CartaCapital
Os BOs de Flávio Bolsonaro não param de
pipocar
Flávio Bolsonaro é um candidato “sambarilove”, bordão de um personagem de um antigo programa de humor na televisão. Armando Volta tinha um jeito malandro, nunca respondia às perguntas do Professor Raimundo, era um enrolador profissional. Descrição apropriada para o senador do PL. O filho de Jair passou a campanha sem dar explicações sobre temas indigestos: a relação com o advogado Willer Tomaz, os milhões pedidos a Daniel Vorcaro, do finado Banco Master, a tomada “na mão grande” de uma ilha em Angra dos Reis reservada ao jogador Richarlison, a defesa do PM que matou com fuzil uma menina de 5 anos, a suspeita de financiamento norte-americano em sua campanha presidencial. Dessas histórias, a única capaz de ter consequência prática para o senador é aquela do dinheiro estrangeiro, caso o Tribunal Superior Eleitoral abra a investigação solicitada pela campanha de Lula. Ele poderia ter a chapa cassada. E quanto aos outros episódios? Pela Constituição, um presidente não paga por atos anteriores ao mandato.
Para a Polícia Federal, Willer Tomaz é “um
verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” dos participantes do
esquema
Seria um desfecho similar àquele das
“rachadinhas”, nome folclórico para crime sério: peculato, o embolso de
recursos públicos por quem deveria cuidar dela. Flávio Bolsonaro foi acusado
pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de ficar com parte do salário dos
funcionários no tempo de deputado estadual. Pela denúncia, de 2020, ele e a
esposa engordaram o patrimônio em 927 mil reais entre 2010 e 2014. A origem
suja do dinheiro era mascarada por meio de negócios imobiliários e de uma loja
de chocolates. O atual senador jamais foi julgado. O MP desistiu do processo
após Cortes superiores em Brasília anularem relatórios do Coaf, o órgão federal
de combate à lavagem de dinheiro, e quebras de sigilo fiscal e bancário por um
juiz de primeira instância. A propósito de sigilos, o candidato levou três dias
para responder se topava abri-los agora, após um desafio de Lula, e colocou uma
série de obstáculos para evitar a transparência. Enquanto isso, despontava no
noticiário um personagem incômodo, Willer Tomaz.
O amigo advogado
A trajetória de Tomaz permite entender o
sucesso patrimonial do senador do mesmo modo que as “rachadinhas”. De origem
humilde, o advogado brasiliense tornou-se milionário e influente em Brasília
nos últimos 15 anos. Possui imóveis, aeronaves, clientes congressistas e
telefones de juízes e procuradores. Em 2017, foi preso pela Polícia Federal
após um desses clientes, Joesley Batista, da JBS, contar que Tomaz pagava um
procurador em troca de informações sobre uma investigação contra a companhia.
Batista voltou atrás, mas um áudio gravado pelo diretor-jurídico do frigorífico
flagrou Tomaz a dizer como ratearia a primeira parte do contrato com a empresa:
com três personagens, entre elas o tal procurador. Nos últimos dias, a PF fez
uma batida contra um servidor público que até meados de outubro chefiava a área
de tecnologia do Superior Tribunal de Justiça. Motivo: teria recebido dinheiro
de Tomaz em troca de informações sobre processos e votos de magistrados.
O próprio advogado tinha sido alvo da PF em
agosto, na investigação sobre o esquema de desfalque das aposentadorias pagas
pelo INSS. A polícia encontrou em seu escritório dinheiro vivo em livros e
máquinas de contar cédulas em uma sala secreta de um hangar de Brasília, onde o
advogado mantém aeronaves. Lidar com cash, anota um policial, é sempre
suspeito. Para a PF, Tomaz é “um verdadeiro hub financeiro, patrimonial e
logístico” dos participantes do esquema. No caso que levou os federais a Tomaz,
o beneficiário era o senador Weverton Rocha, do Maranhão. O advogado seria
responsável por lavar dinheiro obtido de forma ilegal por Rocha. No ano
passado, Tomaz foi o maior apostador de bets do País, quase 5 bilhões de reais,
conforme um relatório da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da
Fazenda. Segundo a secretaria, o volume é um indício de lavagem de dinheiro, e
a casa de apostas que o recebeu deveria ter avisado as autoridades. O relatório
foi à PF no início de outubro.
Amigos? Ou sócios em bet?
Flávio Bolsonaro e Tomaz são apenas bons
amigos, como eles dizem? Ou a relação está mais para sócios? Ou o advogado
seria “laranja” do senador? A polícia abriu, em outubro, um inquérito para
investigar a dupla por lavagem de dinheiro via bets. Desconfia que os dois são
sócios de fato, embora não no papel, de uma firma na Ilha da Madeira, em
Portugal, localidade que até 2017 constava da lista brasileira dos paraísos
fiscais. Essa empresa é a Alcazar, financiada por outra sediada no mesmo lugar,
a Cathedral, segundo a revista Piauí. No papel, as duas estão no nome de Tomaz.
