segunda-feira, 29 de junho de 2015

Em editorial, ‘Post’ aponta crise na democracia brasileira

• Jornal americano avalia que Dilma enfrenta desafio para sobreviver mais três anos e meio no Planalto

Flávia Barbosa e Isabel de Luca – O Globo

NOVA YORK - A visita da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos motivou um duro editorial do jornal “The Washington Post” neste domingo. “A presidente enfrenta o desafio de sobreviver no Planalto e tentar governar por mais três anos e meio”, diz o texto, intitulado “Um retrocesso no Brasil”.

De acordo com o “Post”, “a bolha parece ter explodido”: o editorial aponta a recessão econômica e o caso Petrobras – “o maior escândalo de corrupção na História do país, com dezenas de empresários e mais de 50 integrantes do Congresso implicados” – como entraves que “provocam uma crise na democracia brasileira”.

O jornal diz que Dilma se reelegeu com um discurso de que seu principal opositor, Aécio Neves, se submeteria a banqueiros e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e ressalta que o PT se opõe às correções econômicas da presidente. “A senhora Rousseff está impondo as mesmas medidas de austeridade tipicamente defendidas pelo FMI, incluindo cortes nos subsídios de energia”, aponta o “Post”, que defende medidas liberalizantes na economia para resgatar a confiança de investidores.

O editorial cita ainda a queda de popularidade da presidente, frisando que “não será fácil” reverter o quadro. “Ela viu muito de seu poder efetivamente esvaziado por líderes congressistas, que diluíram algumas de suas medidas de austeridade”, diz. E defende a remoção de barreiras para o investimento privado doméstico e estrangeiro: “Sem isso, o futuro do Brasil permanecerá em suspenso”, conclui.

Delação anima ala do PMDB pró-rompimento

Isadora Peron – O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A publicação de trechos da delação premiada do dono da construtora UTC, Ricardo Pessoa, deu força à ala do PMDB que defende o início de um processo de afastamento do governo. A primeira bandeira levantada por esse grupo - ainda minoritário dentro da estrutura partidária - é a saída da articulação política da gestão Dilma Rousseff (PT), comandada pelo vice-presidente Michel Temer desde abril. Com o agravamento da crise política, a oposição voltará a discutir a tese do impeachment da presidente.

O PMDB é o maior partido da base aliada de Dilma. Integrantes da legenda avaliam que o conteúdo das acusações jogou a crise para dentro do Palácio do Planalto e deixou a presidente sem reação, uma vez que o seu principal auxiliar, o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, está entre os citados. Embora o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e do Senado, Renan Calhei-ros (PMDB-AL), estejam sob investigação no âmbito da Operação Lava Jato, a dissidência pee-medebista argumenta que permanecer apagando incêndios no Congresso Nacional só aumenta o desgaste da legenda.

"Concluído o processo do ajuste fiscal, ele (Temer) não precisa ficar fazendo papel de cirurgião num quadro de hemorragia", afirmou o deputado Alceu Moreira (PMDB-RS). "O PMDB tem compromisso com o Brasil. Foram feitas as votações do ajuste e acho que o Michel precisa voltar ao Jaburu, porque caso contrário vai estar em meio à crise que ele não criou" acrescenta o também gaúcho Osmar Terra (PMDB).

A articulação já foi mapeada por aliados de Temer, que agem agora para controlar o movimento. Eles argumentam que qualquer ação nesse sentido seria precipitada e retiraria o suporte político da equipe econômica. "O PMDB não pode ser autor da crise", resumiu um integrante do partido próximo a Temer. "Ninguém aqui quer jogar o País no abismo", acrescentou outro aliado do vice-presidente.

Oposição. O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), afirmou que vai se reunir no início da semana com outras lideranças da oposição para definir o que fazer diante da delação de Pessoa. O tucano, que tem sido pressionado a voltar a liderar campanha pelo impeachment, disse que as denúncias eram graves, mas exigem cautela. "O que fica mais claro, a cada dia, é que eu não perdi a eleição para um partido político, e sim para uma organização criminosa."

Aécio também defendeu o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), que foi citado na delação. Segundo ele, Aloysio, que foi o seu vice na corrida presidencial de 2014, é um "homem de bem" e recebeu uma doação legal. / R.D.C. e R.M.M.

Crise pode fazer o PT encolher em 2016

• Petistas já admitem ser difícil manter o mesmo número de prefeituras

Leticia Fernandes, Marcelo Remigio e Sérgio Roxo – O Globo

RIO e SÃO PAULO - O PT terá de se reinventar nas eleições do próximo ano para manter, pelo menos, o número de prefeituras conquistadas em 2008. Enfrentando a pior crise política e de credibilidade de sua história, que começou com o escândalo do mensalão e se estende até hoje com as investigações da Operação Lava-Jato, o partido corre o risco de reduzir drasticamente o número de municípios sob seu comando em estados como Rio de Janeiro, São Paulo e Rio Grande do Sul. A avaliação parte dos próprios caciques da legenda, a começar pelo ex-presidente Lula, que disse estar o partido abaixo do volume morto.

Desgaste maior em SP
Em São Paulo, onde os petistas avaliam que o desgaste da legenda é ainda maior, dirigentes reconhecem que será difícil manter as atuais 68 prefeituras. A principal preocupação do partido e de Lula é com a capital, a maior cidade do país. A gestão de Fernando Haddad é reprovada por 44% dos paulistanos, segundo pesquisa Datafolha de fevereiro. Aliados são pessimistas ao analisar as chances de reeleição.

Para agravar a situação, Haddad foi citado por Ricardo Pessoa, dono da UTC, como um dos beneficiados pelas propinas do Lava-Jato. Ontem, em São Paulo, ao inaugurar a ciclovia, o prefeito de São Paulo foi lacônico a respeito:

- Minhas contas foram aprovadas pela Justiça eleitoral e estão à disposição de todos vocês.

Questionado se achava que estava havendo vazamento seletivo das informações da operação, o petista desconversou:

- Eu não acho nada. Eu acho que tudo tem que ser apurado: se tem denúncia, tem que apurar. Quanto mais apuração, melhor, porque as pessoas de bem contam com a Justiça - afirmou Haddad.

Para tentar vencer o cenário adverso, Haddad tem distribuído secretarias em troca de apoio na eleição e, assim, maior tempo de televisão. Ganharam espaço no governo PMDB, PDT e PR. Depois da capital, os petistas temem por cidades do ABC, berço do partido. Na eleição de 2012, a legenda perdeu a prefeitura de Diadema, simbólica por ter sido a primeira do país a ser governada pelo PT em 1982. Em São Bernardo, o prefeito Luiz Marinho tem uma gestão bem avaliada, mas está no segundo mandato e não pode se reeleger. A dúvida é saber se ele conseguirá transferir a sua popularidade para seu candidato. Em Santo André e Mauá, os prefeitos Carlos Grana e Donisete Braga enfrentaram problemas de popularidade, e a possibilidade de reeleição deles é vista com desconfiança no partido.

- Nas capitais, a questão nacional vai pegar mais - diz o deputado estadual Luiz Turco, presidente do PT de Santo André.

Líder do PT na Assembleia Legislativa do Rio, Carlos Minc demonstra preocupação com o risco de redução do número de prefeituras do PT. Das 92 cidades, 11 são governadas por petistas, e, segundo o parlamentar, caso o partido não retome antigas bandeiras, não conseguirá eleger nem cinco prefeitos. Minc defende a retomada do diálogo com os movimentos sociais e sindicais e as minorias. Ele ressalta que, entre erros e acertos, o partido não apoiou suficientemente seus prefeitos e deixou de desenvolver políticas públicas.

O deputado estadual Altemir Tortelli (PT-RS), vice-presidente do PT gaúcho, acredita que o partido poderá sofrer um revés nas urnas. No Rio Grande do Sul, o PT tem 73 das 497 prefeituras. Mas não governa Porto Alegre, maior colégio eleitoral, nem Caxias do Sul, o segundo.

- Não tenho dúvida de que as conjunturas econômica e política, se mantidas, criarão impacto forte nas eleições municipais, sobretudo nas grandes cidades. Questões como a situação do governo e a Lava-Jato passam a ser parte da vida dos parlamentos. Se o ambiente de agora for o de 2016, o impacto será grande nas campanhas - disse Tortelli.

Capitais são prioridade
O deputado defende ainda a necessidade de "chacoalhar" a presidente Dilma Rousseff:

- Precisamos chacoalhar a presidente para que ela não se esqueça de que assumiu compromissos no segundo turno, e em grande parte não os está colocando em prática. Queremos que ela reveja seu rumo.

Segundo o vice-presidente nacional do PT, Alberto Cantalice, todas as capitais serão prioridade em 2016. Onde não for cabeça de chapa, a sigla indicará vices. Cantalice afirma que o PT trabalha com a previsão de aumento de prefeituras, tendência observada nas últimas eleições. Mas reconhece que o processo eleitoral será difícil e que precisa ser precedido da recuperação da economia. Em 2008, o PT conquistou 544 prefeituras; em 2012, 636.

