segunda-feira, 16 de março de 2009

Cartolas sem coelhos

Fábio Wanderley Reis
DEU NO VALOR ECONÔMICO


Em evento universitário recente, ouvi um filósofo político falar da intensidade com que o interesse pela ação política motiva o seu trabalho. A declaração vinha a propósito das relações entre a reflexão teórica sobre questões políticas e a bifurcação que contrapõe a prática política, de um lado, e, de outro, as questões metodológicas trazidas pela preocupação de corroboração empírica ou factual das proposições que a reflexão produz. Desse ponto de vista, surge a possibilidade de objetar que o interesse pela ação política, ou o compromisso com ela, pode ligar-se a equívocos variados e relacionar-se de maneira problemática com o diagnóstico da situação em que se trata de agir. E a própria ação, portanto, pode vir a ser equivocada e eventualmente carregada de efeitos nefastos.

Naturalmente, esse é, no fundo, o velho tema que associa a ideia de ideologia com distorção e erro, como se dá há muito na chamada sociologia do conhecimento. Há um uso "nobre" de ideologia, frequente no campo da política, que é contrastante com esse, indicando antes a capacidade de reflexão elaborada e tomada de posição sofisticada a respeito dos assuntos políticos - e pode-se perceber que "ideologia política" envolve, na verdade, os dois elementos, tanto o de construção intelectual mais ou menos complexa quanto o de engajamento, parcialidade e rigidez. De todo modo, o componente de rigidez e erro esteve fortemente vinculado, até há pouco, em particular com certas posições mais aguerridas de esquerda, de orientação socializante ou mesmo revolucionária, enquanto as posições contrárias se pretendiam pragmáticas e realistas - ou pelo menos ter os valores que admitidamente as guiavam fundados na reflexão mais sólida e bem respaldada nos fatos.

Com as proporções da crise de agora, porém, a conexão entre ideias e fatos se tornou objeto de perplexidade geral. Em artigo de dias atrás ("Seeds of its own destruction", FT.com, 8 de março), Martin Wolf dirige-se à ideologia como orientação valorativa geral e não deixa por menos: o colapso da ideologia do livre mercado é equiparado, sem vacilações, ao da do socialismo revolucionário. Mas problemas de conhecimento têm lugar de relevo em sua análise: Wolf não só reconhece ser "impossível saber, nesta encruzilhada, aonde estamos indo", mas também, citando Paul Volcker, aponta a causa crucial da crise no fato de que o novo e sofisticado sistema financeiro, ao contrário do que se presumia (que sua sofisticação mesma transferiria o risco para os mais capazes de administrá-lo), "falhou no teste de mercado", transferindo o risco aos menos capazes de entendê-lo - e dando razão à caracterização de Warren Buffett dos derivativos como "armas financeiras de destruição em massa".

As reavaliações dos economistas se multiplicam e aprofundam. Em sua coluna de 10 de março no Valor, Delfim Netto recorre longamente à crítica dos rumos dominantes da economia como disciplina acadêmica empreendida em trabalho recente por "competentes membros do ´mainstream´", como descreve os autores. Aí se destaca a parcela de responsabilidade da disciplina na produção da crise, a má alocação de recursos de pesquisa e a falha na relação com a sociedade ao não alertar sobre as limitações de modelos cuja proliferação ocorre não obstante ignorarem elementos fundamentais na produção dos resultados dos mercados reais.

Um aspecto saliente quanto aos elementos omitidos se expressa, de maneira às vezes até mesmo desfrutável, na concepção das relações entre economia e psicologia. Ainda há poucos dias, na televisão, dizia um professor de economia que chega um momento em que é preciso dispensar os economistas e chamar os psicólogos - o que implica, naturalmente, que a economia nada tem a ver com a psicologia, e me faz lembrar Ibrahim Eris, na presidência do Banco Central, a declarar a certa altura que a inflação que teimava em subsistir era "gratuita" ou sem causas, pois todos os fatores ("econômicos"?) se achavam sob controle. Seja como for, temos agora a economia comportamental, com sua ênfase nos aspectos "irracionais" das decisões e ações econômicas, e é curioso vê-la utilizada com destaque, ao lado da neurociência e de trabalhos de filosofia da ciência como os de Karl Popper e Thomas Kuhn, num volume dirigido sobretudo a investidores e de autoria de um administrador de fundos de investimento ("Mercados em Colisão", de Mohamed El-Erian, com passagem pela Harvard Management Company e agora na PIMCO). Mas é talvez especialmente revelador, a respeito desse volume, que, tendo sido escrito em fins de 2007 e começos de 2008, e portanto a alguns meses da aceleração calamitosa da crise, posições otimistas e pessimistas (como a de Nouriel Roubini) quanto ao rumo a ser tomado pelos acontecimentos são nele confrontadas de passagem - com a conclusão de que só o tempo dirá qual das perspectivas está certa...

Comecei com um filósofo, termino com outro. É o esloveno Slavoj Zizek, que apareceu há pouco na "Folha de S. Paulo", em entrevista sobre a crise reproduzida do "Financial Times". Zizek, que se declara "um marxista modesto", diz ser preciso compreender plenamente o que está acontecendo antes de podermos agir de modo sensato, e recomenda afastamento e reflexão. O papel dos filósofos seria o de ajudar a lançar luz sobre as perguntas que as sociedades deveriam formular, em lugar de apresentar soluções prontas. "Sinto-me como um mágico que mostra apenas cartolas, nunca coelhos." E o pior é que, por muito que se reflita, diante da confusão destes tempos extraordinários e dos especialistas perplexos, a competência com que se faz necessário contar parece ser de fato a de mágicos capazes de achar coelhos na cartola.

Fábio Wanderley Reis é cientista político e professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais. Escreve às segundas-feiras

É a política, estúpido!

Carlos Alberto Sardenberg
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Na primeira eleição de Bill Clinton, em 1994, quando perguntavam ao seu principal assessor, James Carville, qual o mote da campanha, ele repetia: "É a economia, estúpido!".

Os EUA estavam em recessão, com perdas de emprego, era fácil atacar o Bush pai por isso.

Em 2008, Obama também se elegeu principalmente com a economia. Se os eleitores americanos tinham alguma dúvida sobre a necessidade de mudança, a crise econômica acabou com ela.

A diferença é que, na era Clinton, a recessão era muito branda e, para falar a verdade, a recuperação já estava a caminho no momento do voto. Poderosas forças da economia real começavam a agir, como a tecnologia da informação (com seus ganhos de produtividade), a ampliação da globalização (com a entrada dos ex-países socialistas no capitalismo e no comércio mundial), a expansão da China e, claro, o sistema financeiro que espalhava capitais abundantes e baratos pelo mundo todo. Tanto que Clinton pôde forçar as agências hipotecárias a relaxar os critérios de concessão de empréstimo para a compra da casa própria, política que, antes de gerar o crash do subprime turbinado no sistema financeiro, promoveu anos de crescimento da construção civil.

Ou seja, Clinton assumiu no início de um fantástico ciclo de prosperidade.

Obama topa com um problema de dimensões inimagináveis até bem pouco tempo atrás, e com um enorme obstáculo político: ele sabe que a solução passa pelo resgate do sistema financeiro com dinheiro público, mas sabe também que o público americano está farto dessas ajudas aos bancos.

Na mídia e na política, frequentemente a coisa aparece como "dinheiro do contribuinte para salvar banqueiros inescrupulosos e ladrões". E não é mesmo assim? - dizem todos diante da condenação de Madoff.

Aliás, na última sexta-feira, em meio à cobertura desse caso, o New York Times notava que os tabloides americanos, normalmente dedicados à vida das celebridades, estavam ocupando suas páginas com histórias da farra da "América corporativa e financeira".

Tudo isso adiciona obstáculos à política de resgate do sistema financeiro. Torna-se difícil distinguir entre gastar dinheiro público para colocar em funcionamento bancos e sistemas financeiros, dos quais depende toda a atividade econômica, e doar dinheiro do contribuinte que perdeu o emprego para banqueiros bandidos.

O bilionário Warren Buffet, eleitor, amigo e colaborador de Obama, disse em entrevista recente à TV CNBC: "Há mensagens confusas e o público americano não entende... Eles sentem que não sabem o que está acontecendo e sua reação é a de se retrair... (a saída) depende enormemente não apenas da sabedoria das políticas do governo, mas da maneira pela qual são comunicadas adequadamente".

Em São Paulo, na semana passada, um ex-diretor do Fed (o banco central americano), Frederic Mishkin, disse que o governo Obama, por medo da reação popular à ajuda aos bancos, está atrasando movimentos mais firmes. E se arrisca a cair em medidas que simplesmente empurram o problema para a frente (impedem a quebra dos bancos, mas não resolvem a falta de capital). Foi o que o Japão fez nos anos 90. Levou mais de dez anos para resolver a crise bancária, um período todo de recessão.

É como se o Obama soubesse o que tem de fazer, mas não faz por temor da reação popular. Logo, é a política, estúpido - ou é a comunicação, estúpido.

Obama obviamente sabe desse obstáculo. Há poucos dias, apresentou desculpas antecipadas por "ser obrigado" a resgatar os bancos. Disse que era penoso ajudar um setor que ganhara tanto dinheiro e causara tantos problemas, disse que compreendia o mal-estar dos contribuintes, mas o que se vai fazer?

Políticos frequentemente topam com esses dilemas: as políticas cujos resultados positivos aparecem a médio e a longo prazo e cujos efeitos imediatos são ou parecem danosos.

Não precisa ir longe para encontrar exemplos. Eles sobram aqui no Brasil. Hoje, todo mundo diz que o sistema financeiro brasileiro é sólido, bem regulado e capitalizado, por isso suporta a crise. O presidente Lula alardeia isso mundo afora. Mas procurem no Google o que o mesmo Lula dizia do Proer, o programa que, nos anos 90, salvou os bancos e o sistema.

Hoje, todo mundo alardeia as forças modernas da economia brasileira, como telecomunicações e companhias exportadoras (Vale, Embraer, por exemplo). Mas procurem lá atrás o que se dizia da privatização desses setores e empresas.

Aliás, na semana passada, saiu a primeira sentença absolvendo Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações, e outros executivos que haviam comandando a privatização da Telebrás. Diz a sentença que todos agiram em nome do interesse público e acrescenta que nem os denunciantes, os petistas Aloizio Mercadante e Ricardo Berzoini à frente, nem o Ministério Público apresentaram provas.

Na verdade, os denunciantes não estão mais interessados nisso. No governo, estão mais ocupados em gerir o setor e ajudar a montar grandes companhias.

Alguns dirão que a força do sistema financeiro brasileiro está nos bancos públicos que FHC não conseguiu privatizar. Falso. Assim como o Proer arrumou o setor privado, outro programa, o Proes, reformou e capitalizou os bancos públicos (R$ 8 bilhões, dinheiro de 10 anos atrás, só para o Banco do Brasil), deixando-os prontos para a atuação atual.

Mas Gustavo Loyola, que, como presidente do Banco Central, pilotou essas políticas, ainda tem um caminhão de processos a responder.

Sempre se comentou que o governo FHC não conseguiu comunicar suas políticas. Warren Buffet está dizendo coisa semelhante para Obama.

*Carlos Alberto Sardenberg é jornalista

A fase é de crescimento... do desastre!

Marco Antonio Rocha
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Não sei dizer de outros comentaristas de economia da imprensa. Mas, "no que me concerne", como exclamava, com peculiar entonação, um famoso ex-presidente brasileiro, a maior surpresa não foi o tombo de 3,6% do PIB, apurado pelo IBGE, no último trimestre do ano passado; nem foi também o grande corte de 1,50 ponto porcentual na taxa Selic, decidido na reunião do Copom - sinal de que alguma dose de pânico açulou os espíritos dos seus membros - embora muita gente esperasse corte maior. Surpresa foi a percepção de que o Copom, com todo o seu aparato técnico e espírito conservador, também surfava na ilusão da "marolinha".

É o que explica a falta de agilidade e sensibilidade do colendo órgão desde agosto-setembro do ano passado.

Tempo perdido não se recupera. As economias brasileira e mundial agora se apresentam como aqueles carros de Fórmula 1 quando o piloto perde a direção - vemos a cena espantosa nas imagens das TVs: começam a dar cambalhotas, piruetas e reviravoltas deixando destroços por onde passam, num desastre que ninguém sabe quando e onde vai parar. E na economia também não há quase nada a fazer enquanto o desastre estiver rolando. Digamos que é um pouco esperar, agora, que o "marolão" se acalme, para ter melhor noção de como agir.

O que o Copom pode fazer é, daqui por diante, tentar contribuir para minorar as dimensões e a intensidade do desastre. Já começou a baixar a Selic, e admite continuar nessa política - um pouco tardia. Mas os juros no Brasil sempre estiveram altos, aliás, altíssimos, desde antes da invenção da Selic. Na média histórica, têm sido dos mais altos do mundo. No período recente - "Selicado", digamos - a taxa básica tem-se mantido alta desde o pico de maio de 2005 (19,75% ao ano), embora numa desescalada consistente. Isso não impediu que, no período, o PIB trimestral aumentasse sempre nem que os últimos três anos exibissem um nível de investimentos privados como poucas vezes se viu em nossa economia.

Portanto, juros altos não inibem investimentos privados, desde que haja mercado em crescimento, poder aquisitivo em alta e boas perspectivas de negócios. Foi esse ambiente positivo que garantiu a maior parte dos investimentos privados no crescimento da produção e do emprego no segundo mandato do presidente Lula, além da fase de muita bonança na economia internacional. Já os investimentos públicos, esses, encorparam bastante a oratória do governo, mas muito pouco o tutano da economia. Então, é preciso pesquisar melhor porque os investimentos privados se retraíram tanto em apenas um semestre, ou trimestre, sabendo, desde já, que a queda dos juros, neste momento, não elevará, de maneira significativa nem a curto prazo, o nível de investimentos: a Selic "não é milagrosa", já disse alguém.

Milagre acontece quando todos os agentes econômicos ou a maior parte deles, pelo menos, se convence de que o mar está pra peixe, o momento é favorável para se ganhar dinheiro e os ventos sopram a favor dos lucros. Quando as expectativas são o inverso disso, não há investimentos, os investidores jogam na retranca e ficam esperando a virada. Não adianta o presidente Lula ficar exortando os empresários a investirem: investimento se faz (1) com crédito; (2) para atender a um mercado crescente; (3) com o objetivo de bom lucro. Simples assim. Com o crédito retraído, no mundo e no Brasil (apesar dos misteriosíssimos anúncios de altos lucros de três grandes bancos americanos, no final de semana, e que ainda precisam ser bem explicadinhos); com o mercado interno encolhendo, por causa do aumento do desemprego, e o externo também, pela mesma causa; e com a perspectiva de lucro cada vez mais duvidosa, só Jesus Cristo teria êxito com discurso pró-investimento. Lula ainda não faz milagres...

Estamos na hora da calmaria dos bons ventos que sopraram durante quase dez anos, depois do final do primeiro mandato de FHC, quando crises na Ásia, na Rússia, no México, e não lembro onde mais, criaram uma turbulência mundial perturbadora e, no Brasil, viraram de pernas para o ar a política monetária e cambial que vinha sendo seguida, criando uma imensa confusão, até para se conseguir nomear um presidente do Banco Central. Alguém se esqueceu?

A entrada da China no mercado mundial, nesse período, comprando mercadorias e importando capitais em quantidades talvez nunca vistas, criou o que se poderia chamar de arrastão do bem para grande número de economias nacionais, no qual a do Brasil também foi colhida, com grande proveito para o emprego, a produção, as exportações, os investimentos e... os impostos.

Aqui, é oportuno lembrar: os governos brasileiros, desde o fim da 2ª Guerra Mundial, nunca aprenderam a usar, em benefício do desenvolvimento sustentado e equilibrado, os frutos de uma boa safra arrecadadora. Refestelam-se nas burras bem abastecidas e entregam-se à volúpia das benesses populistas demagógicas. Lula não fugiu à regra. Em vez de conter o custeio e os gastos do seu governo no nível em que os encontrou, destinando o aumento da arrecadação a um programa de investimentos públicos muito melhor e mais amplo do que os de seus antecessores, deixou que os aumentos do custeio consumissem os da arrecadação, respeitada apenas a parte destinada aos pagamentos dos juros da dívida pública.

O resultado é que agora, quando os investimentos públicos seriam muito mais importantes do que a queda dos juros para dinamizar a economia, os recursos escasseiam e, principalmente, os órgãos do governo encarregados deles tropeçam nas próprias pernas por falta de gente, de projetos, de prática, de normas, enfim, de governança, e o grande instrumento, o PAC, fica patinando na verborreia governamental.

*Marco Antonio Rocha é jornalista.

A queda do PIB

Luiz Carlos Bresser-Pereira
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


O desempenho da produção neste ano vai depender muito da política do governo. Temos sido tímidos em reagir à crise

A PRINCIPAL notícia da semana passada foi a da queda do PIB (Produto Interno Bruto) de 3,6% no último trimestre de 2008 em relação ao trimestre anterior. Os indicadores já disponíveis em relação aos dois primeiros meses de 2009, porém, são ambíguos. As vendas a varejo, por exemplo, apresentaram resultados positivos. Não está ainda definido se já estamos ou não em recessão.

Ninguém pode afirmar que a queda da produção no quarto trimestre era inevitável, mas está claro que poderia ter sido menor se o governo brasileiro, principalmente seu Banco Central, houvesse começado a baixar a taxa de juros antes, e com mais firmeza. Só começou a reduzir a Selic neste ano, mas a boa decisão, que poderia ter sido tomada antes, foi a redução da taxa, na última semana, em 1,5 ponto percentual.

A queda do PIB foi maior do que se esperava, de forma que a reação foi de surpresa e de pessimismo.

Não creio, entretanto, que esse dado altere a avaliação de que a crise econômica global atingirá relativamente menos o Brasil do que a maioria dos demais países. A queda elevada no quarto trimestre ocorreu em relação a um trimestre anterior aquecido, em que a economia cresceu a uma taxa anualizada de 7%. Em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, o quarto trimestre de 2008 apresentou ainda um crescimento de 1,3%. No ano, tivemos um crescimento de 5,1%. Neste ano, o crescimento será muito menor, mas espero que ainda seja positivo.

O desempenho da produção neste ano vai depender muito da política do governo. Até hoje temos sido tímidos em reagir à crise global, mas o único erro grave foi adiar a baixa da taxa de juros. Agora é necessário que o governo aja com maior determinação.

Os jornais noticiam a preocupação do governo com a meta de superávit primário -um problema que, no momento, não faz sentido. O equilíbrio fiscal é sempre um objetivo fundamental, e Keynes nunca propôs déficits públicos crônicos; mas, em momentos de recessão como este, a expansão fiscal torna-se mandatória.

Já mostrei em outros artigos que esta crise representa uma oportunidade para o Brasil, graças, principalmente, ao fato de que ela causou a elevação da taxa de câmbio para um nível mais próximo ao do equilíbrio industrial. Mas, além de representar uma oportunidade para crescimento, a crise representa também uma oportunidade para realizar mudanças institucionais, porque nesses momentos as resistências originadas em ideologias e interesses perdem força. Duas são especialmente necessárias: substituir a meta de superávit primário pela de déficit público e iniciar o processo de desindexação dos contratos firmados pelo governo.

O superávit público é uma meta absurda que serve principalmente para esconder os juros pagos pelo governo. A indexação de contratos com participação do Estado, por sua vez, é um mal. Não há instituição que mais dificulte o controle da inflação do que a indexação. O Brasil foi o país que mais longe foi na indexação, e, em consequência, sofreu 15 anos de alta inflação. No Plano Real, essa indexação foi reduzida, mas não foi eliminada. Cerca de um terço dos preços continuam indexados -e essa é a principal causa da resistência da inflação em cair verticalmente diante da crise.

Luiz Carlos Bresser-Pereira , 74, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC), é autor de "Macroeconomia da Estagnação: Crítica da Ortodoxia Convencional no Brasil pós-1994".

Juros: uma chance que não pode ser perdida

Luiz Carlos M. de Barros
DEU NO VALOR ECONÔMICO


O Brasil é conhecido como o campeão mundial dos juros altos. Mais do que isto, nosso país parece sofrer uma maldição, pois todas as vezes que os juros são reduzidos ocorre uma crise de graves proporções. Várias teses apareceram para explicar este aleijão. Sistema tributário ineficiente, insegurança jurídica, fragilidade cambial e elevada dívida pública, ou uma combinação de todos, são apresentados como explicação dessa diferenciação com outras economias emergentes.

Tenho uma opinião um pouco diferente. Todos estes fatores, embora verdadeiros e importantes, não tocam na questão central que sempre foi a falta de um processo continuado de investimento e de abertura da economia. A insuficiência de investimentos em uma economia fechada faz com que qualquer choque positivo de demanda se transforme em pressões inflacionárias, obrigando o Banco Central a abortar o processo de crescimento no seu nascedouro. Com isto, a sequência básica de uma economia de mercado - aumento da demanda, aumento dos investimentos, ganho de produtividade - não se realizava plenamente no Brasil desde o início dos anos 80.

Mas hoje temos uma economia diferente da que prevaleceu no passado. O ajuste de nossas contas externas nos últimos anos criou um espaço econômico mais eficiente e equilibrado, reduzindo as pressões inflacionárias de natureza estrutural. Com isto, o clássico círculo vicioso de desvalorização e aumento da dívida pública foi eliminado pelo acúmulo de reservas internacionais em montante muito superior à dívida externa pública. O real é hoje uma moeda mais forte e com uma volatilidade menos deletéria. Para constatar este fato, basta observar que a desvalorização de nossa moeda na presente crise acentuou os fundamentos brasileiros, via ganhos fiscais na dívida pública, permitindo que o Banco Central pudesse reduzir os juros em um contexto de choque externo.

Além disso, o fortalecimento das contas externas reforçou em bases mais sólidas o processo de abertura da economia que já vinha ocorrendo desde os anos 90. O encadeamento das cadeias produtivas locais com a economia mundial e a exposição da economia à competição salutar dos importados aprofundou-se nos últimos anos. As empresas souberam responder ao desafio, conquistaram mercados, ganharam produtividade rapidamente e reduziram gargalos de produção. Mesmo a infraestrutura teve ganhos importantes a partir de investimentos privados.

Com tudo isso, reduziu-se o espaço para que os choques positivos de demanda se transformassem rapidamente em pressões inflacionárias extremas e alargaram-se os horizontes de planejamento empresarial, fator essencial para o investimento.

Em suma, houve importante mudança no funcionamento de nossa economia. Foi um processo complexo e evolutivo, que aconteceu a partir do Plano Real e foi consolidado com a ascensão da China, com a integração em bases sólidas no tecido produtivo internacional. É a partir desta nova - e boa - posição que devemos considerar os desafios que se colocam neste momento para a política monetária.

As pressões inflacionárias que apareceram em 2007 e 2008 eram muito diferentes de episódios anteriores e estavam relacionadas ao crescimento da demanda interna. O elo mais importante neste processo foi sem dúvida o mercado de trabalho bastante apertado, que vinha obrigando o BC a elevar os juros para esfriar a demanda interna e reduzir os focos de inflação. Mas o agravamento da crise mundial, que afetou nossos termos de troca, o crédito e os investimentos, interrompeu esta dinâmica. A rápida redução do grau de utilização dos recursos produtivos, inclusive no mercado de trabalho, que já mostra aumento da taxa de desemprego, trouxe uma mudança de 180% na dinâmica da inflação interna.

O BC reagiu à nova realidade, invertendo rapidamente o sinal da política monetária, com corte relevante de 2,5% acumulado em duas reuniões do Copom. Entretanto, tendo em vista a redução do crédito bancário em função das incertezas criadas pela crise, os efeitos da política monetária demandarão ainda mais tempo que o usual para serem sentidos. Mesmo com juros Selic menores, o custo financeiro para empresas e consumidores aumentou pelo efeito de spreads bancários mais elevados e prazos mais curtos.

Esta rápida virada mostra que o BC sabe diferenciar os elementos conjunturais, que afetam a inflação no curto prazo, dos fatores mais estruturais e duradouros. Em relação aos primeiros, a inexistência de pressão inflacionária significativa a partir da desvalorização do câmbio nos últimos meses já é uma prova inconteste das mudanças que ocorreram. Está claro hoje que o câmbio mais depreciado está sendo compensado por preços menores de produtos importados ou dos que competem com estes no mercado interno. Pela primeira vez em nossa história recente o chamado "pass through" não ocorreu de forma importante. E mesmo que ocorra algum impacto mais diluído nos próximos meses, outros fatores devem se mostrar mais relevantes para a inflação.

No que se refere às forças que atuam sobre a inflação em um prazo mais longo, está claro que os riscos apontam para baixo. O cenário de redução da atividade econômica deve se consolidar nos próximos meses. Não projeto a continuidade do desastre do último trimestre do ano passado - pelo menos se não houver um agravamento da crise externa - e a economia deve voltar a crescer na parte final de 2009. Mas, tendo em vista a manutenção de alta capacidade ociosa por um longo período, a pressão baixista nos preços oriunda de fatores internos provavelmente ainda será acentuada. Outro elemento importante é a redução de pressão sobre os preços administrados, por conta da menor variação do IGP, que cairá de mais de 9% em 2008 para cerca de 3% a 3,5% em 2009.

Estes fatores vão contribuir para uma inflação muito baixa em 2010. Os modelos de previsão que utilizamos na Quest Investimentos apontam para uma inflação em 2010 da ordem de 3,5% ou menos. Conforme este cenário benigno fique mais claro ao longo dos próximos meses, o Banco Central terá espaço para continuar reduzindo a taxa Selic, possivelmente para níveis próximos a 8% ao ano.

Luiz Carlos Mendonça de Barros , engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.

A crise do sr. Smith

Amartya Sen
DEU NA FOLHA DE S. PAULO / + MAIS!

Mais Importante teórico do mercado, economista escocês também defendeu o papel do Estado para proteger os pobres, diz Prêmio Nobel

Exatamente 90 anos atrás, em março de 1919, diante de mais uma crise econômica, Vladimir Lênin discutiu as dificuldades do capitalismo contemporâneo. Mas não quis escrever um epitáfio: "É um erro acreditar que não há saída da atual crise do capitalismo". Essa expectativa de Lênin, ao contrário de outras que ele teve, provou estar correta.

Apesar de os mercados americano e europeu terem enfrentado mais problemas na década de 1920, seguidos da Grande Depressão dos anos 1930, no longo prazo, após o fim da Segunda Guerra [1939-45], a economia de mercado foi excepcionalmente dinâmica e gerou uma expansão sem precedentes da economia global nos últimos 60 anos.

Não mais, pelo menos neste momento. A crise econômica global ganha velocidade em ritmo assustador, e as tentativas dos governos de contê-la tiveram muito pouco sucesso, apesar da aplicação sem precedentes de fundos públicos. A pergunta que surge de maneira mais premente hoje não é tanto sobre o fim do capitalismo, mas sim sobre a natureza do capitalismo e a necessidade de mudança.

O que é preciso?

Nós realmente precisamos de um "novo capitalismo", que carregue de uma maneira significativa a bandeira do capitalismo, em vez de um sistema econômico não-monolítico que utilize uma variedade de instituições escolhidas de forma pragmática e valores que podemos defender racionalmente?

Devemos buscar um novo capitalismo ou um "novo mundo" que não precise assumir uma forma capitalista especializada? Essa não é a única pergunta que enfrentamos hoje, mas eu diria que é a mesma pergunta que o fundador da economia moderna, Adam Smith [1723-1790], realmente fez no século 18, quando apresentou sua análise pioneira do funcionamento da economia de mercado. Smith nunca usou o termo "capitalismo" (pelo menos até onde eu pude verificar), e também seria difícil extrair de suas obras uma teoria sobre a suficiência da economia de mercado ou da necessidade de aceitar a predominância do capital. Ele falou sobre o importante papel de valores mais amplos para escolher comportamentos, assim como sobre a importância das instituições, em "A Riqueza das Nações".

Mas foi em seu primeiro livro, "Teoria dos Sentimentos Morais", publicado há exatamente 250 anos, que ele investigou intensamente o poderoso papel dos valores não ligados ao lucro.

Enquanto afirmou que a "prudência" era "de todas as virtudes a que é mais útil para o indivíduo", Smith argumentou que "humanidade, justiça, generosidade e espírito público são as qualidades mais úteis para os outros".

Fora do mercado

O que é exatamente capitalismo? A definição-padrão parece depender dos mercados para transações econômicas como qualificação necessária para uma economia ser considerada capitalista.

De maneira semelhante, as exigências da intenção de lucro e dos direitos individuais com base na propriedade privada são vistas como características arquetípicas do capitalismo.

No entanto, se esses são requisitos necessários, os sistemas econômicos que temos atualmente, por exemplo, na Europa e na América, são genuinamente capitalistas?

Todos os países afluentes do mundo -os da Europa, assim como EUA, Canadá, Japão, Cingapura, Coreia do Sul, Taiwan, Austrália e outros- dependem há algum tempo de transações que ocorrem basicamente fora dos mercados, como benefícios de desemprego, pensões públicas e outros elementos da seguridade social, além da provisão pública de educação escolar e assistência à saúde.

O digno desempenho dos sistemas supostamente capitalistas em épocas em que houve verdadeiras realizações foi baseado em uma combinação de instituições que ia muito além de uma mera economia de mercado com vistas a maximizar os lucros.

Muitas vezes se esquece que Smith não via o puro mecanismo do mercado como um ator isolado de excelência e tampouco considerava que a intenção de lucro fosse tudo o que era necessário.

Talvez o maior erro esteja em interpretar a discussão limitada de Smith sobre por que as pessoas buscam o comércio como uma análise exaustiva de todas as normas comportamentais e instituições que ele considerava necessárias para uma economia de mercado funcionar bem.

As pessoas buscam o comércio por causa do interesse próprio -nada mais é necessário, como Smith discutiu em uma declaração que é citada repetidamente, explicando por que os padeiros, cervejeiros, açougueiros e consumidores buscam o comércio. Mas uma economia precisa de outros valores e compromissos, como a confiança mútua, para funcionar com eficiência.

Por exemplo, Smith argumentou: "Quando as pessoas de um determinado país têm tal confiança na fortuna, probidade e prudência de um determinado banqueiro, a ponto de acreditar que ele está sempre disposto a pagar sob demanda suas notas promissórias que podem lhe ser apresentadas a qualquer momento, essas notas passam a ter o mesmo valor que o dinheiro de ouro e prata, pela confiança de que esse dinheiro pode a qualquer momento ser havido por elas".

Quebra de confiança

Ele explicou por que esse tipo de confiança nem sempre existe. Apesar de os defensores da leitura padeiro-cervejeiro-açougueiro de Smith consagrada em muitos livros de economia poderem ter dificuldade para compreender a atual crise (as pessoas ainda têm muitos bons motivos para buscar mais comércio, apenas menos oportunidades), as consequências no longo prazo da suspeita e da desconfiança nos outros -que contribuíram para gerar esta crise e tornam tão difícil uma recuperação- não o teriam surpreendido.

De fato, houve muito boas razões para a desconfiança e a quebra de segurança que levaram a esta crise. As obrigações e responsabilidades associadas às transações se tornaram nos últimos anos muito mais difíceis de localizar, graças ao rápido desenvolvimento de mercados secundários envolvendo derivativos e outros instrumentos financeiros.

Isso ocorreu em uma época em que a grande disponibilidade de crédito, conduzida em parte pelos enormes superávits comerciais de algumas economias, sobretudo a China, ampliou a escala de operações ousadas.

Um credor de subprime que levou um mutuário a assumir riscos insensatos podia transmitir os instrumentos financeiros a outras partes distantes da transação original. A necessidade de supervisão e regulamentação tornou-se muito mais forte nos últimos anos.

No entanto, o papel supervisor do governo, em particular nos EUA, foi, no mesmo período, reduzido acentuadamente, alimentado por uma fé crescente na natureza autorregulatória da economia de mercado. Exatamente enquanto crescia a necessidade de vigilância do Estado, diminuía a provisão dessa supervisão necessária.

Essa vulnerabilidade institucional tem implicações não apenas para práticas astutas, mas também para uma tendência à superespeculação, que, como afirmou Smith, costuma acometer muitos seres humanos em sua busca incansável por lucros. Smith chamou esses promotores de riscos excessivos em busca de lucros de "pródigos e projetores".

A fé implícita na sabedoria da economia de mercado autossuficiente, que é amplamente responsável pela remoção dos regulamentos estabelecidos nos EUA, tendeu a reforçar as atividades de pródigos e projetores de uma maneira que teria chocado o expoente pioneiro dos fundamentos da economia de mercado.

