Eu tenho 74 anos, morei dez anos fora do Brasil, conheci figuras admiráveis por onde andei. Porém, somente duas pessoas me impressionaram tanto quanto a Márcia: o arquiteto Oscar Niemeyer e o poeta Ferreira Gullar. Oscar foi o Aleijadinho do século XX; Gullar, o Tomás Antônio Gonzaga deste mesmo século. No tocante à minha adorada Márcia, eu diria que ela é a herdeira, pela grandeza pessoal, de Bárbara Heliodora. Como escritora, Márcia é comparável a Cora Coralina. Seus textos possuem a mesma leveza, doçura e profundidade daqueles da poetisa de Goiás Velho.
Vou dedicar meus últimos anos de vida, se é que eu os tenho ainda, à memória da Márcia. Começando pela publicação do seu último livro, que ela concluiu e me enviou de Praga no dia mesmo do seu falecimento.
É o mínimo eu posso fazer pela mulher que mais me amou e que eu mais amei.
Figura humana querida e respeitada, Márcia era cultuada por todos os alunos que ela ajudou a formar, em seu longo período de magistério. Ao abrir uma editora, essa respeitabilidade foi manifestada também pelas dezenas de escritores que ela publicou, com tanta competência e dedicação. Seus livros pessoais e os editados por ela se encontram quase todos - e eu repito, quase todos - catalogados nas maiores bibliotecas dos Estados Unidos e de países da Europa, como a Alemanha e a França. Para uma editora de porte artesanal como a Aquarius Produções Culturais por ela criada, é um feito extraordinário.
Sua importância para a cultura brasileira foi reconhecida por intelectuais da qualidade e peso de um Cristovam Buarque, diretor da UNESCO, uma espécie de Ministério Mundial da Educação, e ex-reitor da Universidade de Brasília e, também, ex-candidato à Presidência da República. Logo que soube do falecimento dela, Cristovam me enviou o seguinte texto: " Ivan, que mensagem triste. Lembro nosso encontro em Tiradentes e os livros que ela editou. Receba um abraço do amigo Cristovam. Meu e outro da Gladys". Recebi centenas de mensagens de diversas partes do Brasil enaltecendo a sua atuação como professora, editora e escritora. Em tempo: o primeiro dos 60 livros que a Márcia editou, A saída pela Democracia, foi prefaciado por Cristovam Buarque. Angelo Osvaldo, ex-ministro interino da Cultura, também prefaciou duas outras obras editadas por ela. São provas, entre tantas outras, do seu prestígio cultural e profissional. E é preciso dizer que a Márcia revisava pessoalmente os livros que editava, fazia as capas deles e ainda os ilustrava. Era uma desenhista primorosa.
De fato, Márcia foi mulher notável, pela inteligência, talento e solidariedade. Amava sua família e, por extensão, o povo brasileiro. Não por acaso nasceu na terra de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.
Márcia foi um ser humano raro. Sua obra, seu trabalho editorial, os encontros literários que ela promoveu são uma extensão da riqueza inigualável do seu mundo interior. Tinha um orgulho enorme por haver começado a trabalhar aos dez anos de idade, ajudando a manter a renda da família. E esse orgulho foi ainda maior quando se formou em História e Filosofia, passando a ministrar aulas.
Márcia enfrentou muitas dificuldades, lutando sempre para se afirmar. Sabia perfeitamente que alguns seres medíocres tentavam destruir sua autoestima, mas ela era mais forte. No fundo, tinha pena de alguns invejosos que cruzavam de vez em quando seu caminho. "Eles passarão e eu passarinho", cantava o poeta Mário Quintana.
Para minha infinita tristeza, Márcia Heliane Gomes se foi. Mas eu carrego sua história comigo o resto da minha existência. Só posso me sentir honrado por ter sido seu companheiro e merecer o seu amor.
Como seu pai, Chiquinho Gomes, sua mãe, Dona Maria José e sua filha Maria Alice Gomes, eu também fui agraciado pelo seu amor.
Há alguns anos, quando eu viajava pelo rio São Francisco, eu estive na reserva dos índios xacriabá. Lá, conheci uma senhora que pintava sua casa, por dentro e por fora, com belos motivos florais. Eu perguntei então a ela o porquê de pintar tanto. E ela me respondeu: "Eu preciso colocar beleza em minha vida".
Foi o que a Márcia fez: espalhou beleza pelo mundo, por esse mundo de Deus.

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