segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O tombo de Lula, a reação bolsonarista e a soberba que mudou de lado, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Presidente subestimou adversário e estava convencido de que venceria no 1º turno; Flávio se apressa em decretar 'fim da era do PT'

Em setembro de 2025, o Supremo condenou Jair Bolsonaro por tentativa de golpe. Em outubro de 2026, seu filho mais velho vai largar na frente no segundo turno da disputa presidencial.

Em pouco mais de um ano, o bolsonarismo saiu das cordas, ampliou sua bancada no Congresso e voltou a botar um pé na rampa do Planalto. A reação foi impulsionada pela autocombustão do Supremo e por erros do petismo, que subestimou o rival e demorou a admitir que o eleitor tinha motivo para cobrar mudanças.

Ao lançar a candidatura ao inédito quarto mandato, Lula parecia seguro de que o duelo com Flávio Bolsonaro seria um passeio. “Confesso a vocês que estava convencido que ia ganhar a eleição no primeiro turno”, admitiu ontem à noite, depois de ficar atrás do adversário por 2,3 milhões de votos.

Foi o último erro de cálculo de uma campanha que insistiu no culto à personalidade e em temas como soberania nacional e terras raras, enquanto os eleitores esperavam soluções para problemas mais imediatos, como as dívidas no banco e os preços no supermercado.

Ontem a soberba mudou de lado, e Flávio se apressou a decretar o “fim da era do PT”. O vaticínio ainda pode ser derrubado nas urnas no dia 25.

Sem biografia própria, o primogênito do capitão se escorou no sobrenome e surfou a nova onda de direita liderada pelo PL. O partido de Valdemar Costa Neto foi o grande vencedor deste domingo. Emplacou a maior bancada na Câmara em quatro décadas, quase dobrou o número de senadores e elegeu cinco governadores em primeiro turno.

A nova safra de parlamentares ajuda a explicar o fenômeno. Surgidos nas redes sociais, Nikolas Ferreira, de 30 anos, e Lucas Pavanato, de 28, se tornaram os deputados federais mais votados da história — ambos ultrapassaram os 3 milhões de votos. Serão estrelas em ascensão num Congresso que insiste em piorar a cada legislatura, como previa Ulysses Guimarães.

Nas próximas três semanas, Lula e Flávio devem travar uma batalha cruenta pela Presidência. O país ganhará uma nova chance para cobrar propostas concretas e comparar os candidatos, que fugiram dos debates de TV e preferiram falar para suas próprias bolhas no primeiro turno.

Depois do tombo de ontem, Lula tem uma ladeira íngreme para subir. Precisará reduzir a abstenção, que foi a maior desde 1998, e convencer eleitores insatisfeitos com o governo de que seria melhor mantê-lo do que devolver o poder aos Bolsonaro.

Se quiser vencer, o presidente terá que reinventar sua campanha e mostrar que pode melhorar a vida de quem está no sufoco. Além disso, precisará desenhar os riscos de uma volta ao passado recente.

 

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