sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Bolsonaros só agem em benefício próprio, revela PF

O Globo

Mensagens deixam claro que objetivo de Eduardo e Jair é tão somente escapar da Justiça

São estarrecedoras as revelações do relatório da Polícia Federal (PF) que dão sustentação a mais um indiciamento de Jair Bolsonaro e seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). O documento expõe ações recentes de ambos para retaliar autoridades brasileiras responsáveis pelo julgamento da trama golpista marcado para setembro. Na forma e no conteúdo, as mensagens trocadas por pai e filho constituem um escândalo.

Em recados enviados na noite de 7 de julho, Eduardo deixa claro que sua única intenção é evitar a prisão do pai. Tudo gira em torno — e em benefício — da família Bolsonaro, a ponto de ele descrever como erro a anistia aos condenados por participar dos ataques violentos do 8 de Janeiro. “Se a anistia light passar, a última ajuda vinda dos EUA terá sido o post do Trump”, escreve. “Temos que decidir entre ajudar o Brasil, brecar o STF e resgatar a democracia OU enviar o pessoal que esteve no protesto que evoluiu para uma baderna para casa num semiaberto.”

E se nóis ganhá? Por José de Souza Martins

Valor Econômico

A crise econômica prevista abre brechas para o que não é econômico, mas combinação de irresponsabilidade social e política 

A língua brasileira, isto é, o português falado com sotaque nheengatu e impregnado de palavras do tupi antigo, contém segredos em que o que está sendo dito pode dizer mais do que se pensa. Na verdade, somos bilíngues. Escrevemos uma coisa e pensamos outra.

A linguagem oculta incertezas próprias da duplicidade. Além do que, as escravidões que tivemos e sua cultura da sujeição e do medo nos ensinaram mais a perguntar do que a afirmar.

Nós nos rebelamos nas insurreições sutis, a dos meandros. A língua brasileira, um tanto diversa da língua portuguesa, já é em si mesma uma rebelião: a rebelião das vogais contra as consoantes. Na palavra “ganhá”, na falta do erre do infinitivo, o ganhar não significa precisamente vencer um conflito, mas perdê-lo.

Em sua “Caderneta de campo”, na Guerra de Canudos, Euclides da Cunha anotou respostas de prisioneiros interrogados e degolados em seguida pelo Exército: “E eu sei?”. Ou: “Tem, não” — concordar para discordar.

Lula tripudia, mas o futuro é incerto, por Andrea Jubé

Valor Econômico

Duas questões exigirão atenção máxima dos governistas: o risco de vitimização de Bolsonaro e a CPMI do INSS

Com a política em chamas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tripudiou ontem, no interior paulista: “Um mandato do Lula incomodou muita gente, dois mandatos incomodaram muito mais, três mandatos muito, muito mais, imagina se tiver o quarto mandato”.

Lula faz graça quando todos estão doidos por uma certeza inapelável e fatal do destino do país após as eleições de 2026. Voltando no tempo, quando a Europa era um barril de pólvora em meados dos anos 30, a apreensão era tamanha que o então vice-cônsul em Hamburgo, Guimarães Rosa, decidiu consultar-se com Frau Heelst, a famosa horocopista de Hitler. Perguntou à astróloga se haveria guerra. Conto a resposta no final da coluna.

Eduardo Bolsonaro vendeu um terreno na lua para Trump, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Deputado deixa claro que apoio americano não terá continuidade se não tiver como efeito uma anistia que devolva seu pai ao jogo

As reiteradas vezes em que o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) diz ao pai que a manutenção do apoio do governo americano ao bolsonarismo está condicionada a uma anistia ampla e irrestrita, sugere que o deputado vendeu, à Casa Branca, um terreno na lua: as medidas contra o Brasil seriam capazes de colocar o único aliado incondicional de Donald Trump na Presidência, a própria família.

Dois dias antes de anunciar o tarifaço, Trump publica mensagem acusando a “perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro e defendendo sua candidatura à Presidência da República, Eduardo Bolsonaro diz que caso viesse uma “anistia light”, ou seja, que não incluísse seu pai, esta mensagem seria a última ajuda do presidente americano: “Eles não irão mais ajudar”. As manifestações constam no relatório da Polícia Federal, no inquérito em que pai e filho são indiciados por suspeita de obstrução do julgamento da ação sobre tentativa de golpe de Estado.

