sábado, 1 de março de 2014

‘Não percebemos crime de quadrilha no caso de colarinho branco’, diz ministro do STF

Para Marco Aurélio Mello, mudança do Supremo em relação ao crime decepciona sociedade

Maria Lima

BRASÍLIA — Para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Marco Aurélio Mello, a mudança do STF em relação à formação de quadrilha decepciona sociedade e poderá afetar as eleições de outubro, quando o TSE fará campanha pelo voto consciente.

O TSE vai iniciar uma campanha para neutralizar os protestos de rua, o linchamento político e pedir que os eleitores protestem nas urnas. O recuo do Supremo e a iminente soltura dos mensaleiros dificultam essa campanha?

Temos que buscar a conscientização do eleitor. Às vezes, ele imagina que por ter apenas um voto, não vá fazer diferença, é irrelevante. Mas esse voto se soma a outros que implicam na escolha do representante. A forma de se mudar o país é escolhendo bons representantes. Não é queimando lixeiras, partindo para a violência que já desaguou em uma morte. Estamos concentrados na publicidade institucional, em sensibilizar o eleitor. Não cabe o protesto anulando-se o voto nem se votando em branco.

O que, às vezes, acaba beneficiando justamente quem o eleitor quer tirar...

Claro! O voto em branco é considerado para se aferir se o candidato que está na frente consegue alcançar os 50% para se eleger. O nulo, não. Temos que utilizar essa manifestação negativa de compreensão da quadra vivida. A forma eficiente de se protestar é indo às urnas e sufragando o nome do candidato de vida irreprochável.

Acredita que haverá frustração do eleitor com o recuo do STF? Como isso vai se refletir nas urnas?

Vou repetir o que li num romance do John Steinbeck, “O inverno da nossa desesperança”, em que ele termina assim: “Quando uma luz se apaga fica muito mais escuro como se ela jamais houvesse brilhado”. Quando o Supremo por seis votos a quatro (uma cadeira estava vaga) impôs a condenação, a luz esteve acesa. Deu-se uma esperança à sociedade quanto ao afastamento da impunidade dos poderosos. Agora o mesmo tribunal, porque vinga a impessoalidade, deu o dito pelo não dito. Aí transformou a condenação em absolvição, por seis votos a cinco.

Isso é uma sinalização ruim para a sociedade que acreditou no STF durante esse julgamento?

Isso, para o leigo, é péssimo. Embora o crime de quadrilha tenha uma pena pequena frente à pena da corrupção, do peculato, da lavagem de dinheiro, que pode chegar até a uma dezena ou mais de anos, o simbolismo é muito grande. O leigo vai ficar decepcionado, o que não é bom em termos de fortalecimento e crença nas instituições. Mas, de qualquer forma, estamos numa democracia e prevalece a ótica da maioria.

Ao invés de formação de quadrilha, os ministros novatos inauguraram o termo “concurso de agente”...

Ao invés de se ter a quadrilha, associação para a prática criminosa, se assentou que seria uma simples coautoria. No caso concreto, apenas oito dos 25 réus tinham sido condenados por formação de quadrilha, porque estavam, segundo a ótica da maioria de então (em 2012), realmente acordados para a prática de crimes. Se não tivesse sido escancarada a mazela, o governo seria esse que está aí? E aí, teria cessado a prática? Então, eles estavam realmente ajustados de forma permanente para implementar condutas criminosas. Digo que tenho que reexaminar minha compreensão sobre a matéria, mas até aqui eu estou apenas vencido, não convencido.

Pelo novo entendimento do STF, vai ser difícil condenar por formação de quadrilha criminosos de colarinho branco? Só para o pobre, o traficante?

Exatamente! Esse é outro aspecto. Mostra que estamos acostumados a perceber o crime de formação de quadrilha apenas para estelionatários, assaltantes, homicidas ou grupos de extermínio, mas não de criminosos do colarinho branco. A meu ver, o Ministério Público, no passado, logrou provar que teve formação de quadrilha entre os oito condenados, muito embora, agora, o Supremo tenha dito que é improcedente a imputação.

Nas redes sociais já há uma intensa campanha de difamação do Supremo. Esse recuo pode ser usado politicamente para dizer que o julgamento foi uma farsa?

O simbolismo de se anular esse entendimento inicial das condenações por formação de quadrilha é muito grande. Mas prevaleceu o convencimento da maioria. Repito: o Supremo deu o dito pelo não dito. Reforça a visão leiga de que foi um julgamento político, e não foi. Precisamos fazer justiça inclusive ao colega que já saiu, o ministro Carlos Ayres Brito, que votou pela condenação por formação de quadrilha. Não julgamos no campo do direito alternativo, muito menos para condenar um ser humano! Julgamos o que consideramos realmente demonstrado, em cima dos autos, das provas produzidas no processo pelo Ministério Público, que a minoria de ontem, e a maioria de antes, entendeu que foi feita. Agora, vamos ver, avançar futuramente e buscar dias melhores.

Pode o TSE, como o STF, também dar um choque e impugnar, antes de chegar às urnas, o candidato que comete todo tipo de crime eleitoral na campanha e apenas paga uma multa?

Nós temos o processo de registro. A data limite para a apresentação dos pedidos é 5 de julho e aí nós julgamos. Só que, com a grande carga de processos, o pronunciamento às vezes acontece depois da eleição. E no Brasil há a moda de se potencializar o fato consumado. Mas no TSE, na Justiça Eleitoral, ainda estamos no rescaldo de 2008. Ainda julgando processos de 2008, de mandatos que estão para terminar. Precisamos avançar com uma emenda constitucional para dar aos Tribunais Regionais e ao TSE composição de juízes efetivos e não juízes emprestados, como ocorre agora. A demanda e a litigiosidade é muito grande. E há aqueles que apostam na morosidade da Justiça, no jeitinho brasileiro ou na multa. Já é hora de majorar essas multas.

A Internet é um território desconhecido e os candidatos estão investindo milhões para aparelhar as redes. Como controlar abusos?

O abuso aí, a meu ver, não diz respeito apenas à liberdade de expressão, que é um valor maior e tem de ser preservado. O abuso está na desqualificação dos opositores. Aí surge o problema do direito de resposta, responsabilidade civil, indenizações. É uma matéria em aberto. E a disciplina até hoje proporcionada pelo Congresso é muito escassa. Os artigos são muito poucos. Não sabemos o que vai acontecer. E, a rigor, nós teremos uma ênfase especial nas redes sociais nessas eleições. Já podemos vislumbrar aí pela frente muitos processos, emperrando ainda mais a máquina judiciária.

Fonte: O Globo

Diário do Poder – Cláudio Humberto

• Requião condenado por ofender Paulo Bernardo
Após o carnaval, o senador Roberto Requião (PMDB-PR) vai receber a visita de um oficial de justiça com a execução de R$ 75 mil por ter sido condenado na Justiça do Paraná pelas ofensas dirigidas ao ministro Paulo Bernardo (Comunicações), durante uma reunião do seu governo transmitida pela rádio e TV Educativa, em 2010. Requião sugeriu que o ministro teria apresentado um projeto superfaturado para a Ferroeste.

• Abuso
Na “escolinha” (alusão à “Escolinha do Professor Raimundo”, de Chico Anysio), Requião usava rádio e TV públicas para atacar adversários.

• Danos morais
Requião, que adversários chamam de “Maria Louca”, foi condenado por danos morais. Os recursos judiciais não têm mais efeito suspensivo.

• Carnaval no óleo
Entreouvido em alto-mar na bacia de Campos: “Se a plataforma não virar, olê, olê, olá, a Petrobras chega lá…”.

• Go home
O Parque da Água Mineral em Brasília cobra R$ 15 de ingresso a estrangeiros e metade a brasileiros. Imagina o preço na Copa.

• Racionamento de água em SP ganha outro nome
Tucanaram o racionamento: o governo de São Paulo anunciou a necessidade de “redução de fornecimento” de água. A recomendação do racionamento, antecipado nesta coluna na quarta (26), foi do “grupo técnico” (versão tucana para “grupo de crise”) do governo estadual. O governador Geraldo Alckmin (PSDB) evita a expressão “racionamento”, mas terá de oficializá-lo, mesmo adotando uma outra denominação.

• Litoral sem água
O governo estadual admitiu oficialmente, pela primeira vez, que faltará água no litoral paulista. A imprevidência de um preço.

• Novo pesadelos
Água e segurança podem ser os pesadelos de uma reeleição inicialmente tranquila para Geraldo Alckmin, em outubro.

• Vai faltar papel
O ditador substituto, Raúl Castro, distribui sua nova foto oficial, sem farda, que os cubanos são obrigados a expor em casa e no trabalho.

• Exploração continua
Arthur Chioro (Saúde) deveria se acanhar: anunciou que os cubanos do “Mais Médicos”, que só viam R$ 1,8 mil dos R$ 10 mil pagos a Cuba, terão agora R$ 2,5 mil. Todos os outros médicos do programa recebem R$ 10 mil. E o Brasil segue protagonizando a vergonhosa exploração.

• Enganação
A ministra Maria do Rosário (Direitos Humanos) passará o Carnaval em Genebra, Suíça, numa conferência de “alto nível” do Conselho de Direitos Humanos da ONU. Não falará de escravos cubanos, claro.

• Deu samba
Na internet, os foliões se organizam para aproveitar o carnaval sem deixar de cutucar o governo, sempre lembrado neste período. Um grupo que faz sucesso é o #BlocoQuemTemBocaVaiaDilma.

• A hora e a vez
A decisão ontem do Supremo Tribunal Federal tem um vencedor, além dos meliantes absolvidos: o ministro Joaquim Barbosa, que, se quiser ser candidato, poderá receber enxurrada de votos em outubro.

• Feliz dia 29, Jaguar
Como este ano não é bissexto, o genial cartunista Jaguar não poderá comemorar neste sábado o seu 82º aniversário, muito embora ontem tenha sido o dia 28. Ele nasceu no Rio em 29 de fevereiro de 1932.

• Cabo eleitoral
Aécio Neves (PSDB) perdeu um candidato, mas ganhou um cabo eleitoral de peso. Bernardinho não aceitou disputar o governo do Rio. Mas se prontificou a acompanhar o mineiro Aécio pelo Brasil.

• Falta pulso firme
O líder do PT, Vicentinho (SP), e o líder do governo, Arlindo Chinaglia (SP), viraram alvos de críticas na bancada pelo fracasso em conter a articulação do ‘blocão’, criado por aliados para chantagear o governo.

• Gol do mosquito
Suíços e alemães terão que incluir “dengue” no vocabulário durante a Copa: os times ficarão concentrados em Porto Seguro, na Bahia, onde é grave a epidemia do mosquito. Dilma que se cuide no feriadão.

• Pensando bem…
…com a absolvição da quadrilha, o julgamento do mensalão não acabou em pizza, mas em Carnaval.

Fonte: Diário do Poder

Panorama político - Ilimar Franco

A missão Lula
O ex-presidente Lula foi a Cuba para salvar o Programa Mais Médicos de um êxodo de profissionais. Ele convenceu o presidente Raúl Castro a não se opor ao aumento do salário recebido diretamente pelos médicos cubanos no Brasil. Ontem, após Lula informar a presidente Dilma do sinal verde de Castro, o ministro Arthur Chioro (Saúde) convocou entrevista para anunciar o reajuste.

