segunda-feira, 23 de março de 2015

Lava Jato e ajuste fiscal freiam obras e causam milhares de demissões

• Construção civil fechou 241.580 postos de trabalhos desde setembro do ano passado, quando as investigações da PF se intensificaram, segundo o Caged; governo atrasa pagamentos para as construtoras, que estão muito descapitalizadas

Renée Pereira - O Estado de S. Paulo

A combinação entre a Operação Lava Jato e o pacote de ajuste fiscal do Ministério da Fazenda, além de uma certa dose de burocracia e brigas contratuais, resultou num amontoado de obras paradas (ou em ritmo lento) pelo Brasil afora.

Uma sondagem feita pelo Estado,com sindicatos do setor de construção pesada, levantou quase 30 grandes projetos em ritmo extremamente lento e, muitos deles, com demissões em massa.
Só nos primeiros dois meses deste ano foram fechadas 35.552 vagas no setor de construção civil, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego. Se retroagir a setembro de 2014, quando as investigações da Operação Lava Jato se intensificaram, esse número sobe para 241.580. O cenário é completamente o oposto do início de 2014, quando o País vivia o chamado "apagão" da mão de obra.

Virada. Naquela época, com a carteira cheia de projetos, as empresas se viravam como podiam para conseguir preencher o quadro de funcionários - no primeiro bimestre de 2014, o setor abriu 63.113 vagas. Mas a maré boa do setor virou com o fraco desempenho da economia, o fim das obras da Copa e o envolvimento de dezenas de empreiteiras na Operação Lava Jato.

O Produto Interno Bruto (PIB) da construção civil, considerado um dos motores de crescimento do País, despencou 5,6% em 2014 e pode cair mais 5% neste ano, segundo cálculos da GO Associados a pedido da Associação Paulista dos Empresários de Obras Públicas (Apeop). A maior preocupação está na continuidade dos atrasos de pagamentos do governo federal aos construtores.

A prática começou no ano passado como instrumento para o governo fechar suas contas e foi mantida no início deste ano com a demora na votação da Lei Orçamentária e por causa do ajuste fiscal proposto pela Fazenda. Em situação normal, as empresas até conseguiriam suportar atrasos com empréstimos bancários, afirma a Apeop.

Cofres fechados. Mas, com o escândalo de corrupção nos contratos da Petrobrás, os bancos se retraíram e fecharam os cofres para novos créditos às empreiteiras. Sem dinheiro, as empresas optaram pelas demissões e mantiveram só alguns poucos trabalhadores nos canteiros de obras para não terem os contratos rompidos.

Nessa situação estão grandes projetos estruturantes - ou seja, que têm capacidade para desenvolver regiões e empregar grande quantidade de pessoas. A lista inclui trechos da transposição do Rio São Francisco, Ferrovia da Integração Oeste-Leste (Fiol), Cinturão das Águas do Ceará e Rodoanel Norte de São Paulo, além dos grande projetos da Petrobrás que estão em ritmo lento. "O Brasil está parado. As obras não avançam", reclama o presidente do Instituto de Engenharia, Camil Eid.

Pesadelo. O que era para ser oportunidade de desenvolvimento - já que o governo apostava em grandes obras para turbinar o crescimento - virou pesadelo. "Nas cidades onde estão grandes projetos, os pequenos empresários que investiram em restaurantes, hotéis e empresas de transporte estão endividados e sem dinheiro para pagar os bancos", afirma Irailson Warneaux, do Sindicato dos Trabalhadores nas indústrias da Construção da Bahia (Sintepav-BA).

Para os trabalhadores, a situação não é diferente. Muitos deles estão desempregados e sem receber as indenizações a que têm direito. O representante do Sintepav-CE, Evandro Pinheiro, conta que as obras do Cinturão das Águas estão praticamente paradas. De dezembro pra cá, diz o sindicalista, cerca de 4,5 mil trabalhadores foram demitidos no projeto, que pretende atender 93% do Estado por meio de canais e túneis.

"O problema é que os consórcios subcontrataram outras empresas, que foram embora e não pagaram 13.º salário nem FGTS dos funcionários. Muitos continuam sem receber as indenizações e estão em situação delicada." A paralisia do projeto deve-se à redução do ritmo de repasses do governo federal ao Estado, diz a Secretaria de Recursos Hídricos do Ceará.

O Ministério da Integração Nacional afirmou, por intermédio de uma nota, que fez repasse de recursos neste mês. O órgão também é responsável pelas obras da transposição do São Francisco, mas garante que o fluxo de pagamento às empreiteiras do projeto está normal. Apesar disso, algumas empresas estão demitindo, afirma Pinheiro, do Sintepav-CE.

Segundo ele, a Serveng mantém apenas 600 do 1,8 mil funcionários que tinha no mês passado e a Mendes Júnior dispensou 2,8 mil trabalhadores. Mesmo negando problemas, o ministério afirmou que instaurou processo administrativo para apurar possíveis faltas cometidas pela Mendes Júnior na execução do contrato.

Em ritmo lento. A construtora também está tendo problema com as obras do Rodoanel de São Paulo. Segundo o diretor-presidente da Dersa - Desenvolvimento Rodoviário S.A,, Laurence Casagrande Lourenço, as obras do lote 1 estão num ritmo lento.

"A empresa está sendo punida e, se as respostas não forem positivas, poderemos romper o contrato. O fato de a empresa ter problema de capitalização não é um problema do governo do Estado. Hoje sou um cliente insatisfeito", afirmou o diretor- presidente da Dersa.

A Galvão Engenharia também tem tido dificuldade para tocar importantes obras, como a duplicação da BR-153 (TO/GO); Fiol (BA); e Anel Viário de Fortaleza (CE).

Fornecedores do setor de óleo e gás sofrem com calote de estaleiros e demitem 6 mil

• Cadeia produtiva

Ramona Ordoñez, Bruno Rosa – O Globo

Fora de prumo
Na esteira da crise naval, a indústria de máquinas e equipamentos também sente os efeitos da paralisação da Petrobras e dos problemas financeiros dos estaleiros por causa dos casos de corrupção da Operação Lava-Jato. Cerca de seis mil empregos de fornecedoras para o setor de óleo e gás foram cortados desde o início do ano passado, revela a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

Sem encomendas e sofrendo com a falta de pagamento de estaleiros Brasil afora, as empresas fornecedoras já operam com 50% da capacidade. O setor de óleo e gás soma 15% do faturamento de R$ 80 bilhões anuais da indústria de máquinas e equipamentos. Segundo o presidente da Abimaq, José Velloso, cerca de 900 empresas fabricantes de materiais trabalham para a Petrobras direta ou indiretamente.

- O setor não sabe o que fazer. Estamos no escuro sem qualquer informação. Não existem mais previsões, ninguém planeja mais nada. A situação é muito grave - lamentou Velloso.

O coordenador do MBA Gestão de Negócios em Indústria Naval Offshore da Fundação Getulio Vargas, Alberto Machado Neto, acredita que, com o retrocesso do setor naval, a indústria de materiais e equipamentos continuará sendo afetada:

- Na medida em que a crise se aprofunda, aumentarão as demissões atingindo também o pessoal mais qualificado. O problema está deixando de ser conjuntural para ser estrutural. Não estou vendo nenhum movimento no sentido de atuar na recuperação da indústria naval. É preciso buscar iniciativas sólidas para colocar o braço na alavanca e começar a recuperação.

Henrique Gomes, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Pernambuco, lembra que no estado empresas que fornecem materiais para os estaleiros já enfrentam momentos de crise:

- Com a redução na atividade dos estaleiros de Pernambuco, alguns fabricantes já estão sem receber e têm de demitir. A crise se alastra por toda a cadeia.

Preocupação com polos
Especialistas se preocupam com a paralisação da construção dos polos navais no Brasil - que reúnem justamente os fornecedores da cadeia. Além da suspensão do polo de navipeças no Rio, outros empreendimentos foram interrompidos. É o caso do Polo 2 de julho, no interior da Bahia, em Maragojipe. O empreendimento previa investimentos entre R$ 1,5 bilhão e R$ 2 bilhões e a geração de oito mil a 12 mil empregos. A ideia do polo era atrair pequenas e médias empresas do setor.

No Sul, a crise na Petrobras e nos estaleiros também jogou por terra o crescimento do polo de Rio Grande - que surgiu em 2005. Executivos lembram que muitas empresas fornecedoras que tinham comprado áreas para se instalarem na região mas, com a redução na atividade dos principais estaleiros da cidade, acabaram desistindo. Em 2010, surgiu a ideia de criar um segundo polo no Rio Grande do Sul: em Chaqueadas. Porém, o projeto acabou sofrendo os impactos da crise que abate o setor. Uma das principais empresas do local, a Iesa Óleo e Gás - em recuperação judicial e proibida de ser contratada pela Petrobras por uma suposta formação de cartel - disse que fechou sua unidade e demitiu 1.023 trabalhadores.

- É uma falta de consideração da Petrobras que nos mobilizou, estimulou investimentos para atender a suas demandas, e agora sequer nos recebe. A Petrobras está pagando em dia seus compromissos em andamento, contudo, o grande problema é que não aceita pagar mais qualquer aditivo aos contratos - lamentou Velloso.

Procurada, a Petrobras disse que "está em dia com suas obrigações contratuais perante às contratadas e que todos os pagamentos de seus compromissos reconhecidos estão sendo realizados de acordo com a legislação vigente e com o estabelecido nos contratos".

Dilma vive crise aguda, avaliam especialistas

Jose Roberto Castro – O Estado de S. Paulo

Mais do que o baixo número de eleitores que aprovam o governo Dilma Rousseff - dados divulgados esta semana pelo Datafolha apontam que a avaliação ruim/péssima do governo subiu de 44% para 62% de fevereiro para cá -, o dado mais grave do levantamento, segundo a socióloga Fátima Pacheco Jordão, é a rapidez com que o quadro se deteriorou e a homogeneidade da insatisfação, que chega regiões e setores da sociedade mais próximos à presidente.

A especialista em pesquisas de opinião ressalta que a "aguda crise de opinião pública" não necessariamente reflete a situação do governo diante das crises que enfrenta na política e na economia, mas a avaliação que a população faz deste cenário. Segundo ela, a rapidez da mudança na opinião do brasileiro pode ser explicada, entre outros fatores, pela piora da situação econômica.

"Nem sempre crises políticas e econômicas são sentidas pela população, mas neste momento está afetando o bolso, de maneira diferente, de todas as classes", avalia.

A saída possível para o governo em uma situação delicada como a atual exige "respostas fortes". A professora concorda que elas ainda não foram apresentadas desde que os opositores do governo foram às ruas no último domingo, mas vê as medidas adotadas até aqui como um começo.
Fátima Pacheco Jordão avalia como boa para o governo a "abertura inédita" da presidente ao público e à imprensa, com entrevistas coletivas e falas em que admite erros. O plano anticorrupção, criticado por parlamentares, ainda não pode ser rejeitado na opinião da professora. "Tiraram de gaveta planos anticorrupção que os analistas dizem que não são suficientes. Mas é cedo para saber se não é suficiente", afirma.

Já de acordo com o professor da Fundação Getúlio Vargas Marco Antônio Carvalho Teixeira, a pesquisa Datafolha mostra que a situação do Congresso Nacional também é difícil. Com 9% de aprovação, o Congresso, apesar de não ter sido alvo direto das manifestações de domingo, terá de dar respostas à população e não poderá se dar ao luxo de travar projetos do Poder Executivo sob pena de "morrer abraçado" com o governo, avalia o cientista político.

"As manifestações evidenciam o Executivo, mas o Legislativo não está deixado de lado. O governo sai na frente com pacote anticorrupção e o Congresso não vai poder travar ações do Planalto. Tenho a impressão de que retórica não vai funcionar", avalia Teixeira.

Na visão do especialista, o governo terá de ser competente na comunicação para mostrar à população que está fazendo sua parte e que determinada medida não é aprovada por causa do Congresso. Caso consiga, coloca mais pressão no Legislativo para aprovar as respostas à população.

A análise do cientista político é de que as medidas anticorrupção anunciadas pelo governo Dilma Rousseff são uma resposta tardia, mas ainda uma resposta. O Congresso, que tem os presidentes de suas duas Casas citados na lista da Lava Jato, pode ser, na visão de Teixeira, o próximo alvo da insatisfação popular. "Não acredito que o congresso vá travar a pauta. Senão as manifestações de rua vão começar a cobrar o Congresso", avalia.

Dilma tira Mercadante da negociação com o Congresso após sofrer derrotas

• Ministro da Casa Civil, apontado como maior responsável por estratégia de confronto com o PMDB, deixa, na prática, de participar de articulação política, mesmo mantido no cargo; ministros da Fazenda e da Justiça ganham protagonismo

Erich Decat - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - Aconselhada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidente Dilma Rousseff colocou em prática o afastamento do ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, da articulação política do governo. A movimentação de Lula iniciou-se no começo de fevereiro, logo após o Palácio do Planalto sofrer derrotas no Congresso que foram atribuídas por petistas e aliados à atuação do ministro petista.

As principais críticas a Mercadante referem-se a decisões vistas como de confronto com o PMDB. O governo estimulou o lançamento da candidatura do deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) contra Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que acabou eleito presidente da Câmara, em fevereiro.

Atribui-se também ao chefe da Casa Civil a ideia de criação de um novo núcleo governista, com a participação do ministro das Cidades, Gilberto Kassab (PSD), e do agora ex-ministro da Educação Cid Gomes (PROS). O que mais irritou pemedebistas foi a propalada ideia de criação de um novo partido, por Kassab, entendido como uma tentativa de reduzir poder do principal aliado do governo.
Até Lula pedir o afastamento de Mercadante das funções de coordenador político, o ministro agia ativamente para tentar aprovar no Congresso as propostas encaminhadas pelo Executivo. Chegou a se reunir com as bancadas do PMDB e do PSD para pedir apoio ao pacote fiscal formulado pela equipe econômica.

Mas essa função passou a ser exercida pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy - especialmente depois que o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), devolveu ao Executivo uma das medidas provisórias do ajuste fiscal, que reduzia a desoneração da folha de pagamento das empresas.

Desde o início do mês, Levy já esteve no Congresso reunido com Renan Calheiros e Eduardo Cunha para discutir as medidas do pacote, assim como com a bancada do PT na Câmara, com a qual ele se reuniu na última terça-feira. A ausência de Mercadante no encontro com seu partido não passou despercebida aos participantes da reunião.

Protestos. Após as manifestações do dia 15 de março contra o governo Dilma, que levaram milhares de pessoas às ruas, outros nomes da articulação política vieram a público responder pelo Palácio do Planalto. Coube aos ministros da Justiça, José Eduardo Cardozo, e da Secretaria-Geral da Presidência, Miguel Rossetto, falar ainda no domingo sobre os protestos. O resultado da entrevista foi considerado "um desastre" por petistas e aliados, principalmente pelo tom de confronto adotado por Rossetto.

No dia seguinte, houve a troca dos porta-vozes do governo. Dessa vez, Cardozo fez dobradinha com o ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga (PMDB). Ambos participaram de coletiva de imprensa no Palácio do Planalto para, numa nova tentativa, apresentar uma resposta do governo aos protestos. Mercadante, mais uma vez, esteve ausente.

O chefe da Casa Civil até participou do lançamento, no Palácio do Planalto, do pacote anticorrupção, na quarta-feira passada. Mas foi o ministro da Justiça quem voltou a ser o protagonista na apresentação feita aos líderes do Congresso. Foi Cardozo também quem comentou a queda na aprovação de Dilma, que chegou a 13%, e a reprovação, a 62%, segundo o Datafolha.

O chefe da Casa Civil teve ainda participação discreta na apresentação da medida provisória da renegociação das dívidas dos clubes, lançada por Dilma e pelo ministro do Esporte, George Hilton, na última quinta-feira.

Confiança. Embora o afastamento de Mercadante da coordenação política já tenha sido posto em prática, integrantes da cúpula do PT e de partidos aliados apostam que dificilmente Dilma irá tirá-lo da Casa Civil, por se tratar de um cargo de confiança da presidente. O ministro da Defesa, Jaques Wagner,muito próximo de Lula, é o mais lembrado para assumir o posto por ser considerado mais habilidoso na condução política.

A presidente preferiu, até o momento, ampliar o núcleo da articulação política, com a inclusão dos ministros da Ciência e Tecnologia, Aldo Rebelo (PCdoB), da Aviação Civil, Eliseu Padilha (PMDB), e de Gilberto Kassab.

Declaração de Dilma da semana passada, de que irá fazer mudanças "pontuais" em sua equipe, também foi interpretada por aliados como um sinal da indisposição da presidente em tirar Mercadante do Planalto.

Ele passou a ser o nome mais lembrado para voltar ao Ministério da Educação, em substituição a Cid Gomes, depois que um bate-boca com Eduardo Cunha no plenário da Câmara o levou à demissão. Mas já há, entre líderes políticos, quem aposte que Dilma irá optar por um "técnico" para tocar a pasta.

'Estatal não pode servir a um partido', diz jornalista

Daniel Bramatti – O Estado de S. Paulo

Presidente da Radiobrás no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o jornalista Eugênio Bucci qualificou como "o pior erro de comunicação da história do governo" o vazamento do documento da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, ocorrido na semana passada.

Bucci não critica apenas o vazamento em si, ou seja, o fato de uma avaliação interna do governo ter sido exposta no portal estadão.com.br e, a seguir, em outros meios de comunicação. Para alguém que marcou sua gestão na empresa estatal de comunicação pelo combate ao chamado jornalismo chapa-branca, marcado pelo oficialismo, foi uma enorme "decepção" ver a Agência Brasil citada no documento como integrante de uma rede de promoção do governo, no mesmo nível, por exemplo, do Facebook da presidente.

Bucci critica o uso da rede estatal de comunicação para a promoção do governo - mas faz a ressalva de que essa prática não é exclusiva do PT, e sim generalizada entre governantes de todos os partidos.
Em seu recém-lançado livro O Estado de Narciso - A comunicação pública a serviço da vaidade particular, ele também defende que o governo deve ser proibido de fazer propaganda. "O Estado não deve se comunicar com a sociedade por meio de compra de espaço publicitário em veículos privados."

O que o documento sobre as estratégias de comunicação do governo revela?

Trata-se de um texto muito caricato. De início, pensei que fosse um trote, que havia sido escrito por algum redator do Zorra Total (programa de humor da TV Globo). Não sabemos quem fez o documento, mas os sinais indicam que a área de comunicação do Palácio do Planalto não consegue diferenciar o governo do partido. É preciso compreender que são figuras diferentes, esferas diferentes, sujeitos diferentes. Se não conseguirmos separar um do outro, teremos um recuo civilizatório.

