O Estado de S. Paulo
Há resultados eleitorais que surpreendem.
Outros apenas tornam visível o que já vinha acontecendo. O resultado deste
primeiro turno pertence à segunda categoria. A força do campo político ancorado
no bolsonarismo e a sua expansão no Senado não são fortuitos. Para quem
acompanha pesquisas qualitativas, as urnas apenas revelaram correntes que nunca
deixaram de existir.
Em fevereiro de 2018, antes da primeira eleição de Jair Bolsonaro, apontei um erro recorrente: tratar seu eleitor como radical, isolado ou incapaz de ir além do extremismo. As qualitativas mostravam o oposto. Havia pessoas comuns aproximando-se de Bolsonaro diante de dupla desproteção: o medo da violência e a percepção de que valores familiares sofriam transformações empurradas goela abaixo. Não necessariamente concordavam com ele em tudo, mas encontravam o que outros falhavam em oferecer: identificação, proteção e a sensação de que alguém compreendia seus medos.
O tempo passou. Bolsonaro venceu em 2018;
Lula, em 2022. E foi aí que parte da esquerda cometeu seu maior erro analítico.
A vitória petista gerou a ilusão de que o bolsonarismo seria confinado à
minoria, como se a recuperação social bastasse para reverter o ciclo. Não
bastou. Uma eleição derrota um candidato, mas não dissolve os sentimentos que o
elegeram. A insegurança, o antipetismo, a desconfiança institucional e o
desconforto cultural permaneceram. A eleição de 2026, portanto, não criou uma
nova direita; apenas tornou visível a que sempre esteve lá.
Uma das chaves para entender o fenômeno
reside na diferença entre falar sobre condições de vida e falar sobre a própria
vida. A esquerda centrou sua narrativa em emprego e renda. Crucial, mas
insuficiente. O eleitor não vive em planilhas; vive no bairro onde teme
caminhar à noite, na escola dos filhos, na igreja, na família que tenta
proteger. E nas redes sociais. A política acontece onde a vida acontece. E foi
nesse território cotidiano que a direita construiu linguagem eficiente.
Na segurança, ofereceu respostas diretas a
angústias complexas:
Estado redução da maioridade, fim da
saidinha, castração química para pedófilos. Podemos debater a eficácia de tais
medidas, mas o que importa é o desejo de que alguém aja diante do perigo. A
esquerda respondeu ao medo com causas estruturais; a direita, oferecendo
proteção. A primeira é mais sofisticada; a segunda, eleitoralmente
avassaladora.
Querer segurança ou proteção familiar não
torna ninguém fascista ou autoritário. O medo é politicamente legítimo, por
mais equivocadas que sejam algumas respostas. Foi nesse ponto que a esquerda
falhou na escuta. O mesmo ocorreu nos costumes. Família e religião não são
acessórias para milhões de brasileiros; constituem sua identidade. É plenamente
possível ser pobre e conservador, apoiar direitos e rejeitar o PT. Classe
importa, mas não explica tudo. A esquerda não soube entender esses paradoxos.
Bolsonaro compreendeu que não precisava
convencer todos sobre tudo; bastava fazer com que uma parcela da população
sentisse que alguém dizia em público o que ela pensava em privado. Estar
cansado de ser tratado como ignorante por divergir de certas mudanças culturais
empurrou o eleitor para quem o acolhe. A mensagem essencial era clara: você não
está sozinho.
O antipetismo tampouco nasceu nas redes.
Escândalos e anos de exposição pública cristalizaram, em parcela do eleitorado,
uma associação entre o partido, a corrupção e a impunidade. Na segurança, o PT
tampouco convenceu de possuir respostas à violência que assola os mais pobres –
justamente os que a legenda pretende representar.
A relação com os evangélicos ilustra a mesma
dinâmica. Enquanto a esquerda debatia o fenômeno politicamente, as igrejas
faziam parte da vida cotidiana nas crises, no desemprego e na solidão. A
direita compreendeu cedo que a confiança nasce de relações e presença nos
bairros, nas comunidades e nas famílias. Falar sobre o povo substituiu falar
com o povo. Nos grupos focais que conduzo ao longo dos anos, essa dinâmica fica
evidente: o eleitor não busca apenas um gestor de planilhas econômicas, mas
alguém que legitime e vocalize as suas indignações. Quando a política
partidária se distancia do sofrimento real e refugia-se em debates abstratos,
abre espaço para que o conservadorismo acolha as angústias morais e
existenciais da base da pirâmide social. Antes do voto, há histórias de medo,
família, violência, fé e ressentimento. O voto sintetiza essas vertentes.
Para o novo ciclo que se abre, vencer não
exigirá apenas refinar a comunicação, mas reaprender a escutar. A esquerda
precisará disputar a segurança com vigor, debater valores familiares sem
preconceitos, compreender a religião sem caricaturas e oferecer respostas
imediatas sem abandonar o estrutural.
Além disso, a enorme abstenção revela um país silencioso e exausto que nenhum campo conseguiu mobilizar. Enquanto a política disputa os já convertidos, existe um Brasil silencioso capaz de alterar uma eleição. O futuro não pertencerá a quem acusa o povo de alienado, mas a quem tiver a humildade de descer do pedestal e escutar suas aflições.

Nenhum comentário:
Postar um comentário