quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Enfim, Lula tenta ganhar votos do adversário, por César Felício

Valor Econômico

Municípios com maior proporção de empreendedores individuais votaram maciçamente no candidato do PL

Ao anunciar perdão de dívidas, Pix de R$ 5 mil e aumento do limite para o enquadramento de Microempreendedores individuais (MEI), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu fazer um aceno ao eleitorado do adversário, a apenas 12 dias do segundo turno. O resultado da eleição presidencial no primeiro turno é eloquente neste sentido.

Existem 13,7 milhões de MEIs no Brasil, com faturamento anual de até R$ 81 mil, de acordo com dados do Sebrae coletados pelo Valor Data. Pelas regras fiscais brasileiras, uma pessoa física só pode ter um MEI, portanto não erra muito quem estimar que praticamente 10% dos eleitores é passageiro desta nave (o total do eleitorado nacional é de 158 milhões).

A proporção por município indica que esse contingente está mais concentrado em áreas do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) obteve mais votos. Em Balneário Camboriu (SC) existe cerca de um MEI para sete habitantes. Em Caucaia (CE), são um MEI para 21 moradores. Em Belém são um MEI para 20 residentes. Em Praia Grande (SP) um para oito, e assim por diante. Lula não faz aceno ao eleitor independente. Faz aceno ao bolsonarista.

No grupo dos 200 municípios com maior proporção de MEIs por habitantes, a votação em Lula no primeiro turno da eleição presidencial caiu de 5,2 milhões para 4,8 milhões de votos entre 2022 e 2026, uma diferença que parece ter sido transferida para o adversário. O ex-presidente Jair Bolsonaro teve neste microcosmo 8,1 milhões de votos há quatros anos e Flávio recebeu agora 8,6 milhões.

Nesse conjunto de 200 municípios, Lula só havia vencido em 18 em 2022. Agora ficou em primeiro lugar em 11. A votação da família Bolsonaro cresceu em 193 deles. A de Lula se reduziu em 179.

O universo desses 200 municípios é bastante heterogêneo, ainda que São Paulo e Santa Catarina respondam por mais da metade do total. Há desde micromunicípios como Serra da Saudade (MG), em que o percentual de MEIs em relação à população é de 17,5%, até uma metrópole como Belo Horizonte , em que este percentual é de 10,1%.

O que não tem é Norte e Nordeste. Somente um município em Pernambuco e outro em Tocantins estão no grupo dos municípios com mais MEIs.

De acordo com o cientista político Felipe Nunes, do Instituto Quaest, co-autor do livro “O dilema do aventureiro”, a ser lançado nas próximas semanas, o empreendedor individual no Brasil tem maior tolerância ao risco e maior convivência com a incerteza.

É predominantemente masculino e jovem. Valorizam muito menos políticas sociais do governo e pendem para a direita. Uma outra pesquisa conduzida pelo diretor da Quaest, desta vez no livro “Brasil no Espelho”, concluiu que 74% dos empreendedores individuais achavam que programas sociais fazem as pessoas quererem trabalhar menos.

O público dos MEI foi o principal alvo em janeiro de 2025 do famigerado vídeo do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) em que o parlamentar insinuava que o governo poderia monitorar e taxar as operações de Pix. “Microempreendedores representam 70% das empresas do país. Em 2025, o MEI poderá faturar R$ 81 mil por ano, ou seja, pouco mais de R$ 6 mil por mês. Essa maioria de brasileiros, muitos não declaram imposto de renda, porque é difícil pagar as contas. Se é difícil sem declarar, imagine o PT tirando 27,5% do que você ganha. Impossível sobreviver”, disse Nikolas na ocasião. Essa desinformação gerou um clima de verdadeiro pânico no país e catalisou a derrubada da aprovação de governo, que já se desenhava por outras razões e nunca se recuperou plenamente.

Esse mesmo público foi o principal destinatário das mensagens negacionistas de Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19. Quando ele minimizava a doença que matou 760 mil brasileiros durante seu governo, usava como principal argumento a dificuldade financeira que os MEIs passariam caso a atividade econômica fosse paralisada.

Também essa foi a principal base que quase levou o “coach” Pablo Marçal ao segundo turno da eleição municipal de 2024, em São Paulo, e não por acaso o aceno de Lula ocorre na mesma semana em que circula a informação de que vem por aí, se Flávio ganhar, um tal de “Ministério da Prosperidade”. O presidente percebeu, tardiamente, que a direita criou alicerces fora da elite nacional, o que minou a conexão de Lula com uma franja que, se não se reconhece mais como pobre, está longe de ser rica.

 

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