O Globo
O ajuste fiscal será necessário ano que vem.
O que Flávio Bolsonaro tem dito não fica em pé. E Lula não esclarece o que fará
A campanha de Flávio Bolsonaro prometeu um ajuste fiscal entre R$ 150 bilhões a R$ 200 bilhões no primeiro ano. Mas as falas dele e de sua equipe são de aumento do gasto. Ele disse que os aposentados terão reajuste acima da inflação. Sua equipe afirmou que aumento real do salário mínimo vai continuar e negou privatizações. Flávio Bolsonaro disse que as emendas parlamentares serão mantidas porque ele sabe “como é suado conseguir voto”. E ainda disse que vai cortar impostos. Tudo somado, vai manter as despesas e diminuir receita. A conta piora.
Flávio Bolsonaro fala e age como vitorioso.
Na primeira semana após o primeiro turno, afirmou que fará mudanças na
Constituição para “redemocratizar” o país, convidou o presidente da Colômbia
para a posse, falou em aumentar o mandato que ainda não recebeu das urnas. No
seu entorno, os cargos estão sendo distribuídos. Quem sai na frente no primeiro
turno é o favorito e a primeira pesquisa Datafolha mostrou que ele aumentou um
pouco a dianteira em relação ao presidente Lula.
Mas o eleitor é que tem a palavra final. Ninguém é vencedor de véspera.
O presidente Lula não esclarece o que fará na
área fiscal, na hipótese de reeleição. Chegou a dizer em setembro que o governo
precisa “parar com essa babaquice de fazer superávit”. Sua equipe, no entanto,
prometeu superávits crescentes nos próximos anos. O problema é que, neste fim
de mandato, Lula tomou medidas que impactam as contas. No Desenrola 3, o
governo vai comprar dívida. O fim das bets, independentemente do mérito da
medida, significará uma frustração de receita.
O Brasil tem um problema fiscal que precisa
ser enfrentado. E também precisa ser entendido para além do lugar-comum
repetido pelos operadores do mercado. Só um país com estabilidade econômica
pode construir políticas sociais eficientes. O ajuste fiscal nunca foi uma
“babaquice”. Mas o que Flávio tem dito não fica de pé. É enrolação. Ou ele está
mentindo para o eleitor ou está mentindo para o mercado financeiro.
– O mercado daria o benefício da dúvida a
qualquer um que fosse contra o Lula — explica um economista de banco que tenta
ficar ligado aos dados e fatos.
Esse economista lembra que houve também um
bom momento com o presidente Lula. Em abril de 2023, o governo apresentou o
arcabouço fiscal. Em quatro meses, a taxa de câmbio saiu de R$ 5,20 para R$
4,70, a bolsa subiu de 100 mil pontos para 120 mil pontos e a curva de juros
caiu fortemente. Ao longo de 2024, contudo, a confiança na política econômica
começou a piorar.
– A equipe econômica do governo Lula admitiu
o problema fiscal, e indicou que o próximo mandato poderia desacelerar o crescimento
do gasto público e apresentar uma proposta para reduzir o aumento da despesa
obrigatória. O problema é que o presidente nunca falou isso. Já o outro
candidato não detalhou o ajuste, mas o mercado está reagindo à expectativa de
ajuste, sem saber ao certo como será essa proposta.
Sérgio Vale, da MB Associados, faz uma
avaliação parecida:
– O mercado já estava com essa ideia comprada
de que Flávio Bolsonaro vai fazer um belo ajuste fiscal e o Lula não vai fazer.
A gente sabe que não é necessariamente assim, porque a história da família
Bolsonaro com ajuste fiscal não é positiva.
Vale não acredita em promessa de corte de
gastos sem haver detalhamento.
— O “tesouraço” é história para o eleitor
ver, contada em período eleitoral e não significa nada. Mágica para 2027 é
difícil de acontecer. Se Lula diminuir um pouco o crescimento do gasto
permitido pelo arcabouço, de 2,5% para 1,5% já seria uma sinalização
importante.
Na economia, o governo Lula investiu o seu
capital político inicial para aprovar a reforma dos impostos sobre o consumo.
Uma mudança necessária e que o Brasil queria há 40 anos. A alíquota somada do
CBS e IBS será alta, mas a culpa é do Congresso que se dobrou aos lobbies dos
setores que queriam pagar menos. Flávio Bolsonaro prometeu acabar com um
instrumento importante da reforma, o que distribui instantaneamente aos
governos o imposto pago pelo consumidor, conhecido como split payment. Ele
serve para combater a sonegação. A reforma perderá eficiência se isso
acontecer.
Enfim, a conversa de que a questão fiscal
opõe um Lula gastador a um Flávio Bolsonaro austero é balela. Lula errou e
acertou na área fiscal. Flávio não diz coisa com coisa quando o assunto é
economia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário