro dos dois lados, o que, na prática, garante uma guerra até o fim dos tempos.

É verdade que Israel saiu de Gaza. Mas estrangulou o governo local do Hamas em todos os sentidos, de modo que atacar Israel parece mais um último recurso desesperado. Como os ataques são frequentes dos dois lados, é difícil dizer quem atacou primeiro. Seja como for, com o ataque, Israel passou a ter então o legítimo direito de se defender. Mas, em lugar de se defender, aproveitou para lançar uma ofensiva.

Na situação atual, qualquer perspectiva de paz parece enterrada por um bom tempo. Israel passou décadas tentando influenciar a política palestina de maneira a fazer surgir um líder moderado e confiável. Quando finalmente conseguiu -com Mahmoud Abbas-, suas ações levaram à divisão da Palestina em duas e à desmoralização completa de Abbas.

Em um quadro como esse, a única maneira de resistir à guerra é defender um pacifismo radical, sem tomar posição prévia por nenhum lado. Toda e qualquer ação que tenha consequências bélicas deve ser condenada, independentemente de que lado venha.

Se Israel impede o funcionamento do governo do Hamas em Gaza, se o Hamas se nega a reconhecer o direito de existência a Israel, se Israel se recusa a reconhecer o governo do Hamas como legítimo, se o Hamas ataca militarmente Israel, em todos esses casos, ambos os lados devem ser condenados da mesma maneira.

Isso não significa dizer que há equilíbrio entre as forças. É patente a superioridade de Israel em termos de aparato estatal e de poderio militar. Um ato bélico praticado por Israel é certamente mais destrutivo do que um praticado pelo Hamas. Mas, em um estado de guerra, a pior ilusão é a de achar que a paz só pode ser buscada depois de alcançado um equilíbrio de forças. É o ingrediente mais poderoso para a continuidade da própria guerra.

Marcos Nobre escreve às terças-feiras nesta coluna.

Solavancos da sabedoria econômica

Luiz Gonzaga Belluzzo
DEU NO VALOR ECONÔMICO


"Os fanáticos do livre mercado argumentam que a crise financeira decorre de uma falha dos governos que mantiveram o dinheiro muito barato depois do estouro da bolha tecnológica em 2000. Os mercados teriam sido temporariamente enganados pelos governos. Para dizer pouco, uma defesa ridícula: se os mercados são tão facilmente ludibriados, não podem ser lá muito eficientes." - Robert Skidelsky na revista Propect, 12/2008

Nos Estados Unidos, desde meados dos anos 90, no terreno fértil das hipóteses fantasiosas sobre as virtudes da Nova Economia medraram previsões majoritárias sobre um crescimento ininterrupto e prolongado.

Primeiro, foram celebrados os ganhos de produtividade proporcionados pelo avanço tecnológico. No período 1996-2000, a economia americana foi, de fato, abalroada por uma onda de inovações que animou os investimentos e estimulou uma forte concentração de capitais - não só na área produtiva, mas também nos bancos e nas finanças. A onda de inovações nucleadas pelas tecnologias de informação e estimuladas pela criatividade financeira excitou a formação de capacidade produtiva e viabilizou ganhos importantes de produtividade. As avaliações favoráveis quanto à evolução dos lucros na Nova Economia deslancharam o crescimento do gasto privado (consumo e investimento) nos novos produtos, amparado na forte expansão do crédito e na conseqüente ampliação das margens de endividamento das famílias e das empresas. As avaliações otimistas engendraram a formação de um processo altista nas bolsas, o que valorizou o balanço das empresas e o patrimônio líquido das famílias, revigorando o gasto privado. As perspectivas de novos ganhos patrimoniais e o crédito abundante impulsionaram as fusões e aquisições e estimularam a recompra de ações; isto, por sua vez, realimentou a capitalização nas bolsas.

No período 1996-2000 a economia real "explodiu": as empresas e as famílias aumentaram significativamente os gastos acima da renda corrente e as avaliações otimistas acerca dos lucros e dos rendimentos futuros - ainda alentados pelo espetacular desempenho das ações na bolsa de valores e pelo mito da nova economia - levaram o dispêndio privado a exceder a renda corrente. Esta diferença chegou a 6% do PIB no último trimestre de 2000.

No segundo ciclo de expansão - a farra das hipotecas - a construção residencial e a valorização exuberante dos imóveis generalizaram o estímulo ao consumo e o sobre-endividamento para as famílias que não tinham acesso ao mercado de ações. Nas duas etapas da inflação de ativos e de consumismo turbinado, a "poupança externa" dos produtivistas asiáticos fechou a conta, sancionando os déficits privados.

No primeiro episódio da "exuberância irracional", os ganhos de produtividade - realmente impressionantes - deram força à argumentação de Alan Greenspan, empenhado em justificar a resistência do Fed às sugestões de controle do crédito. No segundo tempo da jornada nas estrelas - o da supervalorização dos imóveis residenciais - outro argumento, já exarado na primeira "bolha", começou a prevalecer: a chamada Hipótese dos Mercados Eficientes. Formulada nos anos 70 por Eugenio Fama, a hipótese pretendia ensinar que todas as informações relevantes sobre os "fundamentos" da economia estão disponíveis em cada momento para todos os participantes dos mercados que avaliam os títulos de dívida e os direitos de propriedade. Diante das informações existentes, as decisões dos agentes racionais dariam ensejo à melhor estimativa possível sobre os preços dos ativos e, consequentemente, à melhor distribuição possível dos recursos entre os diferentes ativos. Em condições competitivas, não sobrevivem estratégias "ganhadoras" capazes de propiciar resultados acima da média.

A escultura do touro que dá boas vindas aos freqüentadores e visitantes de Wall Street sabe que a Hipótese dos Mercados Eficientes é uma fábula moralista recheada de letras gregas para simular respeitabilidade científica. Com ela, os nefelibatas da academia tratam de explicar aos trouxas que as estripulias bem remuneradas dos criativos rapazes do mercado são "ineficientes" para bater o mercado. Em artigo recente na revista Prospect, Robert Skidelsky, autor da mais completa biografia de Keynes, afirmou que a hipótese dos mercados eficientes "revela a falência intelectual da corrente dominante em economia. Ela não pode prever nem explicar a derrocada financeira porque os economistas acreditam que os mercados são auto-regulados".

A julgar pelo valor dos bônus, as façanhas dos mercados financeiros têm sido muito úteis para os rapazes do mercado. Também são "eficientes", se compreendidas tais façanhas em seu papel de impulsionar o "animal spirits" dos possuidores de riqueza na busca de novas oportunidades de lucro. Na economia capitalista moderna, a grande concentração de capital fixo, a competição feroz pela inovação tecnológica incorporada nas novas gerações de bens de produção e de consumo e os instrumentos de alavancagem financeira estão articulados de modo a suscitar o aumento continuado da produtividade social do trabalho.

O processo de reprodução capitalista - em suas indissociáveis dimensões material, financeira e monetária - impôs a dominância do sistema de crédito e dos mercados de avaliação da riqueza - incluído o Banco Central - na hierarquia de poderes que comandam a concorrência entre as empresas. (As inovações financeiras recentes e outras nem tanto são descendentes das técnicas de "alavancagem" dos bancos de depósito e dos procedimentos de repartição do risco).

No capitalismo realmente existente, o jogo da concorrência nos mercados alavancados obriga os gestores da grana e do risco a buscarem o rendimento acima da média, sob pena de serem desbancados pelo rival da esquina. Ligada a ignição da ganância infecciosa, os tripulantes não podem brecar o comboio da alegria. Por isso, no auge da euforia financeira quase todos os agentes estão numa situação Ponzi: se a ciranda pára de rodar, a tigrada quebra. Bernie Madoff não é a exceção, mas o abuso da regra.

Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, e professor titular do Instituto de Economia da Unicamp, escreve mensalmente às terças-feiras.

