sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Rogério Furquim Werneck - Coisa de quem não conhece Brasília

• Documento do PMDB ‘Uma ponte para o futuro’ delineia proposta consequente e bem articulada de ajuste fiscal

- O Globo

Nas últimas semanas, o país se deu conta de que os danos da devastação fiscal perpetrada pela presidente Dilma foram muito maiores do que se supunha. Se as contas das pedaladas pendentes tiverem de ser quitadas ainda este ano, o governo deverá registrar déficit primário recorde, da ordem de 2% do PIB, em 2015. Em meio ao desalento com as proporções assustadoras da reconstrução fiscal que agora se faz necessária, merece toda a atenção o surpreendente documento, de 19 páginas, dado a público pelo PMDB, na semana passada, sob o título “Uma ponte para o futuro”.

Não se pode dizer que os alertas que o documento ressalta sejam inéditos. De uma forma ou de outra, a maior parte deles vem sendo brandida no debate econômico nacional há pelo menos duas décadas: o dispêndio do governo não pode continuar crescendo ao dobro da taxa de crescimento do PIB; as contas da Previdência Social se tornarão insustentáveis, a menos que as regras de acesso aos benefícios previdenciários sejam extensamente alteradas; o emaranhado de regras de indexação do gasto público e de vinculações de receitas a programas específicos de dispêndio tem de ser desfeito, para conferir flexibilidade ao Orçamento.

Mas quem quer que tenha tentado fazer tais alertas ao longo dos últimos 20 anos teve clara sensação de estar clamando no deserto. Propostas de reforma fiscal baseadas nestas ses alertas eram invariavelmente descartadas, in limine, como “coisa de quem não conhece Brasília”.

A ideia é que “quem conhecia Brasília” sabia que a única forma de manter as contas públicas sob controle era continuar elevando a carga tributária para acomodar a expansão sem fim do gasto público. E não foi por outra razão que, nas campanhas presidenciais de 2002, 2006 e 2010, questões relacionadas à contenção de dispêndio público foram sistemática e solenemente ignoradas, tanto por candidatos governisa como de oposição.

É por isso que o surpreendente documento do PMDB merece atenção. Talvez seja excesso de otimismo, mas não se pode descartar a possibilidade de que o aguçamento da crise fiscal — ou, diriam alguns, exacerbação das contradições na área fiscal —, ao cabo de cinco anos de desmandos da presidente Dilma, esteja, afinal, propiciando à classe política visão mais lúcida das reais possibilidades de saída da crise.

É bem verdade que o PMDB é um partido para lá de problemático. E não faltará quem argua, com boa dose de razão, que seria ingênuo e precipitado alimentar expectativas de que um arquipélago de forças políticas regionais com inegáveis inclinações populistas, longa tradição de fisiologismo e inesgotável propensão a se atrelar ao governo do dia esteja, agora, de fato, disposto a subscrever uma agenda séria de reforma fiscal, na contramão do que vem defendendo há tantos anos.

A reação natural, portanto, é suspeitar que tenha gato nessa tuba. E concluir que o mais provável é que esse documento não tenha maiores consequências e esteja só desempenhando mais um papel inconfessável, na complexa e intensa agenda de negociações do PMDB com o Planalto.

Pode até ser. Mas se a intenção era produzir um documento evasivo e anódino, o texto falhou por larga margem. Está bem escrito e objetivo e, exceto algumas poucas escorregadelas, faz todo sentido. E diz o que precisa ser dito.

Seja como for, é notável que um partido da relevância do PMDB, com 67 deputados e 17 senadores, esteja de algum modo associando seu nome a uma proposta consequente e bem articulada de ajuste fiscal, distinta do triste pacote de ajuste pelo lado da receita, na velha linha preconizada por “quem conhece Brasília”, que o governo, no desespero, quer ver aprovado a toque de caixa.

Em meio ao clima de desalento e alta incerteza em que está imerso o país, a iniciativa do PMDB pode vir a ter desdobramentos importantes, especialmente se for confirmado que o documento conta com respaldo efetivo do vice-presidente da República.
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 Rogério Furquim Werneck é economista e professor da PUC-Rio

Claudia Safatle - Recessão decorre da queda do investimento

• Políticas públicas causaram danos para as empresas

- Valor Econômico

A recessão, que começou no início de 2014, decorre da forte queda do investimento das empresas não financeiras e, em especial, das companhias afetadas por políticas públicas com destaque para Petrobras, Eletrobras e o setor de etanol.

As causas do ciclo recessivo, sua intensidade e duração são objeto de intenso debate entre os economistas. Até mesmo o ajuste fiscal proposto este ano pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, parcialmente implementado, é apontado como razão da queda do nível de atividade e do emprego.

A análise dos balanços de 761 empresas de 2010 para cá - sendo 320 empresas não financeiras de capital aberto e 441 das maiores companhias de capital fechado - indica que houve retração equivalente a 3,8% do PIB nos investimentos desse grupo em 2014 comparado a 2010. Metade da queda, 1,9% do PIB, teve origem nos investimentos das empresas afetadas por políticas públicas.

As empresas do grupo Petrobras e etanol tiveram os efeitos do controle de preços dos combustíveis e, a partir de 2014, das investigações da Operação Lava-Jato. No setor elétrico, os problemas decorreram da redução de tarifas associada a mudanças de vigência dos contratos de concessão. Na indústria de transformação, a retração dos investimentos foi de 1,3% do PIB, e nas empresas não afetadas por políticas públicas, de 1,7% do PIB. Na Vale, a queda foi de 0,2% do PIB no período.

Essas são algumas das conclusões do trabalho "Investimento e Recessão na Economia Brasileira", um extenso estudo com base nos balanços das empresas desde 2010, coordenado pelo economista Carlos Antônio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Instituto Ibmec. Há, segundo ele, estreita correlação entre as taxas anuais de crescimento do investimento fixo de 1997 para cá e do PIB, conforme demonstrado no gráfico abaixo.

"Tudo indica que o ciclo recessivo ora em curso teve início no começo de 2014, quando as taxas anuais de crescimento do investimento e do PIB começam a cair acentuadamente", diz. O investimento já apresentava variação negativa de 1,8% partir do terceiro trimestre de 2014; e o PIB começou a cair dois trimestres adiante, a partir do primeiro trimestre de 2015.

Desde o quarto trimestre de 2010, último ano do segundo mandato do presidente Lula, porém, já é notável a perda de dinamismo da economia brasileira, apesar de um curto suspiro em 2013.

O estudo constata que houve quedas do lucro bruto, do lucro retido, do lucro líquido e da rentabilidade das empresas analisadas na amostra, decorrentes da diminuição de margem. Essas caíram porque as empresas não conseguiram repassar para os preços finais todo o aumento do custo de produção vindo tanto dos aumentos reais de salários - que a partir de 2010 ocorrem sem aumento da produtividade - quanto de outros custos domésticos, da elevada carga tributária às mazelas da infraestrutura. E por estarem, também, sob a concorrência dos produtos importados beneficiados por uma valorização da taxa de câmbio.

O impacto maior desses problemas se deu sobre as companhias afetadas por políticas públicas. A forte redução dos lucros e taxas de rentabilidade menores do que o custo do capital estariam, portanto, na raiz da queda do investimento.

Dos balanços das empresas afetadas por políticas públicas conclui-se, ainda, que elas distribuíram dividendos em valor superior ao lucro retido em 2014, que teve queda de 0,96% do PIB. Tais dividendos foram pagos com o aumento do endividamento, já que não havia excedentes de caixa, explicou Rocca. Na indústria de transformação também houve diminuição dos lucros retidos em 2014, mas com resultados ainda positivos de 0,24% do PIB.

A redução do lucro líquido no universo da amostra resultou em rentabilidade inferior ao custo de capital. Até 2011 a taxa de retorno do capital próprio superava a Selic. De 2012 a 2013, a remuneração do investimento da empresa era igual ou menor do que a aplicação em títulos do governo. Em 2014, a taxa média caiu para 4,3% ao ano, inferior à inflação.

O controle de preços e a taxa de câmbio valorizada - dois grandes limitadores dos resultados das empresas - foram equacionados este ano. Com uma taxa de câmbio de R$ 3,90, porém, apenas o setor de bens consumo não duráveis estaria com a defasagem preços/custos de produção eliminada. Para os demais, a defasagem ainda permanece, diz Rocca. Não é possível, porém, resolver tudo com câmbio. Há um universo a explorar para dar competitividade à economia a começar da redução do custo do capital, para a qual é imperativo o ajuste fiscal e bons indicadores de solvência.

Se a recessão decorre da retração dos investimentos, a recuperação deve vir da expansão dos investimentos. Apenas a área de infraestrutura, que não esbarra na restrição da demanda, poderia começar a puxar a economia pela expansão do setor privado.

Para isso, no entanto, seria preciso superar a crise política, implementar o ajuste fiscal, retomar a confiança dos empresários e dar fim aos riscos regulatórios que se acumulam.

Vinicius Torres Freire - O ano que não existiu

- Folha de S. Paulo

Passamos o ano a falar de coisas imaginárias e desastres reais.

Foi um ano consumido pela tentativa de impeachment que fracassou, mas nem por isso houve governo.

Foi um ano em que a política econômica para este ano ficou para o ano que vem.

Foi um ano em que o programa do maior partido de oposição, em tese engraçada o PSDB, foi adotado, reproduzido e ampliado pelo partido maior da situação, na triste realidade o PMDB, o partido de todas as situações.

Terá sido um ano em que a economia voltará ao tamanho que tinha quando Dilma Rousseff era candidata a presidente pela 1ª vez, em 2010.

Um ano de vazios e regressos, talvez apenas de cadeias mais cheias, mas até aí ainda sobra espaço para quem deveria estar lá.

Considere-se.

Apesar das tentativas de requentar estratégias de abater a presidente da República e dos propósitos insondáveis desse despropósito que é o presidente da Câmara, sabe-se que o impeachment é um jogo adiado para depois do Carnaval, ou "sine die".

Ontem, o Banco Central disse oficialmente "Feliz Ano Velho" à política econômica.

No ano do fez de conta, intenção era levar a inflação à meta de 4,5% em 2016. Agora, acertar a meta fica para 2017. O objetivo para 2016 é evitar que o IPCA supere o teto da meta, como em qualquer dos anos Dilma Rousseff. Se a inflação não passar de 6,5%, está bom. A previsão mediana dos povos do mercado para 2016 anda pela casa de 6,3%.

A cerimônia do adeus à meta de poupança do governo, de superavit primário, foi ainda mais longa que a do BC. A temporada de despedidas começou em julho. Desde então, a meta de superavit fiscal, de 1%, estava morta. Nesse tempo em que esteve em tese embalsamada, à espera do funeral, apodreceu.

A morta deve baixar à sepultura em deficit de 2%, um desvio em torno de R$ 180 bilhões.

O PSDB dedicou-se desde o primeiro dia do ano a derrubar Dilma Rousseff. Pelo menos assim o fez seu ponta de lança, Aécio Neves, senador que nesse ínterim dedicou-se a ser um líder de Eduardo Cunha na Câmara, do tucano-cunhismo e seus deputados "cabeças pretas".

Quanto a seu programa, da boca para fora ou em parte adotado fraudulentamente pela presidente da República, o PSDB dedicou o ano a dele fazer picadinho, apoiando votações que ajudaram a depredar mais o país que sua inimiga Dilma Rousseff.

Enquanto PT e PSDB se desmanchavam em seus variados vexames ou infâmias, o PMDB, partido de oposição e adesão ao governo, dedicou-se mais uma vez a ser o partido de todas a situações. Recolheu o papel picadinho do programa do PSDB, colou tudinho, fez uns anexos, passou um verniz e apresentou um programa para o futuro do país.

Nesse programa, o partido proclama enormidades. Por exemplo, que o lugar do PSDB agora será dele, PMDB. Que todas as ações e crenças de política econômica da presidente da República e do PT são ruinosas. Que a situação é de urgência em um país quebrado pela economia e pelo ódio. Resultado do governo Dilma 1, da Constituição de 1988 e da oposição liderada oficialmente pelo PSDB.

Ao fim deste ano, a ponte para o futuro é o PMDB.

"Julguem", como se diz nas redes sociais

Míriam Leitão - PF é autônoma

- O Globo

O ministro José Eduardo Cardozo disse que quem tentasse controlar a Polícia Federal não conseguiria porque a instituição desenvolveu uma forte cultura de autonomia e tem orgulho disso. Segundo Cardozo, as críticas que fazem, de que ele não controla a PF ou então que usa a polícia, partem de uma má compreensão do papel do Ministro da Justiça.

Cardozo disse que foi criticado no caso do cartel do Metrô de São Paulo pela oposição por supostamente usar o cargo para perseguir os oposicionistas. Agora tem sido criticado por não impedir a ação da Polícia Federal que atinge governistas no caso da Lava-Jato e em outros escândalos.

— Há quem me acuse de não controlar a Polícia Federal para proteger os amigos, e há quem me acuse de instigar a Polícia contra adversários. As críticas são infundadas e esquizofrênicas. Ou eu controlo ou não controlo. O ministro da Justiça tem que garantir o estado de direito e, portanto, que as investigações sejam feitas de forma autônoma.

José Eduardo Cardozo me concedeu essa entrevista na GloboNews. Quando eu perguntei por que ele havia pedido explicações ao diretor da PF sobre a intimação ao filho de Lula, disse que há uma dúvida sobre se o horário era adequado. No caso de ordem judicial é proibido qualquer ação depois das 18h, mas a PF estava realizando um procedimento de um processo administrativo.

— Toda a discussão é essa, há juristas que entendem que apesar de o Código de Processo Penal não estabelecer o horário para a intimação ela não deveria ser feita a esta hora (23h).

Segundo Cardozo, ele está aguardando a resposta da Polícia Federal, mas disse que o princípio que segue é o de respeitar a autonomia da investigação e abrir inquérito para apurar qualquer eventual infração ao direito do cidadão. Citou o caso no grampo da carceragem da PF no Paraná. Ele pediu apuração e aguarda a resposta.

— O Brasil está construindo uma cultura republicana e há pessoas que sempre acham que por trás de alguma situação existe uma maldade política, uma perseguição. Não veem que há uma institucionalidade construída no Brasil desde 1988. Dizem que o ministro é culpado por ter mão fraca e não proteger os amigos, ou porque tem mão forte para perseguir inimigos. Somos uma República, temos instituições fortes e temos que ter orgulho disso.

Perguntei o que aconteceria se ele caísse e fosse nomeado alguém que tentasse controlar a PF. Ele acha que seria difícil conseguir.

— É claro que podem existir subterfúgios. Pode-se nomear pessoas sem espírito público ou que queiram, através de situações mais canhestras, passar informação adiante. Tudo é possível no exercício do poder, mas não é simples. Nos últimos anos desenvolveu-se uma cultura de autonomia. A nova geração de delegados criada nesse novo clima e os antigos que permaneceram têm orgulho disso. Dificilmente a instituição aceitaria ser manipulada.

O ministro disse também que há uma má compreensão das informações publicadas em investigações como a Lava-Jato. Em alguns casos, o andamento do processo é sigiloso e por isso há razão da queixa de vazamentos, mas quando o juiz torna público, como tem feito o juiz Sérgio Moro, não se pode falar de “vazamentos".

O ministro admitiu que se sente triste quando vê um dirigente petista sendo condenado por corrupção. No entanto, acha que isso está restrito a algumas pessoas e não ao partido, que ele continua achando que defende a “ética na política”. Há um clima de intolerância no país que tem generalizado a todos os petistas críticas que só alguns merecem, disse.

Cardozo acredita que a queda da popularidade da presidente Dilma é episódica e que pode ser revertida. Ele diz que é resultado da eleição muito disputada, da crise econômica e do estouro da Lava-Jato. Sobre impeachment ele disse que não há qualquer base jurídica.

— A maioria dos juristas diz isso: não há base. Setores da oposição estão falando nisso retoricamente, para desgastar o governo, outros porque são golpistas e querem tirar a presidente de qualquer jeito. O grande jurista Paulo Brossard explicou em sua obra que na democracia o impeachment é um processo jurídicopolítico, mas tem que ter um pressuposto jurídico.

O predomínio da imoralidade – Editorial / O Estado de S. Paulo

Tem razão o ministro da Casa Civil, Jaques Wagner, quando declara que não será “nada anormal” se o Congresso aprovar as contas do governo de Dilma Rousseff. O normal, hoje no País, é o predomínio da imoralidade no trato da coisa pública, razão pela qual será surpreendente se os parlamentares tomarem uma decisão justa, em vez de articularem mais um vergonhoso conchavo, quando forem analisar os crimes cometidos pela presidente na área fiscal – de resto sobejamente comprovados pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Órgão auxiliar do Legislativo, o TCU aprovou por unanimidade, em outubro, um parecer recomendando que o Congresso rejeitasse as contas de Dilma. Os ministros daquele tribunal consideraram que o balanço apresentado pelo governo, relativo ao ano passado, continha manobras fiscais que violavam a Lei Orçamentária e a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Na ocasião, o TCU deixou claro que os procedimentos do governo para maquiar suas contas “afrontam de forma significativa” vários itens daquela legislação. O relatório, de mais de 1.400 páginas, não deixa dúvidas sobre os delitos de Dilma – que, em países respeitadores da lei, seriam mais que suficientes para embasar um processo de impeachment.

Não bastassem as evidências recolhidas pelos técnicos do TCU, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, entregou à Comissão Mista de Orçamento do Congresso a confissão de que o rombo causado pelas “pedaladas fiscais” chega a inacreditáveis R$ 57 bilhões, fazendo saltar o déficit primário do governo para quase R$ 120 bilhões, ou 2,08% do PIB. Se isso não é irresponsabilidade fiscal, devidamente prevista como crime na legislação, então nada mais é.

Mas o Brasil “normal”, conforme querem os petistas e seus sócios na campanha de conquista do Estado, é aquele em que se faz a equivalência moral de situações incomparáveis, com o objetivo de causar confusão e, assim, tentar livrar a cara dos culpados pelo arrombamento das contas públicas. Para se defender, Dilma diz que o governo de Fernando Henrique Cardoso também “pedalou”, isto é, também atrasou repasses do Tesouro aos bancos públicos; logo, se todos cometeram o tal crime, hoje e no passado, crime não há.

