domingo, 4 de novembro de 2012

Uma aula do Citi para a Febraban - Eli Gaspari

Há dois anos, quando uma enchente devastou áreas do Estado do Rio, a Federação Brasileira dos Bancos, a Febraban, avisou aos clientes cujas contas venciam naqueles dias que "os bancos estão impedidos de adiar pagamentos". Portanto, cobrariam juros de mora à patuleia que não conseguisse chegar às agências ou quitar suas dívidas nos canais de atendimento remoto disponíveis.

No dia seguinte, corrigiu-se, mas fez questão de lembrar que fizera o certo. Quem já tivesse pago com multa deveria se virar, negociando com o credor.

Na semana passada, os clientes do Citibank americano receberam uma mensagem intitulada "Estamos aqui para ajudar", informando o seguinte:

1) Elevara em US$ 5 mil o limite de crédito de todos os fregueses.

2) Devolveria as taxas resultantes de saques feitos em caixas eletrônicos da rede avulsa.

3) Suspendera a cobrança de taxas resultantes de cobranças de atrasos relacionadas com seus produtos.

Os bancos brasileiros esconderam-se sob o guarda-chuva da Febraban e, durante 24 horas, associaram-se a uma iniquidade.

O Citi americano foi à luta, defendendo seus clientes e sua marca.

Crime paulista

Antes que a doutora Dilma e Geraldo Alckmin se acertassem, a Secretaria de Segurança de São Paulo meteu-se num bate-boca com o Ministério da Justiça em torno da colaboração do governo federal para reduzir a violência no estado.

Tudo bem que se acredite que o crime organizado deriva da sua glamourização da bandidagem pela imprensa. Tudo bem que se magnifique o problema da entrada de drogas e armas pelas fronteiras. Nada disso elimina o fato de que neste ano já foram assassinados 89 policiais no estado, cinco dos quais durante o serviço.

No dia 29 de junho, o secretário de Segurança paulista enviou uma planilha com projetos para os quais solicitava ajuda federal. Para iniciativas conjuntas com a máquina federal, zero. Numa lista de supermercado de R$ 148,9 milhões, pedia as seguintes ferragens:

- R$ 9,1 milhões para compra de discos voadores destinados à "observação aérea nas ações de policiamento ambiental".

- R$ 74,5 milhões para rádios e equipamentos de comunicação.

- R$ 11,4 milhões para a compra de dez veículos blindados, trajes para proteção de desativadores de explosivos, seis canhões e robôs. Dois ônibus para os alunos e professores da Academia de Polícia.

- Mais a seguinte gracinha destinada à "implementação de cultura saudável, mediante a montagem de Núcleo de Condicionamento Físico na Academia de Polícia": R$ 348 mil para a aquisição de 42 itens de "musculação e acessórios de ginástica".

Aviso amigo

Se o doutor Gilberto Kassab não enquadrar sua infantaria, será sangrenta a transição na prefeitura de São Paulo.

Dilma no STF

De um ministro do Supremo Tribunal Federal:

"Chefe do Executivo, Dilma Rousseff irá à posse de Joaquim Barbosa na presidência do Supremo. Digo isso sem ter nenhuma informação. Se ela não for, posso lhe assegurar que seu principal assessor político já foi identificado por Guimarães Rosa. Mora no meio de um redemoinho e chama-se o Cão, Arrenegado, Tisnado, Mafarro, Danado, Satanazim ou, simplesmente, Ele."

Sábios

Ao se afastarem da cenografia da digestão do que se diz ser uma vontade de Marcos Valério de colaborar com a Justiça, os caciques do PSDB e do DEM quiseram evitar um clima de CPI do Cachoeira 2.0.

Ela foi criada para investigar o que a Polícia Federal já havia investigado, reuniu-se para salvar correligionários e acabou melancolicamente, para desgaste do Congresso.

A única coisa que ela descobriu foi que não queria descobrir nada.

Deixando-se Marcos Valério nas mãos do Ministério Público, todo mundo ganha.

2014

Quem fez a conta foi o repórter Cristian Klein:

O bloco formado por DEM, PP, PTB, PR e pelo estreante PSD conseguiu apenas 13% dos votos nas cidades com mais de 200 mil habitantes. Na eleição de 2000, tivera 25,1% dos votos.

Se existem esquerda e direita no quadro partidário brasileiro, nesse bloco há mais direita do que esquerda.

Moita

O senador Aécio Neves está na muda e procura falar pouco, mas isso não explica que sua página oficial na internet não seja atualizada desde julho de 2010.

Fica a impressão de que ele está no Rio.

Marighella, a biografia de um mito

Desde 1996, quando o historiador americano John W. Dulles publicou a sua notável biografia de Carlos Lacerda, não se via um retrato de político brasileiro como o que o repórter Mário Magalhães traçou no seu "Marighella - O guerrilheiro que incendiou o mundo". São 732 páginas de pesquisa minuciosa em que uma vida conta duas histórias, a do Partido Comunista e a do nascimento do surto terrorista que durou de 1967 a 1973. Nele, a Ação Libertadora Nacional, de Marighella, teve um dos papéis mais relevantes.

O objetivo de Mário Magalhães foi contar uma vida, não a julgar. Marighella tornou-se personagem de romance em 1954, aos 43 anos, quando Jorge Amado esculpiu o mulato baiano Carlos, na trilogia stalinista "Os subterrâneos da liberdade". A biografia segue um personagem fortemente documentado em dois acervos. De um lado, o da polícia política, que o perseguia. (Marighella viveu 57 anos, 33 dos quais no PCB, sete na cadeia e 19 na clandestinidade.) De outro, o dos seus correligionários, lapidadores de um mito heroico. Magalhães trabalhou durante nove anos, com 256 entrevistas, vasta leitura e pesquisas em arquivos brasileiros, americanos e russos.

O livro retrata um homem destemido e frugal que buscou o apoio de um psiquiatra quando o primeiro-ministro soviético Nikita Kruschev denunciou o stalinismo. Expansivo, fazia versos, e um deles teve como subtítulo "Sonata em três tempos - Quarteto de inúbia, ataque, berimbau e piano". Expunha-se, e, quando chegou a hora de assaltar bancos, foi lá e roubou um. Num camburão, adormeceu e sonhou ser o astronauta Yuri Gagarin dando voltas sobre a Terra.

Em março de 1964, Marighella era um dirigente do Partido Comunista e discutia o bombardeio do Palácio Guanabara. No dia 1º de abril, discursava em cima de caixotes. Um mês depois, estava preso. Formou a ALN tirando uma costela do Partidão, mobilizando jovens numa estrutura que Jacob Gorender classificou como "anarcomilitarismo". Ele pretendia começar a revolução movendo colunas guerrilheiras no campo. A ALN assaltou seu primeiro banco em 1967, e ele foi assassinado dois anos depois. Nenhuma coluna foi criada.

Quem quiser sapear o volume numa livraria pode ir ao capítulo "Os sobrinhos do titio Marighella", com a história de um assalto ao cinema Ópera, no Rio. A idade média do grupo era de 19 anos. Um "sobrinho" de 15 não podia entrar no filme em cartaz, "O bebê de Rosemary". Depois do incidente, dois deles foram jogar futebol na madrugada do Aterro.

Fonte: O GLOBO

Sanatório geral (licença, Chico) - Danuza Leão

O PT se prepara para promover uma grande campanha a favor dos pobres condenados

Sempre ouvi falar que decisão da Justiça não se discute, se acata. Mas não é o que acha o Partido dos Trabalhadores.

Há os que dizem que um passado limpo tem que ser levado em conta na hora da aplicação das penas. Dentro dessa teoria, Marcos Valério não poderia ter sido condenado a 40 anos de prisão, quando o norueguês que matou 77 pessoas foi condenado a 21 anos. E, se o pai de Isabela Nardoni e sua madrasta foram condenados, respectivamente, a 31 e 27 anos de prisão, como então condenar, por crimes que nem foram de sangue, pessoas de "alto valor social", se os crimes destes indivíduos foram apenas de colarinho branco?

Os exemplos se multiplicam, e o PT se prepara para uma grande campanha a favor dos pobres condenados, valorosos combatentes contra a ditadura que lutaram pela volta da democracia. Nesse tempo eles conviveram com o autoritarismo e, pelo visto, aprenderam e gostaram. Eles lutaram pela democracia? Lutaram, sim. Assaltaram os cofres públicos para poderem se perpetuar no poder? Assaltaram, sim. Quem diz isso não sou eu, são os ministros do Supremo Tribunal Federal. E, entre acreditar no que dizem os réus, seus advogados e o PT ou em ministros do quilate de Celso de Mello, Ayres Britto, Marco Aurélio Mello, Luiz Fux, Joaquim Barbosa, fico com os últimos.

Assisti a todas as sessões do mensalão; no início, com alguma dificuldade para entender o que diziam e, depois, já mais familiarizada com o "juridiquês". Lembrei da CPI, dos depoimentos, fiquei sem entender quem enviou o dinheiro para pagar a Duda Mendonça -Mas não é crime enviar dinheiro para o exterior? E quem mandou, afinal?- e confiei no julgamento dos ministros. Afinal, se não se confia no que dizem os ministros da Suprema Corte -tirando uma ou duas exceções-, confiar em quem?

Ainda vamos ter muito tempo para os acórdãos, os memoriais, o recesso do Judiciário, o Natal, o Carnaval e a Semana Santa, tempo é que não vai faltar. E leio estupefata, na Folha, que José Genoino, condenado por corrupção e formação de quadrilha, tem o apoio do PT para assumir uma vaga na Câmara dos Deputados, já que é suplente de um deputado que foi eleito para a prefeitura de São José dos Campos. O PT apoia, e, segundo o presidente do partido, Genoino vai assumir "sem problema algum". Alguém deve estar louco neste país.

Os deputados já condenados continuam deputados, e os ministros do Supremo ainda vão decidir se eles vão perder os mandatos. Mas, na opinião do presidente da Câmara, Marcos Maia -do PT, é claro-, a cassação deve passar pelo plenário. E se a maioria dos deputados for contra a cassação, como é que fica?

Uma curiosidade: que tipo de solidariedade o ex-presidente Lula vai prestar a seus antigos amigos, companheiros que o ajudaram a fundar o partido, que partilharam com ele do poder e que agora estão na pior? Um churrasco seria o mínimo, pela antiga amizade.

E a pergunta que não quer calar: quem é, afinal, Dilma Rousseff? De quem se trata? Às vezes ela faz um agrado à opinião pública e demite alguns ministros, ministros cujas roubalheiras são chamadas de "malfeitos" e foram denunciadas pela imprensa, pois ela não sabia de nada, claro; seus apagões são chamados de "apaguinhos"; quando Lula chama, ela vai correndo a São Paulo receber suas ordens, tipo nomear Marta Suplicy para um ministério, para em troca ela fazer campanha para o Haddad. E já se murmura que lá pelo final do ano, quando as coisas tiverem esfriado, pode haver uma anistia geral aos criminosos, basta Lula querer.

Fonte: Folha de S. Paulo

Teresa Cristina - Quantas lágrimas (Manacéa )

Carta a Stalingrado - Carlos Drummond de Andrade


Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora,
e o hálito selvagem da liberdade
dilata os seus peitos, Stalingrado,
seus peitos que estalam e caem,
enquanto outros, vingadores, se elevam.

A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero.
Mas Homero é velho. Os telegramas cantam um mundo novo
que nós, na escuridão, ignorávamos.
Fomos encontrá-lo em ti, cidade destruída,
na paz de tuas ruas mortas mas não conformadas,
no teu arquejo de vida mais forte que o estouro das bombas,
na tua fria vontade de resistir.
Saber que resistes.
Que enquanto dormimos, comemos e trabalhamos, resistes.
Que quando abrimos o jornal pela manhã teu nome (em ouro oculto) estará firme no alto da página.
Terá custado milhares de homens, tanques e aviões, mas valeu a pena.
Saber que vigias, Stalingrado,
sobre nossas cabeças, nossas prevenções e nossos confusos pensamentos distantes
dá um enorme alento à alma desesperada
e ao coração que duvida.

Stalingrado, miserável monte de escombros, entretanto resplandecente!
As belas cidades do mundo contemplam-te em pasmo e silêncio.
Débeis em face do teu pavoroso poder,
mesquinhas no seu esplendor de mármores salvos e rios não profanados,
as pobres e prudentes cidades, outrora gloriosas, entregues sem luta,
aprendem contigo o gesto de fogo.
Também elas podem esperar.