- O partido vive hoje sob forte pressão, mas temos militância. Nas quatro eleições suplementares que aconteceram, por exemplo, ganhamos três - disse.

Dilma decide sobre permanência de Edinho e Mercadante

Leandra Peres, Andrea Jubé e Sergio Lamucci - Valor Econômico

NOVA YORK e BRASÍLIA - O novo capítulo da Operação Lava-Jato instalou a crise política dentro do Palácio do Planalto, que até então parecia preservado do escândalo de corrupção na Petrobras. As novas denúncias atingem os dois principais auxiliares da presidente Dilma Rousseff: o ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva. Dilma foi aconselhada por outros ministros, durante a viagem aos Estados Unidos, a decidir o destino de ambos assim que retornar ao Brasil. A ordem é para que os ministros se defendam, inclusive com o argumento de que a delação não é prova definitiva.

Dilma despachou com ministros no avião oficial no trajeto para Nova York e demonstrou tranquilidade ao desembarcar nos Estados Unidos. O Valor apurou que a presidente quis saber como foi a repercussão das entrevistas concedidas por Mercadante e Edinho no sábado para prestar esclarecimentos sobre a delação premiada do presidente da UTC, Ricardo Pessoa, cujo teor vazou para a imprensa. Segundo relatos de assessores, Dilma ouviu que Mercadante demonstrou firmeza em suas declarações, mas Edinho, "sinais de abatimento".

Mas quem conhece a presidente sabe que ela não tomará decisões precipitadas. Primeiro porque as denúncias recaem sobre dois de seus auxiliares mais próximos, Mercadante e Edinho. Em segundo lugar, porque dependem de outras provas para serem confirmadas. A avaliação é que o quadro se agrava somente se a delação provocar a abertura de inquérito ou denúncia contra os ministros no Supremo.

Além disso, Edinho personifica a própria Dilma, na qualidade de coordenador financeiro. Afastá-lo seria quase uma confissão de culpa. "Se ela dispensar Edinho, estará dispensando o tesoureiro de sua campanha", contemporizou ao Valor um ministro que integra a comitiva oficial. "E numa campanha, só quem tem mais intimidade com o candidato que o tesoureiro, é o marido ou a mulher", definiu.

Mercadante e Edinho pedirão ao ministro Teori Zavascki, relator dos inquéritos relativos à Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal, acesso à íntegra do depoimento de Pessoa porque até o momento, só conhecem as acusações divulgadas pela imprensa. A advogada Maíra Salomi, que integrou a banca de advocacia do ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, representará Edinho no Supremo.

O vazamento da delação na sexta-feira mobilizou a cúpula do governo. Por determinação de Dilma, ministros permaneceram em Brasília no final de semana em sucessivas reuniões para avaliar a repercussão dos novos fatos. O Valor apurou que Dilma ficou incomodada, principalmente, com trechos do vazamento que levantam suspeita sobre a legalidade das doações à sua campanha à reeleição. Ela está convencida, segundo interlocutores, que há vazamento seletivo a fim de desestabilizar o seu governo.

Entre sexta-feira e sábado, Dilma fez duas reuniões de emergência com Mercadante, Edinho e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo no Palácio da Alvorada antes de embarcar para os Estados Unidos. Os três foram mobilizados a prestarem esclarecimentos em entrevista coletiva. Cardozo sublinhou que a delação premiada "não é prova definitiva". Mercadante relatou que Dilma os orientou a fazer todos os esclarecimentos necessários, porque seu governo "tem que ter transparência, atitude e coragem".

Pessoa afirmou que teria sofrido achaque para fazer as doações à campanha, que totalizaram R$ 7,5 milhões. Edinho nega a suposta pressão sobre o empreiteiro e ressalta que o referido valor foi declarado ao Tribunal Superior Eleitoral, que auditou e aprovou por unanimidade a prestação de contas. "Como tesoureiro, dialoguei com dezenas de empresários, nenhum fez qualquer afirmação que insinuasse que meus diálogos não tivessem ocorrido dentro da legalidade, com lisura e transparência", disse Edinho.

Mercadante destacou a legalidade das doações da UTC e da Constran, também do grupo de Pessoa, à sua campanha ao governo de São Paulo em 2010. Confirmou as contribuições no valor de R$ 500 mil, conforme informou o delator ao Ministério Público, mas ressaltou que os valores foram declarados à Justiça Eleitoral e suas contas foram aprovadas. Ele observa que há um "padrão de comportamento" da UTC, que doou para os principais candidatos em 2010. Cita que para o atual governador Geraldo Alckmin (PSDB) a empreiteira doou R$ 1,4 milhão, e que para o candidato do PMDB, Paulo Skaf, também foi R$ 500 mil. "Há um interesse pragmático nas doações", diz o ministro, lembrando que a empreiteira conduz obras em São Paulo no metrô e em rodovias.

Oposição volta a pedir afastamento da presidente

Folhapress / Valor Econômico

BRASÍLIA - Partidos de oposição pediram anteontem o afastamento da presidente Dilma Rousseff devido ao vazamento do conteúdo da delação premiada do empreiteiro Ricardo Pessoa, que disse ter financiado a campanha da petista em 2014 para evitar perder negócios com a Petrobras. O Planalto e o PT negam ter recebido dinheiro de forma irregular.

"Se ela (Dilma) não pedir o afastamento e as apurações, estará, com seu silêncio e inércia, dando veracidade ao conteúdo da delação", disse o líder do PPS, Rubens Bueno (PR).

Já o líder do DEM no Senado, Ronaldo Caiado (GO), afirmou que as afirmações de Pessoa, dono da UTC, deveriam levar à abertura de um processo de impeachment contra Dilma. "Esse depoimento de Ricardo Pessoa é a prova que as campanhas de Dilma foram irrigadas com dinheiro roubado da Petrobras. Isso é motivo mais que suficiente para Dilma perder o mandato e para convocarmos novas eleições", afirmou.

Se Dilma sofrer um impeachment, quem assume é o vice, Michel Temer (PMDB-SP). Novas eleições só ocorrem se ambos, Dilma e Temer, forem impedidos. Se isso acontecer nos dois primeiros anos de mandato, há um novo pleito direto. Nos dois últimos, uma eleição indireta no Congresso. Em ambos os casos, o país é comandado interinamente pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

Em nota na noite de sexta, o presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), justificou a menção do seu companheiro de chapa na eleição presidencial de 2014, senador Aloysio Nunes Ferreira Filho (PSDB-SP), como um dos beneficiários do caixa 2 da UTC.

"São doações ocorridas dentro da legalidade e integralmente declaradas à Justiça Eleitoral no ano de 2006, não cabendo, portanto, qualquer relação com o esquema ora investigado pela Polícia Federal e pela Justiça de desvios de recursos públicos para abastecimento de campanhas do PT e de aliados. 

Trata-se de um senador de oposição sem qualquer vinculo com a estrutura de governo petista e de seus ministérios", disse Aécio. Aloysio teria recebido ilegalmente R$ 200 mil, de acordo com a delação premiada de Ricardo Pessoa, conforme publicou a revista "Veja". 

Dilma barrou Mercadante para não ‘transportar’ crise à visita aos EUA

Rafael Moraes Moura e Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

• Planalto manteve ministro no Brasil a fim de evitar contaminação de ‘agenda positiva’ no compromisso internacional; titular da Casa Civil foi citado em delação de dono da UTC; presidente se encontra hoje com investidores americanos e Barack Obama

NOVA YORK, BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff iniciou neste domingo, 29, sua viagem oficial aos Estados Unidos com a preocupação de não deixar que a principal aposta de sua agenda internacional este ano seja contaminada pela citação dos ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Comunicação Social) na delação premiada do empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC. Dilma se encontra hoje com investidores americanos e o presidente Barack Obama.

A decisão de manter Mercadante em Brasília foi tomada na reunião emergencial convocada na sexta-feira à noite, no Palácio da Alvorada, justamente para evitar que a crise embarcasse junto com a comitiva presidencial. A medida, acreditam auxiliares da presidente, serviu para proteger o governo do escândalo e deixá-lo circunscrito ao território nacional e minimizar o desconforto com o episódio.

Em um momento considerado crucial para a agenda positiva do governo, o Planalto quis evitar que um dos ministros mais próximos de Dilma fosse obrigado a dar novas explicações à imprensa nos Estados Unidos, enquanto as atenções estão voltadas à atração de novos investidores e no resgate da credibilidade da economia perante a comunidade internacional.
“A viagem vai servir para dizer que o governo não está afogado em uma série de notícias negativas circunstanciais”, comentou um integrante da comitiva presidencial à reportagem.

Com a revelação do teor da delação, uma ala do governo passou a defender internamente o afastamento de Mercadante e de Edinho, mas por ora Dilma mantém o voto de confiança nos ministros e não cogita mudanças. Para essa ala, a nomeação de Edinho Silva para a Secretaria de Comunicação Social (Secom) arrastou a crise para as proximidades do gabinete da presidente.