É com esse argumento malandro que os petistas pretendem induzir o Congresso a ignorar o TCU e aprovar as contas de Dilma, sugerindo que a Lei de Responsabilidade Fiscal foi mal aplicada pelo tribunal. “Todo julgamento é uma interpretação”, disse Jaques Wagner. “Você tem, à luz da Lei de Responsabilidade Fiscal, uma interpretação que foi dada pelo TCU. Nós vamos debater aqui no Congresso, à luz da mesma Lei de Responsabilidade Fiscal, e vamos dar outra interpretação.” Por “outra interpretação” se entenda concluir que o governo é inocente porque teria repetido prática de seus antecessores.

No entanto, o que o TCU demonstrou, acima de qualquer dúvida razoável, é que os crimes cometidos pelo governo petista, tanto em volume de dinheiro quanto em extensão de tempo, não têm paralelo na história do País.

O objetivo das pedaladas, já está claro, era esconder a terrível situação financeira causada pelo populismo desatinado do lulopetismo. A conta desse truque contábil finalmente chegou – mas o governo, como se estivesse a negociar a compra de um fogão numa loja popular, quer parcelar a dívida em 60 suaves prestações.

A aposta do governo petista, contudo, passa muito longe do tal debate legalista sugerido por Wagner. No Congresso, qualquer decisão que venha a ignorar o parecer do TCU, plenamente embasado em fatos irrefutáveis, não será uma decisão técnica, e sim política. E a política está de tal modo abastardada, reflexo de um governo licencioso e de um Congresso dominado por desqualificados do baixo clero, que talvez seja fácil para Dilma cabalar votos para aprovar suas criminosas cambaias.
Será um desfecho ignominioso, mas muito característico do momento em que vivemos.

Agonia de Cunha atravanca a Câmara – Editorial / O Globo

• É evidente que o presidente da Câmara tudo fará para que seu processo na Comissão de Ética só seja decidido no ano que vem. Enquanto isso, a crise se agravará

A foto estampada nos jornais de ontem, em que o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), olha, assustado, para uma chuva de notas falsas de dólares, tem lugar certo na galeria de imagens nas retrospectivas do ano a serem feitas pela imprensa no final de dezembro. Jogadas por um militante, as cédulas compuseram uma cena sugestiva em torno do político, acusado, com provas contundentes, de manter no exterior contas e dinheiro não declarados à Receita. Além disso, há relatos precisos, no processo da Lava-Jato, sobre como parte dos dólares se originou no esquema edificado pelo lulopetismo na Petrobras.

A questão é que a crise em torno de Eduardo Cunha ameaça também vir a fazer parte das retrospectivas do noticiário de 2016. Coerente com o perfil de político calejado em escândalos, desde que assumiu a estatal de telefonia do Rio de Janeiro (Telerj), no governo Collor, Cunha segue impávido no principal lugar da Mesa da Câmara, mesmo que dados e valores de contas suas e da família na Suíça já sejam de conhecimento geral. Não renunciará, tudo indica.

No momento daquela revelação, pensou-se que o presidente da Câmara fraquejaria. Se isso ocorreu, não demonstrou. E não se tem mais dúvida de que fará tudo para que qualquer decisão do Conselho de Ética da Câmara sobre as denúncias apresentadas contra ele pelo PSOL e pela Rede só ocorra no ano que vem, na volta do recesso. Eduardo Cunha aspira a escapar pelo esquecimento. Difícil, admita-se.

O presidente do Conselho de Ética, José Carlos Araújo, escolheu ontem para ser relator do processo de Cunha o deputado Fausto Pinato (PRB-SP), liderado de Celso Russomanno, do mesmo partido e estado. Aliás, Pinato entrou na Câmara com sobras de votos de Russomanno.

O relator pode simplesmente propor o arquivamento do caso. Garante-se que Pinato não tomará esta decisão. Há especulações, ainda, sobre o risco de um ato impopular do relator — pró-Cunha, portanto — atingir seu padrinho Russomanno, mais uma vez candidato à prefeitura de São Paulo.

O presidente da Câmara já provou que não tem limites. Configura-se um quadro ruim, em que uma certa catatonia do Planalto diante do mau momento do país e do governo se soma ao travamento da Câmara, sob as rédeas de Cunha, para tratar de projetos-chave no enfrentamento da crise econômica.

Na quarta, afinal a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a emenda constitucional que prorroga a DRU (Desvinculação de Recursos da União) até 2023, com a desvinculação de 30% do Orçamento, em vez dos 20% da que expira agora. Como é emenda, há um longo rito até ela ser aprovada em dois turnos no Senado. E quanto mais rapidamente isso ocorrer, melhor para o ajuste fiscal. Mas tudo fica na dependência do plano de Cunha de se agarrar no posto, apesar de todas as provas contra ele. Salvo alguma interferência do Ministério Público ou do Supremo.

Petrobras capturada – Editorial / Folha de S. Paulo

A irresponsável greve dos petroleiros e o aumento acelerado do buraco na Petros (o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras) são evidências de que os problemas da empresa vão muito além da rapinagem posta a claro pela Operação Lava Jato.

Esses episódios atestam o quanto a estatal se tornou uma organização capturada não só por partidos, mas também por sindicatos e parte do corpo executivo, que se valem de posições de comando e influência para impor agenda própria e obter vantagens desmedidas.

São grupos que trabalham em detrimento dos direitos e benefícios dos acionistas –em especial a União, que representa o contribuinte–, ultrajando princípios como gestão eficiente e integridade nas relações com a coletividade.

A paralisação começou na semana passada e reduziu a produção de petróleo em 400 mil barris diários. Os sindicatos demandam aumento salarial de 18%, um absurdo em relação à calamitosa situação financeira da companhia –para nada dizer da recessão que contamina toda a economia.

Pregam também a suspensão do plano de desinvestimento a partir de toscos argumentos nacionalistas, como se o reequilíbrio da estatal contrariasse objetivos do país.

O que afronta o interesse nacional é a pilhagem da Petrobras, e a esse propósito convém perguntar: de que se ocupou a Federação Única dos Petroleiros nos últimos anos, quando houve o maior escândalo de roubo e incompetência gerencial da história da empresa?

Quanto à Petros, o rombo monta a R$ 10 bilhões, uma escalada de 60% neste ano. Os investimentos renderam 5,8%, abaixo da meta de 10,3% para o pagamento de benefícios aos pensionistas.

A direção da entidade culpa a queda dos preços das ações, citando também as perdas com a empresa de sondas Sete Brasil.

Pode ser, mas cabe avaliar a gestão dos recursos. Um dos critérios mais elementares é a diversificação de riscos. Se os empregos e proveitos dos funcionários estão ligados aos destinos da Petrobras, por exemplo, não faz sentido que também seus planos de previdência invistam no setor de petróleo.

Ponderações como essa, contudo, dificilmente terão recebido acolhida nas reuniões dos comitês de investimento da Petros. Nesse capitalismo de compadrio, os fundos de pensão se transformam em meros executores da vontade do governo de plantão, direcionando recursos para os amigos do poder.

Nada disso vai mudar enquanto não houver disposição para levar a cabo verdadeira agenda de modernização –governo e Congresso só poderão destravá-la se resistirem às demandas corporativistas.

Heitor Villa-Lobos - Uirapuru

Vinicius de Moraes - A floresta

Sobre o dorso possante do cavalo
Banhado pela luz do sol nascente
Eu penetrei o atalho, na floresta.
Tudo era força ali, tudo era força
Força ascencional da natureza.
A luz que em torvelinhos despenhava
Sobre a coma verdíssima da mata
Pelos claros das árvores entrava
E desenhava a terra de arabescos.
Na vertigem suprema do galope
Pelos ouvidos, doces, perpassavam
Cantos selvagens de aves indolentes.
A branda aragem que do azul descia
E nas folhas das árvores brincava
Trazia à boca um gosto saboroso
De folha verde e nova e seiva bruta.

Vertiginosamente eu caminhava
Bêbado da frescura da montanha
Bebendo o ar estranguladamente.
Às vezes, a mão firme apaziguava
O impulso ardente do animal fogoso
Para ouvir de mais perto o canto suave
De alguma ave de plumagem rica
E após, soltando as rédeas ao cavalo
Ia de novo loucamente à brisa.

De repente parei. Longe, bem longe
Um ruído indeciso, informe ainda
Vinha às vezes, trazido pelo vento.
Apenas branda aragem perpassava
E pelo azul do céu, nenhuma nuvem.

Que seria? De novo caminhando
Mais distinto escutava o estranho ruído
Como que o ronco baixo e surdo e cavo
De um gigante de lenda adormecido.

A cachoeira, Senhor! A cachoeira!
Era ela. Meu Deus, que majestade!
Desmontei. Sobre a borda da montanha
Vendo a água lançando-se em peitadas
Em contorsões, em doidos torvelinhos
Sobre o rio dormente e marulhoso
Eu tive a estranha sensação da morte.

Em cima o rio vinha espumejante
Apertando entre as pedras pardacentas
Rápido e se sacudindo em branca espuma.
De repente era o vácuo embaixo, o nada
A queda célere e desamparada
A vertigem do abismo, o horror supremo
A água caindo, apavorada, cega
Como querendo se agarrar nas pedras
Mas caindo, caindo, na voragem
E toda se estilhaçando, espumecente.

Lá fiquei longo tempo sobre a rocha
Ouvindo o grande grito que subia
Cheio, eu também, de gritos interiores.
Lá fiquei, só Deus sabe quanto tempo
Sufocando no peito o sofrimento
Caudal de dor atroz e inapagável
Bem mais forte e selvagem do que a outra.
Feita ela toda de esperança
De não poder sentir a natureza
Com o espírito em Deus que a fez tão bela.

Quando voltei, já vinha o sol mais alto
E alta vinha a tristeza no meu peito.
Eu caminhei. De novo veio o vento
Os pássaros cantaram novamente
De novo o aroma rude da floresta
De novo o vento. Mas eu nada via.
Eu era um ser qualquer que ali andava
Que vinha para o ponto de onde viera
Sem sentido, sem luz, sem esperança
Sobre o dorso cansado de um cavalo.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Opinião do dia – Rosângela Bittar

“A única constatação, óbvia, que as pesquisas permitem fazer, é que os dados apurados mostram que a candidatura do ex-presidente Lula é inviável, hoje, e o PT bem faria se começasse a testar outros nomes, de preferência escolhendo-os entre os seus filiados que não participaram da cúpula partidária, nos últimos anos, por razões evidentes por si.

Por que a candidatura Lula se mostra inviável? O ex-presidente está com uma rejeição inédita, até mesmo no Nordeste, seu reduto mais fiel. Hoje, 55% do eleitorado diz que não votaria em Lula de jeito nenhum. Esse percentual era de 33% em maio do ano passado, uma queda vertiginosa para alguém carismático que cultiva a fama de pai dos pobres, que se vitimiza ainda com sucesso a qualquer obstáculo com que se depara na sua carreira política.

Só a rejeição, porém, não é tudo. Lula aparece nas respostas de 67% dos eleitores como tendo responsabilidade nos fatos criminosos em investigação na operação Lava-Jato.

São, então, 55% de rejeição, 67% que o responsabilizam pelo maior escândalo que sangrou a maior estatal brasileira. Um veredicto que torna inviável sua candidatura, hoje. A Lava-Jato, bem como agora a Operação Zelotes, no caso do Lula, constituem o fato político, jurídico, policial mais importante dessa conjuntura que vai empurrar o país até a sucessão e sobre ela exercer uma influência decisiva. As duas taxas combinadas são mortais para Lula, mas não o tirarão da campanha que se desenvolve hoje até que possa trabalhar por alguém. Vai ficar reservando lugar até o fim. Quem sabe não fica? Tudo depende.”

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Rosângela Bittar, jornalista, é chefe da Redação, em Brasília. ‘Não foi bom para ninguém”, Valor Econômico, 4 de novembro de 2015.

Entrevista especial com Luiz Werneck Vianna

Luz amarela: chegou a hora de interpretar o Brasil com uma chave nova.

Por Patricia Fachin

“Um ator que está sendo mobilizado ou para o qual a atenção se volta é o vértice do poder Judiciário, mas esse é um caminho muito sinuoso, porque nos abre as portas para um governo de juízes, e essa é uma solução ruim em qualquer circunstância”, adverte o sociólogo.

Sair da atual crise política implica interpretar a “história do país numa chave nova, que não tenha mais como foco o Estado, a sua capacidade de intervenção de provocar mudança, mas a sociedade”, defende Werneck Vianna na entrevista a seguir, concedida à IHU On-Line por telefone.

Segundo ele, “aos poucos e ainda de forma muito vacilante, de repente, vai-se dando conta de que estamos na necessidade de virar a página. O Brasil vem sendo pensado por uma parte importante dos seus atores, entre os quais o PT, numa chave antiga”.

O “desejável”, frisa, “seria que o governo, ele mesmo, virasse essa página, mas ele não consegue dar um passo e depende de forças que são contrárias umas às outras, e o seu principal consultor, o ex-presidente Lula, a cada dia tem uma posição: um dia é contra o ajuste fiscal, outro dia é a favor e o seu partido o acompanha e, então, não aparece nenhuma réstia de luz nessa escuridão”.

Na avaliação do sociólogo, apesar de a presidência estar sob a ameaça do impeachment pelo Tribunal de Contas da União e pelo Tribunal Superior Eleitoral – TSE, “o que mais põe o impeachment em perspectiva é o conjunto da obra, o fato de não se reconhecer, nesse governo, a capacidade para nos tirar da situação de paralisia e impasse em que nos encontramos”. Um impeachment, acrescenta, “sem que haja uma alternativa para o day after, é complicado e, além do mais, não creio que se deva criar no país uma orfandade do lulismo e do petismo, mas fundamentalmente do lulismo. O ideal, da minha perspectiva, seria derrotar essa política ao longo do tempo pela via institucional das eleições. 

Agora, ninguém controla o que está aí. Não há lideranças capazes de liderar esse caos”.
Werneck Vianna pontua ainda que atualmente “nenhuma força política responsável, com poder de fato de decidir, está dizendo abertamente que o impeachment é a solução agora”. Ao contrário, o PMDB, por exemplo, “está se credenciando para ser uma alternativa na próxima sucessão”, e seu programa de governo propõe “destravar a sociedade do Estado e criar caminhos para a expansão econômica a partir dos seus agentes econômicos. É um programa francamente favorável ao mundo empresarial, à livre iniciativa, à sociedade civil também, diga-se de passagem. (...) O fato de haver caminhos de expansão econômica fora do Estado me parece uma coisa saudável”.

Para Werneck Vianna, a crise atual é consequência do presidencialismo de coalizão que “não coligava programas, partidos procurando objetivos comuns, mas foi um presidencialismo de cooptação que significava, sim, a agregação de interesses, fossem ou não convergentes em torno de um projeto comum. Com isso, a bússola era detida apenas pelo poder Executivo e seu mandatário que monopolizou a política do país. O Legislativo foi rebaixado do ponto de vista de tomada de decisão, se tornou uma Câmara de carimbo da política do Executivo e, ao lado disso, dado que permanecer no poder era central, porque disso dependia a realização do tal programa de reformas sociais – que aliás nunca foram anunciadas corretamente, mas enfim, era invocado o uso de métodos não republicanos em nome da questão social. (...) São essas decisões e os caminhos que a partir delas foram tomados que estão na raiz da crise política que o país vive hoje”.

Apesar da crise política, essa dimensão macro ainda se reproduz no campo micro da política do dia a dia, na relação do PT com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha. “Esse cenário é derivado desse processo que descrevi. (...) Tem aí um equilíbrio falso de antagonistas que somente se põem de pé na medida em que amenizam o outro. É como se lê em artigos na imprensa: trata-se de um abraço de afogados; um precisa do outro para não submergirem inteiramente. A situação vai depender de se eles se salvam ou naufragam juntos, mas isso não dá para prever”, conclui.

Luiz Werneck Vianna é professor-pesquisador na PUC-Rio. Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outras obras, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997);A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999); e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002). Sobre seu pensamento, leia a obra Uma sociologia indignada. Diálogos com Luiz Werneck Vianna, organizada por Rubem Barboza Filho e Fernando Perlatto (Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2012).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Diante dessa crise política, qual é o ponto fundamental que deve ser observado e para o qual temos de estar atentos para compreender o que está acontecendo no Brasil?

Luiz Werneck Vianna – Estamos numa mudança de época no mundo e no Brasil, e aqui na nossa circunstância isso não foi percebido. Nós entramos num novo tempo com categorias e repertório do tempo velho. Isso levou a essa sucessão de equívocos que paralisam o país. O repertório dominante nesses últimos anos de governo do PT tem sido o nacional popular, com um repertório de um tempo anterior, o qual foi introduzido a partir de 2004, esticado no mandato do presidente Lula e levado às últimas consequências no governo Dilma. Quando o governo dela terminou, olhou-se em volta e ela mesma reparou que aquele repertório estava exausto e procurou mudar a agenda e a perspectiva, mas o cavalo de pau que foi dado deixou não só o partido dela, mas a base aliada e a sociedade, perplexas. Foi uma mudança para a qual não foram dadas as razões, aliás, as únicas razões dadas foram as de que o mundo mudou e nós não.

De modo que estamos politicamente defasados, culturalmente retardados e estamos sem categorias e repertório para enfrentar as novas circunstâncias. Sair disso, a meu ver, implica que se interprete a história do país numa chave nova, que não tenha mais como foco o Estado, a sua capacidade de intervenção de provocar mudança, mas a sociedade. Então, essa foi a questão de fundo que nos trouxe a essa balbúrdia e pandemônio em que nos encontramos.

IHU On-Line – O senhor afirmou agora e em outra entrevista que nos concedeu, que o governo deu um cavalo de pau na economia. Contudo, como avalia a declaração da presidente semanas atrás de que a condução da política econômica do Ministro Levy está de acordo com o governo, independente do que a direção do PT pensa e, inclusive, no final da semana passada, o documento elaborado pela Comissão Executiva Nacional do PT recuou diante das críticas ao ministro da Fazenda a pedido do ex-presidente Lula?

Luiz Werneck Vianna – Aos poucos e ainda de forma muito vacilante, de repente, vai-se dando conta de que estamos na necessidade de virar a página. O Brasil vem sendo pensado por uma parte importante dos seus atores, entre os quais o PT, numa chave antiga. O PT nasceu e fez a sua história afirmativa como um partido contrário à modernização por cima. A crítica, por exemplo, forte à era Vargas, ao nacional-populismo, tema de alguns dos seus intelectuais mais importantes, a denúncia ao patrimonialismo, outro tema de intelectuais importantes que participaram de sua formação, como Raymundo Faoro, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque e muitos outros.

Quer dizer, o PT nasceu com essa disposição e perspectiva, mas num determinado momento começou a se inclinar para uma direção diversa dessa e, por volta de 2004, 2005, o que já tinha se esboçado no momento da campanha eleitoral de 2002, assumiu decididamente o caminho de encontro com a tradição republicana brasileira, não apenas pelo que havia de interessante nela, mas comprou o pacote inteiro, com a sua herança de patrimonialismo, com o fato de que essa tradição esteve comprometida ao longo de décadas com a preservação do atraso, basta ver as políticas em relação ao mundo agrário dessa tradição.

Isso fez com que o PT abdicasse da agenda do moderno com a qual nasceu e perdeu o seu caminho de afirmação pela agenda da modernização. A meu ver, são essas decisões e os caminhos que a partir delas foram tomados que estão na raiz da crise política que o país vive hoje. Com a modernização, importava à ação do Estado, uma ação que viesse a desbravar caminhos, inclusive com a percepção de que só o PT poderia conduzir as reformas. Para que esse caminho fosse viabilizado, tudo se fazia legítimo, ou seja, todas as alianças. Então, a necessidade de fazer as reformas implicava numa agenda temporal muito larga – era preciso que se ficasse no governo por muito tempo e é isso que explica o mensalão e o petróleo, ou seja, a ideia de dominar o Legislativo e sua agenda, e governar de forma decisionista por cima, através de medidas pelo Executivo. Foi um momento de exaltação do poder Executivo muito forte.

A forma institucional que assegurou isso foi o chamado presidencialismo de coalizão, que na verdade não coligava programas, partidos procurando objetivos comuns, mas foi um presidencialismo de cooptação que significava, sim, a agregação de interesses, fossem ou não convergentes em torno de um projeto comum. Com isso, a bússola era detida apenas pelo poder Executivo e seu mandatário que monopolizou a política do país. O Legislativo foi rebaixado do ponto de vista de tomada de decisão, se tornou uma Câmara de carimbo da política do Executivo e, ao lado disso, dado que permanecer no poder era central, porque disso dependia a realização do tal programa de reformas sociais – que aliás nunca foram anunciadas corretamente, mas enfim, era invocado o uso de métodos não republicanos em nome da questão social.

• “Era necessário abandonar aquele caminho e começar outro. Agora, qual outro? Isso não foi dito e ainda não é dito”

Nesse vale tudo, houve um momento em que as coisas desandaram e a própria mudança da política da presidente Dilma, ao iniciar o seu segundo mandato, mesmo que não tenha comunicação imediata com a análise que estou fazendo, mostrou o tamanho do problema. Era necessário abandonar aquele caminho e começar outro. Agora, qual outro? Isso não foi dito e ainda não é dito. Na verdade o que aparece nas manifestações públicas dos dirigentes do PT é uma revitalização do antigo repertório nacional popular, que não subsiste mais – ele existe na retórica, porque se pode fazer uma narrativa com base no nacional popular, mas não se faz uma política que encontre legitimidade, adesão, que seja consensual com base nisso.

IHU On-Line – Esse discurso se manifesta inclusive no jogo político que existe na relação entre o PT e Eduardo Cunha, no sentido de que parte do PT evita pedir o afastamento de Cunha durante as investigações sobre as contas que ele tem no exterior e seu envolvimento com casos de corrupção, para evitar que o presidente da Câmara leve adiante o pedido de impeachment e, ao mesmo tempo, Cunha se protege em relação às investigações e continua seu mandato na Câmara dos Deputados?

Luiz Werneck Vianna – Esse cenário é derivado desse processo que descrevi. Antes, as questões que você me colocava estavam dirigidas para temas macroestruturais, e agora você me questiona sobre essa questão do cotidiano da política. É claro que a presidente está sob a ameaça do impeachment pelo Tribunal de Contas da União, pelo Tribunal Superior Eleitoral, pelo conjunto da obra, e há a necessidade de que a presidência da Câmara dos Deputados seja confiável e não precipite esse processo, porque é de designação constitucional que quem precipita o processo de impeachment é o presidente da Câmara dos Deputados. Então, tem aí um equilíbrio falso de antagonistas que somente se põem de pé na medida em que amenizam o outro. É como se lê em artigos na imprensa: trata-se de um abraço de afogados; um precisa do outro para não submergirem inteiramente. A situação vai depender de se eles se salvam ou naufragam juntos, mas isso não dá para prever.

O fato é que a profundidade da crise e a sua longevidade são um âmbito de agonia e um horizonte que apenas nos promete mais agonia, que outros atores possam vir à tona. Um ator que está sendo mobilizado ou para o qual a atenção se volta é o vértice do poder Judiciário, mas esse é um caminho muito sinuoso, porque nos abre as portas para um governo de juízes, e essa é uma solução ruim em qualquer circunstância.

Há outra possiblidade de outros atores que estão sendo chamados à arena; um deles é mais perigoso ainda em razão da nossa história: as Forças Armadas, que nas últimas décadas têm se reservado do exercício do seu papel constitucional. Todos esperamos que essa agonia e a promessa de mais agonia termine logo, mas ninguém pode garantir que algumas manifestações – raras – que vêm se evidenciando se tornem mais perigosas e densas. José Murilo de Carvalho, em artigo brilhante no jornal O Globo, escreveu um texto que deve nos chamar atenção para o fato de que estamos num momento em que se acendeu uma luz amarela.

IHU On-Line - Há bastante tempo o senhor chama atenção para o fato de que essa luz amarela se acendeu. O que muda agora?

Luiz Werneck Vianna – Sim, mas agora a luz amarela tem um sinal de tempo, pelo menos em algumas cidades, e estamos numa escala decrescente. Se faltava muito tempo para chegarmos a um sinal vermelho, agora o tempo – não estou dizendo que já se encurtou – já se encurta. E aí o que há de revolver, o que há de mais doloroso na nossa história é o protagonismo das Forças Armadas na política, coisa que pensamos que tínhamos abolido da nossa vida com a Carta de 88; mas para quem gosta de namorar com o perigo, aí está um prato cheio.

IHU On-Line – Vislumbra esse risco de intervenção das Forças Armadas novamente, nesse momento? O impeachment não necessariamente levaria a isso.

Luiz Werneck Vianna – Não levaria, mas a agonia e a promessa de mais agonia, pode levar. Eu diria que essa é uma linha que estou trazendo para essa entrevista de forma não dominante; estou olhando para a paisagem e vendo que esse risco já começa a se infiltrar e como sempre seu estado é muito fértil para essas manifestações.

IHU On-Line – Na última entrevista que nos concedeu o senhor manifestou que o impeachment não seria uma boa alternativa para o Brasil, mas dada a rejeição das contas da União pelo TCU, o senhor mantém a mesma posição?

Luiz Werneck Vianna – Um impeachment sem que haja uma alternativa para o day after é complicado e, além do mais, não creio que se deva criar no país uma orfandade do lulismo e do petismo, mas fundamentalmente do lulismo. O ideal, da minha perspectiva, seria derrotar essa política ao longo do tempo pela via institucional das eleições. Agora, ninguém controla o que está aí. Não há lideranças capazes de liderar esse caos.

IHU On-Line – Mas caso se confirmasse o crime de irresponsabilidade em relação às contas da União, o impeachment não seria legítimo do ponto de vista, inclusive, de se avançar democraticamente seguindo o que determina a Constituição?

Luiz Werneck Vianna – Pode vir a ser, mas dependendo de que conjunto de forças se mobiliza para ele. Mas o que mais põe o impeachment em perspectiva é o conjunto da obra, o fato de não se reconhecer, nesse governo, a capacidade para nos tirar da situação de paralisia e impasse em que nos encontramos. Eu não tenho medo do impeachment, mas não creio que ele tenha o condão de, por si só, nos aliviar da carga negativa que pesa sobre nós.

• “Eu não tenho medo do impeachment, mas não creio que ele tenha o condão de, por si só, nos aliviar da carga negativa que pesa sobre nós”

IHU On-Line - O que poderia nos aliviar dessa carga negativa, então? Antes o senhor disse que é preciso virar a página. O que seria virar a página nesse momento?

Luiz Werneck Vianna – O desejável seria que o governo, ele mesmo, virasse essa página, mas ele não consegue dar um passo e depende de forças que são contrárias umas às outras e o seu principal consultor, o ex-presidente Lula, a cada dia tem uma posição: um dia é contra o ajuste fiscal, outro dia é a favor e o seu partido o acompanha e, então, não aparece nenhuma réstia de luz nessa escuridão. Eu não creio que a presidente esteja dotada do dom de ver claro no meio das trevas; ela mal tateia névoas e com isso alimenta a agonia em que nos encontramos. A leitura cotidiana dos jornais apenas nos traz amargor e desesperança, ausência de alternativa.

IHU On-Line – Inclusive no final da semana passada o ex-presidente Lula disse que o PT errou ao ter prometido uma coisa durante as eleições e ter feito outra após a reeleição. Que intenções ele tem com essa declaração?

Luiz Werneck Vianna – Se eu sou otimista posso imaginar que ele está pretendendo rever o caminho que adotou nos últimos anos, e voltar aos seus sistemas originários da época da afirmação do partido, mas aí meu otimismo seria demais. Então, não sei. Nós todos nos tornamos espectadores das estripulias acrobáticas da retórica do ex-presidente da República, o que também só faz com que nos aflijamos ainda mais, porque daí não sai nada, apenas piruetas e retóricas.

IHU On-Line - Que conjuntos de forças estão se articulando em torno do impeachment? Quais partidos ou coligações têm interesse no impeachment, seja ainda neste ano ou no segundo ou terceiro ano do mandato?

Luiz Werneck Vianna – Não creio que o PMDB esteja trabalhando em favor do impeachment, ao contrário, o PMDBestá se credenciando para ser uma alternativa na próxima sucessão. Ninguém, nenhuma força política responsável, com poder de fato de decidir, está dizendo abertamente que o impeachment é a solução agora. A posição do ex-presidente FHC, com toda a sua autoridade política e moral, não é essa; a do PMDB, explicitamente, não é essa; a direção do PSDB em relação a isso é muito dúbia e dividida, de modo que alguns agrupamentos sem responsabilidade política direta levantam essa bandeira. A própria mídia, na sua parte mais tensa, também não avança no sentido de verbalizar uma posição favorável contra ele, de modo que, assim ficamos. Mas assim não poderemos ficar.

IHU On-Line – O PMDB poderia ser uma alternativa?

Luiz Werneck Vianna – Poder, pode e já apresentou seu programa de governo na semana passada (29-10-2015), que é alternativo ao do PT.

IHU On-Line – E o que lhe parece esse programa alternativo?

Luiz Werneck Vianna – É um programa no sentido de destravar a sociedade do Estado e de criar caminhos para a expansão econômica a partir dos seus agentes econômicos. É um programa francamente favorável ao mundo empresarial, à livre iniciativa, à sociedade civil também, diga-se de passagem.

IHU On-Line – Mas o senhor tem alguma ressalva?

Luiz Werneck Vianna – Ressalva? Não, mas também não tive tempo de estudá-lo porque foi publicado ontem (29-10-2015), mas sei que essas são as linhas gerais do programa. De todo modo, o fato de haver caminhos de expansão econômica fora do Estado me parece uma coisa saudável.

IHU On-Line – Nessa mesma linha está o partido Novo ou existem distinções? Como avalia as propostas desse partido?

Luiz Werneck Vianna – Sim, mas o partido Novo segue uma linha de um liberalismo mais radicalizado e não acho que esse seja o caso do PMDB, que é um partido que tem uma tradição de Estado muito forte. O PMDB, inclusive, faz parte da tradição republicana brasileira e esse é um dos seus esteios, de modo que nesse sentido ele pode, de alguma forma, ter uma comunicação com o pessoal do partido Novo na condução da economia, mas trata-se de algo muito pontual.

• “É melhor entrarmos numa loja de magos e vermos se conseguimos encontrar uma solução para entender como as pessoas de um lado recusam a política, mas, de outro, só podem encontrar caminhos para a sua agonia e para suas esperanças, na política”

IHU On-Line – E a Rede pode ser uma alternativa?

Luiz Werneck Vianna – A Rede pode ser uma alternativa eleitoral. Não digo que a curtíssimo prazo, mas há coisas novas na Rede.

IHU On-Line – Como o quê, por exemplo?

Luiz Werneck Vianna – Há uma aposta muito vigorosa na sociedade civil, na sua auto-organização, temas novos em discussão, e o meio ambiente certamente é um deles. E não à toa, a Rede está conseguindo trilhar, por enquanto, um caminho expansivo. Um movimento estratégico importante na Rede – tudo indica que não terá êxito - é o de procurar trazer para o seu campo o prefeito Fernando Haddad. Mas só o fato de esse sinal se realizar como forma de tentativa, já é um sinal de que a Rede está jogando forte na cena política. Acho que o Haddad não vai aceitar e vai ficar retido, por razões morais, onde está. Agora, se a tentação for muito grande, quem sabe ele faça esse movimento e a Rede se estabeleça com força em São Paulo. Mas essa é uma análise de desejo; por enquanto isso não tem nenhuma base na realidade, mas só o fato de ser pensado demonstra que a Rede está jogando no tabuleiro.

IHU On-Line – E está surgindo algum outro tipo de coalizão para se pensar uma alternativa?

Luiz Werneck Vianna – Não vejo, a não ser esses que marcam posições, mas novidade mesmo é a Rede.

IHU On-Line - Nesta semana foi divulgada a pesquisa de opinião do instituto CNT/MDA, que demonstra a rejeição dos brasileiros aos políticos. Como, apesar desse resultado, poderia se pensar uma alternativa para a política?

Luiz Werneck Vianna – Aí é melhor entrarmos numa loja de magos e vermos se conseguimos encontrar uma solução para entender como as pessoas de um lado recusam a política, mas, de outro, só podem encontrar caminhos para a sua agonia e para suas esperanças, na política. Em algum momento alguma voz terá de se fazer presente, porque a nossa sociedade não tem a vocação da autoextinção. Nós vamos sobreviver, mas até agora só apareceram possibilidades sombrias no horizonte, e a nós cumpre evitar que elas se materializem. Mas se continuarmos argumentando às sombras, delas sempre saem algum fantasma.

IHU On-Line – Como imagina que será a continuidade do mandato da presidente Dilma?

Luiz Werneck Vianna – Ela quer ir até o fim, mas vai ser difícil. Mas já tivemos governos assim como o do Sarney, que foi uma lenta agonia, e o dela pode ser mais um. Não sei se a sociedade aguentará essa agonia por tanto tempo.

IHU On-Line - O senhor consegue vislumbrar uma saída para a crise? Que partido teria condições de congregar as divergências e as disputas políticas hoje?

Luiz Werneck Vianna – Enquanto não aparecerem lideranças que sejam capazes de articular um projeto que seja minimamente consensual, compreendendo empresários, sindicatos, partidos, intelectuais, não vejo como sair disso. Vamos continuar vivendo viciados nesse ambiente tóxico.

IHU On-Line – Sua aposta é uma saída via instituições?

Luiz Werneck Vianna – Aposto firmemente nisso, mas não quero dizer que isso vai vencer. Mas minha aposta pessoal é de que o vigor das instituições seja capaz de resistir a esses abalos da crise.

TCU mantém Dilma sob pressão com apuração de prejuízos da Petrobrás

TCU analisará responsabilidade de Dilma em prejuízo de R$ 2,8 bi na Petrobrás

• Corte de contas vai avaliar responsabilidade do Conselho de Administração da estatal na época em que a petista presidia o colegiado por prejuízos em duas refinarias

André Borges - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O Tribunal de Contas da União (TCU) fará uma nova fiscalização para analisar a responsabilidade do conselho de administração da Petrobrás em relação aos atrasos e decisões que prejudicaram os andamentos das obras e a consequente paralisação das refinarias Premium I e II.

A decisão foi comunicada nesta quarta-feira, 4, pelo ministro relator José Múcio e implica em questionar a presidente Dilma Rousseff. Ela presidiu o Conselho entre 2003 e 2010. De acordo com o TCU, a primeira vez que o projeto de investimento nas refinarias Premium apareceu no plano de negócios da Petrobrás foi no planejamento do período 2007-2011 portanto, durante a gestão de Dilma à frente do Conselho. O TCU no entanto não menciona nenhum nome dos integrantes do Conselho em seu processo.

Em seu balanço patrimonial de 2014, a Petrobrás registrou prejuízo contábil da ordem R$ 2,8 bilhões em relação aos dois projetos previstos para serem erguidos no Maranhão (I) e no Ceará (II). Segundo Múcio, é preciso apurar a omissão do conselho de administração em seu dever legal de fiscalizar a gestão e atos da diretoria executiva no período que levou ao prejuízo apontado.

O tribunal decidiu realizar oitiva com a Petrobrás para que, no prazo de 15 dias, se manifeste sobre os indícios de irregularidades nas obras e omissões do conselho administrativo. Segundo a Corte de contas, os dados disponíveis apontam que, mesmo diante de um aumento de riscos, a diretoria executiva da Petrobras aprovou a proposta recebida da área de abastecimento da estatal e autorizou o avanço nas obras sem que essas fossem analisadas por outros setores conforme previsto "na Sistemática de Aprovação de Projetos e Investimento da Petrobras".

"Desse modo, a análise de dados disponíveis nessa fase preliminar do processo permite afirma que, na prática, autorizou-se a continuidade do projeto sem que fossem revistas questões essenciais", declarou Múcio em seu voto. "Como bem destaca a equipe de auditoria, percebe-se contexto de assunção de risco desnecessário, pois havia sinais fortes de que não fossem efetivamente aproveitados no futuro as despesas com projetos e com terraplenagem e outros serviços.

TCU cobra devolução de US$ 3,7 mi de contrato da Petrobrás com a Odebrecht
• Valores são referentes a irregularidades cometidas entre a Petrobrás e a construtora Odebrecht em serviços de segurança e meio ambiente e saúde prestados em empresas da estatal instaladas no exterior

O Tribunal de Contas da União (TCU) instaurou processo para cobrar a devolução de valores por causa de irregularidades cometidas entre a Petrobrás e a construtora Odebrecht em serviços de segurança e meio ambiente e saúde prestados em empresas da estatal instaladas no exterior. São alvos do processo os ex-presidente da Petrobrás José Sergio Gabrielli e Maria das Graças Foster, além de ex-diretores da estatal, Paulo Roberto Costa, Almir Guilherme Barbassa, Renato Duque, Guilherme de Oliveira Estrella e Jorge Zelada.