Stalingrado, quantas esperanças!
Que flores, que cristais e músicas o teu nome nos derrama!
Que felicidade brota de tuas casas!
De umas apenas resta a escada cheia de corpos;
de outras o cano de gás, a torneira, uma bacia de criança.
Não há mais livros para ler nem teatros funcionando nem trabalho nas fábricas,
todos morreram, estropiaram-se, os últimos defendem pedaços negros de parede,
mas a vida em ti é prodigiosa e pulula como insetos ao sol,
ó minha louca Stalingrado!
A tamanha distância procuro, indago, cheiro destroços sangrentos,
apalpo as formas desmanteladas de teu corpo,
caminho solitariamente em tuas ruas onde há mãos soltas e relógios partidos,
sinto-te como uma criatura humana, e que és tu, Stalingrado, senão isto?
Uma criatura que não quer morrer e combate,
contra o céu, a água, o metal, a criatura combate,
contra milhões de braços e engenhos mecânicos a criatura combate,
contra o frio, a fome, a noite, contra a morte a criatura combate,
e vence.

As cidades podem vencer, Stalingrado!
Penso na vitória das cidades, que por enquanto é apenas uma fumaça subindo do Volga.
Penso no colar de cidades, que se amarão e se defenderão contra tudo.
Em teu chão calcinado onde apodrecem cadáveres,
a grande Cidade de amanhã erguerá a sua Ordem.

Rio, 12/10/1942

sábado, 3 de novembro de 2012

OPINIÃO DO DIA – Merval Pereira: Lula no seu labirinto


 “O tema saiu da redoma que o protegia há sete anos e está colocado publicamente. Seria bom se Lula viesse a público dar a sua versão dos fatos, em vez de querer negá-los. Mas teria que ser uma versão definitiva, com começo, meio e fim, e não as versões desencontradas que vem dando ao longo desse tempo, quando já vestiu a roupa de traído, já pediu desculpas "pelos graves erros cometidos", já disse que se tratava de caixa dois e, por fim, prometeu provar que tudo não passara de uma "farsa" cujo objetivo final seria a sua deposição.”

Merval Pereira, jornalista. Lula no seu labirinto. O Globo, 2/11/2012

Manchetes dos principais jornais do Brasil


O GLOBO
SP vai ampliar ocuparão de áreas violentas
Dilma irá à posse de Barbosa no STF
Celular e relógio são proibidos

FOLHA DE S. PAULO
Ministros do STF falam em proteção a Marcos Valério
Brasileiro está entre mortos da tempestade Sandy nos EUA
Secretário quer assassinos de PM em prisão federal
5,8 milhões farão as provas do Enem hoje e amanhã
Quase metade dos eleitores de SP não votaria se fosse possível

O ESTADO DE S. PAULO
Valério disse que mandou dinheiro para Santo André
Setor avalia perda de 70% da receita com novas tarifas
Comandante da PM dispensa tropa federal
Madrugada violenta
Enem tem custo de R$ 262 milhões

CORREIO BRAZILIENSE
Órfãos do apagão amargam prejuízo
Cresce o número de casos de leishmaniose
Brasileiro morreu na tempestade
Justiça: Consumidor tem levado a melhor

ESTADO DE MINAS
Ficou tudo para depois
Furacão: Brasileiro é morto pelo Sandy nos EUA
Caciques: Deputados estaduais são derrotados em seus currais
Enem começa hoje e custa R$ 46 por candidato

ZERO HORA (RS)
Mistério envolve morte de militar

JORNAL DO COMMERCIO (PE)
Chegou a hora do Enem
Brasileiro está entre vítimas de tempestad
e

O que pensa a mídia - Editoriais dos principais jornais do Brasil

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

'Veja': PT pediu ajuda a Valério no caso Daniel

Segundo revista, operador do mensalão relata tentativa de envolver Lula na morte do prefeito de Santo André

SÃO PAULO E BRASÍLIA - A revista "Veja" desta semana afirma que o operador do mensalão, Marcos Valério, acusou a cúpula do PT de pedir que ele desse dinheiro para calar o empresário Ronan Maria Pinto, que ameaçava envolver o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na morte, em 2002, do então prefeito de Santo André, Celso Daniel (PT).

De acordo com a publicação, Valério, já condenado pelo Supremo Tribunal federal (STF) a 40 anos de prisão, relatou que nos primeiros meses de 2003, no começo do governo Lula, foi convocado pelo então secretário-geral do PT, Silvio Pereira, para uma conversa com Ronan, que é alvo de ações do Ministério Público por participação em suposto esquema de corrupção na prefeitura de Santo André.

O empresário, dono de empresas de ônibus e coleta de lixo, ameaçaria envolver Lula e o então chefe de gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, no caso. Segundo a revista, ao receber a missão de levantar dinheiro para apaziguar Ronan, Valério teria reagido dizendo: "Eles achavam que (o pagamento) ia ser através de mim e eu falei assim: Nisso aí eu não meto, não""

A revista não traz provas de que o encontro entre o operador do mensalão e o empresário realmente existiu. Procurado, Ronan informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a história é "absurda" e que jamais se encontrou pessoalmente com Valério. O advogado de Silvio Pereira, Gustavo Badaro, disse que seu cliente nega o episódio.

- Ele (Silvio Pereira) disse que isso nunca existiu. É uma fantasia - afirmou o advogado.

A assessoria do Instituto Lula informou que não comentaria acusações não confirmadas.

Há sete semanas, "Veja" também havia publicado uma reportagem contando que Valério relatou a amigos e parentes que Lula seria o chefe do mensalão e tinha conhecimento da existência do esquema. Na semanada passada, o diretor de redação da revista, Eurípedes Alcântara, afirmou ao portal "Comunique-se" que a publicação possui uma gravação com a acusação feita pela operador do mensalão, mas que considerava desnecessário divulgá-la.

O prefeito Celso Daniel foi encontrado morto em janeiro de 2002, dois dias depois de ser sequestrado. De acordo com a investigação do Ministério Público, o crime teria sido planejado pelo empresário Sergio Gomes da Silva, o Sombra, que estaria contrariado porque Daniel pretendia por fim ao suposto esquema de corrupção.

A declaração de Valério à "Veja" provocou reações no PT e na oposição. Os líderes do DEM e do PSDB no Senado, mesmo considerando as acusações graves, foram cautelosos e disseram que vão aguardar a atuação da Procuradoria-Geral da República na investigação.

- São assuntos gravíssimos, que carecem de confirmação. O mais importante é o depoimento dado por ele ao Roberto Gurgel - defendeu o líder do DEM, José Agripino Maia (RN).

Já o líder do PT na Câmara, deputado Jilmar Tatto (SP), disse que Valério não tem "a menor credibilidade".