Ricardo Pessoa entregou à Procuradoria-Geral da República planilha intitulada “Pagamentos de caixa dois ao PT” na qual lista repasse de R$ 250 mil à campanha de Mercadante ao governo de São Paulo, em 2010. O empresário acusa Edinho de tê-lo pressionado para doar R$ 7,5 milhões à campanha de Dilma em 2014, sob o risco de perder contratos na Petrobrás, segundo a revista Veja. Os dois ministros negam as acusações e dizem que as doações foram legais.

“O Edinho, ao invés de estar defendendo o governo, está tendo de se defender das denúncias”, comentou outro auxiliar da presidente Dilma. “Cada vez que ele tem de sair do papel de ministro da Secom para defender o governo e encarnar o papel de tesoureiro e responder denúncia, fica muito ruim pra Dilma, porque respinga nela pela proximidade.”

Defesa. Pessoas próximas a Mercadante admitem que o petista permaneceu no País não apenas pela gestão da Casa Civil e a articulação de votações no Congresso, mas também para articular a defesa do governo junto com Edinho e o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo. Mercadante nega irregularidades na arrecadação de recursos da sua campanha para o governo de São Paulo, em 2010.

Questionado se a delação ofuscaria a viagem de Dilma aos EUA, o titular da Casa Civil disse que é preciso separar uma coisa da outra. “A pauta positiva do Brasil tem de ter espaço também, não é possível que só tenha notícia quando é notícia ruim”, afirmou. “Isso (a delação) não pode ser colocado como fumaça pra impedir o tamanho que esse País tem, a importância que temos, a relação com a principal economia do mundo”, disse Mercadante.

Lula. O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vai aproveitar a viagem da presidente aos Estados Unidos para negociar com líderes do Congresso saídas para a crise política. Nessa segunda, em Brasília, Lula terá conversas reservadas com parlamentares do PT. Aliados do ex-presidente esperam uma nova rodada de críticas a Dilma no encontro. Lula considera o governo “letárgico” e “apático” diante das recentes denúncias de irregularidades. Segundo ele, o partido não pode ter a mesma postura. A estratégia do ex-presidente, no entanto, enfrenta resistências, uma vez que aliados não querem se desgastar perante a opinião pública, já refratária ao partido.

Outro ponto que tem incomodado o ex-presidente é o fato de Dilma ter limitado a influência dos ministros Jaques Wagner (Defesa) e Ricardo Berzoini (Comunicações) no núcleo duro de tomada de decisões do Planalto.

Apesar da alta dos juros, inflação deve subir e atingir o pico nos próximos meses

Márcia de Chiara, Luiz Guilherme Gerbelli - O Estado de S. Paulo

O brasileiro vai ter de continuar a enfrentar uma inflação elevada nos próximos meses, com risco de chegar a dois dígitos, apesar do enfraquecimento da atividade econômica. Por ora, as projeções dos economistas indicam que o momento mais crítico está por vir. Entre julho e agosto, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a medida oficial de inflação, pode atingir até 9,5% no acumulado em 12 meses. Se a previsão se confirmar, será o maior nível desde novembro de 2003.

O temor de que a inflação alcance 10% em 12 meses no começo do segundo semestre existe por causa da pouca margem para absorver qualquer aumento de preço, como um reajuste da gasolina, que está defasada, ou um comportamento atípico de preços, como ocorreu com alimentos in natura na prévia do IPCA de junho.

Nesse cenário complicado, também existem pressões de custos que estão sendo repassadas gradualmente para o varejo, o que podem puxar mais ainda a inflação para cima no curto prazo. "Um espirro pode jogar a inflação em 12 meses para 10%", disse o economista da LCA Consultores, Fabio Romão. Ele espera um IPCA 9,5% em 12 meses para julho e de 8,9% para o ano.

No horizonte traçado pela consultoria Tendências, o IPCA deve atingir o pico em 12 meses de 9,3% em agosto. No ano, deve ficar em 8,9%. Alessandra Ribeiro, sócia da consultoria, não descarta a possibilidade de que o IPCA atinja dois dígitos no acumulado em 12 meses nos próximos meses, mas pondera que esse não é o cenário mais provável. "Alguns itens do lado dos administrados estão difíceis de serem antecipados", observou. Em junho, por exemplo, a revisão do IPCA foi causada por uma surpresa: o aumento dos jogos lotéricos, que subiram quase 40%.

Essa também é a avaliação do professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, Heron do Carmo. "A inflação corretiva (provocada pelo aumento das tarifas) não acabou."

Resistência
Uma conjugação desfavorável de aumentos de preços está dando resistência à inflação no curto prazo, mesmo com o aperto monetário promovido pelo Banco Central. No início deste mês, a taxa básica de juros, a Selic, subiu pela sexta vez seguida, para 13,75% ao ano e voltou para o nível de 2008.

Entre os fatores que mantêm o IPCA em níveis elevados estão o reajuste dos preços administrados, como energia e combustíveis, ocorrido no primeiro trimestre, e que até agora tem efeitos indiretos sobre os custos dos prestadores de serviços e das indústrias.

"Mesmo que a demanda não esteja em ritmo forte, a indústria repassa alguma coisa da alta de custos para os preços a fim de manter um pouco da margem", explicou Salomão Quadros, coordenador dos Índices Gerais de Preços da Fundação Getúlio Vargas. Ele acha que o pico da inflação acumulada em 12 meses será 9,3% em agosto.

Para Romão, da LCA, a desvalorização do câmbio, de cerca de 30%, entre setembro do ano passado e março, também é uma pressão de custos para as indústrias. Ele ressaltou que os estragos provocados pela crise hídrica nos preços dos produtos in natura deve continuar. Historicamente os preços desses alimentos caem 3,4% em junho, mas as projeções indicam alta de 1,8%.

Mercado vê forte desaceleração em 2016

Luiz Guilherme Gerbelli e Márcia de Chiara - O Estado de S. Paulo

O ciclo de aperto monetário promovido pelo Banco Central (BC) tem conseguido conter as expectativas inflacionárias de longo prazo. Parte dos analistas espera que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) volte para o centro da meta (4,5%) a partir 2017.

Para 2016, apesar de os economistas consultados no relatório Focus terem revisado a projeção do IPCA de 5,70% para 5,50% desde o início do ano e a perspectiva seja de desaceleração, o diretor de Política Econômica do Banco Central, Luiz Pereira Awazu da Silva, apontou na semana passada fatores "positivos e menos positivos" que podem explicar a relativa resiliência da inflação em relação à meta de 4,5%. Entre eles, está a inércia inflacionária, que é alta no País.

Para o economista-chefe do Banco Fibra, Cristiano Oliveira, o fato de a inflação esperada para 2016, 2017 e 2018 ter recuado ou se mantido estável "é sinal de que o mercado está levando a sério a política monetária do Banco Central".

Estragos. Enquanto há incertezas sobre a tendência do comportamento da inflação no médio e longo prazos, o fato é que uma política de alta de juros em busca de uma inflação menor no futuro provoca estragos na economia real.


"A alta de juro é inócua. A economia já está andando para trás", diz José Ricardo Roriz Coelho, diretor do Departamento de Competitividade e Tecnologia da Federação das Indústria do Estado de São Paulo. "O aumento da Selic encarece o produto. Há o aumento do custo de capital de giro no processo de produção." A pesquisa de Intenção de Investimento da Fiesp mostra que 29,7% dos recursos usados pelas empresas neste ano virão de terceiros.

A combinação da alta de custo de capital e de insumos, afetados pelo câmbio e tarifas, levou, por exemplo, a fabricante de plásticos MVC a demitir 40% dos funcionários.

Embora a política monetária esteja custando caro para empresas e cidadãos, a pior opção, dizem analistas, seria o BC manter o mesmo tom dos primeiros quatro anos do governo Dilma Rousseff no combate à inflação.

Na avaliação de Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia da USP e um dos maiores especialistas em inflação, se o País não fizesse esse ajuste correria o risco de perder os ganhos obtidos desde a estabilização, proporcionados pelo Plano Real. "Sem o ajuste, correríamos risco de a inflação desgarrar. Já vimos esse filme."

Para Heron, o País está num baixo-astral econômico há mais de 30 anos, com períodos de crescimento a 4% e outros de 2% e a inflação em níveis altos. "Agora é a oportunidade de fazer um ajuste que coloque a inflação em trajetória de queda, recuando para 3% e, com isso, recuperar a possibilidade de que o País volte a crescer."

Mercado projeta inflação de 9% em 2015 e espera contração maior do PIB

Ana Conceição – Valor Econômico

SÃO PAULO - Os analistas do mercado financeiro elevaram suas estimativas para os juros e para a inflação e reduziram novamente a previsão para a atividade econômica neste ano, de acordo com o boletim Focus, do Banco Central (BC).