Pesquisa Genial/Quaest mostra que Lula se beneficia da radicalização bolsonarista, por César Felício

Valor Econômico

Segundo levantamento de agosto, petista ganha no segundo turno em todos os cenários

pesquisa Genial/Quaest de intenção de voto na eleição presidencial de 2026 ajuda a explicar a quem beneficia, em um primeiro momento, a radicalização do país estimulada pela agressão externa protagonizada pelo americano Donald Trump. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ganha no segundo turno em todos os cenários, mas avança mais contra as alternativas da oposição com o sobrenome Bolsonaro, todas indissociáveis do tarifaço.

De acordo com o levantamento divulgado na quinta-feira, Lula consegue 47%, ante 35% que preferem o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) inelegível por decisão da justiça eleitoral, réu em ação penal por golpismo e indiciado na quarta-feira (20) pela Polícia Federal por coação à justiça.

O pedágio caro de Tarcísio, por Vera Magalhães

O Globo

Governador está disposto a cumprir périplo desgastante para receber a unção de Bolsonaro, embora ainda alimente dúvidas quanto à candidatura a presidente

Num vídeo que viralizou nas redes sociais, o PT paulista critica Tarcísio de Freitas pelo novo modelo de pedágios nas estradas de São Paulo. Com uma paródia de uma música infantil conhecida, a peça mostra uma montagem do governador dançando ao som de:

— Um, dois, três pedaginhos; quatro, cinco, seis pedaginhos, 150 ou mais.

Diante dos mais recentes desdobramentos das investigações sobre Jair e Eduardo Bolsonaro, acusados de tentar coagir ministros do Supremo Tribunal Federal e interferir no julgamento da trama golpista, fica evidente que pedágio caro, mesmo, é o que o republicano está disposto a pagar para receber a unção do ex-presidente como seu candidato à Presidência no ano que vem.

Ofendido por Eduardo, Tarcísio reagiu fazendo um desagravo à família e chamando de briga entre pai e filho conversas que evidenciam uma série de afrontas a decisões judiciais. Não é o primeiro sapo que ele engole sem fazer cara feia desde que começou a flertar mais abertamente com a candidatura. Até ser intermediário de uma tentativa de liberar o passaporte de Bolsonaro Tarcísio já aceitou.

Quadrilha, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ofensiva contra STF é para salvar ex-presidente, não quem cometeu crimes em seu nome

Na “Quadrilha” de Drummond, João amava Teresa, que amava Raimundo, que amava Maria. Na quadrilha de Bolsonaro, Malafaia xingava Eduardo, que xingava Jair, que xingava os ministros do Supremo...

A investigação da Polícia Federal expôs as entranhas do clã às vésperas do julgamento pela tentativa de golpe. Além da baixaria e dos palavrões, o que emerge do inquérito é uma família em desespero, disposta a sabotar o país e os próprios aliados para tentar escapar da cadeia.

Algo à parte, por Pablo Ortellado

O Globo

É preciso separar a militância política da independência e do discernimento exigidos pela escrita

Nestes tempos difíceis, é preciso separar a militância política da independência e do discernimento exigidos pela escrita. É necessário separar essas duas dimensões da vida — a reflexão crítica e a política —, fazendo do trabalho do escritor algo à parte. Essa é a lição que George Orwell nos ensina em “Os escritores e o Leviatã”, um ensaio que precisa ser recuperado à luz dos desafios do tempo presente. Hoje, o exercício do pensamento exige enfrentar três desafios essenciais: uma Justiça fratricida, temas tabus e identidades hipertrofiadas.

Crise envolve militares, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Ao ‘adiar’ operações militares, governo Lula adia na prática as relações com os Estados Unidos

Por mais que as Forças Armadas e o Itamaraty tentem manter frieza e minimizar o envio de navios dos EUA à costa da Venezuela e de um avião branco, sem bandeira e com agentes da CIA, ao sul do Brasil, é claro que os movimentos de Donald Trump em direção ao mundo, à América Latina e diretamente à América do Sul e ao Brasil não são naturais nem tradicionais.

A última operação militar americana na região foi o Plano Colômbia, contra os cartéis colombianos, um quarto de século atrás. Com uma diferença crucial: foi uma ação combinada entre os governos dos EUA e da Colômbia, com apoio internacional, não de um governo contra o outro, como agora, o que afeta todos os países da região.

Trump bem na foto, mal no filme, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Quem olha para a foto vê o presidente Trump como grande vencedor. Impôs o tarifaço, com reações mínimas das vítimas globais; bem ou mal, estancou a imigração indesejada por ele; o Congresso faz as suas vontades, a começar pela aprovação da lei fiscal, a tal Big and Beautiful Bill; aos poucos, vai impondo seus pontos de vista ao Judiciário.

Até agora, as empresas prejudicadas vêm engolindo o tarifaço, quase sempre com casca e tudo. Nenhum agrupamento político global conseguiu uma ação conjunta capaz de reverter a atual política comercial dos Estados Unidos. País por país, bloco por bloco, vai prevalecendo o princípio do “meu pirão, primeiro” ou, então, o de que “nada é ruim o suficiente que não possa piorar”. Assim, Trump vai marcando um gol atrás do outro.

Bolsonaro e os R$ 44 milhões, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Dinheirama do capitão da extrema direita causa mais impressão do que conspiração relatada pela PF

Coação e obstrução de Justiça são palavras e ideias complicadas. No liquidificador da razão das redes sociais, podem virar um mingau de besteira lunática. Os indiciamentos de Jair Eduardo Bolsonaro por conspirarem contra o processo legal podem ser cozinhados como papa de narrativas. Além do mais, para quem não acompanha as minúcias do processo, podem parecer coisa velha (não são coisa velha).

No entanto, algo se move, um passinho adiante, embora um para frente e dois para trás seja uma dança recorrente na vida brasileira, em particular depois de 2013. A conspiração dos Bolsonaro para induzir Donald Trump a atacar o Brasil parece ter tirado uns pontos na votação de Bolsonaro nas preferências eleitorais, como indica a pesquisa Genial/Quaest. Pode piorar.

Presidentes na berlinda, por Dora Kramer

Folha de S. Paulo

Perda do comando da CPI mista do INSS expõe erosão do capital de autoridade de Motta e Alcolumbre

Mais que um fiasco da base governista, a perda do comando da CPI mista do INSS foi uma derrota pessoal dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado.

Davi Alcolumbre (União-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB) levaram um passa-moleque inédito e surpreendente para comandantes do Congresso eleitos há poucos meses em situação de quase unanimidade.

O debate sobre o Bolsa Família, por Bráulio Borges

Folha de S. Paulo

Programa é favorável para o bem-estar, mas deve sempre ser aprimorado e avaliado

Antes de falar sobre o tema que está no título deste artigo, acho que vale lembrar o leitor de que, dentre os economistas ortodoxos, eu sou considerado um heterodoxo, ao passo que, entre os heterodoxos, eu sou considerado um ortodoxo. Isso significa dizer que eu não faço parte de nenhum desses "times". Na verdade, o meu time é o das evidências: estou sempre tentando manter meu conhecimento atualizado à luz de novos estudos e dados.

Em várias colunas anteriores neste jornal, eu critiquei o teto de gastos criado em 2016, apontando que ele é muito superestimado pelos "ortodoxos", já que aquela regra fiscal não entregou melhoria do primário estrutural nem impediu a dívida pública/PIB (Produto Interno Bruto) de subir continuamente durante vários anos (só caiu em 2021/22 em razão do calote implícito gerado pela inflação de quase dois dígitos naquele biênio).

Alarmismo com ataque de Trump não está exagerado? Por Marcos Augusto Gonçalves

Folha de S. Paulo

Apesar de riscos, nervosismo politizado tende a inflar crise que pode se acomodar em patamares administráveis

A Casa Branca tem neste momento assuntos muito mais estratégicos e espinhosos a tratar em sua agenda externa, como a guerra entre Rússia e Ucrânia, do que os destinos de Jair Bolsonaro. Ainda assim, a representação pseudo-diplomática em Brasília e funcionários da tropa de choque reacionária de Washington tentam sustentar a fervura da crise com o Brasil.

Contam para isso com a ajuda de políticos entreguistas brasileiros, liderados por Jair e seu filho Eduardo, e de vozes assustadas ou mal-intencionadas. Surfam ainda, paradoxalmente, em manifestações pouco hábeis de agentes do Estado, caso recente do insubmergível ministro Flávio Dino, do STF, que não se conteve e gerou frenesi no mercado financeiro com o seu dispensável recado aos bancos.

Há, por outro lado, sinais menos dramáticos em cena, como a abertura de uma fresta para a negociação de contestações levadas pelo Brasil à OMC. Causou alguma surpresa, uma vez que os americanos sabotam a organização. A resposta, porém, foi clara ao manifestar disponibilidade para marcar a data de uma conversa.

Mensagens desmoralizam Bolsonaro, mostram poder de Malafaia e reforçam dilema de Tarcísio, por Fábio Zanini

Folha de S. Paulo

Ex-presidente tem projeto de se martirizar colocado em xeque; porto seguro da reeleição se torna tentador para governador de SP

Os diálogos de Jair Bolsonaro com o filho Eduardo e o pastor Silas Malafaia revelados pela Polícia Federal dificilmente terão grande impacto no julgamento do ex-presidente pela trama golpista no Supremo Tribunal Federal, uma vez que ali há muito tempo a sensação é de jogo jogado, com uma pesada condenação.

Nesse sentido, uma eventual prisão preventiva do ex-presidente em regime fechado apenas anteciparia uma consequência previsível.

O verdadeiro efeito da exposição das conversas é outro, e não menos importante para Bolsonaro: a sua desmoralização política e pessoal.

A leitura das mensagens é uma experiência que pode ser feita à luz freudiana de uma relação turbulenta entre pai e filho ou pela do controle psicológico exercido por um líder religioso sobre uma figura acuada. Em nenhuma das situações, Bolsonaro se sai bem.

O personagem durão e contestador do sistema sofre profundos arranhões em sua imagem. A frase "VTNC seu ingrato do caralho" de um explosivo Eduardo tem tudo para se tornar mais uma a grudar no ex-presidente como um dia foram "dei uma fraquejada" ou "e daí?, eu não sou coveiro".

Poesia | Sentimento do tempo, de Paulo Mendes Campos

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Música | H. Villa-Lobos: Choros nº 10 “Rasga Coração” | Coro e Orq. Sinf. da UFRJ - Reg.: Roberto Duarte

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Gastos fora da meta estimulam crise fiscal

O Globo

Crescimento da dívida pública é insustentável. Em breve, conta terá de ser paga por todos os brasileiros

Enquanto desfruta recuperação em seus índices de popularidade depois da reação ao tarifaço americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua a estimular com o maior descaso uma crise fiscal da maior gravidade no futuro. No atual mandato, a dívida pública deverá crescer 10 pontos percentuais e chegar a 82% do Produto Interno Bruto (PIB) — ante média de 65% nos países emergentes. O governo insiste em dizer que cumpre as metas fiscais. Esquece, porém, que só tem conseguido atingi-las graças a artimanhas. A cada dificuldade, exclui gastos novos do cálculo (o padrão se repete com o socorro pelo tarifaço). A despesa não é computada, mas continua alimentando a dívida. Nas finanças públicas, narrativas fantasiosas não têm o condão de mudar a realidade.

Há mais coisas no ar, por Merval Pereira

O Globo

A missão do avião americano foi autorizada pelo governo brasileiro numa hora dessas?

Há um avião misterioso pousando em aeroportos brasileiros e navios rumo à costa da Venezuela, levantando todo tipo de teorias conspiratórias. Sendo Donald Trump presidente dos Estados Unidos, todas podem ser verdadeiras. Os Estados Unidos invadirão a Venezuela a pretexto de combater o governo de Nicolás Maduro, a quem acusam de chefiar cartel de narcotráfico? A missão do avião americano foi autorizada pelo governo brasileiro numa hora dessas? Faz parte de alguma negociação secreta ou demonstração de boa vontade brasileira?

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino não precisava transformar em decisão com efeito vinculante sua posição pessoal sobre a aplicação da Lei Magnitsky contra seu colega, o ministro Alexandre de Moraes, mesmo porque a causa de que era relator tratava de uma disputa judicial na Inglaterra. A decisão de Dino, embora pareça uma defesa da soberania, é inútil em relação à Lei Magnitsky, que não tem vigência no território brasileiro. Ela vale no exterior, para instituições financeiras que tenham relação comercial com Moraes.

Para salvar o Legislativo, por Fernando Haddad Moura

O Globo

Congresso transparente e eficiente não é só desejável, como possível e urgente. É condição para que a democracia funcione

A última pesquisa Datafolha traz um recado direto e preocupante aos que ocupam vagas no Legislativo brasileiro: quase 80% da população vê o Congresso como espaço dedicado à defesa de interesses próprios. A reprovação dos parlamentares segue uma tendência crescente. Não se trata de uma oscilação pontual de imagem, mas de uma crise persistente de representação e confiança pública.

