sexta-feira, 15 de março de 2013

O jogo alto de Kassab

Ex-prefeito de São Paulo descarta ingressar na Esplanada antes da eleição de 2014, mas aliados avaliam que se trata de um lance do PSD para conseguir dois ministérios

Karla Correia, Denise Rothenburg

Mirando muito acima do que o Palácio do Planalto tem a oferecer de espaço para o PSD na Esplanada, o presidente do partido, Gilberto Kassab, disse à presidente Dilma Rousseff que a legenda não vai integrar o governo antes da eleição de 2014. Dessa forma, Kassab “recusou” uma pasta no corpo ministerial de Dilma e afirmou que o PSD não entrará na reforma ministerial desenhada pela presidente desde o fim do ano passado.

Isso é o discurso oficial. A mensagem passada pelo ex-prefeito de São Paulo, o negociador pragmático que empenhou seu apoio ao tucano José Serra na corrida pela prefeitura da capital paulista ao mesmo tempo que construiu pontes em direção ao petista Fernando Haddad, foi que, se a presidente mantiver a intenção de chamar seu correligionário Guilherme Afif Domingos para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, estará dentro da “cota pessoal” de ministros de Dilma. Não será, “de forma alguma”, o atendimento a uma demanda do PSD.

“É claro que não há a menor hipótese de ela convidar o Afif e ele não aceitar”, observa um integrante da cúpula do partido, deixando clara a estratégia do PSD. No jantar com a presidente Dilma, na noite da quarta-feira, Kassab afirmou que manterá o apoio da bancada ao governo nas votações no Congresso. Da mesma forma, continua com planos de integrar formalmente a aliança em torno da candidatura de Dilma à reeleição, no ano que vem, incluindo aí a sua fatia no horário eleitoral gratuito de rádio e tevê.

“Só a partir de 2014 fará sentido que o PSD participe da base de sustentação do governo”, disse Kassab a interlocutores do partido ontem pela manhã, ao fazer seu relato do jantar com a presidente. Sem vincular o provável convite a Afif ao atendimento de uma demanda do partido, o PSD não só se cacifa para uma segunda pasta como mantém a liberdade para mudar de rumo e acenar com o apoio a um eventual adversário de Dilma em 2014.

Nova pasta

Entre os aliados que se engalfinham por mais espaço na Esplanada, a posição de Kassab foi entendida como uma jogada ensaiada da legenda por uma segunda pasta. A oferta do Planalto seria o comando da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, mais uma vice-presidência na Caixa Econômica Federal — a de Governo ou a de Habitação. É pouco, na avaliação do PSD, que ambiciona o Ministério da Agricultura, já prometido ao PMDB mineiro, ou a Secretaria de Aviação Civil, também ambicionada pelo PMDB e pelo PR. O presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção Civil (Cbic) e presidente do PSD de Minas Gerais, Paulo Safady Simão, seria o segundo nome da legenda.

Apesar da negativa de Kassab, o Planalto mantém a possibilidade de acomodação do PSD na base governista nos cálculos para a reforma ministerial. A expectativa é que os primeiros anúncios de mudanças no primeiro escalão sejam feitos até segunda-feira, antes de a presidente viajar para o Vaticano, onde assistirá à missa de investidura do papa Francisco.

Por outro lado, o posicionamento do PSD abriu para o governo a possibilidade de destinar a Secretaria da Micro e Pequena Empresa ao PR, varrido do Ministério dos Transportes em 2011 e ávido para voltar a figurar no primeiro escalão. A pasta continua sendo o alvo preferencial do partido, que, contudo, negocia uma alternativa incluindo diretorias subordinadas ao Ministério dos Transportes. Nessa equação, o PR ficaria com Micro e Pequena Empresa, criada com status de ministério, mais os comandos do Departamento Nacional de Infraestrutura dos Transportes (Dnit) e da Valec, estatal responsável pelas ferrovias federais.

Outra possibilidade é colocar Micro e Pequena Empresa à disposição do PMDB, o que facilitaria a ampliação do número de ministérios ocupados pela legenda. Além da acomodação do PSD, PMDB e PR, Dilma ainda precisa resolver a situação do PDT no Ministério do Trabalho. O atual comandante da pasta, Brizola Neto, é um nome que agrada a Dilma, mas é também um desafeto do presidente do partido, Carlos Lupi, que trabalha pela substituição dele no cargo. As repetidas demonstrações de “independência” do PDT no Congresso e os acenos da legenda em direção à porta de saída da aliança pela reeleição de Dilma pressionam a presidente a acatar Lupi e demitir Brizola Neto.

Fonte: Correio Braziliense

Definição com o PMDB

A presidente Dilma Rousseff volta a se reunir hoje com o vice-presidente Michel Temer para bater o martelo sobre o quinhão do PMDB na redivisão de postos na Esplanada entre os partidos da base governista.

É a terceira vez que os dois se sentam à mesa na tentativa de conciliar as demandas do principal aliado do PT no governo com as demais legendas da base. Na última terça-feira, Temer deixou o jantar com Dilma no Palácio da Alvorada tendo praticamente acertado a indicação do presidente do PMDB mineiro, Antônio Andrade, para o Ministério da Agricultura.

Na intenção do Palácio do Planalto, o atendimento à bancada de Minas Gerais do PMDB — que há tempos ameaça debandar em direção ao apoio do projeto de candidatura do senador Aécio Neves (PSDB-MG) à Presidência da República — seria o ponto de partida da reforma ministerial. O atual comandante da pasta, Mendes Ribeiro, seria direcionado para a Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). Hoje à frente da SAE, Moreira Franco seguiria para a Secretaria de Aviação Civil (SAC).

A SAE, contudo, passou a ser vista pelo governo como uma possibilidade para contemplar os planos expansionistas de outras legendas aliadas. Sem um orçamento significativo para investimentos, a pasta não é vista como uma perda substancial para o PMDB, que aceita abrir mão de seu comando em busca de um consenso com os demais partidos da base. PR ou PSD ficariam com a secretaria.

Entraves

Começam aí os complicadores dentro do PMDB. O problema dessa opção seria o destino de Mendes Ribeiro. Com a secretaria indo para outro partido, restaria ao atual ministro retornar ao seu mandato de deputado federal. O que tiraria a cadeira do deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS), considerado pelo Planalto como um elemento moderador na bancada liderada por Eduardo Cunha (RJ).

A opção por Antonio Andrade para a Agricultura também não agrada na totalidade a ala mineira do partido. O deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG), que abriu mão de uma candidatura à prefeitura de Belo Horizonte para apoiar o petista Patrus Ananias, ainda trabalha para ser contemplado com o ministério, em uma espécie de compensação por ter se retirado da disputa em 2012. (KC)

Fonte: Correio Braziliense

Kassab diz que é cedo para compromisso com Dilma

Ex-prefeito dá passo atrás e não garante apoio à reeleição da presidente em 2014

Após meses negociando com o governo, Kassab ganha tempo para observar o cenário e evitar defecções no PSD

Vera Magalhães, Daniela Lima

SÃO PAULO - Após meses negociando a entrada do PSD no governo, o ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab disse à presidente Dilma Rousseff que ainda é cedo para se comprometer com o apoio ao governo e à sua reeleição em 2014.

"Eu disse a ela, e a presidente compreendeu, que esta era uma decisão definitiva, oficial, e que reflete o desejo majoritário no partido", afirmou Kassab à Folha na manhã de ontem, ao fazer um relato do jantar que teve com a presidente na quarta-feira.

Nas últimas semanas, o Palácio do Planalto acenou com a possibilidade de entregar à sigla de Kassab o controle de dois ministérios, com o objetivo de assegurar o apoio de suas bancadas no Congresso e seu engajamento na campanha da presidente à reeleição.

Kassab disse a Dilma que continua disposto a apoiá-la, mas decidiu que não fará nenhuma indicação por enquanto. "Não teria sentido integrar o governo agora. Vamos manter nossa independência, mas apoiando o governo em tudo que for bom para o país", afirmou.

Com o gesto, Kassab ganha tempo para observar o cenário político e fica com as mãos livres para eventualmente fazer outras composições, num momento em que o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), ameaça romper com o governo para se candidatar à Presidência.

Há dois anos, quando se preparava para lançar o PSD, Kassab e Campos chegaram a discutir a possibilidade de uma fusão com o PSB no futuro. O governador de Pernambuco ajudou a organizar o partido em alguns Estados.

O ex-prefeito nega que o recuo em suas negociações com o governo tenha algo a ver com a provável candidatura presidencial de Campos. "O partido caminha, em sua maioria, para apoiar a presidente em 2014", afirmou Kassab.

Ao recusar-se a indicar nomes do PSD para o ministério, o ex-prefeito deixou uma porta aberta ao dizer a Dilma que o partido não vai se opor se ela quiser nomear alguém filiado à sigla para sua equipe em "caráter pessoal".

A ressalva permite que a presidente mantenha em seus planos o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, que é do PSD e está cotado para assumir a recém-criada Secretaria da Micro e Pequena Empresa.

Nos últimos dias, Dilma chegou a cogitar a possibilidade de indicar um aliado de Kassab para a Secretaria da Aviação Civil, que também tem status de ministério. Com o recuo dele, a pasta deverá ser entregue ao PMDB, o maior dos partidos aliados a Dilma.

O ministro Moreira Franco, que hoje chefia a Secretaria de Assuntos Estratégicos, deve ser transferido para a Aviação Civil. A presidente deve anunciar as mudanças no ministério na próxima semana.

Também contribuiu para o recuo de Kassab a falta de consenso dentro do seu partido. Os dois governadores do PSD, Raimundo Colombo (SC) e Omar Aziz (AM), são contrários à aliança com os petistas.