A mediana das previsões para o avanço do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu pela 11ª semana consecutiva, de 8,97% para 9%. A aposta para a taxa Selic também aumentou, de 14,25% para 14,50%. As previsões para 2016 foram mantidas em 5,50% e 12%, respectivamente. Atualmente, o juro está em 13,75% ao ano e a inflação em 12 meses até maio acumulou alta de 8,47%.

Os analistas também elevaram a estimativa para o IPCA de junho, de 0,68% para 0,72% de aumento.

Na semana passada, ao divulgar o Relatório Trimestral de Inflação, o BC corroborou as apostas em um aperto monetário mais prolongado. Isso porque as projeções para o IPCA ainda não colocam a inflação em 4,5% no fim de 2016, horizonte que a autoridade monetária definiu como alvo da política de juros. “Estamos 200% focados em trazer a inflação para 4,5% no final de 2016”, afirmou, na ocasião, o diretor de Política Econômica do BC, Luiz Awazu Pereira.

O Focus mostra que a expectativa para o aumento dos preços administrados (luz, água, etc.) neste ano continua subindo, pressionando a inflação geral. O reajuste previsto para esse conjunto de preços passou de 14,50% para 14,60%. Há um mês estava em 13,9%.

Quanto à atividade, a previsão agora é de uma queda de 1,49% do Produto Interno Bruto (PIB), ante recuo de 1,45% estimado antes. É a sexta revisão consecutiva para baixo. A expectativa para 2016 também foi revista para baixo - em vez de crescimento econômico de 0,70%, os analistas consultados pelo BC preveem expansão de 0,50%, metade do que era esperado há um mês.

Top 5
Os analistas Top 5, os que mais acertam as previsões, elevaram a estimativa para o IPCA neste ano, de 8,83% para 8,92% de alta (mediana de médio prazo), e mantiveram a expectativa para 2016 em 5,21% de aumento. A taxa Selic ao fim de 2015 seguiu estável em 14,25% e a do fim do próximo ano passou de 11,56% para 11,75%.

Eduardo Cunha: 'Precisamos discutir o parlamentarismo no Brasil para valer, e votar'

Entrevista

• Presidente da Câmara dos Deputados defende mudança no sistema de governo a partir de 2019 e diz que começou a negociar emenda com partidos governistas e oposição

Andréia Sadi, Bruno Boghossian – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), começou a negociar com outros partidos uma emenda à Constituição para implantar o sistema parlamentarista de governo no Brasil. Ele espera obter um acordo para colocar a proposta em votação antes de 2017, quando termina seu mandato no comando da Câmara.

"Temos que discutir o parlamentarismo no Brasil, e rápido", disse, em entrevista à Folha. Ele sugere que o sistema, que daria ao Legislativo papel preponderante na administração do país, reduzindo poderes do presidente da República, comece a funcionar em 2019, com o sucessor da presidente Dilma Rousseff.

"Agora seria um golpe branco", afirmou Cunha. "O tema tem ganhado força. Tenho conversado com quase todos os agentes políticos." O deputado acha que a economia brasileira chegará ao fim do ano pior do que está agora, como diz nesta entrevista.


Folha - A semana foi de notícias ruins para o governo na política e economia. O sr. acredita que a presidente Dilma aguentará os quatro anos?

Eduardo Cunha - Apesar de derrotas pontuais, o governo conseguiu passar uma impressão de recuperação da estabilidade com a aprovação do projeto das desonerações. Claro que não é suficiente para reverter nada. O mercado não vê o governo como agente indutor [de mudanças na economia]. Se você falar com nove de dez economistas, estamos muito mais perto do caminho da Grécia do que do caminho da China.

A aprovação do ajuste fiscal e a escolha do vice-presidente Michel Temer para o comando da articulação política não deveriam garantir a estabilidade?

Com uma articulação politica debilitada, o governo precisou chamar o Michel para poder andar. Ele entrou e passou um sinal claro de que tinha uma estabilidade política maior e aprovou [o ajuste fiscal]: ele pegou um vaso todo quebrado e conseguiu colocar uma cola que você não vê que estava colado --pelo menos colou um pouquinho.

Se ele ficar vendendo ilusão ou virando garçom para anotar pedido de Congresso e não conseguir resolver nada, acaba se desgastando, e a gente não quer que aconteça. Essa percepção, com a entrada do Michel, parte para essa melhora, mas o governo tem que mostrar suas ações.

Deputados dizem que não votam com o governo porque cargos e emendas não são liberados para partidos aliados.

Estão reclamando porque eles [o governo] continuam com a política de hegemonia, que quer tudo para o PT. Se o PMDB não ocupou o cargo que foi prometido, esse deputado vê que o cargo está ocupado por um petista. O governo prometeu e não cumpriu.

E quem não está cumprindo os compromissos?

Isso eu não vou dizer. Não pode ser o Michel, porque ele não vai aceitar esse papel. Se o Michel tiver que desempenhar o papel de uma pessoa sem palavra, ele vai sair.

Como acha que a economia estará no fim do ano, e como o PMDB deverá reagir?

Eu acho que a economia vai chegar ao fim do ano muito mal, pior do que está hoje. E quando ela chegar pior, a pressão política vai ser maior, e é aí que o governo precisa ter uma base mais sólida.

Se apresentarem um novo pedido de impeachment de Dilma, a Câmara aprova?

Não podemos tratar o impeachment como recurso eleitoral. Avança-se ou não se houver um fato dentro da ótica constitucional.

O TCU (Tribunal de Contas da União) indica que pode reprovar as contas da presidente.

Se o TCU reprovar as contas do mandato anterior, não quer dizer nada. Se há práticas neste mandato condizentes com improbidade, é outra história. Impeachment é uma coisa grave. O Brasil não é uma republiqueta. A grande evolução que se deve ter é que temos que discutir o parlamentarismo no Brasil, e rápido. Um debate para valer e votar.

Já conversou sobre o assunto?

O tema tem ganhado força. Tenho conversado com quase todos os agentes políticos, PSDB, DEM, PPS, PMDB, PP, PR, com todos os partidos. Com José Serra (PSDB-SP), Aécio Neves (PSDB-MG), Tasso Jereissati (PSDB-CE). Com certeza, vamos tentar votar na minha presidência.

Para agora?

Não um parlamentarismo para ser implantado no mandato dela [Dilma Rousseff], porque isso seria um golpe branco, mas no mandato do sucessor. Para que efetivamente a gente possa ter a figura do chefe de Estado e do chefe de governo. E as condições que possam nos proteger de uma crise igual a essa que a gente vive. Se a gente não evoluir para o sistema parlamentarista no Brasil, vamos ficar sujeitos a crises.

Existe uma dúvida jurídica: como houve o plebiscito [em 1993] que culminou na não aprovação do parlamentarismo, há dúvidas se uma simples emenda constitucional seria suficiente ou se precisaria de plebiscito, ou referendo. Acho que, sem referendo, é muito difícil implementar o parlamentarismo.

Então, o próximo presidente não seria chefe de governo?

Seria um chefe de Estado.

Por que, na sua visão, o parlamentarismo não passou no plebiscito de 1993?

Porque você não consegue convencer a população de que ela vai perder o direito de votar no presidente da República. Então, se a gente construir uma figura em que ela continua votando no presidente, você pode ter um parlamentarismo.

A população não aceitará perder a identidade com seu presidente. Precisamos proteger esse presidente eleito das crises do governo. Se esse modelo tivesse vigente e ela [Dilma] fosse chefe de Estado, teria caído o chefe de governo e o governo. Dissolve o gabinete e ponto.

O Estado é laico, mas há uma bíblia sobre a Mesa Diretora da Câmara, um crucifixo no plenário e sr. abre as sessões com "sob a proteção de Deus". O Estado não é tão laico assim?

Eu botei o crucifixo e a bíblia no plenário? Todos abriram a sessão assim. Daqui a pouco vão dizer que eu inventei isso tudo, que trouxe o crucifixo, e vão errar, porque evangélico não usa crucifixo.

Mas não há uma contradição entre as práticas do Congresso e a definição de estado laico?

Estado laico significa não ter religião de Estado. Não significa que você tenha que ser ateu. É diferente de Israel, onde a Constituição é a Bíblia.

Mas não estamos em Israel.

Alguém reclamou outro dia que 20 deputados entraram no plenário e fizeram apitaço? Vão dizer que eu permiti o apitaço e daqui a pouco vão dizer que sou índio. Sou evangélico e permiti oração no plenário. O fato de 20 parlamentares entrarem no plenário gritando ou fazendo uma oração qualquer não significa que você está agredindo o Estado laico.

Mas o comportamento pessoal de um parlamentar influencia no voto dele.

Qual o problema? Você colocou na Constituição que um parlamentar para se eleger tem que ser laico ou ateu?

Em relação à pauta conservadora...

Que pauta conservadora?

A legalização do aborto, a homofobia...

Cadê o projeto de aborto para ser votado aqui? Não tem projeto de criminalização da homofobia com urgência aqui. Para ter urgência, tem que ter líderes que representem a maioria. Não tem um projeto que atenda a essas condições, nem vai ter porque não tem esse apoio.

Há excesso nas prisões da Lava Jato, comparando com o processo do mensalão, conduzido por Joaquim Barbosa?

Joaquim, sem abandonar o rigor com que ele conduziu o processo, não decretou nenhuma prisão preventiva no curso da investigação, só executou a sentença depois do trânsito em julgado. O que significa que ele respeitou o princípio constitucional da presunção da inocência, o que me parece que não está sendo respeitado hoje.

O sr. está sob investigação. Renan Calheiros também. E ambos propõem mudanças para melhorar o país após a Lava Jato. Não há um conflito?

Por quê? Não me sinto atingido pela suposta investigação que está sendo feita. E não perdi minha capacidade de legislar nem articulação e capacidade política de reagir. Não vou comentar minha participação neste processo.

A delação de Ricardo Pessoa complica a situação de Aloizio Mercadante, após sua citação, e da governabilidade?

Ainda é cedo para falar. Tem de ver detalhes e o desdobramento da delação.

O sr. é candidato em 2018?

Para cada dia a sua agonia. Não vivo em política o dia de amanhã, vivo o dia de hoje. Qualquer um que queira colocar como projeto de vida candidatura futura vai ser refém do projeto. Eu não pretendo transformar minha vida e ficar refém de nada.

O projeto que reduz a maioridade penal será aprovado?

Depois de 22 anos, eu coloquei o projeto para votação. Quando eu coloquei, o próprio PT e o governo passaram a querer discutir mudança no ECA [Estatuto da Criança e do Adolescente], que eles não admitiam qualquer mudança. Aí, de repente, acharam que podiam evitar a derrota discutindo mudança em lei ordinária do ECA.

Foram buscar uma aliança com a oposição [PSDB] contra o PMDB. Aí o PMDB se juntou com o partido de oposição que eles buscaram aliança em uma tese intermediária. Então, provavelmente a tese será vencedora e mais uma vez o governo mergulhou na tese do PT.

Aécio Neves - Propaganda enganosa

- Folha de S. Paulo

O desapreço do governo petista pelos limites fixados pela lei, ou recomendados pelo bom senso, já é conhecido dos brasileiros. Começa pelas pedaladas fiscais, passa por mentiras eleitorais e chega à corrupção generalizada.

Agora, temos mais uma demonstração de como, sem constrangimento, o governo financia com recursos públicos a divulgação de mentiras.

Basta ver a milionária propaganda que foi ao ar para tentar justificar o ajuste fiscal. Ela deixou de prestar contas ou informar à população, transformando-se em mera peça partidária que alterna opinião, autoelogio, dados questionáveis e mentira pura e simples.

Transcrevo os principais trechos do comercial levado a milhões de brasileiros. "("¦) O mundo passa por uma crise cujos efeitos no Brasil foram amenizados com ações do governo federal ("¦) O governo manteve o crescimento do emprego e da renda (...) e a ampliação dos créditos subsidiados ao acesso à educação. Conquistas garantidas. (...) Os direitos trabalhistas e benefícios conquistados estão todos assegurados (...) As tarifas de energia tiveram que ser aumentadas em função da seca."

A propaganda fere a lei e a verdade. Fere a lei pois deixa de informar para opinar (ações do governo amenizaram a crise, por exemplo). Agride a verdade quando diz que o crescimento do emprego e a ampliação dos créditos subsidiados para a educação estão mantidos. Ou quando afirma que os direitos trabalhistas estão todos assegurados e que as tarifas de energia aumentaram por causa da seca.

Ao contrário do que diz o governo, dados oficiais evidenciam o aumento do desemprego e a diminuição dos investimentos na educação. Direitos trabalhistas foram reduzidos. E chegamos ao absurdo de ver a seca responsabilizada pela crise sem precedentes que atingiu o setor elétrico.

Semana passada, o juiz federal Ricardo Coelho Borelli, da 20ª Vara do TRF da 1ª Região, determinou a suspensão da campanha, afirmando que "a publicidade feita pelo governo federal ofende diretamente os princípios basilares da boa administração pública, trazendo inconsistências entre sua divulgação e o efetivamente ocorrido".

Diante da gravidade desse fato, é justo que se indague quem, agora, informará à população que ela foi enganada.

É para responder a esse tipo de abuso que apresentei, no Senado, projeto de lei que responsabiliza gestores públicos pela divulgação de informações não confirmadas por fontes confiáveis e obriga governos, quando for o caso, a pagarem pelo esclarecimento.

Hoje o Brasil sabe que o PT mentiu para vencer as eleições. E agora percebe que ele continua mentindo. Só que com o nosso dinheiro.

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Aécio Neves é senador (MG) e presidente nacional do PSDB

Ricardo Noblat - Em jogo, a cabeça de Dilma

- O Globo

"Quando criamos uma bola dessas (de folha de bananeira), nós nos transformamos em Homo sapiens ou mulheres sapiens".- Dilma, presidente

O escândalo em torno da roubalheira na Petrobras subiu a rampa do Palácio do Planalto, onde despacham o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Edinho Silva, o ministro-chefe da Casa Civil da Presidência da República, Aloizio Mercadante, e a presidente da República, Dilma Rousseff. Em outro front, bateu à porta do Instituto Lula, na capital paulista, onde costuma ser encontrado o ex-presidente.

DE DUAS, uma. Ou o empresário Ricardo Pessoa, dono da UTC, chefe do cartel de empreiteiras que roubou a Petrobras, é um delirante formidável ou fala a verdade. Sua delação premiada contém detalhes capazes de causar inveja a bons romancistas. O que um delator conta à Justiça só vale se for provado. Se mentir, perderá o direito a uma pena menor. Qual a vantagem de mentir, portanto?

PESSOA DISSE que pagou propina a políticos de vários partidos e ao PT com dinheiro desviado de contratos superfaturados para prestação de serviços à Petrobras. Edinho, tesoureiro da campanha de Dilma no ano passado, tomou dinheiro de Pessoa. Bem como Mercadante, candidato ao governo de São Paulo em 2010. Bem como Lula, naturalmente, para a campanha que o reelegeu em 2006.

DILMA VIAJOU de cabeça quente ao encontro de Bara ck Obama. Por sinal, sempre que o então presidente José Sarney viajava, Fernando Henrique Cardoso repetia : "A crise viajou" . O comentário não se aplica a Dilma. A crise não é somente ela. A crise tem mais a cara de Lula e do PT. De Lula, que inventou Dilma. Dele e do PT, que protagonizaram até aqui os maiores escândalos da História do país.

O MENSALÃO É a mais ruidosa obra do primeiro governo Lula. Virou trocado ao se comparar com a roubalheira na Petrobras. Dilma não é inocente no caso da Petrobras. Quem foi ministra de Minas e Energia, presidente do Conselho de Administração da Petrobras e sempre fez questão de cuidar dela, não pode ser inocente. Lula, porém, por obra, graça ou omissão, é o responsável por tudo.

DILMA NÃO passa de uma gerentona sem talento, arrogante, refratária a pessoas em geral e dona de ideias econômicas ultrapassadas. Está sobrando na espaçosa cadeira que ocupa. Para agravar a desdita dela — ou melhor, a nossa —, é vítima de algo tão nativo como a jabuticaba. Pois Lula inverteu a ordem natural das coisas e age como o criador que tenta agora destruir a criatura.

LULA ELEGEU Dilma para mandar no governo dela e sucedê-la depois de quatro anos. Dilma nem deixou que ele mandasse tanto, nem renunciou ao direito de concorrer ao segundo mandato. Há mais de um ano, Lula só faz criticá-la — ultimamente, porque teme ser preso e acha que Dilma nada faz para defendê-lo. Até que, há 15 dias, Lula ultrapassou todos os limites. Declarou guerra a Dilma. Ele e o PT.

PROCEDE como um implacável adversário dela, enfraquecendo-a — e ao seu governo — por toda parte. Emite sinais de que, no limite, poderá entregar a cabeça de Dilma para preservar a sua. Não duvidem. Lula é amoral e dá provas disso com frequência. Se necessário, negociará com o PMDB e outros partidos aliados do PT a substituição de Dilma por Michel Temer, o vice-presidente. EM 2018, se quiser ou se puder , tentaria voltar ao lugar de onde jamais gostaria de ter saído. (Saudades do sanduíche de ovo ser vido a qualquer hora da madrugada!) Afinal, foi nele, ou a partir dele, que descobriu os luxos que só as grandes fortunas proporcionam.

José Roberto de Toledo - Na prancha com Obama

- O Estado de S. Paulo

Quando Barack Obama visitou o Rio e Brasília, em março de 2011, a popularidade de Dilma Rousseff deu um pulo. Sem fazer nada além de ouvir o colega norte-americano elogiá-la e ao Brasil, a presidente ganhou 10 pontos em sua taxa de aprovação. Na época, Dilma estava em alta e nem tentou aproveitar a onda provocada por Obama para surfar. Perdeu os 10 pontos em poucas semanas.

Dois anos e meio depois, quando era hora de a brasileira retribuir a cortesia e ir à Casa Branca, alguém soprou no seu ouvido que era melhor a presidente ficar no Palácio do Planalto e fazer cara de indignada, diante da revelação de documentos por Edward Snowden que mostravam que Dilma fora espionada pela Agência Nacional de Segurança dos EUA – junto com meio mundo.

Pareceu aos sábios palacianos boa ideia peitar os EUA e impor condições a Obama. A presidente tentava se recuperar da avalanche que soterrara sua popularidade após os protestos de junho de 2013. Demonstrar independência podia ajudar. Foi assim que Dilma ganhou alguns fugazes pontos em sua taxa de aprovação. Seis meses depois, ela já havia perdido tudo que ganhara com a bravata. E as relações Brasil-EUA tinham regredido meia década.

Agora, com uma popularidade collorida e quase dois anos de atraso, Dilma está finalmente visitando Obama na Casa Branca. Não que o governo norte-americano tenha se curvado aos protestos brasileiros. Simplesmente passou-se tempo suficiente para os sábios palacianos acharem que ninguém se lembra mais disso.

A hora é boa. O presidente norte-americano está na crista da onda novamente. Obama acaba de deixar registrada mais uma imagem histórica ao cantar "Amazing Grace" durante o enterro do pastor chacinado com outros oito negros por um racista branco de 21 anos – e aproveitar o momento para tentar arrancar reformas do Congresso para diminuir as disparidades raciais nos EUA.

No mesmo dia, o presidente ajudou a criar uma onda mundial de bandeiras multicoloridas e multiplicar a hashtag #LoveWins nas redes sociais, após a Suprema Corte dos EUA aprovar o casamento de pessoas do mesmo sexo em todo o país. Pouco antes, Obama comemorara outra vitória, quando o mesmo tribunal enterrou a tentativa de brecar seu programa de saúde universal.

Nada disso mexe muito com a popularidade de Obama em seu próprio quintal – pois lá como cá o país é bipartido entre yankees e confederados, democratas e republicanos. Quem é contra ele por ser negro e liberal continuará sendo contra. Globalmente, porém, esses avanços na legislação projetam uma imagem cada vez mais progressista e realizadora do presidente norte-americano.

E o que Dilma pode ganhar pegando carona na prancha de Obama mais uma vez? Depende muito do que ele disser sobre ela e sobre o Brasil. Se elogiar como elogiou das outras vezes, a brasileira pode ter alguma esperança de "pegar um tubo" graças ao anfitrião - afinal, foi Obama quem transformou Lula em "o cara".

Do lado brasileiro, porém, o governo não aproveitou a onda como poderia. Antes de visitar o Brasil, em 2011, Obama discursou para seus eleitores explicando o que faria aqui. Nada se destacava mais na nuvem de palavras de sua fala do que "jobs". Isto é: ele vinha fazer negócios e gerar empregos nos EUA.

Dilma está tentando a mesma coisa, mas pouca gente sabe. Não houve discurso. Entre outros motivos, porque a cúpula do Planalto estava, mais uma vez, discutindo como fazer para não ser espirrada pela Lava Jato.

Para piorar, está para sair nova pesquisa Ibope/CNI sobre a popularidade de Dilma. A avaliação foi feita antes da viagem aos EUA (mais ou menos na mesma época em que o Datafolha captou 65% de opiniões ruim/péssimo sobre o governo). A infeliz coincidência pode levar à conclusão – precipitada, é verdade – de que nem Obama é capaz de fazer Dilma voltar a surfar.

Valdo Cruz - Horror sem fim

- Folha de S. Paulo

A ruindade das coisas chegou a tal ponto que um empreiteiro, no meio do furacão da Operação Lava Jato, lembra citação famosa para pedir um epílogo para tanta confusão: melhor um fim horroroso do que um horror sem fim.

Seu desejo é que tudo acabe logo na investigação do petrolão para que as empreiteiras façam suas contas de perdas e danos, paguem seus pecados --em alguns casos são bem enormes-- e recomecem sua vida. Algumas, talvez quase do zero.

Tem empreiteira que, depois do sacode causado pela descoberta do petrolão, calcula que seu tamanho será reduzido a meros 10% do atual. Uma tragédia para quem estava em plena expansão de seus negócios.

Só que o caminho pela frente ainda é longo. A delação do empresário Ricardo Pessoa eleva a sensação de que estamos numa espiral de horror sem luz no fim do túnel. Há quem diga até que nem entramos no túnel para esperar pela luz no seu final.

O que causa, agora, tremor não só no mundo das empreiteiras, mas também no Palácio do Planalto e, principalmente, em Lula e no PT. As revelações de Pessoa de caixa dois na campanha da reeleição do petista, se confirmadas, são um tiro fatal.

Acendeu-se o sinal de alerta vermelho no Planalto e no PT. Em alguns casos, a reação beira o desespero. Petistas reclamam que o ministro José Eduardo Cardozo (Justiça) perdeu o controle da Polícia Federal. Ops, a solução então é prender a PF? A mesma que eles gabavam de ser livre para investigar.

Dilma e seu time estão furiosos porque estariam criminalizando só doações feitas a petistas, enquanto a de tucanos, não. Ops, de novo, então se todo mundo faz, tudo bem? O negócio é jogar todo mundo no mesmo balaio para salvar a todos?

Enquanto isso, inclusive por isso, a economia agoniza, o ajuste fiscal se arrasta, os juros sobem, o desemprego também. Ufa, está tudo um horror sem fim. Até as desesperadas tentativas de defesa do petismo.

Murillo de Aragão - Nova realidade institucional

- O Globo

• O ponto de inflexão foi o mensalão, que colocou o Executivo sob escrutínios nunca vistos. As eventuais tentativas de domesticar o julgamento foram por águas abaixo

O Brasil em 2015 é, definitivamente, um novo país em termos institucionais. As relações entre os poderes mudaram radicalmente. O elemento detonador desse processo foi a insistência do Poder Executivo em manter-se, no mandato passado, em uma posição de distanciamento e até alheamento frente aos demais poderes.

A relação entre o Palácio do Planalto e o Congresso foi dura e pontuada de momentos de crise e insatisfação, que resultaram na retomada do processo de votação dos vetos presidenciais, na aprovação do Orçamento Impositivo, na devolução da medida provisória da desoneração, entre outras iniciativas percebidas como gestos de confronto.

A nova realidade institucional está se impondo pelo fato de o Congresso ter entendido que tem uma ampla reserva de poderes, nunca utilizada de forma consciente e consistente. Seja por que estava cooptado pelas benesses do fisiologismo. Seja porque não tinha plena consciência de seu poder. O fato é que, por uma ou outra razão, ou por ambas, a situação mudou. E o Executivo terá de aprender a lidar com ela.

Mas a nova realidade institucional também atingiu o relacionamento entre o Executivo e o Judiciário. O ponto de inflexão foi o julgamento do mensalão, que colocou o Executivo sob escrutínios nunca vistos. As eventuais tentativas de domesticar o julgamento foram por água abaixo.

No fim das contas, o julgamento do mensalão reafirmou uma tendência que se mantém agora, quando o petrolão começa a avançar nas instâncias superiores. São tempos novos, que foram alimentados, entre outras coisas, pela demora de se indicar o novo ministro do Supremo Tribunal Federal, cuja aprovação foi, no mínimo, tormentosa. Como consequência, aprovou-se a PEC da Bengala, que retirou da presidente Dilma Rousseff a possibilidade de indicar cinco novos ministros do STF.

Outro vetor do reequilíbrio institucional está nas atitudes e decisões iniciais do Tribunal de Contas da União com relação às "pedaladas fiscais" do primeiro mandato Dilma. Nunca antes na História do Brasil, para usar um bordão conhecido, o TCU foi tão longe em questionar as contas de um governo. A ponto de esse questionamento poder resultar em grave condenação.

Temos ainda uma discussão já evidente em torno do federalismo. Não cabe mais a antiga hegemonia do Executivo federal sobre estados e municípios. A autonomia existente sobre parte expressiva da arrecadação de contribuições deixará de existir. Uma nova repartição de receitas e responsabilidades deve ocorrer nos próximos anos. Viveremos uma nova época federalista, que dará outra feição ao poder antes hegemônico do Executivo federal sobre os demais entes federados.

Os fatos aqui mencionados impõem uma séria reflexão. O que devemos esperar dessa nova realidade? Provavelmente, mais crises e mais confrontos, até que as placas tectônicas do novo modelo se acomodem. São as dores de uma democracia nascente que vive um surto de fragmentação de poder nunca antes visto no país. É uma nova realidade institucional num país em que o presidente da República sempre foi "Sua Majestade", como escreveu Ernest Hambloch nos anos 30.

