O Globo
Mudança é apoiada por mais de sete em cada
dez brasileiros
Mais de sete em cada dez brasileiros apoiam a
mudança, uma votação que nem Lula
nem Flávio
Bolsonaro conseguiram. A proposta é maior do que os dois. E talvez seja
justamente por isso que esteja mudando a conversa nesta reta final.
Imagine dona Beatriz, caixa de supermercado, casada com seu João, vigilante de shopping. Os dois trabalham seis dias por semana. Ela folga na terça, ele na quinta. Um domingo dos dois juntos virou luxo. Quando Beatriz descansa, lava roupa, vai ao posto de saúde, resolve a conta atrasada. João sai para trabalhar. Se alguém lhes perguntar sobre a economia, talvez respondam falando do preço do arroz. Se a pergunta for sobre a escala 6x1, responderão sobre a vida que gostariam de ter.
No primeiro turno, os dois anularam o voto.
Não por falta de opinião, mas por excesso de cansaço da política. Agora,
Beatriz começa a cogitar votar em Lula. João continua desconfiado. Não viraram
petistas; descobriram uma proposta que cabe dentro de casa. E há milhões de
casas em que o relógio, não a ideologia, organiza a vida.
Lula passou boa parte da campanha precisando
se explicar: o preço da feira, as promessas que não saíram do papel, a sensação
de que a vida não melhorou o suficiente. Flávio tinha pouco trabalho. Bastava
perguntar se o brasileiro queria mais quatro anos de PT. É uma pergunta que
mobiliza um antipetismo maior do que o próprio candidato.
O erro estava em responder falando quase
sempre do legado. O legado é importante, mas está no passado. Quem passa seis
dias trabalhando quer saber como será a próxima semana, não apenas como foi o
país 20 anos atrás. Quando o PT sai da defesa da própria biografia e abraça o
fim da escala 6x1, troca de assunto. Em vez de pedir reconhecimento, oferece
uma perspectiva.
Não é tudo a mesma coisa. Proibir as bets é
tentar impedir que o dinheiro da família desapareça num aplicativo. Reajustar o
Bolsa Família é reforçar a renda de quem precisa, um programa já associado à
história de Lula. A jornada 5x2 não é um benefício depositado nem uma
proibição. É tempo para buscar o filho na escola, estudar, descansar. Atinge
também quem nunca recebeu um benefício e jamais votou no PT.
É por isso que o apoio ultrapassa as
fronteiras partidárias. Nem todo eleitor favorável à mudança gosta de Lula. Há
quem seja de direita e trabalhe no comércio. Há a dona do mercadinho que também
quer descansar, mas teme não conseguir pagar outro funcionário. Ignorar sua
preocupação seria tão equivocado quanto chamar de preguiçoso quem gostaria de
um sábado livre.
Flávio percebeu. Depois de chamar a discussão
de oportunista, anunciou que votará pelo fim da escala. E, depois de cobrar
tanto a presença de Lula, avisou que não irá ao debate da Band. Uma decisão não
prova a causa da outra. Mas ambas revelam o peso de uma campanha que já não
permite ao senador apenas cobrar explicações do presidente. O recuo não foi
para agradar petistas. Foi para não contrariar parte de seus próprios
eleitores. E isso já muda toda a dinâmica da reta final. Lula mudou de assunto.
Flávio mudou de ideia.
Agora, ele também precisa explicar. Flávio
defende como alternativa contratos por hora, com salário e direitos
proporcionais, enquanto a proposta apoiada pelo governo reduz a jornada sem
reduzir o salário. É uma discussão sobre o significado de liberdade. Responda
com sinceridade. Alguém que já trabalhou de CLT acredita que férias remuneradas
e décimo terceiro teriam sido conquistados se tudo dependesse exclusivamente da
negociação entre patrão e empregado? Uma coisa é negociar livremente. Outra é
precisar negociar sozinho, sem poder dizer não.
Mais de oito em cada dez brasileiros
concordam que estamos cada vez mais cansados. O cansaço virou experiência
nacional, embora os votos sejam diferentes. Trabalho não é apenas renda: é
também a quantidade de vida que sobra depois dele.
Nada disso significa que Lula tenha virado a eleição. Concordar com uma proposta não é votar em quem a defende. Mas há uma descoberta que o PT demorou a fazer: o presidente pode ser menor do que suas ideias. Quando a campanha insistia no passado de Lula, era Lula quem precisava se explicar. Quando passou a falar do futuro dos brasileiros, foi Flávio quem precisou mudar de posição.

Um comentário:
Ótima coluna !
😎
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