Folha de S. Paulo
Na vida cotidiana, as ilusões de
superioridade masculina incrementam a fúria narcísica da violência
Relativizar o ordenamento patriarcal
desestabiliza a consciência do sujeito
Se fosse possível retroagir no tempo legislativo, a Lei Maria da Penha não teria sido aprovada por parlamentares femininas da estirpe das estaduais e federais mais votadas nos estados de São Paulo e Santa Catarina. Se lessem, levariam à sola da letra uma reflexão dostoievskiana: "Não há homens maus, há homens infelizes" (em "Os Irmãos Karamazov"). Assim, para elas, o homem que assassina uma mulher não agiria por maldade, mas por infelicidade. Feminicídio não existe, é invenção feminista, diz uma. Outra parece seguir também à letra a anciã no "Zaratustra", de Nietzsche: "Vai encontrar-se com mulheres? Não te esqueças do chicote!" Para facilidade do carrasco, já desfila com chicote pronto.
A reação progressista, sintonizada com o
espírito do tempo, é de horror. Algo como ouvir um mullah da Guarda de Costumes
do Irã, tentando legitimar agressão ou enforcamento de mais uma mulher.
Indignação não mitiga, porém, a violência do fenômeno. Para compreendê-lo, é
preciso primeiro aceitar o fato como real na espécie humana, reconhecer que
essas deputadas são referendadas por milhões de votos, tanto masculinos como
femininos.
O que está por trás disso tudo? A evidência
inicial é de que o fenômeno se visibiliza em sinistros "lugares de
fala", estados onde se concentra a quase totalidade das 570 células neonazistas atuantes no país. Ainda assim, não é
numericamente viável a hipótese de que daí provenham os milhões de votos que
elegem essas aberrações.
O sexo, sabe-se, produz saberes, identidades
e poder. Na movimentação político-identitária contemporânea, o conceito de
gênero designa o modo de identificação da pessoa (homem, mulher, trans etc.),
ou seja, não só características biológicas (corpo, órgãos, cromossomos),
mas também papéis e comportamentos sociais atribuídos a essas diferenças.
Discursos e práticas sociais constituem o
gênero, que sempre foi categoria fundamental no Ocidente. Relativizar o
ordenamento patriarcal, isto é, o monopólio conceitual de sexualidade pela
rígida separação anatômica, desestabiliza a consciência do sujeito. Mas,
principalmente, abala posições de poder em que a masculinidade detém o que se
poderia chamar de mais-valia decisória, incidente sobre isonomia salarial, representação política e repartição de cargos públicos. Na vida cotidiana, as
ilusões de superioridade masculina incrementam a fúria narcísica da violência.
Feminismo é o
nome da luta libertária das mulheres. A reação antifeminista, quando
civilizada, baseia-se na concepção do complementarismo: certas diferenças
poderiam se conciliar para desempenhar funções estruturantes na sociedade. Mas
o suposto equilíbrio entre os termos distintos oculta desigualdades históricas.
É o que acontece no patriarcalismo, em que complementaridade se torna relação
de sujeito e objeto: soberania do macho, submissão da fêmea.
O movimento feminista golpeia o anacronismo.
A pancada é forte demais para a consciência aberta ao fascismo em homens e
mulheres, ovo de serpente chocado no viveiro da extrema direita: o Sul
branquinho, o pentecostalismo, a soja, a mineração e o gado. O fenômeno
aberrante é o mesmo da votação: ódio ou violência como destino funesto do amor
machista.

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