sexta-feira, 30 de agosto de 2013

As três letras que vão faltar no Itaquerão - Maria Cristina Fernandes

Na abertura dos Jogos Olímpicos de Londres médicos e enfermeiras ocuparam o estádio dançando ao redor de crianças que davam cambalhotas em camas de hospital. A sigla NHS (National Health System) se espalhava pelo alto para não deixar dúvidas de que se tratava de um tributo ao sistema público de saúde que os ingleses implantaram no pós-guerra.

O tributo causou polêmica tanto entre políticos do partido conservador, que consideraram o espetáculo mais esquerdista que o das Olimpíadas da China, quanto os do partido trabalhista que acusam a era iniciada por Margareth Thatcher de precarizar o NHS.

A inclusão da cena, a despeito das brigas políticas, demonstra que a sociedade britânica orgulha-se do sistema de saúde que inspirou dezenas de outros países, como o Brasil do Sistema Único de Saúde.

Países importam lixo e vendem armas, Cuba exporta médicos

O Reino Unido não exporta médicos mas, assim como Cuba, vale-se do seu sistema de saúde para construir a imagem com que se vende ao mundo.

Além de propaganda, Cuba exporta médicos para fazer receita. Cada jaleco cubano na Venezuela rende quatro barris de petróleo por dia.

Há países que exportam lixo hospitalar e outros que vendem armas. Além de comprar lixo hospitalar para fazer jeans e ser um dos principais exportadores de armas do mundo, o Brasil também faz receita com seu atendimento médico privado. O setor que lidera a atração de pacientes-turistas do país que um dia quis se inspirar no NHS é o de cirurgia plástica.

Ao contrário da maioria dos países que firma contratos com Cuba, o Brasil tem mais médicos por habitante do que recomendado pela Organização Mundial de Saúde. O problema é que são mal distribuídos. O Estado do Rio tem seis vezes mais médicos que o Maranhão.

O dirigismo voluntarista que quis levar médicos da orla carioca para Balsas foi, em grande parte, podado na tramitação da medida provisória do Mais Médicos. Os dois anos de trabalho dos médicos em serviço público, por exemplo, foram incorporados na residência. Mas as mudanças não foram suficientes para preencher todas as vagas. Abriram-nas aos estrangeiros, que chegaram mas não em número suficiente

Ao contrário dos brasileiros e estrangeiros da primeira leva, os cubanos vêm por contrato entre governos. E como são produtos de exportação, vão deixar metade do salário em Cuba. Foram xingados de escravos ao chegarem ao Brasil, mas vão ganhar mais do que pagam muitos dos Estados aos seus médicos.

A Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais gere a contratação de médicos pelo Estado. Seu plano de cargos e salários tem 120 categorias. Em 57 delas o salário é inferior ao que sobrará para os cubanos.
Seria melhor que o país resolvesse suas carências na saúde com profissionais que falassem a língua da população assistida e trabalhassem em hospitais com macas e raio x, mas soluções duradouras poderiam levar mais tempo e dinheiro do que este governo e seus contribuintes estão dispostos a gastar. É mais fácil acomodar a bolsa-bndes ou a bolsa-copom do que fazer caber uma carreira de Estado para médicos na Lei de Responsabilidade Fiscal.

Sob quaisquer critérios, o Brasil gasta pouco com saúde, mas de nada vai adiantar dispender mais se o modelo continuar privilegiando o atendimento privado.

Dois terços dos brasileiros dependem do SUS, mas nele é gasto menos da metade do total de recursos públicos do setor. Qualquer tentativa de aumentar essa fatia mexe em, pelo menos, três vespeiros.

O primeiro é a dedução dos gastos da classe média com médicos e hospitais no imposto de renda. O debate da rejeição da CPMF foi tão despolitizado no embate PT x PSDB que ninguém se lembrou de perguntar ao eleitor o que aconteceria se, para cobrir o rombo que se abriu no setor, a dedução de seus gastos com saúde fosse reduzida.

O segundo vespeiro é o dos sindicatos de funcionários públicos. Se o Estado optou por fornecer um sistema público e universal, por que paga planos de saúde para os funcionários de suas estatais e da administração direta?

Para o bem da causa, se o mais emérito líder do Partido dos Trabalhadores tem o direito de tratar seu câncer no Sírio Libanês, também tem o dever de evitar férias de fim de ano na casa de praia do dono do maior plano de saúde do país.

É neles que está o terceiro vespeiro. As empresas restituem ao SUS uma parte muito pequena dos atendimentos feitos em hospitais públicos aos seus conveniados. A mesma justiça que dá, sucessivamente, ganhos de causa às seguradoras na queda de braço com o SUS, também mandou suspender as multas que a Agência Nacional de Saúde (ANS) aplicar nas seguradoras que haviam recusado atendimento a seus conveniados.

Muitos desses planos pagam um vale-coxinha por consulta. Se as entidades médicas se aliassem ao SUS para enfrentar os planos talvez nem tivesse sido necessário fazer os médicos cubanos passar pela vexatória recepção dos colegas brasileiros.

O Brasil planejava abrir a Copa do Mundo com uma criança paraplégica que viesse a recuperar sua capacidade de andar graças às pesquisas de neurociência, talvez o setor em que a tecnologia de ponta aplicada à medicina mais tenha avançado no país.

É um feito para o Brasil se o Instituto de Neurociências de Natal conseguir colocar a criança em pé. Bem melhor do que perfilar siliconadas para desfilar a cirurgia plástica de exportação.

Mas bom mesmo seria o Brasil poder se orgulhar dos esforços de gerações de médicos que batalharam para colocar em pé o SUS. Foi graças à saúde pública que o Brasil hoje ombreia a expectativa de vida dos países desenvolvidos - 71/78 anos (homem/mulher).

A melhoria de vida das décadas recentes levou as pessoas a buscar tratamento médico. Na pobreza extrema, não há recurso nem para se chegar a um hospital. Despertada pelo "padrão fifa para o SUS", Dilma quer fazer da guerra na saúde seu cavalo de batalha na reeleição. O atendimento deve melhorar mas ainda não vai ser a vez das três letrinhas, que um dia resumiram o sonho de uma saúde pública e universal, virarem orgulho nacional.

Fonte: Valor Econômico

Brasília-DF- Luiz Carlos Azedo

As veias abertas
A presidente Dilma Rousseff e o presidente da Bolívia, Evo Morales, devem se reunir hoje em Paramaribo, capital do Suriname, onde ocorre a reunião da União das Nações Sul-Americanas (Unasul). Ontem, Morales disse que o governo brasileiro deveria mandar de volta para a Bolívia o senador Roger Pinto Molina, para que responda às acusações de corrupção que pesam contra ele na justiça boliviana. Pôs uma saia justa na presidente Dilma Rousseff, que recebeu um ultimato. Dilma ficou irritadíssima e, ontem à noite, até cogitava cancelar a viagem.

Segundo Morales, o Brasil precisa explicar a fuga do senador Roger Pinto Molina. Ele deixou a embaixada brasileira, onde passou cerca de um ano e meio confinado numa sala sem janela, com o apoio do encarregado de negócios do Brasil na Bolívia, Eduardo Saboia, que assumiu a responsabilidade pela operação. Alega perseguição política e risco de vida porque denunciou o envolvimento do governo boliviano com o narcotráfico. Evo Morales se recusou a dar o salvo-conduto a Morales e, agora, pediu à Interpol que o prenda, pois ao sair do país tornou-se um foragido da justiça boliviana. Dilma demitiu o chanceler Antônio Patriota e removeu o diplomata, mas isso não basta para a Bolívia.

A concessão do asilo a Roger Pinto seguiu a tradição diplomática do Itamaraty e latino-americana. Contraria, porém, a atual doutrina da política externa brasileira para o continente. De um lado, temos os governos de esquerda — da Argentina, do Uruguai, da Venezuela, do Equador e da Bolívia; de outro, os governos de centro direita — do Chile, do Peru e da Colômbia, que se unem ao México e formam a chamada Aliança do Pacífico, alinhados aos Estados Unidos. O Paraguai, que havia sido afastado do Mercosul, está com um pé na Aliança do Pacífico. O Brasil optou por disputar com a Venezuela a liderança do bloco à esquerda e mantém distância regulamentar dos demais países. A concessão do asilo a Roger Pinto enfraquece a posição do Brasil na sua esfera da influência.

Liberais e nacionalistas
No Itamaraty , ao contrário das Forças Armadas, houve períodos de certo consenso sobre a política externa entre uma ala americanista, de caráter liberal, e outra nacionalista, de esquerda. Elas se uniram, por exemplo, em dois momentos decisivos para o país: quando o Brasil entrou na II Guerra Mundial e no governo de Juscelino Kubitschek. A corrente mais reacionária só foi hegemônica no Estado Novo, em 1935; e logo após o golpe militar de 1964. Mesmo no regime militar, com Saraiva Guerreiro, houve certo consenso. Com a democratização do país, o comando do Itamaraty continuou sendo disputado entre liberais e nacionalistas, mas o consenso se desfez. Os primeiros mandaram durante o governo de Fernando Henrique Cardoso: os segundos, dão as cartas desde a eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O caso Roger Pinto expõe novamente essa contradição.

Dilma e Lula
A presidente Dilma Rousseff herdou do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva essa doutrina para América Latina, com a qual concorda. A diferença é que Lula visitava com muita frequência a Argentina, a Bolívia e a Venezuela, ao passo que a presidente Dilma Rousseff, por diversas razões, distanciou-se dos demais líderes de esquerda do continente, com exceção da presidente argentina Cristina Kirchner. Lula teve muita paciência com Evo Morales; Dilma, não tem nenhuma.

Apagão// Doutor em energia elétrica, o secretário da Indústria e Comércio da Bahia, James Correia, culpou a Chesf pelo apagão em nove estados do Nordeste. "É culpa da incompetência da Chesf." Ele quer a cabeça do presidente da Chesf, João Bosco de Almeida, que é apadrinhado do governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB).

Fora de jogo
O deputado federal Romário (foto), do Rio de Janeiro, passou por uma cirurgia ontem de hérnia de disco lombar no Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília. Foram seis horas de operação, mas o craque passa bem. O parlamentar já havia se submetido a outros procedimentos cirúrgicos, considerados paliativos, para amenizar a dor. Na semana passada, começou a sentir dores fortes e contínuas, que impediam sua locomoção.

Digitais
Não votaram na sessão que deveria cassar Donadon 103 deputados

Efeito Orloff
A Câmara dos Deputados livrou de cassação o deputado federal Natan Donadon, que está condenado a 13 anos, 4 meses e 10 dias por peculato e formação de quadrilha, em votação surpreendente. Foi um recado para o Supremo Tribunal Federal dos parlamentares contrários à cassação dos quatro parlamentares condenados na Ação Penal 470. Preso no Complexo Penitenciário da Papuda, Donadon sensibilizou muitos colegas: eu sou vocês amanhã. Dos 513 deputados, somente 233 votaram por sua cassação, que exigia 257 votos a favor. Houve 131 votos contra e 41 abstenções.

Nós, quem?/ A bancada do PT na Câmara repudiou "qualquer tipo de insinuação" de que o partido teria feito um acordo no processo de votação que manteve o mandato do deputado Natan Donadon. Assinada pelo líder José Guimarães, a legenda esclarece que 78 parlamentares marcaram presença; 10 não estavam em Brasília por motivo de doença ou missão oficial; 67 votaram e 11 não o fizeram.

Perto do céu/ Cerca de 200 médicos cubanos que estão em treinamento em Brasília foram transferidos de alojamentos militares para abrigos civis, mas confortáveis. Um deles é o Mosteiro de São Bento.

Cassação/ O presidente nacional do PPS, deputado federal Roberto Freire (SP), e o líder do PSDB, Carlos Sampaio (foto), anunciaram que entrarão com mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal (STF) para anular todo o processo de cassação do deputado Natan Donadon (RO) porque a Mesa Diretora da Câmara enviou-o à Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em vez de declarar, de ofício, a perda de mandato.

Fonte: Correio Braziliense

Panorama político -Ilimar Franco

Se ficar, o bicho pega, se correr...
Há muita cautela com o anúncio feito pelo presidente da Câmara, Henrique Alves, após o deputado-presidiário Natan Donadon não ter sido cassado. Ele disse que não votará novas cassações até aprovar o voto aberto. O temor tem fundamento. Aprovar emendas constitucionais exige muita articulação, o que faltou no caso Donadon. O quórum necessário é de três quintos dos votos (308). E os afetados pela mudança (como os réus do mensalão) podem tentar empurrar a votação para o final de seus mandatos. No Senado, a emenda do senador Álvaro Dias, apresentada em 2007, só foi aprovada em 2012.

Donadon e o cachorro morto
Ao discursar ontem, o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ) não foi poupado. Gritos vinham do plenário: "Não chuta cachorro morto!"; "Não seja cruel com o Nata"; "Poupa o cara, ele já está ferrado"; "Tenha coração"; e "Chico, cala a boca".

Temer banca Paulo Skaf
A despeito das conversas de peemedebistas com o governador Geraldo Alckmin (PSDB), o vice-presidente Michel Temer garante: "Vamos ter candidato em São Paulo." O tucano gostaria de um vice do PMDB. Temer admite que há uma espécie da acordo com Alckmin: o partido não faz oposição, mas também não participa do governo. O acerto com o PT está mantido. O presidente da FIESP, Paulo Skaf será candidato ao governo.

No canto do ringue
Os tucanos dizem que o ex-governador José Serra não tem mais espaço no partido. Criticam o fato de ele ter posto "chapéu em todas as cadeiras". E sugerem cautela diante de informes de que ele não sai do PSDB. Lembram que, em 2002, Serra disse que não deixaria a prefeitura de São Paulo e, depois, renunciou para concorrer ao governo paulista.

Cara e coroa
A luta para eleger a nova direção do PT não tem limites. Uma ala dos petistas faz um discurso para a militância, atacando os mensaleiros, e outro para a opinião pública, dizendo que o partido é vítima de conspiração de seus adversários.

Eles é que vão decidir
A concessão do refúgio ao senador boliviano Pinto Molina está nas mãos do Comitê Nacional para os Refugiados. Ele é presidido por Paulo Abrão, secretário nacional de Justiça. Os demais membros são: Marcelo Viegas, Itamaraty; Paulo de Almeida, Trabalho; Marcus Quito, Saúde; Luciana Mancini, Educação; Flávio Coca, PF; e padre José Roberto da Silva, Cáritas (RJ).

A luta continua
O governo Dilma avalia que ganhou a batalha na sociedade sobre o Mais Médicos. Entende que as entidades médicas perderam o embate devido à falta de sensibilidade social de sua reação. Mas ainda teme a "bancada do jaleco" no Congresso.

Pedido de socorro
Num dia desses, sem mais nem menos, numa viagem para São Paulo, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, pediu ao vice-presidente Michel Temer maior apoio e engajamento do PMDB na defesa da política econômica do governo Dilma.

APESAR DE O TSE se comprometer em pressionar os cartórios eleitorais, os parlamentares que devem se filiar à Rede de Marina Silva estão pessimistas.

"A crítica à Câmara é merecida. Minha frustração é com quem não votou. Estavam na Casa 470, destes, 459 registrados no painel, e 405 votaram"
Henrique Alves
Presidente da Câmara (PMDB-RN)

Fonte: O Globo

Painel - Vera Magalhães

Lendo nas entrelinhas
Ministros e advogados leram o duríssimo voto em que Celso de Mello rejeitou o recurso de José Dirceu ontem como um sinal de que ele votará contra o recebimento dos embargos infringentes no mensalão. O decano é considerado o fiel da balança num possível cenário de empate. Um ministro diz que, mesmo que os recursos sejam acolhidos, dificilmente o resultado mudaria. "Então por que arrastar isso por mais um ano e distribuir a infelicidade por todo o tribunal?", indaga.

Mãozinha A despeito da negativa da bancada, o PT na Câmara é apontado por parlamentares como um dos principais operadores para livrar Natan Donadon (PMDB-RO) da cassação e abrir um precedente para os mensaleiros.

Tiro no pé No entender de advogados, no entanto, os próximos que caírem no plenário da Câmara serão cassados graças à repercussão negativa do caso e à possível aprovação do voto aberto para perda de mandato.

Tamo junto Outros deputados afirmam que o discurso de Donadon "pegou" e que o uso de algemas "sensibilizou" seus pares. O baixo clero teria dado o "troco" em Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que cortou o salário do deputado-preso e despejou sua família.

Greve Julio Delgado (MG) falou com Eduardo Campos ontem para sugerir que o PSB só vote matérias na Câmara após a Casa pautar a PEC do voto aberto. Segundo o deputado, o governador topou.

Fria O líder do PSB, Beto Albuquerque (RS), faltou à sessão por ter sido enviado por Henrique Alves para representá-lo em evento literário em Passo Fundo.

Depois Fernando Haddad pediu paciência aos taxistas que pedem para trafegar nos novos corredores de ônibus de São Paulo. Em reunião com o sindicato da categoria, o prefeito disse que a prioridade é o transporte coletivo.

Independência... Em encontro recente, José Serra avisou a interlocutores que deve anunciar até 7 de setembro sua decisão de permanecer no PSDB ou migrar para o PPS. Assim, o ex-governador teria tempo para articular adesões a seu projeto: disputar prévias ou construir uma base em um novo partido.

... ou morte Aliados relatam que Serra se sentiu "agredido" pelas críticas feitas por tucanos a sua movimentação, nos últimos dias.

Avatar Geraldo Alckmin se mantém alheio à disputa entre Serra e Aécio Neves no PSDB, mas seu secretário particular, Ricardo Salles, esteve no almoço de deputados paulistas com o mineiro. Sua participação foi discreta, segundo convidados.

Venda casada Petistas calculam que a aproximação de Eduardo Campos (PSB) com Aécio deverá resultar em dobradinhas de Beto Richa e Ratinho Jr., no Paraná, e Geraldo Alckmin e Márcio França, em São Paulo, além de possíveis acordos no Rio Grande do Sul e em Minas Gerais.

De peso O diplomata Eduardo Saboia contratou Ophir Cavalcante, ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, para defendê-lo no processo administrativo aberto pelo Itamaraty após sua participação na fuga do senador boliviano Roger Molina para o Brasil.

Uma só... Gleisi Hoffmann comandou reunião ontem na Casa Civil com ministros e presidentes de estatais para "uniformizar" informações das pastas do governo.