O sentimento de desconfiança em relação à política institucional não é recente, mas seu agravamento exige mais que discursos simbólicos. Reverter esse desgaste passa por mudanças estruturais no funcionamento dos mandatos: mais foco estratégico, mais compromisso com entregas concretas e mais transparência sobre o que o Congresso efetivamente faz — e pode fazer — pela população.

Água no chope dos governadores da direita, por Julia Duailibi

O Globo

Estar abraçado a Bolsonaro hoje na guerra comercial é estar abraçado a uma campanha contra o Brasil, e isso tem custo eleitoral

Com o julgamento de Bolsonaro batendo à porta, governadores de oposição deixaram o constrangimento de lado e colocaram o bloco na rua em busca de um naco do legado eleitoral do ex-presidente. A conta foi simples: bater no governo e enaltecer Bolsonaro, por maior que fosse o exercício retórico de defendê-lo no caso do tarifaço.

Os números recentes da pesquisa Quaest, no entanto, jogaram água no chope dos governadores. Quem pensava que seria um domingo no parque apoiar Bolsonaro terá de recalibrar a rota. Pelo menos agora. A pesquisa mostra que seu caráter tóxico, agravado no tarifaço, pode ser um obstáculo aos governadores com ambições de disputar a Presidência pela direita. Em suma, não dá para levar só uma parte do pacote. Bajular Bolsonaro significa levar o pacote todo, incluindo uma bola de ferro que, hoje, vem dentro.

Alckmin diz que não vai desistir, por Míriam Leitão

O Globo

Vice-presidente disse que Brasil está sendo injustiçado e continuará tentando o diálogo com os Estados Unidos

Nossa vida ficou 6,4% melhor. Este é o percentual da exportação atingido pela decisão dos Estados Unidos de cobrar de todos os países a mesma alíquota nos produtos que contenham aço, cobre ou alumínio. Esta é a forma como o vice-presidente Geraldo Alckmin vê o trabalho de enfrentar o tarifaço americano. De grão em grão, partes das nossas vendas vão ficando nas exceções ou então no mesmo patamar dos outros países. “Não vamos desistir, vamos continuar negociando permanentemente”, diz Alckmin. As portas estão fechadas, as mesas vazias, mas ele repete o mantra, “negociar, negociar, negociar”.

O babaca que balança o pregão nacional, por Maria Cristina Fernandes

Valor Econômico

Malafaia deu a definição mais precisa sobre o deputado que abalou o mercado

O Real recuperou parte da valorização que havia perdido ante o dólar, o Ibovespa voltou a subir e as ações dos bancos, com uma única exceção, o BTG, registraram uma tímida recuperação. O respiro veio junto com a reabertura de canais entre o sistema financeiro e o Supremo Tribunal Federal que, ao longo da escalada da terça-feira, pareciam incontornavelmente obstruídos.

A decisão do ministro Flávio Dino, que se limitou a reafirmar dispositivo vigente na legislação brasileira há décadas, o de que uma decisão estrangeira precisa ser ratificada por tribunal nacional para valer no país, foi protocolada no STF às 11h57 da segunda-feira. Houve algum nervosismo ao longo tarde, mas foi só na terça que o mercado financeiro, ante a perspectiva de um embate entre a toga e o pregão e de um relatório de banco aqui outro acolá, acordou.

Poucos podem poupar no Brasil, por Pedro Forquesato

Valor Econômico

Baixa poupança em muito precede o Estado de bem-estar social no Brasil

Em um artigo escrito para o Valor em 13 de agosto de 2025, “Poucos precisam poupar no Brasil”, o professor Nilson Teixeira, ainda que em um artigo no qual concordamos em vários pontos, infelizmente ajuda a perpetuar algumas visões equivocadas sobre o efeito de políticas de seguridade social na taxa de poupança geral da economia que é preciso que sejam desmitificadas.

Realmente, é um fato já bastante debatido que o Brasil poupa muito pouco em comparação a outros países em desenvolvimento, e que essa característica de nossa economia pode ajudar a explicar a incapacidade do país de manter uma taxa de crescimento do PIB que seja consistente com um movimento de “catching-up” em relação às economias desenvolvidas.

A direita em marcha, por William Waack

O Estado de S. Paulo

O grande jantar em Brasília na última terça feira talvez acabe valendo como a data formal para uma “largada” dos grupos de centro e centro-direita para as eleições de 2026. Afinal, quem podia ser considerado presidenciável por esse largo espectro compareceu (menos alguém com sobrenome Bolsonaro), além dos caciques de pelo menos seis partidos.