Palestina: Criação de dois Estados

Dina Lida Kinoshita
Professora da USP e da Executiva Nacional do PPS

A decisão da ONU de novembro de 1947 foi pela partilha da Palestina e da criação de dois Estados: o Estado de Israel e um Estado Palestino. O primeiro foi criado em maio de 1948 e o outro até hoje não saiu do papel. Em 1967 Israel ocupou na Guerra dos Seis Dias as Colinas do Golan que pertenciam à Síria, Jerusalém Oriental, a Cisjordânia, Gaza e o Sinai. Ainda nos anos 80 Israel devolveu o Sinai para o Egito e selou a paz com este país. A direita nacionalista e os fundamentalistas religiosos de Israel não permitem a solução de "paz por terra" e os fundamentalistas palestinos do Hamas, da Jihad e do Hizbolah bem como diversos países árabes não querem reconhecer o Estado de Israel.

devemos lutar por dois Estados para dois povos com suas fronteiras seguras e as respectivas capitais em Jerusalém ou por uma Jerusalém internacionalizada. Quando digo que devemos lutar por uma solução pacifica e negociada através do diálogo para que os palestinos tenham o seu Estado nos territórios ocupados desde 1967 e o Estado de Israel seja reconhecido por árabes e palestinos, é porque a história vem mostrando que a via militar não resolve mais os conflitos que surgem no mundo.

O Hamas tem utilizado população civil palestina como "escudo" para lançar mísseis nas cidades israelenses fronteiriças de Gaza, para atingir alvos civis em Israel e a resposta violenta do Estado de Israel só faz aumentar a espiral de violência. Mas há o "campo da paz" na região tanto entre árabes e palestinos como em Israel. E é neles que devemos apostar. Sábado saíram em manifestação 150 mil israelenses, árabes e judeus, pedindo o fim do conflito.

Num país com 6 milhões de habitantes, não é pouca coisa. Há jovens presos porque não querem servir o exército nas zonas ocupadas. É nisto que devemos apostar e não nos fundamentalismos.

A política exige cabeça fria, nervos de aço e não podemos deixar só o emocional funcionando. Não tem bandido e mocinho nesta história e quem é mais forte no momento causa mais estragos.

Amanhã a situação pode se reverter e os maiores estragos podem acontecer do outro lado da fronteira. Mas nós devemos lutar pela substituição da política da força pela força da política. Só uma solução pacífica e negociada, justa e duradoura para todos os povos da região pode resolver o conflito.

Devemos lutar por dois Estados para dois povos, com fronteiras seguras e Jerusalém dividida como capital de cada um deles ou Jerusalém internacionalizada. Para tanto árabes e palestinos devem reconhecer o Estado de Israel que por sua vez deve sair dos territórios ocupados para que finalmete possa ser criado o Estado Palestino.

É um problema complexo que envolve outros estados árabes. Os territórios ocupados pertenciam mormente à Jordânia e ao Egito de modo que não basta Israel desocupar os territórios uma vez que estes podem ser reanexados.

Os países árabes não estão muito interessados em ajudar a resolver este conflito porque esta questão é a que os une. Uma vez resolvida, vão aparecer os diversos conflitos tais como Síria com Líbano, Iraque com Kuweit e Iraque com Síria, a questão curda que envolve Iraque, Turquia e Irã e por aí vai. Com o desmoronamento do Império Otomano, os mandatos ingleses e franceses deixaram um rastro de problemas não muito diferente dos que deixaram na África. E com a Guerra Fria tudo isto foi exacerbado, sem solução à vista até o momento.

Eu creio que nenhuma solução militar resolve isto. A Guerra Irã-Iraque nos anos oitenta acabou num empate, os EEUU se encontram num atoleiro no Iraque e no Afeganistão, boa causa da crise mundial, e a via militar só faz aumentar a espiral de violência entre Israel e palestinos.

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais&portal=

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Os liberais e a fragilidade do capitalismo

Antônio Inácio Andrioli
DEU NA REVISTA ESPAÇO ACADÊMICO N° 91

Com a crise do mercado financeiro, surpreendentemente, economistas e jornalistas liberais passaram a defender a interferência do Estado na economia capitalista. Contraditoriamente ao seu discurso clássico, marcado pela apologia do livre mercado como único regulador da economia, os liberais defendem a ajuda financeira do Estado aos bancos e empresas em estado falimentar. Teriam os liberais revisto suas teorias, analisado seus equívocos e modificado suas posições? Trata-se de uma crise do capitalismo ou do liberalismo?

Até bem pouco tempo, sequer a palavra “capitalismo” era mencionada no discurso político dominante no mundo. Parecia que estávamos vivendo em uma sociedade em que a desigualdade, a pobreza, a exclusão social e a destruição ambiental, quando consideradas, eram geralmente analisadas como sendo decorrentes da ação de indivíduos, sem que uma lógica estrutural conduzisse os seres humanos a agir de determinada forma. Inclusive, em tempos de crise, muitos intelectuais continuam moralizando a economia, procurando os culpados: os assim considerados “maus capitalistas”, “maus banqueiros” e “maus investidores”.

Mesmo com uma vasta disponibilidade de indícios empíricos e de acúmulo teórico de análise crítica das forças destrutivas do capitalismo, o discurso hegemônico continuava confundindo as causas com soluções. Por exemplo, diante das constatações de que o livre mercado era responsável pela generalização da crise capitalista em nível mundial, as soluções apontadas sugeriam a ampliação do livre mercado, a privatização e a interferência cada vez menor do Estado na economia.

Com o aprofundamento da crise e a perspectiva de uma depressão econômica em nível internacional, agora os liberais utilizam uma tática ideológica antiga: a naturalização da economia. Na Idade Média, por exemplo, os senhores feudais, reis, nobres e demais privilegiados podiam contar com a crença divina para justificar a situação social gerada pelo modo de produção hegemônico. Atualmente, os liberais, confrontados com a negação empírica das suas teorias, tentam difundir um inexorável determinismo natural combinado com doses de cetiscismo para explicar seu fracasso teórico. O discurso dominante tende a considerar que compreender a economia mundial, na complexidade como ela se desenvolveu contemporaneamente, seria uma tarefa impossível. Ou seja, a humanidade teria avançado muito em termos de ciências naturais, de entendimento da astronomia, da física, da química e da biologia, mas não teria condições de compreender os fenômenos econômicos em nível internacional.

A tentativa de difundir uma noção de incompreensibilidade da economia mundial, assim como a tentativa de naturalizar os fenômenos econômicos, demonstra a perplexidade dos liberais com os atuais acontecimentos. O comportamento não é novo: ao invés de assumir que a “mão invisível do mercado” não funciona, contraditoriamente, se nega o próprio discurso, afirmando a necessidade de ação emergencial do Estado. Isto é, a negação hipócrita procura minimizar o fato da atual retórica estar revelando o fracasso prático da sua teoria.

Curiosamente, entretanto, a atual crise econômica internacional não é a primeira da história e podemos verificar enormes paralelos com as crises anteriores, tanto no processo gerador da crise como na tentativa de sua explicação. A primeira crise econômica mundial iniciou no dia 09 de maio de 1873 em Viena, atingiu Nova Yorque em seguida e, posteriormente, Hamburgo, ampliando-se para os principais mercados capitalistas daquela época. Se seguiram 5 anos de profunda depressão econômica. A segunda crise econômica mundial, a mais conhecida, iniciou no dia 24 de outubro de 1929 e encerrou somente com o final da segunda Guerra Mundial, com a vitória dos Estados Unidos e seu domínio sobre o mercado mundial. Assim como em outros tempos, a maior economia mundial passou a ser a maior potência militar, impondo seus interesses, sua ideologia e sua linguagem de forma hegemônica sobre os demais países.

O atual domínio estadounidense sobre o mundo se justifica principalmente pelo seu poder militar (especialmente através das armas nucleares) e a instituição do dólar como moeda-padrão para a economia mundial. O longo período de hegemonia dos EUA é marcado por guerras e destruição. O keynesianismo e a construção do Estado de bem-estar social contribuíram para estabelecer ciclos de crescimento econômico num nível nunca antes visto na história da humanidade. Isso serviu para evitar o surgimento de um contra-poder, iminente com a existência de um bloco não-capitalista (soviético e chinês), resultante de revoluções sociais no mesmo período. Mesmo assim, a economia mundial ameaçava entrar em crise nos anos 1980.

Com o desmoronamento da União Soviética e a queda do Muro de Berlim (1989-1990), cerca de 2 bilhões de pessoas, que há mais de 50 anos estavam fora do alcance do capitalismo, dispondo de ¼ dos recursos mundiais, passaram a integrar o mercado capitalista, permitindo um novo ciclo de expansão, caracterizado como globalização econômica. Esse ciclo de acumulação está chegando ao seu final, deixando, mais uma vez, explícitas duas características fundamentais do capitalismo como modo de produção: a instabilidade e a insustentabilidade.

A economia capitalista é marcada por crises contínuas, umas menores e outras de caráter mundial. Em tese, portanto, podemos afirmar que não existe capitalismo sem crise econômica. As crises cíclicas de superprodução são intrínsecas a esse modo de produção, caracterizado pela separação entre capital e trabalho. O crescente investimento em capital constante (prédios máquinas, tecnologia, etc.), desproporcional ao investimento em capital variável (trabalho vivo), conduz a uma tendencial queda da taxa de lucros, pois somente o trabalho gera o valor e a mais valia (fruto da exploração do tempo de trabalho). Diante disso, os liberais procuram uma saída de sobrevivência ideológica, pois não querem assumir que Marx tinha razão.

Os capitalistas, confrontados com essa fatalidade, há muito tempo conhecida, tendem a investir em outros setores da economia quando determinados investimentos passam a ser considerados menos lucrativos. Assim, muitos investidores deixaram de investir na produção, passando a alocar dinheiro no mercado imobiliário, em bolsas de valores e em bancos. Contudo, “dinheiro não gera dinheiro”. Para que o dinheiro possa valorizar é necessário que ele seja investido na produção, de forma que seja possível se apropriar do excedente de valor gerado pelo trabalho. Por isso, as consequências negativas sobre o capital produtivo são enormes, pois para suportar a carga do pagamento de juros e satisfazer a expectativa dos acionistas, as indústrias, por exemplo, são obrigadas a aumentar a mais-valia (a exploração do trabalho), através de maiores jornadas de trabalho e menores salários. O efeito final, entretanto, somente reforça o problema da crise de superprodução: os menores salários e o desemprego diminuem o poder de compra, desaquecendo a economia como um todo e estimulando os acionistas a investir em outros setores. A crise gira em círculo e o espiral depressivo somente tende a aumentar.

A expectativa de valorizar dinheiro através do mercado financeiro e imobiliário é comparável a um jogo de cassino, onde apenas alguns se apropriam de vantagens a curto prazo, resultantes das perdas de outros. Com a ampliação do mercado financeiro e a mundialização do capital, foi generalizada em nível internacional uma espécie de cassino mundial, embora mantendo o maior fluxo de capital entre os países capitalistas mais ricos. Para que o mercado mundial de capitais pudesse crescer em tamanha proporção, decisões políticas foram necessárias para permitir equiparações e garantias mínimas aos investidores. A expectativa era estimular o crescimento da economia através do fluxo de investimentos que, segundo a crença dos liberais, seria regulado pela “mão invisível do mercado”.

Atualmente estamos diante de mais um fracasso histórico do liberalismo. Nunca o mercado havia sido tão liberalizado e em escala internacional. As expectativas dos liberais foram frustradas porque suas teorias partem de uma ilusão central: a idéia de que o mercado seria uma força autoreguladora e que, em função da concorrência, os recursos econômicos seriam alocados da melhor maneira possível. Essa idealização do mercado como mecanismo regulador segue uma lógica de pensamento que corrobora a circulação e o aquecimento da especulação nas bolsas de valores.

Na realidade, entretanto, o mercado funciona com base nas relações socias entre seres humanos que trocam produtos. O mercado é regulado pela oferta e pela procura de mercadorias, uma relação meramente quantitativa, que cumpre uma função de mediação. Mas, assim como a mercadoria pode operar como fetiche, o processo de troca de mercadorias produz e necessita de ilusões para continuar funcionando. Na lógica do mercado, os vendedores pressupõem que compradores pagam, em forma de dinheiro (uma mercadoria comum que serve para trocar mercadorias), e os compradores pagam porque internalizaram a idéia da troca. Com base na mesma idéia, credores e devedores negociam, acionistas e investidores aplicam dinheiro (mesmo quando este continua nos bancos, sendo apenas uma expectativa, uma virtualidade, pois trata-se de cifras, de transações bancárias sem o uso de moeda-papel, de documentos que geram expectativa de pagamento).

Quando a virtualidade do mercado idealizado foi confrontada com uma crescente impossibilidade real de pagamento (por parte do assim chamado capitalismo real, dependente da produção), as expectativas dos “apostadores” se reduziram a riscos. O problema maior, para além das expectativas de ganho frustradas (como eram virtuais não poderiam ser caracterizadas como perdas, pois se baseavam meramente em apostas) dos assim chamados investidores, é a incidência negativa do crédito sobre a produção capitalista, gerando endividamento, falências e uma depressão econômica real. Contudo, a origem do problema continua na produção capitalista, tendencialmente geradora de crises de superprodução. A crise financeira é sua decorência e apenas agrava a crise do capitalismo “real”, surgindo em escala global quando a maioria dos economistas liberais a menosprezava como distante, localizada e passageira, ignorando seu potencial destrutivo.

As soluções apresentadas para sair da crise confirmam o caráter ideológico do liberalismo. A atitude de negação do próprio discurso em favor do livre mercado e a proposta de “ajuda econômica” por parte do Estado demonstram claramente o equívoco da concepção do mercado como alocador de recursos: o mercado é um instrumento de poder que opera no sentido da concentração de recursos econômicos, tendo como maiores consequências negativas o desperdício (destruição do meio ambiente) e a exclusão social (radicalização da desigualdade).

A força política da idéia de mercado se manifesta na aceitação da premissa proposta: a necessidade de ajudar o capitalismo a sair da crise. Em outras palavras, os prejuízos são socializados (na forma de subsídios, ajuda financeira, isenção de impostos) e os benefícios privatizados (os jogadores que perderam no cassino, utilizando dinheiro de outros, recebem uma nova chance de jogar, novamente com o dinheiro alheio). O Estado se endivida para ajudar os responsáveis pela crise com dinheiro público e, com isso, continua reduzindo investimentos em programas sociais e em projetos de infra-estrutura. E, enquanto isso, a concentração de renda e de capital continua.

É claro que, diante das evidências do fracasso e da fragilidade do capitalismo, o Estado poderia estatizar os bancos endividados, estabelecer regras para evitar crises futuras e controlar o fluxo de capitais. Mas, pelo contrário, a solução apresentada pelos liberais consiste em solicitar a ajuda do Estado para ajudar o sistema a sair da crise e depois deixar o mercado como regulador até que uma próxima crise se instaure. Essa é a função do liberalismo, como teoria legitimadora do modo de produção capitalista, conduzindo à aceitação das suas propostas por parte da maioria da sociedade, que arca com o ônus da crise gerada em função da concentração do capital. A evidência da fragilidade do capitalismo e do fracasso teórico do liberalismo, entretanto, não conduzem, automaticamente, à sua superação, pois os interesses que os fundamentam são mais importantes e se situam acima dos argumentos. Mesmo assumindo a contradição no seu discurso, os liberais não extraem dela todas as conseqüências, porque o interesse maior permanece na continuidade da produção capitalista, a razão da existência do liberalismo como teoria. O “rei está nú”, mas a crença ilusória no Deus que o instituiu continua lhe servindo de vestimenta.