PT fatura. Aliados chupam o dedo
Os deputados da base aliada tem razão quando ficam possessos com o privilégio dos petistas no acesso à informação. O vice-presidente da Câmara, André Vargas (PT-PR), assumiu a linha de frente e anunciou ontem nas redes sociais crédito extraordinário de R$ 2,5 bilhões para o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies). Coube ao deputado José Guimarães (PT-CE) anunciar viagem da presidente Dilma ao Ceará, que deverá ocorrer na semana seguinte ao feriado de Carnaval, para anunciar recursos para a construção de adutoras. Os dois se anteciparam ao Ministério da Educação e à assessoria do Planalto, que não haviam divulgado nada.

“Os empresários brasileiros estão convencidos da necessidade de uma terceira via. Muitos não identificam Aécio Neves como alternativa”
Roberto Amaral
Vice-presidente do PSB

Especialista em mensalão
O advogado Castelar Modesto Guimarães, que defende Cristiano Paz no mensalão do PT, também atua na defesa de Eduardo Azeredo no mensalão tucano. Estuda a jurisprudência do STF em caso de renúncia de mandato parlamentar.

Rumo ao altar
A presidente Dilma e seu vice, Michel Temer, fizeram um pente fino da aliança na quinta-feira. Concluíram que há ampla maioria para aprovar, na convenção do PMDB, o apoio à reeleição. Sobre as disputas entre PT e PMDB nos estados, avaliam que só duas delas, a do Rio de Janeiro e da Bahia, tem potencial para tumultuar e criar marolas na relação dos aliados.

Me dá um dinheiro aí
O Ministério das Cidades foi o caso mais grave do não cumprimento da execução das emendas parlamentares de 2013. Mas não foi o único. O Planejamento também relata problemas nas pastas da Saúde, do Turismo e dos Esportes.

Todo poder ao Judiciário
O juiz Julier Sebastião da Silva pode abandonar o Judiciário em cinco de abril. Ele tem convite do PT para concorrer ao governo do Mato Grosso. Fez a fama nas Operações “Rio Pardo” (grilagem de terras) e “Curupira” (crimes ambientais). E já havia atuado no desmonte da organização do bicheiro “comendador” João Arcanjo Ribeiro.

Assim assim
O vice Michel Temer tem se queixado da atitude do presidente da Câmara, Henrique Alves, e do líder do PMDB, Eduardo Cunha. Seus amigos dizem que eles o estão deixando numa situação de constrangimento com a presidente Dilma.

Romaria
Grandes empresários, entre eles, Jorge Gerdau, estão fazendo romaria no Senado, preocupados com a MP 627, que altera regras contábeis e tributárias de empresas com sede no exterior. O governo quer endurecer o jogo e arrecadar mais.

O senador Aécio Neves (PSDB) e o vereador Cesar Maia (DEM) combinaram ontem encontro depois do Carnaval sobre a eleição para o governo do Rio.

Fonte: O Globo

O que pensa a mídia - editoriais de alguns jornais mais importantes

http://www2.pps.org.br/2005/index.asp?opcao=editoriais

Alceu Valença:Hino de Pernambuco

Manuel Bandeira:Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcaloide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

OPINIÃO DO DIA: Joaquim Barbosa

“Inventou-se, inicialmente, um recurso à margem da lei. Agora inventou-se um novo conceito de formação de quadrilha. Um conceito discriminatório. Só aqueles que praticam crimes de sangue participariam. Ouvi argumentos espantosos que se basearam apenas em cálculos aritméticos e em estatísticas totalmente divorciadas das provas dos autos, da gravidade dos crimes.

Esta é uma tarde triste para este Supremo Tribunal Federal, porque com argumentos pífios foi reformada, foi jogada por terra, extirpada do mundo jurídico, uma decisão plenária sólida e extremamente bem fundamentada.

Sinto-me autorizado a alertar a nação brasileira de que esse é apenas o primeiro passo. Que essa maioria de circunstância tem todo o tempo a seu favor para continuar na sua sanha reformadora

Peço vênia à maioria, e voto pela rejeição dos embargos infringentes ora impetrados”

Joaquim Babosa, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) em seu voto no julgamento dos embargos infringentes

STF muda critério e absolve réus por crime de quadrilha

Por 6 a 5, ministros livram Dirceu e Delúbio de prisão em regime fechado

Carolina Brígido e André de Souza

BRASÍLIA - Com o resultado da votação desta quinta-feira no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), absolvendo oito réus do crime de formação de quadrilha, pelo menos cinco dos condenados já poderão voltar para casa este ano. Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, ganhará esse direito no Natal, quando passa a ter direito à progressão do regime semiaberto de prisão para o aberto. O ex-presidente do PT José Genoino, ainda provisoriamente em prisão domiciliar em função de sua saúde, poderá garantir o benefício definitivamente no dia 24 de agosto deste ano. Já o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu poderá dormir com a família dentro de um ano, a partir de 10 de março de 2015, seis dias antes de seu 69º aniversário.

Na data indicada, o juiz analisará se o detento tem bom comportamento e pode usufruir do benefício. As datas da progressão foram calculadas pela Vara de Execução Penal (VEP) do DF, órgão que fiscaliza o cumprimento das penas dos condenados. Segundo a VEP, em julho de 2016 Dirceu terá direito ao livramento condicional, um benefício concedido ao preso que cumpre mais da metade da pena.

Para ter esse direito, o condenado precisa conseguir ocupação lícita, comunicar ao juiz periodicamente a ocupação e não mudar de cidade sem autorização judicial. O juiz também pode fixar outras condições, como voltar para casa em horário certo e não frequentar determinados lugares. A pena de Dirceu termina por completo em outubro de 2021. A condicional de Genoino será em junho de 2015 e a de Delúbio, em fevereiro de 2016.

A legislação penal determina que, no regime semiaberto, o detento tem o direito de sair para trabalhar durante o dia e voltar para a cadeia à noite, para dormir. A proposta de trabalho do preso deverá ser analisada pelo juiz da VEP, que poderá ou não concordar com o emprego sugerido. No regime aberto, é preciso se apresentar em uma casa do albergado no fim do dia e nos finais de semana. Como em Brasília não existe esse tipo de instituição, a praxe é mandar os condenados para prisão domiciliar. Cabe ao juiz da VEP determinar as condições do regime.

Os ex-deputados Bispo Rodrigues (PL-RJ) e Romeu Queiroz (PTB-MG) e o ex-tesoureiro do PL Jacinto Lamas também passarão ao regime aberto em 2014.

Já a progressão do regime para quem pegou regime fechado, mesmo com a absolvição do crime de quadrilha, é mais demorada. A maior pena foi dada ao operador do mensalão, Marcos Valério. Ele ficará preso em regime fechado até fevereiro de 2020, quando terá direito a ir para o semiaberto. Só em maio de 2026 Valério terá direito ao livramento condicional. A pena de Valério só termina em abril de 2051.

A ex-presidente do Banco Rural Kátia Rabello, que está no regime fechado, vai poder migrar para o semiaberto em abril de 2016. A condicional dela está marcada para setembro de 2018. O fim da pena é só em abril de 2028. Dos 19 condenados que já estão cumprindo pena, a situação é nebulosa apenas no caso do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato. Como a pena não começou a ser cumprida, a VEP ainda não calculou as datas de benefícios para ele.

Fonte: O Globo

Celso de Mello rebate ataques de advogados e defende atuação do STF

Ministro não economizou nos adjetivos para desqualificar críticas

BRASÍLIA- Celso de Mello não utilizou seu voto apenas para rechaçar o entendimento de que não houve quadrilha ou que as penas impostas para este crime tenham sido aplicadas em dose desproporcional. O decano da Suprema Corte tomou a frente da defesa institucional do STF, diante de ataques de advogados e réus. Sem citar nomes, o mais antigo ministro não economizou adjetivos para desqualificar as críticas. O primeiro alvo foi Luiz Fernando Pacheco, defensor do ex-presidente do PT José Genoino. Na sessão de 20 de fevereiro, Pacheco disse que o julgamento foi injusto, representando "a maior farsa da História política brasileira".

- Absurda, esdrúxula e inaceitável a afirmação de que esta Corte agiu como tribunal de exceção. Importante informar que o Supremo Tribunal Federal decidiu o presente litígio penal com apoio em prova validamente produzida nos autos, respeitando sempre os direitos e garantias fundamentais que a Constituição da República assegura a qualquer acusado.

Afirmou ainda que a maior farsa da História política brasileira não foi o julgamento, mas a conduta dos julgados:

- A maior farsa da História política brasileira residiu nos comportamentos moralmente desprezíveis, cinicamente transgressores da ética republicana e desrespeitadores das leis criminais do país, perpetrados por delinquentes travestidos então na condição de altos dirigentes governamentais, políticos e partidários, cuja atuação ludibriou acintosamente o corpo eleitoral, fraudou os cidadãos dignos de nosso país, fingindo cuidar ardilosamente dos interesses políticos quando na verdade buscavam, por meios escusos, mediante condutas criminosamente articuladas, ultrajar a dignidade das instituições republicanas.

O ministro também disse que vitórias em eleições não autorizam o uso de meios criminosos:

- A conquista e preservação temporária do poder não autorizam quem quer que seja, mesmo quem detenha a direção do Estado, ainda que evocando expressiva manifestação eleitoral, a utilizar meios criminosos ou expedientes juridicamente marginais e repudiados pela legislação do país e pelo sentimento de decência que deve sempre permanecer no trato da coisa pública.
Na primeira etapa do julgamento, Mello deu um dos votos mais críticos. E hoje manteve a convicção sobre a quadrilha:

- Pena inteiramente compatível com a inquestionável gravidade com a pena de quadrilha, legítima, impregnada da fundamentação. Nesse caso registrou-se a existência de um vínculo associativo permanente com o propósito de viabilizar, no contexto delinquencial, a prática de uma série de crimes.

Fonte: O Globo

Supremo descarta quadrilha do mensalão

Juliano Basile e Fábio Brandt

BRASÍLIA - Numa reviravolta que se tornou possível com a nomeação de dois novos ministros pela presidente Dilma Rousseff, o Supremo Tribunal Federal (STF) concluiu, ontem, que o mensalão não foi uma quadrilha, mudou sua decisão de 2012 e absolveu oito réus que vão ser beneficiados com redução de pena, inclusive o petista José Dirceu, ex-ministro-chefe da Casa Civil no governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

A pena de Dirceu cairá de 10 anos e 10 meses de prisão para 7 anos e 11 meses. Ele passará do regime fechado para o semiaberto, no qual poderá trabalhar de dia e deverá retornar para dormir na prisão durante pelo menos um sexto dessa pena (1 ano e 3 meses). Além disso, acabou, pelo menos oficialmente, a simbologia de que o mensalão foi uma quadrilha liderada por Dirceu. O caso permanece como esquema de corrupção, desvio de dinheiro e compra de apoio político no Congresso.

A decisão do STF de retirar as condenações por formação de quadrilha foi tomada por seis votos a cinco, no julgamento dos embargos infringentes. Os protagonistas da reviravolta foram os ministros que a presidente Dilma Rousseff indicou a partir do segundo semestre de 2012, quando o tribunal começou a julgar o mensalão: Luís Roberto Barroso e Teori Zavascki. Ambos concluíram que as penas por quadrilha foram exacerbadas.

