terça-feira, 13 de outubro de 2026

Não é opinião, são os fatos, por Míriam Leitão

O Globo

País pode optar por ignorar o histórico familiar e levar Flávio Bolsonaro ao Planalto. Mas os fatos até aqui permitem dizer que a democracia correrá riscos

A democracia correrá riscos em um possível governo Flávio Bolsonaro. Isso não é opinião. É o resultado da análise dos fatos, matéria-prima do jornalismo. O pai dele quando esteve no governo tentou dar um golpe de Estado. A família Bolsonaro tem diversas brigas internas, mas total concordância sobre alguns pontos: acham que a ditadura militar foi boa, admiram o Coronel Brilhante Ustra e seus métodos de tortura e morte de adversários políticos, elogiam o Ato Institucional número 5, aprovam as decisões e palavras do ex-presidente Jair Bolsonaro e negam que durante aquele governo tenha havido conspiração para um golpe, que terminou com a quebra física dos prédios dos Três Poderes.

O brigadeiro Carlos Baptista Júnior, que comandou a Aeronáutica na administração de Jair Bolsonaro, publicou um livro contando o que houve no governo. Sobre a reunião do dia 5 de julho de 2022, aquela na qual o general Heleno defendeu que era preciso virar a mesa antes das eleições, o brigadeiro diz: “Mais do que declarações isoladas, aquele encontro revelou algo que começava a se tornar cada vez mais preocupante: a naturalização, dentro de determinados círculos de poder, da ideia de que o resultado eleitoral poderia deixar de ser aceito caso contrariasse as expectativas do governo”.

O brigadeiro prestou depoimento como testemunha na ação penal do golpe. No livro “Eu disse não. Uma trincheira antigolpista”, o ex-comandante da Aeronáutica relatou muitos fatos, alguns já conhecidos, mas pelo ângulo de quem comandava uma das Forças. O difícil quando se fala das ações de Jair Bolsonaro contra a democracia é escolher de quais fatos tratar. São muitos.

Quando Flávio Bolsonaro falou em usar o crescimento da direita no Congresso para mudar a Constituição, muita gente se assustou no Brasil. Todos os presidentes apresentaram propostas de emenda constitucional. Não era disso que ele falava, porque completou a frase informando que iria mudar a Constituição “para redemocratizar o país”.

“A Constituição não é perfeita. Ela própria o confessa”, disse Ulysses Guimarães, na promulgação da Carta, ao falar da possibilidade de emenda constitucional. Fernando Henrique, ao assumir, propôs uma PEC para acabar com o monopólio estatal na telefonia e no petróleo. Assim, ele privatizou as telefônicas e concedeu áreas de exploração de petróleo. Jair Bolsonaro, ao assumir, propôs uma PEC para a Reforma da Previdência. Lula em 2023 aprovou a PEC da Reforma Tributária. Ninguém achou que fosse golpe de Estado. O que pega desta vez é que Flávio falou em mudar a Constituição para “redemocratizar o país”. O que não se pode mudar na Constituição? Exatamente isso: as cláusulas pétreas que sustentam a democracia em vigor no país.

Em julho de 2025, quando ainda não tinha sido lançado pelo PL à presidência, Flávio Bolsonaro disse em uma entrevista à Folha de S. Paulo que um candidato ao cargo só receberia apoio do seu grupo político se manifestasse compromisso com anistia a seu pai e a outros condenados, e que garantisse essa anistia mesmo que o Supremo Tribunal Federal fosse contra. E foi mais específico: “a gente está falando de possibilidade e de uso da força. A gente está falando da possibilidade de interferência direta entre Poderes. Tudo o que ninguém quer”.

O STF está fragilizado em parte pelos seus próprios erros. Mas quando Flávio disse isso — ou quando fala agora em “redemocratizar” o país — ele não estava se referindo à prerrogativa do Senado de julgar o impeachment de algum ministro do Supremo. Ele estava falando exatamente em mexer no que é inalterável na Constituição: os pilares da democracia.

O país pode escolher ignorar todo o histórico familiar e levá-lo ao Planalto. Só que os fatos até aqui permitem dizer que haverá o mesmo clima de tensão constante sobre o Estado Democrático de Direito que houve no governo de Jair Bolsonaro, agravado pelo fato de que seria uma administração mais capaz de formar maiorias no Congresso, e as instituições teriam menos defesa, pela crise interna do STF.

A democracia não é um ponto de programa de governo. É a única base de todos os governos desde 1985, os bons e os ruins. O único regime que garante a alternância de poder, o sistema de freios e contrapesos e os direitos individuais. Na última vez que suprimiu a democracia, o país atravessou 21 anos de enorme sofrimento cívico. Nada disso é opinião. São os fatos.

 

Nenhum comentário: