sábado, 24 de outubro de 2026

Uma eleição indefinida para uma sociedade sombria, por Vagner Gomes*

“É algo estranho ver com que espécie de ardor febril os americanos perseguem o bem-estar e como se mostram constantemente atormentados por um temor vago de não ter escolhido o caminho mais curto que pode conduzir ele. O habitante dos Estados Unidos apega-se aos bens deste mundo como se tivesse certeza de que jamais morreria, e é com tanta precipitação que procura apoderar-se daqueles que passam ao seu alcance, que se diria que teme a cada instante deixar de viver antes de os ter gozado. Toma-os todos, mas sem os estreitar, e os deixa logo escapar das suas mãos, para correr atrás de prazeres novos.” (Alexis de Tocqueville, A Democracia na América)

Em poucas horas o eleitorado brasileiro vai votar no Segundo Turno das eleições presidenciais, naquela que é apresentada como a mais competitiva das últimas décadas. Não uso o termo por referendar a interpretação de uma hipótese de “polarização afetiva”, pois os dois campos estão nas redes sociais e nas ruas sem qualquer situação semelhante a uma ex-Deputada foragida a correr com arma nas mãos contra um eleitor. Estamos num momento em que a moldura do Estado de Bem Estar Social, garantido nas conquistas sociais e políticas da Carta de 1988, se encontram questionadas diante da emergência de uma sociedade em busca não mais da felicidade e, sim, da prosperidade.

A competitividade é um processo que tende a ser de longo curso entre as forças do “americanismo estrutural” e as forças do “barroco político”. Evidentemente, reconhecemos que se abre um novo ciclo na política brasileira onde a Nova República está morrendo, porém ainda não temos clareza do que está nascendo no horizonte. Ou teremos uma nova transição democrática ou cairemos num abismo autocrático.

A chamada “Revolução dos Interesses” é a herança nefasta dos últimos anos da Ditadura Militar (1964-1985) e agora ela se volta contra a matriz social de uma organização partidária que nasceu sob essa égide. A sociedade estaria mais sombria por conta dos bens desejados e nunca alcançados. O social foi potencializado em diversas pautas que apartaram cada vez mais os quadros políticos do diálogo e da tolerância. Tudo isso numa sociedade aonde a desigualdade social se eleva como se fosse uma condição natural. Não se espantam com o ódio, pois esse é o motor desse frenesi social.

A política vitoriosa da Frente Democrática de 2022 não está sendo avaliada diante dessas eleições do ressentimento. Ela se manifesta somente em tópicos ou momentos dispersos, o que viabilizou a “votação de chegada” do candidato da oposição. A “grande política” ter ficado restrita somente a algumas vitórias no Senado Federal expõe que agrupamentos políticos do “populismo de esquerda” temem, na verdade, um “fascismo retórico”, uma vez que desconsideram o voto útil em nome de uma sequência de derrotas. Consequentemente, inúmeros senadores da extrema direita foram eleitos, pois não se fez a chamada  política do cordão sanitário (1).

Devemos reconhecer que o processo de americanização da sociedade brasileira agora se faz cada vez mais presente nos encantamentos de muitos “influencers”, com o estilo Trump de questionar o chamado sistema político. Aquilo que chamo de “americanismo estrutural” ganhou muita força até em discursos políticos de candidaturas progressistas em tempos pretéritos. A desqualificação da política pelas via da retórica da ética retirou a “virtú” do cenário político. Estamos entregues à “fortuna” daquilo que acontecerá nas próximas horas diante de organizações partidárias formadas ora no século passado, ora por políticos desses tempos.

No ainda pouco conhecido Caderno 22 das notas de Gramsci sobre o americanismo e fordismo estaria a possibilidade de um entendimento do que estaria a acontecer na mundialização do extremismo de direita. A nota em referência à racionalização da composição demográfica europeia nos faz repensar sobre os números do Censo Demográfico de 2022 em nosso país aonde os elementos econômicos e passivos são determinados pelo aumento de idosos a pressionar a seguridade social. Assim, “na América, a racionalização determinou a necessidade de elaborar um novo tipo humano, adequado ao novo tipo de trabalho e de processo produtivo (…)” (GRAMSCI, Cadernos do Cárcere, Volume 4, p. 248).

A natureza comportamental do cenário eleitoral está se consolidando nessa transição com elementos que abalam até a saúde mental de uma juventude premida em seus desejos e visões para o futuro. Então, a via programática do “americanismo estrutural” vislumbra a retirada da cobertura dos ganhos sociais que dariam uma sobrevida as camadas sociais mais vulneráveis. Diante disso, não é pela via da autorreforma ou da ruptura com a Nova República que devamos trilhar, mas pressionar para que os atores políticos refundem um novo processo de transição democrática.

(1) – Consiste na recusa de partidos políticos tradicionais ou moderados em formar coalizões, alianças ou fechar acordos de governo com partidos considerados extremistas ou radicais. Os partidos progressistas se aproximam de candidaturas moderadas para derrotar os candidatos extremistas.

 *Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO.

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