Samuel Huntington

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


S Samuel P. Huntington morreu na véspera do Natal. Tendo adquirido notoriedade no Brasil por seus contatos com o governo a propósito da "descompressão" do regime de 1964, Huntington, com quem tive contato pessoal como estudante anos atrás, foi, dentre os grandes nomes da ciência política contemporânea, talvez o mais propenso a iconoclastias e mesmo a posições antipáticas ou politicamente "incorretas". Ditada pelo compromisso tanto com o rigor profissional quanto com valores políticos, em que a identificação com o Partido Democrata (e a forte oposição à intervenção no Iraque, por exemplo) se mesclava com certo conservadorismo realista, essa propensão o manteve em evidência e o expôs a críticas azedas ao longo de sua carreira acadêmica.

Uma das contribuições importantes do realismo de Huntington ocorreu, ainda na década de 1960, nas discussões sobre desenvolvimento político. Seu trabalho substituiu a mera ênfase corrente na democracia pela atenção dada ao "grau" de governo (ele seria um dos responsáveis, um pouco mais tarde, pela introdução da questão da "governabilidade" das democracias) e à capacidade que os sistemas políticos revelem de construir e operar instituições fortes e estáveis - o que não é sinônimo de instituições não-democráticas, apesar de embutir alguma tolerância com o autoritarismo, incluindo a reavaliação em termos favoráveis da União Soviética, que era então anátema para a ciência política academicamente dominante. De toda forma, o contraste decisivo seria o que opõe sistemas "institucionalizados" ou "cívicos" a sistemas "pretorianos", onde a fragilidade institucional induz cada foco particular de interesses a valer-se na arena política dos recursos de qualquer natureza que tenha à mão, resultando no fatal protagonismo dos militares.

Há inconsistências, que levaram a claros erros de avaliação em casos concretos (destaque-se o caso do Paquistão, com Ayub Khan erigido em grande legislador pouco antes de o país se ver reduzido ao caos). Há também a discutível visão da condição pretoriana como uma espécie de pântano em que se chapinha sem rumo e sem saída. Mas a perspectiva tem o mérito de apontar para uma sociologia das instituições políticas cujo horizonte é o equilíbrio necessário entre a autonomia perante o jogo cotidiano dos interesses, de um lado, e, de outro, a sensibilidade e a adaptabilidade perante a multiplicidade de interesses ou de "forças sociais", em particular os novos interesses a emergirem em qualquer momento dado. E esse equilíbrio envolve um outro, entre ação intencional e enraizamento cultural e valorativo: "a cultura importa" é o título de um volume organizado por ele já em 2001.

Justamente o impacto da cultura e dos valores foi o foco polêmico de suas intervenções mais recentes. Temos a tese do "choque das civilizações", marcado pelo confronto entre o Ocidente e, em especial, o mundo islâmico, com os muitos comentários negativos que suscitou - sem deixar de suscitar igualmente, porém, retratações importantes, como a de Fouad Ajami no New York Times em janeiro de 2008, recuando da crítica a Huntington a respeito e dando-lhe razão. Temos ainda as denúncias sobre o perigo que a intensa imigração mexicana, e latino-americana em geral, representaria para os Estados Unidos. Em entrevista de 2004 ao mesmo jornal a propósito do volume dedicado ao tema ("Who Are We?"), Huntington ilustra numa pílula a disposição de dizer verdades desagradáveis que lhe marcou a carreira. Diante da observação da entrevistadora de que o livro endossava os valores anglo-protestantes, sua resposta é mais ou menos a seguinte: "Os Estados Unidos seriam o país que foram e ainda são hoje se, nos séculos 17 e 18, em vez de sermos colonizados por protestantes ingleses, nossos colonizadores tivessem sido católicos franceses, espanhóis ou portugueses? A resposta é não. Seríamos um Quebec, um México, um Brasil." O artigo e o volume sobre o choque das civilizações contêm uma definição de "Ocidente" que dele exclui a América Latina, com implicações intrigantes sobre onde situar apropriadamente Espanha e Portugal. A resposta de 2004 insinua o deslocamento da própria França, e dos países católicos em geral, para uma espécie de Ocidente de segunda.

Huntington sustenta na entrevista que sua posição não é contrária à imigração, mas pela assimilação plena dos imigrantes (e lembra que sua mulher é filha de um imigrante armênio). A questão de interesse que a resposta citada suscita é a de se deve ser lida como apontando um mero fato ou se haveria razões para tomar a sério a insinuação que indico, em que um estilo de vida baseado na ética do tabalho, racionalizador e economicamente dinâmico desqualifica um outro passível de ser mistificado em termos de relaxamento, desfrute e "ócio criativo": se este último se associa com desigualdade, elitismo e pobreza, não há como deixar de buscar dose importante dos ingredientes do primeiro.

Mas há matizes. A corrida presidencial do ano passado mostrou com clareza as duas faces da vida política dos Estados Unidos, e seria difícil pretender ligar, sem mais, as raízes anglo-saxônias com a face melhor. A vitória de Obama sem dúvida envolve um importante elemento positivo de mudança cultural. E mesmo se Obama (que Huntington, já doente, com certeza apoiou) pode ou deve reclamar a reafirmação de elementos igualmente importantes do legado que recebeu das tradições do país, essa mudança cultural tem claro substrato na transformação demográfica, de que a imigração é parte destacada: o país melhora não com a assimilação irrestrita dos imigrantes, mas com a mudança que a imigração há muito ajuda a produzir.

Seja como for, viva Huntington, que pensou e defendeu abertamente as posições a que a reflexão o levou.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

PSDB e DEM já montam palanques para 2010

Marcelo de Moraes, BRASÍLIA
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Em fevereiro, legendas farão encontro para discutir chapas regionais que sustentarão aliança nacional

Para os partidos de oposição, a largada para a campanha eleitoral de 2010 começa no mês que vem. Dirigentes do PSDB, DEM e PPS se reunirão em fevereiro, em Brasília, para discutir a montagem dos palanques estaduais comuns aos três partidos, o que sustentará a próxima campanha presidencial apoiada pelo grupo encabeçado provavelmente pelo governador paulista, o tucano José Serra. A ideia é solucionar divergências regionais o mais rapidamente possível e limpar o terreno para a candidatura ao Planalto.

O problema é que já existem pelo menos dois cenários complicados para o grupo administrar. Na Bahia, o PSDB sondou o ex-governador Paulo Souto, do DEM, para ser o candidato tucano à sucessão do governador petista Jaques Wagner. E no Rio Grande do Sul, a governadora tucana Yeda Crusius não tem mais relações políticas com o vice-governador Paulo Feijó (DEM), que faz oposição sistemática ao governo, desde sua posse, por divergência em relação a medidas administrativas tomadas.

No caso da Bahia, o DEM não aceita o assédio do PSDB sobre Paulo Souto. Seus dirigentes acham que uma eventual desfiliação do ex-governador para fortalecer um partido parceiro no projeto nacional criaria uma aresta política grave na relação entre o DEM e os tucanos.

“A ideia é formar uma aliança nacional que ajude os três partidos nas eleições de 2010. Não é uma corrida para ver qual partido chega na frente. Então, não adianta o PSDB quebrar o DEM na Bahia para se dar bem. Paulo Souto é o nosso candidato ao governo e a eleição baiana é um alvo estratégico muito importante para o DEM. Não vamos aceitar que o PSDB tente resolver seus problemas políticos na Bahia criando uma situação difícil para nosso partido”, afirma o presidente nacional do DEM, deputado Rodrigo Maia (RJ).

Na sua avaliação, a manutenção da boa relação também garante um esforço extra do partido para tentar reaproximar o diretório gaúcho do governo de Yeda Crusius. “Nosso primeiro movimento é para reaproximar politicamente os dois grupos. Se isso vai resultar numa candidatura convergente mais adiante, é um segundo passo. E a ideia é começar as conversas nesse sentido”, diz o dirigente do DEM.