Daí para se falar de uma estratégia comum é hoje apenas desejo. Ficou explicitada a existência de pelo menos duas grandes linhas de ação, mutuamente excludentes. Ou esse grande espectro vai para o embate com Lula carregando apenas um nome “de união”, ou vai cada grupo de centro-direita com seu nome e tentaremos ser unidos e felizes num segundo turno.

O ‘patriotismo’ do Outro (sim, com ‘O’ maiúsculo), por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Os pecados destes ‘patriotas’ talvez sejam redimidos pelo ente que paira ‘acima de todos’, menos de Trump. Mas poderá a nação brasileira anistiá-los por antecipação?

Os “patriotas” das arruaças, do culto às armas e das camisetas amareladas ganharam votos gritando “Brasil acima de tudo” e “Deus acima de todos”. Dupla pobreza de espírito. O primeiro slogan nunca passou de um plágio de mau gosto do bordão nazista Deutschland über alles (“Alemanha acima de tudo”). Quanto a “Deus acima de todos”, bem, nenhuma novidade. O Altíssimo assim é chamado por habitar supostamente píncaros celestiais insuperáveis. Quanto ao mais, o dístico nunca parou de pé: Deus deveria ser posto acima do Brasil ou seria o contrário?

Com o tempo, ficou evidente que os tais “patriotas” eram na verdade estrangeirotas: patriotas do estrangeiro. Um deles, em 2017, numa excursão à Flórida, chegou a bater continência para uma bandeira dos Estados Unidos estampada numa tela eletrônica. Ao microfone, o voluntário da servidão incondicional confessou: “A minha continência à bandeira americana”. Em 2019, o mesmo personagem arriscou um “I l ove you” para Donald

Ainda as emendas parlamentares, por Roberto Macedo

O Estado de S. Paulo

São inconstitucionais principalmente porque criaram dois tipos de candidatos a parlamentar, com e sem emendas

Há muito tempo escrevo contra as emendas parlamentares, até aqui sem sucesso, mas não desisto, pois constituem uma grande distorção de nossa vida política, por terem grande influência eleitoral. Desta vez tive ajuda do meu amigo Vilmar Rocha, que por 20 anos foi deputado federal por Goiás e como tal participou na revisão constitucional de 1993. Orientou-me sobre o que está na Constituição sobre essas emendas. É advogado e foi professor de Direito na Universidade Federal de Goiás.

Na área federal, essas emendas são de vários tipos, cresceram muito nos últimos cinco anos e alcançam hoje cerca de R$ 50 bilhões por ano. Tenho visto notícias de que também chegaram aos Legislativos dos Estados e municípios. Meus argumentos são pela inconstitucionalidade dessas emendas em seu conjunto. A proliferação delas começou via Emenda Constitucional n.º 100, de 2019, que, entre outros aspectos, tornou obrigatória a execução de emendas de bancadas e individuais, dentro de certos limites. A quem quiser conhecer mais a história das emendas sugiro ir ao Google Chrome e procurar por “emendas constitucionais que permitiram as emendas parlamentares”.

Os bancos e a blindagem do Xandão, por Celso Ming

O Estado de S. Paulo

Em sua longa volta para casa, o grego Ulisses passou por situações terríveis, relata Homero, em sua Odisseia. Lutou contra o gigante Ciclope, que tinha um só olho, no meio da testa; teve de se livrar das sereias traiçoeiras; enfrentou a feiticeira Circe, que transformou seus marinheiros em porcos; sofreu um naufrágio devastador; e teve de passar por Cila e Caribdis – dois rochedos no estreito de Messina, ambos tomados por monstros carniceiros. Quem escapa de Cila acaba trombando com Caribdis, cujas criaturas mataram seis marinheiros de Ulisses e por pouco não afundaram seu navio.