- Marcos Valério é uma pessoa condenada, está na fase de desespero, porque vai para a cadeia. O PT pagou um alto preço por ter se relacionado com esse senhor. Marcos Valério não merece e não tem o mínimo de credibilidade. Ele teve a oportunidade de falar no processo, mas não falou - disse Tatto.

Já o ministro Gilberto Carvalho não quis se manifestar, limitando a enviar, por meio da assessoria, a nota que já havia enviado à revista, na qual nega as acusações: "O ministro Gilberto Carvalho nunca teve conhecimento de qualquer ameaça ou chantagem feita pelo sr. Ronan Maria Pinto, diretamente ou por terceiros. O ministro nunca teve qualquer contato com o sr. Marcos Valério, nem pessoalmente, nem por email, telefone ou qualquer outro meio. O ministro desconhece absolutamente a suposta denúncia apresentada pela revista Veja", diz a nota.

No Palácio do Planalto, a ordem era evitar comentários oficiais, pois isso só acabaria dando força a algo que não consideram verdadeiro.

Fonte: O Globo

Colaboração em troca de perdão para penas

Sergio Roxo

SÃO PAULO - Marcos Valério prestou depoimento em setembro ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, em que incrimina pessoas que não estão incluídas na ação do mensalão. O conteúdo do depoimento está sob sigilo. Segundo o jornal "O Estado de S. Paulo", ele citou o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro Antonio Palocci e relatou outras remessas de dinheiro para o exterior. Também falou sobre o assassinato do prefeito de Santo André Celso Daniel. Para escapar da cadeia, Valério pediu para ser incluído no programa de proteção a testemunhas. Prometeu dar mais detalhes dos casos se o pedido fosse atendido, o que poderia livrá-lo da pena de 40 anos a que já foi condenado pelo STF.

No fim de setembro, o operador do mensalão enviou fax ao Supremo para ser incluído no programa de proteção a testemunha. Em seguida se ofereceu para prestar o novo depoimento. De acordo com o procurador Roberto Gurgel, novas informações dadas por Valério não podem ser incluídas no processo do mensalão. Segundo ele, seria necessário abrir novos inquéritos para apurar o que for relatado por Valério. No STF, a possibilidade de Valério escapar da pena a que foi condenado é vista com cautela. Um ministro diz que isso significaria que ele cumpriria a pena fora da cadeia. Já o ministro Marco Aurélio Mello afirmou que, como os fatos do processo do mensalão já estão sendo julgados, não haveria motivação para uma delação. A colaboração de Valério em outros processos não poderia interferir na pena de um processo anterior.

Fonte: O Globo

Valério disse que mandou dinheiro para Santo André

Operador do mensalão afirmou em depoimento que recursos foram enviados após a morte de Celso Daniel

Condenado no STF por operar o mensalão, o empresário Marcos Valério relatou em depoimento dado em setembro à Procuradoria-Geral da República que recursos do esquema foram enviados a Santo André após o assassinato do prefeito Celso Daniel (PT), ocorrido em janeiro de 2002. Valério disse que o dinheiro serviu para estancar supostas ameaças e chantagens a petistas, informam Ricardo Brito e Fausto Macedo. Segundo a revista Veja, o empresário Ronan Maria Pinto ameaçava revelar o envolvimento do ex-presidente Lula e do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, no esquema. Carvalho, que foi secretário municipal em Santo André de 1997 a 2001, informou, por intermédio de nota da secretaria-geral, que "nunca teve conhecimento de qualquer ameaça ou chantagem" a respeito de seu suposto envolvimento em pedidos de propinas durante a administração de Celso Daniel.

Valério disse em depoimento que pagou para cessar chantagens em Santo André

O operador. Empresário condenado pelo Supremo afirmou à Procuradoria-Geral, em setembro, ter repassado dinheiro a pessoas que ameaçavam dizer que Lula e seu assessor Gilberto Carvalho estariam envolvidos num suposto esquema de propina na cidade

Ricardo Brito, Fausto Macedo

No depoimento prestado em setembro ao Ministério Público Federal, o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, condenado no Supremo por operar o mensalão, relatou que recursos do esquema foram enviados a Santo André após o assassinato do prefeito Celso Daniel (PT), ocorrido em janeiro de 2002. Valério disse, segundo investigadores que tiveram acesso ao depoimento sigiloso, que o dinheiro serviu para estancar supostas ameaças e chantagens a petistas.

Em sua edição desta semana, a revista Veja informa que Valério foi procurado em 2003 pelo então secretário-geral do PT, Silvio Pereira, a fim de que desse dinheiro ao empresário de ônibus Ronan Maria Pinto. Ronan, como é conhecido, estaria, segundo o petista, ameaçando dizer em público que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu principal assessor, o hoje ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, seriam os beneficiários do esquema de desvio de dinheiro público da prefeitura de Santo André.

O dinheiro do valerioduto, portanto, serviria para calar Ronan num momento em que o Ministério Público Estadual ligava o esquema de propina ao assassinato de Daniel, ocorrido um ano antes. Os promotores alegavam que o prefeito tentou acabar com o esquema de desvios de verba pública na cidade do ABC e, por isso, acabou assassinado. "Nisso aí eu não me meto", teria dito Valério a Silvo Pereira, ainda segundo o relato da revista.

Porém, no depoimento espontâneo prestado em setembro, Valério afirmou, conforme investigadores ligados ao caso, que repassou o dinheiro para que pessoas cessassem as ameaças e as chantagens a integrantes do PT.

Valério, condenado a mais de 40 anos no STF, tenta com o novo depoimento, cuja existência foi revelada na quinta-feira pelo Estado, e com promessas de mais declarações reduzir sua pena ou até mesmo se livrar da cadeia, caso seja incluído no programa de proteção a testemunhas.

A aposta de Valério para obter o benefício da delação premiada e sua inclusão no programa de proteção a testemunhas é dizer que o esquema de desvio de verbas públicas do governo Lula não serviu apenas para pagar parlamentares do Congresso Nacional. O envio do dinheiro a Santo André seria um exemplo disso.

Ações. A corrupção na gestão Celso Daniel é alvo de ações civis e criminais que tramitam no Fórum de Santo André. Carvalho foi citado em um desses processos, com base na Lei de Improbidade. Ronan também é acusado de ligações com o suposto esquema.