Barroso apontou que o STF elevou essas punições em até 75% a partir da pena base, enquanto outros crimes tiveram aumento de 15% ou 30%. Zavascki foi além e disse que, no julgamento do mensalão, em 2012, o STF confundiu quadrilha com coautoria de crimes diversos. "É difícil afirmar que Dirceu e José Genoino tivessem se unido a outros agentes com interesse comum de cometer crimes contra o sistema financeiro. Da mesma forma, não parece verossímel afirmar que Kátia Rabello e José Roberto Salgado, dirigentes de instituição financeira, tenham se unido àqueles dirigentes partidários e a outros agentes com objeto e interesse comum de cometer crimes de corrupção ativa e passiva. Nada indica que eles se uniram para cometer crimes", disse Zavascki.

Os ministros Ricardo Lewandowski, Dias Toffoli, Cármen Lúcia e Rosa Weber também defenderam a tese de que não houve quadrilha no mensalão. Rosa proferiu o sexto e decisivo voto pela derrubada das penas por esse crime. "Não se configurou a formação de quadrilha", disse a ministra. Para ela, uma quadrilha só existe quando pessoas se associam especificamente para praticar crimes. Esse não seria o caso do mensalão, enfatizou Rosa. "A lei exige, na minha concepção, que a reunião dessas pessoas seja qualificada pela intenção especifica de cometer crimes", defendeu. "Há diferença marcante entre pessoas que se associam para cometer crimes e pessoas que se associam com finalidade outra, mas, no âmbito dessa associação, cometem crimes", diferenciou a ministra.

Com a formação dessa maioria no STF, a pena de José Genoino, ex-presidente do PT, caiu de 6 anos e 11 meses para 4 anos e 8 meses. No caso de Delúbio Soares, ex-tesoureiro do partido, a punição passou de 8 anos e 11 meses para 6 anos e 8 meses de prisão. Salgado e Kátia saíram de 16 anos e 8 meses para 14 anos e 5 meses. O publicitário Marcos Valério passou de 40 anos e 4 meses para 37 anos e 5 meses. Seu ex-sócio Ramon Hollerbach saiu de 29 anos e 7 meses para 27 anos e 4 meses. Cristiano Paz, outro ex-sócio de Valério, foi de 25 anos e 11 meses para 23 anos e 8 meses.

No dia 13, o STF vai retomar o julgamento para analisar três embargos infringentes que contestam as penas impostas aos condenados por lavagem de dinheiro. A tendência é que a Corte aceite os recursos e reduza a condenação do ex-deputado João Paulo Cunha de 9 anos e 4 meses para 6 anos e 4 meses. Já o ex-assessor do PP João Claudio Genu e o ex-sócio da corretora Bônus Banval Breno Fischberg devem ficar livres de qualquer condenação caso esses recursos sejam aceitos - diferentemente dos outros envolvidos que foram condenados por mais de um crime, eles só foram condenados por lavagem de dinheiro.

A reviravolta nas condenações do mensalão foi marcada por protestos dos ministros que tiveram a posição vencedora, em 2012, mas, ontem, foram derrotados no julgamento dos infringentes.

Indignado, o presidente do STF e relator da ação penal do mensalão, ministro Joaquim Barbosa, disse que a Corte inventou um conceito discriminatório para o crime de quadrilha. Ele se referiu ao entendimento adotado pela maioria de que a quadrilha só se configura quando existe associação entre pessoas especificamente para cometer crimes. "Sob esse prisma, esse crime só poderia ser cometido por desempregados ou indivíduos à margem da sociedade", afirmou Barbosa.

"Essa é uma tarde triste para o Supremo porque, com argumentos pífios, foi reformada, foi jogada por terra, extirpada do mundo jurídico, uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012", continuou o presidente. Para ele, as condenações foram derrubadas através de uma "maioria formada sob medida para jogar por terra um trabalho primoroso levado a cabo por esta Corte". "Sinto-me autorizado a alertar a nação brasileira de que esse é apenas o primeiro passo. Que essa maioria de circunstância tem todo o tempo a seu favor para continuar na sua sanha reformadora."

O decano do STF, ministro Celso de Mello, negou excesso na aplicação de penas de quadrilha. "A exacerbação foi plenamente compatível e revela-se plenamente legítima, pois é impregnada de adequada justificação", enfatizou. "Houve um vínculo entre os réus de 2002 e 2005 para a prática de crimes deliquenciais. Os membros dessa quadrilha, reunidos em empresa criminosa que se apropriou do governo, agiram com dolo de planejamento e divisão de trabalho, como uma sofisticada organização criminosa."

O decano rebateu as críticas de que o STF criminalizou a atividade política. "O STF não condenou atores ou dirigentes políticos, mas autores de crimes", diferenciou. "São meros e ordinários criminosos."

Celso também refutou as acusações de que o julgamento se deu num "tribunal de exceção". "Essa acusação gravíssima há de ser repelida", disse. "Na realidade, o STF, como órgão de cúpula do Judiciário nacional, garantiu de modo real, pleno e efetivo às partes desse processo, tanto ao Ministério Público quanto aos réus, o direito a um julgamento justo, imparcial, isento e independente."

O ministro repeliu ainda as alegações de réus de que o julgamento foi uma farsa. "Nessa sucessão organizada de golpes proferidos contra nosso país é que reside sim a maior farsa da história política brasileira", ressaltou.