O TCU decidiu instaurar um processo de tomada de contas especial (TCE), recurso só utilizado quando as práticas de superfaturamento estão comprovadas e pelo qual se cobra a devolução. Segundo o relator do processo, ministro Vital do Rêgo, devem ser feitas as diligências "para a completa quantificação do dano, considerando a caracterização de US$ 3,7 milhões".

Gabrielli é apontado no processo por ter aprovado a contratação da Odebrecht em licitação que restringia a competição com outras empresas, além de não possuir processo básico adequado e outras irregularidades. As mesmas improbidades deverão ser explicadas pela ex-presidente Graça Foster. O TCU deu prazo de 15 dias para cada um dos citados apresentarem suas justificativas.

"A fragilidade das estimativas de referência da Petrobrás, a falta de detalhamento técnico sobre vultosas parcelas dos custos envolvidos e a presença de incongruências significativas na proposta comercial da contratada levam-me a concluir existirem fortes indícios de que o contrato celebrado tenha sido desfavorável aos cofres públicos", declarou Vital do Rêgo em seu voto. Não está detalhado no processo o valor que cada um terá que devolver.

TCU vai avaliar responsabilidade de Dilma por prejuízo de R$ 2,8 bi

• Valor é referente às obras das refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará

Por Eduardo Bresciani – O Globo

BRASÍLIA – O Tribunal de Contas da União (TCU) vai avaliar a responsabilidade da presidente da República Dilma Rousseff e demais ex-conselheiros da Petrobras pelo prejuízo de R$ 2,8 bilhões no projeto de implantação das refinarias Premium I, no Maranhão, e Premium II, no Ceará. A Petrobras desistiu nesse ano de levar os projetos adiante.

O acórdão aprovado nesta quarta-feira por unanimidade, proposto pelo ministro José Múcio Monteiro, afirma que é preciso verificar se houve “omissão” do conselho no dever de fiscalizar as decisões da diretoria executiva sobre o caso.

“Determinar à SeinfraPetróleo que constitua fiscalização, em autos específicos, para a avaliação da responsabilidade do Conselho de Administração da Petrobras, nos termos de suas obrigações corporativas relacionadas à Lei 6.404/1976 (Lei das S.A.), tendo em vista a constatação de possível omissão desse órgão em relação a seu dever estatutário e legal de fiscalizar a gestão da Diretoria Executiva, observada no período das decisões relacionadas ao prejuízo verificado nas Refinarias Premium I e II”, registra trecho do acórdão.

Os ministros pediram que a área técnica avalie o “cumprimento do dever de diligência” pelos conselheiros, a “conduta omissiva” diante dos projetos da área de Abastecimento, se o presidente da companhia omitiu informações do projeto aos conselheiros, se houve dissidências nas decisões sobre o tema e a avaliação de documentação da Operação Lava-Jato, que é solicitada ao Ministério Público e à Polícia Federal.

Dilma presidia o Conselho em 2006 quando os projetos foram incluídos pela primeira vez em um plano de negócios da companhia. Ela ocupou o cargo até abril de 2010, quando deixou o ministério da Casa Civil para disputar a presidência da República. A Petrobras decidiu nesse ano cancelar os projetos e reconheceu no seu balanço de 2014 um prejuízo contábil de R$ 2,8 bilhões.

O relatório da área técnica, que subsidiou a decisão dos ministros, aponta a existência de “gestão temerária” no desenvolvimento do projeto. Cita como uma das decisões mais nocivas à Petrobras um posicionamento tomado pela diretoria executiva em 2009 que decidiu ao mesmo tempo retornar o projeto para uma fase mais conceitual (fase 1) e autorizar a contratação de projetos básicos e obras de implementação de infraestrutura, como supressão de vegetação e terraplanagem.

“Talvez seja essa a decisão mais significativa, em termos da caracterização da ‘gestão temerária’ do empreendimento. A partir dela, numerário financeiro significativo foi empregado, sem, ainda, haver definição precisa da viabilidade do negócio, segundo metodologia apregoada pelos próprios normativos internos da Petrobras”, aponta o relatório técnico do TCU.

Os técnicos do TCU observam que somente em 2013 o projeto voltou a “passar de fase” dentro do sistema da Petrobras, já com as obras iniciais em andamento. Ressaltam que nessa ocasião relatórios da Petrobras apontavam para o prejuízo de levar o negócio adiante. Os cálculos indicavam 98,4% de chances de prejuízo em relação à refinaria do Maranhão e 97,8% em relação à do Ceará.

Conselho ‘negligente’
Na visão da área técnica, o conselho de Administração foi “negligente” por não acompanhar de perto o desenvolvimento do projeto e as decisões da diretoria executiva sobre ele.

“Diante de tais fatos, constata-se que houve comportamento, no mínimo, negligente e omisso por parte do Conselho de Administração da Petrobras no período das decisões determinantes para o prejuízo verificado nas Refinarias Premium I e II”, afirmam os técnicos.

O TCU pediu à Petrobras que se manifeste sobre os indícios de irregularidades apontados, as ações da companhia para receber indenizações pelo prejuízo, bem como as providências adotas pela empresa para mitigar prejuízos dos estados do Maranhão e Ceará.

São citados no processo como “responsáveis” e, portanto, podem ser chamado a responder pelos prejuízos apontados os ex-presidentes da Petrobras Sérgio Gabrielli e Graça Foster, os ex-diretores da companha no período de 2006 a 2014, além de funcionários de escalão inferior.

TCU pode punir atuais ministros

O governo está apreensivo com as penalidades que os responsáveis pelas "pedaladas" receberão do Tribunal de Contas da União e com a possibilidade de que ministros da atual gestão sejam punidos com a sanção máxima: inabilitação para o exercício de cargo de confiança no serviço público. A situação mais delicada é a do titular do Planejamento, Nelson Barbosa. Ele assinou, em outubro de 2012, portaria que deu à União 24 meses para reembolsar o BNDES por empréstimos subsidiados do Programa de Sustentação do Investimento. Barbosa era o número 2 da Fazenda. Em sua defesa, ele disse que a decisão foi do ex-ministro Guido Mantega.

Possíveis punições do TCU a três ministros preocupam governo

Por Murillo Camarotto - Valor Econômico

BRASÍLIA - Com um cenário bastante favorável para o parcelamento da dívida referente às "pedaladas" fiscais, o governo se preocupa agora com as penalidades que os responsáveis receberão do Tribunal de Contas da União (TCU). A lista de 17 autoridades citadas no processo inclui três ministros da atual gestão e o grande temor é de que algum deles receba a sanção máxima permitida ao TCU, que é a inabilitação para o exercício de cargo de confiança no serviço público. Essa pena, entretanto, só deve ser imposta ao ex-ministro da Fazenda Guido Mantega e ao ex-secretário do Tesouro Nacional Arno Augustin, ambos considerados os artífices da contabilidade criativa.

Entre os ministros da ativa, a situação considerada mais delicada é a do titular do Planejamento, Nelson Barbosa. Recai sobre ele a responsabilidade de ter assinado, em 10 de outubro de 2012, uma portaria que concedeu à União o confortável prazo de 24 meses para reembolsar o BNDES pelos empréstimos subsidiados feitos no âmbito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Na época em que assinou o documento, Barbosa era o número 2 da Fazenda, então comandada por Mantega.

Ciente de que sua situação é a mais preocupante entre as autoridades que ainda estão no governo, Barbosa atribuiu ao ex-chefe a responsabilidade pela concessão do longo prazo ao governo, operação que foi considerada pelo TCU como uma das mais graves "pedaladas". Apesar de insistir na legalidade das operações, Barbosa alegou em sua defesa pessoal que o prazo de 24 meses para ressarcimento do BNDES já estava previsto em uma portaria anterior, assinada por Mantega em 10 de abril de 2012.

O atual ministro do Planejamento explicou que o texto assinado por ele apenas atualizava a portaria com novas medidas, mas que o ponto questionado pelo TCU já estava citado na versão anterior do documento. A assessoria de Barbosa confirmou as argumentações do ministro ao tribunal, mas ressaltou que ele também defendeu a estratégia do governo para o PSI.

A explicação melhorou a situação de Barbosa, que deve escapar de punições mais severas. Já Mantega e Arno têm grandes chances de serem inabilitados por até oito anos. Um técnico diretamente envolvido no processo de responsabilização disse que os dois aparecem em quase todas as irregularidades nas quais o TCU identificou fraude fiscal.

As demais autoridades citadas em abril pelo tribunal de contas poderão ser multadas em até R$ 50 mil. Estão na lista os presidentes da Petrobras, Aldemir Bendine; do Banco Central, Alexandre Tombini; e do BNDES, Luciano Coutinho. Bendine responde pelo período em que estava à frente do Banco do Brasil, instituição usada pelo governo nas "pedaladas". Também foram citados pelo TCU os ministros Tereza Campello (Desenvolvimento Social e Combate à Fome) e Gilberto Occhi (Integração Nacional).