CRISEApesar desses problemas, Maia avalia que o caminho de acerto entre os três partidos em torno de uma candidatura nacional comum já está mais do que pavimentado. “Seja em torno de José Serra ou de Aécio Neves, os três partidos certamente caminharão juntos na sucessão presidencial. E a convergência na formação dos palanques regionais é uma sinalização importante porque mostra que é uma aliança política plural.”

“Todos ganham com esse movimento. Ganham o PSDB e seu candidato, porque terá os melhores palanques regionais possíveis. Ganham DEM e PPS, que não terão o candidato à Presidência, mas reforçarão suas candidaturas regionais e participarão do projeto de poder nacional, em caso de vitória”, acrescenta Maia.

A reunião de fevereiro também servirá para que os partidos afinem o discurso contra o governo federal em relação à crise, que deve ser a agenda dominante.

Guerra quer evitar erro de 2006

Christiane Samarco, BRASÍLIA
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Naquele ano, faltaram palanques regionais a Alckmin

A antecipação da negociação em torno dos palanques de PSDB, DEM e PPS é para evitar que em 2010 se repitam situações como as que teve de enfrentar o tucano Geraldo Alckmin, na campanha de 2006, contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Não queremos chegar à situação de o candidato a presidente não poder sequer visitar determinados Estados por conta dos conflitos entre aliados, como ocorreu no passado recente”, lembrou o presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE).

Ele se referia à falta de um bom palanque para a campanha presidencial de Alckmin em Estados como Rio de Janeiro, Tocantins, Amazonas e Bahia, em que os aliados viviam às turras. Dois anos atrás, o PSDB baiano juntou-se ao PT do governador Jaques Wagner e derrotou Paulo Souto, que dividia o palanque com Alckmin.

A base inicial, formada por PSDB, DEM e PPS, também quer ampliar o arco de alianças, e, sempre que possível, a orientação é para que se dê prioridade ao PMDB. Na avaliação da direção tucana, as construções políticas locais serão favorecidas pela boa perspectiva da candidatura nacional do partido. A aposta geral é que, com presidenciáveis como os governadores de São Paulo, José Serra, e de Minas Gerais, Aécio Neves, ficará mais fácil agregar aliados aos palanques estaduais do PSDB.

Em Sergipe, o partido não só espera novas adesões, como se empenha em reduzir a distância entre tucanos e o grupo do ex-governador do DEM João Alves. No Rio Grande do Norte, o PSDB só não apoiou a candidata vitoriosa à Prefeitura de Natal, Micarla Souza, por conta das dificuldades locais com o líder do DEM no Senado, José Agripino, que apadrinhou a candidatura, e da aliança local com o PSB da governadora Vilma Faria. O resultado, além da derrota na capital, foi o enfraquecimento do PSDB no interior.

Diante de resultados como esse, Guerra propõe que a prioridade, neste primeiro semestre de 2009, seja pacificar a base. “Vamos trabalhar para harmonizar os partidos para que nosso candidato a presidente não fique com o apoio das cúpulas e sem solidariedade das bases partidárias”, afirmou Guerra, ao dizer qual é a agenda prioritária da reunião de fevereiro próximo. No Rio de Janeiro, o roteiro é “dar consistência” à aliança com o PPS e o PV, que teve 50% dos votos na capital.


O Brasil em busca de um porviroscópio

Marco Antonio Rocha
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Vai ser melhor ou vai ser pior?

Vai ser bom ou vai ser ruim?

Principalmente hoje, que é quando 2009 de fato começa - depois das comilanças, bebelanças e festanças da passagem -, essas indagações estarão na cabeça de muitos. Claro que se referem ao ano presente, em comparação com o transposto.

Pode ser até que o Brasil inteiro esteja, hoje, em busca do porviroscópio - um acelerador do tempo - inventado pelo professor Benson (personagem de Monteiro Lobato) para divisar o futuro, possivelmente mais útil hoje do que quando foi escrito O Tempo Artificial.

Todavia, duas visões de futuro se podem ter mesmo sem o aparelho do sábio lobatiano: não há nenhuma possibilidade de um 2009 melhor do que 2008, do ponto de vista da economia. Haverá pessoas, empresas e países que terão um ano melhor, mesmo com a crise, pois sempre há quem lucre com uma boa crise. Aliás, parece certo que é exatamente nelas que as fortunas mudam de mãos. Mas, no geral, o ano não será melhor. Até porque 2008 foi muito acima da média. Então, até sem crise, dificilmente 2009 seria melhor.

A segunda visão garantida é que 2009 será um ano de excepcional desafio - para o mundo e para o Brasil. Desafio que tem um enunciado direto: evitar que a recessão econômica, já iniciada, ganhe alento e se prolongue por muito mais do que apenas um ano.

Esse não é um desafio para amadores. Nem para bons improvisadores.

O presidente Lula é amador em economia, mas excelente improvisador em política. Não se sabe se esta combinação é a mais adequada para enfrentar o desafio que agora se apresenta. Foi boa para lidar com o desafio da sucessão de Fernando Henrique Cardoso.

Ciente de que era amador em economia, Lula achou melhor deixar tudo mais ou menos como estava nessa área - e viu que isso era bom, pois colheu bons frutos da boa semeadura anterior, inclusive em termos de popularidade política. Neste terreno, da política, excelente improvisador que é, não apenas transformou a oposição em ninho de baratas tontas, que até agora não encontram nenhuma boa estratégia para enfrentá-lo, como se desviou com maestria dos torpedos do mensalão, passou ao largo das armações desastrosas de companheiros “aloprados”, deixou na poeira da estrada a esquerda mais radical do seu próprio partido - que até mudou de partido - e quebrou as pernas de um “capitão do time” que pretendia desbancá-lo e assumir a liderança dentro do partido: Dirceu, O Pensador!

Em suma, nem fogo inimigo, nem fogo amigo perfuraram, até hoje, a couraça do “metamorfose ambulante”, como ele mesmo já se definiu.

Mas o tiroteio de que escapou era disparado por pessoas, ou grupos de pessoas.

O desafio deste ano não é de pessoas, nem de grupo de pessoas, é da conjuntura, um inimigo difuso. Na verdade, nem é tiroteio, é ameaça de incêndio. Como foi, até certo ponto, no começo do seu mandato, quando empresários, nacionais e estrangeiros, vaticinavam medidas tresloucadas do novo presidente. Logo, porém, ele provou que não estava ali para experimentos heterodoxos. E, graças à sua boa estrela, a isso vieram se somar os bons ventos da economia internacional.

O ventos de agora são outros, muito desfavoráveis. Não só para Lula. Ele pode ter o consolo de pensar que Barak Obama estará mergulhado numa conjuntura ainda mais desfavorável. E está, mas apenas com a vantagem de não ter de pensar desde já na sucessão. Este é o principal problema de Lula, politicamente falando - pensar na sucessão. Que essa crise econômica internacional vai dar uma travada na economia brasileira, mesmo ele - otimista, mas não tolo -, no íntimo, já sabe. O que ele não sabe é se essa travada vai ser prolongada e duradoura o bastante para solapar a sua popularidade a ponto de prejudicar seus planos sucessórios.

Vejamos. São dois anos: 2009 e 2010. Muitos economistas veem boas coisas para Lula no porviroscópio. Dizem que o Brasil, bem preparado que está, não sentirá muito a crise; e que no segundo semestre deste ano ela já terá sido superada. Se estiverem certos, o desgaste da popularidade do presidente não será nada grave, pode nem acontecer, e ele terá tranquilidade para continuar empurrando, rumo às eleições de 2010, esse vagão de carga que escolheu (será?) para sua sucessão.

No entanto, essa crise começou de maneira tão furtiva e tem deixado os governos tão confusos que outros economistas a estimam muito mais duradoura do que apenas seis meses, e bem mais perturbadora para o emprego e a renda das famílias. Nesse caso, a popularidade do presidente pode se desgastar mais e mais depressa, e seu vagão descarrilar.