O Grupo de Repressão ao Crime Organizado concluiu que o operador do esquema era o empresário Sérgio Gomes, o Sombra. Para os promotores, Sombra encomendou o assassinato de Daniel porque este decidiu dar um fim na coleta de propinas quando descobriu que o dinheiro arrecadado não ia para o caixa do PT, mas servia para enriquecimento pessoal de integrantes da organização. Sombra ainda não foi julgado. Ele nega envolvimento.

Durante as investigações, o Ministério Público tomou o depoimento do médico João Francisco Daniel, irmão de Celso, que fez as primeiras revelações envolvendo dirigentes do PT.

Em maio de 2002, João Francisco afirmou que Carvalho contou a ele que levava parcelas do dinheiro desviado diretamente para as mãos de José Dirceu, então presidente do partido e deputado federal, hoje condenado por comandar o mensalão.

Na ocasião, o procurador-geral de Justiça de São Paulo, Luiz Antonio Marrey, pediu ao chefe do Ministério Público Federal, Geraldo Brindeiro, que representasse ao Supremo para que fosse autorizada abertura de inquérito destinado a investigar Dirceu.

Ministro do STF à época, Nelson Jobim decretou o arquivamento do pedido sob argumento de que "por ouvir dizer" não seria possível autorizar inquérito. "Há que se exigir consistência nos indícios, o que não se verificou neste caso. O processo democrático é incompatível com o denuncismo." Dirceu declarou que não temia nenhuma investigação a respeito do caso.

"Foi uma frustração muito grande para o Ministério Público porque a decisão (de Jobim) matou na raiz uma apuração extremamente importante", disse um promotor que fez parte da força tarefa para desvendar os meandros da trama de Santo André. "O trânsito de dinheiro para Brasília ficou muito claro para nós. Evidente que devia ter sido investigado."

Crime comum. A Polícia Civil paulista concluiu que Celso Daniel foi vítima de criminosos comuns que o sequestraram para pedir resgate em dinheiro.

O promotor de Justiça Marcio Friggi tem sustentado perante o Tribunal do Júri de Itapecerica da Serra - onde estão sendo julgados os executores de Daniel - que o prefeito foi fuzilado por "encomenda mediante paga".

Quatro assassinos já foram condenados pela Justiça. Na véspera de um desses julgamentos, em maio passado, o promotor afirmou: "O prefeito conhecia o esquema de dinheiro para o caixa 2 de seu partido, para beneficiar o PT nas eleições, inclusive para a campanha do presidente Lula naquele ano de 2002".

Fonte: O Estado de S. Paulo

Ministro nega que tenha sido chantageado; instituto não comenta

Gilberto Carvalho e Silvio Pereira afirmam que relato é falso; assessores de Lula não se pronunciam

Bruno Boghossian e Felipe Frazão

O ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, negou ontem ter sido vítima de chantagem de pessoas que ameaçavam revelar seu suposto envolvimento com o esquema de desvio de verbas públicas da prefeitura de Santo André na gestão do prefeito Celso Daniel.

O ex-secretário-geral do PT Silvio Pereira também negou que o empresário Marcos Valério o tenha procurado para levantar o dinheiro necessário a fim de "calar" o empresário Ronan Maria Pinto, que seria o responsável pela ameaça de ligar Lula e Carvalho ao esquema de propinas no município do Grande ABC.

Segundo a revista Veja desta semana, o encontro entre Valério e Pereira ocorreu em 2003, um ano depois do assassinato de Celso Daniel. Nesse encontro, o petista teria pedido dinheiro para evitar que Ronan fosse a público dizer que Lula e Carvalho eram beneficiários do dinheiro desviado da prefeitura de Santo André.

O Instituto Lula não quis comentar o caso ontem. Os assessores do ex-presidente afirmaram que desconhecem o conteúdo do novo depoimento de Valério à Procuradoria-Geral.

Sem relação. "O ministro nunca teve qualquer contato com o sr. Marcos Valério, nem pessoalmente, nem por e-mail, telefone ou qualquer outro meio", afirmou a Secretaria-Geral da Presidência por meio de nota oficial.

A pasta informou que Carvalho "nunca teve conhecimento de qualquer ameaça ou chantagem" feita por pessoas que teriam informações a respeito de seu suposto envolvimento em pedidos de propinas durante a administração de Celso Daniel.

O ministro foi secretário municipal em Santo André de 1997 a 2001.E sempre negou a existência do esquema de pagamento de propina a empresários.

O Ministério Público afirma que Daniel foi assassinado em janeiro de 2002 porque queria acabar com o desvio de verbas. A Polícia Civil, porém, sustenta que o ele foi vítima de crime comum.
Silvio Pereira negou a existência do encontro com Valério e do pedido de ajuda para atender ao achaque de Ronan. Segundo o advogado Gustavo Badaró, defensor de Pereira no processo do mensalão - no qual o petista fez acordo para livrar-se do processo ao prestar 750 horas de serviços comunitários -, ele afirmou que as acusações de Valério são fantasiosas. "Ele (Pereira) negou peremptoriamente e me pareceu tranquilo", disse Badaró, que fez contato telefônico com seu cliente. "Ele disse: "Isso nunca existiu, é uma fantasia. Absolutamente desconheço tudo isso"."

O empresário Ronan Maria Pinto, disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que nunca esteve com Valério: "Isto é um absurdo".

O criminalista Roberto Podval nega o envolvimento de Sérgio Gomes, o Sombra, na morte de Celso Daniel. Podval questiona no Supremo Tribunal Federal o poder de investigação criminal do Ministério Público.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Supremo retoma dosimetria de penas do mensalão na quarta

Punições voltam a ser calculadas após relator voltar de viagem à Alemanha, onde foi fazer tratamento de saúde

O Supremo Tribunal Federal retoma na quarta-feira a fase de definição das penas dos condenados do processo do mensalão. Os ministros da Corte ainda precisam analisar os casos de 23 condenados - entre eles os ex-dirigentes do PT José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares.

Já foram estabelecidas as penas do empresário Marcos Valério, condenado a mais de 40 anos de prisão por operar o esquema, e de seu ex-sócio Ramon Hollerbach, cuja punição definida até agora soma 14 anos de prisão.

O STF interrompeu o julgamento na semana passada devido a uma viagem do ministro Joaquim Barbosa à Alemanha para um tratamento de saúde.

Na quarta-feira, o STF deve concluir a análise sobre o caso de Hollerbach. Os ministros já estabeleceram sua pena para cinco condutas e precisam apreciar ainda outros três crimes.

Não há previsão para definição das penas de Dirceu, Genoino e Delúbio. Os três foram condenados por corrupção ativa e formação de quadrilha.

Divergências entre os magistrados sobre os critérios de estabelecimento das penas impuseram um ritmo lento à chamada dosimetria. A Corte estimava em três dias o prazo para definição das punições, mas o tempo só foi suficiente para analisar os casos de Valério e Hollerbach.

Alguns ministros afirmam que, ao fim do estabelecimento das penas, vão analisar se houve continuidade delitiva nos crimes de peculato e corrupção ativa - o que pode reduzir a punição, pois não haveria soma das penas para cada condenação.

Revelações. A Corte só pretende analisar após o fim do julgamento o novo depoimento de Valério à Procuradoria-Geral da República, que cita o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em conversas reservadas, os ministros dizem temer que esta seja apenas uma "manobra" do publicitário, que pede sua inclusão no programa de proteção à testemunha em troca de novas acusações. Um ministro afirmou que as informações dadas por Valério podem não ter validade se não forem acompanhadas de documentos ou informações objetivas.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Ministros do STF falam em proteção a Marcos Valério

Segundo revista, operador do mensalão disse que PT pediu dinheiro para calar empresário ligado ao caso Celso Daniel

Ministros do STF defendem que o empresário Marcos Valério receba algum tipo de proteção do Estado.

O operador do mensalão, já condenado pelo tribunal a mais de 40 anos de prisão, se propõe a dar novas informações sobre a compra de apoio no governo Lula.

Ministros do STF defendem proteção para Marcos Valério

Operador do mensalão diz estar disposto a revelar novos detalhes do esquema

Segundo revista, Valério diz que PT pediu dinheiro para silenciar empresário ligado ao caso Celso Daniel

Felipe Seligman

BRASÍLIA - Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ouvidos pela Folha defendem que o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza, operador do mensalão e condenado pelo tribunal a mais de 40 anos de prisão, receba algum tipo de proteção do Estado.

Para eles, se Valério afirma temer pela sua vida, isso não pode ser subestimado. O empresário se diz disposto a revelar ao Ministério Público detalhes inéditos sobre o esquema que ajudou a organizar durante o governo Lula.

Novos depoimentos não terão interferência no julgamento do mensalão, que está na fase final. Mas podem resultar em novas investigações ou contribuir para outros inquéritos em curso.

Os ministros do STF não descartam a possibilidade de que Valério esteja apenas tentando tumultuar o julgamento. Um deles, que pediu reserva, afirmou que não há mais espaço para suas promessas.

Já o ministro Marco Aurélio Mello afirma que está na hora de o operador do mensalão "desembuchar, não falar em doses homeopáticas".

O ministro defendeu que o Estado "proporcione aparato de segurança" a quem "se mostrar disposto a colaborar". "Depois da porta arrombada, não adianta colocar cadeado", justificou. "Na área da delinquência, falo de forma geral, o jogo é pesado."

Caberá ao procurador-geral da República, Roberto Gurgel, analisar o caso. Valério poderia ser incluído no Sistema Nacional de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas, podendo mudar de cidade e trocar de nome.

Gurgel também poderia pedir auxílio à Polícia Federal, que passaria a monitorar o réu constantemente e analisar se o risco de vida é real. Já na prisão, ele poderia ainda ter tratamento diferenciado, como ficar em cela isolada.

Segundo o jornal "O Estado de S. Paulo", Valério prestou um depoimento a Gurgel no fim de setembro, quando teria mencionado Lula e o ex-ministro Antonio Palocci.

Reportagem da revista "Veja" desta semana afirma que Valério também teria informações sobre o envolvimento do PT com o assassinato do prefeito petista de Santo André, Celso Daniel, em 2002.

Segundo a revista, Valério diz que o PT pediu dinheiro, em 2003, para silenciar pessoas que ameaçavam implicar no crime o ex-presidente Lula e o ministro Gilberto Carvalho, que chefiou o gabinete de Lula e hoje chefia a Secretaria-Geral da Presidência.

Os dois teriam sido extorquidos pelo empresário Ronan Maria Pinto, apontado como integrante de uma quadrilha que desviava recursos da Prefeitura de Santo André. Valério diz ter sido contatado pelo então secretário-geral do PT, Silvio Pereira, e que um banco arranjou o dinheiro.

Pereira disse à Folha que a versão "é puro delírio". Carvalho afirmou que desconhece "completamente" o assunto e nunca teve contato com Marcos Valério. A assessoria de Ronan Maria Pinto disse que o empresário não conhece e nunca se encontrou com Valério.

Colaborou Daniel Roncaglia

Fonte: Folha de S. Paulo

Charge de Aroeira

Fonte: Aroeira / O Dia

O dilema do prisioneiro - Hélio Schwartsman

Leitores ficaram bravos com a Folha por causa do editorial em que ela defendia que os mensaleiros não fossem para a cadeia, já que seus crimes não envolveram violência física. Acompanho a posição do jornal, mas admito que a questão é espinhosa. Tratamos aqui de um dos mais complicados problemas filosóficos da atualidade.

Por que prendemos alguém? De uma perspectiva racional, há dois objetivos. A reclusão tira o criminoso de circulação, impedindo-o de voltar a delinquir, e serve de exemplo para que outros não o imitem. O problema é que, na maioria dos casos, podemos obter o mesmo efeito sem recorrer à prisão. Banir o sujeito do mercado evita que ele volte a cometer fraudes financeiras, e multas milionárias são um bom freio a imitadores.

Essa hipotética solução, porém, não satisfaz à maioria. Aqui saímos do terreno da racionalidade para adentrar no reino das intuições morais. Em nossas mentes, o facínora que comete o delito intencionalmente merece um castigo especial.

A dificuldade é que ainda não conhecemos suficientemente bem o cérebro para definir o que leva alguém a perpetrar um crime, mas já sabemos o bastante para dizer que a noção de intencionalidade com a qual nosso senso comum opera está errada. Uma série de experimentos neurocientíficos nos deixa perto de concluir que o livre-arbítrio é uma ilusão. Se aceitamos essa tese, a pena reservada ao sujeito que assassina a mulher não deveria ser diferente da do que a mata acidentalmente, e contra isso nossas mentes se revoltam.

O paradoxo é inevitável. Um direito que ignore as intuições de seus jurisdicionados seria um fracasso, mas tampouco podemos abandonar a missão civilizacional de reduzir o sofrimento evitável. Resta lapidar o paradigma, tornando cada vez mais raras as penas privativas de liberdade, que não se distinguem muito da vingança, mas num ritmo que não destrua a credibilidade da Justiça.