Depois que o TCU aprovou o acórdão, o governo recorreu não apenas do mérito das "pedaladas", mas também das audiências solicitadas com as autoridades. A Secretaria de Recursos do tribunal, entretanto, entendeu que não cabe apelação para as audiências. O caso só será retomado depois que o plenário concluir a análise do recurso, o que deve acontecer no próximo dia 18. Definido o mérito, o rito de responsabilização será avaliado pela Secretaria de Controle Externo da Fazenda, que fará uma recomendação ao relator da matéria, José Múcio. As penas só devem se oficializadas em 2016. Mantega e Augustin não foram localizados pela reportagem.

O desfecho do processo das "pedaladas" é fundamental para a definição do resultado fiscal deste ano. O governo apresentou ontem sua defesa ao Congresso Nacional e apontou que a regularização integral das manobras contábeis pode resultar em um déficit de quase R$ 120 bilhões.

Conforme revelou o Valor na edição de ontem, o TCU liberou o Banco Central de ter que incluir todo o passivo referente às "pedaladas" na dívida líquida do setor público. Se fizesse esse acerto de contas, o governo teria também que recalcular os superávits primários registrados nos exercícios de 2013 e 2014.

Prejuízo em refinarias leva TCU a investigar Dilma

Dimmi Amora, Valdo Cruz – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff voltou a ser alvo do TCU (Tribunal de Contas da União) por sua participação como presidente do Conselho da Petrobras, entre 2005 e 2010.

O Tribunal aprovou nesta quarta-feira (4) processo em que os conselheiros e diretores da estatal terão que apresentar justificativa pelos prejuízos já apontados no balanço da empresa pelo cancelamento dos projetos das refinarias Premium I e II, no Ceará e no Maranhão, que somam R$ 2,8 bilhões. Conforme a Folha antecipou em setembro, os técnicos do tribunal investigam as decisões do conselho da estatal.

O mesmo deverá ocorrer com os prejuízos já contabilizados em outros dois grandes empreendimentos da Petrobras, as refinarias Abreu e Lima (PE) e Comperj (RJ).

Para o relator do TCU, ministro José Múcio Monteiro, as obras dessas refinarias foram aprovadas pelo Conselho sem que houvesse projeto e não foram analisados os gigantescos aumentos de custos. Segundo o relatório, será avaliado se os conselheiros cumpriram seu dever de fiscalizar os atos da diretoria, previsto em lei.

Dilma já foi alvo do TCU no processo que apura os prejuízo em Pasadena (EUA). Mas, naquele caso, a presidente estava respondendo pelas falhas que levaram a um prejuízo estimado em US$ 792 milhões (R$ 3 bilhões). Diretores da estatal estão sendo cobrados a devolver os recursos.

Odebrecht
Em outro processo, o TCU determinou que ex-diretores da empresa –entre eles José Sérgio Gabrielli, Paulo Roberto Costa, Graça Foster, Jorge Zelada, entre outros– apresentem justificativa ou paguem prejuízo de pelo menos US$ 3,7 milhões (R$ 14 milhões) já apurados em um contrato da estatal com a Odebrecht para manutenção das refinarias da Petrobras no exterior.

O prejuízo total nesse contrato ainda vai ser apurado pelos técnicos e o valor de ressarcimento poderá ser alterado. Os ex-diretores ainda vão poder se defender.

O contrato foi firmado com a Odebrecht em 2010 por US$ 826 milhões. Dois anos depois, a empresa reduziu o valor para US$ 480 milhões.

De acordo com o ministro relator, Vital do Rego, a concorrência foi direcionada e a Odebrecht serviu como mera intermediária na contratação de empresas no exterior por preços mais de 1.000% acima do mercado. O TCU vai avalia se houve superfaturamento nesses pagamentos.

No encerramento do contrato, a estatal pediu a devolução de US$ 3,7 milhões, após auditoria interna constatar pagamentos indevidos. Mas a empresa não devolveu, alegando que era a Petrobras que devia US$ 68 milhões. O caso virou uma disputa judicial entre as empresas.

Filho de Lula diz à PF que recebeu ‘valores por serviços contratados’

• Luís Cláudio Lula da Silva, alvo da Operação Zelotes, confirmou ao delegado Marlon Cajado que recebeu da empresa de Marcondes e Mautoni

Por Andreza Mataius, Fábio Fabrini e Julia Affonso – O Estado de S. Paulo

O empresário Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Lula, declarou nesta quarta-feira, 4, à Polícia Federal que por meio de sua empresa LFT prestou serviços à Marcondes e Mautoni nos anos de 2014 e 2015 e, por isso, recebeu ‘os valores que foram contratados’.

A Marcondes e Mautoni está sob suspeita de compra de Medidas Provisórias para favorecer o setor automotivo. Segundo a investigação, Luís Cláudio teria recebido R$ 2,4 milhões da Marcondes e Mautoni.

As informações sobre o depoimento do filho de Lula foram divulgadas por sua defesa.

Luís Cláudio é alvo da Operação Zelotes. A PF fez buscas na sede de suas empresas em São Paulo, por ordem da juíza Célia Regina Ody Bernardes, da 10.ª Vara Criminal Federal em Brasília.

Na semana passada, a PF intimou o filho de Lula para depor no inquérito. O depoimento ocorreria na PF em São Paulo, mas nesta quarta, Luís Cláudio foi a Brasília e prestou esclarecimentos diretamente ao delegado de Polícia Federal Marlon Cajado, que preside o Inquérito Policial nº 1424/15-4/DPF/DF.

Segundo o advogado Cristiano Zanin Martins, que defende o empresário, Luis Cláudio reafirmou ao delegado da PF ‘seu know how na área esportiva, fruto da passagem por 4 clubes de futebol do Estado de São Paulo (São Paulo, Palmeiras, Santos e Corinthians)’. Ele esclareceu à PF detalhes da ‘prestação de serviços de marketing esportivo ao Corinthians e, ainda, por ser há 4 anos o organizador de um campeonato nacional de futebol americano’

Juíza que ordenou buscas em empresa de filho de Lula deixa Zelotes

• O titular da 10ª Vara, Vallisney de Souza Oliveira, retorna ao seu cargo de origem; desde 2014, o magistrado atuava como auxiliar no gabinete do ministro do STJ Napoleão Nunes Filho

Por Fábio Fabrini e Andreza Matais e Julia Affonso – O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A juíza substituta Célia Regina Ody Bernardes, da 10ª Vara da Justiça Federal, em Brasília, deixou nesta quarta-feira, 4, de conduzir a Operação Zelotes. A mudança no comando do caso ocorre menos de duas semanas após ela ordenar a prisão de seis suspeitos de comprar medidas provisórias no governo federal e de expedir mandado de busca e apreensão na sede de empresas de Luís Cláudio Lula da Silva, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O titular da 10ª Vara, Vallisney de Souza Oliveira, retorna ao seu cargo de origem. Ele reassumirá todo o seu acervo de processos e procedimentos, incluindo a investigação da Zelotes.

Em 2012, Vallisney Oliveira arquivou inquérito que apurou tráfico de influência no Ministério da Casa Civil, durante a gestão Erenice Guerra.

Investigadores responsáveis pelo caso, ouvidos pelo Estado, veem a saída de Célia Regina com preocupação, já que ela adotou uma linha distinta da usada pelos juízes que a antecederam no caso ao deferir medidas mais duras contra os suspeitos. Por isso, teria imprimido um “padrão Moro” na investigação, uma referência ao juiz Sérgio Moro, que conduz a Operação Lava Jato.

Desde o ano passado, Vallisney atuava como auxiliar convocado no gabinete do ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Napoleão Nunes Filho. A permanência na função, que acabou nesta quarta-feira, poderia se renovada por mais dois semestres consecutivos, mas, em nota ao Estado, o STJ justificou que “juiz pediu para sair, por motivos particulares”. O tribunal acrescentou que o magistrado não continuou no gabinete porque “fez outra escolha”.

Vallisney não explicou oficialmente os motivos do retorno. Com o término da convocação, Célia Regina voltou a despachar nesta quarta-feira na 21ª Vara da Justiça Federal. A transferência, determinada pela Presidência do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, deve ser publicada nos próximos dias.

A magistrada assumiu os procedimentos da Zelotes em setembro. Mesmo com pouco tempo à frente do caso, foi tida como a responsável por mudar o curso da investigação criminal, ao aceitar as primeiras prisões de investigados e a ação no escritório de Luís Cláudio. As buscas foram duramente criticadas pelo PT.

A juíza concordou com os argumentos de dois procuradores da República, que consideraram muito suspeito o fato de uma empresa de Luís Cláudio, a LFT Marketing Esportivo, ter recebido, em 2014, pagamentos vultosos de uma consultoria investigada por “comprar” medidas provisórias nos governos de Lula e de Dilma Rousseff. Os repasses foram revelados pelo Estado em 1º de outubro.

Os mandados foram assinados pela juíza no dia 23 de outubro e cumpridos pela Polícia Federal na última segunda-feira, durante a terceira fase da Zelotes. Na última quinta-feira, três dias após as ações, o STJ comunicou ao TRF1 o “término do período de convocação” de Vallisney.

As mudanças na 10ª Vara provocaram reações no Congresso. Nesta quarta-feira, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) propôs uma voto de aplauso à magistrada e disse temer que o afastamento seja a concretização de uma “operação abafa”. “Em nome da honra do Judiciário brasileiro, não é de bom tom que isso venha a se concretizar”, lamentou.