Gilmar Mendes afirmou que, ao longo do mensalão, houve a tentativa de reduzir o Supremo a uma Corte bolivariana. "Foi um julgamento acidentado, que se alongou. Dois colegas deixaram de integrar a Corte", disse Mendes, referindo-se a Cezar Peluso e Carlos Ayres Britto, que votaram por condenações e se aposentaram no meio do julgamento, em 2012, sendo substituídos posteriormente por Zavascki e Barroso, que absolveram os réus. "Quem sabe a Corte será recomposta para a revisão criminal", continuou Mendes, citando um possível novo recurso dos condenados. "Mas o tribunal manteve a sua posição e esse é o dado positivo nesse quadro de práticas reprováveis. As instituições são mais fortes do que aqueles que a integram. O Brasil saiu forte desse julgamento porque o projeto era reduzir essa Suprema Corte a uma Corte bolivariana."

Para Marco Aurélio Mello, a resposta dada pelo STF nos embargos "é negativa". "Devemos honrar até mesmo os dois colegas que já não integram o colegiado", disse, lembrando-se de Britto e Peluso. "O Supremo de ontem assentou a condenação. O fez por seis votos a quatro. O Supremo de hoje, dando o dito pelo não dito, inverte o placar", lamentou.

Marco Aurélio ressaltou que as penas por quadrilha tinham "um simbolismo incomum" e, por isso, as defesas insistiram em afastá-las. "Insistência incentivada pelo fato de um Supremo de hoje não ser o de ontem", insistiu.

Ao fim, os vencidos seguiram o relator dos embargos, Luiz Fux, que votou pela manutenção das condenações.

Fonte: Valor Econômico

Maioria do STF absolve mensaleiros do crime de formação de quadrilha

Placar final ficou 6 a 5 a favor dos réus do mensalão que vão ter as penas reduzidas

Cássio Bruno, Bruno Góes e Letícia Fernandes

RIO - O Supremo Tribunal Federal (STF) retomou na manhã desta quinta-feira o julgamento dos recursos do processo do mensalão do PT. Seis dos 11 ministros votaram pela absolvição de oito condenados pelo crime de formação de quadrilha, entre eles o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, que está preso. Na prática, as penas serão reduzidas. O placar foi de 6 a 5 a favor dos condenados, o que gerou críticas do presidente do STF, Joaquim Barbosa. Segundo ele, foi uma “tarde triste” para o Supremo. (Veja aqui como foi o julgamento). No retorno do intervalo da sessão, os ministros decidiram votar os embargos infringentes referentes à lavagem de dinheiro no próximo dia 13, após o carnaval. Três réus entraram com embargos infringentes no caso de lavagem de dinheiro: o ex-deputado João Paulo Cunha; o ex-assessor parlamentar do PP, João Cláudio Genu, e o doleiro Breno Fischberg.

Houve apenas as sustentações orais das defesas e do Ministério Público Federal. O procurador-geral Rodrigo Janot pediu que o STF negue os embargos para os réus.

Os embargos para formação de quadrilha analisados na primeira parte da sessão, pela manhã, foram de Delúbio Soares (ex-tesoureiro do PT), José Genoino (ex-presidente nacional do partido), José Roberto Salgado (ex-dirigente do Banco Rural), Kátia Rabello (dona do Banco Rural), Marcos Valério (operador do mensalão), Ramon Hollerbach e Cristiano Paz (ambos ex-sócios de Marcos Valério), além de Dirceu.

Votaram a favor da absolvição os ministros Dias Toffoli, Luis Roberto Barroso, Ricardo Lewandowski, Cármen Lúcia, Teori Zavascki e Rosa Weber. Negaram os embargos os ministros Joaquim Barbosa, presidente do STF; Luiz Fux, relator; Gilmar Mendes, Marco Aurélio de Mello e Celso de Mello.

Último a votar nesta quinta-feira, o ministro Joaquim Barbosa criticou a decisão da maioria da Corte.

Segundo ele, o trabalho do STF, em 2012, foi desperdiçado. Para o magistrado, a nova maioria do Supremo agiu com o “objetivo de anular, de reduzir a nada, o trabalho que fora feito”.
- Inventou-se, inicialmente, um recurso à margem da lei - disse ele, referindo-se aos embargos infringentes.

Em seguida, Joaquim Barbosa falou sobre a absolvição por formação de quadrilha:

- Sinto-me autorizado a alertar a nação brasileira que esse é apenas o primeiro passo.
E completou:

- Agora inventou-se um novo conceito de formação de quadrilha. Um conceito discriminatório. Só aqueles que praticam crimes de sangue participariam. Ouvi argumentos espantosos que se basearam apenas em cálculos aritméticos e em estatísticas totalmente divorciadas das provas dos autos, da gravidade dos crimes.

No fim, Joaquim Barbosa lamentou:

- Esta é uma tarde triste para este Supremo Tribunal Federal, porque com argumentos pífios foi reformada, foi jogada por terra, extirpada do mundo jurídico, uma decisão plenária sólida e extremamente bem fundamentada. Peço vênia à maioria, e voto pela rejeição dos embargos infringentes ora impetrados.

O ministro Teori Zavascki foi o primeiro ler o voto. Ele se posicionou a favor da absolvição:
- A posição majoritária (primeira decisão do STF) é que a quadrilha é formada contra a administração pública e contra o sistema financeiro. Embora não se negue a ocorrência de todos essa variedade delituosa, (...) não está precisamente caracterizado o dolo específico do crime de quadrilha
- disse Zavascki. - É difícil sustentar que o objetivo comum, que a essência dos interesses dos acusados tenha sido a prática daqueles crimes. Voto pelo acolhimento dos embargos infringentes - finalizou.

A ministra Rosa Weber, segunda a votar, também favoreceu os condenados:

- Continuo convencida de que não se configurou crime de formação de quadrilha.

Para Rosa Weber, “não basta que mais de três pessoas unidas pratiquem delitos, é necessário que esta união se faça para específica prática de crimes”.