Fonte: Folha de S. Paulo

Fiasco de CPI - Merval Pereira

A CPI do Cachoeira nasceu de estratégia equivocada do ex-presidente Lula e de José Dirceu, na tentativa de, se não impedir, ao menos tumultuar o julgamento do mensalão no STF. Já que o adiamento para as calendas gregas não foi obtido com o assédio pessoal de Lula a ministros, dos quais o mais vistosamente frustrado foi a Gilmar Mendes, que denunciou a tentativa de chantageá-lo, partiram os petistas para montar uma CPI que colocaria a oposição contra a parede.

Os alvos principais eram os oposicionistas de maneira geral, o governador de Goiás, Marconi Perillo, em particular, o procurador-geral da República, pelo atrevimento das acusações contra o PT, e a imprensa livre, representada pela revista "Veja".

O rolo compressor governista, no entanto, não foi suficiente para fazer da CPI uma cortina de fumaça para o julgamento do mensalão, e políticos independentes impediram que a estratégia petista desse certo. Ao contrário, o feitiço voltou-se contra o feiticeiro, e o surgimento da empreiteira Delta com seus vínculos com o bicheiro Carlinhos Cachoeira colocou o governismo numa sinuca de bico. Frustradas todas as investidas contra seus inimigos, viram-se os petistas na perspectiva de ser a CPI usada contra seus parceiros caso a investigação sobre o empreiteiro Fernando Cavendish fosse adiante. A CPI virou palco de uma batalha, fora do controle, até que oposição e situação viram que era melhor exterminá-la sem dar tempo para novos embates.

O GLOBO fez um levantamento nos 533 requerimentos que não serão votados e constatou uma "troca de chumbo" entre governistas e oposicionistas que poderia atingir a todos. A oposição propôs uma prorrogação da CPI por seis meses, mas a situação aprovou apenas até o fim do ano, mesmo assim sem nenhuma nova investigação.

Para o deputado Miro Teixeira, um dos líderes da ala independente, os dois lados queriam mesmo esse desfecho, só que alguns posam para a plateia defendendo maiores investigações, mas internamente trabalham pelo fim da CPI. Seria a "bancada do cancã", que distrai o público com suas danças, na mordaz definição do parlamentar do Rio.

Tem razão Miro quando diz que de nada valeria dar sobrevida à CPI se não fosse para quebrar os sigilos de empresas-fantasmas do esquema de Cachoeira que receberam dinheiro da Delta. Mas essa quebra não interessava a governistas de vários matizes.

Peculiaridade da trama criminosa do bicheiro Cachoeira é que ela é pluripartidária, perfeitamente adaptada aos tempos pragmáticos de coalizões amplíssimas e sem nenhum nexo programático entre tais partidos abrigados pelo generoso guarda-chuva governista.

Cachoeira ia além e unia governistas e oposicionistas, sem distinção. O ex-senador Demóstenes Torres, expulso do DEM, e o governador Marconi Perillo, do PSDB de Goiás, que deve ser indiciado pela CPI, são exemplos goianos desse multipartidarismo. Assim como o governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, representa o petismo e, se não for também indiciado, será devido à maioria esmagadora do governo na CPI.

O fato é que a construtora Delta tinha ramificações em todos os estados e por todos os partidos, sendo a mais notória ligação com o governador do Rio, Sérgio Cabral, do PMDB, que teve todo o apoio do governo federal para impedir que o sigilo da construtora fosse quebrado. A CPI do Cachoeira vai se encerrar sem nenhuma contribuição a dar e enviará os dados que recebeu sob sigilo ao Ministério Público, que investiga o esquema. Mesmo assim porque parlamentares independentes procuraram por conta própria o Ministério Público em Goiás para combinar a remessa desse material, para que não se perdesse.

Mais um fiasco a confirmar que o Congresso precisa se reciclar para não continuar com a imagem negativa que tem diante da opinião pública.

Um sinal de que a inflação está saindo do controle: alguns restaurantes e lojas já estão "dando descontos" se o pagamento é em dinheiro. No cartão de crédito, o freguês perde o "desconto", isto é, a conta vem acrescida de cerca de 5%.

Fonte: O Globo

Fatores eleitorais - Miguel Reale Júnior

Há dez anos José Serra disputava as eleições presidenciais. De lá para cá participou de todos os pleitos: Prefeitura de São Paulo em 2004, do qual saiu vencedor; em 2006 concorreu ao governo do Estado e ganhou com facilidade no primeiro turno. Não tentou a reeleição de governador, mas encarou em 2010 o desafio de nova disputa pela Presidência. Em 2012 tergiversou, disse não ser candidato à Prefeitura, mas as pesquisas, que o colocavam em primeiro lugar disparado, o animaram a tentar novamente ser prefeito.

Trata-se de demonstração precisa de desgaste de material: o nome bem conhecido, que surge mais facilmente à mente do eleitor meses antes das eleições, vai sofrendo rejeição ao longo do processo eleitoral. Mais do mesmo. Lula, ao apresentar Fernando Haddad como candidato a prefeito no Programa do Ratinho, antes do período eleitoral, disse: "O povo votará no novo porque a população de São Paulo quer mudança". Haddad timbrou sua campanha no tema "o homem novo para um tempo novo".

Agora Lula antecipa a indicação de candidato a governador de São Paulo, mencionando que o pleiteante ao Palácio dos Bandeirantes pelo PT deve ser o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, estreante em eleições.

Seria a apresentação de uma novidade eleitoral a fórmula de sucesso válido para todos os quadrantes? O que vale para São Paulo vale para a Grande São Paulo? O que constitui um mote forte para São Paulo pode não ser para uma cidade vizinha. E Lula sabe disso, pois em Diadema, município ao lado da capital, saiu em defesa da reeleição de seu candidato, Mario Reali, derrotado nas urnas, dizendo o inverso do que falou sobre Haddad e Serra: "O importante é que o povo não entre numa aventura. Em 1989, o novo era o Collor e vocês sabem o que aconteceu neste país. Não podemos colocar na prefeitura alguém que não administrou nem a própria cozinha".

Nem se pensa em criticar Lula por sua manifesta "virtude" da incoerência, que pratica com tanta proficiência e desenvoltura. É um caso perdido.