O PT tem dificuldade de fazer essa separação?

Esse tipo de mentalidade, com absoluta segurança, está presente em vários outros partidos e governos. É importante que se diga que isso não é exclusividade do PT. Para um número grande de pessoas que operam comunicação de governo, a propaganda é a disputa de uma guerra. Não é por acaso que usam figuras de linguagem bélicas, como "guerrilha", "soldados", "munição". Essa linguagem nos permite depreender que eles enxergam a sociedade como um campo de batalha, e não como um conjunto de cidadãos. Não há diálogo. O tom é de ocupação e de dominação. Até no Império Romano essa mentalidade seria atrasada.

Quem seriam os participantes dessa guerra?

Ao longo de todo o documento, a gente depreende a existência do "nós" e do "eles". O "nós" aglutina partido, militantes, ministros, Agência Brasil, Empresa Brasil de Comunicação. O "eles" são os que fazem panelaço, os que fazem manifestação contra o governo. Quando alguém sucumbe a essa lógica do nós contra eles, passa a indiferenciar partido e governo. O que vem depois disso é um descalabro.

O documento expõe uma visão de governo ou uma opinião pessoal?

O governo não repudiou até agora esse documento. Esse silêncio pode ser lido como um aval. Se não o nega, o governo assina o documento. Deveriam dizer que um texto desses é inaceitável dentro de uma repartição pública.

O texto sugere que a Agência Brasil deve ser colocada a serviço da defesa do governo. É esse o papel dela?

A Agência Brasil faz parte de uma empresa estatal, a Empresa Brasileira de Comunicação. Uma estatal não pode ser partidária. Quando se organiza a comunicação estatal, o princípio básico é que ela não pode estar a serviço de um partido. A definição do que é estatal está na Constituição, deve primar pelo princípio da impessoalidade. Não sei qual é o entendimento de estatal que está na cabeça dessa gente, mas parece que é outro.

O texto fala sobre o uso de "robôs" nas redes sociais pelas campanhas do PT e do PSDB.

Nas campanhas, todo mundo usa robôs. Há algoritmos tão sofisticados que até fecham operações no mercado de capitais. Não considero especialmente chocante o uso de robôs. O que choca é o contexto.

Também há menção ao uso de propaganda oficial em São Paulo para melhorar a popularidade do prefeito Haddad e, por tabela, da presidente Dilma.

O uso de publicidade para promover o governante é uma prática patrimonialista. Não deve existir propaganda oficial para melhorar imagem. Se alguém diz que o faz, está indo contra o que a Constituição preconiza. Está propondo o uso de recursos do Estado para fazer luta partidária. Quem faz esse tipo de proposta seguramente não entendeu o espírito da coisa pública.

A Constituição proíbe a propaganda que promova governantes, mas, em seu livro, o senhor mostra que quase todos se utilizam de brechas para ignorar essa regra. Como evitar que isso ocorra?

Essa iniciativa precisa partir dos cidadãos. É preciso proibir que o Estado seja anunciante, a não ser em situações excepcionalíssimas. Hoje em dia, todas forças políticas, no governo ou oposição, são unânimes ao tratar como normal o uso da estrutura de comunicação estatal para promover o governo ou o governante. Da mesma forma, há muitos jornais pequenos e médios, entre outros meios de comunicação, que dependem de verbas oficiais e que não estão interessados em mudar essa realidade. Não veem esse sistema como algo que corrompe a democracia.

Entrevista - Marina Silva

O fim da política como projeto para o país

• Permanecer no poder é a grande meta

- Folha de S. Paulo - Ilustríssima

• Resumo
Em resposta por e-mail a questões da "Ilustríssima", Marina Silva, candidata à Presidência em 2014, diz que o governo terá muita dificuldade "para sair do beco". Ela não crê numa "mudança verdadeira" da atual coalizão e considera que a permanência no poder a todo custo aprofunda a cultura do patrimonialismo.

Folha - O capital político da presidente Dilma foi rapidamente corroído após as eleições. Ela parece desagradar não apenas os que votaram na oposição mas também setores de seu eleitorado que se sentem ludibriados pelo discurso de campanha. A presidente tem condições de restabelecer sua autoridade e assumir a liderança do processo, de modo a pacificar o país?

Marina Silva - É evidente que a presidente, seu governo e os partidos que a apoiam terão muita dificuldade de sair do beco em que se meteram. O principal problema é que governo e o PT abandonaram a política como forma de negociar, dialogar, mobilizar e propor um projeto para o país. Não há um plano, e as dificuldades não são referentes à execução de um projeto. As crises são encaradas apenas como circunstâncias e momentos desfavoráveis que podem ser superados por estratégias de marketing, com o objetivo de recuperar a "imagem", os índices de avaliação positiva nas pesquisas e a "governabilidade". Isto é, as condições de se manter no poder.

A permanência no poder a qualquer custo aprofunda a cultura do patrimonialismo, que retalha o Estado, suas instituições e orçamentos em feudos partidários, grupais ou até mesmo pessoais. A negociação, nesses termos, dissolveu o sentido público que ela poderia ter. Insistindo nesse sistema, qualquer ação do governo para sair da crise só faz aprofundá-la.

Seria necessário dispor-se a uma mudança grande e verdadeira, não sei se a coalizão governista está disposta a tanto. Um dia desses vi uma charge muito expressiva --os humoristas sempre conseguem captar a essência da situação. Uma pessoa, numa tribuna, perguntava "quem quer mudança?", e todos na plateia levantavam a mão. Quando ele tornava a perguntar "quem quer mudar?", todo mundo ficava de cabeça baixa, com expressão desanimada.*

Alguma surpresa com o envolvimento de setores do PT nos desvios da Petrobras? O que houve com aquele partido que se propunha a mudar a cultura política brasileira?

Eu me surpreendi em 2005, na denúncia do mensalão. Agora, não temos mais o direito de estar surpresos. E, assim como a corrupção é inaceitável, também é inaceitável a ideia de que a "causa" justifica o uso de meios ilícitos.

Essa ideia parece ter tomado conta de setores importantes do partido. Em muitos momentos, lideranças relevantes tentaram justificar a corrupção como parte intrínseca da luta pelo poder, quase se vangloriando de não ter usado a propina para enriquecimento individual. Essa visão destrói a política, pois busca naturalizar o que deve ser combatido e distorce a democracia, pois cada vez mais a "causa" se confunde com a manutenção do poder, encarado não mais como um instrumento para a transformação da sociedade mas como um fim em si mesmo.

A resposta da presidente às manifestações foi satisfatória? Por que?

Não considero que o que foi dito e feito até agora pode ser chamado de resposta. O símbolo maior desse pacote anticorrupção é a publicação do decreto que regulamenta uma lei aprovada pelo Congresso Nacional em agosto de 2013, em resposta às manifestações de junho daquele ano. Se houvesse a vontade política de responder à altura o reclamo da sociedade, a presidente não teria esperado quase dois anos para regulamentar aquela lei. Foi preciso que, novamente, mais de 1 milhão de pessoas fossem às ruas para tirar a regulamentação da lei da gaveta. É um tempo muito longo para tão pouco resultado.

Mais uma vez o governo afirmou, após as manifestações, que é preciso fazer uma reforma política para fechar as portas da corrupção. Esse é o principal problema?

A reforma política é uma necessidade para além do combate à corrupção, ainda que esse seja um objetivo importante. Trata-se de buscar soluções para uma ampla crise de representatividade, em que a corrupção é uma consequência. Não é um problema recente, mas fruto de um sistema político que vem se deteriorando há muitos anos, e as forças políticas que vêm comandando o país nos últimos anos pouco fizeram para transformar essa realidade. Ao contrário, aprofundaram essa forma de coalizão baseada na distribuição de pedaços do Estado.

Apresentar a reforma política como resposta à corrupção pode parecer oportunismo de quem tenta se colocar como um agente moralizador, como se não tivesse responsabilidade na institucionalização da corrupção, como estamos vendo.

Exortar os brasileiros a "defender a Petrobras" é um exemplo. É tratar a realidade pelo avesso, ou seja, a maioria dos brasileiros já defende a Petrobras, e a defende justamente do grupo político --governista-- que a deixou nesse estado de desmonte. Precisamos discutir a reforma política sob esse prisma mais profundo, que deve ter como objetivo melhorar a qualidade das instituições, da representação política e ampliar os canais que permitam integrar melhor a contribuição da sociedade, com transparência e mais autonomia.

Como avalia hoje a dinâmica da campanha passada e a derrota de seu projeto de terceira via? Uma "nova política" sem partidos tradicionais é mesmo possível? Há algum movimento para dificultar a criação da Rede?

Acho que a Rede Sustentabilidade preocupa os partidos tracionais, pois não se submete à lógica fisiológica que vem se estabelecendo e procura trilhar novos caminhos, ou novas formas de caminhar como costumo dizer citando o poeta Thiago de Mello.

Esse é um processo de longo prazo, em que as formas de representação da sociedade estarão crescentemente em questionamento frente à velocidade de disseminação das tecnologias digitais. A internet está provocando profundas transformações na forma de nos relacionarmos e de fazermos negócios, por que não mudaria a forma de fazermos política? Esse é um processo mundial, mas antes temos que fazer um realinhamento político no Brasil para superar essa polarização em que os dois partidos da social-democracia se aliam a setores atrasados da velha República para governar. Essa possibilidade não se efetivou na última eleição, mas é cada vez mais necessária. Basta olharmos o que está acontecendo.

Marina será candidata em 2018?

A única coisa que sei é que, como fiz em 2010, não vou ficar na cadeira cativa de candidata. Aliás, se tivesse ficado, não teria visto Eduardo Campos como alternativa mais adequada quando foi negado o registro da Rede.

Como anda a política ambiental no Brasil? Vê diferença entre a atuação do PSDB e do PT nessa área?

A natureza está agora mostrando o tamanho da irresponsabilidade que foi promover o retrocesso na agenda socioambiental e no combate às mudanças climáticas para favorecer setores atrasados da economia e da política. E, se podemos falar de retrocesso no caso do governo federal é porque havia, ao menos, alguns avanços no período anterior. Na maioria dos governos estaduais, incluindo os da oposição, nem isso havia.

As crises ambientais, incluindo a crise hídrica no Sudeste e as enchentes gigantescas no Norte, são mostras de uma mudança planetária. Todo mundo já está informado de que, cada vez mais, extremos climáticos serão frequentes. O Brasil perdeu tempo e a posição de liderança internacional que tinha nesse assunto. Vamos ter de começar de novo e no meio do temporal.
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• O cartum, feito por Lute para a edição de 21.jun.12 do jornal mineiro "Hoje em Dia", voltou a circular recentemente nas redes sociais com o texto modificado que cita Marina Silva. O original opunha "um mundo melhor e mais harmônico" à proposta de "abandonar o modelo de consumismo desenfreado".

Demétrio Magnoli - A segunda fundação do PT

• Da ruptura à velha ordem

- Folha de S. Paulo - Ilustríssima

  • Resumo. Com uma história que vai da opção pela esquerda latino-americana em detrimento do modelo social-democrata europeu à reinvenção do capitalismo de Estado brasileiro, o PT chega a uma encruzilhada. Na crise, o discurso ideológico da agremiação se volta para o passado, invocando fantasmas do udenismo e de 1964.

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Mais de dois anos antes da primeira eleição presidencial de FHC, que assinalou a segunda derrota de Lula na tentativa de chegar ao Planalto, a revista "Teoria e Debate", publicada pelo PT, estampou na sua edição 18 (mai./jun./jul.92), um artigo sobre Cuba, do então deputado estadual Marcos Rolim.

Nele, o parlamentar petista fazia uma pergunta crucial: "O que, afinal, significa uma 'posição crítica' frente ao regime de Fidel?". E respondia com um diagnóstico, e outra indagação, carregada de ironia: "Quer dizer [...] que, em que pese não estarmos de acordo com isto ou aquilo, somos a favor daquele regime e queremos colaborar com ele para que corrija certos 'defeitos'. Por este caminho, poder-se-ia começar pelo 'detalhe' da liberdade, quem sabe?".

O "detalhe" da liberdade assombrou o PT, desde seu nascimento. Fundado quase junto com o levante do Solidariedade, em 1980, o PT apoiou os grevistas poloneses mas também enviou dirigentes para "escolas de quadros" no Leste Europeu. Alguns deles, inclusive o metalúrgico Djalma Bom, estavam na sede do Partido Comunista da Alemanha Oriental bem na hora da queda do Muro de Berlim, em novembro de 1989.

Na edição 14 da mesma "Teoria e Debate" (abr./mai./jun.91), Eugênio Bucci escrevia que "o PT só não se tornou o último partido comunista do mundo porque isso não passou pela sua base, instintiva, mobilizada e antiburocrática".

Um dos criadores e primeiro editor da revista, Bucci tinha razão sobre o comunismo, mas exprimia apenas uma utopia possível nas linhas seguintes do texto, que definiam o PT como "um partido social-democrata".

De fato, ao contrário, no intervalo entre a queda do Muro de Berlim e a segunda derrota presidencial de Lula, o PT escolheu não ser um partido social-democrata. A opção negativa nunca foi explícita em termos teóricos ou programáticos, mas provocou um dramático estreitamento intelectual.

Rolim desfiliou-se do partido em 2009 e, no ano seguinte, colaborou na formulação de programas de campanha de Marina Silva. Bucci afastou-se do PT depois de 2007, desferindo ácidas críticas ao partido, que se organizam em torno do "detalhe" da liberdade.

Suas trajetórias ilustram uma debandada silenciosa que envolveu incontáveis quadros militantes ligados às origens do petismo. De certo modo, paradoxalmente, o PT converteu-se no "último partido comunista do mundo" enquanto abraçava-se às elites políticas tradicionais e aos maiores conglomerados empresariais do país.

Opção
A social-democracia era muito mais do que uma possibilidade teórica para o PT.

Pierre Mauroy, ex-primeiro-ministro de François Miterrand, presidiu a Internacional Socialista (IS) entre 1992 e 1999. Pouco antes, os conflitos faccionais no PS francês tinham-no aproximado de Lionel Jospin, que viria a ocupar a chefia de governo em 1997. Jospin era oriundo da mesma corrente trotskista que o franco-argentino Luis Favre, futuro marido de Marta Suplicy e, na época, um quadro petista de algum destaque.

Os dois ex-trotskistas acalentavam a ideia de levar o PT para a IS, cuja representação no Brasil era ocupada pelo PDT de Leonel Brizola. A articulação avançou até um ensaio de oferecimento da vice-presidência da IS a Lula, mas não prosperou: à social-democracia "europeia", o PT preferiu a esquerda latino-americana.

O Foro de São Paulo nasceu em 1990, de um acordo entre Lula e Fidel Castro, como uma rede ampla de partidos de esquerda da América Latina, destinada a oferecer suporte político ao regime cubano.

Fidel operava no cenário desesperador do Período Especial, marcado pela desaparição da URSS, levando a ilha ao racionamento e à fome entre 1989 e 1994. Lula enxergava na rede uma plataforma para a difusão internacional de sua própria influência.

Defendida por José Dirceu, a opção pela aliança com Cuba não era compatível com a adesão à IS, ainda mais naqueles anos em que os partidos social-democratas europeus insistiam em condenar a crescente repressão doméstica promovida pela ditadura castrista.

A tradição nacionalista, estatista e populista da esquerda latino-americana não combinava com as origens do PT. Os sindicalistas do ABC contestavam o imposto sindical, base da CLT varguista, e ergueram a bandeira da liberdade sindical para criar a CUT.

A crítica de esquerda ao capitalismo de Estado brasileiro, formulada durante o "milagre econômico" de Médici e Geisel, revelara que as empresas estatais não funcionavam como ferramentas de desenvolvimento social. Contudo, paralelamente à aliança com Cuba, os dirigentes petistas começaram a recuperar os dogmas da esquerda latino-americana.

Como falar de "socialismo", logo depois da queda do Muro de Berlim? Que resposta oferecer às proclamações triunfantes sobre a globalização?

Fernando Collor e seu sucessor, Itamar Franco, esboçavam um programa de privatizações. O inesperado triunfo de FHC em 1994, obtido por meio do Plano Real numa eleição que parecia destinada a transferir a presidência para Lula, empilhava todos os enigmas ideológicos diante do partido.

A resposta petista foi um curioso recuo intelectual rumo a trincheiras cavadas por outros. Dela, surgiu a polaridade PT-PSDB que fixou a geometria da política brasileiro nas últimas duas décadas.

Chaves
Durante os estertores do governo Collor, o deputado Luiz Gushiken, líder sindical bancário que pertencia ao círculo mais próximo de Lula, publicou um artigo premonitório na edição 19 da "Teoria e Debate" (ago./set./out.92)

O programa de privatização, escreveu, "está destruindo o patrimônio público e fará surgir um Estado quase incapaz de influenciar o desenvolvimento econômico".

Como alternativa, num futuro governo petista, ele sugeria a seleção de setores "estratégicos" da economia nos quais concentrar uma "intervenção intensa e localizada" do Estado, capaz de "induzir o crescimento" dos demais setores.

Os fundos de pensão das estatais não eram mencionados no texto. Mas Gushiken já identificara nesses vastos depósitos de poupança uma fonte de capitais para a "intervenção intensa e localizada" que preconizava.

Tais recursos, privados, são geridos paritariamente pelas empresas estatais e pelos funcionários pensionistas. Os sindicatos dirigidos pelo PT deveriam apoderar-se da representação dos trabalhadores na governança corporativa dos fundos. Quando o partido chegasse ao Planalto, obteria o controle absoluto sobre os recursos, podendo direcioná-los para os investimentos estratégicos de um renovado capitalismo de Estado.

"Para o PT, que pretende governar o Brasil no ano que vem, está afastada a hipótese de participar dessa administração federal", escreveu Dirceu, em fevereiro de 1993, na "Teoria e Debate".

No momento do impeachment de Collor, a direção petista decidiu apostar todas as fichas num triunfo eleitoral que seria facilitado pela crise inflacionária em curso. O Plano Real e a dura derrota de 1994 encerraram uma etapa. Sob o comando de Dirceu, o partido se reinventaria para chegar ao poder.

A segunda fundação do PT realizou-se como uma dupla negação. No plano programático, pela rejeição da crítica original à herança varguista da esquerda brasileira.

No plano organizacional, pela edificação de uma máquina político-partidária profissional, em substituição ao "partido da militância".

O "último partido comunista do mundo" não almejava o socialismo, mas a modernização do capitalismo de Estado local. Seu inimigo seria o PSDB, que encarnava o projeto de ruptura com essa tradição e passaria a ser identificado pelo rótulo do "neoliberalismo".

Sépia
O programa econômico, os métodos de administração, as coalizões políticas e as alianças empresariais implementados, não sem oscilações, nos três sucessivos governos lulopetistas foram gestados naquela segunda fundação do PT. A crise atual marca o esgotamento do modelo neovarguista, que implode em câmera lenta.

De partido da ruptura, o PT transformou-se em partido da ordem e, em seguida, no partido da velha ordem.

No espelho da linguagem, a crise aparece como uma declaração histórica anacrônica. Desde que subiu a rampa do Planalto, Lula trocou a referência de classe (os "trabalhadores") pela vaca sagrada do populismo (os "pobres").

A incorporação das centrais sindicais às estruturas da CLT e a cooptação estatal dos "movimentos sociais" foram acompanhadas pela recuperação das figuras de Vargas e Jango Goulart. Na nova narrativa do lulopetismo, Lula emerge como a realização tardia, mas gloriosa, de promessas redentoras interrompidas pela ação da "elite".

O empreendimento historiográfico equivale à montagem de uma galeria de fotografias em sépia.

Na convocatória para o 5º Congresso Nacional do PT, lançada no início de 2013, a defesa dos governos Lula articulava-se ao redor do argumento de que "as denúncias de corrupção sempre foram usadas pelos conservadores para desestabilizar governos populares, como os de Vargas e Goulart".

Diante das repercussões do escândalo na Petrobras, os dirigentes petistas alardeiam um suposto "udenismo" das oposições, enquanto os intelectuais associados ao partido alertam sobre o fantasma da "repetição de 1964". O partido do futuro não para de falar sobre o passado.

Aécio Neves - Pagando a conta

- Folha de S. Paulo

O Brasil corre o risco de ter um longo ciclo de três anos (2014-2015-2016) de crescimento médio muito próximo de zero ou até mesmo negativo. Esse desempenho medíocre do país só ocorreu em três momentos da nossa história recente: na Grande Depressão (1929-1931), na crise da dívida (1981-1983) e no Plano Collor (1990-1992).

Fato é que, desde o início de dezembro de 2014, as projeções de crescimento da economia brasileira passaram a cair todas as semanas. Com a piora do cenário, já se trabalha com um resultado para este ano de uma queda do PIB próxima a 1%. Mas muitos já apostam em uma redução do PIB entre 1,5% e 2%.

Depois de negar peremptoriamente a necessidade de ajuste durante a campanha eleitoral, o governo manda ao Congresso um conjunto de medidas muito mais duras do que seria necessário se tivesse agido no tempo correto e, por exemplo, controlado o crescimento desenfreado do gasto público.

Um ajuste fiscal de mais de R$ 100 bilhões, como o prometido, em um contexto de recessão agravado pela crise política e pela crise de corrupção na Petrobras, transforma em grande frustração os compromissos que o atual governo assumiu para ganhar as eleições. Não será, inclusive, um ajuste rápido como se apregoa, mas vários anos de aperto fiscal em uma conjuntura de baixo crescimento.

A verdade é que o ajuste fiscal deveria ser apenas uma parte de um programa mais amplo de crescimento e de reformas estruturais discutido com a sociedade civil e pactuado pela presidente da República.

O quadro poderia ser completamente outro se não houvesse uma grave crise de confiança, que afugenta o investimento privado e alcança, agora, segundo indicadores da Fundação Getúlio Vargas, os níveis mais baixos desde o auge da crise financeira mundial de 2009.

Temos hoje um governo sem qualquer diálogo com a sociedade, que faz o que quer, como quer e quando quer. Sem um plano de desenvolvimento, e eleito com base em promessas que não serão cumpridas, entrega ao país um ajuste rudimentar que terá um custo muito elevado para a sociedade, pois será baseado na redução de direitos dos trabalhadores, cortes do investimento público e aumento de carga tributária.

A questão que parece ser central agora é que é muito difícil fazer ajustes de fundo, consistentes, em um governo politicamente fraco. Em muitos casos, crises podem virar janelas de oportunidade para se criar um consenso mínimo a favor de uma agenda mais ampla de reformas. Hoje acontece o contrário: o governo produziu uma crise macroeconômica de grandes proporções e vai esgotando a cada dia a sua credibilidade e a sua capacidade de governança.

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Aécio Neves é senador (MG) e presidente nacional do PSDB

Ricardo Noblat - Dilma não é Collor

- O Globo

"Eu me surpreendi em 2005, na denúncia do mensalão. Agora, não temos mais o direito de estar surpresos." - Marina Silva

Imagine que a presidente Dilma Rousseff tivesse uma irmã, responsável por estrepitosa entrevista concedida à "Veja", acusando Dilma de roubar e de deixar que seu tesoureiro de campanha roubasse. E que a presidente respondesse dizendo que ela era doente mental. E que um exame feito na irmã comprovasse que não, que ela era sã. Você acha que Dilma seria impedida de governar, acabando deposta pelo Congresso?

NÃO. ISSO NÃO bastaria para que fosse bem sucedido um pedido de impeachment de Dilma. Pelo menos a se levar em conta o que ocorreu com Fernando Collor em 1992 — o primeiro e até aqui único presidente da República brasileiro derrubado pelo Congresso. Pedro Collor, irmão dele, disse que Collor roubava em sociedade com o empresário PC Farias, tesoureiro de sua campanha. Foi aberta então uma CPI no Congresso.

QUANDO ESTAVA próxima de ser encerrada, a CPI ainda não dispunha do chamado "batom na cueca" para recomendar a saída de Collor. Sim, àquela altura o país já se escandalizara com a beleza indecente da fonte luminosa dos nababescos jardins da Casa da Dinda, habitada por Collor e sua família. A casa fora reformada com dinheiro do esquema de PC Farias, que movimentara algo como R$ 8 milhões.

TAMBÉM ÀQUELA altura causara espanto a confissão do motorista Eriberto França, portador de contas pessoais de Collor, todas pagas por empresas de fachada de PC. Para completar, Collor pedira às pessoas que fossem às ruas vestidas de verde e amarelo para mostrar que apoiavam o governo. Milhares de pessoas foram às ruas vestidas de preto, pedindo a cabeça do presidente.

AINDA ASSIM não era suficiente, relembram, hoje, ex-integrantes da CPI. De fato, Collor só começou a cair quando apareceu o comprovante da compra de um Fiat Elba posto à disposição dele na Casa da Dinda. Descobriu-se que o Fiat havia sido comprado por PC. Estabeleceu-se em definitivo, e acima de qualquer dúvida razoável, a ligação entre Collor e sobras de dinheiro sujo de campanha.

COLLOR FOI UM aventureiro que se elegeu presidente quando a maioria dos brasileiros perdera a esperança nos líderes tradicionais. Venceu sozinho, dividindo com Lula os votos dos mais pobres. A Constituição não fala em impeachment — mas em crime de responsabilidade. Lista oito tipos deles — nenhum cometido por Dilma. Os oito se desdobram em 65. Dilma não se enquadra em nenhum. Por ora.

COLLOR NÃO TINHA partido — Dilma tem. Os chamados movimentos sociais se opuseram a Collor. A serviço do PT desde a chegada de Lula ao poder, e bem pagos por isso, os movimentos sociais estão com Dilma. O Congresso abandonou Collor, sentindo-se pressionado pelo povo. Nunca um presidente teve uma aprovação tão baixa quanto tem Dilma neste momento. Mas isso não serve para apeá-la do cargo. A do Congresso é menor.

O REGIME BRASILEIRO é presidencialista. Se fosse parlamentarista, o governo poderia ser trocado ao perder a confiança popular e a dos partidos. O descrédito de Dilma é gigantesco. Mas os partidos que fazem parte do governo não pensam em sair. Querem entrar mais. No caso de Collor, os partidos lhe deram as costas. Nem dinheiro em espécie deteve a enxurrada de votos em favor da sua deposição.

COBRAR NAS RUAS a saída de Dilma não é crime. Nem configura golpe, como diz o PT. Apenas não a derrubará necessariamente. Melhor infernizar a vida de Dilma, fazendo-a pagar caro pelos erros que cometeu — entre eles o de mentir para se reeleger.

José Roberto de Toledo - O eleitor São Tomé

- O Estado de S. Paulo

Era visível, e a comparação das pesquisas Datafolha de 2015 e de 2013 confirma: quem protestou contra Dilma Rousseff domingo não foi quem ocupou as ruas há 18 meses. Foi a vez dos pais, não dos filhos, saírem de casa. Na onda original, mais da metade dos manifestantes não chegava a 25 anos. Agora, a maioria absoluta tem mais de 36 anos. Na média, 13 anos de idade separam um grupo do outro. Mas as diferenças não são apenas geracionais.

O típico manifestante anti-Dilma é homem, tem cerca de 40 anos, fez faculdade, é assalariado com carteira assinada ou empresário, define-se como de centro-direita, tem mais chance de ser simpático ao PSDB do que a qualquer outro partido. É branco, mora nas áreas mais ricas da cidade e tem renda superior a dez salários mínimos. É a primeira vez que sai à rua para protestar.

Com 27 anos, em média, o jovem manifestante de 2013 também tinha diploma de nível superior, mas probabilidade bem menor de estar na População Economicamente Ativa (PEA). Era muito mais antipartidos políticos do que os atuais manifestantes (84% a 51%).

Além de perfis demográficos diferentes, os dois grupos têm agendas distintas. A pauta genérica, ampla e, às vezes, contraditória de 2013 deu lugar a uma ideia única em 2015: fora Dilma. O protesto dos jovens era contra os 20 centavos a mais nos ônibus, mas era também contra a Copa, contra os políticos em geral, pela educação e a saúde e para pôr uma foto no Facebook.

Apesar de todas as diferenças, situam-se na mesma cronologia. Se o jovem não tivesse ido à rua em 2013, é improvável que seu "tio" tivesse saído de casa agora. E não só pelo exemplo.

Dilma cometeu um erro tático em 2013. Assumiu a responsabilidade exclusiva de dar uma resposta à "voz das ruas". Sua aparição em cadeia de rádio e de TV, em meio aos protestos, foi comemorada pelos marqueteiros da oposição. Ela virou o para-raios daquela crise. Nunca mais conseguiu se livrar desse papel. Qualquer coisa ruim que ocorra virou, desde então, culpa da presidente.

Não que ela não tenha responsabilidade nem contas a prestar. A mãe de todas as crises foram a queda da atividade econômica e a perda da confiança, primeiro dos empresários e, depois, do consumidor. Essa fatura deve ser cobrada do jeito que Dilma escolheu conduzir a política econômica no primeiro mandato.

Não se pode dizer, porém, que a falta d'água em São Paulo seja sua responsabilidade. Mas muita gente acha que é. Nem que a corrupção nasceu ontem. Embora muita gente acredite que sim.

De tão experiente, a velha senhora - à qual Dilma fez menção em sua entrevista coletiva - sempre acabava impune. Na gestão petista, pôs silicone, aplicou botox e esticou tanto a pele que desalinhou os olhos. Ganhou cara nova, conta reforçada na Suíça e iludiu até FHC, que, sem reconhecê-la, a chamou de garotinha. Mesmo disfarçada, corre risco de acabar numa cela paranaense.
Não adianta o governo querer revelar a idade da corrupção. Os manifestantes de 2015 não querem conversa, querem ver Dilma longe do Palácio do Planalto. Salvo a improvável hipótese de a presidente topar uma retirada pela direita, um eventual diálogo entre ela e eles não duraria nem o tempo de um cafezinho. Dilma só tem chance de atingir outro grupo - que também avalia seu governo como ruim ou péssimo, mas não bate panelas por isso.

São os seus ex-eleitores e os ex-petistas que hoje se declaram sem preferência por qualquer partido. Eles perderam a fé na presidente e no PT menos pela corrupção do que pelo pessimismo econômico. Eles veem os preços subindo e acham que vão subir mais. Estão empregados, mas temem que não por muito tempo. Acham que vão poder comprar cada vez menos.

Para atingir esse grupo, não adiantam palavras, só ações. Como São Tomé, esse eleitor quer ver a inflação cair e a economia subir para voltar a crer que a urna leva ao shopping center.

Valdo Cruz - No osso

- Folha de S. Paulo

Cid Gomes, o breve, mandou os achacadores largarem o osso. Pois esta turma se agarra até a osso, porque, neste momento, está tudo no osso, a carne já foi embora, subtraída pelos corruptos ou consumida pelas cigarras palacianas que gastaram o que não tinham.

Resultado, falta dinheiro nos cofres do governo Dilma, a Petrobras está sem grana para investir, a economia encolhe, os empresários demitem e tem muita gente boa do empresariado atrás das grades. Ou seja, todos estão literalmente no osso.

A tal ponto que um empreiteiro, dos grandes, andou desabafando com amigos que "chega, basta", não fará mais doações para políticos. Ano que vem, de eleição municipal, diz, sua empresa não vai doar um tostão para quem quer que seja.

Primeiro, porque, neste momento, sua empresa precisa se preparar para pagar pesadas multas e ressarcir os cofres públicos pelos desvios feitos na Petrobras. Garante que foi extorquido, mas sabe que, na Justiça, não vai escapar de pagar do seu bolso para salvar sua empresa.

Segundo, antes mesmo disto, a situação está muito ruim. O país está parando, as obras, também, ninguém fala em contratar mais servi-ços, a saída, de fato, tem sido demitir, cortar gastos. Daí que não vai sobrar grana, mesmo que desejasse, para fazer doações eleitorais.

Terceiro, agora criminalizaram até o caixa um, as doações legais. O inquérito da Lava Jato está cheio de confissões de empresários revelando que pagaram propina na forma de doação legal, registrada e tudo.

Por sinal, aí está um grande desafio para Justiça. Como punir tais casos, dinheiro ilícito que virou doação legal. Por mais que os partidos beneficiados neguem, está mais do que provado que isto aconteceu. A turma que deu reconhece o fato. Enfim, o tempo é de penúria. Tomara que o empreiteiro, de fato, seque a fonte. E seja seguido por seus colegas. Ano que vem a gente descobre se era apenas um "desabafo".

Marcello Cerqueira - É preciso baixar as armas

• Tanto a vencedora quanto o perdedor da eleição se comportaram mal. Mas nada justifica i impeachment

- O Globo

Ainda não vivemos uma crise institucional. Falta pouco, pois a crise política se agrava no dia a dia. Portanto, a questão da hora é como evitar que essa crise política se transforme em crise institucional.

Cabe ao governo tomar a iniciativa de promover entendimentos para evitar o pior, que pode afetar toda a nação. Entretanto, o governo não dá sinais concretos de que fará isso. Alguns de seus membros, e poucos, falam constantemente em “diálogo”. Mas é retórica pobre.

O diálogo só se dará se a presidente tomar a iniciativa de convocar todas as forças políticas. E, para isso, é preciso formar um governo capaz de realizar essa tarefa.

O ministério que ela constituiu é anterior à atual crise e com esta não tem qualquer relação. O atual ministério é um conjunto que resultou de acertos partidários para dar continuidade a uma política que se esgotou. As ruas o demonstram e as pesquisas de avaliação do governo também, e de maneira aterradora. É burrice repetir que só o eleitorado do outro está descontente. Todo o país está descontente e cabe à presidente se dar conta disso. As eleições, campanha e resultados, provocaram intensa polarização social e política. De um lado, a vencedora não mostrou o mundo real, este que, depois da eleição, o ministro Joaquim Levy se esforça por administrar a custos elevados para os trabalhadores. De outro lado, o candidato derrotado agiu como se pretendesse um terceiro turno. 

Ambos se comportaram mal. Entretanto, nada justifica o impeachment de candidato legitimamente eleito.

A questão é outra: não se trata de ruptura, mas de diálogo. Aquela tem fortes tintas golpistas e o diálogo não pode ser o vazio que o governo propõe, mas uma ação política concertada. É preciso que fique claro que o país necessita da concertação. Será que a classe política não está à altura de evitar uma crise institucional?

Todos sabem como uma ruptura institucional começa. A presidente sabe. A oposição também sabe. Então, agora é agir.

No caso do governo, o ministério que está aí não presta. Pertence ao passado. A presidente tem condições de chamar políticos e líderes sociais à altura dos desafios do presente. Políticos e líderes capazes existem, mas é preciso que a presidente exerça a responsabilidade que as urnas lhe outorgaram. E os convoque.

Já a oposição precisa se libertar de ressentimentos acumulados e não ouvir as vivandeiras de sempre. Para fazer a firme oposição ao governo, é necessário abandonar a tentação da oposição ao regime.

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Marcello Cerqueira é advogado

Modesto Carvalhosa - O patético pacote anticorrupção

- O Estado de S. Paulo

As medidas de combate à corrupção anunciadas pela presidente da República dia 18 aprofundam ainda mais a falta de credibilidade do governo, tanto no plano nacional quanto no exterior. Em decorrência da devastadora corrupção que se alastrou no governo federal, o Brasil, outrora país emergente, hoje sofre um desprestígio no mundo parecido com os tempos da inflação galopante e dos calotes internacionais dos anos 1980.

O pacote anticorrupção, solenemente anunciado pela presidente, insere-se nesse quadro melancólico, pois não é crível que um governo marcado e devastado pela prática generalizada de apropriação de recursos públicos em benefício dos partidos no poder venha, agora, colocar-se na posição de combatente do mal que ele mesmo diariamente pratica.

Nesse quadro patético, as propostas legislativas são mais do mesmo, pois o crime do caixa 2 está previsto no vigente Código Eleitoral, de 1965, no artigo 350. Quanto ao dramático confisco de bens dos corruptos, a matéria está plenamente contemplada na lei vigente de Improbidade Administrativa, de 1992, artigos 9.º, 12 e 16. As demais "providências" legislativas da presidente são objeto de projetos de lei em curso no Congresso, razão pela qual nada de novo foi traduzido pelo alardeado pacote.

Quanto ao decreto que "regulamenta" a Lei Anticorrupção, ressalta desde logo tratar-se de um monstrengo que visa, sob todas as formas possíveis, a promover a anistia ampla, geral e irrestrita das empreiteiras e fornecedoras envolvidas na Operação Lava Jato, procurando mesmo imunizá-las a qualquer outra conduta corruptiva que tenham praticado fora do âmbito da Petrobrás e ainda não reveladas. Assim, o atual governo, na esteira dos três últimos que o precederam, demonstra que no Brasil ainda impera a república das empreiteiras, embora estas já estejam muito combalidas, em decorrência da firme atuação da Polícia Federal, do Ministério Público, da Justiça Federal, do STJ e do STF.

O referido "decreto regulamentador" da Presidência demonstra, às escancaras, a firme determinação do governo de proteger as empresas que com ele contratam, mantendo os mesmos termos viciados no futuro. Ao invés de concentrar a competência de processar as referidas empresas corruptas na Controladoria-Geral da União, o decreto outorga esse poder aos ministros do Estado (pasmem!), que são, desde 2003, os principais atores da prática de corrupção no Brasil. Só do último governo três deles estão sob investigação no STF e dez outros já haviam sido flagrados em atos de corrupção, só no ano de 2011. São essas as "autoridades" que vão processar as empreiteiras. Pode-se imaginar o nível de corrupção que vai surgir dessa "competência ministerial".

Será um novo núcleo de propinas, de tráfico de influência, de advocacia administrativa e de prevaricação. Surge um novo negócio de corrupção jamais imaginado, para grande proveito dos titulares de 39 pastas e dos partidos que os indicaram.

Não bastasse, a eventual condenação das empreiteiras pelo "ministro competente" pode ser objeto de "reconsideração" com efeito suspensivo, o que encarece ainda mais o comércio de favores ilícitos que será gerado por essa instância administrativa. A Lei Anticorrupção não fala de instância de reconsideração.

Também o decreto presidencial de 18/3 cria a figura da "investigação preliminar sigilosa", anterior à instalação do chamado Processo Administrativo de Responsabilização. Eis aí outro foco de corrupção, pois de suas conclusões secretas pode decorrer o arquivamento do pedido de instalação do processo. Esse novo produto de corrupção obviamente não está previsto na Lei Anticorrupção de 2013 que a presidente resolveu agora "regulamentar". Essa lei, aliás, não comporta nenhuma regulamentação, na medida em que é autoaplicável a partir de 29/1/2014, abrangendo todos os crimes continuados de corrupção, caso dos listados na Lava Jato.

Mas não para aí o "regulamento presidencial". Em cinco artigos propositadamente confusos, o diploma do Executivo limita a multa a 5% sobre o faturamento do último exercício das empresas corruptas. A Lei Anticorrupção, todavia, fala em até 20%. Derroga, portanto, o "ato presidencial" a Lei Anticorrupção também nesse aspecto.

Ademais, os cálculos de aplicação dessas multas com teto quatro vezes reduzido são propositadamente de alta complexidade para permitir que as empreiteiras consigam suspender e, em seguida, anular no Judiciário as decisões condenatórias que muito raramente os ilibados ministros de Estado lhes aplicarão.

Outro aspecto absurdo do "regulamento presidencial" é a tentativa de alijamento do Ministério Púbico das iniciativas de responsabilizar judicialmente as empresas corruptas, buscando outorgar essa competência de propositura de ação civil pública de reparação de danos a órgãos jurídicos da própria administração federal. Essa tentativa é risível.

Inúmeras outras manobras de absolvição plena das empreiteiras estão espalhadas ao longo texto do decreto de 19 de março. Por outro lado, o próprio decreto reproduz a impossibilidade de firmar acordos de leniência a não ser com a primeira empreiteira componente do cartel que opera na Petrobrás. Diante desse impasse, socorre-se o decreto do regime de conformidade (compliance), que é um dos fatores que passam a propiciar a anistia das empreiteiras. Se elas instituírem o regime de conformidade poderão, inclusive, ser absolvidas sem o pagamento de nenhuma multa, o que é absolutamente contrário ao texto da Lei Anticorrupção. Seria como alguém que praticou latrocínio deixar de ser condenado a 30 anos de prisão só porque fez profissão de fé numa igreja pentecostal prometendo seguir, a partir de agora, os ensinamentos da Bíblia Sagrada.

Por todo esse absurdo, a cidadania pede socorro ao Ministério Público para que requeira imediatamente ao Judiciário a anulação desse regulamento espúrio que procura derrogar, revogar, neutralizar e tornar letra morta a Lei Anticorrupção.

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*Modesto Carvalhosa é jurista, autor, entre outros, do 'Livro Negro da Corrupção' (Ed. Paz e Terra, 1995, Prêmio Jabuti) e de 'Considerações sobre a Lei Anticorrupção' (Ed. Revista dos Tribunais, 2015)

O PT e a imprensa 'simpática' – Editorial / O Estado de S. Paulo

É sabido que a proposta do PT para "regulamentar a mídia" nada mais é do que a intenção de submeter a imprensa ao governo petista e ao próprio partido. Os petistas douram a pílula para convencer a opinião pública de que não se trata de uma forma de censura e, eventualmente, podem confundir os incautos. No entanto, quem ainda tiver alguma dúvida sobre qual é realmente o espírito que preside esse projeto do partido basta prestar atenção ao que disse o presidente da agremiação, Rui Falcão, em recente reunião com parlamentares do PT na Câmara: o caminho, sugeriu ele, é asfixiar os veículos de comunicação que ousarem portar-se com independência e espírito crítico em relação ao governo petista.

Segundo relatos de participantes do encontro, Falcão defendeu que o governo corte a verba de publicidade destinada a veículos de comunicação que, no seu entender, "apoiaram" e "convocaram" as manifestações populares do último dia 15. Para o presidente do PT, é necessária "uma nova política de anúncios para os veículos da grande mídia". Pode-se depreender que essa "nova política" seja, simplesmente, colocar anúncios do governo somente em jornais e emissoras de TV que sejam camaradas.

Para demonstrar a urgência de uma nova política de distribuição das verbas publicitárias, Falcão argumentou que o clima beligerante contra Dilma e o PT levou até mesmo a TV Record, segundo ele um veículo "simpático" ao governo, a participar da suposta mobilização nacional por parte da imprensa para incitar os protestos de rua - mas isso, disse Falcão, ocorreu somente em razão da "briga por audiência". O importante a se observar é que, ao mencionar a suposta existência de veículos "simpáticos", Falcão demarca o território em que o PT julga disputar a guerra da comunicação: há os amigos e os inimigos. Aos primeiros, tudo; aos segundos, a danação.

Falcão sugeriu que a estratégia usada até agora para enfrentar o que julga ser uma campanha orquestrada pela grande imprensa para desacreditar o partido e o governo não tem dado resultado. "Não se enganem. O monopólio da mídia não será quebrado apenas nas redes sociais. Isso é uma ilusão", disse o presidente petista, referindo-se à comunidade de blogueiros e ativistas digitais montada para defender o PT e agredir sistematicamente a imprensa livre.

Por um momento, os estrategistas do partido julgaram que a guerra da comunicação seria ganha no ambiente virtual. No entanto, como reconheceu um documento da Secretaria de Comunicação Social que criticou a política oficial de comunicação, "o governo e o PT passaram a só falar para si mesmos".
Mas o PT não perdeu espaço apenas nas redes sociais; parece ter perdido também as ruas, lugar onde reinava. Isso explica a aflição de Falcão e de seus companheiros. Como sempre acontece com aqueles que interpretam o mundo exclusivamente por meio da ideologia, e não da razão, os petistas atribuem esses reveses não aos erros que o partido e a presidente Dilma Rousseff cometeram, mas a uma grande conspiração das "elites" para derrubar o "governo popular".

Em flagrante estado de negação, Falcão atribuiu o enorme sucesso das manifestações do dia 15 "exclusivamente" ao suposto trabalho da "grande mídia" - responsável, segundo ele, por tirar as pessoas de casa e por inflar o número de participantes.
Com isso, o presidente do PT, bem como a maioria de seus pares, parece ter se convencido de que nada há de errado no País, que tudo vai às mil maravilhas e que, se não fosse a imprensa "golpista" a conclamar os brasileiros a se manifestar, a população não teria ido às ruas.

A receita petista para resolver esse problema é simples: tratar as verbas de publicidade do governo como se fossem do PT. O princípio da impessoalidade, que deve nortear qualquer administração pública - e está explicitamente inscrito na Constituição -, é estranho a um partido que se acredita proprietário do poder. Por enquanto, Dilma tem resistido aos insistentes apelos do PT para que submeta a imprensa aos desígnios autoritários do partido. Espera-se que seu enfraquecimento político não a faça capitular.

Os reais assaltantes – Editorial / O Globo

A Petrobras carrega no DNA fortes traços de simbologia nacionalista. Afinal, surgiu, no início da década de 50, de um amplo movimento político de que tiveram participação muito ativa os militares, conhecidos por esta característica ideológica. Grupos de esquerda também aderiram, porque se tratava de combater o “imperialismo ianque".

Passam-se os anos e a estatal, devido à sua história, continua a se prestar a toda sorte de manipulações quando grupos e corporações que se beneficiam de alguma forma da companhia se sentem ameaçados. Basta se cobrir com a bandeira do Brasil, subir em carro de som, e denunciar “conspirações” tenebrosas contra a empresa. Sempre haverá quem acredite, principalmente se alguma máquina partidária e sindical estiver por trás da manobra.

É o que acontece agora no escândalo do petrolão, cujo principal protagonista é o PT, partido que, junto com o PP e PMDB, está no centro de um gigantesco esquema montado na empresa a fim de desviar dinheiro para os partidos e candidatos das legendas.