Setembro crítico para o Brasil, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Calendário do perigo tem julgamento de Bolsonaro e decisão do STF sobre sanções dos EUA

Por pelo menos um mês, haverá risco aumentado de que o ataque Trump-Bolsonaro contra a economia brasileira desvalorize o real, para começar. O risco de novas sanções está no calendário. Jair Bolsonaro será julgado em meados de setembro. O Supremo vai decidir a que problema estarão expostos os bancos que atuam no Brasil em caso de novos decretos americanos contra brasileiros.

dólar em queda pelo mundo e por aqui também tem sido um sedativo para as finanças, para a economia e, em alguma medida, até para a política do Brasil. Dólar mais barato atenua a inflação, anestesia humores ruins com o gasto público e diminui o amplificador das más notícias do Congresso para o governo. A carestia menor devolveria uns pontos de prestígio para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Brasília ferve a 40 graus, por Adriana Fernandes

Folha de S. Paulo

CPI do INSS é aviso de que não haverá votação fácil nem para a pauta econômica

Menos de 15 dias após o motim bolsonarista no Congresso Nacional, a derrota do governo e a traição aos presidentes da Câmara e do Senado na escolha de oposicionistas para comandar a CPI do INSS aponta um segundo semestre de grande instabilidade política na véspera de ano eleitoral.

Brasília ferve com a articulação na CPI, que representa também um aviso de que não haverá maioria fácil para as votações.

Às voltas com o problema do tarifaço de Donald Trump, o governo Lula achou que a CPI estava dominada e agora terá que lidar com a pressão da oposição nessa frente de desgaste no momento em que buscava retomar as votações e enviar dois projetos para regular as big techs.

Grito de bolsalidade, mal-estar na incivilização, por Conrado Hübner Mendes

Folha de S. Paulo

O movimento que embrutece, emburrece e empobrece

A bolsalidade se espraiou pela vida pública e privada. Ajudou a embrutecer pessoas doces e a emburrecer pessoas escolarizadas. Luta por empobrecer um país, por se apropriar da sua riqueza material e suprimir sua riqueza imaterial, aquela que faz pensar e sentir antes de falar e agir. Tenta perpetuar a soberania de hierarquias e subjugar uma sociedade diversa.

A bolsalidade empobrece um país enquanto enriquece suas forças coloniais, extrativistas e grileiras. Enquanto enfraquece o Estado, a legalidade, as políticas públicas e abre avenidas para o crime organizado e a corrupção. Enquanto esgarça argumentos e esvazia valores constitucionais.

Flávio Dino decidiu apenas o óbvio, por Thiago Amparo

Folha de S. Paulo

Leis de outro país não têm eficácia no Brasil se ofende a soberania nacional

Trocando o juridiquês por uma linguagem que humanos entendam, o que o ministro Flávio Dino decidiu é simples: no Brasil vale a lei brasileira, como nos EUA vale a lei americana. Em outras palavras: no Brasil, as pessoas —jurídicas ou físicas— estão sujeitas às normas adotadas pelo Legislativo e aplicadas pelo Judiciário das bandas de cá. Data vênia o alarde que causou, a decisão de Dino sobre leis e atos estrangeiros não tem absolutamente nada de novo, a rigor aplica-se às partes daquele caso, não a Moraes, e apenas repete o que a lei já diz.

Novos desafios à política exterior, por Maria Hermínia Tavares

Folha de S. Paulo

Estratégia externa requer cálculo fino, discreto profissionalismo e muita contenção na retórica

Os ferozes ataques desfechados por Donald Trump contra a democracia brasileira e o comércio bilateral do país com os Estados Unidos têm se revelado uma inesperada oportunidade de reafirmar alguns princípios que de há muito norteiam a política externa brasileira –e, com base neles, definir com a clareza possível estratégias globais e objetivos regionais.

As condições são especialmente delicadas por duas razões, pelo menos. Uma é a imprevisibilidade gerada pela conduta errática do truculento presidente norte-americano, que parece querer dar vida às representações mais caricatas do imperialismo que, ao tempo da Guerra Fria, inundavam os manuais do marxismo soviético e eram adotados, feito Bíblia, pelos simpatizantes da pátria do socialismo em toda parte. Com Trump, Tio Sam está de volta como farsa trágica.

Deus, pátria e família para palerma ver, por Ruy Castro

Folha de S. Paulo

Se as instituições se curvarem aos Bolsonaros, o Brasil pode reivindicar a 51ª estrela da bandeira americana

Os últimos acontecimentos deixam claro. Os Bolsonaros, pai e filhos, puseram as cartas na mesa e passaram a jogar aberto. Nem o slogan publicitário fascista "Deus, pátria e família", de que tanto se valeram, escapou. Já deve estar sendo aposentado tanto pelos pascácios, pessoas simplórias e bem intencionadas que acreditavam nele, quanto pelos espertos, que o usavam para tapear os ditos pascácios. Vejamos por quê.

