domingo, 11 de outubro de 2026

As urnas – e o que a esquerda não soube ouvir, por Karin Koshima

O Estado de S. Paulo

Há resultados eleitorais que surpreendem. Outros apenas tornam visível o que já vinha acontecendo. O resultado deste primeiro turno pertence à segunda categoria. A força do campo político ancorado no bolsonarismo e a sua expansão no Senado não são fortuitos. Para quem acompanha pesquisas qualitativas, as urnas apenas revelaram correntes que nunca deixaram de existir.

Em fevereiro de 2018, antes da primeira eleição de Jair Bolsonaro, apontei um erro recorrente: tratar seu eleitor como radical, isolado ou incapaz de ir além do extremismo. As qualitativas mostravam o oposto. Havia pessoas comuns aproximando-se de Bolsonaro diante de dupla desproteção: o medo da violência e a percepção de que valores familiares sofriam transformações empurradas goela abaixo. Não necessariamente concordavam com ele em tudo, mas encontravam o que outros falhavam em oferecer: identificação, proteção e a sensação de que alguém compreendia seus medos.

O tempo passou. Bolsonaro venceu em 2018; Lula, em 2022. E foi aí que parte da esquerda cometeu seu maior erro analítico. A vitória petista gerou a ilusão de que o bolsonarismo seria confinado à minoria, como se a recuperação social bastasse para reverter o ciclo. Não bastou. Uma eleição derrota um candidato, mas não dissolve os sentimentos que o elegeram. A insegurança, o antipetismo, a desconfiança institucional e o desconforto cultural permaneceram. A eleição de 2026, portanto, não criou uma nova direita; apenas tornou visível a que sempre esteve lá.

Uma das chaves para entender o fenômeno reside na diferença entre falar sobre condições de vida e falar sobre a própria vida. A esquerda centrou sua narrativa em emprego e renda. Crucial, mas insuficiente. O eleitor não vive em planilhas; vive no bairro onde teme caminhar à noite, na escola dos filhos, na igreja, na família que tenta proteger. E nas redes sociais. A política acontece onde a vida acontece. E foi nesse território cotidiano que a direita construiu linguagem eficiente.

Na segurança, ofereceu respostas diretas a angústias complexas:

Estado redução da maioridade, fim da saidinha, castração química para pedófilos. Podemos debater a eficácia de tais medidas, mas o que importa é o desejo de que alguém aja diante do perigo. A esquerda respondeu ao medo com causas estruturais; a direita, oferecendo proteção. A primeira é mais sofisticada; a segunda, eleitoralmente avassaladora.

Querer segurança ou proteção familiar não torna ninguém fascista ou autoritário. O medo é politicamente legítimo, por mais equivocadas que sejam algumas respostas. Foi nesse ponto que a esquerda falhou na escuta. O mesmo ocorreu nos costumes. Família e religião não são acessórias para milhões de brasileiros; constituem sua identidade. É plenamente possível ser pobre e conservador, apoiar direitos e rejeitar o PT. Classe importa, mas não explica tudo. A esquerda não soube entender esses paradoxos.

Bolsonaro compreendeu que não precisava convencer todos sobre tudo; bastava fazer com que uma parcela da população sentisse que alguém dizia em público o que ela pensava em privado. Estar cansado de ser tratado como ignorante por divergir de certas mudanças culturais empurrou o eleitor para quem o acolhe. A mensagem essencial era clara: você não está sozinho.

O antipetismo tampouco nasceu nas redes. Escândalos e anos de exposição pública cristalizaram, em parcela do eleitorado, uma associação entre o partido, a corrupção e a impunidade. Na segurança, o PT tampouco convenceu de possuir respostas à violência que assola os mais pobres – justamente os que a legenda pretende representar.

A relação com os evangélicos ilustra a mesma dinâmica. Enquanto a esquerda debatia o fenômeno politicamente, as igrejas faziam parte da vida cotidiana nas crises, no desemprego e na solidão. A direita compreendeu cedo que a confiança nasce de relações e presença nos bairros, nas comunidades e nas famílias. Falar sobre o povo substituiu falar com o povo. Nos grupos focais que conduzo ao longo dos anos, essa dinâmica fica evidente: o eleitor não busca apenas um gestor de planilhas econômicas, mas alguém que legitime e vocalize as suas indignações. Quando a política partidária se distancia do sofrimento real e refugia-se em debates abstratos, abre espaço para que o conservadorismo acolha as angústias morais e existenciais da base da pirâmide social. Antes do voto, há histórias de medo, família, violência, fé e ressentimento. O voto sintetiza essas vertentes.

Para o novo ciclo que se abre, vencer não exigirá apenas refinar a comunicação, mas reaprender a escutar. A esquerda precisará disputar a segurança com vigor, debater valores familiares sem preconceitos, compreender a religião sem caricaturas e oferecer respostas imediatas sem abandonar o estrutural.

Além disso, a enorme abstenção revela um país silencioso e exausto que nenhum campo conseguiu mobilizar. Enquanto a política disputa os já convertidos, existe um Brasil silencioso capaz de alterar uma eleição. O futuro não pertencerá a quem acusa o povo de alienado, mas a quem tiver a humildade de descer do pedestal e escutar suas aflições.

Nenhum comentário: