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Enquanto o povo luta por um sistema realmente
representativo, a ralé brada sempre pelo “homem forte”
Num mundo que volta a surfar nas ondas do
discurso de ódio como tábua de salvação, não Jeová, nem Jesus, muito menos
Buda, mas as falsas promessas do paraíso da extrema-direita, penduradas na cruz
ou na suástica, impulsionam a marcha do exército de ressentidos. Quando as
promessas que levariam as classes médias ao padrão de consumo das elites se
deterioram, a ralé enfurecida, sedotta e abbandonata, entrega sua alma à sereia
do totalitarismo.
Depois de várias tentativas, entrevistamos Hannah Arendt em seu gabinete como professora na New School for Social Research, em Nova York, para discutirmos duas de suas grandes obras: Origens do Totalitarismo e A Condição Humana. Agradecemos à professora pela hospitalidade e por sua tradicional liberdade de pensamento.
Nós: Qual mensagem gostaria
de enviar à elite intelectual, que se encontra fechada em si mesma, dentro de
uma bolha?
Hannah Arendt:
Compreender significa, em suma, encarar a realidade sem preconceitos e com
atenção, e resistir a ela, qualquer que seja.
Hannah Arendt: Posso complementar,
se me permitem?
Nós: Com certeza.
Hannah Arendt:
Pois, atualmente, as ciências são forçadas a adotar uma “linguagem” de símbolos
matemáticos que, embora originalmente destinada a abreviar afirmações
anunciadas, contém agora afirmações que de modo algum podem ser reconvertidas
em palavras.
Nós: Como a professora vê
esse predomínio do pensamento único da escola de expectativas racionais, onde
todos racionalmente maximizam a utilidade?
Hannah Arendt:
A conduta uniforme que se presta à determinação estatística e, portanto, à
predição cientificamente correta, dificilmente pode ser explicada pela hipótese
liberal de uma natural harmonia de interesses, que é a base da economia
clássica. Não Karl Marx, mas os próprios economistas liberais foram levados a
introduzir a ficção comunista, isto é, supor a existência de um único interesse
da sociedade como um todo, com o qual uma mão invisível guie o comportamento
dos homens e produza harmonia de seus interesses conflitantes.
As falsas promessas do paraíso da
extrema-direita, penduradas na cruz ou na suástica, impulsionam a marcha dos
ressentidos
Nós: Na sua obra A Condição
Humana, a professora faz uma analogia entre a economia neoclássica e a ficção
comunista, certo?
Hannah Arendt:
Uma das principais teses da brilhante obra de Myrdal é que o utilitarismo
liberal, não o socialismo, é forçado a manter uma “ficção comunística”
insustentável acerca da unidade da sociedade, e que essa “ficção comunística” é
implícita na maioria das obras de economia. Qualquer vitória completa da
sociedade produzirá sempre algum tipo de “ficção comunística”, cuja principal
característica política é que será, de fato, governada por uma “mão invisível”.
Nós: Segundo Wilhelm Reich, a
tendência a ver tudo em termos de economia é catastrófica. Devem ser feitos
todos os esforços para corrigir essa tendência. Pelo prisma da mão única
invisível, a senhora se aproxima de Reich?
Hannah Arendt:
O ponto crucial do argumento é que isto equivale à asserção de que a sociedade
deve ser concebida como um único sujeito. E isto é, precisamente, o que não
pode ser concebido. Tentar fazê-lo é tentar ignorar o fato essencial de que a
atividade social é o resultado das intenções de vários indivíduos. O mundo
comum acaba quando é visto somente sob um aspecto e só se lhe permite uma
perspectiva.
Nós: Qual é o seu olhar sobre
essa explosão de influencers, campeões de votos nas últimas eleições no Brasil,
que atinge essa massa de ressentidos?
Hannah Arendt:
A admiração pública é também algo a ser usado e consumido; e o status, como
diríamos hoje, satisfaz uma necessidade como o alimento satisfaz outra. A
admiração pública é consumida pela vaidade individual da mesma forma como o
alimento é consumido pela fome. A admiração pública, consumida diariamente em
doses cada vez maiores, é, ao contrário, tão fútil quanto a recompensa
monetária, uma das coisas mais fúteis que existem pode tornar-se mais objetiva
e mais real.
Nós: A extrema-direita usa a
persuasão porque percebeu que para a multidão pouco importa a verdade?
Hannah Arendt:
A diferença mais marcante entre os sofistas antigos e os modernos é simples: os
antigos se satisfaziam com a vitória passageira do argumento à custa da
verdade, enquanto os modernos querem uma vitória mais duradoura, mesmo que à
custa da realidade. Em outras palavras, aqueles destruíram a dignidade do
pensamento humano, enquanto estes destroem a dignidade da ação humana. As
massas surgiram dos fragmentos da sociedade atomizada, cuja estrutura
competitiva e a concomitante solidão do indivíduo eram controladas quando se
pertencia a uma classe. O fato de que o “pecado original” da acumulação
primitiva de capital tenha requerido novos pecados para manter o sistema em
funcionamento foi eficaz para persuadir a burguesia alemã a abandonar as
coibições da tradição ocidental… Foi esse fato que a levou a tirar a máscara da
hipocrisia e a confessar abertamente seu parentesco com a ralé.
Nós: Poderia explicar a
diferença entre ralé e povo?
Hannah Arendt:
A ralé é fundamentalmente um grupo no qual são representados resíduos de todas
as classes. É isso que torna tão fácil confundir ralé com povo, o qual também
compreende todas as camadas sociais. Enquanto o povo, em todas as grandes
revoluções, luta por um sistema realmente representativo, a ralé brada sempre
pelo “homem forte”, pelo “grande líder”. Porque a ralé odeia a sociedade da
qual é excluída, e odeia o Parlamento onde não é representada.
Nós: O que acha de um governo
que, mediante decretos da extrema-direita, promete, aos quatros ventos, a
reforma da Constituição?
Hannah Arendt:
Se o governo de boas leis já foi chamado de governo da sabedoria, o governo de
decretos adequados pode ser corretamente chamado de governo da esperteza.
Porque levar em conta motivos e objetivos ulteriores é esperteza, enquanto
compreender e criar algo por dedução, a partir dos princípios geralmente
aceitos, é sabedoria… Não existem movimentos sem ódio ao Estado.
Nós: Agradecemos pela sua
paciência e vontade de nos conceder a honra desta entrevista. A professora tem
alguma mensagem numa realidade tão apavorante quanto a ascensão do nazismo e do
fascismo nos anos 30 do século XX?
Hannah Arendt:
O perigo é que uma civilização global, universalmente correlata, possa produzir
bárbaros em seu próprio seio por forçar milhões de pessoas a condições que, a
despeito de todas as aparências, são as condições da selvageria. Segundo David
Rousset, os homens normais não sabem que tudo é possível. •
Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital, em 28 de outubro de 2026.

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