Os relatos dos desfalques — praticados com empreiteiras que superfaturavam contratos assinados com a estatal com o objetivo de ajudar os partidos — são avassaladores. Entre os ex-dirigentes implicados no golpe, dois firmaram acordos de delação premiada, pelos quais se beneficiam de atenuação de penas ao ajudar nas investigações.

Os relatos conhecidos até agora feitos por Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Abastecimento, e Pedro Barusco, gerente-geral da diretoria de Serviços, e a prisão de Renato Duque, apadrinhado pelo PT, mas ainda em silêncio, confirmam o tamanho do escândalo. Enquanto os testemunhos transcorrem, milhões de dólares e euros têm sido bloqueados em contas no exterior. Apenas Barusco confessou ter desviado US$ 97 milhões —, pois as pessoas físicas de diretores também participaram da festa. É com base no próprio roubo que ele estima que o PT tenha recebido desse assalto algo entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões, dos quais US$ 50 milhões captados pelo próprio João Vaccari Netto, tesoureiro da legenda.

Num conhecido truque de punguismo de rua, o lulopetismo, enquanto assaltava a empresa, gritou “pega ladrão!”. E se envolveu na bandeira brasileira.

Mas os verdadeiros inimigos da Petrobras são os partidos que articularam o petrolão, com o lulopetismo à frente, representado pelo militante José Sérgio Gabrielli, presidente da estatal em quase todo o período dos saques aos cofres da empresa.

O resultado, até agora, é que a empresa perdeu o crédito no sistema financeiro global e teve a nota de risco rebaixada. E não demonstra a mínima condição de exercer o monopólio na operação nas áreas do pré-sal e deter 30% de todo consórcio formado para explorá-las. Num paradoxo, o mesmo lulopetismo que restaurou parte do monopólio estatal da companhia quase a faliu por forçá-la a subsidiar o consumo interno de combustível. E ao depená-la.

Menos distorções – Editorial / Folha de S. Paulo

• Se aprovar em definitivo o fim das coligações em eleições proporcionais, Congresso ajudará a fortalecer democracia no país

O Congresso tem a possibilidade de corrigir, num prazo de poucas semanas, uma das deformações do sistema político brasileiro. Basta votar em definitivo a proposta de emenda constitucional (PEC) que proíbe os partidos de formar coligações nas eleições para a Câmara dos Deputados, Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais.

Aprovada em primeira rodada no Senado no último dia 10, a PEC, para valer, precisará passar por um segundo escrutínio na mesma Casa e por duas apreciações na Câmara, obtendo o apoio de pelo menos 60% dos congressistas.

Dar cabo dessas coligações tornaria o processo mais inteligível para quem o vê de fora e mais racional para quem o vê de dentro. Hoje, as alianças em eleições proporcionais funcionam, de certa forma, como uma predação consentida.

As legendas maiores fornecem às menores os votos necessários para que estas consigam eleger candidatos --sem isso, dificilmente alcançam o montante mínimo necessário para ter direito a pelo menos uma cadeira. Recebem em troca, além das pouco confiáveis juras de fidelidade, algum tempo a mais no horário eleitoral.

Para o cidadão, a prática configura uma espécie de burla do voto. Quem sufraga um nome do PT, por exemplo, em teoria uma sigla de esquerda, ajuda a eleger deputados federais do PP, agremiação sucessora da velha Arena, que sustentava o regime militar.

Há mais. Como coerência não é produto em alta no mercado eleitoral brasileiro, alianças montadas num pleito são regularmente desmentidas pelas da eleição seguinte.

PT e PSDB são, no plano federal e em muitos Estados, inimigos figadais. Mas, nas eleições municipais de 2012, saíram coligados em 18% das cidades. O hábito em nada contribui para a consolidação dos partidos políticos --e, portanto, da própria democracia.

Em termos práticos, o fim das coligações tenderia a beneficiar as grandes legendas com alguma história. Simulação do pleito legislativo do ano passado feita pelo cientista político Carlos Nepomuceno mostra que, sem tais alianças, o PT teria 20 deputados federais a mais. O PMDB ganharia 13 cadeiras, e o PSDB, 10.

Os maiores prejudicados seriam o PR e o SDD, siglas que, embora tenham bancadas respeitáveis (34 e 16 deputados, respectivamente), dizem muito pouco ao eleitor. Cada um deles perderia seis vagas no cenário sem coligações.

Independentemente de quais sejam os vencedores e os derrotados, seria muito positivo se os parlamentares pusessem de fato um fim às coligações proporcionais. Fazê-lo contribuiria para aproximar o Legislativo da vontade soberana do eleitor. Poderia ajudar, também, a conter a profusão de siglas de aluguel, que tanto prejudicam a jovem democracia brasileira.

Octávio Costa - O saco de maldades tem fim?

- Brasil Econômico

Neste início conturbado de segundo mandato, a presidente Dilma Rousseff parece se inspirar nos ensinamentos do florentino Nicolau Maquiavel. Além da política extremamente realista, em que se vê obrigada a ceder às pressões das raposas do PMDB, Dilma pratica um dos conselhos mais famosos de "O Príncipe": "Quando fizer o bem faça-o aos poucos, quando for praticar o mal, fazê-lo de uma vez só". Maquiavel acreditava que, agindo assim, o governante sofria desgaste no plano imediato, mas recuperava rapidamente o respeito dos cidadãos com o pinga-pinga das boas ações. De janeiro para cá, a presidente só anunciou más notícias.

Aderiu à receita ortodoxa que prevê um forte ajuste fiscal para pôr a economia em ordem. Aprovou a revisão de tarifas, a redução da pensão das viúvas e o aumento do prazo para se habilitar ao seguro-desemprego. Deu sinal verde ao corte de despesas em setores essenciais, como Saúde e Educação. Tudo isso em nome da austeridade econômica, pregada pelo ministro Joaquim Levy, doutor pela conservadora Universidade de Chicago. O saco de maldades provocou choro e ranger de dentes até mesmo entre os partidos da base aliada. E deixou o PT à beira de um ataque de nervos. A presidente, porém, não recua um milímetro na guinada de seu governo. Não admite fazer mea culpa, diz apenas que errar é humano. A muito custo, reconhece que cometeu um erro de dosagem nas medidas adotadas para manter a economia aquecida.

Mas justifica o equívoco. Tudo foi feito, segundo ela, para minorar o sacrifício das famílias. A equipe do primeiro mandato, encabeçada por Guido Mantega, teria esticado a corda para preservar os níveis de renda e emprego. O setor público foi até onde podia, agora a sociedade tem de se dobrar ao choque de realidade. Se a política desenvolvimentista foi abandonada, é por exigência das circunstâncias. A colheita, em termos de crescimento, trará bons frutos, garante Dilma. É mera questão de paciência. Nem todos, porém, encaram o ajuste como uma fase de transição. Não creem que o suor de hoje dará vez a uma temporada de benesses. Reagem à versão otimista de que o atual plantio vai gerar uma colheita generosa. Céticos, acham que o governo abandonou o compromisso com soluções heterodoxas e se rendeu ao neoliberalismo.

O dominicano Frei Betto, compadre de Lula e amigo de Fidel Castro, pertence a esta corrente. Na entrevista desta edição do Brasil Econômico, ele se mostrou decepcionado com as mudanças e considerou paradoxal a postura do PT, que apoia a política conservadora e ao mesmo tempo defende o MST e o MTST. Faz um paralelo com o filme "Adeus, Lenin", em que uma senhora comunista sai do coma depois da queda do Muro de Berlim. Eis a comparação de Betto: "Se algum petista tivesse entrado em coma no Brasil em agosto de 2014, despertasse agora no hospital e visse o noticiário, estaria convencido de que o Aécio foi eleito. Por conta das medidas que estão sendo tomadas, que penalizam os mais pobres, enquanto não há nenhuma tributação sobe herança, sobre grandes fortunas". Na opinião de Frei Betto, a seguir assim, o ciclo do PT no poder deverá se encerrar em 2018. Até Lula, com todo seu carisma, teria a eleição ameaçada. Mas Dilma vai ficar só na maldade ou pretende pôr em prática a outra parte do conselho de Maquiavel? Será que a presidente não está elaborando um saco de bondades?

Paulinho da Viola e Beatriz Faria - Só o tempo

João Cabral de Melo Neto - Volta a Pernambuco

A Benedito Coutinho

Contemplando a maré baixa
nos mangues de Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio,
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife surgiu.

As janelas do cais da Aurora,
olhos cumpridos, vadios,
incansáveis como em Chelsea
veem rio substituir rio,

e estas várzeas de Tiúma,
com seus estendais de cana,
vem devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.

(Culturas de folhas finas
e mais discreta presença,
lá como aqui, dos desertos
possuem a transparência,

e o canavial me devolve,
na luz de páramo puro,
um mar sem ilha, os trigais
onde senti Pernambuco.)

Mas as lajes da cidade
não me devolvem só uma,
nem foi uma só cidade
que me lembrou estas ruas.

As cidades se parecem
nas pedras do calçamento,
artérias iguais regando
faces de vário cimento,

por onde iguais procissões
do trabalho (sem ardor)
vão levar o seu produto
aos mercados do suor.

Todas lembram o Recife,
este em todas se situa,
em todas em que é um crime
para o povo estar na rua,

em todas em que este crime
– traço comum que surpreende –
pôs nódoas de vida humana
nas pedras do pavimento.