sábado, 10 de outubro de 2026

Corra, Lula, corra, por Eduardo Affonso

O Globo

Faltam 15 dias para o segundo turno, Lula, e você tem um forte adversário pela frente. Não o que pretende anistiar golpistas e retomar, talvez piorado, o pior governo da nossa história. Você precisa derrotar é o que subiu a rampa em 2023 com gay, mulher, indígena, portador de deficiência, criança — e não aumentou a representatividade feminina, negra ou LGBT em cargos de relevância, não melhorou a educação, não pôs fim à tragédia ianomâmi. O do triplex, das gafes machistas, do mensalão, do petrolão. O das promessas não cumpridas, dos sigilos de cem anos. O que bancou a candidatura de um poste e nos jogou numa recessão. O que apostou no antagonismo entre ricos e pobres, católicos e evangélicos, pretos e brancos — e cujos seguidores quase nos fizeram acreditar que a classe média é odiosa, o ecumenismo é uma ilusão, pardos e mulatos são uma alucinação coletiva.

Corra, Lula, corra! Quem está prestes a derrotá-lo não é o filho do Jair, mas o marido da Janja, o pai do Lulinha. O que criou a taxa das blusinhas em 2024 para arrecadar mais e a revogou, com propósitos eleitoreiros, 24 dias antes da eleição. O que concedeu um único aumento do Bolsa Família — a 17 dias do primeiro turno. Que regulamentou as bets em 2023, a fim de encher o cofre e seguir gastando, e, aos 45 do segundo tempo, virou tigrão contra o Tigrinho — não sem antes endividar ainda mais o brasileiro de baixa renda.

Talvez não bastem café, bolo e vídeos de artistas. Experimente pedir moderação à militância que cancelou gente como Lilia Schwarcz, Antonio Risério, Francisco Bosco, Maria Rita Kehl, João Bosco, Ana Maria Machado, Mary del Priore — e desfaça a impressão (equivocada?) de que a esquerda não aceita o livre debate de ideias. Converse com os cerca de 200 “educadores” solidários aos estudantes que espancaram um colega na UFRJ e explique que linchamento não é a melhor maneira de lidar com as diferenças. Quem sabe acreditem que seu governo não tenha nada a ver com esse clima de hostilidade, de soberba — ou que você indicou correligionários para o STF, mas está totalmente desvinculado daquela vergonha em que a Suprema Corte se transformou.

Dá tempo de neutralizar a diferença de 2,2 milhões de eleitores. É só convencer 5% dos 39,5 milhões que ficaram em casa e alguns dos 15,3 milhões que anularam o voto, votaram em branco ou preferiram outros candidatos. E torcer para soar mais verdadeiro que quem pediu R$ 134 milhões a Vorcaro, voou no jatinho de Vorcaro, escreveu a Vorcaro “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente” — e mesmo assim diz mal conhecer o banqueiro.

Corra, que ainda é possível conquistar o pobre que não quer continuar sendo parte da estatística de uma miséria que desde 2002 você diz que erradicará; o preto que rejeita o lugar de cativo que lhe reservam num curral eleitoral; o gay que se assume conservador; a mulher que ousa ter valores tradicionais; o trabalhador que dispensa ser parasitado por sindicatos. Avise à tropa de choque que não os trate como bárbaros, em contraste com a civilização que você representa. Eles precisam ser atraídos, não menosprezados.

Mas corra, Lula, corra. Ou quem acreditou naquele líder sindical que prometia emprego, justiça social, segurança, reforma política, responsabilidade fiscal — e até picanha! — pode não lhe dar mais uma chance.

 

Um comentário:

Anônimo disse...

Exatamente!