quinta-feira, 29 de outubro de 2026

O jornalismo e as eleições, por Eugênio Bucci

O Estado de S. Paulo

Não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico

E, de repente, não menos que de repente, a coisa não coube mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Parecia haver um problema com os eventos da realidade, mas não era isso. O problema não estava nas coisas, nos fatos e nos objetos, mas no modo como o jornalismo os nomeava. Recapitulemos.

Enquanto a campanha eleitoral pegava fogo, gente de direita começou a dizer que não estava à vontade na direita. Personagens expressivos do chamado campo conservador, ou seja, personagens notoriamente da direita, passaram a atacar a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), que vinha sendo qualificada nos órgãos de imprensa, com poucas exceções, como a chapa de direita. O general Santos Cruz, a ex-deputada Joice Hasselmann e até João Amoêdo, entre várias outras pessoas, todas de direita, passaram a repudiar a candidatura que representaria a direita no segundo turno. Mas como assim, perguntava o cidadão? Não eram todos igualmente de direita? O público se sentia tragado por uma dissonância cognitiva. Se Flávio Bolsonaro era o representante da direita, como diziam os jornais, o rádio e a TV, por que tanta gente da direita o rejeitava?

A explicação teria sido muito simples, embora até hoje não tenha sido assimilada por uma parcela expressiva das redações. Os personagens de direita não se reconheciam na candidatura da direita não porque tivessem desistido de ser o que eram, ou seja, de direita, mas porque não queriam mais abaixar a cabeça para a extrema direita antidemocrática, que o discurso jornalístico insistia em designar como de “direita”, sem outros qualificativos.

Os personagens lembrados aqui há dois parágrafos, exatamente por se reconhecerem de direita, não se dispunham mais a bater continência para uma coagulação que namorava o golpismo, chafurdava no entreguismo, estreitava laços de camaradagem com gangues armadas e, de resto, sabotava a Justiça (parece que um dos seus se esmerou em escafederse, em fugir das autoridades).

Pois bem. Ao dar a essa aberração o rótulo singelo de “direita”, pura e simplesmente, muitas das narrativas da imprensa atrapalharam o discernimento do público. O objeto não coube no conceito e, como resultado, o que seria fácil de explicar assumiu o aspecto de mistério insondável.

O jornalismo deveria ter prestado mais atenção. Nas páginas e nas telas noticiosas, nós não devemos chamar muriçoca de varejeira, arcebispo de cardeal e promotor de magistrado. Não podemos escrever que juiz dá parecer. Pelas mesmas razões, não há como chamar a direita e a extrema direita antidemocrática pelo mesmo nome. Os dois fenômenos são distintos, jamais poderiam ter se embaralhado no discurso jornalístico. A direita valoriza o respeito às instituições republicanas, enquanto a extrema direita antidemocrática não hesita em conspirar contra a alternância no poder. A primeira preza a urbanidade e a convivência pacífica; a segunda hostiliza a dissidência e autoriza a violência. Uma coisa não é igual à outra coisa, mas, infelizmente, uma parte considerável do discurso jornalístico as igualou.

A chapa de Flávio Bolsonaro não era, nunca foi e jamais poderia ter sido tratada como se fosse uma composição de direita, pois nunca se pautou pelos princípios liberais ou pela sobriedade conservadora. Longe disso, tinha origem na celebração do golpe de 1964, na idolatria de torturadores, no culto das garruchas (de preferência desviadas das Forças Armadas) e no obscurantismo. Por definição, era uma anormalidade política – anormalidade que, ao ser chamada candidamente de “direita”, saiu por aí desfilando com uma roupagem semântica de normalidade.

Foi então que, de repente, não menos que de repente, a retórica da normalidade foi varrida pelos ventos factuais. A coisa não cabia mais no próprio nome, o fato escapou ao relato e o objeto discrepou do conceito. Com a terminologia que dava ao aberrante um aspecto benigno de eventualidade cotidiana, não havia como demonstrar o que levou tanta gente identificada com a direita a recusar seu voto para Bolsonaro.

Foi um tropeço, um descuido, uma imprecisão. Se as redações, desde o início, tivessem chamado a extrema direita antidemocrática pelo seu nome devido, seu nome objetivo, a explicação teria sido mais fácil, ou mesmo óbvia.

A designação irrefletida – e incorreta – trouxe um segundo desvio: a tentativa de tratar como simétricas as duas candidaturas que disputavam o segundo turno. Entre ambas, contudo, não havia nenhuma homologia, nenhuma paridade. Uma, a de Lula, apesar de todos os defeitos, tinha compromisso provado e já testado com as instituições democráticas e com o respeito à Justiça. A outra desdenhava dos ordenamentos do Estado de Direito. As duas eram de naturezas distintas. Por sorte, ou por milagre, o eleitorado, intuitivo, enxergou a distinção de natureza. Uma boa parte do jornalismo não viu até agora.

Em nota pública, o Instituto Vladimir Herzog, do qual sou conselheiro, alertou sobre o tema, sem maiores repercussões. Por dever de ofício, volto ao ponto, sem maiores esperanças.

 

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