... voz Alexandre Padilha (Saúde) falou sobre o Mais Médicos, e Marcelo Néri fez apresentação sobre "as transformações da sociedade".

Tiroteio
"Donadon já está assumindo a função de representação na cadeia, ao reclamar, na tribuna, da qualidade da comida na Papuda."
DO DEPUTADO CHICO ALENCAR (PSOL-RJ), para quem a Câmara criou uma jabuticaba' ao não cassar Natan Donadon: a do detento detentor de mandato.

Contraponto
Tá falando sério?
A procuradora-geral da República interina, Helenita Acioli, comemorava ontem, no plenário do Supremo Tribunal Federal, a aprovação de Rodrigo Janot na CCJ do Senado para assumir o comando do Ministério Público:
--É a notícia mais importante do dia! --vibrou, sorridente, diante dos jornalistas que cobriam a sessão.
Questionada se a aprovação do colega era mais importante que a decisão da Câmara de não cassar o deputado Natan Donadon (ex-PMDB-RO), ela disse:
--Por quê? Tem algum deputado preso? Tem?
Os repórteres não entenderam se era ironia ou não.

Com Andréia Sadi e Bruno Boghossian

Fonte: Folha de S. Paulo

O que pensa a mídia - editoriais de alguns dos principais jornais

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Todos nós somos mascarados - Michel Zaidan Filho

Não há um conceito tão importante para a Ciência Social como o de "persona", "persona social". A palavra de origem latina,está ligada à pessoa, e quer dizer "máscara", as diversas máscaras que a vida em sociedade nos impõe, Nós desempenhamos papéis, vários papeis na nossa vivência societária: ora pai, ora filho, ora professor, advogado, médico, juiz, policial, político etc. São máscaras e papéis, através dos quais viabilizamos a nossa existência em comunidade. Mas há "máscaras" e "máscaras".

Um tipo decorre de uma necessidade social, imperativa, indispensável. O outro tipo é contingente, episódica, acidental. É o que ocorre com a "máscara" dos democratas de ocasião, quando em campanha eleitoral promete tudo (inclusive o que não pode fazer). Depois de eleito, tira a máscara e se revela um perfeito "mussolini de fancaria", um ditadorizinho de quarteirão. Destes mascarados, a sociedade precisa tomar muito cuidado, porque são lobos em pele de cordeiro, serpentes venenosas sem as virtudes do leão,como queria Maquiavel.

São só víboras peçonhentas e mais nada. Há também os mascarados títeres, marionetes, sem vida própria, animados por um mestre mamulengueiro do mal, que faz de suas criaturas de animação, um exercício de ventriloquia perigoso, porque com recursos públicos, tendo em vista interesses meramente eleitoreiros, ocupando cargos públicos de mais alta responsabilidade. Esses são os mascarados perigosos, que os cidadãos e as cidadãs precisam urgentemente "desmascarar".

Os mascarados que vão às ruas são de outra natureza. Simbolizam - para o títere ou o ditadorzinho de plantão - a criminalização recorrente do protesto social no Brasil. Representam o que é proibido, censurado, interditado ou ilegal, em face dos interesses dominantes, das conveniências políticas reinantes ou dos objetivos e estratégias eleitorais. A máscara é sim uma ameaça! Mas a quem? - A que interesses? - A que estratégias de poder? ´- Certamente para alguns, que se arvoram em falar em nome da "democracia", da "prioridade", da "família", dos "bons costumes", da "paz social"; quando na verdade falam em nome de seus próprios interesses ou os interesses de seu grupo social.

A máscara faz temer um movimento social cujas razões transcendem de longe a propaganda enganosa e milionária dos meios de comunicação de massa, que contagiam a juventude, o lado sadio, bom, generoso, da chamada "sociedade civil" brasileira. De que é que têm medo os mascarados do interesse? - Por que mobilizam a força policial, à revelia da Constituição?

É disso que todos nós precisamos saber neste momento. Entre a repressão da Polícia e os mascarados da sociedade civil, há muito mais do que sonham ou dizem as nossas autoridades públicas. Vamos abrir a "caixa de pandora" dessa administração e fazer a contabilidade dos mal-feitos, das operações não-publicizadas, dos favores e das concessões públicas. Aí sim, tiramos definitivamente as nossas máscaras!

Michel Zaidan Filho é professor da Universidade Federal de Pernambuco

Qual liberalismo? - Nadia Urbinati

A crise da esquerda é geralmente explicada com o ocaso da ideologia igualitária que marcou sua identidade desde as origens setecentistas e revolucionárias. Crise da esquerda, portanto, como um aspecto da crise da modernidade e dos seus mitos: o universalismo da cidadania e a impessoalidade da lei. No seu lugar vimos surgir recentemente duas soluções alternativas preocupantes: a solidariedade comunitária (apropriação identitária do bem-estar e dos direitos em nome do “nosso território”, da “nossa cultura” e da “nossa riqueza”) e a prioridade do interesse particular (seja ele econômico, de classe ou de território regional) sobre o geral. O tempo da política clássica parece ter se consumado; seus lugares, sua linguagem e suas finalidades parecem ter se rarefeito.

No entanto, o universalismo não desapareceu. Ele migrou para fora da política: por exemplo, para o mercado e a economia. Trata-se, como se intui, de outro universalismo. Globalização dos interesses econômicos e das competências financeiras, por um lado, e, quase como reação, localismo dos pertencimentos identitários e coletivos, por outro. O universalismo se transferiu da sociedade política para a sociedade civil, radicalizando o dualismo entre liberdade individual e liberdade política. Lendo o noticiário italiano e europeu destes meses, parece que o desafio da sociedade civil à sociedade política está destinado por ora a se concluir com a derrota da segunda: os “salteadores” tomaram o Estado. E o que acontecerá com a justiça social? Esta será distribuída (é o que alguns esperam) pela vontade benévola dos bons cristãos e das comunidades de fé ou assistenciais e beneficentes, não mais pelo direito e pelos órgãos de Estado.

Parece que a justiça social tomou o caminho da misericórdia ou da benevolência moral e religiosa (como bem se vê no programa dos republicanos americanos) e que o Estado não deve ter outro papel além de se ocupar da justiça civil e penal para proteger a esfera dos interesses privados. Crise da esquerda e crise do universo de valores e instituições que nutriram a democracia nas décadas passadas caminham juntas, orquestradas pela ideologia que apregoa o evangelho dos mercados que se autorregulam e sabem coordenar espontaneamente méritos e carecimentos, sem que seja necessária a intervenção programadora da lei. Imparciais porque automáticos. A sociedade civil reivindica sua centralidade diante da sociedade política: nesta transformação reside a fonte da crise da esquerda. Redistribuir recursos, desenhar estratégias de justiça social — como se dizia há alguns anos —, governar os processos sociais: tudo isso parece hoje arqueologia. Se existem valores universais, estes se transferiram para a dimensão do privado. Este cenário ajuda a compreender por que o liberalismo é hoje a ideologia vencedora, uma ideologia que é universalista exatamente lá onde o universalismo fez seu nicho.

Desde seu surgimento, o liberalismo expressou a dupla alma da modernidade: celebração do indivíduo e limitação da política e do Estado. Ele marchou ao lado da afirmação da prioridade da esfera civil — que é esfera dos direitos individuais e dos interesses — e da visão instrumental ou de coordenação das instituições políticas. O liberalismo é uma doutrina universalista que não é hostil ao particular. Aqui está sua força prometeica e sua extraordinária capacidade de adaptação, sua transversalidade; de fato, o antiestatalismo pode unir, e de fato une, movimentos que parecem muito distantes entre si, como católicos e federalistas etnocêntricos, para dar um exemplo italiano. A ideia transversal de que é necessária uma devolução das competências do Estado à sociedade civil faz concordarem liberais-liberistas e teólogos católicos. O paradoxo é só aparente, porque pôr o indivíduo no centro pode significar promover a comunidade e os pertencimentos locais, lugares nos quais a pessoa encontra estímulos para seguir o caminho da realização pessoal, mundana ou divina, mas também significa rede protetora que intervém quando o “infortúnio” econômico se abate sobre as pessoas como um deus cego.

Portanto, o que se deve fazer é retomar a reflexão sobre a identidade do liberalismo. Para compreender sua complexidade, para desarticular suas interpretações canônicas, para recuperar, enfim, aquele fôlego universalista e social a que a esquerda não pode renunciar. O liberalismo pode dar novas energias às visões emancipadoras. Este, também, um paradoxo da modernidade: a esquerda bate na porta daquele que seus pais fundadores marxistas consideravam o inimigo natural. Mas só é paradoxo, se se considerar a história da esquerda como se fosse uma história homogênea. Atribuir complexidade ao liberalismo implica, para a esquerda, recuperar a complexidade das suas próprias raízes. E as raízes da esquerda europeia e italiana são plurais e complexas.

Aquém da cortina de ferro

Recuperar a identidade complexa do liberalismo (e, como consequência, da esquerda) significa ajustar contas com a codificação que foi dada ao liberalismo (e, como consequência, à esquerda) no curso da segunda metade do século XX na Europa Ocidental, do lado de cá da cortina de ferro. O liberalismo foi canonizado como aquilo que, em 1958, Isaiah Berlin identificou com a “verdadeira liberdade”, a liberdade como não interferência e não impedimento por parte da lei, mesmo quando quem vota a lei são Parlamentos eleitos democraticamente. Um liberalismo que fundou a si mesmo na ideia de que a liberdade é licença e anarquia, é fazer o que individualmente se quer e escolhe, e que, portanto, todo obstáculo exterior a esta liberdade implica ausência de liberdade, limitação da escolha individual, ainda que necessária. A liberdade se dá onde a lei cala, não através da lei.

A lógica que orientou e orienta este liberalismo é a mesma que move as ações do homo oeconomicus: um indivíduo que, como a bola de bilhar no plano inclinado, seguiria por força de inércia se outros ou algo externo ao seu movimento não lhe obstruíssem o curso. A liberdade é aqui pensada como movimento no espaço e, sobretudo, em oposição a um obstáculo: a lei, a política, o Estado. A sociedade liberal assim imaginada será tão mais realizada quanto menor for o espaço ocupado pela política e pela esfera pública. Menos Estado/mais mercado: esta é a consequência pragmática do liberalismo que se contrapôs à ideologia social-democrata a partir dos anos da Guerra Fria. Como se lia no libelo de von Hayek, opressão e servidão são proporcionais à interferência da lei e é irrelevante saber se a lei goza de legitimação constitucional-democrática ou é dominação despótica; é irrelevante saber se quem interfere com as ações dos indivíduos é um Parlamento democraticamente eleito ou o Parlamento dos sovietes.

No final da era das ideologias, este é o núcleo teórico-político hegemônico do liberalismo contemporâneo. Este venceu a competição com a ideia da intervenção reguladora do Estado, mesmo quando o Estado é uma democracia constitucional. Um liberalismo que tem origem datada, mas não é datado: porque seu verdadeiro alvo, desde os anos da Guerra Fria, não foi tanto o comunismo soviético quanto a social-democracia ocidental: não Lenin, mas Thomas H. Marshall. A última grande batalha deste liberalismo da não-interferência é, portanto, a que está combatendo nestes meses contra aquele resíduo distributivo e de justiça social via Estado democrático que a modernidade também nutriu. Hoje, a trincheira da esquerda parece ser esta.

Difícil dizer se será sua grande derrota. Mas é certo que o renascimento da esquerda, tanto na Itália como na Europa, aparentemente terá de passar pela transformação do liberalismo. Com aquele liberalismo da soberania dos interesses privados a esquerda só pode perder. No entanto, sem ou contra o liberalismo, a esquerda não pode vencer e certamente está fadada a perder e até a desaparecer. O nó a ser desatado, pois, está aqui, na interpretação da liberdade e do liberalismo. A esquerda poderá ter esperança de vencer o desafio lançado pelo indivíduo privado ao cidadão, se souber formular uma interpretação da liberdade e do liberalismo que seja capaz de desafiar sua leitura hegemônica, aquela que vê a lei, o público e o Estado como obstáculos, limites a serem maximamente contidos ou superados.

O valor das liberdades

Recorramos aos grandes teóricos do liberalismo social do nosso tempo, por exemplo, Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia (mas marginal no trend contemporâneo governado pelas business schools) e teórico representativo da revisão do liberalismo da não-interferência, não para negá-lo, mas para fazê-lo interagir com outras liberdades. Sua perspectiva ideal é a mesma que compartilham outros grandes liberal-democratas e social-democratas do nosso tempo, John Rawls e Jürgen Habermas. Mas Sen adota uma estratégia metodológica diferente e que pode ser politicamente vitoriosa nesta fase de revisão liberista, porque construída a partir de uma gramática que é, ao mesmo tempo, normativa e utilitarista, universalista mas atenta ao contexto e às circunstâncias concretas nas quais as pessoas agem. O princípio — a liberdade individual — é conjugado por Sen não simplesmente através das instituições e dos procedimentos distributivos, mas também através do conhecimento das concretas e substantivas “capacitações (capabilities) dos indivíduos para viver o tipo de vida que valorizam e que têm motivo para valorizar”.

O “desenvolvimento pode ser visto como um processo de expansão das liberdades reais gozadas pelos seres humanos”. As liberdades, portanto, são plurais, têm custos e benefícios, são escolhas políticas que têm por objetivo o desenvolvimento do indivíduo em relação à sociedade na qual vive e opera. Um indivíduo que é um agente, que tem projetos e valores ideais e morais, e que usa os recursos econômicos como meios para realizá-los. Sen tenta uma operação corajosa: combinar a ideia de felicidade (Aristóteles) com a de interesse (Adam Smith), isto é, atribuir à economia um papel instrumental em vista de um “bem” qualitativo como o bem-estar, a felicidade ou a qualidade de vida.

A ideia de “capacitações” fica clara se se mantiver um nexo entre o conceito de individualidade como “florescimento” e “desenvolvimento” das capacidades individuais e a análise econômica dos “bens necessários” e das condições de vida de que tais capacidades necessitam para se expressarem da melhor forma. O bem individual é um componente do bem geral: as liberdades são um ganho para toda a sociedade. “A utilidade da riqueza está nas coisas que nos permite fazer, nas liberdades substanciais que nos ajuda a conseguir”, uma correlação entre meios e fins que não é nem simples nem uniforme, que é contextual e varia em relação à estrutura política e social de um país, que não renuncia a pensar em termos de conveniência, crescimento econômico e condicionamentos do desenvolvimento. Uma economia a serviço do bem-estar geral da pessoa.

A liberdade é um bem para o indivíduo porque é um bem para a sociedade, dizia John Stuart Mill: aumenta as capacidades e é vantajosa. Inversamente, a injustiça é “privação de liberdade”: negar a liberdade política, violar os direitos civis, suprimir os direitos sociais configura não só uma condição de imoralidade, mas é um obstáculo ao crescimento. Onde não há segurança quanto aos direitos, as trocas estão em risco, o empreendedorismo individual se frustra: é a sociedade toda que sofre as consequências disso, não só o indivíduo.

A ideia de liberdade como “capacitação” se contrapõe, por um lado, àquela “mais restrita” que nos vem do liberalismo econômico, ou seja, a identificação do desenvolvimento com “o aumento das rendas individuais, com a industrialização, com o progresso tecnológico ou com a modernização da sociedade”, e, por outro, a uma visão puramente negativa ou como não interferência por parte da lei. Ao contrário, propõe uma ideia de liberdade que está centrada numa filosofia social que se preocupa com a “felicidade” (como prometia a democracia americana no século XVIII, ao escrever ao Declaração de Independência). Portanto, a filosofia da esquerda pós-socialista pode ser rastreada no pensamento democrático, que é diferente tanto do liberismo econômico quanto do socialismo planificador, porque atento ao contexto e à opinião das pessoas (ao voto), em vez do dogma do mercado e da naturalidade das suas regras. O objetivo desta teoria do bem-estar é negativo, isto é, eliminar as iliberdades; por isso, não cai no erro de promover um Estado paternalista que nos diga em que consiste nossa felicidade, uma falha do ideal de justiça social que os liberais temem com razão. Os meios para concretizá-lo são positivos, ou seja, remover as condições que produzem as iliberdades.

Democracia como atenção às circunstâncias

A esquerda deveria recuperar plenamente a dimensão projetiva da política e fazer isso através da ideia de “desenvolvimento como liberdade”. É uma ideia revolucionária, na medida em que força os liberais a dizer explicitamente quais liberdades querem defender, isto é, qual visão do indivíduo têm e a quem esta visão pode ser estendida, quantos são ou quantos deveriam ser aqueles que gozam, efetivamente, da liberdade. O papel das circunstâncias é importante, porque importa reconhecer que nem todas as liberdades têm o mesmo peso em toda parte e seja de que modo for. Portanto, as liberdades são plurais, heterogêneas e, certamente, em conflito. A função da política é a de tomar decisões exatamente porque existe este conflito. E é aqui que direita e esquerda mostram suas diferenças. É aqui que quem se declara “moderado” deve se deter para esclarecer o que significa moderação numa sociedade que retira de muitos as capacidades de agir funcionalmente e de aspirar a uma vida digna.

Tomemos, como exemplo, o modo de entender algumas “liberdades instrumentais”, ou seja, as infraestruturas econômicas. Estas últimas são “possibilidades” dadas aos indivíduos de “utilizar recursos econômicos para consumir, produzir ou trocar”. Estas “possibilidades” dependem de várias circunstâncias: não só de quanto uma pessoa recebe mensalmente, mas também da riqueza nacional geral e da presença de importantes recursos, como o funcionamento das instituições públicas, a disponibilidade de acesso à cultura e à formação. Se, para obter um financiamento, devo corromper um funcionário, pertencer a um partido, submeter-me a uma organização criminosa, ser membro de uma comunidade religiosa ou ser homem e não mulher, então ter um salário decente não constitui para mim uma garantia de gozo efetivo da liberdade.

