terça-feira, 22 de abril de 2014

Diário do Poder – Cláudio Humberto

• Petrobras: oposição mira ‘lista negra’ de empresas
Diante da tentativa do governo Dilma de naufragar investigações contra Petrobras, os partidos de oposição – PSDB, SDD e DEM – decidiram apostar fichas na comissão externa criada para apurar as denúncias de corrupção. A estratégia será mirar empresas que tem contratos com a estatal e para as quais o ex-diretor Paulo Roberto Costa operava em troca de propinas, em muitos casos de até 50% do valor do contrato.

• Siga o dinheiro
A oposição vai apresentar na comissão pedidos para Ministério Público, Polícia Federal e TCU quebrarem sigilo fiscal e bancário das empresas.

• O esquema
Planilhas obtidas na operação Lava Jato detalham empresas e o valor das comissões cobradas por Paulo Roberto, preso pela Polícia Federal.

• Lavanderia
O ex-diretor da Petrobras e doleiro Alberto Youssef, sócio do deputado André Vargas (PT-PR), teriam movimentado cerca de R$10 bilhões.

• Financiamento
As empresas listadas por Paulo Roberto foram responsáveis por elevar em mais de dez vezes doações a campanhas eleitorais da base aliada.

• PSDB não apoia Lucena ao Senado na Paraíba
O senador Cássio Cunha Lima (PB) obteve a garantia do senador e presidenciável Aécio Neves (MG) de que dificilmente a cúpula nacional do PSDB favorecerá a reeleição de Cícero Lucena ao Senado, o que prejudicaria a candidatura de Cunha Lima governo estadual. Cunha Lima, que oferecerá palanque ao presidenciável Aécio Neves, costura para dar a vaga ao Senado para o PP do ex-ministro Aguinaldo Ribeiro.

• Tempo de TV
Também está cotado para integrar a chapa o PTB de Wilson Santiago, em troca de apoio a eleição de Cunha Lima. Leia-se: tempo de TV.

• Carne e unha
Homem de confiança de Cunha Lima, o deputado e presidente estadual do PSDB, Ruy Carneiro, tem sido apontado no partido para vice.

• Juntos na causa
Aspirante ao governo da Paraíba, Veneziano (PMDB) deve contar com apoio do PT para enfrentar a reeleição de Ricardo Coutinho (PSB).

• Chapa de força
O PMDB do Rio Grande do Sul já fechou o palanque de Ivo Sartori para o presidenciável Eduardo Campos (PSB-PE). A chapa do PMDB com PSB e PSD deverá ter o maior tempo de TV nas eleições ao governo.

• Bode expiatório
A fim de tirar o foco do petista André Vargas (PR), o PT trabalha para aprovar suspensão por 90 dias de Alberto Leréia (PSDB-GO), amigo do bicheiro Cachoeira. Com voto aberto, a sigla aposta que ele vai rodar.

• Insalubre
Trabalhadores da plataforma P-33, na Bacia de Campos, reclamam da precariedade da unidade. Falta copo plástico para água, fio dental, assento sanitário etc. De sobra só as baratas que infestam o refeitório.

• Ditadura 50 anos
No rescaldo dos 50 anos do golpe militar, a Comissão de Educação da Câmara discutirá dia 24 com Emir Sader, Marcos Guerra, Sadi Dal Rosso, Renato Rabelo e Moacir Gadotti sobre educação na ditadura.

• Faxina no erário
A Câmara dos Deputados vai gastar R$7,3 milhões para limpeza e manutenção de garagens e de apartamentos funcionais em Brasília, onde a maioria de Suas Excelências não mora, ainda que de graça.

• Jogando a toalha
O índice de 5% de desemprego apresentado pelo IBGE contempla as pessoas que procuram trabalho. Muitas devem ter desistido, pois a criação de vagas de março de 2014 caiu quase 90% frente a 2013.

• Pega, mata e come
Cotado para suceder a governadora Roseana Sarney, o senador João Alberto (PMDB) é conhecido na política maranhense como “carcará”, pela virulência com a qual combateu criminalidade quando governador.

• Programa em debate
Sob a coordenação do advogado e professor de Direito da Mackenzie, José F. Siqueira Neto, os ministros Arthur Chioro (Saúde), Luis Adams (AGU) e o sub-procurador-geral da República, Eugênio José Guilherme de Aragão debatem no dia 28, em SP, o programa Mais Médicos.

• Pensando bem…
…é a Copa do Mundo que não está preparada para o Brasil.

Brasília-DF: Denise Rothenburg

- Correio Braziliense

O senador Aécio Neves (PSDB-MG), aproveitará a Executiva Nacional do partido hoje para apresentar-se como pré-candidato ao Planalto. Não que seja uma notícia desconhecida. mas a intenção é marcar um fato político, a exemplo do que fizeram Eduardo Campos e Marina Silva na semana passada.
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Marina e Eduardo, contudo, ratificaram a aliança, tendo a ex-senadora como vice. Aécio ainda está em busca de um companheiro (ou companheira) de chapa. Dois nomes surgem como opção: Mara Gabrilli (PSDB-SP) e a ex-presidente do STF, Ellen Gracie.
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Chamou a atenção a desenvoltura com que Mara comportou-se durante audiência, há duas semanas, pressionando o secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho. Segundo interlocutores do partido, ela começou a se inteirar mais dos assuntos nacionais. Por outro lado, Gracie teria a vantagem de já ter presidido o STF, o que lhe confere mais experiência institucional se comparada com a deputada tucana.

Lavo as mãos
Os tucanos não querem saber de defender o deputado Carlos Alberto Leréia (PSDB-GO), cujo pedido de suspensão está parado há sete meses na Mesa Diretora da Câmara. Os petistas tentam atrelar Leréia a André Vargas (PT-PR). O primeiro mantinha relações com o bicheiro Carlinhos Cachoeira e, o segundo, com o doleiro Alberto Youssef. Por via das dúvidas, o PSDB já rifou Lereia.

Relações aéreas
Durante depoimento de Nestor Cerveró na Câmara, o deputado Amaury Teixeira (PT-BA) preocupava-se com o adiantado da hora. Temia que Cerveró perdesse o voo de volta para o Rio de Janeiro. “Tem problema não. Se ele perder, pede um jatinho para o Alberto Youssef”, provocou o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA). O doleiro, preso na Operação Lava-Jato, emprestou uma aeronave para André Vargas passar as férias no Nordeste.

Check-in
O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem intensificado as conversas no Instituto Lula. Dias atrás chamou um parlamentar ligado ao setor produtivo para saber o que o empresariado pensa do governo Dilma. Lula não quer saber de avaliações individuais. Procura sempre uma análise macro, sem dizer se pretende ou não candidatar-se novamente.

Mudar para quê?
A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) considera um equívoco a pressão de setores do PT que defendem o movimento Volta Lula. “Não por conta do presidente Lula, que é uma grande liderança. Mas a presidente Dilma é a presidente da República, é candidata à reeleição e está fazendo um governo que está dando respostas à população brasileira. Por quê tem que mudar?”, questiona.

Fim de ciclo
O pré-candidato do PSB à presidência, Eduardo Campos, não acredita que a população votará em Dilma só por causa de Lula, como ocorreu em 2010. “Essa eleição marca o fim de um ciclo. As pessoas votam em vereador e deputado estadual por recomendação de alguém. Para presidente, elas vão votar em um nome que trará mudanças para o país”, declarou.

Segurança/ Aécio tem dito que a presença de Fernando Henrique Cardoso na campanha serve como um lastro moral e administrativo. “Ao vê-lo, as pessoas se recordam de alguém que sabe montar uma boa equipe.”

Herança maldita/ Para o senador tucano, nas pesquisas qualitativas que o PSDB tem feito, ninguém remete a imagem de FHC ao apagão, por exemplo, algo que o PT sempre procurou fazer. “Além disso, os eleitores votarão no futuro, não no passado”, aposta o tucano, descartando qualquer análise de que FHC tiraria votos pela rejeição com a qual encerrou o mandato.

Eternamente/ Já o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), lembra que o ex-presidente jamais esteve de fora das campanhas tucanas para presidente. “Mesmo quando nós, do PSDB, mudávamos o assunto, o PT fazia questão de ressuscitar Fernando Henrique e colocá-lo novamente no centro do debate”, reforçou Aloysio.

Arnaldo Jabor: Onde está o mal?

- O Estado de S. Paulo

Um dos dramas de hoje é que não há mais fatos - só expectativas. A história vai devagar e por linhas tortas. A última grande mudança foi a queda das torres em NY. Em dez minutos, nossa vida mudou. A obra de arte de Osama foi ter criado um fato. E o Ocidente acorreu para esmagar o herege, o psicopata que criou um acontecimento em um país que imaginava ter controle do seu destino. Ele ousou "acontecer". Se ele abriu o precedente, tudo ficou possível.

Só um maluco, um marginal poderia furar o cordão sanitário da vida controlada. Mas, Osama não era maluco. Ele criou a imagem das torres caindo por toda a eternidade, gravada no tempo, como a Queda da Bastilha, o holocausto e a destruição de Hiroshima. Osama nos trouxe de volta à realidade, furou a barreira virtual do nosso Truman Show.

