domingo, 11 de outubro de 2026

Um Andrada, na campanha, para pensar o futuro, por Rolf Kuntz

O Estado de S. Paulo

Donald Trump, Marco Rubio ou George Washington – quem deverá substituir os Andradas no monumento inaugurado em 1922 na Praça da Independência, em Santos? Talvez as três figuras norte-americanas, juntas? Nenhuma? A resposta, se vier, só deverá aparecer depois de conhecido o vencedor da eleição presidencial no Brasil. Por enquanto, a pergunta é justificável e inquietante, talvez, para uma parte do eleitorado. Para outra, nem tanto, ou talvez até animadora. Pelo balanço possível neste momento, têm peso nas eleições os grupos menos interessados na combinação de valores como soberania e cooperação.

Os Andradas, para esses grupos, devem ser, simplesmente, figuras de um passado hoje irrelevante – ou assustador, talvez, quando se pensa na antecipação, por José Bonifácio, o tal Patriarca da Independência, da mudança da capital do País para a região central do Brasil. Mas historiadores nunca atribuem ao Andrada mais famoso a previsão, há cerca de dois séculos, do ambiente político mais associado, hoje, à imagem da sede dos Três Poderes.

A eleição brasileira poderá, como já se observou, afetar de modo interessante a configuração geopolítica da América do Sul. A depender do resultado, o Brasil poderá seguir um de dois caminhos principais: ingressará no grupo de países subordinados a Washington ou permanecerá na condição atual, como parceiro relevante, mas independente, da maior potência ocidental e capitalista.

Se ingressar no grupo dos subordinados, o Brasil se juntará, nessa conversão diplomática, a algumas das maiores economias da região, já alinhadas, sem disfarce, aos interesses da Casa Branca. Não será preciso continuar disfarçando o clube da subordinação como um grupo de combate ao crime organizado.

Não por acaso, esse clube, formado por 14 países latino-americanos e caribenhos, batizado como Escudo das América, foi apresentado oficialmente ao mundo, em setembro, numa reunião internacional nos Estados Unidos. Quem o apresentou foi o presidente americano, prometendo, na ocasião, combater e punir 24 organizações criminosas, por ele descritas como narco-terroristas. O grupo inclui duas organizações brasileiras, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). O Brasil ficou fora do clube, mas é difícil dizer se manterá essa posição se for eleito um seguidor de Trump.

Se Brasília continuar preferindo o caminho independência, os órgãos brasileiros de segurança, a começar pela Polícia Federal, poderão simplesmente articular-se com os de outros países para enfrentar os traficantes e outros criminosos. Não será preciso estimular, nesse caso, a presença, já ostensiva, de forças dos Estados Unidos na região.

Essa presença continuará justificável, e até útil, em casos de exercícios militares conjuntos e de programas de cooperação, potencialmente benéficos, por exemplo, para a indústria brasileira. A expansão da Embraer em mercados estrangeiros, incluído o americano, é um exemplo de como o País pode lucrar com a cooperação em segurança. Resultados como esse nada têm a ver com as políticas de subordinação defendidas por algumas alas da política brasileira.

Prioridades brasileiras, programas, planos e projetos foram, no entanto, assuntos pouco examinados e discutidos durante o primeiro turno da eleição presidencial. O ministro da Fazenda, o economista Dario Durigan, expôs nos últimos dias algumas ideias sobre finanças públicas e sobre a condução das contas federais. O presidente Lula, no entanto, quase destruiu qualquer possível compromisso de estabilização fiscal, praticamente reduzindo o assunto a uma questão de crescimento econômico. Se a economia crescer, disse o presidente, a arrecadação também crescerá e o Orçamento será favorecido.

O presidente mantém, portanto, o movimento já observado de retorno ao petismo de meio século atrás e à sua contraposição entre prudência fiscal e desenvolvimentismo. O anúncio de renovação e manutenção dos subsídios a combustíveis, em parte explicável pelo interesse eleitoral, combina com essa orientação da política econômica.

Anúncios desse tipo são insuficientes para substituir a análise e a discussão das condições econômicas atuais, assim como das medidas necessárias para a sustentação de um crescimento seguro. Não há sinal de aumento, pelo menos significativo, do investimento privado em meios de produção, nem de mudança relevante nas condições de crescimento econômico.

Nada indica um movimento de modernização e ampliação importantes do potencial produtivo. Podem assinalar-se, talvez, alguns avanços, ocorridos em vários anos, na educação, um setor pouco valorizado pelo presidente Jair Bolsonaro. Talvez seu filho Flávio, se eleito, atribua alguma relevância ao trabalho educacional, mas essa, por enquanto, é apenas uma hipótese um tanto otimista. Indigente em propostas e programas, a campanha eleitoral proporcionou, até agora, pouca informação para um debate sobre como a eleição afetará a evolução de setores política e socialmente importantes, incluídos educação e pesquisa.

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