Substancialmente, minhas “possibilidades”, como pessoa que vive numa sociedade altamente evoluída, não são muito superiores às de uma pessoa que more numa sociedade menos evoluída e tenha uma renda inferior à minha. Eu, mulher italiana, deste ponto de vista, tenho uma expectativa de reconhecimento e de vida social satisfatória inferior ou não superior àquela de uma mulher que vive num país do Norte da Europa, porque, em relação aos recursos e às oportunidades que minha sociedade oferece, sofro maior privação de liberdade do que minha homóloga europeia do Norte. Além disso, sou também menos livre em relação a um homem italiano. Em outras palavras, sou mais “pobre” tanto em sentido absoluto quanto em sentido relativo, porque minha pobreza não é só econômica ou material, mas ligada intrinsecamente a fatores sociais, culturais e políticos. Sou mais discriminada, tenho menos reconhecimento social e político, tenho mais dificuldade para tornar efetivos os direitos que, no entanto, a lei me reconhece, sou humilhada nas minhas capacidades. Suprimo tempo e energia ao meu bem-estar e ao de toda a sociedade. Sou espelho da Itália: atarefada, insatisfeita, deprimida, paralisada para explorar minhas possibilidades.

A regra que se pode deduzir deste exemplo é a seguinte: considerar a liberdade seja como fim, seja como meio implicar perceber como as várias liberdades que temos não podem ser consideradas uma a uma, individualmente, porque os seres humanos, quando agem, colocam-nas em ação todas juntas. Portanto, o fato de que as liberdades criem um todo solidário é que é razão de liberdade, não o fato de que gozemos de uma liberdade em particular, por exemplo, a de vender e comprar. Assim, Sen pode explicar a pobreza nas zonas mais deserdadas do mundo, mas também a que cresce dentro de sociedades ricas, como as europeias. Se se examinasse só a renda per capita ou as instituições, esta injustiça real permaneceria invisível ou não determinante. Mas, se considerarmos outras formas de iliberdade — a ausência efetiva de possibilidades e de “capacitações”, como o esforço que uma mulher italiana realiza para ser respeitada na sua dignidade e reconhecida nas suas capacidades, etc. —, então a pobreza emerge como uma chaga das próprias sociedades liberais, não menos das ocidentais do que daquelas que dizemos estar em vias de desenvolvimento.

Ter escolas péssimas, distribuir a qualidade da instrução desigualmente e segundo as possibilidades econômicas ou a alocação geográfica dos recursos torna as mulheres italianas, os italianos meridionais ou os jovens de famílias não proprietárias menos livres do que seus concidadãos homens, nortistas e abastados. Pôr as mulheres na impossibilidade de ter um emprego fora da família torna as mulheres dos países ocidentais menos livres do que seus concidadãos homens, se à liberdade delas não se der o suporte de infraestruturas sociais. E, sobretudo, torna o país menos rico, porque impede muitos dos seus habitantes de fazer coisas que poderiam considerar como direito fazer e, ao mesmo tempo, empobrece a sociedade no seu conjunto, porque privada de recursos importantes.

Um desafio no terreno da coerência liberal

Esta visão de “sociedade justa porque livre” põe sob acusação o estrabismo daqueles liberais que fazem da modernização e da expansão da renda o único fator que mede a liberdade. Neste caso, são ignoradas as liberdades políticas e civis. Mas estas liberdades não imediatamente materiais e econômicas são “apropriadas”, porque sem elas a sociedade seria não só menos livre para muitos, mas também mais pobre, na medida em que muitos dos seus cidadãos encontrariam mais obstáculos para agir livremente e seu âmbito de ação seria mais restrito. É o “desenvolvimento difuso” ou a “liberdade difusa” que a esquerda deve considerar, um conceito que Carlo Rosselli expressou com estas palavras: “Entre uma liberdade média estendida ao universal, e uma liberdade sem limites assegurada a poucos, em detrimento de muitos, melhor, cem vezes melhor, uma liberdade média”.

Insistir nas possibilidades efetivas de liberdade nos induz a corrigir a teoria clássica da social-democracia, porque nos ensina que o problema não é simplesmente defender a liberdade nas normas e nas instituições distributivas, mas fazer com que a liberdade tenha um valor para as pessoas que a vivem e um significado para nós que concretamente a usamos. “A liberdade — continua Rosselli —, não acompanhada e sustentada por um mínimo de autonomia econômica, pela emancipação em relação ao freio das necessidades essenciais, não existe para o indivíduo, é um mero fantasma”. Neste sentido, quando se fala de liberdades no plural, a distinção entre liberdade como meio e como fim é sempre relativa, nunca absoluta.

Estas são as premissas que devem convencer a esquerda a desafiar o tabu das políticas anti-inflacionárias e a dar centralidade ao emprego e aos serviços sociais, a considerar as infraestruturas um vetor de riqueza e de liberdade. Os críticos liberistas ou de direita opõem ao Welfare clássico uma interpretação do Estado Social do ponto de vista das necessidades dos clientes. Sen ensina-nos a pôr em dúvida a eficácia e a governabilidade de uma oferta de assistência sanitária ou instrução baseada num controle das necessidades ou dos meios econômicos dos clientes (ensina-nos a contestar a eficácia da política de vouchers, que tanto agrada a diversos católicos-liberais entre nós e que orientou a reestruturação do Estado Social na Lombardia).

O ceticismo de Sen é ditado por razões realistas e pragmáticas: a informação sobre as “incapacitações” de uma pessoa, ou seja, sobre suas condições econômicas em relação ao bem saúde ou instrução (para os quais se propõe o voucher), não é nada objetiva e economicamente fácil de fazer. Além disso, muito mais facilmente do que o universalismo do Welfare, esta estratégia pode gerar corrupção, morosidade burocrática e discriminação. De fato, fornecer um serviço na forma de voucher, ou seja, monetizá-lo em relação à efetiva disponibilidade econômica de quem dele precisa, implica que o poder público deva monitorar direta e constantemente as reais disponibilidades econômicas dos potenciais fruidores de vouchers (com uma ingerência na privacy que é grave e verdadeiramente lesiva das liberdades individuais); por fim, pressupõe uma condição que, como sabem os italianos, não é nada óbvia, a saber, que não haja evasão fiscal, ocultamento das informações sobre os efetivos recursos econômicos e abusos clientelistas. Personalizar a oferta dos serviços — como faz a política dos vouchers — implica aumentar os riscos de disfunção, abuso, corrupção e discriminação, ao mesmo tempo que necessariamente deve interferir mais na vida das pessoas.

A forma do Estado Social, portanto, pode fazer a diferença. Sen escreve: “Quando a ajuda social é concedida com base no diagnóstico direto de uma necessidade específica (por exemplo, depois de se verificar que uma pessoa está afetada por uma determinada doença) e é ofertada diretamente, na forma de serviços específicos e intransferíveis (como uma terapia para aquela enfermidade particular), reduz-se em medida significativa a possibilidade de uma distorção da informação [...]. No entanto, ocorre exatamente o contrário quando se financiam cuidados médicos concedendo dinheiro que se pode usar livremente, o que requer monitoração mais direta. Deste ponto de vista, a oferta direta de serviços, como a assistência médica e a instrução, está menos exposta a abusos” e é menos dispendiosa.

O Estado Social que se apoia em acordos entre o público e os fornecedores privados de serviços pode ser, então, o caminho para novas desigualdades, ao mesmo tempo que, como sabemos, não ajuda de modo algum a aliviar a despesa pública e, sobretudo, grava sobre o poder regulador do Estado, com a eventualidade de procedimentos privilegiados obtidos como favores (corrupção). O controle das condições econômicas efetivas da pessoa que deverá receber subvenção e, ademais, da qualidade do serviço fornecido pelos particulares conveniados é gerador de burocracia e custos de gestão, como os sistemas médicos e escolar americano estão demonstrando (para reformar tais sistemas, o presidente Obama mobilizou a ideia da igualdade das condições de liberdade).

A esquerda deve desafiar os teóricos da monetização dos serviços precisamente em nome da eficiência do mercado e das liberdades das pessoas: isso pode torná-la atual, fundamentada e persuasiva. Os direitos sociais instituídos pelo universalismo do Welfare de base são estruturas não mercantis, que ajudam o mercado porque geram “capacitações” e criam possibilidades de liberdade; ou seja, são oportunidades de crescimento econômico e segurança social. Portanto, os direitos são investimentos, e as políticas que visam a criar uma equânime distribuição dos recursos não são só moralmente justas, mas também economicamente vantajosas. Esta é a mensagem que uma esquerda democrática europeia deveria metabolizar e propor: uma mensagem que tem seus fundamentos no liberalismo e na economia de mercado. Aqui reside sua força e a razão do seu valor. Força e valor de uma esquerda que não se resigna a sucumbir à ideologia do liberalismo liberista e não renuncia a dar à política o próprio papel dirigente e a própria dignidade, em nome da igual liberdade.

Nadia Urbinati é professora de Teoria Política na Columbia University, de Nova York. Artigo publicado em Italianieuropei, 5/6, 2013, p. 141-51.

Fonte: Italianieuropei &Gramsci e o Brasil.

Gabriela Montero - Mozart Piano Concerto No. 20 1st Mov.

O medo – Eugenio Evtuchenko

O medo está morrendo na Rússia,
como os fantasmas dos anos passados;
de vez em quando, no adro das igrejas,
ainda pede esmola qual mendiga.

Mas eu me lembro quando ele era forte
e sua falsidade triunfava.
Em cada andar dos prédios se esgueirava
sua sombra, em toda parte penetrando.

Tornava a todos nós obedientes;
Nas coisas todas punha o seu selo;
fazia-nos gritar quando era a hora
de calar; e calar na vez do grito.