Havia no ar um desejo de destruição da "paz americana", mesmo entre os americanos. Em cada detalhe da vida, havia indícios: em filmes-catástrofe gozando o arrasamento de NY, nos livros em que o futuro é sempre distópico e até na arquitetura, como sacou o italiano Paolo Portoghesi, quando disse que a forma do museu de Frank Gehry em Bilbao é o desejo de um desabamento. Os americanos têm uma relação de amor/ódio com o implacável progresso que os acorrenta a uma escravidão produtiva.

Eu mesmo, profetinha autoproclamado, já escrevi que aquelas agulhas góticas pareciam pedir destruição. Que pode acontecer a uma lança herética arranhando os céus de Deus? A queda. Só a queda. Havia uma fome de fatos no ar; Osama veio satisfazê-la. Achavam que a técnica era invencível em sua marcha fria para um futuro sem 'sujeitos', previsível e programado. Osama nos fascinou porque assumiu o papel de 'sujeito da história', como os marxistas se chamavam antigamente. Sozinho, destruiu a técnica com as armas da técnica, numa homeopatia apocalíptica.

Desde que nos entendemos, nunca vimos uma mutação tão inesperada. Não apenas nas mentalidades, mas na matéria da vida, nas engrenagens que movem o mundo. Talvez a Crise de 2008 tenha começado com a desmoralização das torres caídas. O 11 de setembro foi o início da Crise atual. Até o 11 de setembro, tínhamos liberdade para desejar o quê? Bagatelas, mixarias. Uma liberdade vagabunda para nada, para o exercício de um narcisismo ilusório, o fetiche de uma liberdade transformada em produto de mercado. E se o impossível acontece, a liberdade se restaura - nos ensina esse ato gratuito do terror.

Buraco negro. Este fato que mudou o Ocidente está ali em NY, deflorado, negro buraco e, por mais que tentemos, não conseguiremos desfazer a ligação entre os fios invisíveis que unem a loucura do fanatismo do Oriente até nossa vida pessoal.

Precisamos de uma forma nova de "transcendência", abolida pelo consenso tecnocientífico; uma nova liberdade se tornou urgente, a liberdade de 'não' ser moderno.

Este artigo me ocorreu porque o escrevi na Quinta-feira Santa e me vi subitamente sonhando com um novo "Cristo" que nos trouxesse esperança de salvação, não de ir para o céu, mas que trouxesse de volta o mistério de algo que explicasse o mundo. Também andei lendo ensaios de Paul Valéry que, nos anos 30, já previa com espantosa clareza o mundo de hoje.

Cito aqui trechos desse genial pensador visionário.

"A desordem do mundo atual nos habitua intimamente a ela; nós a vivemos, nós a respiramos, nós a criamos e ela acaba por ser uma verdadeira necessidade nossa. Nós encontramos a desordem à nossa volta e dentro de nós mesmos, nos jornais, nos dias e noites, em nossas atitudes, nos prazeres, até em nosso saber. A desordem nos anima e o que nós criamos nos leva a lugares onde não queremos ir." (A Política do Espírito.)

Ou então: "A vida social exige a presença de coisas ausentes; a ordem resulta do equilíbrio dos instintos pelos ideais". (...) "Uma sociedade que elimine tudo que é vago ou irracional, para impor o mensurável e o verificável, poderá sobreviver?" (Prefácio das Cartas Persas.)

Precisamos de um ideário que acrescente alguma inutilidade ao mundo. Precisamos de fatos, e não de expectativas, precisamos de um conjunto orgânico de verdades (ou de crenças) que espiritualize nosso vazio.

Mas, afinal de contas, com quem estou falando quando digo estas coisas aqui, sempre na forma de recomendações 'sensatas'? Com quem falamos? Com a ONU, com os presidentes, com os filósofos, com o bispo, com o umbigo? Com quem? É impressionante como os discursos de hoje, as conclamações, os manifestos, os ensaios usam o tom de "precisamos". "Precisamos impedir as mudanças climáticas, precisamos distribuir melhor a renda mundial, precisamos..." Mas ninguém nos responde.

Ou seja, não há o que fazer a não ser confiar em soluções que surjam pelo cansaço do erro, ou, pior ainda, pelos dias seguintes a uma grande catástrofe que nos leve, pelo pavor, a uma nova era de mínima racionalidade, até que, de novo, o caos se anuncie.

Até o mal ficou difuso. Onde está o mal, hoje? Entre os terroristas, no meio da miséria, entre fezes? O mal ficou arcaico. Por isso, o mal dos terroristas consiste em injetar o arcaico no moderno, esse inferno 'clean' que o capital inventou. E não adianta tentar a "beleza do mal" como busca invertida do bem. Já foram tentados: o culto à perversão, a violência ideológica, a crueldade por 'bons' motivos, tudo. Nada deu em nada. Existe hoje no mundo um novo mal, um mal sem culpados visíveis. O mal no mundo atual é o "incompreensível". Como disse Baudrillard: "Contra o mal, só temos o fraco recurso dos direitos humanos".

E, para fechar este artigo "cabeça", deprimido e citador, aqui vai o poema de Yeats, escrito em 1919, A Segunda Vinda:

"Tudo se desmancha no ar.
O centro não segura
a imensa anarquia solta
sobre o mundo.
Terrível maré de sangue
invade tudo e
as cerimonias da inocência
são afogadas.
Os homens melhores
não tem convicção;
e os piores estão tomados
pela intensa paixão do mal".

Música - Tom Jobim & Dorival Caymmi: Saudade da Bahia

Poesia - Fernando Pessoa: Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas
lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Opinião do dia: Merval Pereira

“O PT nunca esteve em um papel tão oficialista quanto nesta eleição, dependendo mais de sua força institucional, que gera poder e dinheiro, como o principal partido de apoio ao governo.

Sua força eleitoral não tem mais aquele componente moral que já deu ao PT a liderança da mudança política. Ao contrário, hoje, depois de 12 anos de governo, representa a maior força conservadora do país, e utiliza a máquina governamental para garantir a permanência no poder. Com todo o desgaste que essa posição acarreta.”

Merval Pereira, jornalista, “Estilos em confronto”, O Globo, 20 de abril de 2014

Para oposição, entrevista de Gabrielli que responsabiliza Dilma reforça CPI

João Domingos - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Em uma semana considerada decisiva para a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Petrobrás, a oposição acredita que a entrevista do ex-presidente da estatal José Sérgio Gabrielli ao Estado reforça seus argumentos a favor de uma investigação no Congresso que apure negócios da empresa.

Na entrevista, publicada ontem, Gabrielli afirma que a presidente Dilma Rousseff não pode fugir de sua responsabilidade pela decisão da compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos - operação iniciada em 2006 e concluída em 2012, após a Petrobrás perder uma batalha judicial com a empresa belga Astra Oil. A aquisição da refinaria localizada no Texas, ao custo final de US$ 1,2 bilhão, é a principal polêmica que envolve a estatal. Dilma, então ministra da Casa Civil, era a presidente do Conselho de Administração da empresa na época do negócio.

"O objetivo dela (a CPI) é exatamente determinar, sem qualquer pré-julgamento, qual é a responsabilidade de cada um nesse caso da refinaria de Pasadena e em outros episódios envolvendo a Petrobrás. A CPI não é uma demanda das oposições, como querem fazer crer alguns governistas, mas sim da sociedade brasileira", afirmou ontem ao Estado o pré-candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves.

No Palácio do Planalto, a entrevista de Gabrielli foi tratada com discrição. Auxiliares da presidente procuraram minimizar o impacto da fala do ex-presidente da Petrobrás. A avaliação é que se trata de uma linha de defesa adotada por Gabrielli, já que a operação de compra da refinaria de Pasadena está sob investigação da Polícia Federal, do Ministério Público e do Tribunal de Contas da União (TCU) e ele poderá ser chamado a depor.

A expectativa é que a ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal, decida amanhã se o Congresso pode instalar uma CPI restrita à estatal, como querem os oposicionistas, ou ampliada - para investigar também o cartel dos trens em São Paulo e no Distrito Federal e obras no Porto de Suape, em Pernambuco -, como desejam os governistas.

Líder do PSB na Câmara, o deputado Beto Albuquerque (RS) afirmou que, além de mostrar a necessidade de se fazer a CPI para investigar a operação de compra de Pasadena, ficou claro que Gabrielli "deu um puxão de orelhas" em Dilma.

"Quando o Gabrielli assume a responsabilidade pela compra de Pasadena, por ser o presidente da companhia, na época, ele está sendo honesto. Não tem como negar que é mesmo o responsável. E não há como negar que Dilma, então presidente do Conselho de Administração, tem responsabilidade igual", disse. "O Gabrielli botou a bola na marca do pênalti."

Já para o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (SP), Gabrielli foi muito claro na entrevista. "Ele disse, sem rodeios: 'somos todos responsáveis'. Não adianta achar que uns vão tirar a sardinha do fogo com a mão do gato. Está muito claro que a então ministra Dilma Rousseff era responsável pela decisão da compra da refinaria. Ela era presidente do Conselho de Administração, que aprovou a compra."

Resumo. Na entrevista, Gabrielli também reforçou a afirmação de que o resumo executivo em que o conselho baseou sua decisão sobre a compra foi "omisso", mas não falho. O ex-presidente da estatal, contudo, acrescentou que isso não foi relevante para a decisão.

Dilma havia afirmado que só aprovou a compra de 50% da refinaria da Astra Oil, em 2006, porque o resumo executivo feito na época pelo então diretor da área internacional da Petrobrás Nestor Cerveró foi falho porque não continha as cláusulas Put Option - que obrigava a Petrobrás a adquirir a outra metade da refinaria em caso de desentendimento com a sócia - e Marlin - que garantia lucro mínimo ao grupo belga.

Na semana passada, Nestor Cerveró depôs na Câmara dos Deputados. Ele se defendeu, dizendo que o resumo executivo que fez não foi determinante para a compra e as cláusulas omitidas irrelevantes para a decisão do conselho.

Para o deputado José Guimarães (CE), vice-presidente nacional do PT e ex-líder do partido na Câmara, a oposição tenta fazer um "carnaval". "Isso que o Gabrielli falou não tem importância nenhuma. Está claro que a oposição fez um carnaval do tamanho do mundo com os depoimentos da Graça Foster e do Nestor Cerveró, que responderam tudo", afirmou.

Planalto evita confronto com Gabrielli para conter CPI

Já oposição quer levar ex-presidente da estatal para depor na Câmara

Dilma ‘não pode fugir à responsabilidade’ por compra de Pasadena, disse executivo; para Aécio e Campos, cresce a necessidade de investigação

Em uma tentativa de conter a crise que pode levar à criação de CPI para investigar a Petrobras, o Planalto decidiu evitar o confronto com o ex-presidente da estatal José Sergio Gabrielli, que afirmou que a presidente
Dilma “não pode fugir da responsabilidade” na compra de Pasadena. A oposição diz que a declaração reforça a necessidade de CPI e tentará levar Gabrielli para depor na Câmara. “O desencontro de versões mostra cada vez mais a necessidade de que a verdade seja dita ao povo”, disse Eduardo Campos (PSB).

Oposição quer ouvir Gabrielli

Planalto evita confronto com ex-presidente da estatal, que dividiu com Dilma ônus pela compra de Pasadena

Júnia Gama – O Globo

BRASÍLIA- Após o ex-presidente da Petrobras José Sergio Gabrielli afirmar, em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, que a presidente Dilma Rousseff “não pode fugir da responsabilidade dela” na compra da refinaria de Pasadena, nos EUA — já que era a presidente do Conselho de Administração na época —, o Palácio do Planalto preferiu evitar o confronto e não se manifestar oficialmente, numa tentativa de conter a crise que pode levar à criação de uma CPI exclusivamente para investigar a Petrobras.

A oposição, no entanto, pretende manter o assunto aceso e tentará levar Gabrielli à Câmara dos Deputados para prestar depoimento, além de insistir na instalação da CPI, que ainda aguarda um parecer do Supremo Tribunal Federal (STF). Amanhã, representantes do partido Solidariedade vão apresentar convite ao ex-presidente da Petrobras para depor na Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara.

Os principais adversários de Dilma nas próximas eleições, o senador Aécio Neves (PSDBMG) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), voltaram a defender ontem investigações sobre a compra de Pasadena e uma prestação de contas do governo sobre o caso. Aécio disse que Gabrielli reforçou a necessidade de uma CPI. Campos cobrou que Dilma Rousseff “assuma suas responsabilidades” não somente sobre a Petrobras, mas em diversos setores da economia e da administração.

O Palácio do Planalto optou por não se manifestar oficialmente sobre os comentários de Gabrielli. A versão divulgada pelo governo é que as declarações são uma defesa da aquisição de Pasadena, e que Gabrielli tem o direito de defender sua gestão à frente da Petrobras. Segundo assessores, as colocações de Gabrielli não foram vistas como um ataque a Dilma e, por isso, não mereceriam uma reação do Planalto.

Para planalto, depoimentos sem contradição
O posicionamento de ontem do Planalto segue a estratégia de colocar panos quentes na crise. Desde o início da semana passada, o governo vem minimizando os desencontros nas declarações sobre o caso. Após a presidente da Petrobras, Graça Foster, e o ex diretor da empresa Nestor Cerveró irem ao Congresso e apresentarem avaliações diferentes sobre a compra de Pasadena, o governo alardeou a versão de que os depoimentos não haviam sido contraditórios no essencial: na defesa de que o negócio parecia rentável na época em que foi fechado, e que ambos disseram que Dilma não sabia das cláusulas que depois teriam tornado o negócio ruim.

Na entrevista a “O Estado de S. Paulo”, Gabrielli contestou outra declaração de Dilma ao afirmando que o resumo executivo sobre a negociação de Pasadena entregue ao conselho presidido em 2006 por ela foi “omisso”, mas não foi “falho”, como classificou a presidente. O ex-presidente da Petrobras também contestou a versão apresentada por Dilma de que, se fossem conhecidas as cláusulas “put option” (que obriga o sócio a comprar a parte do outro em caso de discordância na sociedade) e “Marlim” (que assegura ao sócio uma rentabilidade mínima), a compra não teria sido aprovada. “Isso (a omissão das cláusulas) não é relevante, a meu ver, para a decisão do conselho”, disse o ex-presidente. Gabrielli sustenta que Pasadena só se tornou um mau negócio posteriormente, devido à conjuntura internacional. Dilma alega que foi induzida a erro na compra da refinaria de Pasadena por ter recebido um parecer “técnico e juridicamente falho”.

A ordem no Palácio do Planalto é não contestar as versões de Gabrielli e do ex-diretor da área internacional da empresa Nestor Cerveró.

Já para Aécio Neves, a entrevista de Gabrielli tornou ainda mais necessária uma CPI, para que se descubra qual a responsabilidade de cada um na compra da refinaria de Pasadena.

“A entrevista do ex-presidente da Petrobras reforça a necessidade de uma CPI. O objetivo dela é exatamente determinar, sem qualquer prejulgamento, qual é a responsabilidade de cada um nesse caso da refinaria de Pasadena e em outros episódios envolvendo a Petrobras. A CPI não é uma demanda das oposições, como querem fazer crer alguns governistas, mas, sim, da sociedade brasileira”, disse Aécio, em nota.

Eduardo Campos afirmou que “o desencontro entre as versões que vêm de dentro do governo mostra cada vez mais a necessidade de que tudo seja investigado e que a verdade seja dita ao povo brasileiro”.

“Sobre assumir as suas responsabilidades, a presidente tem que assumi-las não apenas em relação à Petrobras, mas ao setor elétrico, à inflação e ao baixo crescimento da economia, porque, em última instância, ela é responsável por tudo isso”, disse Campos, também em nota.

O líder do Solidariedade, deputado Fernando Francischini (SDD-PR), foi outro que apontou contradições nas declarações prestadas até o momento sobre Pasadena. Para ele, o governo construiu um discurso no sentido de se eximir de responsabilidades e culpar Gabrielli e Cerveró sobre a polêmica aquisição.

— Todo o discurso preparado por Dilma e Graça Foster é para se eximir de responsabilidades. A Petrobras errou demais, e a presidente Dilma, para se livrar dessa barbeiragem com o dinheiro público, empurrou a culpa para o Gabrielli, por isso ele reagiu. Gabrielli sentiu que vai sobrar para ele e para o Cerveró, porque Dilma fez um discurso político de responsabilizá-los. Vamos fazer o convite ao Gabrielli para ele vir à Câmara, porque ele já avançou e começou a revelar detalhes que não tinha falado antes — afirmou Francischini.

“Forma sorrateira de criar uma crise”
Líderes do PT, porém, saíram em defesa do governo Dilma e seguiram a linha do Palácio do Planalto de minimizar as declarações de Gabrielli. O vice- presidente nacional do partido, deputado José Guimarães (CE), afirmou que tanto Gabrielli quanto Graça estão defendendo suas gestões e disse que é preciso colocar um ponto final na crise.

— É dever dele (Gabrielli) defender sua gestão, seu período à frente da empresa. Graça Foster não tem responsabilidade sobre o passado e também está defendendo a gestão dela. Essa é uma contenda que tem que ser encerrada. Não acho que se deve gerar uma crise porque há uma divergência entre um ex-presidente da empresa (Gabrielli) e uma ex-presidente de Conselho de Administração (Dilma). Isso é uma forma sorrateira de criar uma crise.

Para mim é uma coisa resolvida: ele defende a gestão dele e a Graça Foster, a dela. Tem que encerrar isso e tocar o governo — defendeu Guimarães. O deputado Fernando Ferro (PT-PE), um dos principais articuladores da defesa do governo na audiência que ouviu Cerveró semana passada, avalia que os conselheiros têm, sim, responsabilidades
por suas decisões, mas só a partir das informações que lhes são entregues, o que não ocorreu por completo com Pasadena. Para ele, o assunto vem sendo “requentado” desde 2009 e não merece o destaque que a oposição quer dar:

— Um negócio feito de maneira inadequada traz prejuízo para qualquer empresa, mas, se houve incompetência, está muito distante de se transformar isso em um grande escândalo de corrupção, como a oposição quer fazer crer. l

Ricardo Noblat: CPI neles!

“Quem não deve não teme. E quem deve tem que ser preso e algemado” – Lula

- O Globo

E continua a troca indireta de chumbo entre Dilma e Lula. Ligada a Dilma, Graça Foster, presidente da Petrobras, reconheceu que foi um mau negócio para a empresa a compra em 2006 da refinaria Pasadena, no Texas. Deixou um rombo de meio bilhão de dólares. Ligado a Lula, José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras, replicou que Dilma não pode “fugir de sua responsabilidade” na compra da refinaria.

Era Lula o presidente do Brasil quando Pasadena foi comprada. De princípio, apenas pela metade da refinaria, a Petrobras pagou praticamente o que o grupo belga Astra Oil havia pagado por ela inteira. Quando o negócio foi fechado, era Dilma a ministra-chefe da Casa Civil e presidente do Conselho de Administração da Petrobras.


“Não posso fugir da minha responsabilidade do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela, que era presidente do conselho”, disse Gabrielli em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. E completou, dando mais uma estocada em Dilma: “Nós somos responsáveis pelas nossas decisões”.

É grande o desconforto de Lula e de Dilma com a exposição pública de mazelas da Petrobras. De Lula porque foi nos oito anos de governo dele que avançou o processo de loteamento político de cargos na Petrobras – e tudo isso está vindo à luz agora. De Dilma porque o Caso Pasadena atingiu em cheio sua imagem de gestora notável.

Lula saiu do governo com 80% de aprovação. Nega que pretenda voltar já – talvez daqui a quatro anos. Está pronto, contudo, para entrar em campo se Dilma teimar em perder cada vez mais pontos nas pesquisas sobre intenção de voto. O sonho de Dilma é o de se reeleger. Lula e Fernando Henrique Cardoso se reelegeram. Por que ela, não?

Dilma como a mãe do Programa de Aceleração do Crescimento foi uma invenção de Lula. Como uma espécie de primeira-ministra foi uma invenção de Lula. E como melhor administradora do que ele foi uma invenção de Lula. Vote na mulher de Lula – eis a poderosa sugestão da propaganda que empurrou Dilma ladeira acima.

Pasadena empurra Dilma ladeira abaixo. Onde se viu transação bilionária ser tratada de maneira tão descuidada e apressada como foi a de Pasadena? Ao longo de seis anos, a Petrobras desembolsou algo como U$ 1,2 bilhão pela refinaria cujo valor atual de mercado é de U$ 200 milhões. Gestão temerária? Para dizer o mínimo. A conferir.

Vejam só: num dia, os membros do Conselho de Administração da Petrobras receberam o resumo técnico de uma página e meia da documentação completa de mais de 400 páginas referente ao negócio. No dia seguinte, aprovaram o negócio. A documentação completa esteve à disposição deles. Por que não a consultaram? Sabe-se lá...

Sabe-se que, ouvida recentemente pelo O Estado de S. Paulo, Dilma alegou que se baseara num resumo técnico “falho e incompleto” para aprovar a compra da refinaria. O que aconteceu com o autor do resumo? Foi elogiado e transferido para outro cargo onde passou a lidar com mais dinheiro. Só há pouco perdeu o cargo. Que tal?

A ministra Rosa Weber, do STF, decidirá, esta semana, se concede liminar para instalação de CPI exclusiva da Petrobras. O mais provável é que conceda, sim. CPI é direito da minoria. Uma vez que exista fato determinado e que tenham sido cumpridas as regras para criação da CPI, manda a jurisprudência do tribunal que ela seja instalada. E pronto.

Aécio Neves: Clamor

- Folha de S. Paulo /EBC

Minas se reúne hoje, nas celebrações da Inconfidência Mineira, para também homenagear a página mais importante da nossa história contemporânea: os 30 anos da Campanha das Diretas, que nos legou o resgate da democracia e o retorno ao regime pleno do Estado de Direito.

Nos últimos dez anos, a solenidade tem sido marcada pela defesa de um novo pacto federativo que signifique maior responsabilidade e solidariedade da União para com os Estados e municípios.

Como acontece todos os anos, revisitamos os valores e princípios do 21 de Abril e outros trechos de história para refletir sobre os grandes desafios do Brasil do nosso tempo, que deveriam pontuar acima dos interesses políticos, pessoais e partidários. É uma pena constatar como desapareceu o espaço para a convergência nacional, apesar de hoje não nos faltarem causas legítimas capazes de mobilizar a solidariedade política e a ação compartilhada dos brasileiros. Pelo contrário: para onde quer que se olhe, as demandas se avolumam e continua havendo quase tudo por se fazer.

É difícil saber, por exemplo, qual é a crise mais séria, a prioridade mais aguda, se na segurança ou na saúde. Ambas estão no mesmo patamar das graves emergências nacionais e têm como consequência a perda de vidas de brasileiros, seja pela omissão ou pela incapacidade do Estado de prover serviços necessários. Omissão e incapacidade que se refletem na ausência de serviços de saúde e nos 50 mil assassinatos contados por ano no país.

Mais inaceitável ainda é a desmobilização do Estado nacional para o enfrentamento de problemas tão graves e gigantescos. Eles só ganham algum destaque na agenda oficial quando a mídia torna intoleráveis os desacertos ou os escândalos, mazelas que caminham juntas no regime do compadrio e da má gestão.

Parece inacreditável que, entre 2002 e 2011, segundo fontes oficiais, o governo federal tenha perdido R$ 6,9 bilhões para a corrupção. Um dado muito menor que as projeções realizadas por outras instituições, mas que não deixa de impressionar. Na saúde foram R$ 2,3 bilhões neste período, cerca de 30% do total de recursos federais desviados.

Na segurança os números também chamam a atenção: segundo o Contas Abertas, entre 2011 e 2012, R$ 3,3 bilhões deixaram de ser investidos na área. Entre 2003 e 2012, foram R$ 7,5 bilhões. No ano passado, dos R$ 2,2 bilhões orçados, apenas cerca de 30% foram efetivamente investidos.

No 21 de abril, celebra-se, mais que uma data, a permanência de valores que inspiram uma nação. Entre eles, o respeito às liberdades e à legítima capacidade de indignação de um povo.

Impossível, no dia de hoje, não reconhecer como o clamor dos brasileiros por um país mais justo permanece atual.

Aécio Neves, senador e presidente nacional do PSDB

Campos defende mudança para reforma tributária e cortes de gastos

Valor Econômico Online

SÃO PAULO - O pré-candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB) defendeu uma mudança fundamental na governança política no Brasil. Em entrevista à agência Reuters, disse que o Brasil precisa cortar gastos ruins de custeio da máquina pública e de uma reforma tributária fatiada, mas sem perder conquistas sociais ou reduzir direitos dos trabalhadores.

O ex-governador de Pernambuco de 48 anos defendeu também que a Petrobras tenha uma política clara e que seja pública para os reajustes de combustíveis, a exemplo do que ocorre com tarifas de energia e telefonia. “Nós vamos conter a inflação, vamos fazer o Brasil crescer, vamos alavancar os investimentos no Brasil, nós vamos conter o gasto ruim, nós vamos fazer o dever de casa que precisa ser feito”, disse.

“Não vamos fazer isso perdendo conquistas sociais, não vamos fazer isso sacrificando o direito dos trabalhadores. Vamos fazer isso com uma governança inteligente, passando confiança aos investidores, tendo coragem de fazer os cortes que a máquina pública precisa”, disse Campos.

De acordo com o pré-candidato, isso só será possível com a mudança na relação política, considerada por ele a barreira mais importante a ser vencida. “Agora é um novo ciclo, o padrão político brasileiro está vencido, o padrão de governança do Estado está vencido.”

“Quem falar isso para o Brasil vai encantar a vida brasileira e vai ter o apoio da sociedade para fazer mudanças", disse o pernambucano, crente de que poderá vencer o desconhecimento do eleitorado e quebrar a polarização de PT e PSDB, que governam o país há 19 anos.

Reforma política
O Brasil, segundo ele, pôde derrotar a ditadura, por isso não há por que duvidar que é possível vencer “a velha política que está em Brasília”. “Essa é a trincheira que tem que ser derrotada para abrir um novo tempo e um novo ciclo (no país)”, disse. “Para mim é muito claro o diagnóstico de que a primeira das mudanças... é uma mudança na política”, insistiu o ex-governador de Pernambuco, que numa conversa de quase uma hora evitou se comprometer com metas fiscais.

Na entrevista, Eduardo Campos disse que, se eleito, determinará que a Petrobras tenha uma política clara de reajuste para os combustíveis, semelhante ao que ocorre com outros segmentos da economia.

“O setor de energia tem uma regra, telefonia tem uma regra, a passagem de ônibus tem uma regra. Há um preço transversal na economia em questão que é o preço do combustível. Ele tem que ter uma regra. E essa regra tem que estar na equação da política macroeconômica. Não é a política macroeconômica definir a regra (de reajuste dos combustíveis) em função de sua conveniência.”

Campos também promete profissionalizar a gestão da Petrobras para blindá-la da ingerência política. A empresa vem sofrendo com problemas financeiros nos últimos anos, cujas causas seriam, entre outras, a defasagem dos preços dos combustíveis no mercado interno em relação ao valor do petróleo no exterior e um ambicioso plano de investimentos.

Reforma tributária fatiada
Na entrevista o ex-governador de Pernambuco defendeu, se eleito, uma reforma tributária que seja feita de forma fatiada. Assim ele acredita que terá condições de avançar rapidamente com as mudanças porque “já está tudo debatido”. A reforma seria fatiada para que seja possível enfrentar as resistências estabelecendo mudanças num horizonte de até 12 anos.

“Acho que simplificando (a cobrança de tributos) e tornando o sistema mais inteligente temos como reduzir a carga tributária”, afirmou, evitando se comprometer com um percentual de redução.

A carga tributária brasileira gira em torno de 37% e é apontada como um dos entraves para o crescimento da economia. Campos disse ainda que, se eleito, vai manter a lógica de conceder reajustes reais ao salário mínimo, mas pretende discutir a atual fórmula.

Pré-candidatos empatam entre quem os conhece

Nessa faixa do eleitorado, Campos tem 28%, Dilma, 26%, e Aécio alcança 24%

Recorte da pesquisa Datafolha tem alta margem de erro, pois só 17% afirmam conhecer os três candidatos

Fernando Rodrigues – Folha de S. Paulo / EBC

BRASÍLIA - Os candidatos a cargos públicos costumam repetir que agora ainda é cedo para analisar o cenário eleitoral, pois a maioria dos brasileiros ainda não está conectada à disputa de outubro e poucos eleitores conhecem neste momento todos os principais nomes na corrida pelo Palácio do Planalto.

É tudo verdade. Segundo a mais recente pesquisa Datafolha, realizada nos dias 2 e 3 deste mês, apenas 17% dos eleitores afirmam conhecer "bem" ou "um pouco" os três principais pré-candidatos a presidente: Dilma Rousseff (PT), Aécio Neves (PSDB) e Eduardo Campos (PSB).

Nesse universo, embora a margem de erro do levantamento se torne bem maior por causa do número pequeno de entrevistados, o resultado final é muito diferente daquele apurado quando é considerado o total da amostra do instituto.

No cenário testado apenas com eleitores que conhecem os três principais candidatos, Campos fica com 28%. É seguido por Dilma, com 26%. Aécio pontua 24%.

Os três estão tecnicamente empatados. É que a margem de erro sobe para cinco pontos percentuais, para mais ou para menos. No âmbito geral da pesquisa, essa margem chega a apenas dois pontos percentuais.

O diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, faz um alerta: "Os eleitores que conhecem os três candidatos são os que mais acessam o noticiário, ou seja, são os mais escolarizados, de renda mais alta etc. Nada indica que o eleitor típico de Dilma, ao conhecer Aécio e Campos, deixará de votar nela".

Ou seja, a oposição não terá certeza de sucesso se garimpar apoio apenas entre os que já conhecem e votam em Dilma sem saber direito quem são Aécio e Campos.

A jazida inexplorada de votos à disposição de adversários do PT --e também aberta para a própria presidente Dilma-- está no vasto grupo de eleitores que não vota na candidata governista e ainda não conhece muito bem as opções em jogo para pensar em fazer uma mudança.

Em todos os cenários pesquisados pelo Datafolha, no levantamento completo, a petista pontua de 38% a 43% e aparece à frente dos demais candidatos. O restante dos eleitores prefere outros nomes, está indefinido ou vota em branco, nulo ou em nenhum candidato.

Ainda dentro do universo dos que dizem conhecer bem Dilma, Aécio e Campos, desaparece o amplo favoritismo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, registrado em todas as pesquisas até agora.

Quando é ele, e não Dilma, o candidato, seu percentual chega a 32%. Aécio e Campos pontuam 23% cada um.

Se Campos é substituído pela ex-ministra e ex-senadora Marina Silva como candidata do PSB a presidente, ela fica com 34% e lidera numericamente a pesquisa contra 23% de Dilma e 25% de Aécio --tudo no universo dos que dizem conhecer os três principais nomes na disputa.

Marina Silva também permanece competitiva se disputar nesse nicho eleitoral contra Lula e Aécio. Nesse cenário, a ex-senadora pontua 32%. O ex-presidente registra 29% e o tucano tem 24%.

Na semana passada, no entanto, o PSB confirmou que a chapa da legenda terá Campos como candidato e Marina na vaga de vice.

Segundo turno
Nas simulações de segundo turno feitas pelo Datafolha com esse grupo de 17% dos eleitores que conhecem Dilma, Aécio e Campos, os vitoriosos são sempre de oposição --com uma vantagem fora da margem de erro.

Numa eventual disputa entre Dilma e Aécio, a petista seria derrotada porque sua marca é de 31% contra 47% do tucano. Na hipótese de embate com Campos, o socialista registra 48% contra 31% da atual ocupante do Palácio do Planalto.

Fogo amigo de Gabrielli

Étore Medeiros - Correio Braziliense

O ex-presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, apontou a presidente Dilma Rousseff como uma das responsáveis pelo processo de aquisição da Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, em 2006. À época, Dilma era presidente do Conselho de Administração da estatal. “Eu era o presidente da empresa. Não posso fugir da minha responsabilidade, do mesmo jeito que a presidente Dilma não pode fugir da responsabilidade dela, que era a presidente do conselho”, disse Gabrielli, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Gabrielli reconheceu que as cláusulas put option e marlin foram omitidas, mas disse que a presença dos dois itens no contrato “não era relevante para a decisão do conselho”. Tese que se choca com a defendida pela atual dirigente da empresa, Graça Foster, e pela presidente Dilma Rousseff.

“A primeira conclusão é a de que, diante dessas fraturas expostas de opiniões, a CPI se impõe mais do que nunca. Afinal, com quem está a razão? Quem sabia ou não sabia? Quem operou o negócio? Foi correto ou não?”, questiona o senador José Agripino (DEM-RN). O ex-presidente da Petrobras “é uma figura importante como depoente”, pois “sabe o que está dizendo”, acredita o parlamentar, que defende a criação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a estatal.

Ingenuidade
“Sinceramente, acho que tanto Gabrielli quanto a própria presidente (Dilma) entraram ingenuamente na pauta da oposição, o que favorece Aécio (Neves, pré-candidato do PSDB) e (Eduardo) Campos (pré-candidato do PSB)”, lamenta o vice-líder do PT no Senado, Aníbal Diniz (AC). Ele classifica a nota da Presidência da República como um “excesso de zelo” que acabou por trazer “à baila um assunto que não estava em pauta”.

Gabrielli classificou a atuação da oposição como uma “campanha irresponsável contra a Petrobras”, motivada por “interesses eleitoreiros combinados com alguns interesses muito mais complicados”. “Quem, hoje ataca a Petrobras também ataca o modelo de partilha (do petróleo) e o conceito de que a companhia deve ser a operadora do pré-sal”, completou.

Diniz ainda acrescenta ao discurso uma acusação contra a oposição, de que o interesse em “desmerecer” a petroleira serve “para que suas concorrentes ganhem fôlego e, depois, a Petrobras seja posta à venda com valor de mercado inferior”. José Agripino rebate. Ele classifica esse tipo de ataque como “uma velha tática do PT”: “Um diz que não sabia de nada, o outro se faz de desentendido... em vez de se aterem aos fatos, colocam a culpa em quem tem obrigação de fiscalizar e denunciar, que é a oposição”.

José Roberto de Toledo: A taxa mágica de cada um

- O Estado de S. Paulo

E se existisse uma taxa mágica, capaz de prever o futuro de uma eleição? De passagem pelo Brasil no começo de fevereiro, Clifford Young, diretor-gerente do Ipsos, um dos maiores e melhores institutos do mundo, calculou em 85% as chances de Dilma Rousseff se reeleger presidente. Faltou dizer que a previsão tinha prazo de validade - e ele estava expirando.

O que não lhe faltava era confiança, porém. Em abril de 2012, o Ipsos calculou os mesmos 85% de probabilidade de reeleição de Barack Obama nos EUA. Não foi coincidência, mas o resultado do mesmo modelo de projeção baseado em cálculos estatísticos. Como todo modelo, seu sucesso depende da base de comparação - no caso, centenas de eleições pelo mundo - e de algumas assunções.

A principal delas é que quem já está no poder e quer continuar lá tem 2,6 vezes mais chances de vitória do que um candidato apoiado por ele. Por essa assunção, a Dilma de 2014 é uma candidata com mais do que o dobro de chances de vitória do que a Dilma apadrinhada pelo então presidente Lula em 2010.

Quando Mr. Young fez sua previsão, parecia que o governo Dilma estava no limiar do paraíso: 56% de aprovação. Mas a notícia era velha, o quadro já estava mudando - e não era para melhor.

Segundo a tabela de redenção eleitoral do Ipsos, quando o governante tem de 40% a 45% de aprovação, sua chance de reeleição varia imensamente, de 54% a 81%. Pois Dilma está escorregando célere para o purgatório da opinião pública. Nas pesquisas do Ibope, a presidente caiu dos 56% de aprovação em dezembro para 53% em março e, chegou, na semana passada, a 47%.

Para Mr. Young, a presidente só precisa se preocupar se essa taxa cair abaixo de 40% - quando bate nessa marca, a chance de vitória do governante seria a mesma de ganhar no par ou ímpar. Outros cálculos, porém, mostram que o sinal vermelho no Palácio do Planalto já deveria ter acendido em março.

Por trás dos números e porcentagens está o simples desejo do eleitorado de continuar com o mesmo governante ou trocá-lo. Todas as tentativas de predição das urnas se resumem a aferir se a eleição é de continuidade ou de mudança. Se for de continuidade, dá governo; de mudança, oposição.