Há resistências pontuais também nas bancadas no Congresso. Muitos integrantes do PSD saíram de partidos de oposição, e Kassab teme defecções se assumir compromissos com o governo agora.

Colaborou Natuza Nery, de Brasília

Fonte: Folha de S. Paulo

Kassab: PSD não aceita ministérios

O presidente do PSD, Gilberto Kassab, disse que seu partido recusou participação no governo Dilma antes da eleição de 2014 por não ser "adequado" aceitar ministério no momento.

Kassab afirma que PSD não integrará governo até 2014

Ex-prefeito que comanda partido "nem de esquerda nem de direita" diz que, se correligionários ocuparem ministério, será algo "pessoal"

Bruno Boghossian, João Domingos e Vera Rosa

O ex-prefeito de São Paulo e presidente do PSD, Gilberto Kassab, disse ontem que seu partido não vai aderir oficialmente à base de apoio do governo Dilma Rousseff antes da eleição de 2014. 0 político, que afirma não ser "nem de esquerda nem de direita", ressaltou, porém, que se algum correligionário vier a ocupar um ministério de Dilma, será uma decisão pessoal da presidente, sem comprometimento partidário.

Anteontem à noite, Kassab esteve com Dilma no Palácio do Alvorada. De acordo com auxiliares que tiveram acesso ao conteúdo da conversa, ele se recusou a assumir os dois cargos de primeiro escalão já em negociação com o governo: a Secretaria de Micro e Pequena Empresa e a Secretaria de Assuntos Estratégicos.

Ontem, em entrevista ao Estado, Kassab disse ter garantido a Dilma o apoio do PSD à reeleição, mas julgou que não seria "adequado" ocupar ministérios. "Deixei claro que agente não quer participar do governo, é uma decisão do partido. Participar do governo significaria ser da base, mas muita gente no partido não votou na Dilma. Eu, por exemplo, não votei nela", afirmou. "Mas não há problemas de proximidade. Imagina se não está próximo um partido que, espontaneamente, por entender que ela é uma boa presidente, caminha para apoiar sua reeleição."

Kassab ressaltou: "O partido não vai participar do governo, mas ela (Dilma) está livre para convidar quem quiser". Sobre a reunião com a presidente, ele afirmou não ter tratado dos cargos. Auxiliares palacianos, porém, informaram que o ex-prefeito disse que Dilma poderia chamar um integrante da legenda para compor a equipe "em caráter pessoal".

O PSD considera a oferta de dois ministérios periféricos, com pouco orçamento e poder, incompatível com seu tamanho e, por isso, rejeitou um alinhamento automático com o governo.

Juntinho. Ontem, na entrevista, Kassab citou a possibilidade de ocupar cargos num eventual segundo mandato de Dilma: "Quem faz campanha junto governa junto. Não se trata de cargo. Eleição é isso: para você ocupar espaços, precisa de uma delegação do povo para governar".

Kassab afirmou que a postura em relação a cargos não altera a disposição do partido de apoiar, no Congresso, projetos de interesse do governo federal. "Somos independentes, mas, nas votações, estamos votando com ela em quase todas, a favor do progresso do País. Isso não muda."

A recusa do ex-prefeito em aderir ao governo embaralhou a reforma ministerial de Dilma. Ela agora avalia se ainda é conveniente chamar Afif para a Secretaria da Micro e Pequena Empresa. O outro nome do PSD pelo qual Dilma tem simpatia é o do empresário Paulo Simão, presidente do partido em Minas Gerais.

Caso a caso. Ao manter o PSD fora da Esplanada dos Ministérios, ao menos oficialmente, Kassab deixa o partido livre para fechar alianças com candidatos de oposição ao PT nas eleições estaduais de 2014, segundo dirigentes da sigla. Fora da base, o PSD poderia se coligar ao PSDB no Paraná, no Pará e em Goiás (onde já apoia governadores tucanos) ou formar chapas com adversários do PT em Pernambuco e Minas.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Ex-prefeito pretende ser vice de Alckmin

Assim como o PR, de Valdemar Gosta Neto, e o PP, de Paulo Maluf, o PSD, do ex-prefeito Gilberto Kassab, trabalha em duas frentes na disputa de 2014: o alinhamento com o PT na reeleição de Dilma Rousseff, em Brasília, e o reenlace com o PSDB de Geraldo Alckmin, em São Paulo. O discurso público, porém, segue outra lógica, a do despiste: a retórica aponta em uma direção, enquanto a movimentação nos bastidores segue outra.

Ontem, Kassab disse que, antes de 2014, ó PSD não embarcará no governo Dilma. Afirmou também que, se houver um ministério para o partido no curto prazo, será da cota da presidente - o vice-governador Guilherme Afif Domingos, por exemplo, seria uma escolha "pessoal" dela. Dessa maneira, o PSD, que na realidade ficou insatisfeito com as ofertas feitas pela Presidência - o partido chegou a almejar Transportes ou Cidades vende a ideia de que será independente. E tenta, assim, se descolar do estigma da negociata peemedebista, citada pelos líderes do PSD como exemplo a evitar.

Recentemente, o ex-prefeito também passou a dizer que será candidato a governador no ano que vem. Nos bastidores, o partido de Kassab já pediu a vice de Alckmin, com quem o ex-prefeito esteve no final do ano passado em uma conversa de aproximação no Palácio dos Bandeirantes. Kassab quer, assim, reeditar a mesma estratégia de 2004, quando fgi vice de José Serra, caminho que o levou à Prefeitura. Na ocasião, o ex-prefeito também falava que o PFL, seu partido, teria candidato próprio. Mas, nos bastidores, trabalhava pela aliança com o PSDB. "Um dia quero ser vice, mas não agora", afirmou em junho de 2004, três dias antes de ser indicado oficialmente candidato ao cargo pelo PFL.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Kassab assina ficha de partido de Marina

Cristiane Agostine

Marina, em visita ao Mercado Municipal em São Paulo: ex-senadora intensifica agendas de rua para colher apoio

SÃO PAULO - Na ponta dos pés, debruçada em um balcão de alumínio, a ex-senadora Marina Silva estendeu a mão para o vendedor de queijos e embutidos e entregou uma ficha. "Nos ajude. A Heloísa Helena está conosco. Não estou pedindo para que você se filie. Mas precisamos de 500 mil assinaturas e, se você concordar com a criação do partido, nos ajude a lutar", disse, desviando-se do lombinho condimentado e da paleta defumada pendurados. O pedido, repetido na manhã de ontem dezenas de vezes no Mercado da Lapa, na zona Oeste de São Paulo, será intensificado até o meio do ano, quando os apoiadores da ex-senadora tentam obter as assinaturas necessárias para criar o Rede Sustentável.

Os signatários, no entanto, não são buscados só entre populares, mas também entre políticos "nem de centro, nem de direita, nem de esquerda". O grupo de Marina foi atrás, na semana passada, do fundador do PSD, o ex-prefeito Gilberto Kassab, e conseguiu dele uma assinatura para criar o partido.

O gesto, simbólico, mostra uma tentativa de aproximação entre Kassab e Marina com vistas às próximas eleições. Porém, não significa que o ex-prefeito tenha intenção de trocar de legenda. Antes, a ex-senadora já havia se aproximado do governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, que enviou uma carta de apoio no dia do lançamento oficial do Rede, em Brasília.

Em um dia de atividades públicas em São Paulo, Marina passou o dia ao lado do deputado federal Walter Feldman (SP), que não demonstrou constrangimento de ainda estar filiado ao PSDB. "Não tem crise. O PSDB sabe que estou aqui. Estou em uma transição clara", disse. Na visita ao Mercado Municipal Paulistano, no meio da tarde, Marina era anunciada em um megafone por Geraldo Malta, assessor que deve ser nomeado no gabinete de Feldman. No anúncio, era reforçado que a vereadora Heloisa Helena (PSOL) é do Rede.

Malta coordenou a articulação com os evangélicos na campanha de José Serra (PSDB) na disputa pela Prefeitura de São Paulo no ano passado. O assessor disse que o grupo responsável pelo Rede distribuiu 100 mil fichas pela criação da sigla entre igrejas evangélicas de São Paulo, das 150 mil que estão circulando na cidade. "Mas não o partido não tem nada a ver com religião", afirmou. "Buscamos apoio também entre lideranças políticas", disse.

Com calça jeans, camisa azul, blazer preto, tênis e com o tradicional coque nos cabelos, Marina foi vista como celebridade. Tirou fotos, distribuiu beijos e tomou suco de laranja. Muitos sabiam que o rosto era conhecido da televisão, mas não fizeram a associação imediatamente. O comerciante Edison Brunasse não votou em Marina em 2010, mas disseque assinaria a ficha. "Não a conhecia, por isso não votei. Mas o mundo precisa de novas ideias e apoio o partido", disse. O comerciante Fernando Rodrigues conversou com Marina, deu a ela margaridas, mas não se convenceu. "Não assino. Ninguém veio aqui antes. Nem Marina, nem Lula, nem Vilma ", disse, referindo-se à presidente Dilma Rousseff.

Foi a segunda atividade pública que Marina participou para coletar assinaturas - a primeira foi em Brasília. Hoje, Marina segue para Araraquara, no interior paulista e no fim de semana irá para o Rio de Janeiro.

Segundo balanço parcial informado pelo deputado Feldman, o grupo já conseguiu cerca de 50 mil assinaturas, 10% do necessário.

Ao lado de Feldman e do vereador Ricardo Young (PPS) - articuladores do novo partido -, Marina afirmou ter apoio suprapartidário e citou a deputada federal Luiza Erundina (PSB-SP), o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) e o ex-prefeito de Manaus Serafim Corrêa (PSB). Feldman citou os deputados federais Zequinha Sarney (PV-MA) e Dr Ubiali (PSB-SP).

A ex-senadora disse estar preocupada com a tramitação de projeto de lei do deputado Edinho Araújo (PMDB-SP), que quer excluir os novos partidos da divisão da maior parte do fundo partidário e do horário gratuito de rádio e TV. "São dois pesos e duas medidas", disse. Não foi colocada nenhuma cláusula de barreira para partidos recém-criados".

Fonte: Valor Econômico

Serra quer comando para ficar no PSDB

Caio Junqueira

BRASÍLIA - O ex-governador de São Paulo José Serra disse a um interlocutor em sua casa nesta semana que a presidência do PSDB é o único cargo que lhe interessa para continuar no partido e compor com o senador Aécio Neves (MG).

A outro interlocutor não disse isso tão expressamente, mas deixou claro que nem a presidência do Instituto Teotônio Vilela (ITV), o órgão de estudos do partido, nem a secretaria-geral, interessam-lhe. Serra considerou "uma ofensa" o papel secundário que tentam lhe conferir no processo de definições internos. Vai constantemente ao apartamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) para reclamar disso.

E soube que nem esses dois cargos estavam em vista para ele. As articulações atuais apontam para o atual presidente do PSDB, Sérgio Guerra (PE), ser deslocado para o ITV. A secretaria-geral irá para um deputado federal. Primeiramente, era para o ex-líder da bancada Duarte Nogueira (SP). Mas o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, indicou Nogueira para a presidência do diretório paulista do partido. O nome mais cotado, então, passou a ser o do também ex-líder e deputado federal Bruno Araújo (PE).

Foi diante dessa composição formulada pelos aecistas para a convenção nacional de maio, e que o excluía da cúpula do partido, que Serra passou a cogitar se lançar presidente do partido. Sob pena de deixá-lo se não for atendido. Como o Valor antecipou na edição do dia 8 de março, serristas intensificaram conversas com interlocutores do governador de Pernambuco, o presidenciável Eduardo Campos (PSB). A ideia é fundir PPS com o PMN e, assim, abrir uma brecha para migrações partidárias. Serra seria um dos nomes desse partido novo, que se coligaria com Campos em 2014.

Preocupado com a situação, Aécio ligou para Serra na quarta-feira e agendou uma conversa entre ambos em São Paulo, nesta segunda-feira. Assim, o senador cuidou de antecipar sua ida a São Paulo, já prevista para o dia 25 de março. Teme sair da capital paulista nesse dia sem o que mais precisa para consolidar sua candidatura: o apoio de Serra.

O problema é que os aecistas não abrem mão da presidência do PSDB. Acham que ela é condição necessária para fazer a candidatura Aécio decolar e, evidentemente, temem pelo protagonismo que Serra pode desempenhar nesse papel, atrapalhando os planos nacionais do mineiro.

Por outro lado, Serra sabe que tem votos e recall suficientes em São Paulo para negociar espaço no partido. E de forma indireta sabe que ganhou um aliado nessa empreitada, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB). Com uma reeleição sob risco, Alckmin passou a avaliar a viabilidade de uma candidatura Aécio para sua reeleição. Muitos tucanos do seu círculo avaliam que, para ele, é melhor ter Serra em seu projeto do que Aécio. Daí decorre a demora em anunciar apoio ao mineiro. Mas sua postura teve consequências: foi cobrado diretamente pelos governadores do PSDB nesta semana em Brasília, quando os governadores do país se reuniram para discutir o pacto federativo. Alckmin chegou a ligar para Serra para informar-lhe dessa situação.

Para o governador paulista, porém, quanto mais tempo retardar sua posição, melhor. Alckmin não quer antecipar a sucessão presidencial porque isso prejudica a sua própria reeleição. Não quer entrar em confronto direto com a presidente Dilma Rousseff (PT), nem perder os votos que Serra ainda tenha no Estado. Muito menos romper com o PSB de Eduardo Campos, seu aliado no Estado. Para ele, quanto mais palanques nacionais tiver em São Paulo em 2014, melhor.

FHC tem atuado como bombeiro nesse processo, embora tenha lado: acha que o tempo de Serra já passou e que Aécio precisa se lançar logo. Mas também tem uma avaliação comum com Alckmin e Serra: a de que Aécio pode chegar em 2014, desistir da candidatura presidencial e se lançar ao governo de Minas, outra cidadela tucano sob ameaça do petismo. Trata-se de mais uma avaliação que os paulistas consideram na hora de embaralhar ainda mais a vida de Aécio.

Em mais um sinal claro de que está no jogo, Serra, que esteve ausente do Twitter por 72 dias, voltou a postar mensagens para seus seguidores na noite de quarta-feira, com críticas à desindustrialização do país e ao governo federal. Com pouco mais de 1 milhão de seguidores, o tucano era figura frequente no microblog até ser derrotado na disputa pela Prefeitura de São Paulo em 28 de outubro.

No dia da derrota, escreveu: "Saio desta disputa revigorado e com mais energia do que quando iniciei a campanha. Vamos em frente!". Desde então, Serra estava quieto. O fortalecimento de Aécio trouxe o ex-governador de volta à tona.

(Colaborou Raphael Di Cunto, de São Paulo)

Fonte: Valor Econômico

No RJ, Eduardo volta a bater na economia

Em evento com empresários, governador critica desempenho da economia, fala em "união dos brasileiros" para vencer os desafios, mas deixa de lado a polêmica dos royalties

RIO - Em discurso na Confederação Nacional do Comércio (CNC), o governador de Pernambuco e presidente nacional do PSB, Eduardo Campos, fez ontem, críticas ao desempenho da economia brasileira e à falta de interesse político para resolver questões relativas ao setor terciário no País. Sem condenar, explicitamente, a política econômica da presidente Dilma Rousseff, Campos afirmou que "é preciso unir os brasileiros" para discutir como agir para a economia voltar a crescer em todos os setores."Temos o desafio de pensar o Brasil estrategicamente, tivemos um 2011 pior que 2010 e um 2012 pior que 2011. Os Estados Unidos sofreram com a crise financeira de 2008 e cresceram mais do que o dobro que o Brasil no ano passado", afirmou. Ele falou por cerca de dez minutos e foi muito aplaudido pela plateia, formada por empresários do segmento de comércio e serviços. Entre as mesas, comentava-se a possível candidatura de Campos a presidente. O governador evitou, no entanto, na fala, entrar em temas mais polêmicos, como a questão dos royalties do petróleo.

Apontado como principal articulador da alteração da lei que redistribui as importâncias pagas pelas compensações da exploração do petróleo, Campos tenta um acordo entre Estados produtores e não produtores. Rio e Espírito Santo anunciaram que entrarão no Supremo Tribunal Federal (STF) com ações para derrubar as mudanças no pagamento, pois alegam que foram prejudicados.

Campos negou que sua nova proposta seja eleitoreira (ver matéria abaixo). Mas o vice-governador do Rio, Luiz Fernando Pezão (PMDB), afirmou que a proposta de nova negociação pela redistribuição dos royalties é tardia. Ele afirmou que o Estado vai levar a questão ao STF.

"É lamentável que a proposta venha agora que os vetos já foram derrubados. A gente tem certeza que nosso direito é forte", disse Pezão. Para ele, a negociação tem poucas chances de prosperar, já que o veto da presidente, que impedia as mudanças na distribuição dos royalties, foi derrubado pelo Congresso Nacional.

O Estado decidiu questionar no Supremo toda a lei que trata da redistribuição de royalties, e não apenas os pontos que se referem aos blocos já licitados. Para Pezão, a iniciativa de Campos é resultado do temor de uma derrota no STF.

"Acho que eles estão vendo o erro que foi cometido. O governador Sérgio Cabral (PMDB) desde o primeiro momento se colocou à disposição para negociar, de ceder o futuro. Mas sempre colocando que se mexer na nossa receita atual era impossível ter entendimento", declarou.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

Marina roda o País para criar partido

SÃO PAULO - A ex-senadora Marina Silva disse ontem que vai rodar o País atrás de assinaturas para criar o seu novo partido político, batizado de Rede Sustentabilidade. Ontem pela manhã, Marina esteve no Mercado da Lapa, zona oeste de São Paulo, onde conversou com feirantes e participou de um mutirão de coleta de apoios."Esta é a segunda atividade que eu participo, a primeira foi em Brasília. A partir de agora vamos andar o Brasil inteiro", afirmou. Hoje, a ex-ministra do Meio Ambiente vai a Araraquara, a 270 quilômetros da capital, e, no fim de semana, ela estará no Rio de Janeiro.

Marina, no entanto, disse que ainda não há um levantamento de quantas assinaturas o movimento já conseguiu até aqui, pois o processo está apenas no início. A Rede foi lançada no último dia 16 de fevereiro e tem até setembro para conseguir as mais de 500 mil assinaturas de apoio que a Justiça Eleitoral exige para a criação de uma nova sigla.

O deputado Walter Feldman (PSDB) e o vereador Ricardo Young (PPS), que já anunciaram que vão deixar os seus partidos para integrar a Rede, também participaram do mutirão ao lado de Marina. Segundo Feldman, a mobilização deles não causa constrangimento dentro das atuais legendas e, para Young, até contribui para trazer o tema "sustentabilidade" para o debate nas demais siglas.

Eleição

Cotada como um das candidatas à Presidência da República em 2014, depois de ter conquistado quase 20 milhões de votos nas eleições passadas, Marina criticou o clima de campanha criado nas últimas semanas pelo PT e PSDB e disse que a Rede não vai participar desse processo de antecipação.

