domingo, 11 de outubro de 2026

A infestação moral dos ratos, por Muniz Sodré

Folha de S. Paulo

A infestação na vida política agrava-se com a corrupção transformada em lepra moral, que já se naturalizou

O que seria o 'coração' da Pólis republicana, por arritmia burocrática com a nação, infartou.

A recordação de uma leitura da pequena infância ajusta-se ao dito de Machado de Assis de que "o menino é o pai do homem" (em "Memórias Póstumas de Brás Cubas"). Na reminiscência, desfia-se uma parlenda: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça / morava na roça / Por voracidade quis ir à cidade com toda essa troça / os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre / que habita o porão / da gorda ricaça Fifica Fogaça / que tem na despensa / mui ricas pitanças pra suas papanças / e nem sequer pensa / que os quatro fedelhos de Rafo Rafelhos / de noite aí vão..."

Dá para adivinhar o resto, uma fábula de predação.

Curioso que o baú mnemônico guarde ao pé da letra a lenga-lenga infantil de uma escolinha do cafundó nordestino. Mas lembranças engarrafadas às vezes se destapam em susto ou sorriso, como no aforismo nietzscheano da "festa da memória". Brasília evoca essa cidade para onde acorrem predadores ávidos pelas "pitanças" do poder, isto é, o assalto à "despensa" das verbas públicas e o acesso corruptivo aos donos da mais-valia decisória: dirigentes, parlamentares, juízes. No escurinho dos porões.

A lembrança da fábula foi provavelmente ativada pela fácil analogia entre "o porão da gorda ricaça" e o "cofre da Viúva" (Elio Gaspari). Também não terá sido coincidência a voracidade da família de Ratusca Boduça e dos quatro Rafelhos com o notório clã de predadores políticos. Até agora, eles amealharam um patrimônio imobiliário escandaloso, navegando no fluxo corruptivo de milhões de dólares. Uma peste moral.

Por isso, o flagelo cabe na alegoria de ratos mortos nas ruas como em "A Peste", de Albert Camus: a epidemia metaforiza a condição humana frente ao dilema absurdo entre indiferença e solidariedade no sofrimento. Pusilanimidade cívica ou anestesia da consciência impedem de perceber a "destilação leprosa" ("leprous distilment", Hamlet, ato 1, cena 2), tal como Shakespeare descreve a passagem da corrupção física à moral, capaz de contaminar o corpo da nação.

"O menino é o pai do homem", sim, o passado nunca se cala, mas o adulto dialoga com sua meninice pela escrita da experiência, dos livros, das linhas da sorte. Daí a prontidão da metáfora: o Tesouro Nacional como despensa saqueada. A infestação agrava-se com a corrupção transformada em lepra moral, que já se naturalizou. "Ladrões do dinheiro público são agora campeões de voto", diz um político. Narcoestado miliciano pentecostal? Pouco importa. Camundongos tornaram-se ratazanas bem nutridas por focos internacionais do flagelo.

Não é mera divagação acadêmica a diferença entre urbe, enquanto disposição arquitetônica num espaço, e a ideia de Pólis como centro político da movimentação democrática de um povo. Vista apenas como urbe, a cidade concebida por Lucio Costa e Oscar Niemeyer nada tem a ver com o que terminou abrigando. Já o que seria o "coração" da Pólis republicana, por arritmia burocrática com a nação, infartou. Um corpo sem órgãos. Na historieta, um gato acaba com a festa dos ratos. Em Brasília, Fifica Fogaça não mais consegue distinguir gatos de gatunos.

 

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