Contradições. No Brasil os sinais são contraditórios. Enquanto 2 a cada 3 eleitores dizem querer mudar tudo ou quase tudo no governo, a maior parte declara voto em Dilma. Até outubro, essas taxas vão necessariamente se aproximar. Mas qual vai puxar qual? A tentativa de resposta não tem a pompa de um modelo estatístico, mas se baseia na análise histórica das pesquisas do Ibope.

Melhor do que o simples "aprova ou desaprova o governo" é a pergunta que pede ao eleitor para qualificá-lo de "ótimo", "bom", "regular", "ruim" ou "péssimo". Nesse sistema há, além dos sinais positivo e negativo, uma medida de intensidade. Neste momento, por exemplo, a rejeição ao governo Dilma está quase tão intensa quanto ficou logo após os protestos de junho de 2013.

Pesquisa feita pela CEO do Ibope Inteligência, Marcia Cavallari, mostra que a conversão das taxas de "ótimo+bom" e de "regular" de um governante em intenção de voto é praticamente a mesma ao longo dos anos. Nas médias das eleições presidenciais, 84% de quem diz que o governo é ótimo ou bom e 36% de quem o chama de regular acabam declarando voto naquele presidente no 2.º turno.

Como há constantes, é possível criar cenários eleitorais de acordo com as variáveis. Traduzindo: sabendo-se o "ótimo+bom" e o "regular" de um governante dá para estimar qual sua votação no turno final. Se essas assunções estiverem corretas, Dilma precisa melhorar. A presidente necessitaria de ao menos 38% de "ótimo+bom" e de 34% de "regular" para se reeleger, raspando.

Em qual taxa mágica acreditar? Na tranquilizadora, que mostra Dilma ainda na zona de conforto eleitoral, ou na preocupante? Depende do viés de cada um.

Luiz Carlos Azedo: Medeia

Dilma tem ganas de poder. Pretende se reeleger e trabalha para isso. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sabe disso. Não pode correr o risco de encarnar o papel de Jasão e reeditar a mítica tragédia grega

- Correio Braziliense

A história de Medeia é um clássico da mitologia grega, consagrado na tragédia de Eurípedes, cuja primeira encenação ocorreu em 431 a.C., no começo da Guerra do Peloponeso. É um retrato dramático das forças antagônicas que governam a alma humana. Medeia, a personagem principal, luta com todas as forças e todas as armas contra adversidades da sua vida. Na obra de Eurípedes, Jasão e Medeia, como refugiados, vivem em Corinto com seus dois filhos. O rei Creonte convence Jasão a abandoná-la e se casar com sua filha; para tanto, expulsa Medeia e os dois filhos da cidade. Egeu, rei de Atenas, concede asilo a Medeia, mas a feiticeira decide se vingar de Jasão. Primeiro, através de um ardil, mata Creonte e a filha dele; a seguir, mata os próprios filhos e foge num carro alado, cedido pelo deus Hélio, seu avô.

O mito de Medeia apresenta o retrato psicológico de uma mulher simultaneamente tomada pelo amor e pelo ódio. Ela é a esposa abandonada, a estrangeira perseguida. Rebela-se contra o mundo que a rodeia e rejeita o conformismo tradicional. Tomada de fúria, assume a vingança como objetivo e exerce seu poder de persuasão, usa as palavras como armas terríveis. Uma das figuras femininas mais impressionantes da dramaturgia universal, Medeia narra o drama da mulher que deixa tudo — sua pátria, sua família e seus sonhos — para seguir ao lado de um grande amor. Foi capaz de qualquer atitude para atender os caprichos de Jasão, mas acaba abandonada.

Medeia de Eurípedes foi filmada pelo italiano Pier Paolo Pasolini e pelo dinamarquês Lars Von Trier. Inspira a feiticeira de Capitão Marvel, história em quadrinhos do genial roteirista Bill Parker e do desenhista CC Becker. Também é Joana, a personagem central do musical A gota d’água, de Chico Buarque e Paulo Pontes, escrita em 1975, a partir de um roteiro de Oduvaldo Viana Filho, que adaptara a peça para a televisão. Na obra, a tragédia se desenrola numa favela carioca.

Jasão
O mito de Medeia tem tudo a ver com os riscos do “Volta, Lula!”. A possibilidade de o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva substituir Dilma Rousseff como candidata do PT, a cada dia que passa, deixa de ser apenas um desejo de petistas e empresários, contrariados por terem sido excluídos da cozinha do Palácio do Planalto, para se tornar uma possibilidade real, diante da má avaliação do governo e da gradativa queda da presidente nas pesquisas. Cada vez que Lula intensifica sua agenda para fortalecer os petistas nos estados e mete a colher na campanha de reeleição de Dilma, mais forte se torna o desejo de que seja ele o candidato por parte de aliados e eleitores.

Dilma, porém, tem ganas de poder. Pretende mesmo se reeleger e trabalha intensamente para isso. Lula sabe disso. Não pode correr o risco de encarnar o papel de Jasão e reeditar a mítica tragédia grega, com Dilma no papel de Medeia, a mulher abandonada, disposta a se vingar da traição. É inimaginável uma disputa eleitoral com Lula candidato e Dilma contrariada na Presidência, com a caneta cheia de tinta e a alma tomada pela frustração e pelo ódio. As contradições que isso despertaria, entretanto, podem ser avaliadas a partir de episódios, como a compra da Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobras, que opõem Dilma e a presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, de um lado, e Lula e o ex-presidente da empresa Sérgio Gabrielli, de outro; ou o caso de Rosemary Névoas Noronha, ex-chefe de gabinete da Presidência em São Paulo e assessora de confiança de Lula, defenestrada por Dilma logo no começo de seu mandato.

Têm razão, pois, os que trabalham para manter a candidatura de Dilma colada à imagem de Lula, na esperança de que essa unidade mantenha o favoritismo da presidente da República nas eleições deste ano. Por causa do desempenho do governo, é cada vez maior a possibilidade de a disputa contra o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB-PE) ir para o segundo turno. É aí que o “Volta, Lula!” pode despertar as forças poderosas do Monte Olimpo, mas só há uma hipótese de remover Dilma da disputa pela reeleição com sucesso — se ela própria matar sua candidatura.

Planalto perde apoio na base

Sob a pressão das denúncias envolvendo a Petrobras e da queda nas pesquisas, Dilma vê diluir no Congresso o suporte dos aliados

Denise Rothenburg - Correio Braziliense

A oposição chega do feriado prolongado amanhã disposta a aumentar a pressão pela instalação da CPI da Petrobras. E o cenário para buscar a investigação está como o de um dia de sol para uma piscina: queda na avaliação da presidente Dilma Rousseff, população clamando por alguma mudança — o que, por si só, traz embutida uma tendência de eleição em dois turnos — e, acima de tudo isso, as suspeitas cada vez mais volumosas de negócios escusos do governo na área do petróleo. Diante desse quadro desfavorável, a própria base aliada vai se afastando. Em conversas reservadas no feriadão, seus integrantes fizeram chegar ao Planalto que a CPI virá. Só não se sabe se ampliada ou focada apenas na Petrobras. Essa decisão estará a cargo da ministra do Supremo Tribunal Federal, Rosa Weber.

Os governistas concluíram por esses dias que a carga sobre a estatal não vai parar nem o discurso de que a oposição pretende destruir a empresa surtiu efeito para conter a crise. Tampouco a audiência da presidente da empresa, Graça Foster, estancou a pressão pela investigação. Graça, ao dizer que a compra da Refinaria de Pasadena foi “um mau negócio”, fez um contraponto às afirmações do ex-diretor Nestor Cerveró, o defensor da operação. Ou seja, as dúvidas continuam. Para completar o desfile de ambos em comissões do Congresso, as notícias sobre mais um deputado enroscado na rede da Operação Lava-Jato — Luiz Argollo (PP), que teria recebido o doleiro Alberto Yousseff em sua casa em Brasília — deixam os congressistas em um cenário cada vez mais estreito para evitar a CPI em ano eleitoral, quando todos estarão em teste nas urnas.

Até aqui, a estratégia do governo foi no sentido de ganhar tempo, de forma a matar a CPI atropelada pelo calendário do futebol e das eleições. Até aqui, deu certo. O problema é que o assunto continua vivo, o pedido de CPI caminhou no plenário do Congresso e ainda faltam quase dois meses para a Copa da Fifa e a largada das convenções oficiais. Ou seja, há espaço para investigar e passar ao eleitor a ideia de que os congressistas, de um modo geral, estão preocupados em estancar a corrupção. Ainda que atinja um ou outro político, em geral, a maioria se considera preservada.

A avaliação dos partidos é a de que uma CPI, a esta altura do campeonato, poderia atingir o PT, o PP do falecido José Janene, a parcela do PMDB do Senado que tem indicações no setor petróleo (leia-se, o grupo do presidente da Casa, Renan Calheiros) e o governo de um modo geral. Ou seja, não atinge nem o PMDB da Câmara nem os demais partidos, hoje meio descompromissados com o Palácio do Planalto. Em conversas reservadas, os políticos têm dito que o que segura a base da presidente Dilma é a perspectiva da reeleição. No momento em que um segundo mandato para ela deixa de ser uma certeza, a maioria dos parlamentares, que não se sente partícipe do governo, vai cuidar da própria eleição, sem a menor preocupação com o que possa acontecer com Dilma ou com um ou outro parlamentar nesse processo de CPI.