Mas essas são as incertezas vindas de fora.

Aqui dentro, a margem de manobra do governo é mais estreita e se resume à velha alternativa: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. As dificuldades de crédito podem ser episódicas, mas a falta de horizontes é que trava os investimentos das empresas. Para animá-las o governo aumenta gastos e diminui impostos, o que pode criar um buraco nas contas fiscais, além do que já desponta nas transações correntes do balanço de pagamentos - e que exigiria contrair a demanda doméstica, com risco de desemprego, em vista das dificuldades para exportar e para captar recursos externos.

Se a economia crescer menos, mas a inflação não aumentar, até que dá para ir levando o barco só com marolinha. Mas, como alertavam em artigo do jornal Valor os professores Pastore e Cristina Pinotti, para o real não sofrer maiores quedas e a inflação não disparar o governo deveria “evitar o crescimento do seu consumo e do consumo das famílias”.

Só que isso é péssima notícia para os interesses eleitorais do presidente e da sua candidata.

*Marco Antonio Rocha é jornalista.

Entre um ano e outro

Paulo Brossard
DEU NO ZERO HORA (RS)


Como é sabido, em 2007 o governo pretendeu prorrogar, mais uma vez, o chamado imposto do cheque, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), que, criada para uma emergência no setor da saúde, preparava-se para transformar-se em definitiva. Para isso, recorreu a todos os expedientes. A sociedade, no entanto, entrou a reagir contra a burla de converter em permanente um tributo denominado transitório, e que servia para todos os fins, embora devesse suprir as deficiências dos serviços da saúde, como advertiu o ministro Jatene, que por este motivo deixou o ministério que honrava. E o Congresso rejeitou a prorrogação. O mínimo que se disse então foi que a administração iria parar, embora se soubesse que apenas o crescimento normal da arrecadação cobriria largamente a redução consequente à extinção do tributo. E começou a difundir que elevaria outros tributos para recuperar a perda sofrida.

Ocorre que o governo também desejava prorrogar a DRU – Desvinculação da Receita da União, para que pudesse manejar livremente 20% da Receita Federal, o que importava em alterar as verbas orçamentárias. Resultou daí um pacto publicamente celebrado entre governo e oposição. Com a anuência expressa do presidente da República, o Ministério da Fazenda assentou que não seriam majorados outros tributos, enquanto a oposição se comprometia a aprovar a prorrogação da DRU, que foi aprovada. Foi isto nos últimos dias de dezembro de 2007. Pois, nos primeiros dias de janeiro de 2008, o Executivo dava o dito por não dito e majorou tributos. Tudo isso ocorreu sem que houvesse pelo menos uma modesta plástica facial... E o ministro da Fazenda, dando mostras da facúndia de seu engenho, não corou ao participar que o presidente se comprometera em não majorar tributos nos dias finais de 2007, mas não se comprometera a fazê-lo em 2008! Como previsto, a arrecadação federal superou largamente o que deixara de ser cobrado a título de CPMF. Praticado por um particular, como seria chamado esse ato? Você compraria dele um carro usado? Cometido por altas autoridades, como se denomina?

Por que estou a ocupar-me de fato quase esquecido? Por algumas razões, inclusive por estar olvidado. Com efeito, é tamanha a massa de acontecimentos que dia a dia envolve a vida das pessoas para, no dia imediato, ceder lugar a outra onda, que também vai durar um dia, que, por mais grave sejam os fatos registrados, eles são rapidamente esquecidos. Ocorre que il y a de fagots et fagots como o que lembrei a mostrar a depressão moral que se alastra e a insensibilidade social que se expande. Ora, quando homens públicos celebram um acordo público e solene e no dia seguinte o desconsideram pura e simplesmente e ainda se referem a ele com o escárnio, estão a indicar que são capazes de qualquer coisa, como se fosse coisa de somenos.

Um homem público, seja ele qual for, não pode proceder como se a noção de honra não fosse inerente à própria função. De outro lado, as pessoas relacionadas com a função pública devem ser honradas e presumidamente o são. A menos que o exercício da função pública, qualquer que ela seja, se tenha desquitado a noção de honra. Mas, em sendo assim, que se pode esperar dessa função que é inseparável da coletividade e do Estado e que se pode esperar do Estado e da sociedade? Daí por que, em meio a todas as fragilidades humanas e sociais, há regras, singelas, mas nem por isso disponíveis e indiferentes ao presente e ao futuro da comunidade nacional. Também por isso entendi lembrar um fato quase esquecido, entre um ano que se apaga e outro que nasce.

*Jurista, ministro aposentado do STF

O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
http://www.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais&portal=

domingo, 4 de janeiro de 2009

É hora de derrubar os outros muros de Berlim

Fernando Abrucio
DEU NA REVISTA ÉPOCA


A queda do muro de berlim completa 20 anos em 2009. Essa data tão marcante parece que foi nublada pela crise econômica e pelos outros “muros” que ainda permanecem. Muita coisa precisa melhorar, mas não é justo dizer que a época da Guerra Fria era melhor. O mundo pós-1989 trouxe ganhos e potencialidades que devem ser revigorados no aniversário dessa surpreendente revolução pacífica.

Inegavelmente, a derrubada do Muro abriu mais fronteiras do que as que separavam as duas Alemanhas. Pelo ângulo político, vários países se livraram de regimes autoritários, e a democracia se tornou mais presente do que em qualquer época da história humana. Claro que ainda existem ditaduras, mas cada vez mais elas se tornam anacrônicas, atacadas como se fossem um estágio atrasado dos povos. Quem a mantém com menos pressão internacional é a China, graças à espantosa riqueza produzida por lá nos últimos 20 anos, para o mundo e para os chineses.

A exceção chinesa revela um paradoxo desse país em relação a 1989. Por um lado, a China realizou o inverso do sonho berlinense, no deplorável massacre da Paz Celestial. Ali foram enterradas as esperanças democráticas de uma geração. Por outro, o impulso globalizante trazido pela queda do Muro de Berlim foi um dos responsáveis pelas mudanças econômicas que favoreceram o estupendo crescimento chinês. Provavelmente, esse processo permitiu a convivência entre a bonança e a ditadura. A lição que podemos tirar disso é que a economia não é capaz, sozinha, de melhorar os regimes políticos. Mas a abertura de novas possibilidades de vida aos povos, como ocorreu com parte dos chineses nos últimos 20 anos, dificulta o retorno às condições anteriores. Se a crise atingir em cheio à China, o descontentamento chegará a níveis maiores que os de 1989. E será difícil manter a ordem apenas com uma solução ao estilo do massacre da Paz Celestial.

O processo globalizante impulsionado pela queda do Muro de Berlim deve ser avaliado não como um fato negativo, como agora fazem alguns, mas como imperfeito, por sua incompletude. A destruição da Guerra Fria gerou estilhaços de mudanças positivas pelo mundo, tanto no campo político como no econômico. Ganharam destaque temas que lutavam contra fronteiras físicas ou ideológicas, como a internet, o meio ambiente, a defesa dos direitos humanos e da diversidade cultural. É o “lado bom” da globalização. Mas os estilhaços positivos da queda do Muro não foram capazes de produzir uma governança global. As relações entre os países continuaram assimétricas. Prova disso é a manutenção do poder intervencionista dos mais fortes acima das instituições internacionais. Nessa linha de problemas, a ordem financeira global desenvolveu-se sem uma regulação eficaz, gerando crises.

A chegada de uma nova crise econômica global pode inspirar a volta dos sonhos de 1989

A chegada de uma nova crise econômica, agora de proporções épicas e atingindo o coração do capitalismo, pode trazer de volta os sonhos berlinenses de derrubadas dos “muros” que afligem a sociedade contemporânea. Mas eles só poderão ser destruídos se duas coisas que estiveram presentes naquele novembro de 1989, em Berlim, inspirarem as decisões dos governos, principalmente dos mais poderosos. A primeira diz respeito à palavra que mobilizou os berlinenses: unificação. Trata-se de constituir objetivos comuns e estabelecer uma atuação coordenada dos governos. A cooperação internacional é essencial para atacar os grandes problemas do mundo, seja os mais conjunturais, vinculados à ordem econômica, seja os de longo prazo, como a questão ambiental.