Em 2023, a Cathedral obteve uma licença da Loterj, a lotérica estatal do Rio,
para operar apostas online. Faria isso por meio da Best Bet, primeira casa de
apostas online do País. A Loterj era chefiada por um advogado indicado pelo PL,
conforme o então governador Cláudio Castro. Quem mandava no PL do Rio era o clã
Bolsonaro. Em 2024, o governo federal acabou com as licenças estaduais e a
Loterj foi à Justiça em defesa da Best Bet. Em vão.
Parte do dinheiro arrecadado pela bet
enquanto operou foi mandado à Cathedral e, de lá, à Alcazar, que mantinha conta
no Santander, da qual Flávio Bolsonaro era “usuário master”, conforme o UOL.
Por “usuário master”, entenda-se: alguém com poderes para manejá-la como
quisesse. O senador esteve nessa condição até maio de 2025, quando uma
funcionária de Tomaz, Fayla Zulmira Menezes, pediu ao Santander para tirar o
senador da conta. Fayla é uma personagem do caso Rocha-Tomaz. Fazia
movimentações financeiras entre ambos.
O escritório
Outra personagem menor, Letícia Caetano dos
Reis, é mais uma pista das relações entre Flávio Bolsonaro e Tomaz. O senador
montou um escritório de advocacia em Brasília no governo do pai, em abril de
2021. É de fato uma banca de serviços jurídicos? Ou fachada para acobertar
negócios como tráfico de influência e corrupção? É comum ouvir em Brasília que,
na divisão de tarefas do clã Bolsonaro no governo do capitão, cabia ao senador
negociar com a turma da bufunfa. A sede do escritório de Flávio Bolsonaro fica em
um casarão adquirido em janeiro de 2021. O senador pagou 6 milhões de reais por
ele: metade à vista e o resto financiado em 30 anos pelo BRB, o banco estatal
de Brasília. Quitou a dívida toda em 2024. Quem administra a banca é uma
indicada por Tomaz, como a própria contou em 2022 à Agência Pública: Letícia
dos Reis. Ela é irmã de um contador que é um sócio, segundo a PF, do “Careca do
INSS” em uma empresa em paraíso fiscal.
Tomaz e o senador haviam se aproximado no
governo Bolsonaro. Flávio frequentava um rancho nas cercanias de Brasília
pertencente ao advogado, um ponto de encontro e de negociações entre figurões
da República. A relação começou a ser notada em Brasília justamente em 2021. Em
abril daquele ano, mês de abertura da advocacia do filho “zero um”, a CPI da
Covid ouviu um sujeito que alegava ter havido tramoia em negociações para a
compra de vacinas. O relator da CPI perguntou ao depoente sobre Tomaz, e Flávio
Bolsonaro saiu em socorro dele. “O senador Renan Calheiros, acredito eu
sozinho, porque parece que ele é que manda na CPI, quebrou o sigilo fiscal do
senhor Willer Tomaz (…) Ele está quebrando de todo mundo que ele entenda que
transite em torno de mim.” A mutreta denunciada pelo depoente era o
favorecimento de uma vacina indiana, a Covaxin, que custava mais que a
concorrência. O senador era a favor dessa vacina. Os representantes da Covaxin
no Brasil, da Precisa Medicamentos, deram-lhe um relógio Rolex na época, de
acordo com a revista Piauí, enquanto passeavam de barco em Brasília.
Em janeiro de 2021, dias antes de comprar o
casarão, Flávio Bolsonaro havia feito outro passeio aquático. Tinha ido de
lancha à frente de uma ilha em Angra dos Reis. Cobiçava a propriedade de 11
suítes, praia privativa, cachoeira, piscina e heliporto desde que conhecera um
imóvel vizinho, em 2020. Da lancha fez saber ao dono da mansão que estava na
porta e que Tomaz queria conhecer a propriedade. O advogado sondou o dono sobre
uma venda e ouviu que alguém já tinha comprado. Era Richarlison, jogador do
Brasil na Copa de 2022. Ele pagou em torno de 4,5 milhões por ela e outros 5
milhões para reformá-la. “A ilha, os caras me tomaram na mão grande”, afirmou o
atleta em vídeo recente no Instagram.
A mansão em Angra dos Reis
Flávio Bolsonaro traficou influência no
governo do pai para “tomar na mão grande” a mansão? Em julho de 2022, a
Secretaria de Patrimônio da União, órgão federal, emitiu em tempo recorde um
certificado a atestar que o imóvel era de uma empresa de Tomaz, a WT
Administração de Imóveis e Bens. A chefe da SPU era Fabiana Rodopoulos. A
superintendência do Rio era comandada por um coronel, Paulo da Silva Medeiros.
Imóveis na Ilha Comprida, em Angra, podem ser usados por quem paga por eles,
estes adquirem direito de posse. Mas a propriedade de fato será sempre do
governo federal, por ser área de Marinha (a menos que a Constituição seja
modificada). Richarlison tinha tentado por meses o certificado da SPU, sem
sucesso.