Ao trabalho
Aqueles que já chegaram do feriado prolongado comentam que a ordem agora é tirar o país — e o Congresso — da sensação de marasmo. “Essa sensação é geral, dentro e fora do Parlamento. E não tem mais essa de não querer ouvir nada contra a ‘mulher do Lula’. Em 2010, quem chegasse falando mal de Dilma era rechaçado. Hoje, as pessoas param para ouvir” conta o deputado Lúcio Vieira Lima (PMDB-BA), dando um sinal de que a campanha da presidente não será fácil.

Os parlamentares não querem compartilhar problemas de Dilma. Por isso, paralelamente à CPI, as lideranças pretendem pôr em votação projetos polêmicos, como os do aumento de salário dos agentes comunitários de saúde e do que define 30 horas de trabalho ao pessoal de enfermagem, propostas que o governo não deseja ver aprovadas agora. Esta semana, entretanto, o Palácio deve conseguir evitar a inclusão desses temas em plenário, até porque a Casa terá que decidir como será a eleição do novo vice-presidente, que assumirá o lugar de André Vargas (PT-PR), que renunciou ao cargo, mas não ao mandato, por causa das relações delicadas que mantinha com o doleiro Alberto Yousseff.

Marcus Pestana: A história brasileira tem as digitais de Minas

- O Tempo (MG)

As grandes transformações e a definição dos rumos da história do Brasil têm as digitais de Minas. O 21 de Abril aguça essa consciência. Foi aqui, com Tiradentes e os inconfidentes, que se moldou o sentimento libertário que sonhava com a soberania e a independência nacional. Cultivar a memória dos inconfidentes é reavivar o patriotismo e a cidadania brasileira.

De Minas partiu o grito pela liberdade contra o arbítrio do Estado Novo com o Manifesto dos Mineiros, em 1942.

Foi JK, com sua liderança e seu arrojado espírito empreendedor, que lançou as bases do Brasil
moderno, da industrialização e da interiorização do desenvolvimento. Brasília, a meta-síntese, é o símbolo da integração nacional.

Foi a habilidade política e a visão nacional de Tancredo Neves que nos permitiram superar o regime autoritário e vivenciar o mais longo e profundo período democrático da nossa história.

Foi também um mineiro, Itamar Franco, que, diante de grave crise política e econômica, marcada pelo afastamento de um presidente da República, assegurou a estabilidade institucional e o fim da inflação crônica que vitimava o Brasil.

A história do Brasil é, portanto, marcada pelos valores e pelas ações de Minas e dos mineiros.

Minas é de certa forma guardiã dos valores republicanos e democráticos. Minas, em sua múltipla face, dialoga fácil com a rica diversidade brasileira. Somos um pouco Nordeste, somos um pouco São Paulo. Temos o ambiente do agronegócio do cerrado e as fronteiras com o Rio e o Espírito Santo que nos aproximam. Talvez por isso, a consciência de nacionalidade seja maior aqui. Compreendemos melhor o Brasil.

No Brasil do século XXI, Minas está sendo chamada, mais uma vez, a erguer sua voz em defesa das profundas mudanças necessárias para assegurar o desenvolvimento sustentável acelerado e a melhoria substancial do padrão de vida da nossa gente. Não é tarefa fácil, não é uma agenda trivial.

Decifrar os gargalos que temos na matriz fiscal e tributária, na organização do mercado de trabalho e de suas relações, nas tendências demográficas e em seus impactos no sistema previdenciário, no processo de inovação e desenvolvimento científico e tecnológico, na revolução educacional ainda por fazer, na qualificação das políticas públicas de saúde e infraestrutura, no enfrentamento do desafiador mundo globalizado e dinâmico.

O Brasil está perdendo oportunidades. Ficamos prisioneiros de armadilhas ideológicas e alinhamentos equivocados.

Minas foi o berço da liberdade, da soberania nacional e da industrialização. Minas é terra de ousadia e visão de futuro. Minas é terra de sonhos, mas também de luta. Não podemos nos contentar com um cenário de crescimento baixo e inflação alta, numa economia que retoma suas raízes primário-exportadora e patina na baixa produtividade e na curta capacidade de inovação.

É 21 de Abril, dia de reavivar o histórico compromisso de Minas com o Brasil. Em Ouro Preto, ecoará a voz de Minas mais uma vez, instando o país a mudar de rumo!

Marcus Pestana é deputado Federal e presidente do PSDB de Minas Gerais

Aécio será orador em Ouro Preto

- Correio Braziliense

Orador oficial da 63ª solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência, hoje, em Ouro Preto, o senador Aécio Neves (PSDB), pré-candidato à Presidência da República, deve fazer um discurso forte, com críticas ao governo federal e propostas para melhorar o país. Na solenidade, serão agraciadas 240 personalidades e entidades que contribuem ou contribuíram para o desenvolvimento de Minas Gerais e do país.

“Estarei em Ouro Preto tendo o privilégio de ser o orador oficial do 21 de abril pela primeira vez. Como governador, tive a oportunidade de convidar personalidades de todo o Brasil para estarem lá. É um momento também de eu dar uma palavra a partir de Minas, inspirado em Minas, para o Brasil. Eu pretendo fazer um pronunciamento que aponte alguns caminhos importantes para o resgate de alguns valores que estão em falta no Brasil”, disse Aécio. Este ano, a solenidade coincide com o aniversário dos 30 anos do movimento Diretas Já e os 25 anos da Constituição do Estado.

A Medalha da Inconfidência é entregue anualmente e tem quatro designações: Grande Colar, Grande Medalha, Medalha de Honra e Medalha da Inconfidência. Ela foi criada em 1952 pelo governador Juscelino Kubitschek para homenagear pessoas que prestaram serviços relevantes para a promoção e o desenvolvimento do estado. Antes da entrega da honraria, a partir das 18h45 será lançado o livro Liberdade, essência de Minas.

A abertura oficial tem início às 18h40, com a chegada do fogo simbólico. Depois, acontece a chegada da guarda de honra, com salva de 21 tiros e, em seguida, será a apresentação de Aécio.

Nanicos capazes de atrapalhar Dilma

Pouco representantivos nas pesquisas de intenção de votos, candidatos sem expressão nacional são uma das esperanças da oposição para levar a eleição ao segundo turno. Somados, eles podem chegar a 5%

João Valadares – Correio Braziliense

Individualmente, eles não têm nenhuma expressão eleitoral. Nas pesquisas de intenção de voto são geralmente representados por um traço ou baixíssimos índices percentuais. Juntos, podem ser responsáveis por levar a eleição presidencial ao segundo turno. Nas eleições deste ano, as chamadas candidaturas nanicas já são representadas por pelo menos oito nomes. É um dos maiores números desde o pleito de 1989, a primeira eleição direta para presidente após a redemocratização, quando 15 nanicos entre os 22 candidatos tentaram chegar ao Palácio do Planalto, a exemplo do folclórico Enéas Carneiro, falecido em 2007.

Naquele ano, a soma dos percentuais de todos eles chegou a 5,5%. De acordo com as pesquisas de intenção de voto divulgadas até o momento, os nanicos de 2014 estão no mesmo patamar. Os índices somados variam entre 4% e 5%. Os principais adversários da presidente Dilma Rousseff, o mineiro Aécio Neves (PSDB) e o ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB), apostam no crescimento do pré-candidato do PSol, o senador Randolfe Rodrigues (AP), para chegarem ao segundo turno.

O senador mais jovem da atual legislatura, o pernambucano que mora no Amapá desde os oito anos, faz uma oposição dura ao governo da presidente Dilma Rousseff. Conhecido por seus discursos duros na tribuna do Senado, tabela com políticos ditos conservadores para atingir o seu principal alvo: o Partido dos Trabalhadores. Com atuação destacada na chamada CPI do Cachoeira, Randolfe foi um dos principais defensores da ampliação da investigação dos negócios da empreiteira Delta por todas as regiões do Brasil, o que deixaria os aliados do governo da presidente Dilma Rousseff em situação desconfortável. Fracassou.

O principal objetivo do PSol nesta eleição é tentar chegar perto do desempenho alcançado em 2006 pela candidata Heloísa Helena. Com uma coligação apoiada pelo PSTU e PCB, ela ficou na terceira colocação com 6,85 % dos votos. De acordo com a última pesquisa do Ibope, Randolfe aparece com apenas 1%. Sua campanha será voltada para os jovens e vai tentar surfar na onda das manifestações que sacudiram os país em junho do ano passado. Nas passeatas, era comum observar a presença de bandeiras do partido.

Quem lidera o grupo dos nanicos até agora é o pastor Everaldo, do Partido Social Cristão (PSC), que fazia parte da base de apoio do governo Dilma. Representante da Igreja Assembleia de Deus, chegou a aparecer em uma das pesquisas com 3% das intenções de voto logo que seu nome foi lançado. No levantamento mais recente, divulgado semana passada pelo Ibope, ficou com 2%. O partido aproveitou, no ano passado, os holofotes gerados a partir da polêmica em volta da escolha do deputado Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara para lançar a pré-candidatura. O religioso alimenta um blog onde defende a família brasileira e o que chama de valores cristãos. Luta pela redução da maioridade penal, desestatização de empresas públicas e voto facultativo.