Isso tudo, hoje em dia, está distante.
Estranho hoje é lembrar como temíamos,
em segredo, que nos denunciassem,
que viessem bater à nossa porta.

E o medo de falar com um estrangeiro?
E o medo de falar com sua mulher?
E o medo ilimitado de ficar
sozinho e em silêncio em meio à praça?

Ninguém temia andar no nevoeiro,
nem enfrentar as balas na batalha.
Mas tínhamos o medo, tão freqüente
e mortal, de falar conosco mesmos.

[...]

Eu queria que o medo que tivéssemos
fosse o de condenar sem julgamento,
de degradar idéias com mentiras
e, com mentiras, exaltar pessoas,

o medo de ficar indiferente
quando alguém sente dor, é perseguido,
o medo de não sermos destemidos
quando pintamos ou quando escrevemos.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

OPINIÃO DO DIA – Aécio Neves: Dilma, é deplorável!

"É deplorável, sob todos os aspectos, a atitude tomada pelo governo da presidente Dilma no episódio envolvendo a transferência do senador boliviano. Ao expor à execração pública o diplomata Eduardo Saboia, o governo brasileiro se curva, mais uma vez, a conveniências ideológicas. Mais grave ainda, abandona as melhores tradições da nossa diplomacia."

Aécio Neves, senador (MG) e presidente nacional do PSDB. In “Eduardo Campos parabeniza Saboia e diz que era uma causa humanitária”. O Globo, 28/8/2013

Fogo causa 9º apagão de Dilma

Uma queimada numa fazenda em Canto do Buriti, no Piauí, atingiu duas linhas de transmissão e derrubou a energia elétrica em todo o Nordeste por quase três horas ontem, no nono apagão do governo Dilma Rousseff. O baixo nível dos reservatórios das hidrelétricas da região e a demora natural para ligar as usinas termelétricas fizeram aumentar a duração do blecaute. Segundo especialistas, a falta de investimentos e a opção do governo pelas térmicas mostram a fragilidade do sistema elétrico hoje. Há um ano, depois de anunciar mudanças no setor que ainda não surtiram efeito, Dilma disse que os brasileiros deveriam gargalhar se autoridades culpassem raios por apagões

É fogo!

Queimada no Piauí causa apagão no Nordeste. "Sistema é forte" e isso "lamentavelmente acontece", afirma ministro

Ramona Ordoñez

Sem energia

Uma queimada em uma fazenda do Piauí derrubou ontem à tarde todo o sistema de transmissão de energia do Nordeste e causou o nono apagão do governo Dilma Rousseff. Os nove estados da região ficaram sem energia por períodos que variaram de 40 minutos a mais de quatro horas. De acordo com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, a queimada ocorreu na região do Canto do Buriti e atingiu uma linha de transmissão que passa pela fazenda Santa Clara, às 14h58m. O incidente retirou do sistema 10.900 megawatts (MW) do Nordeste.

- O sistema é bom, é forte e é igual aos melhores sistemas do mundo. Queimada provoca esse tipo de desligamento e lamentavelmente acontece. Isso já aconteceu outras vezes no Brasil e no mundo inteiro - disse Lobão, citando os Estados Unidos.

O ministro - que convocou uma para hoje uma reunião do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) - explicou que a carga de energia chegou a ser recomposta de imediato, mas uma nova incidência fez com que se perdesse toda a carga do sistema do Nordeste. Segundo ele, 40 minutos depois, a ligação da energia foi reiniciada em todas as capitais. E, por volta das 19h, apenas algumas cidades do interior ainda estavam sem energia.

Aécio culpa governo

O presidente do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Hermes Chip, explicou que a queimada provocou um curto na linha de transmissão e seu consequente desligamento. Inicialmente, foi na linha de transmissão de 500 quilovolts (kV) de São João do Piauí a Ribeiro Gonçalves, da empresa Ienne, controlada pela espanhola Isolux. Às 15h04m, esse circuito foi religado, mas novas queimadas repetiram o problema às 15h06m. Às 15h08m foi desligada a segunda linha de São João do Piauí a Ribeiro Gonçalves, esta de propriedade da Taesa, empresa da Cemig. A partir de então, segundo Chipp, se configurou a "contingência dupla".

- Duas linhas saíram num primeiro momento e, consequentemente após esse desligamento, as outras linhas do Nordeste com o restante do sistema interligado se desligaram. Com isso, a região ficou separada do restante do sistema - explicou Chip, garantindo que às 17h30m, toda a energia nas capitais tinha sido restabelecida.

O presidente do PSDB e provável adversário de Dilma em 2014, Aécio Neves, culpou o governo.

- Somado o período de apagão do governo do PT, certamente foi maior que o que tivemos lá atrás. O governo não planeja. Não existe essa palavra no governo hoje: planejamento. Esses apagões sucessivos e agora gravíssimos que ocorrem no Nordeste e poderão ocorrer no futuro são responsabilidade exclusiva de ausência de gestão do governo Dilma - disse Aécio, acusando a presidente de descapitalizar as empresas com a redução de tarifas.

Aeroportos com geradores

O apagão afetou sete aeroportos administrados pela Infraero no Nordeste (Salvador, lhéus, Paulo Afonso, Aracaju, Maceió, Fortaleza, Recife), além de Belém, no Norte. Segundo o órgão, os geradores foram acionados e os voos não foram prejudicados. Problemas na telefonia, trânsito intenso, lojas e empresas fechadas, cancelamento de aulas e transtornos nos hospitais também foram sentidos nas cidades nordestinas.

Em Salvador, o apagão causou engarrafamentos quilométricos, numa cidade sem sinais de trânsito, e o tráfego ficou ruim por horas, mesmo após o restabelecimento da energia. Empresas do Polo Petroquímico de Camaçari liberaram os funcionários. Os serviços de telefonia móvel e internet foram afetados. As escolas liberaram os alunos e várias empresas fecharam as portas mais cedo.

Em Recife, o blecaute gerou congestionamento generalizado nos corredores viários da Região Metropolitana. Os serviços de metrô foram interrompidos, prejudicando 19 mil usuários. No Hospital da Restauração, maior emergência de Pernambuco, os geradores foram ligados, mas os equipamentos falharam em pelo menos dois setores. Os postos de saúde da capital interromperam os serviços, e as universidades públicas suspenderam as aulas.

(Colaboraram Henrique Gomes Batista, Júnia Gama, Geralda Doca, Karoline Fernandes, especial para o GLOBO, e Biaggio Talento, da Agência A Tarde)

Fonte: O Globo

Mensalão - STF confirma penas de Valério e Genoino

Os ministros do STF confirmaram ontem as penas dos deputados José Genoino (PT-SP) e Pedro Henry (PP-MT) e do empresário Marcos Valério no processo do mensalão. Já foram analisados os embargos declaratórios de 17 dos 25 condenados

STF mantém penas de Valério e deputados

Mariângela Gallucci

BRASÍLIA - Os ministros do Supremo Tribunal Federal confirmaram ontem as penas estabelecidas para os deputados José Genoíno (PT-SP) e Pedro Henry (PP-MT) e para o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza por envolvimento com o escândalo do mensalão.

Com a sessão, o STF contabiliza a análise de embargos declaratórios - recursos que apontam incongruências no julgamento - de 17 dos 25 condenados.

A expectativa entre os ministros é de que o julgamento de todos os recursos seja encerrado nas próximas semanas. Antes disso, porém, eles terão de decidir se vão aceitar ou não os chamados embargos infringentes - recursos que pedem novo julgamento no caso de condenação com placar apertado.

Ao concordar com a pena de 6 anos e 11 meses imposta a José Genoino, o ministro Luís Roberto Barroso, novato no STF, criticou o sistema político brasileiro e disse lamentar o fato de ter de condenar um homem que participou da resistência à ditadura e do processo de reconstrução democrática. Barroso ressaltou que, ao que tudo indica, Genoino vive modestamente.

"Temos um sistema político distorcido e perverso, indutor da criminalidade. De um lado, há parlamentares eleitos em campanhas de custos estratosféricos, que transformam o Parlamento em um balcão de negócios. E, de outro lado, condenados por corrupção ativa, líderes do governo, querendo implementar a sua agenda política - reformas como a da Previdência, Tributária -, e comprando aquilo que consideravam o interesse público. Essa é a dura realidade: um modelo político no qual o interesse público frequentemente precisa ser comprado", afirmou o ministro.

Rigor. Pedro Henry teve confirmada a pena de 7 anos e 2 meses de prisão. No caso de Marcos Valério, os ministros rejeitaram a alegação de que a Corte teria fixado pena muito rigorosa para o crime de formação de quadrilha com o objetivo de evitar a prescrição e, consequentemente, garantir a punição do réu.

Revisor do processo, Ricardo Lewandowski afirmou que a pena para esse delito, estabelecida no caso de Marcos Valério em 2 anos e 11 meses, foi fixada em patamares muito superiores às punições impostas para outros crimes. Para ele, o STF alargou a pena apenas para que o crime não fosse prescrito. "Não poderia a Corte aumentar a pena paia escapar da prescrição", afirmou Lewandowski.

Presidente do STF e relator do processo, o ministro Joaquim Barbosa rebateu os argumentos e disse que a fixação da pena ocorreu de forma transparente. "(Valério) era simplesmente o pivô de todas as tramas", disse.