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Murillo de Aragão é cientista político 

Marcus Pestana - Nau sem rumo: Dilma no volume morto

- O Tempo (MG)

O processo histórico é caracterizado pela alternância de períodos de calmaria e turbulência. As crises são as parteiras da história. É quando a sociedade, a partir da experiência acumulada, pode enfrentar seus mitos, problemas, gargalos e desafios. A luta entre o velho e o novo é complexa. A crise pode ser enfrentada com ousadia e coragem ou com covardia e mediocridade. Decisões tomadas hoje podem viabilizar ou aniquilar o horizonte das novas gerações. O Brasil está em marcha lenta, gradual e segura para um futuro nada glorioso.

Vivemos a maior crise econômica pós-real. Investimentos públicos e privados em queda, consumo despencando, equilíbrio fiscal ameaçado, esgotamento do endividamento das famílias, comércio exterior afetado pelo fim do boom das commodities, recessão com crescimento negativo, inflação alta, setores como o energético e o petrolífero desorganizados pela intervenção equivocada do governo. E qual é a resposta do governo? Aumento de juros e impostos e cortes pouco criteriosos de gastos.

A calibragem da terapia é a chave do sucesso; pode matar o doente, já que toda medida tem sempre efeitos colaterais. O aumento de juros não só introduz incremento de despesa no financiamento da dívida pública, que anula boa parte do esforço de corte de gastos, como pode desvalorizar o dólar, desestimulando as exportações e agravar a queda da atividade econômica e da arrecadação tributária.

Para agravar o quadro, temos o maior escândalo da história brasileira contaminando nossa maior empresa estatal e levando de contrabando para o ralo outro forte setor da economia, o da construção pesada, essencial para o desenvolvimento da política de privatizações, concessões e parcerias com o setor privado.

Paralelo a isso, vivemos uma crise política. O governo Dilma perdeu o controle do Congresso, não tem maioria sólida para governar. O PMDB fez um realinhamento tático e patrocina um protagonismo inédito no Congresso. Assistimos a um bonapartismo sem rumo, uma nau perdida em meio à tempestade. Ninguém apoia Dilma. Nem a sociedade, como bem demonstrou a recente pesquisa Datafolha, em que 65% dos brasileiros rejeitam o governo, nem o PMDB com sua tática de morde e sopra, nem o próprio PT, acuado e esfacelado pela operação Lava Jato e pelo estelionato eleitoral cometido.

Dilma se tornou uma presidente ausente, sem liderança, sem apoio, sem condições de governar. E seu criador, o ex-presidente Lula, apimentou o quadro dizendo que ele e Dilma estavam no volume morto – último refúgio de soluções nas represas de água –, e o PT abaixo dele. E que o partido perdeu o sonho e a utopia e só pensa em cargos e eleições. Cinismo, hipocrisia ou um lapso de realismo?

Fato é que o governo Dilma precocemente acabou. A realidade exige uma mudança profunda. Lula, Dilma e o PT não são fonte de soluções. Alguma coisa terá que acontecer. Só o destino sabe quais serão os caminhos para a mudança necessária.

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Marcus Pestana é deputado federal (PSDB-MG)

Marcos Nobre – Maioridade

- Valor Econômico

• Experimentar ser adulto não é já ser adulto

A maioridade virou caso de polícia. No debate sobre a redução da maioridade penal, só que se discutiu foi o "penal". A "maioridade" mesma foi para segundo plano, reduzida à possibilidade de mandar uma pessoa para a cadeia aos 16 anos. O adjetivo tomou todo o espaço do substantivo.

Quem defende a redução da maioridade diz coisas como: se alguém pode votar aos 16 anos, pode muito bem ir para a cadeia por ter cometido um crime. Ou ainda: crianças e adolescentes hoje têm experiências antes exclusivas de adultos e uma pessoa de 16 já deve ser considerada como adulta. A posição em favor da redução da maioridade ecoa preocupações com a sexualização de crianças, com a violência dos filmes e dos games, com o acesso considerado precoce às experiências do sexo, das drogas e do álcool.

Mas a questão que realmente importa é: o eventual acesso de crianças e adolescentes a experiências consideradas antes como típicas da vida adulta faz de um adolescente ou de uma criança um adulto? Fazer essa pergunta significa refletir sobre as razões pelas quais se estabeleceu uma idade de passagem para a vida adulta. É da maioridade que se trata aqui e não apenas de seu aspecto penal.

Há quase dois séculos, Hegel caracterizou a modernidade como composta por três instituições fundamentais: a família, a sociedade civil e o Estado. Vista nesse quadro, a família se mostra como uma instituição essencial para a formação de indivíduos autônomos. É uma esfera protetora em relação aos imperativos do mercado e do comando estatal, em uma fase de aprendizado e de descoberta.

Todas essas instituições passaram por mudanças estruturais em duzentos anos. A família burguesa que era o modelo de Hegel é hoje uma instituição aberta a uniões estáveis, configurações monoparentais e homossexuais. O que se entende por família inclui diferentes arranjos de pais separados, configurações plurinacionais e multiétnicas. É cotidiana e miúda a luta contra a reprodução da divisão sexual do trabalho típica de uma sociedade machista. O direito de família e mesmo o direito penal regulam algumas relações que antes pertenciam apenas à esfera da privacidade. A psicologia e a psicanálise ensinaram que a família também produz e reproduz patologias que podem bloquear uma formação autônoma dos indivíduos.

São transformações que dão prova de uma impressionante maleabilidade dessa instituição, capaz de comportar mudanças profundas sem alterar seu papel social fundamental. São mudanças que mostram que a família é até hoje um espaço insubstituível para a formação de uma pessoa. É o lugar em que pode se dar uma socialização protegida de crianças e adolescentes.

Esse "pode se dar" é necessário para lembrar que esse espaço de proteção é negado cotidianamente a milhões de crianças e jovens. Uma redução da maioridade penal acabaria por institucionalizar essa negação de um direito. Um direito que diz o que se quer ser como sociedade e não a sociedade tal como existe.

É claro que assusta que crianças e adolescentes tenham acesso a experiências que há cinquenta anos eram reservadas ao mundo adulto. Mas esse é um caminho sem volta. Não há controle familiar que dê conta das portas abertas pela internet e pela convivência escolar. A única saída virtuosa para essa nova situação histórica é reconhecer que crianças e adolescentes precisam ter cada vez mais capacidade de decidir por si mesmos. Para isso, precisam de cada vez mais informação - e não menos. Têm aprender a fazer as experiências com a consciência possível dos riscos envolvidos.

É isso o que se pretende dizer quando se afirma que crianças e adolescentes são hoje "já adultos". Mas o fato de crianças e adolescentes terem cada vez mais cedo acesso a experiências de adultos não os torna menos crianças e menos adolescentes. Apenas faz deles crianças e adolescentes diferentes de algumas décadas atrás. Não significa de modo algum que não precisem de proteção para experimentar e aprender. Podem mesmo precisar de mais proteção do que antes.

Quem é contra a redução da maioridade é contra a redução da fase de descoberta e aprendizado pessoal e cidadão. Sabe que essa proteção especial nesse período de formação é essencial para que a lógica do mundo adulto não se imponha cedo demais, que o espaço de experimentação seja preservado. Experimentar ser adulto não é já ser adulto.

Não é por outra razão, por exemplo, que o voto entre 16 e 18 anos é facultativo, não é por outra razão que pessoas nessa faixa etária não podem se candidatar a cargos eletivos. Têm a faculdade de aprender o que é o exercício de um componente fundamental da cidadania em um ambiente ainda protegido. Não deixaria de ser um belo exercício de formação, aliás, perguntar aos adolescentes nessa idade o que pensam da redução da maioridade. Dar-lhes voz também no debate público seria um interesse exercício de aprendizagem cidadã.

Mas o rumo regressivo que tomou a discussão não tem admitido esse tipo de generosidade social. Porque há exceções, pretende-se mudar a regra. Porque há crimes cometidos por adolescentes, conclui-se que todos devem ser considerados adultos. Muda-se o que se entende por maioridade em nome da possibilidade de mandar alguém para a cadeia. Até mesmo em nome de pesquisas de opinião que dão ampla maioria a favor da redução da maioridade.

Em seu texto "Respondendo à pergunta: o que é o Esclarecimento?", Immanuel Kant sustentou que não vivia em uma época esclarecida, mas em processo de esclarecimento. Para ele, Esclarecimento (ou Iluminismo) é sinônimo de maioridade. Para Kant, a humanidade é culpada por sua própria minoridade.

Do século 18 para cá, o Esclarecimento já não é mais aquele, bombardeado que foi por críticas, fundadas e infundadas. Mas o problema colocado por Kant permanece: a maioridade de uma sociedade não é a soma da maioridade de seus integrantes, é uma sociedade ela mesma maior. A redução da maioridade penal é mais um obstáculo que a sociedade se põe a si mesma no caminho para sair de sua minoridade.

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Marcos Nobre é professor de filosofia política da Unicamp e pesquisador do Cebrap.

Mario Vargas Llosa - Exercício de sobrevivência

- O Estado de S. Paulo

Quando, aos 20 anos, Jorge Semprún decidiu aderir a um dos grupos da Resistência Francesa contra o nazismo, o chefe da Jean-Marie Action, a rede na qual ingressaria, o alertou: “Antes de aderir, precisa saber a que riscos você estará sujeito”. E o apresentou a “Tancredo”, um sobrevivente das torturas às quais a Gestapo submetia os combatentes do “maquis” que capturava. Semprún sofreria as atrocidades que descreveu, dois anos mais tarde, quando, por causa da delação de um infiltrado, caiu numa emboscada preparada pelos nazistas na fazenda de Joigny, onde se escondia.

O pesadelo transformou-se em realidade. A imersão nas águas geladas de uma banheira repleta de lixo e excrementos, a privação do sono, as unhas arrancadas, o estalar de todos os ossos ao ser atirado do telhado com os pés amarrados às mãos, os choques elétricos e as surras selvagens nas quais o desmaio representava uma libertação.

Jamais, antes de escrever esse livro publicado postumamente na França – Exercices de Survie –, Semprún havia falado em primeira pessoa da tortura, o horror extremo a que pode ser submetido um ser humano do qual os algozes não só tentam arrancar a informação, mas que também querem humilhar, tornar indigno e traidor dos irmãos de luta.

Embora, no entanto, nunca a tivesse mencionado a seu respeito, a experiência o acompanhou como uma sombra e supurou sua memória durante todos os anos de sua juventude e maturidade na Resistência e em suas periódicas visitas clandestinas à Espanha como enviado do Partido Comunista para lançar uma ponte entre os dirigentes no exílio e os militantes do interior.

Nesse livro inacabado, um simples esboço – e, entretanto, lúcido e comovente –, Semprún revela que a tortura – a lembrança das que sofreu e a perspectiva de voltar a suportá-las– foi sua mais íntima companheira entre seus vinte e quarenta anos. Ele a descreve como o apogeu da ignomínia que pode exercer a besta humana convertida em algoz e como a prova decisiva para, superando o espanto e a dor, alcançar as mais altos valores da dignidade e da decência.

Em suas reflexões sobre o significado da tortura não há autocomiseração ou arrogância, mas um pensamento que vai além do superficial e chega ao fundo da condição humana. Em Buchenwald, seu chefe do “maquis” o felicitou por não ter delatado ninguém durante os suplícios – “Nem foi preciso mudar os esconderijos e as senhas”, disse–e o comentário de Semprún não pode ser mais parco: “Me alegra ouvir isso”. Em seguida, explica que a resistência à tortura é “uma vontade inumana, sobre-humana, de superar o padecimento, da busca de uma transcendência” que encontra sua razão no descobrimento da fraternidade.

Um ser humano, submetido à dor, pode ceder e falar. Mas também pode resistir, aceitando que a única saída desse sofrimento selvagem é a morte.

É o momento decisivo no qual o farrapo ensanguentado derrota o torturador, aniquilando-o moralmente, embora esse acabe convertendo-o em cadáver e em seguida vá tomar um trago.

Nessa vitória silenciosa e atroz, o humano se impõe ao desumano, a razão ao instinto bestial, a civilização à barbárie– por existirem seres assim no mundo, é algo ainda possível.

Acertadamente, Régis Debray, autor da apresentação de Exercices de Survie, compara Jorge Semprún a André Malraux, que também padeceu as torturas dos nazistas sem falar seus algozes não sabiam quem era a pessoa que torturavam – e, como aquele, foi capaz de transformar “a experiência em consciência”. Foi igualmente o caso, na Espanha, de George Orwell, quase assassinado pelos próprios companheiros pelos quais fora à Espanha lutar, e de Arthur Koestler, esperando em uma cela em Sevilha a ordem de fuzilamento expedida pelo general Queipo de Llano.

São eles, e os milhares de seres anônimos que, em circunstâncias parecidas, agiram com a mesma coragem, os verdadeiros heróis da história, com mais pertinência que os heróis épicos, vencedores ou perdedores de grandes batalhas, vistosas como as superproduções cinematográficas. Eles não têm monumentos e, em sua grande maioria, sequer são lembrados ou mesmo conhecidos, porque agiram no mais absoluto anonimato. Não era seu intento salvar uma nação ou uma ideologia. Só que não foi a força bruta, mas sim o espírito racional e o sentimento o que prevaleceu nesse mundo sobre o preconceito racial e a intolerância criminosa diante do adversário político, a civilização criada com enormes esforços para arrancar os seres humanos do estado bestial e organizar suas sociedades a partir de valores que permitam a coexistência na diversidade e permitam reduzir – já que erradicá-la totalmente é impossível – a violência nas relações humanas.

Jorge Semprún foi um desses heróis discretos graças aos quais o mundo em que vivemos não está pior do que é – e sempre resta uma margem de esperança. Nascido numa família abastada, escolheu desde muito jovem, sacrificando sua vocação pela filosofia, militar no Partido Comunista e desaparecer na clandestinidade usando pseudônimos, lutando contra o nazismo e o franquismo, padecendo por isso o inferno da tortura, do campo de concentração, muitos anos de clandestinidade que o obrigaram a viver desafiando diariamente longas penas no cárcere ou uma morte horrível.

E tudo isso para quê? Para descobrir, ao entrar na etapa final de sua existência, que o ideal comunista ao qual havia dado tanto, estava corrompido até à medula e que, se triunfasse, teria talvez criado um mundo ainda mais discriminatório e injusto do que aquele que ele pretendia destruir.

Alguns ex-comunistas se mataram e outros ruminaram sua frustração na neurose ou num lancinante silêncio. Jorge Semprún, não. Ele continuou lutando, procurando explicar o que compreendeu no final em livros que são testemunhos extraordinários de como a verdade pode ser fugidia e de quão frequentemente ela e a mentira se mesclam de tal maneira que parece impossível identificá-las. Sem jamais cair no pessimismo, encontrando razões suficientes para continuar militando em busca de um mundo melhor, ou, pelo menos, mais tolerável, com menos injustiças e menos violências, e mostrando que sempre é possível resistir, corrigir, reiniciar essa guerra na qual só podemos contemplar vitórias momentâneas, porque, como diz Borges no poema aos seu bisavô que lutou em Junin, “a batalha é eterna e pode prescindir da pompa, de visíveis exércitos com clarins”.

Embora o último livro de Semprún evoque o mais espantoso dos temas - a tortura -, terminamos de lê-lo sem cair na desesperança, porque, além da brutalidade e da maldade demoníacas, há em suas páginas, rechaçando-as, idealismo, generosidade, valentia, convicção moral e razões sólidas para sobreviver. / Tradução de Anna Capovilla

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Mario Vargas Llosa é escritor peruano e prêmio Nobel de Literatura

João Bosco, Roberta Sá e Trio Madeira Brasil - De Frente Pro Crime

Vinicius de Moraes - A criação na poesia

(fragmento)

O poeta parte no eterno renovamento. Mas seu destino é fugir sempre ao homem que ele traz em si.

O poeta:
Eu sonho a poesia dos gestos fisionômicos de um anjo!

E um só clamor saía de todos os peitos e vibrava em todos lábios — Ariana!
E uma só música se estendia sobre as terras e sobre os rios — Ariana!
E um só entendimento iluminava o pensamento dos poetas — Ariana!

Assim, coberto de bênçãos, cheguei a uma floresta e me sentei às suas bordas — os regatos cantavam límpidos
Tive o desejo súbito da sombra, da humildade dos galhos e do repouso das folhas secas
E me aprofundei na espessura funda cheia de ruídos e onde o mistério passava sonhando
E foi como se eu tivesse procurado e sido atendido — vi orquídeas que eram camas doces para a fadiga
Vi rosas selvagens cheias de orvalho, de perfume eterno e boas para matar a sede
E vi palmas gigantescas que eram leques para afastar o calor da carne.

Descansei — por um momento senti vertiginosamente o húmus fecundo da terra
A pureza e a ternura da vida nos lírios altivos como falos
A liberdade das lianas prisioneiras, a serenidade das quedas se despenhando.
E mais do que nunca o nome da Amada me veio e eu murmurei o apelo — Eu te amo, Ariana!
E o sono da Amada me desceu aos olhos e eles cerraram a visão de Ariana
E meu coração pôs-se a bater pausadamente doze vezes o sinal cabalístico de Ariana...

Depois um gigantesco relógio se precisou na fixidez do sonho, tomou forma e se situou na minha frente, parado sobre a Meia-Noite
Vi que estava só e que era eu mesmo e reconheci velhos objetos amigos.
Mas passando sobre o rosto a mão gelada senti que chorava as puríssimas lágrimas de Ariana
E que o meu espírito e o meu coração eram para sempre da branca e sereníssima Ariana
No silêncio profundo daquela casa cheia da Montanha em torno.