Bolsonaros x Deus. Embora O invoquem o tempo todo, as verdadeiras relações entre Deus e os Bolsonaros são zero. Deus não admitiria entre os Seus um sujeito com a vulgaridade e falta de escrúpulos de Bolsonaro pai, defensor da tortura, dado a "pintar um clima" com vulneráveis e nitidamente hipócrita em suas atitudes diante da religião. Flávio Bolsonaro, por sua vez, comprador de mansões de R$ 6 milhões com dinheiro vivo oriundo de "rachadinhas", não passará pelo buraco da agulha.

Poesia | As sem-razões do amor, de Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Sinfonia do Rio de Janeiro de Billy Blanco e Tom Jobim - Arranjo e Regência Gilson Peranzzetta.

 

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Não faltam obstáculos para a paz na Ucrânia

O Globo

Europeus fazem bem em se mostrar unidos com Zelensky. Mas demandas de Putin mostram que ele quer guerra

Os principais líderes europeus fizeram bem em interromper as férias para participar na Casa Branca — em conjunto, com mensagem firme e clara — do encontro entre os presidentes americano, Donald Trump, e ucraniano, Volodymyr Zelensky. Afinados, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o chanceler alemão, Friedrich Merz, o presidente francês, Emmanuel Macron, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, demostraram uma união imprescindível em defesa da Ucrânia. Obtiveram de Trump a promessa de uma reunião futura de Zelensky com o russo Vladimir Putin, seguida de um insólito encontro trilateral, com o próprio Trump, para firmar um acordo de paz que encerre a guerra de mais de três anos.

Moraes não é o único alvo, por Vera Magalhães

O Globo

Consequências de aquiescer com o emprego extensivo de sanções podem atingir até os que hoje celebram castigos impostos a Alexandre de Moraes

Mesmo aqueles que fazem severos reparos às decisões de Alexandre de Moraes nos processos por ele relatados deveriam se preocupar com as consequências da aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro, ainda mais se prevalecer a extensão que alguns querem dar às sanções.

Para além do inaceitável precedente de uma nação pressionando outra a rever decisões de Poder Judiciário autônomo e independente deturpando o escopo de uma lei, os demais reflexos do tipo de submissão que pode ser exigido das instituições financeiras são um risco gravíssimo à soberania nacional e à segurança de todo o sistema bancário. Isso não diz respeito apenas a Moraes, mas a todas as autoridades e empresas e a cada cidadão brasileiro. Uma vez que se ceda sem resistência, qualquer um pode ser alvo.

Centrão com esteroides, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Supermáquina partidária nasce com discurso de oposição, mas não entrega cargos no governo

União Brasil e PP lançaram ontem uma supermáquina partidária. A federação nasceu com discurso oposicionista, mas já avisou que não vai entregar os cargos no governo. Continuará a comandar quatro ministérios, além da Caixa Econômica Federal e da Codevasf.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, descreveu a aliança como um “movimento político grandioso”. Por enquanto, trata-se de um grande negócio para seus dirigentes. Juntos, eles devem abocanhar quase R$ 1 bilhão do fundo eleitoral em 2026.

A União Progressista vai controlar as maiores bancadas da Câmara e do Senado, com 109 deputados e 15 senadores. Apesar do gigantismo, não deve lançar candidato próprio ao Planalto. “Temos grandes nomes, mas talvez não seja a hora de sermos a cabeça”, disse o presidente do PP, Ciro Nogueira.

Diplomacia americana faz presepada, por Elio Gaspari

O Globo

Os EUA já tiveram política externa, hoje têm eventos

O secretário do Tesouro dos Estados Unidos posou ao lado de Eduardo Bolsonaro no dia em que deveria ter mantido uma reunião virtual com o ministro Fernando Haddad. Não foi uma simples descortesia, foi uma presepada. Scott Bessent ocupa uma cadeira onde estiveram titãs das finanças americanas. Não há registro de episódios semelhantes.

Deve-se mandar ao arquivo qualquer ideia de negociação pública com o governo Donald Trump. Seu Salão Oval e seus ministros tornaram-se radioativos. O melhor a fazer é seguir o exemplo da China: poucas palavras e muita conversa reservada.

No caso do Brasil, Trump conseguiu um inimigo ideal. Lula fala dele dia sim, dia não. Ministros maravilhavam-se com a ideia de conduzir negociações até que Bessent fritou Haddad. Com o gosto trumpista pelo teatro, tiveram o reforço de Eduardo Bolsonaro, oferecendo-se para fotos e para o papel de irradiador de ameaças.