As eleições deste ano também vão apresentar os folclóricos nanicos de sempre: Zé Maria (PSTU), Levy Fidélix (PRTB) e José Maria Eymael (PSDC). Todos ainda não conseguiram sair do traço nas pesquisas. Eymael, presidente nacional do PSDC, é mais conhecido pelo jingle do “democrata cristão” do que pela sua plataforma eleitoral. Candidato em 1998, 2006 e 2010, promete fazer diferente este ano e ser “a verdadeira alternativa de mudança para o Brasil”.

Zé Maria é o metalúrgico e ex-petista que acaba seus discursos com o chavão “contra burguês, vote 16”. Também é candidato pela quarta vez. Defende um governo com princípios radicais de esquerda. Já Levy Fidélix é o Zé Maria da direita. O bigodudo, que tentou chegar ao Palácio do Planalto nas eleições de 2010, diz que é único representante da direita brasileira. Repete que promete “endireitar” o país se vencer as eleições. O candidato esbanja otimismo. “Fazemos por merecer muito mais do que as pesquisas têm mostrado. Temos seis meses pela frente, tenho chances reais de ser eleito”, acredita.

“Militância”
A única mulher que vai enfrentar a presidente Dilma nas urnas é a ex-diretora da Agência Nacional de Aviação (Anac) e ex-procuradora do estado de São Paulo Denise Abreu. Ela foi escolhida para disputar a presidência pelo PEN, partido criado em 2012. Aos 52 anos, diz em entrevista no site da legenda porque resolveu se candidatar. “Ninguém é candidato de si mesmo. Minha pré-candidatura surgiu a partir de reuniões com o PEN em que a militância avaliando os nomes entendeu que eu estou preparada e tenho o perfil e a estatura apropriadas por causa do conhecimento jurídico para fazer o que é certo”.

O Partido Verde, que teve a ex-ministra Marina Silva como candidata nas eleições de 2010 com surpreendentes 20 milhões de votos, recorreu neste ano a um ilustre desconhecido. Trata-se do médico sanitarista Eduardo Jorge. Durante lançamento da pré-candidatura, ele divulgou o documento “Viver bem. Viver verde” com 10 pontos considerados primordiais para o desenvolvimento sustentável do Brasil. Enquanto a campanha não começa, Eduardo Jorge continua dando plantão na Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. Vai todos os dias de bicicleta ao trabalho. Quando está chovendo, pega um ônibus.

Mauro Iasi é o nanico do PCB. Nos seus discursos, repete que há uma falsa polarização no debate eleitoral brasileiro. Para ele, os políticos e partidos protagonistas no país são burgueses e vivem de falsas divergências.

5,5% - Percentual de votos conquistados por candidatos nanicos em 2010

Os oito

Randolfe Rodrigues (PSol)
O ex-petista de 42 anos é o senador mais jovem da atual legislatura. Em 2010, foi o mais votado do Amapá com 203 mil votos. No Congresso, faz oposição à gestão da presidente Dilma Rousseff. Em 2012, teve atuação de destaque na chamada CPI do Cachoeira. No início do ano, travou uma disputa interna acirrada com a ex-deputada Luciana Genro (RS) para encabeçar a chapa do PSOL na eleição presidencial deste ano.

Pastor Everaldo (PSC)
Um dos mais populares pastores da Assembleia de Deus, teve o nome escolhido ainda no ano passado logo após a polêmica escolha do deputado Marco Feliciano para presidir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Entre os nanicos, é o que aparece com melhor índice nas pesquisas de intenção de voto. Chegou a ter 3%. Conversador, o pastor de 56 anos apresenta-se como o defensor da família e dos valores cristãos.

Denise Abreu (PEN)
Ex-diretora da Agência Nacional de Aviação (Anac) e ex-procuradora do estado de São Paulo, a escolhida para disputar a presidência da República pela sigla criada em 2012 não era consenso no partido, mas conseguiu se viabilizar. Denise Abreu é uma dos três réus no processo que apura as responsabilidades do acidente com o avião da TAM em 2007.

José Maria Eymael (PSDC)
Velho conhecido das disputas presidenciais, o democrata cristão entra na disputa novamente. Candidato em 1998, 2006 e 2010 é conhecido por ter um dos jingles mais “chicletes” das campanhas eleitorais. Em 2010, Eymael obteve 89.350 votos.

Zé Maria (PSTU)
O metalúrgico, ex-petista, vai encabeçar a chapa presidencial da sigla pela quarta vez. Com o slogan “contra burguês, vote 16”, ele esperava contar com o apoio do Psol e do PCB. Não foi possível. No lançamento da candidatura, Zé Maria ressaltou que representa uma oposição à esquerda do governo petista.

Mauro Iasi (PCB)
A pré-candidatura foi lançada no ano passado. Defende posições alinhadas com o que chama de princípios da verdadeira esquerda brasileira. Iasi afirma que o debate eleitoral no Brasil é “um teatro de mau gosto em que predominam falsas divergências entre políticos e partidos burgueses”.

Levy Fidélix (PRTB)
Conhecido pelo vasto bigode, costuma repetir que é o único candidato verdadeiramente de direita das eleições. Em 2010, também tentou chegar ao Palácio do Planalto. Em seu currículo estão candidaturas ao governo de São Paulo e à prefeitura da capital paulista.

Eduardo Jorge (PV)
Enquanto a campanha presidencial não começa, o médico sanitarista continua trabalhando na Secretaria de Saúde de São Paulo, onde cumpre expediente das 8h às 17h. Vai ao trabalho de bicicleta ou de ônibus. Na eleição presidencial de 2010, a candidata do PV, Marina Silva, teve 20 milhões de votos. Eduardo Jorge sabe que este ano será bem diferente.

Murillo de Aragão: Eleições diferentes: qualquer um dos candidatos pode ganhar

- O Tempo (MG)

No início do ano passado, quando o favoritismo da presidente Dilma Rousseff (PT) nas eleições de 2014 era incontestável, comentei vários problemas potenciais que poderiam ameaçar esse posicionamento. Entre eles, a perda da qualidade do diálogo social, os desacertos na coordenação política do governo, a pouca vocação da presidente para o diálogo.

Em fevereiro de 2013, escrevi o seguinte neste jornal: “Por incrível que pareça, o imenso favoritismo de Dilma Rousseff para a campanha presidencial de 2014 se encontra em xeque”. De lá para cá, muitas das questões abordadas por mim como potencialmente problemáticas se intensificaram e se tornaram problemas reais. Outras, como a possibilidade de apagão de energia, se colocaram no cenário.

Mauro Paulino, sociólogo e diretor do Datafolha, em entrevista às “Páginas Amarelas” da revista “Veja” (edição 2.369/abril 2014), afirma que a eleição de outubro será a mais imprevisível dos últimos tempos. Ele lista a alta rejeição à classe política, o desejo de mudança dos brasileiros e a realização da Copa do Mundo como fatores que favorecem a imprevisibilidade. Diz ainda que o maior adversário de Dilma é a economia.

Pois bem, a imprevisibilidade em eleições é fator certo. Aliás, de acordo com um ditado árabe, aquele que prevê o futuro mente mesmo quando acerta. Portanto, o quadro está em aberto. Tudo pode acontecer; até mesmo as tendências de favoritismo de Dilma se confirmarem. Porém, Paulino levanta variáveis importantes que, sem dúvida, aumentam o teor de imprevisibilidade da carreira eleitoral deste ano.

Vale destacar que os aspectos apontados por ele são relevantes, mas não abarcam toda a complexidade que se apresenta para outubro. Além deles, do fato inconteste de que a economia é um grande desafio e dos fatores já mencionados por mim, como a falta de coordenação política no governo e a perda de qualidade no diálogo social, que afetam sobremaneira o desempenho da candidata governista, existem outros aspectos que agregam incerteza.

Um aspecto é o papel crescente da internet e das redes sociais nas eleições. Nas eleições presidenciais de 2010, a internet deu as caras, mas não favoreceu ninguém. Pedro Dória, em artigo no “Estadão” (31.10.2010), afirmou que nenhum dos candidatos levou vantagem no uso das redes sociais naquela época. Neste ano, porém, acredito que a internet poderá fazer a diferença.

O uso da internet e das redes sociais será, gradativamente, mais determinante nas campanhas eleitorais a partir de alguns vetores. O primeiro deles é a expansão dos smartphones. O crescimento do uso de aparelhos com recursos que incluem o acesso à internet é espantoso no Brasil. Ainda que estejamos abaixo da média mundial, que é de 48% dos telefones celulares em uso, já ultrapassamos 20% do universo de celulares no país.

O segundo fator que justifica tal certeza é que nos protestos de junho de 2013 tivemos uso intensivo do Facebook e do Twitter na mobilização dos manifestantes, fato comprovado em pesquisas realizadas no Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo. Ficou claro que movimentos políticos já sabem usar as redes sociais a seu favor.

Assim, considerando tanto a questão do financiamento de campanhas quanto a maior importância das redes sociais, além dos temas apontados por Mauro Paulino, vemos que as próximas eleições caminham para um cenário de grande indefinição.

Murillo de Aragão é cientista político