O ministro Gilmar Mendes, por sua vez, negou os embargos:

- Não tenho dúvida, presidente, que está caracterizado, de forma clara, o crime de formação de quadrilha.

Segundo Gilmar Mendes, “houve quadrilha”:
- O Brasil saiu forte desse julgamento, porque o projeto era reduzir a Suprema Corte a uma Corte bolivariana.

Em seguida, o ministro Marco Aurélio de Melo classificou o mensalão de “quadrilha armada de muito dinheiro”. Ele também negou os embargos aos réus.

- A quadrilha se mostrou armada, mas não de arma propriamente dita, de fogo ou branca, mas armada de muito dinheiro - disse o ministro.

Marco Aurélio afirmou que, no caso do mensalão, as práticas foram “inerentes à máfia”.

- Não tivesse a mazela sido escancarada pelo delator, (ex-deputado federal) Roberto Jefferson (PTB-RJ)... Não fosse esse fenômeno, o governo atual seria outro. Haveria a continuidade da prática dos crimes.

O ministro Celso de Mello acompanhou o relator Luiz Fuz, ou seja, contra a absolvição dos réus. O magistrado apontou para a “existência de vínculo associativo permanente entre os anos de 2002 e 2005, vínculo estabelecido com propósito de viabilizar, em um programa delinquencial, a prática de uma série de crimes cometidos por esse bando criminoso”.

Para Celso de Mello, o crime de quadrilha, “pela simples existência de sua formação, constitui um estado de agressão permanente contra a sociedade civil, e quadrilha ou bando é punida independentemente dos malefícios que produza”.

Na quarta-feira, o relator dos embargos infringentes do mensalão no STF, ministro Luiz Fux, manteve em seu voto a proposta de condenação dos oito réus. Quatro ministros - Luís Roberto Barroso, Dias Toffoli, Ricardo Lewandowski e Cármen Lúcia -, no entanto, votaram a favor da absolvição pelo crime de formação de quadrilha.

Fonte: O Globo

Condenação de políticos por formação de quadrilha pode ficar mais difícil, dizem especialistas

Para juristas, artigo do Código Penal que trata do crime é vago e será preciso provas mais
contundentes para condenar réus de forma unânime

Decisão, para jurista da FGV-SP, no entanto, não mancha ‘rigor técnico’ com o qual o julgamento do mensalão foi conduzido

Mariana Timóteo da Costa
Silvia Amorim
Bruno Goés

SÃO PAULO e RIO - O novo entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) para a configuração do crime de formação de quadrilha pode dificultar a punição de políticos por esse delito daqui para frente, avaliaram criminalistas, com base no resultado do julgamento dos recursos no processo do mensalão. Professor de Direito Penal da PUC-Rio e conselheiro da OAB-RJ, Breno Melaragno explicou que, de acordo com o entendimento da maioria dos ministros, somente fica configurado o crime de quadrilha quando houver uma “associação estável, permanente e duradoura que só exista para o fim de cometimento de crimes”.

— Fica muito difícil provar a existência disso em grupos que praticam crimes mais complexos e sofisticados. Nisso concordo com o ministro Joaquim Barbosa: somente será possível condenar por formação de quadrilha crimes violentos, como roubo e tráfico, e praticados por grupos de baixo poder aquisitivo.

Melaragno ponderou, entretanto, que não se trata de um entendimento imutável e que, com a troca de ministros em razão de aposentadorias, um novo posicionamento pode ser firmado pela Corte.

Para o jurista da FGV-SP e da PUC-SP Carlos Ari Sundfeld, a norma penal é “vaga, muito aberta e, por isso, dá margem à arbitrariedade”. Segundo ele, para a condenação de grupos mais sofisticados, é preciso investigações mais aprofundadas e provas mais contundentes.

— Do jeito que é, cada juiz pode interpretar de uma maneira diferente. O artigo diz somente que constitui formação de quadrilha um grupo de três ou mais pessoas se associarem para cometer crimes — avaliou o especialista, para quem, no entanto, a decisão dos ministros não significa uma mancha no julgamento do mensalão, uma vez que o julgamento foi conduzido com rigor técnico.

O jurista considerou “exageradas” as declarações do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, que, ao criticar a decisão de absolver os réus por formação de quadrilha, disse que o caso abria um precedente para que “apenas crimes de sangue” sejam julgados assim.

— Nada impede que, com investigações rigorosas, essas quadrilhas sejam desmanteladas. O que precisa no Brasil é se acabar com a precariedade em se investigar crimes, sejam eles de corrupção ou segurança.

Para Cláudio José Pereira, professor de Processo Penal da PUC-SP, não só as investigações, mas também a Justiça, precisam se aprimorar. Para ele, houve “falhas em esclarecer com provas o crime de formação de quadrilha”.

— (Isso) Reflete uma dificuldade para o Brasil entender, e consequentemente condenar, os criminosos de quadrilhas mais sofisticadas e autoras de crimes difíceis de comprovar, como os de colarinho branco — disse Pereira.
Para o advogado e professor da FGV Direito Rio Thiago Bottino, a decisão tomada pelo STF não muda a realidade jurídica do país.

— Se esses oito réus tivessem sido condenados por formação de quadrilha, isso não mudaria a realidade reclamada pelo ministro Joaquim Barbosa. Não há uma mudança de interpretação sobre a lei. O julgamento já tinha ficado dividido lá atrás, em 6 a 4.

Sistema punitivo mais eficiente para pobres
O advogado, especialista em direito penal, reconhece que, no Brasil, há um sistema que pune com mais eficiência as pessoas mais pobres. Porém, isso ocorreria por causa da deficiência do Estado durante as investigações de casos mais complexos.

