O Estado de S. Paulo
Não é possível escolher o terreno da luta, mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro político
Não é nada incomum, na política e na vida, ter de agir sob a pressão inclemente da força das coisas. Num momento em que a recessão democrática se espalha em países-chave do Ocidente, é obrigatório valorizar os fundamentos mais elementares da nossa crença comum ou, para ser mais enfático, da nossa escolha de vida. Somos democratas – de esquerda, direita ou centro – e nos habituamos a considerar como intocável o compromisso com eleições justas e livres, embora os fins pelos quais lutamos possam divergir. Numa formulação um tanto mais teórica, por princípio interessa-nos menos o resultado do jogo do que as regras sob as quais ele é jogado.
A espantosa novidade dos nossos dias é o
surgimento de uma extrema direita abertamente subversiva, que, violando regras,
se lança sobre todas as instâncias da ordem democrática, sem exclusão das
estritamente liberais. Pode até acontecer a eleição regular de um líder
supremo, desde que se preserve a ligação direta com as massas. Por isso, logo
em seguida, busca-se corroer os instrumentos liberais que limitam o poder
pessoal e atuam como freio à autocratização. A ascensão aparentemente irresistível
dessa nova direita, respeitadas as particularidades dos mais variados
contextos, indica que ela não é o resultado da ação fortuita de líderes
talentosos ou adversários destituídos de capacidades mínimas, ainda que uns e
outros de fato existam.
Deixemos de lado as condições de
possibilidade da “direita revolucionária” e examinemos os casos críticos do
Brasil, hoje, e dos Estados Unidos, com as eleições legislativas de 3 de
novembro. As vicissitudes que atingiram as duas maiores democracias americanas confirmam,
além de qualquer dúvida razoável, o elevado risco que correram – e correm. O
presidente Donald Trump invariavelmente se autoproclama vencedor integral de
três eleições seguidas, quando só numa delas, em 2024, levou a melhor tanto no
voto popular quanto no colégio eleitoral. E o motim deflagrado contra o
Capitólio, em janeiro de 2021, por ocasião da derrota para o presidente Joe
Biden, serviria como modelo insurrecional para os fatos de Brasília em janeiro
de 2023, ao se frustrar a reeleição do então presidente Jair Bolsonaro.
É preciso reconhecer nisso a transgressão de
mais uma pedra fundamental da nossa crença, estabelecida com acuidade por Adam
Przeworski. A democracia, segundo este cientista político, é “o sistema em que
partidos perdem eleições” e, por isso, são absolutamente ilegítimos atos
insanos ou desesperados. As palavras de Przeworski parecem modestas e são
cortantes. Sugerem recuo para uma definição mínima e, na verdade, estabelecem
um ponto além do qual a forma de vida já é outra, moldada pelo que tem sido o
“subversivismo elementar” de boa parte dos maiores responsáveis pela grande
transformação em curso.
À luz dessa concepção mínima, o Brasil
continua a ser uma democracia. Realiza eleições regulares, faz prevalecer seus
resultados e dispõe de instituições capazes de responsabilizar quem tentou
subvertê-los. As condenações pelos atos de Brasília, longe de desmentirem essa
condição, confirmam a vigência da ordem constitucional. Nem os escândalos e
desvios que atingem a República autorizam a conclusão contrária. Mas seria
imprudente supor que uma Constituição nascida das lutas contra o arbítrio
esteja imune a novas tentativas de alterar as regras do jogo.
Por este motivo, não faz parte do repertório
legalmente constituído – e, portanto, por si só causa justificada apreensão – a
mal-ajambrada pretensão de reforma constitucional veladamente exposta pelo
senador Flávio Bolsonaro. A pretexto de liquidar o instituto da reeleição e
abrir mão da disputa em 2030, o senador parece reivindicar – ou deixar ao acaso
de eventual maioria legislativa – a extensão de hipotético mandato que agora
conquiste. Ainda uma vez, o que se evidencia é tanto a tentação de obter um
resultado altamente questionável quanto o desprezo cínico pelas regras do jogo.
Mandatos legítimos, uma vez conquistados, não devem ser prorrogados depois de
conferidos pelas urnas.
Para sair da conjuntura crítica, os
democratas de todo o espectro – aqui, nos Estados Unidos e em muitos outros
países – enfrentam suas próprias contradições e dificuldades. O centro
político, por exemplo, está em retirada, incapaz como foi de uma candidatura
presidencial que funcionasse como alternativa. A direita constitucional está
desafiada continuamente a se afastar da nova direita subversiva. E a esquerda,
muito variada internamente, nem sempre escapa à tentação suicida de uma
polarização catastrófica para os fins de mudança social a que aspira.
Não é possível escolher o terreno da luta,
mas pode-se fixar o objetivo comum de restabelecer a integridade do espectro
político, com independência das siglas que o componham. O intuito é refazer, o
quanto antes, aquele “cordão sanitário” em torno do extremismo – aliás, não só
de direita – que ajudou a preservar as democracias modernas.
Entre estas, afinal, com altos e baixos, nos
situamos orgulhosamente desde 1988.
*TRADUTOR E ENSAÍSTA, É COEDITOR DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI NO BRASIL

Um comentário:
a miopia tomou conta do jornalismo brasileiro de sua grande parte ninguém enxerga que tamos vivendo um regime de opressão uma verdadeira ditadura de toga em que um juiz subverteu a Constituição pra perseguir seus oponentes
A Suprema Corte passou a ser um puchadinho Corte Lula e do PT
O jornalista convive com essa situação antidemocrático com maior tranquilidade só vê defeito no Flávio Bolsonaro Que ameaça a democracia , que para qualquer um observador honesto já está mais do que em frangalhos
Vamos corrigir e devolver ao povo a democracia de paz e progresso
Fora Lula
Impeachment no Morais
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