O que importa analisar é se o novo é uma exigência atual da sociedade e se Lula é mesmo um grande eleitor. As urnas demonstram que a receita do novo e o apoio de Lula não constituem, na verdade, uma solução universal, garantidora de vitória. Pois se valeu para São Paulo, não serviu para Belo Horizonte, onde o prefeito foi reeleito contra todo o esforço de Lula e Dilma, que se empenharam a fundo em favor de Patrus Ananias. Marcio Lacerda representava nas eleições o velho e o antagonismo a Lula, mas venceu no primeiro turno.

Já no Recife, o PT, que governa a cidade há 12 anos, se viu derrotado por um candidato novo, Geraldo Julio, eleito no primeiro turno. Humberto Costa, o candidato do PT imposto por Lula, representava o velho, como conhecido político pernambucano, antes vereador, deputado estadual, federal, secretário de Estado, ministro e senador. Figurou só em terceiro lugar, atrás do candidato do PSDB.

O candidato a prefeito de Salvador também sustentado por Lula e Dilma, o petista Nelson Pelegrino, deputado estadual e federal, foi vencido por político de franca oposição ao lulismo, o neto de ACM, o ACM Neto, uma mistura do velho e do novo, revivendo a imagem do avô, legendário coronel da política baiana. O PT perdeu também em Fortaleza, sofrendo, portanto, derrota nas principais capitais do Nordeste. No Norte foi vencido em Manaus e Belém.

Em Campinas, Jonas Donizette, antigo vereador, deputado estadual e federal, ganhou a eleição de pretendente novo, apoiado por Lula e Dilma, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Mário Pochmann.

Como se vê, as eleições municipais têm sua lógica própria. Nem Lula nem o novo são os fatores determinantes do sucesso ou da derrota. As eleições municipais seguem preferências muito específicas dos problemas vividos pelas cidades. Não se conseguiu nacionalizar as eleições municipais. O mensalão e o apoio de lideranças nacionais tiveram sua influência, mas não foram determinantes.

A condenação do núcleo político do PT, em vista de sofisticado esquema de manutenção do poder por meio de corrupção, apesar de colar essa marca no partido, pouco respingou na opção municipal: em geral não se deixou de votar em Haddad por ter a cúpula do PT sido condenada nem se votou por essa razão em Serra. Tal não significa desinteresse pelo mensalão, mas sensível compreensão de que o voto hoje em candidato a prefeito não condena nem absolve o passado de terceiros. Será, contudo, diverso no pleito para presidente.

A vitória de Haddad não constitui a absolvição do PT nem a condenação do Supremo Tribunal Federal, e em especial do ministro relator Joaquim Barbosa, visto como fidedigno portador da justiça por muitos eleitores do petista.

Resumindo, em muitas cidades o novo foi vencedor, bem como Lula e Dilma foram os ganhadores. Mas, ao mesmo tempo, o velho venceu e Lula e Dilma foram derrotados em colégios eleitorais importantes. É preciso, portanto, examinar cada município em suas condições particulares e em face das figuras dos concorrentes: em São Paulo, foi Haddad que ganhou ou Serra que perdeu, visto seu elevado índice de rejeição?

O processo do mensalão deve perdurar como exemplo. Não cabe condenar alguém tão só para intimidar os demais membros da sociedade, mas a condenação justa de fatos comprometedores do cerne das instituições democráticas pode ajudar a que a classe política venha a exercer corretamente suas funções.

Em suma, a condenação no mensalão não se refletiu nas eleições municipais, nem se pode considerar Lula, Aécio Neves ou Eduardo Campos como grandes eleitores, pois cada município apresentou razões próprias para suas opções conforme características específicas.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Eleitor garimpeiro - Cristovam Buarque

Para vencer eleição é preciso estar sintonizado com os interesses imediatos do eleitor, mas não vale a pena vencer se não estiver sintonizado com os anseios e as possibilidades do futuro do país. Nos últimos anos, o processo eleitoral brasileiro tem se orientado apenas de acordo com a primeira parte: os interesses imediatos de cada eleitor, indicados por pesquisa de opinião pública e o uso de marketing para ajustar o discurso dos candidatos. Nas eleições municipais nenhuma relevância é dada ao longo prazo nem às concepções diferentes para o futuro da cidade.

Mas a eleição de 2012 foi caracterizada pela mistura de siglas e o vazio de ideias. A eleição municipal tende a exigir do eleitor atenção às propostas dos candidatos olhando os aspectos mais locais, mas não necessariamente imediatos.

Mesmo assim, até pouco tempo atrás, os candidatos a prefeito ou a vereador pertenciam a correntes de ideias que se chocavam. Isto acabou e permitiu as estranhíssimas alianças entre partidos que deveriam estar em lados opostos. O eleitor deixou de ser visto como um ser político, com ideias, e foi transformado em garimpeiro em busca de peneirar o que sobra dos discursos vazios dos candidatos vestidos pelos marqueteiros.

Nem mesmo a separação entre éticos e não éticos é levada em conta, porque nenhum partido está livre de marcas negativas de comportamento de seus candidatos. No último debate na TV Globo, Serra perguntou ao Haddad sobre o mensalão do PT e este respondeu que o outro deveria entender mais disto, porque o mensalão tucano é mais antigo. O assunto virou uma questão cronológica, não mais ética, porque os partidos ficaram iguais.

Em 2014, esta falta de diferença nas ideias, comportamentos e propostas, com todos discutindo apenas qual vai conduzir melhor o mesmo rumo e não quem vai oferecer um rumo melhor, ameaça repetir o mesmo aborrecimento visto no processo eleitoral de 2012. Por falta de nitidez e credibilidade que diferenciem candidatos e seus partidos, os eleitores garimpeiros vão virar eleitores jogadores, ficando obrigados a escolher de acordo com o jogo da moeda: cara ou coroa.

O Brasil precisa de propostas que ofereçam um novo rumo para o país, que aponte uma saída da economia concentradora de renda, destruidora do meio ambiente e baseada nas técnicas do passado para uma economia sustentável, de alta tecnologia e distributiva socialmente, capaz de revelar que o país não terá futuro se continuar fugindo da revolução educacional de base e da refundação de sua universidade.

A eleição de 2014 precisa trazer um discurso de reorientação, de inflexão no modelo dos últimos 20 anos. Mas dificilmente isso acontecerá. Provavelmente, os candidatos serão dominados pela mesmice, pelo cálculo de não assustar os financiadores de campanha e de servir docilmente aos marqueteiros do ano, conforme as pesquisas de opinião que reflitam o interesse imediato do eleitor garimpeiro.

Fonte: O Globo