O outro legado importante da queda do Muro de Berlim refere-se à crença de que é possível mudar e mobilizar-se para isso. Muitos serão céticos quanto à possibilidade de melhorar o mundo em 2009, colocarão empecilhos e gerarão imobilismo. É verdade que a boa análise parte do princípio de que a imperfeição é uma marca da humanidade. Mas a história contém momentos em que os homens lutaram e alcançaram o inimaginável. É o que nos leva a retomar o sonho berlinense 20 anos depois.

Fernando Abrucio é doutor em Ciência Política pela USP, professor da Fundação Getúlio Vargas (SP) e escreve quinzenalmente em ÉPOCA

Esperando por Obama

Nas Entrelinhas: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


A antecipação de medidas anticíclicas em todo mundo será capaz de evitar a depressão mundial? A resposta dependerá da eficácia das decisões do novo presidente dos EUA

O mundo espera a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, no próximo dia 20, para fazer alguma previsão sobre o que acontecerá em 2009. É como se o novo ano demorasse mais um pouco para começar, embora aqui no Brasil, tradicionalmente, todos puxem o freio de mão até o carnaval.

A guinada

Os mais otimistas apostam numa mudança política nos EUA, com muitas repercussões no mundo. A primeira seria na política internacional propriamente dita, na qual a diplomacia viria à frente do belicismo, para reverter uma concepção militarista que marcou o governo Bush e que ainda ruge na Faixa de Gaza. A segunda, em grande medida, ocorreria em relação à política de petróleo, com o gigante do Norte em busca de um novo padrão energético, menos dependente do carbono, o que seria muito bom para o planeta achar o rumo do desenvolvimento sustentável. Os pessimistas acham graça dessa expectativa, avaliam que os norte-americanos são predadores por natureza e não perderão a oportunidade de aproveitar o petróleo mais barato para reativar seu velho complexo militar-industrial e voltar a ser o que sempre foram: imperialistas. Prefiro começar 2009 com a esperança das utopias.

A propósito, li uma entrevista muito interessante do jornalista francês Marc Saint-Upéry, reproduzida no blog do meu amigo Gilvan Cavalcanti de Melo (gilvanmelo.blogspot.com), na qual ele trata da crise mundial e da esquerda socialista. Cita Ralph Nader, aquele candidato alternativo a presidente dos Estados Unidos que nunca foi levado muito a sério. Segundo Nader, quando era criança, seu pai fazia a seguinte pergunta: “Por que o capitalismo sempre sobreviverá?” E ele próprio respondia: “Porque sempre se usará o socialismo para salvá-lo”.

É mais ou menos essa lógica que me leva a acreditar que Obama adotará medidas reformadoras. Ele precisa delas para enfrentar a crise econômica. Sua política é uma mescla de trabalhismo, intervencionismo e preocupações verdes: mais sinergia entre público e privado, grandes programas estatais e ações de governo para estimular a economia e acelerar a transição a um modelo energético sustentável. Não é pouco para os EUA. Alguns podem ponderar que sua equipe é pluralista demais, tem muitos conservadores. Não importa. Como Saint-Upéry lembra em sua entrevista, o mundo já virou o disco. Segundo ele, quando o capitalismo enlouquece e desaba o mito do mercado autorregulado, se redescobre o receituário intervencionista e se escutam discursos anticapitalistas de parte de políticos conservadores. É o caso do presidente francês Nicolas Sarkozy. Por igual razão, artigos sobre o pensamento econômico de Marx, com sua “lei da tendência decrescente da taxa de lucro”, começam surgir em tradicionais revistas de economia ou são citados por figuras como o megaespeculador George Soros. É que o fetiche da mercadoria virou a “reificação” do mercado.

O tranco

A crise chegou ao Brasil, com menos intensidade do que a turma do “quanto pior, melhor” previa, mas já atrapalha a vida do governo, das empresas e dos cidadãos. Num primeiro momento, ela foi vista com jubilo pela esquerda, pois representou o colapso do neoliberalismo. Mas agora se verifica que é algo mais grave e sobra pra todo mundo: uma crise capitalista semelhante à de 1929. Porém, o peso do Estado na economia é muito maior, sobretudo na Europa e na Ásia, mesmo com a onda de privatizações e regulamentações que ocorreu na década de 1980. Essa força serviria de alavanca para governos de todos os matizes — conservadores, trabalhistas, social-democratas, populistas — reagirem à crise mundial. O governo Lula não é exceção.

Faz-se o que Lord Keynes preconizou como saída da crise em 1929, em maior ou menor grau. Sua velha teoria sobre as bolhas especulativas foi confirmada nessa crise. Mas há uma grande interrogação: a antecipação de medidas anticíclicas em todo mundo será capaz de evitar outra grande depressão? A resposta dependerá da eficácia das decisões do novo presidente dos EUA. Há uma contradição entre a superprodução mundial e a capacidade real de consumo dos países, inclusive a China, porque a renda real (principalmente a massa salarial) não acompanhou essa expansão. O déficit em conta corrente dos EUA, durante 30 anos, de certa forma alavancou a bolha do crédito e o consumismo. Gerou uma assimetria perversa do sistema financeiro, que bancou o consumo norte-americano 7% acima do que seria possível. Agora, o mundo está pagando a conta, porque tirou muito proveito disso. Nos anos 1990, a Ásia, o Brasil e a Rússia atraíram grandes fluxos de capitais e créditos; com a crise, o crédito sumiu e os investidores estão voltando aos títulos norte-americanos. Esse é o tranco.

Feliz novo século

Alberto Dines
DEU NO JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Nunca foi tão fácil adivinhar a agenda para o próximo ano como nesta virada de 2008/2009. Impossível prever qual será o encaminhamento das diferentes crises que nos assombram mas conhecemos as coordenadas.

Sosseguem: as bolas de cristal não serão aposentadas. Persistem enormes estoques de dúvidas e mistérios quanto ao teor das soluções mas os problemas estão claramente expostos e, como sabemos, a armação correta de uma equação é meio caminho para resolvê-la.

Socializou-se a futurologia global graças ao arsenal de ferramentas estatísticas e matemáticas. Mas não podemos esquecer que nossas percepções em relação ao futuro se aguçaram, porque aperfeiçoamos a capacidade de remexer e reciclar o emaranhado do passado. Neste jogo de prismas o espelho retrovisor desempenha papel crucial: podemos visualizar os ingredientes ancestrais das nossas angústias ou razões para rejeitar imagens obsoletas.

O que mais importa nos exercícios de profetismo é a noção do corte, a consciência da ruptura. Os filósofos de esquina até já rotularam a atual conjuntura como "pós-tudo", porque resulta de uma sucessão de barreiras derrubadas e substituídas por combinações pós-raciais, pós-ideológicas, pós-religiosas, pós-sociais, pós-modernas e pós-filosóficas.

Alguns dos dilemas que nos intoxicam completaram mil anos, estão saturados. Outros desaparecem por agregação. A ameaça concreta do aquecimento global, devidamente equacionada, aposenta um conjunto de venerandos confrontos.

Tudo indica que, pela importância do sacolejo, o século 21 esteja efetivamente começando. Assim como o anterior iniciou-se 18 anos depois da data convencional (no fim da Primeira Grande Guerra), este também ultrapassou os limites do calendário e inaugura-se quase uma década depois. O século 20 veio acompanhado por uma drástica alteração no mapa-múndi e este 21, embora sem tocar em fronteiras, varreu-as.

O mundo é uma bola. Ou uma bolha. Ao compreender esta bola e evitar as bolhas já estamos enfiados num processo terapêutico de grandes proporções que deve se prolongar por alguns anos e, obrigatoriamente, se impor aos litígios correntes.