A papelada conseguida por Tomaz era o
desfecho de uma operação jurídica montada pelo advogado para realizar o sonho
de Flávio Bolsonaro. Diante da recusa de Richarlison de vender o imóvel, Tomaz
resolveu melar as negociações que haviam levado a mansão ao jogador. A casa
pertencera a Clara Nunes e passou por várias mãos após o viúvo da cantora tê-la
alienado em 1989. Tomaz identificou a primeira dessas mãos, a empresa M
Locadora. Convenceu os inventariantes da firma a reivindicarem a posse e a
negociarem com a WT Administração. Os inventariantes foram à Justiça e
ganharam. Um deles, uma senhora de 78 anos, Maria Alice Menna, jura ter sido
enganada pelo outro, Donato Galvez, e ter tido a assinatura falsificada no
documento de transferência à WT. Registrou uma ocorrência na polícia após o
certificado da SPU. O advogado de Galvez em um recurso de Richarlison no
Superior Tribunal de Justiça, Mateo Scudeler, é hoje sócio de Tomaz naquelas
empresas na Ilha da Madeira.
O caso da mansão de Angra ilustra os métodos de Tomaz: possível tráfico de influência (Flávio na SPU), jogo sujo para ganhar uma causa (a julgar pelo BO de Maria Alice e o advogado de Galvez), aparente uso de “laranja”. Quem representou a WT na SPU era uma doméstica, Lídia Maria Mazelli, que em setembro disse ao ICL Notícias não conhecer Tomaz. O deputado Lindbergh Farias, do PT, requereu à Polícia Federal que a proteja. Outros dois deputados petistas, Pedro Uczai e Rogério Correia, foram ao Supremo Tribunal Federal tentar anular o certificado da SPU a Tomaz. Lula afirma ter pedido à PF que investigue o caso.
O caso “Dark Horse”
Há dois inquéritos em curso contra Flávio
Bolsonaro: o da bet com Tomaz e aquele que apura corrupção, lavagem de dinheiro
e evasão de divisas por trás da verba de Vorcaro ao filme-propaganda sobre Jair
Bolsonaro, Dark Horse. O senador passou a campanha sem explicar o episódio.
Esconde-se atrás do argumento de que se tratou de patrocínio privado a um filme
privado. Ou seja, nada a esclarecer. Há, porém, várias incógnitas. Por que
mentiu sobre o financiamento ao ser questionado pela primeira vez, antes de vir
a público o áudio dele a cobrar a grana do banqueiro? Por que o dinheiro não
saiu de Vorcaro e do Master para a produtora do filme, mas de um paraíso
fiscal? Por que não foi repassado à produtora, mas a um fundo nos Estados
Unidos controlado por um amigo do irmão Eduardo, autoexilado nos EUA desde
fevereiro de 2025? O patrocínio era gratuito? Ou seria, como diz um ministro de
Lula, propina em troca de apoio político para que os governos bolsonaristas do
Rio e do Distrito Federal injetassem recursos no Master na hora do aperto? Se
ganhar as eleições, o senador estará livre de qualquer investigação a respeito.
A menina Ana Clara
E o cabo da PM do Rio Bruno Dias Delaroli irá
a júri popular, em maio do ano que vem, caso o “zero um” vença? Por que Flávio
Bolsonaro aceitou licenciar-se do cargo no Senado e se tornar advogado de um
matador de uma menina de 5 anos? É outra pergunta sem resposta na campanha. Ana
Clara Gomes Machado morreu, em 2021, enquanto brincava na porta de casa, em
Niterói. Tomou tiros de fuzil de Delaroli. O policial afirma ter havido
confronto com bandidos e que a criança foi vítima do tiroteio. A perícia da
Polícia Civil encontrou só cartuchos de fuzil no local e sustenta que a PM
alterou a cena. Quando a Justiça do Rio o converteu em réu, Delaroli contratou
Flávio Bolsonaro como defensor para tentar escapar do júri. O senador é um dos
autores de um recurso no Superior Tribunal de Justiça contra a realização do
julgamento.
Por meio do escritório de advocacia do
senador, que faturou 14 milhões de reais, chega-se a Antônio Carlos Camilo
Antunes, o “Careca do INSS”
Outro que assina o recurso é Paulo Klein,
advogado de Fabrício Queiroz no caso das “rachadinhas”. PM reformado, Queiroz é
quem havia recrutado a esposa e a mãe de outro PM, Adriano da Nóbrega, para que
trabalhassem no gabinete de Flávio Bolsonaro na Assembleia e dessem parte do
salário ao patrão. Nóbrega encarou um júri em 2005, por ter assassinado um guardador
de carros. Pegou 19 anos. Três meses antes, havia sido homenageado com uma
medalha na Assembleia Legislativa, condecoração proposta por Flávio. Quando
Nóbrega foi julgado, Jair Bolsonaro estava na plateia, para dar uma força ao
PM. O policial foi morto no governo do Bolsonaro pai, em um cerco policial na
Bahia. Era um foragido da Justiça, acusado de liderar uma milícia e de ser
pistoleiro de chefes do jogo do bicho. •
Publicado na edição n° 1436 de CartaCapital, em 28 de outubro de 2026.

Um comentário:
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