Revista Será?
Nesses dias, estou terminando de ler o
livro 2041 – Como a inteligência artificial vai mudar sua vida nas
próximas décadas, dos chineses Kai-Fu Lee, CEO da Sinovation Ventures
(depois de ser executivo da Microsoft e da Apple), e Chen
Qiufan, escritor e fundador do Thema Mundi. É uma coletânea de contos
de ficção científica, comentados pelo especialista em IA. O formato e
o conteúdo são muito intrigantes.
Ultimamente, tenho dedicado parte do meu tempo a estudar a Inteligência Artificial e suas consequências sobre nossas vidas. Em particular, do ponto de vista psicossocial: a pensar, portanto, nas consequências das inovações tecnológicas sobre nossa forma de trabalhar, conviver, criar, pensar, amar e nos divertirmos. Mudanças em nossos comportamentos, mas também em nossas percepções e valores. Fazer isso, do ponto de vista do futuro, significa trabalhar com hipóteses, ou seja, cenários.
Uma coisa tem me chamado a atenção: as
diferenças de percepção do futuro entre ocidentais e orientais. Há um
ponto em comum em ambos os lados do mundo: a disrupção é uma
constante. Imagina-se que as inovações tecnológicas irão provocar mudanças
substantivas do ponto de vista econômico, social, político e
psíquico. Porém, a convergência acaba aqui.
O passo seguinte é ocupado pelas
divergências. Não de forma uniforme no Ocidente e no Oriente. A
divergência maior é quando resumimos o Oriente à parte do Oeste e do Sudoeste
asiático — do Japão até a Índia e a Indonésia, passando pela
China, Coreia do Sul, Vietnã etc. —, e a parte do
Ocidente, restrita à Europa e aos Estados Unidos.
No segundo caso (Ocidente), há um leve
predomínio em pensar o futuro de forma distópica. Os cenários são
majoritariamente negativos, repletos de riscos e ameaças: massa de
trabalhadores sem emprego, regimes democráticos fenecendo, degradação
ambiental crescendo, risco de guerra nuclear, de novas pandemias
e, sobretudo, de aumento dos eventos climáticos extremos com altos
custos econômicos e humanos. Sociedades sem coesão social, com
criminalidade se alastrando, sem tolerância para conviver com os diferentes: um
mundo de ansiedade e medo, com liberdades cerceadas. Um futuro em que o
“primeiro mundo” caminha para se transformar, gradativamente, no
“terceiro mundo”, com desigualdades abissais, pobreza visível e
violência crescente.
Claro que há exceções, particularmente
entre os intelectuais ligados ao Vale do Silício, à corrente dos
“aceleracionistas”. Contudo, mesmo nesses casos, a desigualdade resta
entalada na garganta, com o risco daquilo que Cristovam Buarque um dia
denominou de apartação, numa dupla alegoria: ao apartheid da África
do Sul e ao ato de apartar o gado. Em resumo, um mundo em que a
cissiparidade dará lugar a duas espécies: os super sapiens (com
maior poder cognitivo e longevidade) e os sub sapiens (famintos).
Em contrapartida, no Oriente, acima
definido, a visão de futuro que parece predominar está associada à
prosperidade, à utopia de um mundo melhor, em que aos poucos os
humanos se libertam do trabalho penoso para se dedicar às atividades
inteligentes e lúdicas, em que o tempo de trabalho se reduz gradativamente
e cresce o tempo do lazer, da criatividade. Um mundo em que os bens
materiais básicos estarão à disposição de todos os humanos.
Há uma base material para essa
diferença. No Oriente, aqui circunscrito, a degradação ambiental
se reduz e a pobreza se enclausura ou encolhe. A renda média dos
trabalhadores aumenta, o tempo livre também. A educação de qualidade
é cada vez mais acessível, e o acesso aos serviços de saúde
aumenta. Os indivíduos são mais autônomos, sem se desligar de seu grupo
de pertencimento. Seus países, antes submetidos ao jugo do
imperialismo ocidental, emancipam-se e ganham protagonismo. É um
mundo de futuro para seus filhos, sem ansiedade e sem
depressão. Quase o inverso ocorre atualmente no Ocidente aqui
definido: perda de poder aquisitivo da classe média, redução da
oferta de empregos, relativa queda na dinâmica econômica (mais na
Europa), déficit habitacional crescente, com aumento visível das
pessoas morando na rua.
Claro que acentuei as cores de um e outro
lado quanto ao futuro, mas na essência a distinção é real e clara. O
lado desse Ocidente afunda, está em crise; seu poderio econômico e
tecnológico se reduz relativamente. O inverso ocorre no Oriente que
defini.
E por mais que tenhamos o treino de nos
distanciar do presente, dos movimentos conjunturais, não conseguimos
nos eximir dessas influências circunstanciadas. O desafio é nos colocarmos
no meio, entre o pessimismo de uns e o otimismo dos outros. Porque as
coisas no real não são nem uma coisa nem outra; otimismo e pessimismo são
simples pontos de vista, percepções, fatos psíquicos e não
materiais. São expectativas e não processos factuais. Depende do dono
do olhar,do lugar do sujeito. Podemos, perfeitamente, evitar o
olhar predominante no Ocidente em crise.
Por isso, o distanciamento do que se
passa hoje em nosso país é essencial. Qualquer que seja o resultado das
urnas, não teremos um país fácil. Os problemas, imensos e
graves, persistirão: a educação de má qualidade, a violência
urbana, o acesso difícil ao mínimo de serviços de saúde, a degradação
ambiental, a falta de bons empregos para os jovens, o
congestionamento das grandes cidades, o feminicídio absurdo, a
precariedade da moradia, o racismo e outras formas de
discriminação. Tudo isso perdura e deverá ser enfrentado. Mas o será
de formas distintas segundo o vencedor das eleições. Na vitória de
um, as condições de vida dos mais pobres e dos trabalhadores manuais serão
agravadas, a democracia poderá ser extinta e a
soberania, enfraquecida. No caso da vitória do outro, os
problemas continuarão com pequenas soluções que nos deixam impacientes e
insatisfeitos, mas estarão sendo enfrentados em busca de soluções em um
regime democrático, no qual podemos opinar, discordar e mudar os
governantes.
Qual lado o povo vai escolher? De qual
lado você estará?
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor
associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de
Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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