A maior ameaça está no plano econômico – quanto a isso parece não haver dúvidas – mas enquanto persistirem ressentimentos religiosos, ou melhor, enquanto as religiões existirem como projetos de poder distanciadas de suas motivações espirituais, estaremos desperdiçando recursos e energias armazenadas para emergências globais.

A humanidade não é burra, sua agressividade parece ilimitada até o momento em que a sobrevivência corre perigo. Os fatores de dissensão situados habitualmente no campo ideológico, religioso ou racial, terão de ser superados. A conquista territorial tornou-se secundária, mais importante é a conquista de novas tecnologias, elas – e não o espaço vital – garantem as soberanias.

O fim da Guerra dos 30 Anos em 1648 e a criação em 1951 do núcleo da futura União Européia que interrompeu um ciclo de conflitos no coração do Velho Mundo são exemplos alentadores da sobrevivência do bom senso. O entendimento é possível. O arranjo funciona melhor do que os desarranjos

Uma pauta de transformações anti-catastróficas levará anos para ser implementada, impossível confiná-la em periodizações artificiais como os calendários das Copas do Mundo ou Jogos Olímpicos.

Com os cronogramas para a preservação da natureza entramos na era dos projetos decenais de grande porte e longa duração capazes de funcionar como freios para evitar exuberâncias e descontroles.

Barack Obama com a sua visão pós-racial do Sonho Americano deu um poderoso empurrão ao Século Pós-Tudo. O 4 de Novembro de 2008 pode ser o novo "Fin-de-Siècle" e sua posse a 20 de Janeiro de 2009, a primeira etapa de uma revisão em larga escala.

Feliz Ano Novo é pouco. Melhor saudar o novo século.

» Alberto Dines é jornalista

Começa o outono de Lula

Demétrio Magnoli
DEU NA VEJA


"No fim de seu segundo mandato, seremos ‘brancos’ ou ‘negros’ antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração"

Lula chegou ao Palácio do Planalto como a personificação de esperanças exageradas, quase ilimitadas: "Foi para isso que o povo brasileiro me elegeu presidente da República: para mudar". Na hora em que começa o outono de seu segundo mandato, contudo, é tempo de investigar a sua herança: desses oito anos, o que ficará incrustado no edifício político brasileiro?

"Eu sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta." Antes de tudo, provou-se que diplomas acadêmicos não são adereços indispensáveis para governar. Os acertos e os erros de Lula decorrem de suas opções políticas, não das supostas virtudes ou das óbvias carências associadas a um nível baixo de instrução formal. O presidente não precisou de uma universidade para preencher a diretoria do Banco Central com um time de economistas que ostenta medalhas acadêmicas incontáveis – e concepções opostas às doutrinas econômicas petistas. Bastou-lhe o faro político privilegiado do conservador que, no fundo, nunca deixou de ser. Inversamente, o elogio da ignorância, um traço ubíquo dos pronunciamentos presidenciais, não reflete uma suposta convicção de que a escola é desnecessária, mas o egocentrismo exacerbado de um líder salvacionista.

"Nunca antes neste país." O salvacionismo abomina a história, apresentando-se como o início de tudo: a virtude que exclui o vício e escreve uma nova história num mármore intocado. A democracia enxerga a si mesma como um processo de mudanças incrementais. O líder salvacionista não enxerga nada de positivo antes de seu próprio advento. Lula é uma versão pragmática, cuidadosa e mesquinha de salvacionismo. De dia, ele denuncia "a elite que nos governa há 500 anos". À noite, cerca-se de grandes empresários, a quem atende e de quem espera retribuição. O sucesso do estilo político salvacionista deriva das fraquezas de nossa democracia – e as perpetua.

"Não se enganem, mesmo sendo presidente de todos, eu continuarei fazendo o que faz uma mãe: cuidarei primeiro daqueles mais necessitados, daqueles mais fragilizados." Lula não inventou o paralelo entre a nação e a família, que faz parte da longa linhagem do pensamento conservador de raiz autoritária. Mas, com a expansão do Bolsa Família, ele encontrou uma fórmula de modernização do assistencialismo tradicional. A distribuição direta de dinheiro, no lugar das proverbiais dentaduras, não é a fonte do aumento do consumo dos pobres, que reflete o crescimento da economia em geral e do salário mínimo em particular. Pouco importa: em virtude de sua eficácia eleitoral, o Bolsa Família será adotado pelos próximos governantes, sejam quem forem. Eis um legado duradouro da "mãe do povo".

"Não tem Congresso Nacional, não tem Poder Judiciário. Só Deus será capaz de impedir que a gente faça este país ocupar o lugar de destaque que ele nunca deveria ter deixado de ocupar." O lulismo aprofundou a subserviência do Parlamento ao Executivo, que se manifesta sob a forma de um intercâmbio: o Congresso se anula politicamente enquanto os congressistas da base do governo chantageiam o presidente para conseguir cargos e favores. A troca descamba sem dificuldades para a corrupção aberta. O "mensalão" foi isto: um projeto de estabilização da base governista pela compra direta dos parlamentares. Ele acabou exposto, mas apenas em virtude de uma fortuita ruptura interna à ordem da corrupção. Lula não caiu, apesar de tudo, e a oposição nem sequer apresentou um processo de impeachment. A elite política aprendeu do episódio que um presidente popular não será punido nem mesmo se distribuir dinheiro a parlamentares.

"Se tem uma coisa que está dando certo no governo é a política econômica. O PT não pode se esconder, procurando motivos para as derrotas, com críticas a ela." O PT morreu como partido da mudança antes da vitória eleitoral de Lula, com a Carta ao Povo Brasileiro, que o converteu em partido da ordem. Nos partidos social-democratas europeus, transições similares verificaram-se antes e de modo diferente. Eles renunciaram publicamente a seus velhos programas revolucionários, adotando programas fundados nos cânones da democracia e da economia de mercado. O PT, não: embora, na prática, sustente a ortodoxia econômica do governo Lula, suas resoluções clamam pela ruptura socialista, denunciam a liberdade de imprensa e fazem o elogio da ditadura de partido único cubana. A cisão entre o gesto e a palavra não apenas corrompe politicamente o partido como também alimenta um tipo mais virulento de corrupção.

"Se eu falhar, será o fracasso da classe trabalhadora." Uma máquina clandestina petista, instalada dentro do Planalto, conduziu as operações do "mensalão". Militantes partidários em altos cargos públicos realizaram a quebra de sigilo do caseiro Francenildo, um crime de estado que passará impune. Se acreditamos que temos a chave do futuro e uma missão histórica redentora, não hesitamos em usar de qualquer expediente para realizar as finalidades partidárias. O PT não consegue estabelecer distinções entre as instituições públicas e o partido. No fundo, interpreta a democracia como instrumento transitório para a sua perpetuação no poder. Depois de Lula, o maior partido brasileiro continuará a figurar como elemento de distúrbio no sistema político.

"Quem chega a Windhoek não parece que está em um país africano. Poucas cidades no mundo são tão limpas." Os estereótipos raciais clássicos, afundados na lagoa do senso comum, são um componente óbvio da rasa visão de mundo de Lula. Entretanto, o programa de racialização da sociedade brasileira conduzido por seu governo decorre de um frio cálculo político. O presidente quer conservar na sua ampla coalizão as ONGs racialistas, financiadas pela poderosa Fundação Ford. Em nome dessa meta, patrocina uma enxurrada de leis raciais com repercussões na educação, no mercado de trabalho e no funcionalismo público. No fim de seu segundo mandato, todos os direitos dos cidadãos estarão mediados e condicionados por rótulos oficiais de raça. Seremos "brancos" ou "negros" antes de sermos brasileiros. Eis aí a verdadeira mudança promovida pela era Lula: uma bomba social de efeito retardado que sua passagem pela Presidência deixa aos filhos e netos da atual geração.