A decisão de ontem reforça a percepção de que o ex-ministro José Dirceu, considerado o chefe de uma quadrilha formada para comprar apoio político para o governo Luiz Inácio Lula da Silva, não deve ter sucesso na sua tentativa de reduzir a pena por formação de quadrilha.

Os ministros também analisais m o valor da multa imposta a Marcos Valério. Eles alteraram o montante, fixado originalmente em R$ 3,29 milhões, para R$ 3,06 milhões. Havia dúvidas sobre a quantia porque o valor havia sido impresso incorretamente num treeho do acórdão.

Fonte: O Estado de S. Paulo

De olho na inflação: Juro sobe, e poupança muda

Num cenário de dólar em alta e de inflação elevada, os diretores do Banco Central tomaram a decisão unânime de subir os juros de 8,5% para 9% ao ano. Foi a quarta alta seguida, e a nova taxa faz a caderneta voltar a ser corrigida pela variação da TR mais 0,5% ao mês: ela deve perder para CDBs e fundos DIs

Para segurar inflação, BC sobe juros a 9%, na 4ª alta seguida

Decisão mira controle de preços em 2014. Analistas apostam em novo aumento

Gabriela Valente, Ronaldo D"Ercole e João Sorima Neto

BRASÍLIA E SÃO PAULO - Mesmo com o cenário econômico cada vez mais turbulento e incerto, o Banco Central decidiu manter o plano de voo e aumentou a taxa básica (Selic) em 0,5 ponto percentual. Por unanimidade, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou os juros de 8,5% para 9% ao ano. Foi a quarta alta seguida e a terceira nessa proporção. A decisão foi tomada num ambiente repleto de dúvidas sobre a economia mundial e sobre os reflexos no Brasil. No radar da cúpula do BC, estão uma possível guerra na Síria, a pressão sobre o dólar por causa do fim dos estímulos à economia americana, uma provável alta da gasolina e novas ameaças à inflação brasileira como a seca nos EUA.

Após a reunião, que terminou mais cedo do que de costume, o BC publicou exatamente o mesmo comunicado divulgado nos dois encontros anteriores. No curtíssimo texto, disse que a decisão mira no controle dos preços em 2014. Com isso, os diretores deram a entender que continuarão a subir os juros na mesma dose usada ontem.

"O comitê avalia que essa decisão contribuirá para colocar a inflação em declínio e assegurar que essa tendência persista no próximo ano", afirmou o Copom em nota.

- A decisão, em linha com que esperava o mercado, e o mesmo teor do comunicado mostram que eles entendem que o ritmo é adequado e a aposta óbvia é que haverá mais uma alta de 0,5 ponto percentual - afirmou o economista-chefe do Santander, Maurício Molan.

Para o economista-chefe da corretora Gradual, André Perfeito, o Copom deveria ter sido mais claro. Ele apostava que o BC usaria a comunicação para atacar um dos principais problemas da inflação: o aumento das previsões dos agentes econômicos que contaminam as projeções de preços.

- O Copom perdeu uma chance maravilhosa de ancorar melhor as expectativas com um comunicado mais explícito - criticou.

Fiesp e Firjan cobram melhora na política fiscal

Apesar de a maioria do mercado esperar esse desfecho, alguns especialistas passaram a admitir anteontem a possibilidade de uma alta mais intensa, de 0,75 ponto percentual. A hipótese surgiu por causa da alta do dólar. Quanto maior a cotação da moeda americana, mais pressão para a inflação, já que o Brasil é um grande consumidor de produtos importados.

Para o ex-diretor do BC Alexandre Schwartsman, o câmbio é o fator doméstico mais perigoso. Ele ressalta que, apesar da queda da moeda americana ontem, que fechou em queda de 0,84% a R$ 2,348, o patamar do dólar é bem mais alto do que o de julho, quando estava em R$ 2,25. Apesar do cenário de tensão no mercado internacional com a perspectiva de uma intervenção militar na Síria, operadores justificaram a queda do dólar citando as intervenções programadas do Banco Central no mercado futuro até o fim do ano. No mercado de ações, a Bolsa registrou o terceiro pregão de queda, com desvalorização de 0,45%, aos 49.866 pontos.

Schwartsman lembra que as altas dos juros feitas agora não combatem o efeito imediato do dólar nos preços internos, porque demora uns seis meses para o remédio do BC começar a fazer efeito. E justamente por causa dessa defasagem, o economista afirma que não espera que o Copom promova todo o aumento dos juros necessário para conter a inflação.

- O Banco Central tem restrições políticas para isso. Estamos em ano pré-eleitoral e como os próximos aumentos dos juros terão impacto só no ano que vem, primeiro no crescimento e só depois nos preços, duvido que o BC irá até onde for preciso - disse Schwartsman.

Após a ação do BC, o Brasil ficou em terceiro lugar no ranking de juros reais, com uma taxa de 2,8% ao ano, atrás de Chile (3,1%) e China (3,3%). Os dados são do site de informações financeiras Moneyou, com informações de 40 países.

- Nossa taxa real está impactada pela perspectiva de inflação mais forte nos próximos 12 meses. Embora estejamos de novo subindo os juros, não significa que vamos retomar a atração dos investidores externos no curto prazo, por causa dos riscos regulatórios que veem no Brasil atualmente -disse o economista Jason Vieira, diretor da Moneyou.

Na previsão dos economistas ouvidos semanalmente pelo Banco Central, os diretores do Copom ainda subirão os juros mais uma vez. Se isso ocorrer, a taxa chegará a 9,5% ao ano.

Mesmo com a deterioração das expectativas, Perfeito acredita que a decisão de manter a dose do remédio contra a inflação estava dada, porque além das incertezas, o BC deve esperar novos dados da economia brasileira, como o crescimento do segundo trimestre, que será divulgado amanhã.

As principais entidades empresariais cobraram do governo mas rigor na política fiscal para restabelecer o equilíbrio da inflação sem sacrificar a economia com juros mais altos. Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (FIesp), disse que o Copom "errou novamente" ao elevar a Selic diante do "quadro letárgico" da economia.

- Não é hora de subir juros. Há muito tempo pedimos mudanças na política econômica, na direção de maior controle de gastos e menos uso da taxa de juros - disse Skaf.

Em comunicado, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) insiste na necessidade de correção no mix de políticas do governo, "de forma que a política fiscal contribua no combate à inflação e na retomada da confiança dos empresários e investidores estrangeiros".

As centrais sindicais engrossaram o coro de críticas à decisão do Copom. Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força Sindical,disse que elevar a Selic "só contribui para a redução de investimentos no setor produtivo, obrigando o governo a pagar mais juros a especuladores".

Fonte: O Globo

Campos e Aécio inauguram 'aliança tática' contra Dilma

Potenciais rivais em 2014, pré-candidatos se unem em críticas ao governo federal

Natuza Nery

BRASÍLIA - O governador Eduardo Campos (PSB-PE) e o senador Aécio Neves (PSDB-MG), virtuais adversários em 2014, ensaiam parceria temporária para fortalecer seus nomes à disputa presidencial. Aliados querem que eles evitem agressões mútuas e estabeleçam, sempre que possível, convergência nas críticas ao governo Dilma Rousseff.

Hoje, Campos receberá o tucano para um jantar no Recife (PE), como antecipou ontem a coluna Painel. A ideia é mudar a pauta dos encontros regulares que realizam.

Diálogo recente entre o governador de Pernambuco e o senador mineiro mostra quão afinados estão os dois virtuais candidatos ao Planalto.

"Você é oposição, e eu sou aquele que reconhece quando há acertos [do governo federal]", disse o pernambucano ao mineiro há pouco mais de dois meses.

"Esquece, Eduardo, esse sou eu, pô! Só dar porrada é discurso vazio", retrucou, sorrindo, o tucano.

Nos últimos dias, Campos e Aécio fizeram críticas muito parecidas ao Planalto e à própria presidente Dilma, de quem o governador socialista ainda é formal aliado.

Campos preside o PSB, partido com cargos no segundo escalão federal e dois ministérios (Integração Nacional e Secretaria de Portos).

Auxiliares do pernambucano afirmam que as declarações não foram combinadas. Reconhecem, contudo, que as críticas em dose dupla ganham dimensão maior na imprensa e podem aprofundar o desgaste da petista.

Interlocutores de ambos os lados dizem que a proximidade não significa um pacto de não agressão. Mas nenhum deles mostra vontade de tratar o outro como rival agora.

Até porque o limite dessa "parceria tática", como definiu um aliado do pernambucano, são os números das pesquisas. Ou seja: se um disparar sobre o espólio eleitoral do outro, o acordo evapora. O jantar de hoje é justamente para retardar, ao máximo, esse momento.

Outro tema do encontro são eventuais conflitos em candidaturas do PSDB e do PSB nos Estados. Em Minas, Campos quer que o prefeito Márcio Lacerda, seu correligionário, dispute o governo. Ocorre que Lacerda é aliado de Aécio. Há desafios em São Paulo, no Paraná, na Paraíba, mas também muito esforço para compor palanques onde for possível.

Fotografia

Afora as demandas objetivas, socialista e tucano querem explorar o simbolismo do encontro. Ao mostrar afinidade, eles indicam que uma aliança em um eventual segundo turno é um caminho natural. Isso fortalece a perspectiva de poder de ambos.