"Nós acabamos de ter uma eleição para prefeito e já anteciparam a eleição para presidente da República. Eu acho que a gente tem que ganhar mais tempo discutindo as propostas, as ideias, do que apenas discutir a engenharia eleitoral. Neste momento nós estamos focados em discutir o programa que teremos e não estamos participando dessa antecipação", afirmou.

Fonte: Jornal do Commercio (PE)

O veto faz de conta- Stepan Nercessian

Lembrança recente, de águas rasas.O então presidente Lula garante que Rio não perderá royalties do Petróleo. É tempo de eleição. Dilma Rousseff vence e o Rio de Janeiro lhe dá expressiva votação. Nova ameaça e o Veta Dilma toma conta da cidade. Covardia Não. O povo se mobiliza. Passeatas, palanques, adesivos e slogans. Dilma, a heroína veta. Diz não a inconstitucionalidade. Diz não a quebra de contratos ao ultraje jurídico. Dilma é fiel ao Rio e à promessa de Lula. Dilma faz a parte que lhe cabe neste latifúndio. Lava as mãos tal qual Lula sujou as dele com o ouro negro da discórdia. O Rio vibra e Cabral segue em Paes sua travessia olímpica a passos largos que só um Pezão pode alcançar.

Vem à apreciação do Veto presidencial para o Congresso e revela-se que o Veta Dilma era uma ficção. O Veto de Dilma era um faz de conta. Faz de conta que eu veto e vocês derrubam.

A tribuna do Governo ficou vazia. Nem líder, nem PT, nem base aliada. A plataforma ficou vazia, virou um petroleiro fantasma, encalhado na desfaçatez de uma farsa. De duas uma: ou veto não era mesmo pra valer ou a Presidente perdeu toda sua sustentação parlamentar. Os vetos ao projeto não eram obra do Espírito Santo, do Rio ou SP. Eram vetos da Presidente da República. Fundamentados na Constituição Brasileira. Gesto e vontade da primeira mandatária e assim deveriam ser tratados. Um elefante no plenário que os aliados do Governo e o próprio governo resolveu ignorar. Subiam no elefante, brincavam com sua tromba mas negavam sua existência. Nunca antes na história desse parlamento uma mensagem do governo foi tão imoralmente ignorada como essa. O senador Renan Calheiros chegou ao cenário com a empáfia dos xerifes do velho oeste. Respaldado estava para agir com tamanha indelicadeza. Um dia antes, Dilma deixou claro que sua participação nessa novela havia terminado com o capítulo do veto. Dali por diante, cada um que prospectasse suas próprias jazidas.

O bom senso, equilíbrio e espírito republicano já haviam se ausentado do plenário e o que se enxergava era o caminho do caos, da discórdia. Um grito de guerra ufanista e fundamentalista dos pobres irmãos contra os perdulários Rio e Espírito Santo. Aí Renan nadou de braçada. Como é fácil dar razão à maioria. Como é fácil destruir a minoria.

Hoje, lá vamos nós, deputados e senadores, recorrer ao poder Judiciário já que no Legislativo não podemos mais nada.

O Regimento Interno foi destratado com a mesma sem cerimônia com que tratam a quebra de contrato dos Royalties. Direitos adquiridos são considerados direitos roubados.

Fica aqui a lição para todos nós, para a população e para os governadores, senadores e deputados. Mas principalmente para quem vive na política: é preciso ter muito cuidado com promessas de políticos. Principalmente promessas feitas em tempo de eleição. Muitas vezes é só um faz de conta.

Stepan Nercessian é deputado federal eleito pelo PPS do Rio de Janeiro

Fonte: Portal do PPS

Desfaçatez do governo na desoneração da cesta - Roberto Freire

Anunciada pela presidente Dilma Rousseff em cadeia nacional de rádio e televisão, a desoneração dos alimentos da cesta básica é um tema discutido há anos pelo Congresso Nacional. Por meio de uma Medida Provisória, o PIS/Confins foi zerado e, através de um decreto, o mesmo aconteceu com o IPI de todos os produtos que ainda tinham incidência de tributos. Não se trata de discutir a desoneração em si, já que ninguém em sã consciência pode ser contrário a uma medida que alivia o bolso do trabalhador brasileiro. O que se condena na atitude do atual governo é o fato de a própria presidente ter vetado, em setembro do ano passado, uma emenda apresentada pela oposição de conteúdo idêntico ao que agora é colocado em prática. A proposta inicial, aliás, é de autoria de parlamentares do próprio PT, que apresentaram um projeto de lei ainda em fevereiro de 2012, mas foram dissuadidos pelo governo, interessado em arrecadar com os impostos federais.

Diante disso, o deputado Bruno Araújo (PSDB-PE) propôs a inclusão de emenda na Medida Provisória 563, que tratava do Plano Brasil Maior e previa a retirada dos impostos dos produtos da cesta. Aprovada pela Câmara e pelo Senado, a medida foi encaminhada para a sanção presidencial, mas acabou vetada por Dilma. Ao barrar uma proposta de um parlamentar da oposição e, seis meses depois, anunciá-la em rede nacional como iniciativa de seu governo, Dilma afronta a inteligência dos brasileiros e escancara mais uma vez o já tradicional desrespeito do PT ao Parlamento. A desfaçatez com que a presidente encampa hoje uma medida que ela mesma vetara há alguns meses é tão escandalosa quanto a desonestidade intelectual do ato em si, pois Dilma nem sequer teve a grandeza de ao menos citar o verdadeiro autor ou os autores da iniciativa.

A luta pela desoneração da cesta básica é antiga e sempre encontrou resistência dos governos de turno por conta do impacto da redução nos cofres da União. O Congresso se debruçava sobre o assunto há muitos anos, assim como já fizera no debate que tratava dos impostos que o cidadão paga ao comprar remédios, por exemplo. Essas discussões culminaram na introdução dos medicamentos genéricos no país, ideia do ex-deputado Jamil Haddad (PSB), já falecido, concretizada por José Serra durante sua gestão como ministro da Saúde. Poucos dias antes de anunciar a desoneração, Dilma admitiu publicamente que poderia “fazer o diabo quando é a hora da eleição”.

Com a antecipação da disputa eleitoral deflagrada pelo ex-presidente Lula ao lançar a candidatura da sucessora para 2014, fica claro que o governo do PT já ocupa o centro do ringue e não vê limites para afrontar os adversários, muito menos tem qualquer preocupação com o decoro republicano. A licença para “fazer o diabo” inclui a apropriação indébita de uma proposta alheia e seu anúncio à população de forma oportunista, com estardalhaço, valendo- se dos canais de comunicação da Presidência da República para fazer campanha antecipada. O corte de tributos da cesta básica, uma medida salutar e que merece o apoio de todos, é apenas o pano de fundo que esconde o interesse eleitoral mais rasteiro.

Deputado federal por São Paulo e presidente nacional do PPS

Fonte: Brasil Econômico

Diálogos decisivos - Merval Pereira

Embora tenha sido antecipada exoticamente pelo próprio governo, contra todas as melhores regras da tradição política, a sucessão presidencial ainda está num estágio incipiente para os principais candidatos a adversários da presidente Dilma Rousseff. Enquanto a ex-senadora Marina Silva está em plena luta para criar uma sigla que possa chamar de sua, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e o senador mineiro Aécio Neves tentam se organizar dentro de seus próprios terrenos para, a partir daí, jogarem-se mais seguramente na tentativa de vencer a máquina governamental, que já está funcionando a toda.

Recentemente, os dois tiveram conversas fundamentais para aplainar o terreno que pisarão dentro em pouco. Aécio deve assumir a presidência do PSDB em maio, e a partir daí intensificará suas viagens pelo país, mesmo que não assuma formalmente a candidatura. Campos marcou setembro como a data para anunciar sua decisão e está em campo para avaliar as possibilidades concretas de levar seu plano adiante.

Dentro do PSDB, a única e grande pedra no sapato de Aécio continua sendo a união do grupo paulista que até hoje indicou todos os candidatos a presidente da República do partido, começando pelo ex-senador Mario Covas, seguindo por Fernando Henrique, vitorioso duas vezes, José Serra, duas vezes, e o governador paulista, Geraldo Alckmin. Dependente do apoio paulista, o mineiro procurou o último para saber seu ânimo diante da disputa que se avizinha.

Foi claro com ele, perguntando diretamente se estava nos seus planos, mesmo que remotamente, disputar a Presidência novamente em 2014. Se a resposta fosse positiva, mesmo que no plano puramente especulativo, Aécio disse a Alckmin que não teria problema em abrir mão da postulação, com uma explicação muito simples ao eleitorado: não consegui unir o partido e devolvo à direção nacional a decisão sobre quem será o candidato. Voltaria a Minas Gerais para provavelmente ser candidato novamente ao governo do estado.

Alckmin teria sido enfático ao recusar tal possibilidade, garantindo a Aécio o apoio integral da seção paulista. O incômodo que Serra estaria sentindo, com relação à direção nacional e até mesmo ao governador paulista, é uma questão a ser superada, mas não impeditiva da união partidária. Na formação da nova direção nacional, Serra será convidado por Aécio a participar, pessoalmente ou através de um representante de seu grupo, mas há a percepção no partido de que não existe a possibilidade de um racha que divida os votos tucanos em São Paulo.

Tanto para o governo quanto para os outros candidatos, sempre haverá um ranço contra o mineiro que tirou do páreo os paulistas, e é nesse espaço que veem a chance de quebrar a hegemonia do PSDB no estado. Já Campos, candidato natural do PSB e sem rivais do partido, teve uma conversa franca com a presidente Dilma Rousseff no Planalto, onde as fichas foram colocadas na mesa.

A presidente tomou a iniciativa de dizer que compreendia o momento do PSB e considerava quase certo que um dia Campos ocuparia o lugar que hoje é dela. Qualquer decisão que viesse a ser tomada, disse Dilma, não interferiria na relação de amizade que nutria em relação a ele e à sua mulher, Renata. Campos admitiu que o partido o estava empurrando para a disputa e pediu que Dilma se considerasse livre para agir da maneira que considerasse melhor em relação à participação do PSB no governo.

Falou sobre o desgaste natural que a permanência por muitos anos de um mesmo grupo político no governo provoca e se disse convencido de que a coalizão PT-PMDB estava esgotada, sem um projeto para o país. Foi claro ao dizer que temia que o PSB fosse tragado pelo fracasso da coalizão governista, mas se colocou sempre crítico ao PT, e não à pessoa da presidente. Advertiu-a de que a popularidade de hoje pode desaparecer. Garantiu que não fazia qualquer movimento com vistas a ocupar a vice-presidência no lugar de Michel Temer, e prometeu comunicá-la assim que se decidir.

Dentro do governo, Campos já é visto como o adversário a ser batido, por representar a novidade da eleição. O que muitos no PSB temem, porém, é que essa novidade envelheça, com toda a exposição que necessariamente o governador terá que estimular para criar em torno de si uma expectativa de poder.

Fonte: O Globo

Questão de cacife - Denise Rothenburg

À primeira vista, a recusa do presidente do PSD, Gilberto Kassab, em colocar sua legenda como parte do governo Dilma Rousseff nesse momento pode transmitir um quê de liberdade para a eventualidade de um projeto alternativo prosperar, leia-se, o governador de Pernambuco, Eduardo Campos. Mas, na verdade, é muito mais do que isso. Com o seu gesto, Kassab segue a velha máxima de quem chega primeiro bebe água limpa e encontra a mesa farta. Quem chega por último, tem que se contentar com os restos.

A atual reforma ministerial, para o PSB, teria essa cara de “resto”. O novo partido encontrou ocupados todos os postos que poderia sonhar, caso do Ministério das Cidades, a Integração Nacional, a Agricultura, área na qual o PSD trafega muito à vontade na figura da senadora Kátia Abreu, presidente da Confederação Nacional de Agricultura (CNA). Se Dilma mexesse em algum partido para abrigar os novos aliados, fatalmente teria problemas. Daí, ficou para os pessedistas a “sobra”, ou seja, o novo Ministério da Pequena e Micro Empresa. Esse ministério precisa de, pelo menos, um ano para ser organizado. Sendo assim, quando o ministro, seja quem for, tomar pé do serviço, já estará na hora sair para a campanha de 2014.

Diante dessa constatação, bem pragmática, o PSD dispensou o convite, mas deixou claro o interesse em um ingresso para a próxima temporada. “Ela está mais forte do que nunca no partido”, diz o ex-prefeito paulistano. Kassab não vê hoje nenhum adversário capaz de comprometer a reeleição da presidente Dilma Rousseff, embora considere que a campanha não será um passeio. Na visão dele, a economia caminha para uma melhora. Ainda que a recuperação seja bem menor do que o otimismo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, será suficiente para dar à presidente o discurso de que ela segurou as rédeas da crise. E, sendo assim, o alcance dos programas sociais completará os votos rumo ao segundo mandato. Daí, o aceno de Kassab à presidente.

Enquanto isso, no futuro…

Ao anunciar desde já o apoio à presidente Dilma numa campanha pela reeleição, o PSD tenta garantir um passe para os camarotes vips do segundo mandato, leia-se ministérios de ponta. Entre quatro paredes, o PSD não descarta inclusive, quem sabe, ocupar o lugar do PSB na correlação de forças da base governista, se houver uma segunda temporada de Dilma no comando do país. Eduardo Campos, ao que tudo indica, será candidato a presidente. Logo, a presidente, se reeleita, terá mais espaço para acomodar os aliados de primeira hora.

O PSD repete o PSB ainda em outro aspecto. Em 2010, o partido de Eduardo Campos decidiu não apresentar a candidatura de Ciro Gomes contra Dilma com a justificativa de não prejudicar os candidatos a governos estaduais. Agora, é o PSD quem faz essa leitura. O fato de não ter cargos e facilitar hoje a vida de Dilma dá ao PSD mais moral para, logo ali na frente, pedir ao PT e à presidente uma parceria nos estados no ano que vem. Na Bahia, o vice-governador, Otto Alencar, é pré-candidato ao Palácio de Ondina. O governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo, que, por sinal, participou do jantar da última quarta-feira com a presidente, também deve concorrer à reeleição.

Além de todos esses aspectos, o PSD, ao não entrar agora no governo, consegue ainda manter intacta a imagem de independência em relação ao governo federal. E, de mais a mais, na política assim como na vida nada é definitivo. Se algo desandar até 2014, o PSD sempre poderá mudar os rumos sem ficar com aquela pecha de que largou o governo em busca do novo. No momento, entretanto, o PSD não acredita muito no sucesso de Eduardo Campos para 2014 e, como não deseja seguir com o PSDB, joga suas fichas no futuro governo Dilma.

O fato de não querer se aliar a Eduardo Campos, entretanto, não representa um rompimento do PSD com o PSB. O partido de Kassab apenas considera que não haverá amplitude da base socialista para o ano que vem. Seus aliados acreditam que nem mesmo o PDT, hoje com setores para lá de empolgados com o governador pernambucano, dá sinais de que abandonará o barco de Dilma. Em 2018, pode até ser. Mas, agora, avalia o PSD, não é hora. Por enquanto, o PSD ficará mesmo de pé, atrás da mesa de jogo, observando como Dilma movimenta as cartas que tem na mão e só vai se sentar à mesa na hora de fechar 2014, quando seu passe estará mais valorizado. Agora, o cacife seria baratinho.

Fonte: Correio Braziliense

De feitiços e feiticeiros - Dora Kramer

Usada e abusada nas duas últimas campanhas presidenciais, carregada para cima e para baixo nos dois primeiros governos do PT a fim de que o então presidente Luiz Inácio da Silva se apresentasse como uma espécie de Getúlio Vargas revivido aos olhos da História em retrospectiva, a Petrobrás vai assumindo lugar de destaque no antecipado embate de 2014.

Dessa vez, porém, com sinal trocado: é a oposição que carrega a empresa para o centro da cena. Sem os mesmos instrumentos porque não tem o governo nas mãos para anunciar grandes feitos (em geral ao molde de mercado futuro), o provável candidato do PSDB, senador Aécio Neves, igualmente exagera ao comprometer-se a entrar numa guerra para "salvar o País" por meio da recuperação da Petrobrás.

Mas, fato é que vem batendo na mesma tecla do mau desempenho da companhia traduzido na queda do valor no mercado financeiro, na perda de pontos no ranking mundial, na redução acentuada dos lucros, na diminuição da capacidade de investimentos, no aparelhamento e uso político da empresa.

Neste último aspecto, o PT de certa forma passou recibo ao responder à provocação do adversário por intermédio da presidente da Petrobrás, Graça Foster. Para não corroborar a acusação do PSDB, ela deveria ficar fora disso.

Talvez o PT tenha avaliado que, ao divulgar uma entrevista dela no site do partido, tenha dado um caráter "técnico" à resposta.

Os tucanos agora parecem dispostos a ir à forra, já que em 2006 e 2010 o PT conseguiu votos e espaço acusando o PSDB de querer privatizar a Petrobrás. A versão aí se sobrepôs ao fato de que nunca foi essa a intenção.

Agora que os resultados são ruins e o tão festejado pré-sal nada rendeu ainda além de discórdia entre Estados e forças aliadas, é como se o feitiço tivesse virado contra o feiticeiro.

O PT, contudo, tem tempo e, sobretudo, ferramentas para encontrar um antídoto: a máquina federal, o prestígio da presidente Dilma Rousseff e nenhum pudor de usar o governo para fins eleitorais.

Mão do gato. A presidente Dilma manipulou o poder de veto para rejeitar a proposta (de iniciativa do PSDB) de desoneração dos produtos da cesta básica, aprovada pelo Congresso no ano passado.

Meses depois, usou o espaço reservado ao chefe da Nação em rede nacional ; de rádio e televisão para comunicar a ; decisão do governo de desonerar os produtos da cesta básica.

Ainda gue se pudesse abstrair a existência de leis que falam na igualdade de condições em disputas eleitorais, impossível não levar em conta a realidade de absoluta e abusiva desigualdade.

Por isso mesmo soa graciosa a versão de que o "Palácio do Planalto" considera "eleitoreira" a proposta do governador Eduardo Campos de buscar uma saída negociada entre Estados produtores e não produtores de petróleo, para a crise dos royalties.

O objetivo dele pode até ser - e parece mesmo ser - construir plataforma de lançamento entre os colegas, mas o governo federal não é exatamente credenciado para desqualificar atos dessa natureza.

Instantâneo. No quesito nó em pingo d"água: o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, saiu-se como protagonista da reunião de quarta-feira dos governadores no Congresso, cujos mestres de cerimônia ; - Henrique Alves e Renan Calheiros - foram mantidos à distância do PSB nas respectivas eleições para presidentes da Câmara e do Senado.

Fonte: O Estado de S. Paulo

85º - Eliane Cantanhêde

Todos os governos se sentem injustiçados e nenhum aceita crítica. Nos do PT, é pior ainda: quem não é parceiro vira adversário, quando não inimigo. Cá pra nós, nem o papa Bento 16 escapou.

Dito isso, Mercadante (Educação) e Tereza Campello (Desenvolvimento Social) têm alguma razão quando reclamam do ranking do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) dos países. Mas não toda.

Têm razão ao dizer que o Pnud, da ONU, usa dados defasados, não capta a rápida inclusão no Brasil e acaba sendo "injusto". Em vez de desmentir, o Pnud admite que utiliza dados antigos -por uma questão de "isonomia" com os outros países.

Mas os ministros não têm razão quando ignoram que, se o Brasil evolui na área social, os demais também progridem, e muito. Nos Bric, houve enormes avanços nas últimas décadas. Na América do Sul, idem. O Brasil não é uma ilha, nem tem vitórias e méritos sozinho. O aumento da classe média, por exemplo, é mundial, apesar do oba-oba interno.

Pesquisas, números, cruzamentos são sempre passíveis de apaixonados debates, ainda mais num terreno tão sensível como o das melhorias sociais. A iniciativa do Pnud de monitorar os esforços e provocar reações e competição tem a melhor das intenções, mas os resultados devem ser vistos mais pelo aspecto geral do que número a número.

Pelos resultados divulgados ontem, o Brasil evolui positivamente desde 1980, cresceu 23,7% desde 1990 e está no bloco de países com IDH alto. Ainda assim, continua em 85º lugar entre 187 países -atrás, aqui na região, de Chile, Argentina, Uruguai, Venezuela e Peru. (Não bastassem Maradona, Messi, os Prêmios Nobel e agora o papa Francisco...)

Vamos convir. Além de ficar atrás de todos esses cinco sul-americanos no IDH, ficou também no índice de crescimento do PIB de 2012. E isso, apesar do legítimo esperneio, não deve ser pura coincidência, certo?

Fonte: Folha de S. Paulo

Valores da mudança - Marina Slva

Comentando um artigo que denunciava um desses golpes na internet para tirar dinheiro dos incautos, um cidadão declarou seu receio em investir agora, preferia esperar mais um pouco. Impressionou-me que ele não questionasse a legitimidade, mas apenas a oportunidade do negócio. Eis, a meu ver, o centro da crise civilizatória: o ganho material e imediato, como medida dos valores, e a indução a fazer qualquer coisa para consegui-lo.

No Estado, como no mercado, se as negociações forem feitas com os mesmos valores e métodos da partilha de um butim, vamos naturalizar a divisão de poder entre pessoas cujo histórico recomenda o contrário. E mesmo o debate sobre questões estratégicas pode ser contaminado pela disputa de interesses imediatos de grupos econômicos ou políticos.

Para os cidadãos que não aderem ao vale-tudo e ainda sonham com uma sociedade eticamente sustentável, o esforço de "estar no mundo sem ser do mundo" leva à busca esperançosa de contribuir para as necessárias mudanças. Mais uma vez, a sabedoria popular recomenda que se comece em casa.

Por isso, minha esperança se renova quando vejo exemplos de lucidez e desapego aos ganhos materiais e imediatos. No debate público recente sobre comissões na Câmara e no Senado, palavras ponderadas vieram de pessoas que não se envolvem no bate-boca em que se responde um preconceito com outro, mas mostram a responsabilidade dos escalões mais altos, em que se dá a negociação dos cargos. Prejuízos sociais e ambientais são inevitáveis ao se trocar a primogenitura do bem comum pelas lentilhas do vale-tudo na política.

A autolimitação é pré-requisito da liberdade, sem ela nos tornamos escravos do tirano que nós mesmos podemos ser. Os resultados desse difícil, porém necessário, esforço não são imediatos, mas, mesmo quando nada parece acontecer, é a partir dele que as pessoas se dispõem a ouvir umas às outras, formar novas relações e tecer os consensos possíveis.

Alguns gestos são simbólicos, sua força consiste em promover reflexões. Não podemos desconhecer, por exemplo, a renúncia do papa Bento 16 e o reconhecimento da necessidade de mudanças por parte da Igreja Católica na escolha do novo papa. Milhões de pessoas, em todo o mundo, são agora alcançados por um novo nome, Francisco, carregado de significados históricos que induzem a considerar a simplicidade e o convívio harmonioso com a natureza como valores necessários à superação da crise civilizatória.

A lucidez, o desapego ao poder e a capacidade de ouvir não são valores exclusivos. Não é preciso ser crente nem ateu, progressista ou conservador, nem é preciso deixar de ser. Reconhecer o gesto e a palavra do outro não ameaça a identidade de ninguém.

Fonte: Folha de S. Paulo

E o fundo do poço, é o fim do caminho - Fernando Gabeira

Eventos insuportá­veis sopram de Bra­sília. Renan Calheiros é presidente do Senado. O depu­tado João Maga­lhães, que tem as contas bancá­rias bloqueadas, foi eleito presi­dente da Comissão de Finanças. E para completar, o pastor Mar­co Feliciano, acusado de racis­mo e homofobia, mas antes de tudo um perfeito cafajeste, foi escolhido presidente da Comis­são de Direitos Humanos.

Às vezes é preciso mergulhar no passado para respirar. Pasto­res picaretas na literatura são bem mais interessantes. Em 1960, Burt Lancaster fez um cafajeste genial que vendia a religião no filme Elmer Gantry. Ganhou Oscar de melhor ator e Richard Brooks, o de melhor rotei­rista. No filme, Burt Lancaster é um pregador brilhante que sedu­zia com o som das palavras: estre­la matutina, estrela vespertina...

O filme é baseado no livro de Sinclair Lewis, escrito no meio da década de 20. A construção do personagem foi resultado de um longo trabalho do escritor, que entrevistava religiosos e, às vezes, ouvia três sermões dife­rentes por dia. Criticado em to­dos os púlpitos, Lewis enfren­tou forte reação religiosa: um pastor chegou a pedir cinco anos de prisão para o romancista. Sin­clair Lewis, em seu tempo, ja­mais poderia colher frases como a do pastor brasileiro Marco Feliciano: "Desculpe se vou agredir os seus ouvidos, mas o reto não foi feito para ser penetrado".

Quase um século se passou, com inegáveis avanços demo­cráticos e uma grande dose de vulgaridade. No fundo, tanto o personagem vivido por Burt Lãncaster, com seu brilho e sua veia poética, como o pastor Mar­co Feliciano se batem pela mes­ma causa: o dinheiro dos fiéis. O que torna Feliciano singular é sua aterrissagem na Comissão de Direitos Humanos.

Não foi um relâmpago em céu azul, mas resultado de um longo processo de degradação que transformou o Congresso desenhado por Niemeyer numa espécie de cavema sombria, com lógi­ca oposta à da sociedade, que a mantém. Ao longo desses anos a comissão sempre foi dirigida pe­la esquerda. Partidos de outros matizes não se interessam por ela, associando, erradamente, di­reitos humanos à esquerda. A longa hegemonia de um setor acabou enfraquecendo o tema, uma vez que o viés ideológico tende a enxergar humanidade apenas no seu campo político.

Um grande mérito dos direi­tos humanos é sua universalida­de. São direitos de um indivíduo, não importa a que paitido per­tença, em que país tenha nasci­do ou viva. Quando Lula compa­rou os presos políticos de Cuba aos traficantes do PCC, o movi­mento não reclamou. Quando comparou os opositores em luta no Irã a torcidas de futebol, novo silêncio. Há pouca solidarieda­de com as populações que vivem sob o controle armado do tráfi­co. E uma tendência histórica é ver o policial apenas como um transgressor dos direitos huma­nos, ignorando até os que mor­rem em atos de bravura.

Abandonada pelos grandes partidos, a comissão foi, final­mente, rejeitada pelo PT. A es­querda não compreendeu inte­gralmente o conceito de univer­salidade e a direita, ao ignorar os direitos humanos, joga fora o be­bê com a água de banho.

Não foram nossos erros no movimento de direitos huma­nos que trouxeram Feliciano ao centro da cena. Ele não chegou ao topo à frente de um onda ra­cista e anti-homossexuais, ape­sar de suas declarações bombásticas. Ele triunfou porque é cafa­jeste, e essa condição hoje é in­dispensável para o ascender no Congresso. Expressa um longo processo de degradação impul­sionado pelo PT.

Cada um certamente terá sua maneira de elaborar o caminho pelo qual se produziu tal aberra­ção. Convém à boa consciência considerar Feliciano um aciden­te de percurso. Ou, então, conestá-la com a clássica frase: mas não se pode negar que as pes­soas aumentaram seu nível de consumo. No mundo onde o consumo é a única medida, o dis­curso da presidente Dilma aos brasileiros parece anúncio de su­permercado: o arroz, o feijão, o óleo, a pasta de dente, olhe a pas­ta de dente, que no passado não entrava na cesta básica. Por que só agora, se a porta sempre este­ve abeita, como no Castelo de Kafka? Por que vetou o projeto de um oposicionista que isenta­va a cesta básica de impostos fe­derais? O arroz, o feijão e a pasta de dente, olha a pasta de dente.

O pastor Marco Feliciano é um personagem que recebeu um cartão de crédito de um fiel e o advertiu porque se esqueceu de mandar a senha: "Depois vai reclamar quando Deus não fizer o milagre". Da mesma forma, o Congresso se comportou com o pré-sal. Diante da complexida­de e riqueza da exploração des­sas jazidas profundas, limitou- se a discutir apaixonadamente a divisão do dinheiro. Recebeu o cartão de crédito e logo usou a senha para detoná-lo.

A irracionalidade da condu­ção do pré-sal foi marcada por um tom nacionalista. A Petrobrás, diziam, deve ter participa­ção em todos os contratos. Mas não seria melhor para a Petrobrás ter a preferência e partici­par apenas dos contratos que lhe interessassem? Mas eles são muy amigos, querem que a em­presa entre em todas as explora­ções, até nas canoas furadas.

Apesar do Congresso, os direi­tos humanos continuam sendo uma causa digna de por ela se bater. Apesar da desagregadora condução parlamentar no episó­dio do pré-sal, as pessoas não perderam a sensação da unidade do País. Pesquisa do Ibope mos­tra que 75% dos entrevistados quer a renúncia de Renan Calheiros. O único ser humano que Fe­liciano poderia ter ajudado ao as­sumir a comissão é o próprio Calheiros, que ganhou companhia no circo de horrores de Brasília.

Vivemos numa época em que número maior de pessoas conse­gue se informar melhor sobre o que se passa no País e no mun­do. Elas certamente farão um contraponto à altura. Mas o pro­blema continua em aberto. Por mais extensa e bem informada que seja uma rede, ela não substi­tui instituições nacionais.

O horizonte do País fica mais estreito sem um espaço que pos­sa chamar de Congresso. Como reconstruir essa ruína? É o tipo de pergunta que daria um car­tão de crédito para responder com acerto. Infelizmente, ain­da não tenho a senha.

A manipulação eleitoral do pré-sal - Rogério Furquim Werneck

O desfecho da selvagem disputa federativa pelas receitas dos royalties do petróleo, com a derrubada do veto presidencial, enseja reflexões sobre a forma lamentável com que o país vem enfrentando o desafio de se preparar para tirar bom proveito das jazidas do pré-sal. Ter em mente o que teria sido possível, num cenário alternativo, ajuda a perceber a extensão dos equívocos que deram lugar ao problemático arcabouço legal que hoje pauta a exploração e a partilha do pré-sal.

Há cerca de cinco anos, quando o país começou a se mobilizar com o problema, o governo poderia ter dado ao pré-sal o encaminhamento cuidadoso e, quem sabe, suprapartidário, que a importância da questão exigia. O flexível marco regulatório que então disciplinava a exploração de petróleo no Brasil vinha funcionando bastante bem. E poderia ter sido facilmente adaptado para acomodar as especificidades do pré-sal.

Mas essa possibilidade de encaminhamento mais sóbrio da questão foi perdida. Às voltas com a desaceleração do crescimento, na esteira da crise econômica mundial, e com o desafio de eleger uma sucessora sem experiência eleitoral prévia, o presidente Lula não resistiu à tentação de partidarizar a discussão do pré-sal e transformar a questão em plataforma de lançamento da candidatura Dilma Rousseff.

Em vez de aproveitar o marco regulatório preexistente, desenvolvido pelo governo FHC, o Planalto quis impor novo conjunto de regras que marcasse quebra inequívoca com o arranjo então vigente. Algo que caracterizasse restauração do controle estatal sobre a exploração de petróleo no Brasil. E que exacerbasse diferenças que pudessem favorecer a candidata oficial no embate político. Foi o que se viu, em agosto de 2009, quando o governo deu a público o novo marco regulatório do pré-sal, numa cerimônia grandiosa em Brasília, para 3.000 convidados, marcada por um tom nacionalista que parecia desenterrado dos anos 50. Já era a prevalência da lógica do marqueteiro.

É difícil saber que importância, de fato, acabou tendo a partidarização do pré-sal na eleição de Dilma Rousseff. Mas não resta dúvida de que o tema teve presença desmedida em sua campanha. Em meio a infindáveis cenas em que a candidata exibia mãos lambuzadas de petróleo e envergava macacões e capacetes da Petrobras, em plataformas, embarcações e estaleiros, reais e virtuais, os eleitores foram conclamados, na reta final da campanha, a eleger "a presidente que não vai deixar privatizar a Petrobras nem o pré-sal".

Agora, aos poucos, o governo vai-se dando conta dos custos do encaminhamento partidarizado e pouco razoável que deu à questão do pré-sal. Constata que não percebeu os efeitos altamente deletérios das exigências de que a Petrobras tenha monopólio da operação dos campos do pré-sal e participação de pelo menos 30% em cada consórcio que venha a explorar tais campos. E também se dá conta dos problemas que vêm sendo causados pelas absurdas exigências de conteúdo local para equipamentos utilizados no pré-sal.

A questão agora é como a Petrobras e o pré-sal poderão se livrar dessas camisas de força sem que o recuo imponha ao governo um custo político excessivo.

A adoção do regime de partilha reabriu inevitável discussão sobre a participação de estados e municípios nos resultados da exploração do pré-sal. Atiçado o vespeiro federativo, a voracidade da disputa pelos recursos tomou conta do Congresso. De pouco adiantou o veto presidencial. Acabou derrubado.

Com alguma razão, a presidente Dilma agora se preocupa com sua imagem junto aos eleitores dos estados produtores de petróleo. Foi noticiado que Dilma gostaria que ficasse claro que, na questão dos royalties, "sempre esteve com o Rio". A presidente não poderia dizer outra coisa. Mas a verdade é que, como qualquer pessoa minimamente familiarizada com as tensões do federalismo fiscal brasileiro era capaz de prever, a reabertura da caixa de Pandora da distribuição de royalties não poderia ter tido outro desfecho. Disso, até o marqueteiro sabia.

Economista e professor da PUC-Rio

Fonte: O Globo

'Nova classe média' é fenômeno mundial

Mas, para especialistas, classificação é incorreta: o que cresce é "classe trabalhadora precarizada"

Nice de Paula

Se o Brasil está se transformando em um país de classe média - como afirmou a presidente Dilma Rousseff recentemente no Rio -, ele não está sozinho. Dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), divulgados ontem, mostram que, neste quesito, estamos ao lado de China, Índia, África do Sul, Turquia, Bangladesh, Chile, Gana, Ilhas Maurício, Ruanda, Tunísia, entre outros. Segundo o Pnud, entre 1990 e 2010, a classe média que vive nos chamados países do Sul (a forma como o Pnud se refere às nações emergentes) passou de 26% a 58% do total desse grupo no mundo. Até 2030, 80% desse segmento social deverão viver nesses países e responder por 70% do consumo do mundo.

O professor Jessé José Freire de Souza, diretor do Centro de Pesquisa sobre Desigualdade da Universidade Federal de Juiz de Fora, diz que é "irresponsável" chamar de classe média esses novos consumidores. Ele, porém, concorda que esse ganho de poder aquisitivo é, sim, um fenômeno que vem ocorrendo em vários países emergentes:

- O que tem surgido é uma nova classe trabalhadora precarizada, que vai ser utilizada nas áreas de serviço, comércio e pequenas indústrias do Brasil e dos países emergentes do mundo inteiro. Por que neles? Porque você não convence um francês ou um alemão que trabalha sete horas por dia de que ele terá que trabalhar 14 horas, como está ocorrendo com essas pessoas que não tinham nada e estão se incluindo no consumo, com dois, três empregos e bicos. Mas isso não tem nada a ver com ser classe média.

Celia Lessa Kerstenetzky, diretora do Centro de Estudos sobre Desigualdade e Desenvolvimento da Universidade Federal Fluminense, identifica um movimento de inclusão por meio do consumo, relacionado ao crescimento econômico mais rápido em vários desses países:

- O que se observa com clareza é uma evolução dos rendimentos dos estratos inferiores de renda; um maior acesso a bens de consumo - diz Celia. - Mas em muitos casos o mercado de trabalho é precário, a proteção social é incipiente e o acesso a serviços sociais essenciais é muito limitado. Acho equivocado falarmos em classe média no sentido sociológico do termo. Além disso, tem havido um aumento das desigualdades em muitos desses países.

Falta formação cultural e social

Segundo Celia, a situação é melhor em países onde o padrão de crescimento é redistributivo, como no Brasil, onde a renda das parcelas mais pobres da população cresceu mais rapidamente do que a das camadas com ganhos mais elevados:

- Mas, de novo, falar em classe média é um exagero. Pesquisa que fiz revela padrões de consumo muito deficientes entre as famílias consideradas da classe média brasileira: moradias inadequadas, baixa escolaridade dos chefes de família, perspectivas desalentadoras para as crianças e jovens. Mobilidade social e redução das desigualdades não se fazem apenas com ganhos de renda - alerta a pesquisadora.

Para Jessé Souza, no Brasil, além do crescimento, houve impacto positivo do programa Bolsa Família, que acabou criando um ciclo virtuoso, ao injetar dinheiro numa faixa muito pobre da população, e um efeito cascata positivo, a seu ver, inesperado até para os criadores do programa:

- Mas, além do capital econômico, é necessária uma formação de capital cultural e social. Então, é uma mentira de fio a pavio dizer que essas pessoas (beneficiadas por programas sociais ou incluídas pelo consumo) são de classe média no Brasil. É mentira do Banco Mundial, do FMI (Fundo Monetário Internacional). E por que essa mentira precisa ser contada? Isso tem a ver com oportunismos políticos: pode trazer vantagens como ocorreu no Brasil nos últimos dez anos.

Especialista em economia internacional, Luiz Carlos Prado, do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, chama a atenção para o peso que países como China e Índia têm na classe média dos países do Sul:

- É preciso estar atento, porque um crescimento na classe média da China, que tem 1,4 bilhão de habitantes, já provoca um aumento enorme na fatia desse grupo, já que o país tem 20% da população do planeta. O Brasil tem um peso, mas é bem menor - afirma.

O Pnud mostra que até 2030, a região da Ásia-Pacífico acolherá cerca de dois terços da classe média mundial; as Américas Central e do Sul, cerca de 10%; e a África Subsariana, 2%.

Fonte: O Globo

O debate maniqueísta - Cláudio Gonçalves Couto

Episódios ocorridos no último mês suscitaram intenso debate em nossa imprensa escrita, falada e televisiva, assim como no mundo virtual das redes e blogs. Começam com a vinda da blogueira cubana Yoani Sánchez ao Brasil, passando pela morte do presidente venezuelano, Hugo Chávez, e terminando com a eleição do cardeal argentino, Jorge Mario Bergoglio, ao papado.

Afora a coincidência de termos a agenda pública capturada por temas relacionados a nossos vizinhos da América Latina, o que se destacou nesse debate foi o viés maniqueísta de boa parte dos posicionamentos. Com interlocutores assumindo sinais trocados em cada um dos casos, a percepção de nuances, o sopesamento de aspectos e a capacidade crítica cederam lugar ao simplismo, ao exagero e à convicção cega. A construção fácil de heróis e vilões tornou-se, assim, não apenas produto do sectarismo que animou boa parte dos debatedores; ela também serviu como instrumento para o ataque a adversários políticos e/ou ideológicos, estabelecendo implícita ou explicitamente nexos entre eles e os espantalhos surrados.

Se tal fuga da sensatez ficasse restrita às bobagens que se diz em mesa de botequim, ou, no atual contexto, nos posts e comentários das redes sociais e blogs, até que estaríamos bem. O problema é que parte desse Fla-Flu argumentativo partiu das perguntas, análises e posicionamentos de jornalistas e intelectuais que dispõem não só de audiência ampla, mas formam opiniões. E mais: o sectarismo do debate gera um processo que se retroalimenta, acirrando cada vez mais os posicionamentos, turvando percepções e reduzindo o espaço para que, no futuro, produza-se uma interlocução honesta entre ideias e interesses divergentes.

O maniqueísmo do debate público faz turvar a percepção

No caso de Yoani Sánchez, de um lado se viu sua transformação não só numa heroína da liberdade (algo compreensível para qualquer dissidente que se atrevesse a atacar abertamente um regime autoritário, como Cuba), mas numa referência intelectual e jornalística de primeira grandeza. Enquanto isso, seus detratores (os mais estridentes, além de autoritários, otários - já que ajudaram a promovê-la) pintavam-na como uma traidora de seu país, cujas motivações e existência seriam decorrentes exclusivamente do financiamento recebido da CIA e da grande imprensa dos países ricos.

De um lado, faltou maior senso crítico, já que Yoani - embora articulada - é pouco consistente e tem sérias dificuldades para dar respostas convincentes a perguntas incômodas, como as que lhe foram feitas pelo intelectual francês (claramente simpático ao regime cubano, mas nem por isso impertinente), Salim Lamrani (www.viomundo.com.br/entrevistas/salim-lamrani-um-bate-papo-com-yoani-sanchez.html). De outro lado, revelou-se a incapacidade de simplesmente aceitar como legítimo para Cuba algo que seus defensores advogam como indispensável para seus próprios países: o direito de se opor ao governo, sejam quais forem as razões para isso.

No caso da morte de Hugo Chávez, a divisão se deu entre os que o pintaram como uma besta-fera, cuja emergência não teria qualquer justificativa, e os que o descreveram como um imaculado redentor das massas desvalidas de "Nuestra América". Chávez foi uma liderança de estilo autoritário, cuja entrada na política de seu país se deu por uma tentativa de golpe militar e que perpetrou ações claramente voltadas a manietar a possibilidade de uma oposição realmente competitiva na Venezuela (como na retirada de competências dos governos subnacionais, após vitórias oposicionistas em eleições locais). Contudo, estava longe de ser, como afirmaram alguns intelectuais, um líder totalitário (qualificativo válido para poucos e muito maus, como Hitler, Stálin e Mao). Da mesma forma é estarrecedor que jornalistas, ao questionarem analistas sobre o futuro da Venezuela pós-Chávez, limitem-se a questionar quando será possível consertar as coisas - como se tratasse apenas disso.

Chávez emergiu num país marcado por um dos mais longevos regimes democráticos da América Latina, porém politicamente oligarquizado e economicamente capturado por uma ínfima parcela da população, beneficiária das rendas petroleiras. É a mudança socioeconômica gerada pelos seus anos no governo (reduzindo a pobreza de mais de 50% para menos de 30% da população) o grande fator a explicar sua popularidade e seus seguidos sucessos eleitorais - em eleições limpas, como atestaram observadores internacionais. Por outro lado, isto se tornou razão suficiente para que seus apoiadores fizessem vista grossa à perseguição de opositores em processos judiciais estapafúrdios (veja-se o caso de Teodoro Petkoff), as mudanças de regras eleitorais e de competências governamentais, o culto à personalidade, a cassação de concessões de rádio e TV etc.

Isso tudo para não mencionar situações ridículas, tais quais as constantes alegações de Chávez, de que o governo americano pretendia matá-lo (como Bin-Laden?), o que deu azo a seus continuadores afirmarem ter sido até mesmo seu câncer inoculado pelos Estados Unidos - expulsando o adido militar americano ao anunciar tal disparate. Os emuladores brasileiros de Chávez fazem vista grossa a estas coisas, que não tolerariam se proviessem de outros governos e líderes - mesmo que de forma atenuada. Fazem também um enaltecimento infantilizado do caudilho morto, adotando mesmo o espanhol como língua revolucionária, ao chama-lo de "el comandante". Nada mais distante da capacidade crítica.

O discurso polarizado não é anormal nas democracias. É de se esperar sua ocorrência, sobretudo em períodos eleitorais, quando os apoiadores de um candidato ou partido decerto não optarão por analisá-lo criticamente, deixando a seus adversários a incumbência de fazê-lo. O problema aparece quando tal procedimento vem travestido de objetividade jornalística ou acadêmica, mediante a construção das falácias do homem de palha: faz-se uma caricatura do que se pretende criticar e se critica a caricatura, dizendo-se porém que se trata do caricaturado - leviandade que agrada certo público.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da FGV-SP

Fonte: Valor Econômico

Reinado de Francisco - Míriam Leitão

O grande desafio que a Igreja Católica enfrenta é a redução do percentual de fiéis no mundo. No Brasil, a tendência ao declínio tem sido constante. Eram 83%, em 1991, e caíram para 64%, em 2010. Em 1970, eram 92% dos brasileiros. Mesmo assim, ainda são 123 milhões. Em 30 anos, os evangélicos saíram de 6,6% para 22,2%. Os sem religião aumentaram de 4,7%, em 1991, para 8%.

O novo Papa começou com vários acertos. O nome é bonito e significativo. Inclinar-se para pedir ao povo que rezasse a Deus por ele reduziu a distância entre o Sumo Pontífice e os fiéis. Afinal, o catolicismo se refere ao papa como "Santo Padre" e ao cargo como "o trono de Pedro".

Mas "fim do mundo" é uma questão de ponto de vista. Para nós, brasileiros, a Argentina fica ao lado. Para Roma, a América Latina sempre foi o fim do mundo, de onde nunca havia saído antes um papa em toda a história da região, integrada ao mundo católico desde que chegaram as primeiras missões jesuítas. De qualquer maneira, suas primeiras palavras mostram o esforço da busca da empatia de comunicador, distante desde a morte de João Paulo II.

Quem viveu os anos das ditaduras latino-americanas, opondo-se aos regimes militares, sabe a diferença da Igreja no Brasil e na Argentina. Aqui, tinha-se Dom Helder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns e tantos outros menos conhecidos que povoavam paróquias pelo Brasil afora protegendo presos políticos ou ajudando-os a curar as cicatrizes emocionais das temporadas em prisões. Não era toda assim, mas a História registra grandes marcos, como a missa por Vladimir Herzog. Para a Sé, os brasileiros, de qualquer religião, correram para manifestar seu sentimento de repúdio ao crime. A Igreja da Argentina não dava aos católicos de lá o mesmo acolhimento e, como O GLOBO mostrou ontem nos textos da correspondente Janaína Figueiredo e no do sempre brilhante José Casado, sombras sobrevoam o passado da Igreja argentina.

O Brasil costuma se apresentar como país mais católico do mundo, mas aqui as mulheres dessa religião continuaram indo às missas ou cumprindo com seus filhos os rituais de batismo e primeira comunhão ao mesmo tempo em que descumpriram a orientação da Igreja na questão da contracepção. Os meios disponíveis de evitar a gravidez, condenados pela Igreja, foram solenemente ignorados, e o Brasil fez em cinco décadas uma brutal queda do índice de fecundidade.

Os casos de pedofilia aconteceram em todo o mundo e nunca foram enfrentados com a coragem necessária de uma instituição que precisa punir esse crime hediondo e impedir que ele se repita. Esse é um dos vários desafios de Francisco.

No Brasil, onde desembarca em julho para a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco tentará combater o que as estatísticas mostram: a queda do percentual de fiéis, que é mais intensa em algumas regiões, como o Norte, por exemplo, e entre os mais pobres.

A Igreja Católica não tem dois mil anos por acaso. Ela sempre soube mudar sem mudar. Combateu descobertas científicas do século XV, mas depois se adaptou ao fato de que a Terra se move. Tentou manter o poder secular, mas, derrotada, reformulou-se como um reinado supranacional de poder intangível. Desafiada pela Reforma Protestante, corrigiu erros mais explícitos apontados pelos dissidentes. No século XX, algumas encíclicas tentaram atualizar o pensamento social da Igreja. 

Vamos ver o que faz do seu reinado um argentino, filho de pais italianos, que escolheu o nome Francisco, morava em acomodações modestas, mas agora, instalado em palácios, viverá rotina nada franciscana.

Fonte: O Globo

João Valentão - Nana Caymmi

Certas palavras – Carlos Drummond de Andrade

Certas palavras não podem ser ditas
em qualquer lugar e hora qualquer.
Estritamente reservadas
para companheiros de confiança,
devem ser sacralmente pronunciadas
em tom muito especial
lá onde a polícia dos adultos
não divinha nem alcança.

Entretanto são palavras simples:
definem
partes do corpo, movimentos, atos
do viver que só os grandes se permitem
e a nós é defendido por sentença
dos séculos

E tudo proibido. Então, falamos.