Apesar de tudo o que Smith fez para explicar e defender o papel construtivo do mercado, ele se preocupava profundamente com a incidência da pobreza, o analfabetismo e a privação relativa que poderiam permanecer, mesmo em uma economia de mercado em bom funcionamento.

Ele queria diversidade institucional e variedade motivacional, e não mercados monolíticos e a predominância singular da intenção de lucro. Smith foi não apenas um defensor do papel do Estado para fazer as coisas que o mercado poderia deixar de fazer -como a educação universal e a ajuda aos pobres.

Mas também defendeu, em geral, opções institucionais de acordo com os problemas que surgem, em vez de se ancorarem as instituições a uma fórmula fixa -como deixar tudo a cargo do mercado.

Reavaliação

Eu diria que as dificuldades econômicas de hoje não pedem um "novo capitalismo", mas exigem uma compreensão esclarecida de antigas ideias sobre o alcance e os limites da economia de mercado.

O que é necessário, acima de tudo, é uma clara avaliação de como funcionam as diferentes instituições, juntamente com uma compreensão de como diversas organizações -do mercado às instituições do Estado- podem contribuir juntas para produzir um mundo econômico mais decente.

Amartya Sen é professor de economia e filosofia na Universidade Harvard. Recebeu o Prêmio Nobel de Economia em 1998. A íntegra deste texto foi publicada no "Financial Times". Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves .

Vassourinha

Camerata Heitor Villas Lobo
Veja o Vídeo

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O QUE PENSA A MÍDIA

Editoriais dos principais jornais do Brasil
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domingo, 15 de março de 2009

Agora, não dá mais

EDITORIAL
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

Não é de hoje que se sabe que a competência do governo Lula para tocar os seus projetos é inversamente proporcional à sua capacidade de falar deles como se fossem fatos consumados. Parafraseando um dito conhecido, estará no lucro quem comprar o governo pelas suas realizações e vendê-lo por suas promessas. É bem verdade que a distância entre intenções e resultados é um dado da realidade do setor público em geral, onde "tirar as coisas do papel" é uma dor de cabeça crônica para os governantes de todas as tendências. Mas não tem paralelo na crônica da administração federal brasileira o contraste, sob o lulismo, entre a celebração exacerbada dos seus programas e a sua efetiva materialização - salvo, justiça se lhe faça, no caso do Bolsa-Família. A retórica presidencial, cada vez mais compartilhada pela pré-candidata Dilma Rousseff, daria a um marciano recém-chegado à Terra a certeza de que nunca antes na história deste país houve um governo tão operoso.

A rigor, é o que parecem achar os muitos milhões de brasileiros que endeusam o presidente, porque o seu carisma e talento incomum para a comunicação os levaram a crer que a ele devem tudo o que melhorou nas suas vidas nos últimos anos. Vá-se explicar àqueles novos membros da classe média que os correspondentes estrangeiros vivem entrevistando para ilustrar as mudanças no País que o seu ídolo, como ele próprio já se permitiu admitir, teve a sorte de estar no lugar certo no período de maior bonança da economia mundial, cujos principais beneficiados foram as nações chamadas emergentes, como o Brasil. Enquanto durou a idade de ouro, a Lula praticamente bastava o palanque; o dinamismo da economia global, na qual estamos inseridos, se incumbia do resto. Agora que, da noite para o dia, as coisas mudaram dramaticamente de figura, quando a ação governamental se torna crucial, o que se vê é mais do mesmo: tapumes de palavras escondendo a inaptidão em levar as mãos à obra.

Tome-se o programa de construção de 1 milhão de moradias até 2010, imaginado como a iniciativa por excelência do Estado para ativar a economia, criar empregos e reduzir o déficit de habitações para a população de baixa renda, fazendo girar ao todo cerca R$ 70 bilhões. O formato do programa deveria ter sido apresentado em 20 de janeiro. Depois de sucessivos adiamentos, fala-se agora na última semana de março, "se todas as pendências forem resolvidas", algo altamente improvável, segundo especialistas familiarizados com a profusão de questões ainda em aberto. Mas desde quando isso é problema para o governo contar vantagem? Em uma das três palestras de cunho eleitoral que promoveu na quarta-feira - esta para políticos do Nordeste -, a ministra Dilma Rousseff prometeu que as novas casas - pelas quais os mais pobres entre os futuros proprietários pagarão apenas uma prestação simbólica - serão entregues em 11 meses, em vez dos habituais 33, a contar da compra do terreno. Faltou explicar como se chegará a essa proeza.

O Planalto comemora por antecipação, mas, como diria Garrincha, ainda não combinou "com os russos" - construtoras, Estados e municípios, instituições como a Caixa Econômica e o BNDES. E as dúvidas decorrentes dessa decisão de abreviar para 11 meses o prazo de construção são mais numerosas e complexas do que os "detalhes técnicos" a que as fontes do governo querem reduzi-las. Nem sequer está claro o nível de renda, medido em salários mínimos, até o qual as famílias beneficiadas farão jus aos robustos subsídios de mais de R$ 20 bilhões no total, de que fala a ministra. Além disso, a intenção é tolerar inadimplência de até 36 prestações, mas não se decidiu a origem dos recursos do fundo garantidor do crédito que cobrirá os pagamentos não efetuados. Permanecem também nebulosas questões como a do seguro dos financiamentos e a da linha especial de crédito para a infraestrutura das áreas onde serão erguidas as casas.

A menção das dificuldades a superar não pretende sugerir que o programa seja necessariamente fantasioso ou inexequível. O ponto, que o retrospecto da era Lula obriga a ressaltar, é a desenvolta, irresponsável ligeireza com que os seus integrantes "inauguram" obras cuja concretização depende de um insumo notoriamente escasso nesse governo: competência.

Antes do tombo de 3,6% essa escassez era disfarçada com discurso. Agora, não dá mais.

Minas e São Paulo, força e fraqueza

Merval Pereira
DEU EM O GLOBO


Em qualquer cálculo que se faça em termos de oposição, com relação à disputa presidencial de 2010, duas premissas são indispensáveis: as chances são boas por que não se tem o Lula na chapa pela primeira vez em muitos anos, e a oposição tem a maioria em São Paulo e Minas, os dois maiores colégios eleitorais do país. Mas tudo indica que a força eleitoral de Lula terá muita influência e, por isso, não dá para a oposição perder um dos dois estados. Na reunião do governador José Serra com o DEM, foi levantada essa questão, e a sensação generalizada entre os democratas é a de que o governador Aécio Neves conseguiu a façanha de representar um sentimento mineiro "que é muito maior do que qualquer pessoa".

A questão política, agora, já não seria mais Aécio fazer "um bom acordo pessoal", pois os mineiros estariam impregnados pela idéia de ter novamente um presidente, "um novo JK". "O apoio de Minas ao Serra não depende mais de mim, mas da relação política que ele estabelecer com Minas. Não adianta me derrotar, ele tem que me conquistar", diz Aécio.

A análise do DEM é que, como no Nordeste, com o Bolsa Família, o governo tem uma estrutura muito forte, a oposição não pode perder o Estado de Minas. O Rio de Janeiro não é um estado simples, na definição do deputado Rodrigo Maia, presidente do Democratas: tem uma população pobre na Baixada que vota no Lula, mas o interior vota mais com a oposição.

O melhor cenário para Aécio Neves seria Serra concorrer à reeleição para governador de São Paulo, o que garantiria que os dois estados sairiam "fechados" com sua candidatura. Ele se considera em melhores condições que o governador paulista de fazer acordos políticos no Rio e no Nordeste.

O fato de Minas ter cerca de 150 municípios na área da Sudene, mais do que muitos estados nordestinos, seria uma afinidade a mais de seu estado com a região. Minas teria um discurso de integração regional para o país. "E, por não viver essa polarização paulista, talvez eu seja capaz de fazer um governo de união nacional em torno de uma agenda", avalia o governador mineiro.

Nas hostes que apoiam o governador paulista, essa tese de que a situação de Minas pode pôr em risco a eleição de Serra não passa de uma chantagem política, pois implica dizer que só a vitória de Aécio garantiria o apoio político de Minas. Nesse caso, também o discurso antipaulista do governador mineiro prejudicaria o PSDB e ampliaria o espaço para o PT em São Paulo, caso o candidato seja Aécio.

As indicações de que a Justiça Eleitoral não vai aceitar a reclamação da oposição de que o governo estaria antecipando a campanha presidencial estão criando um dilema para os partidos que formam a frente oposicionista: permanecer sem movimentações políticas pode dar uma vantagem grande ao governo, que conta com a popularidade de Lula e as brechas legais para alavancar a candidatura da ministra Dilma Rousseff.

O parecer do vice-procurador-geral eleitoral, Francisco Xavier, de que o Encontro Nacional de Novos Prefeitos e Prefeitas, em Brasília, em 10 e 11 de fevereiro, foi suprapartidário e não caracterizou compra de voto por parte dos petistas, é uma mostra de como a legislação pode ser condescendente com os detentores do poder.

A legislação é bastante rígida, mesmo, durante o ano eleitoral, e a figura do "abuso do poder político" é uma interpretação subjetiva, que dá aos juízes grande poder de decisão. Octavio Amorim Neto, cientista político da Fundação Getulio Vargas, lembra que o controle das campanhas remete a duas questões mais amplas: "O controle do Poder Executivo em regimes presidencialistas e as condições sob as quais é possível haver alternância no poder, questões intimamente ligadas".

Segundo ele, a proibição da reeleição imediata dos presidentes, um dos traços marcantes da política latino-americana no século XX, tinha como objetivo justamente limitar o Poder Executivo, de modo que não houvesse continuísmo. Por uma série de razões, a proibição da reeleição imediata dos presidentes (e governadores) começou a ser revogada em nossa região a partir de meados da década de 1990 (no Peru, em 1993; na Argentina, em 1994; no Brasil, em 1997; e, na Venezuela, em 1999).

"Nesses países, a questão, então, passou a ser o que fazer para que a permissão de reeleição imediata não trouxesse de volta as chagas do abuso do Poder Executivo e do continuísmo". Para tanto, é fundamental, para Octavio Amorim Neto, "em primeiro lugar, proibir por lei certos comportamentos oportunistas".

As chamadas "vantagens estruturais do titular do Poder Executivo" incluem o uso tático dos instrumentos da administração pública e uma maior exposição nos meios de comunicação do que os partidos de oposição.

Ele cita a promulgação da Lei de Responsabilidade Fiscal, em 2000, como "um grande avanço institucional", que visa justamente a coibir práticas predatórias em anos de sucessão política.

Além disso, diz ele, as recentes cassações dos governadores da Paraíba e do Maranhão mostram, também, que temos tribunais eleitorais independentes e capazes de punir governadores que violam a legislação. "O efeito demonstração dessas cassações será imenso e benfazejo para os nossos costumes políticos".

O governador Aécio está convencido de que o governo, com esse aval da Justiça Eleitoral, acelerará o plano de expor a ministra Dilma Rousseff ao eleitorado, usando como pretexto a fiscalização das obras do PAC.

Por isso, com o apoio do DEM, defende que a oposição encontre meios de se movimentar também, "questionando a movimentação pública do outro lado". "Vamos ter até autoridade moral de cobrar essa relação promíscua entre partido e governo", diz ele.

Me engana que eu gosto

Nas Entrelinhas :: Luiz Carlos Azedo
DEU NO CORREIO BRAZILIENSE


Num regime democrático, todo ato administrativo tem repercussão eleitoral. Isso só não ocorre na ditadura, porque não há eleições livres


Para o vice-procurador eleitoral Francisco Xavier, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, não fizeram campanha eleitoral durante o Encontro Nacional de Novos Prefeitos e Prefeitas realizado em Brasília, em 10 e 11 de fevereiro. Segundo ele, o encontro foi suprapartidário e não caracterizou compra de voto por parte dos petistas, como alegou a oposição ao representar no Tribunal Superior Eleitoral. Agora, o ministro Arnaldo Versiani, relator do caso, fará sua interpretação sobre o caso e o levará ao plenário do TSE.

Até os mármores do Palácio do Planalto sabem que Dilma é candidata à sucessão de Lula em 2010. Alavanca sua candidatura por meio de eventos e solenidades oficiais, mas Xavier atribui o fato à imprensa, que trata a ministra como futura candidata, como acontece aqui nesta coluna, embora Dilma nunca tenha se apresentado formalmente como candidata. Os elogios de Lula à sua pessoa não configurariam propaganda irregular, argumenta. O caso será apreciado pelo TSE num momento em que a Justiça acaba de cassar dois governadores, o da Paraíba e do Maranhão, por uso irregular da máquina pública durante a campanha. O primeiro caso já transitou em julgado, o segundo ainda aguarda julgamento de recurso. E ainda há mais seis governadores na berlinda pelo mesmo motivo.

Nova jurisprudência está sendo construída nesse jogo de esconde-esconde da candidatura de Dilma e na apreciação dos casos dos governadores acusados de usar a máquina pública em proveito eleitoral. Será uma forma de aperfeiçoamento do nosso sistema democrático. Como tenho destacado aqui, o Brasil tem a maior democracia de massas do mundo, com voto direto, secreto e universal, eleições limpas e apuração quase instantânea. É um exemplo nesse aspecto. Mas, em contrapartida, enfrenta uma crise de representação política e degenerescência partidária que tem várias causas.

Uma delas, com toda certeza, é o uso generalizado da máquina pública nas eleições, impondo à sociedade um perfil de político “fazedor de obras” e “prestador de serviços”. Esses é que cada vez mais se elegem, em detrimento daqueles que conquistam o mandato graças ao “voto de opinião”, por suas ideias políticas, valores morais e comportamento ético. O político comprometido com o bem-comum, sem uma base eleitoral fisiológica, é uma espécie em extinção nas eleições proporcionais. O que emerge é o candidato com “estrutura”, que cada vez mais vê a política como “negócio”. O que fazer diante disso? Talvez a única reforma eficaz seja a adoção do voto distrital puro ou misto, mas não existe massa crítica no Congresso para isso.

O poder

O presidente Lula chegou ao poder sem ter feito uma carreira no Executivo, nem sequer no parlamento. Apostou seu futuro político no movimento sindical, na construção de um partido de base operária e na disputa de sucessivas eleições presidenciais. Deu certo. Contraditoriamente, no “governo de compromisso” que construiu, operou a cooptação política da maioria das lideranças sociais e empresariais e utilizou com maestria a máquina pública para se reeleger. Agora, com experiência adquirida, impõe de cima para baixo a candidatura da ministra Dilma, gerente do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e mandachuva na Esplanada dos Ministérios.

Não faz nada muito diferente do que acontece nos governos estaduais e prefeituras do país, com maior ou menor cara de pau, numa franja da legislação eleitoral que não existe por acaso. Tanto o patrimonialismo, como o populismo, são práticas associadas ao Estado. O primeiro para privilégios das elites; o segundo, para cooptação da grande massa de eleitores. Qualquer governo, seja ele bom ou mau, se impõe à sociedade porque é a forma mais concentrada de poder. Enfeixa as atribuições essenciais do Estado: o poder “jurisdicional” de aplicar a lei; de impor tributos e arrecadar; e de usar a força para coagir. Numa eleição, é sempre uma força decisiva. Se for bom governo, será imbatível; se for um mau governo, aí então, pode ser derrotado. Isso virou quase uma regra com a reeleição.

Garantir a paridade de meios numa disputa eleitoral, portanto, não é nada fácil. Mas é para isso que existe a Justiça Eleitoral.No regime democrático, todo ato administrativo tem repercussão eleitoral. Isso só não ocorre na ditadura, porque não há eleições livres. De igual maneira, na democracia, existe imprensa livre para denunciar, dentre outras irregularidades, o uso indevido da máquina pública com fins eleitorais.

A bossa da conquista

Dora Kramer
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO

A cúpula do DEM se reuniu quinta-feira em São Paulo, anunciou que tanto pode apoiar o governador José Serra como pode ficar com o governador Aécio Neves na disputa pela candidatura a presidente em 2010 e foi jantar no Palácio dos Bandeirantes avisando que jantará em breve no Palácio das Mangabeiras.

Deu a impressão de que decidiu primeiro e foi jantar depois para comunicar a resolução.

Como o encontro com Serra estava marcado havia pelo menos sete dias, o mais provável é que o jantar no Bandeirantes não tenha sido fruto de uma decisão partidária unilateral, mas produto de uma estratégia conjunta.

Qual seja a de começar a arrumar o ambiente para a escolha pacífica do candidato da aliança PSDB-DEM e quem mais se disponha a se engajar na campanha presidencial de 2010 no terreno da oposição.

A fim de que o espírito da coisa ficasse patente mesmo, na sexta-feira o presidente do DEM, Rodrigo Maia, tratou de informar que havia se "equivocado" quando manifestou anteriormente preferência pelo nome de Serra.

Providência semelhante tomou o prefeito Gilberto Kassab, anfitrião da reunião de cúpula, cuja predileção pelo mentor de sua eleição ficou reduzida a mera "posição pessoal".

Não é. O DEM continua comprometido com a candidatura de José Serra. Assim como a direção do PSDB, aí incluídos Fernando Henrique Cardoso, Tasso Jereissati e o presidente do partido, Sérgio Guerra.

De novidade, o que aconteceu foi a necessidade de acelerar o início do jogo para valer. Uma, por causa do agravamento da crise econômica, que vai exigir um posicionamento da oposição. Outra, porque a campanha do governo corre solta e sozinha.

Ninguém faz campanha sem organização e não se organiza nada com movimentos isolados e erráticos. Um equívoco, dentro dessa nova percepção da realidade, é tomar o favoritismo do governador Serra como fato consumado.

Reconheceu-se, na seara oposicionista, que o governador de Minas Gerais não pode ser tratado como um dissidente. Não pode deixar de ter reconhecido o seu direito de querer ser candidato, lutar por espaço político e dar uma satisfação ao eleitorado de seu Estado que gostaria de tê-lo como candidato e detestaria vê-lo sendo apresentado pelo próprio partido como mero coadjuvante de um jogo já decidido.

O ex-presidente da República e presidente de honra do PSDB, Fernando Henrique Cardoso, considera a oposição franca favorita em 2010, mas põe um senão no raciocínio: "Se não fizer grandes besteiras."

Aí é que está, anda fazendo várias, de acordo com avaliações internas. A principal, ausência de unidade e uma atitude compassiva ante os atritos entre aliados de Serra e Aécio.

Ninguém acredita na possibilidade de o governador mineiro sair do PSDB nem na hipótese de ele incentivar conflitos regionais. Mas, se a Aécio não interessa comprar briga com o primeiro colégio eleitoral do País, a Serra não apetece atrair a ira do segundo maior eleitorado. É forte com São Paulo, mas fica fraco sem Minas.

Na interpretação dos oposicionistas, o grande trunfo seria juntar os dois na mesma chapa.

Ideia, aliás, propagada antes da hora, o que pôs Aécio Neves em segundo plano e o desgostou (para dizer de modo ameno) profundamente.

Acionado o freio de arrumação, o roteiro começa do zero com o trabalho de composição entre os pretendentes. O primeiro ponto é elevar o status de Aécio não apenas dentro do partido, mas em todos os atos para fora dele.

Daí o passo inicial ter sido dado pelo DEM, com o recuo tático do apoio explícito a Serra.

Posto em cena o equilíbrio de forças, parte-se para a definição sobre o que fazer: pôr logo os dois blocos na rua ou esperar mais um pouco, antecipar as prévias ou apostar numa escolha sem disputa.

A escolha por meio de eleição prévia não é um desejo genuíno de nenhuma parte. Mas, caso seja a melhor solução - inclusive para Aécio apaziguar seu grupo político -, há disposição de fazer. Se fossem realizadas hoje, seu mais ardoroso defensor perderia a disputa nos diretórios regionais.

Aécio carrega a bandeira porque é a única disponível para quem quer destaque sem abrir guerra contra o governo agora. Além disso, há sempre a expectativa de que um processo de debate interno possa mudar o quadro e a ação do imponderável que o obriga a estar preparado.

Serra aceitou formalmente a proposta para não criar um atrito insolúvel. Aécio disse "eu quero", Serra respondeu "façamos" e a coisa ficou parada por aí.

Até o gesto do DEM na última quinta-feira, aparentemente inspirado no entendimento de Fernando Henrique de que caberia a Serra o passo seguinte. Mas só depois de tudo combinado entre os interessados, Aécio Neves da Cunha incluído.

Mapa

A oposição joga tudo em Minas e São Paulo porque acha que Lula leva no Nordeste e, no Rio, só vê chance se Fernando Gabeira for candidato a governador.

Ainda é Cedo

Marcos Coimbra
Sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi
DEU NO ESTADO DE MINAS

A eleição de 2010 pode estar sendo antecipada além que qualquer outra. Querer adivinhar seu resultado, no entanto, é demais.

Está certo que não se faz política sem uma boa dose de autosuficiência. Se os políticos tivessem que pensar bem antes de falar, se fossem obrigados a levar os outros em consideração antes de agir, a vida política seria totalmente diferente.

Também está certo que a modéstia e a contenção não são as virtudes mais comuns entre os que dedicam a ela. Políticos, salvo as mais extraordinárias exceções, são animais desprovidos do sentido de proporção. Quando se olham no espelho, costumam se enxergar (e, às vezes, a seus amigos e projetos) como se nada mais existisse de bom no mundo.

Mesmo sabendo disso, ainda surpreende o que se ouve de alguns personagens, tanto do governo, quanto da oposição. Quando falam sobre as próximas eleições presidenciais, dizem coisas tão sem sentido que até os observadores mais calejados ficam impressionados.

Outro dia, o ex-deputado e ex-prefeito do Recife, João Paulo, nome fortíssimo do PT em seu estado, cotado para ser um dos coordenadores da campanha da ministra Dilma, não foi capaz de afirmar que, “se o PMDB estiver conosco, em 2010 venceremos no primeiro turno com votação elástica”?

Uma frase como essa só pode ser entendida como uma reação a outras igualmente desprovidas de lógica. Deve ser pensando em algumas delas, vindas de seu lado, que o governador Aécio Neves criticou, também recentemente, as figuras do PSDB que acham que “basta apenas termos um candidato para ganharmos as eleições”. Conhecendo como conhece seu partido, o governador de Minas sabe que não são poucos seus correligionários que pensam assim.

Bravatas de uns, contra bravatas dos outros, fazem parte do jogo. O debate político está cheio delas, mesmo quando são apenas brigas de crianças.

Mas há mais que isso nessas declarações. Nelas, muito se revela sobre como os dois partidos estão indo para as eleições de 2010.

Na frase de João Paulo, há uma condição que merece ser discutida. Quando diz que “se o PMDB estiver conosco...”, ele estabelece um cenário que qualquer pessoa apenas medianamente informada sobre a política brasileira (que não é o caso dele), sabe que é impossível. Ou alguém imagina que o PMDB marchará unido? Que contrariará sua história e suas características para estar inteiro com o PT na eleição? Por que faria isso, se o melhor dos mundos, para ele, é ficar sempre em condições de aderir ao vencedor (quem quer que seja)?

Quando, então, afirma que seria nessa condição que Dilma venceria no primeiro turno, o que ele diz é que isso não vai acontecer. Ou será que ele pensa, de fato, que, na hipótese implausível do PMDB se unir por alguma operação mágica, Dilma realmente ganharia a eleição no primeiro turno, por larga margem? Por quê? Como? Qual equação ele imagina? “Dilma+Renan+Jarbas = Dilma no primeiro turno, por larga margem”? Quem disse?

E os tucanos a quem Aécio puxa as orelhas? De onde supõem que basta ao PSDB ter um candidato para derrotar a indicada por Lula? Será que raciocinam com a tese de que falta a Dilma biografia e independência para ser percebida pelo eleitorado como uma verdadeira presidente da República? E quem consegue dizer se ela não supre suas carências com atributos que o eleitor valoriza mais?

A eleição de 2010 pode estar sendo antecipada além que qualquer outra. Ela já é, à distância em que estamos, a mais definida das que fizemos desde a redemocratização, pois, se forem verdade os sinais que o meio político emite, só falta saber o nome do candidato do PSDB (dentre dois).

Todo o restante se conhece: quem vai concorrer pelo PT, o que ela vai dizer e, até, o que dirá aquele que lhe vai fazer oposição.

Querer adivinhar seu resultado, no entanto, é demais.

PSDB monta agenda conjunta para Serra e Aécio

Julia Duailibi
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO


Para mostrar unidade, partido costura presença dos dois pré-candidatos lado a lado no Recife

O PSDB se mobilizou para sinalizar unidade no partido e conseguiu costurar a presença de seus dois pré-candidatos à Presidência em 2010, os governadores José Serra (SP) e Aécio Neves (MG), em uma agenda com líderes do partido amanhã no Recife.

Carregada de simbolismo, a viagem a Pernambuco é um fato político importante nas discussões internas do PSDB para a sucessão. Mostra um esforço dos tucanos para manter a unidade, num momento em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua candidata à sucessão, Dilma Rousseff, percorrem o Brasil juntos - ontem a ministra estava ao lado de Lula em encontro com o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na Casa Branca.

Se não houver nenhuma surpresa em sua agenda administrativa até segunda, Serra deverá comparecer aos eventos agendados no Recife ao lado de Aécio. O governador mineiro já havia confirmado sua participação na semana passada. Para Aécio, a viagem integra o giro que pretende fazer pelo País a fim de divulgar seu projeto político de 2010. O mineiro defende a realização de prévias pelo partido para escolher o candidato tucano.

No Recife, os tucanos deverão participar do lançamento do livro Daquilo que eu sei - Tancredo e a transição democrática, do ex-deputado Fernando Lyra. Também haverá no fim do dia a inauguração do Auditório Ruth Cardoso, no Instituto Teotônio Vilela. O último compromisso marcado para a noite será um jantar na casa do presidente nacional do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), que juntará os principais líderes políticos do Estado.

A costura do encontro contou com grande empenho do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que se encontrou na sexta-feira com Aécio em São Paulo. Aécio havia manifestado aos líderes tucanos insatisfação com o posicionamento do ex-presidente. Notícias divulgadas no começo da semana mostraram que Fernando Henrique havia criticado as prévias e defendido a ideia de que Serra seja o candidato do partido nas eleições de 2010.

Aécio sentiu as declarações e chegou a responder publicamente, ao dizer na terça-feira que não se constrói um projeto de País "a partir de alguns gabinetes da Avenida Paulista".

UNIÃO
Líderes tucanos temem que a insistência de Aécio em disputar a indicação do partido na eleição do ano que vem possa levar a um racha. Isso porque parte significativa da legenda aposta no nome de Serra, mais bem posicionado nas pesquisas, para levar o partido de volta ao Planalto.

Para a direção nacional do PSDB, o ideal seria buscar um consenso entre os dois pré-candidatos.

Fernando Henrique, por exemplo, é um dos principais entusiastas do lançamento de uma chapa tucana puro-sangue, encabeçada por Serra e com Aécio na vice. O mineiro, no entanto, diz descartar essa hipótese.

Eleições 2009

Disputa pela Presidência já está nas ruas
DEU NA FOLHA DE S. PAULO


Onze dias de agenda de cotados para o Planalto mostram que a disputa não esperou 2010 nem o aval da Justiça Eleitoral

A 19 meses da primeira disputa presidencial sem o nome de Luiz Inácio Lula da Silva após a redemocratização (1985), José Serra, Dilma Rousseff e Aécio Neves, os três pré-candidatos mais cotados até agora, intensificaram as agendas e cumprem compromissos típicos de período eleitoral. Missas, feiras agropecuárias, reuniões com prefeitos, visitas a obras, caminhadas, entrega de casas e encontros com celebridades estão entre os eventos quase diários. Faltam os santinhos e jingles, mas sobram os gritos de "presidente!".

A Folha acompanhou a agenda pública dos governadores tucanos de SP e MG e a da ministra petista da Casa Civil no dia 3 deste mês, quando o trio se reuniu em Brasília, até sexta passada.

Todos negam estar em campanha, mas a antecipação da disputa preocupa a Justiça Eleitoral.

"Em março de 2001 e de 2005 não havia essa discussão. O processo está muito rápido", diz Serra. Dilma reage à oposição: "Inventaram que viajo muito". E Aécio pede "calma". Mas nenhum dos três aceita reduzir o ritmo.

Serra: "Eu escolho a minha parte"

José Alberto Bombig
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Tarde quente de quinta-feira. O governador José Serra está em pé em frente a uma sala lotada de alunos da quarta série da rede estadual de ensino na populosa zona leste paulistana:

"Quando eu era garoto, comprava um chocolate em sociedade com um amigo e, para não ser passado para trás, criei uma regra: "Você divide, mas eu escolho a minha parte"", diz o "professor visitante", sorridente, tentando ensinar porcentagem.

A estratégia revela muito sobre o momento de Serra, que completa 67 anos nesta semana. Líder nas pesquisas, ele quer evitar o debate antecipado, mas não pretende abrir mão da que pode ser sua última chance de chegar ao Planalto.

Para isso, intensificou sua agenda, apertou a cobrança sobre os assessores e, publicamente, decidiu apostar no discurso de "estou preocupado em trabalhar por São Paulo". "Não estou interessado em ti-ti-ti eleitoral", disse ele à Folha, após ter dividido um palanque com o ex-governador Orestes Quércia (PMDB) na feira agropecuária de Avaré.

Com o microfone à mão, Serra evita os temas nacionais e privilegia obras que serão possíveis vitrines. Cita feitos nas áreas de transporte, distribui escolas de ensino técnico e anuncia a criação de laboratórios de especialidades médicas. Com frequência, algum correligionário grita coisas como "vai fazer mais pelo Brasil" ou "nosso presidente". O tucano apenas sorri e desconversa.

Nas duas últimas semanas, Serra cumpriu compromissos de governador, mas muitos deles tinham clima de campanha. Palanques, fotos, faixas de saudação e pedidos para que posasse para fotografias, o que ele fez sempre sorrindo. A média foi de dois eventos por dia.Às 3h da manhã da segunda passada, por exemplo, ele estava na estação Brás de trem lançando o "Bilhete do Madrugador". Noctívago famoso, Serra, de bom humor, destoava da entourage de assessores.

No dia seguinte, foi à inauguração de um centro de treinamento em Porto Feliz. Falou sobre futebol, uma de suas paixões, e brincou com o locutor Galvão Bueno. Mas menos de 20 minutos após sair dali estava carrancudo dando uma blitz em uma escola estadual. "Infelizmente, todos os problemas que haviam sido apontados se confirmaram", disse ele à atônita diretora. A escola estava suja, e a sala de computadores, inativa.

Segundo avaliação do governo estadual, quase 80% dos alunos não têm o conhecimento esperado em matemática. "É preciso tomar tabuada", disse Serra aos professores da escola da zona leste onde deu aula na quinta. De saída, contou: "Preciso ir. Tenho cinco reuniões e um jantar no palácio". Naquela noite, ele recebeu a cúpula do DEM para tratar de política.

Aécio: "Faça pelo país o que faz por MG"

Paulo Peixoto
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Eraldo Eustáquio Soares (PR), prefeito de Chapada do Norte, e Nilton Coimbra (PDT), de Franciscópolis, discursaram no dia 3 no Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas, na presença de Aécio:

"Gostaria de ver o senhor fazendo pelo Brasil o que faz por Minas", disse o primeiro. "O seu trabalho o credencia para ser a maior referência do país no atendimento aos municípios pobres", arrematou o segundo. Em outra cerimônia, foi a vez de o prefeito de Francisco Badaró, José João Teixeira (PDT), falar. "Que Deus ilumine seus passos na vitoriosa caminhada", disse ele, trilhando o discurso que fizera 13 dias antes, também na sede do governo, o prefeito de Setubinha, João Barbosa Neto (PSDB): "Agora queremos Aécio presidente".

As duas últimas semanas de Aécio foram marcadas por eventos palacianos sobre investimentos em cidades de regiões mais pobres de Minas e visitas a canteiros de obras, com as mangas da camisa dobradas, capacete na cabeça e com direito a cumprimentar operários e moradores vizinhos às obras.

Muitas vezes, ele fez críticas pontuais ao governo federal, uma delas, recorrente, sobre a falta de planejamento. Falou dos juros altos e bateu na condição das estradas federais.

Aécio tenta manter viva a disputa interna no PSDB e, para isso, articula sempre -anteontem, esteve em São Paulo, onde se encontrou com FHC e com Rodrigo Maia, presidente nacional do DEM. Nos últimos dias, falou bastante sobre 2010, porque a todo instante é questionado nas entrevistas que concede. Mas ele não toca no assunto quando discursa.

Menos cuidado, porém, foi notado nos discursos dos convidados para as últimas cerimônias no Palácio da Liberdade. Na última quarta, Aécio recebeu no palácio deputados e políticos do norte mineiro que lhe falaram sobre a intenção de lançá-lo candidato em Montes Claros, no próximo dia 6, durante reunião de governadores da Sudene na presença do presidente Lula e da ministra Dilma.

Na saída do encontro, os políticos, de vários partidos, deram entrevistas e disseram que Aécio não fez objeção ou apoiou, apenas sorriu. No dia seguinte, quando visitava um presídio de mulheres em Vespasiano, na região metropolitana, ele reprovou a ideia.

Apesar das duas últimas semanas mais palacianas, restritas a Belo Horizonte, Aécio começará a partir de amanhã a viajar pelo país para tentar convencer os tucanos de que sua pré-candidatura tem consistência e potencial de crescimento. Vai primeiro a Recife, onde encontrará deputados, prefeitos e vereadores tucanos. Ele pretende fazer esse tipo de viagens com mais frequência, esperando que o partido confirme a realização de prévias.

Dilma: "Ela é sincera, mas fala difícil"

Fernanda Odilla
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

A ministra Dilma enfrentou diferentes testes de popularidade nas duas últimas semanas. Discursou para empresários, sem-casa e sem-terra, estudantes de medicina, metalúrgicos, mulheres, profissionais da saúde, deputados e senadores nordestinos e bispos. Não perdeu oportunidade de antecipar, a conta-gotas, detalhes do novo programa habitacional do governo.

Nem hesitou em distribuir abraços, beijos, autógrafos e sorrisos.

Em redutos de esquerda ou entre beneficiários de programas federais, ela obteve respostas positivas. Foi recebida por 200 mulheres em Salvador com um "Brasil, urgente, Dilma presidente".

Só não foi mais aplaudida que Lula durante visita à periferia de Vitória (ES), onde ganhou um pingente, que colocou imediatamente no pescoço.

"Vejo isso como uma manifestação de carinho, não tem um significado maior. Não estamos num momento eleitoral", afirmou à Folha. Nem a fase "paz e amor" que incorporou junto com as marcas (ainda visíveis, em especial nas pálpebras) de uma plástica na face a afastam de alguns gestos mais "duros" quando o assunto é 2010. A ex-guerrilheira avisa que pensa em criar um grupo de perguntas sobre as quais não responde "nem amarrada". Mas acaba, enfim, dando a senha: "Isso [atitude de candidata] não é para agora".

Em Feira de Santana (BA), durante visita a obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), houve tumulto para abraçar, beijar e tirar foto com a ministra, que ganhou (mas não usou) boné do MST. Mas, mesmo prometendo casa grátis, não arrancou aplausos efusivos. Segundo seus estrategistas, ela precisa melhorar sua comunicação. "Ela é muito sincera, mas fala difícil", diz alguém do público-alvo, a dona de casa Euzani Gama, 65, após ouvir a ministra na Bahia.

Nas duas primeiras semanas de março, Dilma passou por nove cidades -sete delas sem o presidente- e foi para os EUA com Lula, carregando na bagagem a receita contra a crise: obras subsidiadas pelo Executivo. Se a estratégia funcionar, a ideia do PT é associar tal sucesso a Dilma. Ela está hoje na fase de "conhecer melhor" seu partido. A partir do dia 23, será a estrela de nove seminários da fundação petista Perseu Abramo sobre a crise. Fundadora do PDT gaúcho, Dilma só entrou no PT em 1999.

Nos últimos dias, enquanto esteve no Planalto, dedicou-se quase exclusivamente à confecção do novo plano habitacional do governo. Fora, aproveitou uma brecha na agenda das viagens para assistir a uma missa do padre Marcelo Rossi em São Paulo. Diante de 20 mil fiéis, leu um trecho na Bíblia sugestivo: "Põe em meus lábios um discurso atraente, quando eu estiver diante do leão".

Banalização do sagrado e da política

José de Souza Martins
DEU EM O ESTADO DE S. PAULO / ALIÁS


Governo se afasta da Igreja partidarizada, mas a populista se mantém firme na mescla de religião e partido

Dom Hélder Câmara, antecessor de dom José Cardoso no arcebispado de Olinda e Recife e de orientação pastoral radicalmente oposta à de seu sucessor, costumava distinguir entre primeira violência e segunda violência. A legitimidade da segunda violência decorre de sua inevitabilidade em face das consequências destrutivas da primeira. A vítima inocente e indefesa da primeira violência é uma vítima sem alternativa, sem condições de escapar à causação que decorre de uma violência sofrida previamente e sem possibilidade moral e até religiosa de não reagir, autodefensivamente, contra aquilo que a degrada, minimiza e machuca. Se a primeira violência desorganiza e destrói socialmente, a segunda violência procura restaurar o que foi dilacerado.

Inspirados nessas ideias, setores da Igreja Católica têm sido solidários com as vítimas das muitas iniquidades e perversidades que, como a que aconteceu agora em Pernambuco, são marcas atuais da sociedade brasileira. Não só solidários, mas ativos participantes de ações próprias da segunda violência. Bastaria lembrar da Pastoral Indígena e da Pastoral da Terra que, mesmo com suas confusas oscilações e vacilações, têm se engajado ativamente nas lutas sociais e partidárias, que muitos consideram violência. Não só em reação à vitimização dos desvalidos, mas até mesmo na construção de um projeto político para eles, o que extrapola o princípio da segunda violência. Eu lembraria do não menos confuso e difuso MST, nascido no interior da Pastoral da Terra e que tem tido apoio da Igreja.

Não foi apenas a questão do aborto protetivo, em defesa da saúde da menina violentada e engravidada pelo padrasto, que nestes dias trouxe a Igreja para uma pauta de discussão pública compreensível, mas problemática. Sobretudo na notória anomalia de excomungar a mãe da menina e os médicos e poupar o estuprador, que estuprou também a irmã da menina. Estupro, aliás, agravado no plano propriamente religioso porque simbolicamente incestuoso, praticado pelo pai putativo das crianças.

No outro extremo do cenário, o convite por encomenda para que a candidata de Lula à Presidência da República, Dilma Roussef, comparecesse à missa no Santuário do Terço Bizantino, em São Paulo, foi outro destaque problemático para a Igreja. Do lugar da celebração, que a mídia chamou de palco e que seria o presbitério, ao lado da imagem de uma santa, Dilma dirigiu ao público acenos de positivo, com o polegar levantado, como se estivesse num palanque. A visitante foi apresentada como presença ilustre na celebração.

Ora, ilustre numa missa é Nosso Senhor e ninguém mais, nem mesmo o celebrante. O altar é histórica e tradicionalmente o lugar da celebração do sacrifício de Cristo. Nem o sacerdote ali se exibe, já que o que entra no recinto sagrado é o seu carisma, por ele personificado, distinguido de sua pessoa física pelos atos preparatórios e rituais de sua purificação. O espaço da celebração católica, como o de outras religiões, é o espaço do sagrado, espaço hierarquizado. Mais sagrado, no templo, é o presbitério e no presbitério o sacrário, que é o sagrado do sagrado, porque lugar da eucaristia. A demarcação do território do rito, a ordenação sacerdotal do padre e os ritos envolvidos na celebração têm por objetivo, justamente, manter o recinto e os objetos sagrados longe de mãos e presenças impuras, destituídas do carisma do sacerdócio. Mesmo nas igrejas protestantes, a relação com o sagrado é uma relação mediada.

O círculo problemático se fecha com o conteúdo preocupante da entrevista que deu a Roldão Arruda o frei Betto, ex-assessor especial do presidente Lula. Ele foi coordenador da área de Mobilização Social do Programa Fome Zero e o principal instaurador e articulador da rede de agentes que é hoje a base de intermediação entre o governo e os 11 milhões de famílias e de eleitores beneficiados pelas doações governamentais. Preocupante porque confirma a denúncia do senador Jarbas Vasconcelos de que o Bolsa-Família é o maior programa de compra de votos do mundo. O frade dominicano entende que o Bolsa-Família representa o encolhimento do Fome Zero e sua redução à mera condição de instrumento eleitoral de um projeto de poder do PT e de Lula.

Na verdade, sua saída do governo pode ser vista de outro modo: o descarte da Igreja Católica pelo PT e pelo governo Lula. O primeiro episódio foi logo no início do primeiro mandato, quando o indicado pela Pastoral da Terra para a presidência do Incra, mandatário de uma reforma agrária mais agressiva, foi demitido e substituído por alguém mais identificado com o pacto de conciliação do governo com o grande capital e a grande propriedade. O segundo episódio foi, justamente o da saída do governo de frei Betto e seu principal auxiliar, Ivo Poletto, originário da Cáritas, da CNBB, e um dos fundadores da CPT e do MST. O terceiro episódio ocorre agora, com as medidas e articulações que o governo Lula está fazendo para enquadrar ou mesmo descartar o MST e sua reforma agrária radical e paralela.

Não obstante esse notório rompimento entre o governo e setores partidarizados da Igreja, o "evento" a que compareceu a ministra Dilma em São Paulo indica que uma igreja populista se mantém firme na mescla de religião com partido político. Por outro lado, em sua entrevista, o ilustre frade fez esta declaração esclarecedora: "Caso mude o governo - e queira Deus que não volte às mãos da oposição...", que representa a impugnação petista da concepção republicana da rotatividade de partidos no governo. Fica, então, muito claro, que o governo Lula repousa sobre um tripé estratégico: política econômica liberal, política social assistencialista e corporativismo político. Algo bem distante do que pensam e querem os setores mais petistas da Igreja e, certamente, muito distante do que precisa a democracia brasileira. Por trás da diversidade de acontecimentos desse cenário social e político temos a banalização do sagrado e a banalização da política.

*Professor titular de sociologia da Faculdade de Filosofia da USP e autor, entre outros títulos, de A Aparição do Demônio na Fábrica (Editora 34)

Lula plantou sua crise em maio de 2008

Elio Gaspari
DEU EM O GLOBO


Foi exatamente no dia 1º, quando ele desistiu de trocar Meirelles por Belluzzo, a quem já convidara para o BC

LULA TOMOU a decisão que potencializou os efeitos da crise financeira mundial sobre a economia brasileira no dia 1º de maio do ano passado, antes mesmo que o céu começasse a desabar em Nova York. Ele recebeu a notícia de que o Brasil obtivera o "investment grade" da agência Standard & Poor e desistiu de trocar o presidente do Banco Central. Uma semana antes, havia convidado o economista Luiz Gonzaga Belluzzo para o lugar de Henrique Meirelles. Nos dias seguintes, confessara-se aliviado por ter resolvido um problema. Faltava apenas chamar o presidente do BC ao Planalto para o ritual da despedida. Com a boa notícia vinda de Wall Street (numa época em que ela ainda produzia boas notícias) a troca foi arquivada e em janeiro, para felicidade da torcida, Belluzzo assumiu a presidência do Palmeiras.

Não se pode dizer o que Belluzzo faria no Banco Central, mas pode-se garantir que derrubaria a taxa de juros. Dias antes do convite de Lula ao professor, o Copom elevara a Selic de 11,25% para 11,75%. Depois de altas sucessivas, em setembro ela chegou a 13,75%. Em outubro, depois da quebra da casa bancária Lehman e da propagação da crise pelo mundo, os sábios do Copom mantiveram a taxa e assim contribuíram para o desastre da contração de 3,6% do PIB no último trimestre do ano. Feito o estrago, a Selic voltou aos 11,25% e continua sendo a mais alta do mundo.

Lula não sabe, mas sua decisão de manter Meirelles e a turma do Copom seguiu o padrão dos erros políticos cometidos no Brasil ao longo dos últimos 50 anos. Ele se explica pela "teoria da goteira", exposta há tempo pelo economista americano Irving Fisher. O sujeito tem uma telha quebrada que pinga chuva na sala. Sempre que o sofá molha, pensa em fazer o conserto, mas a chuva passa e ele deixa para depois. É o erro do não fazer. Diferente de outro, que resulta da vontade de fazer. Por exemplo: a decisão dos comandantes militares japoneses e do imperador Hirohito para que se levasse adiante o plano de ataque à base americana de Pearl Harbor.

Fernando Henrique Cardoso criou a crise cambial de 1999 um ano antes, quando desistiu de tirar o economista Gustavo Franco da presidência do Banco Central, perseverando na sobrevalorização de real. O Plano Cruzado explodiu no final de 1986 porque José Sarney não mexeu nos preços congelados antes da eleição. A bancarrota de 1982, na qual o Brasil perdeu a capacidade de honrar seus compromissos externos, começou em 1978, quando Ernesto Geisel persistiu na política de captação de empréstimos externos atrelados à taxa de juros bancários americanos. Eles foram dos 6,8% do tempo das vacas gordas para 19% em 1981. No ano seguinte, começou a "década perdida", que durou pelo menos 12 anos.

Visões incompatíveis

Rubens Ricupero
DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Em todos os temas, comércio, inflação, câmbio, sempre que o Brasil está numa posição, a Argentina se acha na oposta

DUAS DAS principais metas da política externa brasileira se encontram em rota de colisão: o fortalecimento do sistema multilateral de comércio por meio das negociações da OMC (Organização Mundial do Comércio) e a prioridade à integração comercial com a Argentina e o Mercosul.

Ao aconselhar 15 setores industriais brasileiros a negociarem a limitação "voluntária" de suas vendas ao vizinho, Brasília se resigna ao comércio administrado ("managed trade"), pelo qual se obtém um equilíbrio artificial mediante cotas e preços mínimos. Os acordos de restrição voluntária de exportação eram prática comum no comércio mundial até os anos 80, em aço e automóveis, sobretudo. Pareciam liquidados pela Rodada Uruguai, mas voltam em grande estilo no comércio bilateral com a Argentina.

É um dos tipos mais fechados de bilateralismo (mais que isso só na base da troca ou de moeda especial), incompatível com o espírito da OMC, que busca o equilíbrio num regime aberto, no qual déficits com alguns são compensados por superávits com outros. Trata-se de retrocesso aos anos 30, dos acordos de "marcos de compensação" com a Alemanha nazista ou aos 50, com o Leste Europeu comunista de moeda não-conversível.

O que causa perplexidade é que a posição seja aceita pelo mesmo governo que censura o protecionismo da cláusula "Buy American" e defende com ardor, inclusive no G20, a retomada e a rápida conclusão da Rodada Doha da OMC. Como se isso não fosse provocar novos problemas com os argentinos, que se recusam às concessões aceitas pelo Brasil em tarifas industriais.

Para quem chefiou como eu a delegação brasileira em Genebra durante a maior parte da Rodada Uruguai, a impressão é que os dois países ficaram de posições trocadas. Há 20 anos, era o meu colega argentino, o saudoso embaixador Leopoldo Tettamanti, quem dizia com todas as letras que, se a Argentina obtivesse o pleiteado em agricultura, estaria pronta a aceitar tudo nas demais áreas. Hoje somos nós os paladinos da liberalização agrícola, enquanto Buenos Aires tenta proteger interesses diversificados em indústria e outros setores.

Em todos os temas, comércio, inflação, câmbio, relações com os credores e o Fundo Monetário Internacional, sempre que o Brasil está numa posição, a Argentina se acha na oposta. O Mercosul foi fruto de raro momento em que os dois enxergavam a inserção no mundo de modo igual e relativamente aberto.

Sabe-se onde está a Argentina agora. Já em nosso caso, os sinais são confusos. Parece que há dois Brasis: um, o do presidente e do chanceler, prega o multilateralismo para o Primeiro Mundo; o outro, dos vice-ministros do Comércio e do Itamaraty, fala com os vizinhos a linguagem pragmática do comércio administrado.

A ambiguidade de Obama em comércio talvez obrigue a renunciar por ora a uma solução multilateral improvável. Quem sabe até justifique como realismo que o Brasil ceda a fim de preservar parte do mercado argentino (desde que a renúncia não abra espaço para a China ou o Chile).

Nesse caso, é preciso ser coerente e, em vez de insistir em veleidades multilaterais inexequíveis no momento, tentar explorar de modo pragmático o potencial do comércio dentro da região latino-americana e com outros parceiros.

Rubens Ricupero, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo Itamar Franco). Escreve quinzenalmente, aos domingos, nesta coluna.

Nau sem rumo

Panorama Econômico :: Miriam Leitão
DEU EM O GLOBO


A crise já atingiu o Brasil há meses, mas o governo ainda não formulou qualquer resposta à altura. Se o governo tivesse mantido suas despesas com pessoal e previdência em proporção do PIB, no patamar de 2003, teria R$75 bilhões a mais para investir. As decisões tomadas nos últimos anos limitam a resposta governamental, a tendência de subestimar a crise é um complicador a mais.

A conta acima foi feita pelo economista político Alexandre Marinis. Os gastos com pessoal subiram de 4,2% para 5% do PIB, as despesas previdenciárias, em parte pelos aumentos reais do salário mínimo, subiram de 5,9% para 7,2% do PIB. Como são despesas que não podem ser reduzidas, o governo não tem muita margem agora para fazer política contracíclica. E há mais gastos em andamento.

- Apenas para 2009, o Orçamento da União prevê que o Executivo [sem o Judiciário e o Legislativo] contratará mais 30.879 servidores, a um custo anual de R$1,8 bilhão. Além disso, prevê a substituição de mais 19.423 terceirizados, a um custo de R$678 milhões. Como o governo Lula aumentou o quadro de servidores civis e militares em 298.232 servidores, podemos dizer que as contratações custaram R$17,2 bilhões por ano aos contribuintes. Como a maioria das contratações foi efetuada a partir do ano eleitoral de 2006, temos um impacto total nas contas públicas de R$51,7 bilhões - diz Alexandre Marinis.

Números estarrecedores, que mostram exatamente o peso que o Estado brasileiro assumiu para os próximos anos e décadas e que, neste momento, limita a ação do governo.

Os aumentos salariais são outro peso.

- Só em 2008, conforme dados do Ministério do Planejamento, a reestruturação de cargos e carreiras teve impacto de R$30,5 bilhões nos gastos de pessoal - conta Marinis.

Isso impactará, no médio e longo prazos, os gastos da previdência pública, que já tem déficit anual de R$43 bilhões em 2009.

- Em síntese, os dados mostram que o governo Lula cometeu um tremendo erro de estratégia fiscal ao contratar um número excessivo de servidores e reajustar seus salários em demasia. Este erro custará caro ao país, já que agora não tem recursos para enfrentar o tsunami mundial que já varre emprego e crescimento no Brasil - conclui Alexandre Marinis.

Além da estratégia errada nos tempos do boom, o governo não tem estratégia agora para enfrentar a crise. Foram tomadas medidas tópicas, o Banco Central acudiu as emergências bancárias que estouraram em outubro, quando secou o crédito externo. O presidente Lula suou de palco em palco, desde o início da crise, em discursos em que apostava no improvável: o Brasil não seria atingido.

Um líder não pode dizer que o país será derrotado. Mas basta comparar com o que os outros presidentes dizem: todos admitem a gravidade da crise, todos avisam que esse é um ano terrível, todos alertam para os perigos, e a partir destas constatações é que passam a convocar o país para a superação da crise. Assim faz o presidente Barack Obama o tempo todo. Assim faz o presidente da França, o primeiro-ministro do Reino Unido. Mas para ficar num exemplo mais emergente, até o primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, de um país conhecido pela absurda capacidade de censurar as informações até na web, disse claramente, ao abrir a reunião anual do Congresso, que este seria "um dos anos mais difíceis da história da China".

A crise é grave, chegou há meses ao Brasil. Só nos últimos dias, o país soube que a produção industrial de janeiro caiu 17%, que o PIB teve queda de 3,6% no último trimestre de 2008, que o governo arrecadou R$10 bilhões a menos do que previa no primeiro bimestre, que o Ministério do Trabalho registrou quase 800 mil empregos perdidos de novembro a janeiro, que a Fiesp contou 235 mil postos de trabalho eliminados de outubro para cá. Ninguém precisa de um novo número para saber que a crise está entre nós. Cabe ao governo ter uma equipe que lide com o problema com seriedade, que se antecipe aos fatos, que saiba em que direção está indo. Não há uma ação que resolva tudo. Portanto, o plano habitacional que está sendo aguardado há meses, se for bem formulado, será uma parte da resposta. Mas não toda ela.

O governo Lula teve duas vantagens. Primeiro, recebeu de herança uma economia que tinha feito avanços importantes, como a estabilização, as metas de inflação, o câmbio flutuante, a Lei de Responsabilidade Fiscal e a autonomia do Banco Central. Segundo, o país passou a ser extraordinariamente favorecido pela onda internacional de crescimento, provocada em grande parte pela bolha de crédito americana. A alta das commodities metálicas, o boom de comércio de alimentos, o aumento do fluxo de comércio, a explosão do fluxo de capitais de toda a natureza.

Estar preparado para aproveitar uma boa onda é tão importante quanto saber que ela é temporária e leva a decisões sensatas. Foi o que alguns países fizeram, como o Chile, ao montar um fundo para acumular o excesso de receitas dos bons tempos. O governo Lula tomou algumas decisões certas, como a de manter o superávit primário, acumular as reservas, aumentar os gastos com os muito pobres. Mas ele desperdiçou o bom momento ao interromper o ciclo de reformas que preparariam o país para tempos mais duros e ao aumentar de forma extravagante as despesas que não pode cortar.

O improviso diário do presidente, as apostas do ministro da Fazenda, o ensaio de campanha da ministra da Casa Civil não vão resolver a crise. Podem aprofundá-la.

Elisa

Beethoven
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O QUE PENSA A MÍDIA

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