Os dois têm desempenho modesto nas pesquisas. Em um dos cenários da pesquisa Datafolha de 10 de agosto, Aécio tinha 13% de intenção de voto. Campos, 8%.

Fonte: Folha de S. Paulo

Aécio obtém apoios e isola Serra até em São Paulo

Senador mineiro desembarca hoje na capital para encontro com bancada da Assembleia

Pedro Venceslau, Lilian Venturin e Ricardo Chapola

O senador mineiro Aécio Neves isolou o ex-governador paulista José Serra até em São Paulo. Serra, que tem se movimentado a fim de viabilizar seu nome para disputar o Planalto em 2014, não conta com apoio explícito de nenhum dirigente local. A maioria já embarcou nas pretensões presidenciais de Aécio.

Até os aliados mais próximos de Serra, alguns deles membros da executiva nacional, reconhecem que ele está agindo sozinho, enquanto Aécio avança no quintal do ex-governador.

Depois de ser apresentado como candidato à Presidência no sábado por prefeitos e parlamentares tucanos em Barretos, no interior paulista, Aécio desembarca hoje na capital para uma reunião com os 22 deputados estaduais do PSDB e os cinco membros da direção nacional originários de São Paulo.

O grupo vai almoçar numa tradicional cantina da cidade. O evento foi articulado pelo deputado federal Duarte Nogueira, presidente do PSDB estadual e operador político de Aécio.

O Estado conversou com 13 dos 22 parlamentares da bancada do PSDB na Assembleia e todos consideram que o senador mineiro é o nome mais viável para enfrentar a presidente Dilma Rousseff no ano que vem.

A bancada tucana na Assembleia diz ter "simpatia" e "amizade" por Serra, mas reconhece que ele está hoje completamente isolado dentro da legenda.

"O Serra, se for humilde, sai como candidato a deputado federal e ajuda o partido a ter 2 milhões de votos. Isso a nossa bancada na Câmara", afirmou o deputado Antonio Souza Ramalho, conhecido como "Ramalho da Construção". No círculo de amigos mais próximos de Serra prevalece a tese de que o ex-governador não levará até as últimas consequências sua cruzada contra Aécio para disputar pela terceira vez a Presidência - ele foi derrotado em 2002 e 2010.

O ex-governador paulista não descarta, porém, desembarcar do PSDB e se filiar ao PPS para disputar o Planalto no ano que vem. Isso teria de ocorrer até o final de setembro, a fim de que seja respeitado o princípio da anualidade - todo candidato precisa estar filiado há pelo menos um ano a um partido para que possa disputar eleições por ele.

Contido. Nas palavras de aliados, Aécio deve ser mais "contido" no almoço de hoje do que foi sábado em Barretos, quando subiu no palanque a anunciou que começava ali "a caminhada do PSDB rumo à Presidência".

O ex-governador Alberto Goldman, serrista histórico, confirmou presença no almoço, apesar de se dizer contrariado com a iniciativa da bancada. Serra disse ontem, por meio de assessores, que não tinha conhecimento do encontro do mineiro com os deputados estaduais.

Apesar de admitirem a franca vantagem de Aécio na disputa, 9 dos 13 deputados ouvidos pela reportagem são favoráveis à realização de prévias. O deputado Roberto Engler disse que o fato de recepcionar bem Aécio não quer dizer que esteja fechado em torno do nome do mineiro.

"Vou recebê-lo bem, mas isso não quer dizer que eu tenha uma preferência. O jogo não está posto ainda", completa o deputado Roberto Engler. "Serra é o homem mais preparado do Brasil, mas agora é a vez de Aécio", afirmou o deputado Pedro Tobias, ex-presidente estadual do PSDB. No último sábado, Tobias apareceu no palanque de Aécio em Barretos com uma camiseta onde se lia: "Sou Aécio".

Para o deputado Orlando Morando, ignorar eventuais prévias fará com que Serra atormente a campanha de Aécio em 2014. "Aécio sabe que Serra pode ser uma pedra no caminho. O senador vai tomar estocada a campanha inteira", disse.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Para Kassab, ex-governador vai se candidatar ao Planalto

Ex-prefeito diz que Serra é competitivo mesmo sem tempo de TV e em sigla menor

Fernando Rodrigues

BRASÍLIA - O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, diz acreditar que o ex-governador José Serra sairá do PSDB e se lançará candidato ao Planalto. Em entrevista à Folha e ao UOL, Kassab disse que o tucano Serra seria competitivo mesmo sem tempo de propaganda de rádio e TV numa legenda de menor expressão.

"Tem algumas figuras no Brasil que, no momento da sua vida, o partido já não é tão importante numa eleição presidencial", disse Kassab. Ele cita os ex-presidentes Lula e FHC, além de Serra.

"Todos sabem quem é o Serra, o que ele pensa", diz Kassab, que faz elogios ao tucano, de quem foi vice-prefeito em São Paulo.

Apesar das declarações, Kassab disse que "Serra sabe" que "a tendência" do PSD, "é apoiar a reeleição da presidente Dilma". Há a possibilidade de o tucano se filiar ao PPS, partido com apenas 11 deputados e presença diminuta no horário eleitoral.

Kassab disse ainda que deve ser candidato ao governo de São Paulo em 2014 e que o PSD perderá quatro ou cinco deputados para novas siglas.

Fonte: Folha de S. Paulo

Aécio ironiza Dilma em BH

Baptista Chagas de Almeida

O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, reagiu com ironia ao comentar a visita da presidente Dilma Rousseff (PT) a Belo Horizonte na terça-feira. "Ao atender os pedidos para comentar a visita da presidente Dilma a Minas, não vou me deter ao fato de ela ter trocado o nome da cidade de Belo Horizonte por Porto Alegre", disse Aécio. Ele atacou os recursos destinados ao estado pelo PAC das Cidades Históricas, alegando que aqui estão cerca de 60% dos bens tombados no país, mas que o valor prometido equivale a apenas 16% dos recursos do programa.

Em seguida, Aécio destacou que a participação da presidente na abertura do Centro Cultural Banco do Brasil, o sexto equipamento do Circuito Cultural Praça da Liberdade aberto desde 2010. E salientou: "Teve a oportunidade de conhecer e elogiar o nosso projeto".

O senador, porém, voltou ao ataque: "É pena que não tenha sido dada oportunidade, durante o evento, para que integrantes do seu partido pudessem fazer uma autocrítica, já que durante todos esses anos fizeram duras críticas ao Circuito Cultural". E, ao dar "as boas-vindas" ao CCBB, Aécio mais uma vez, ironiza: "o projeto demonstra o poder transformador das parcerias, que têm sido marca dos governos do PSDB".

Fonte: Estado de Minas

Eduardo, Aécio e a sucessão

Encontro entre o governador pernambucano e o senador mineiro - dois presidenciáveis contra Dilma - é articulado para hoje

Carolina Albuquerque

Depois da troca de sinais, em público, entre o governador e presidenciável Eduardo Campos (PSB) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é a vez de se encontrar com a ala tucana. Um jantar está sendo preparando na casa do líder socialista, hoje, para receber o senador tucano Aécio Neves (PSDB-MG), também presidente nacional do partido - um encontro de presidenciável com presidenciável. A reunião política entre os dois, que nutrem uma forte amizade, foi articulada pessoalmente pelo deputado federal Sérgio Guerra, presidente estadual do PSDB.

A vinda de Aécio ao Recife vinha sendo ventilada desde junho. Na época, chegou a ser confirmada, mas com as manifestações de rua daquele mês foi adiada. A nova tentativa de articular o encontro foi confirmada ontem por Guerra, que estava em São Paulo e anunciou a notícia pelo seu twitter. O deputado federal deve chegar hoje, no final da tarde, no Recife, acompanhado do presidenciável tucano.

"Em São Paulo. E a confirmação de que o PSDB está mais unido que nunca. Amanhã chego ao Estado para um jantar com Aécio e Eduardo", anunciou Guerra, na rede social. Ainda que o jantar transcorra num clima informal, na residência do governador, as conversar devem enveredar para a conjuntura política. Embora possíveis adversários na eleição presidencial de 2014, os dois têm trocado vários sinais de afinidade. Ainda no ano passado, uniram os discursos na defesa de um novo pacto federativo no País. Em bases distintas no plano federal, dividiram o palanque em importantes cidades na eleição municipal de 2012, como Belo Horizonte e Campinas, onde a aliança derrotou candidatos apoiados por Lula e pela presidente Dilma Rousseff (PT). A mais recente sintonia foi a defesa do diplomata Eduardo Saboia, no episódio da vinda do senador boliviano Roger Pinto Molina ao Brasil.

De olho em 2014, os dois partidos também se movimentam nos planos estaduais em busca de palanques para sustentar a candidatura presidencial. Em São Paulo, Paraná e Minas Gerais, onde o PSB não tem nomes fortes para lançar ao governo do Estado, a possibilidade de caminharem juntos é bastante plausível.

A chegada de Aécio a Pernambuco ainda não marca o início de um calendário de viagens pelo Nordeste. Para Guerra, o presidente nacional do PSDB precisa chegar mais perto da realidade da região, porém, essa agenda ainda está sendo fechada para breve e muito indica que o pontapé das andanças partirá de uma visita a Alagoas.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)