— O problema do nosso Estado, que pune mais o pobre, é que está programado para identificar, investigar e punir condutas simples. E esses crimes são mais complexos. Mas não é jogando a responsabilidade no Judiciário para que haja a condenação contra a convicção do juiz que as coisas vão mudar.

— A reunião do (José) Dirceu em Portugal: pode ser uma prova de quadrilha ou pode não ser uma prova — exemplifica Bottino.

Fonte: O Globo

Barbosa insinua que colegas manobraram contra julgamento

Presidente do Supremo deu a entender que Teori Zavascki e Luis Roberto Barroso foram nomeados por Dilma para reverter sentenças no mensalão

Felipe Recondo, Mariângela Gallucci e Ricardo Brito

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, insinuou nesta quinta-feira, 27, que os ministros Teori Zavascki e Luís Roberto Barroso, nomes que passaram a integrar a Corte após a primeira fase do julgamento, em 2012, foram indicados ao cargo pela presidente Dilma Rousseff para reverter as sentenças do mensalão. Os dois ministros votaram pela aceitação dos embargos infringentes dos condenados e garantiram sua absolvição do crime de formação de quadrilha.

Barbosa começou a se mostrar indignado quando o placar já estava formado. "Temos uma maioria formada sob medida para lançar por terra o trabalho primoroso levado a cabo por esta Corte no segundo semestre de 2012", afirmou. "Sinto-me autorizado a alertar a Nação brasileira de que esse é apenas o primeiro passo. É uma maioria de circunstância que tem todo tempo a seu favor para continuar sua sanha reformadora", atacou.

Ao defender a manutenção da condenação, Barbosa tentou desqualificar os argumentos dos ministros contrários à sua tese. "Esta é uma tarde triste para este Supremo Tribunal Federal, porque, com argumentos pífios, foi reformada, jogada por terra, extirpada do mundo jurídico, uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada, que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012", disse.

Desmonte. Para Barbosa, a etapa inicial do desmonte do julgamento ocorreu em 2013, quando o tribunal, por maioria, resolveu aceitar os embargos infringentes - quando um réu é condenado com pelo menos quatro votos pela absolvição, pode pedir um novo julgamento. "Inventou-se um recurso regimental totalmente à margem da lei com o objetivo específico de anular e reduzir a nada um trabalho que fora feito", disse.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Fernando Gabeira*: A encruzilhada brasileira

"Hey! Matilda, Matil-da, she take me money and run Venezuela." Se invertemos as frases desse calipso celebrizado por Harry Belafonte nos anos 1950, talvez tenhamos uma boa visão das relações do Brasil com a Venezuela.

As relações comerciais quadruplicaram com a ascensão do chavismo, com saldo brasileiro. O País tornou-se o terceiro parceiro comercial da Venezuela, perdendo apenas para os EUA e a China. Não só os alimentos da chamada cadeia proteica, principalmente carne bovina, são vendidos por lá, também a água mineral nos restaurantes de Caracas costuma ser brasileira. A Embraer vende aviões, a Odebrecht e a Camargo Corrêa buscam se consolidar associando-se ao setor petroleiro. Enfim, tudo parece correr bem para os nossos negócios.

Até na fronteira, em Santa Helena do Uairen, fiquei sabendo que as compras foram recordes nos grandes feriados. O real valia 2,8 bolívares e nossos turistas levavam tudo o que podiam nos seus carros abastecidos com gasolina subsidiada pelo governo de lá. Na estrada entre Boa Vista e Santa Helena podem ser vistos os traços de um grande comércio formiguinha, o do contrabando de gasolina. Várias carcaças de carros marcam o curso da estrada, de modo geral queimadas e abandonadas por contrabandistas fugindo da polícia.

Neste momento pós-Chávez, em que a Venezuela entra numa crise, o governo endurece a repressão aos opositores, compactua com grupos armados que atiram na multidão, prende e tortura manifestantes, o que o Brasil pode dizer? Laços comerciais não impediram que o maior parceiro da Venezuela condenasse a política de Nicolás Maduro e o aconselhasse a considerar o que pedem os seus opositores. Mas os americanos são los americanos. O nó que nos ata à Venezuela não é apenas comercial, mas ideológico.

Existe um medo de condenar os erros da política de Maduro porque, desde os primórdios do tempo, um princípio aterrador domina a esquerda: não mencionar os fatos que possam fortalecer o campo adversário. Nesse processo, a omissão ou mesmo a distorção dos fatos passam a ser vividas como um mais alto dever, o de preservar a experiência revolucionária. Isso vale para Cuba e para a Venezuela, uma vez estão entrelaçados e o próprio know-how repressivo cubano foi transplantado para o chamado socialismo do século 21.

O general Angel Vivas, entrincheirado com um fuzil na sua casa em Prado del Este, afirmou no Twitter que estava para ser presos por cubanos e gente da Guarda Nacional Bolivariana. Vestindo camisa vermelha, motociclistas armados atiraram na multidão. Atingiram a cabeça da Miss Turismo de Carabobo. Que perigo Génesis Carmona, de 22 anos, representava para o tal socialismo do século 21? Que perigo representam todos os estudantes que estavam com ela protestando contra o governo?

São golpistas, diz Maduro. Mas Nicolás Maduro é uma rara espécie de visionário. Ele vê Hugo Chávez transfigurado num passarinho, vê o rosto de Chávez numa escavação de metrô e sua visão mais cômica se deu na cela onde está preso Leopoldo López. Maduro afirma que um desconhecido foi preso tentando entrar na cela de López com inúmeros mapas das instalações petrolíferas do país. Mesmo um roteirista de cinema teria dificuldades de dar um toque de realidade a essa versão. Como ter acesso à cela de López? De que adiantariam para ele os mapas na prisão? Por que não estudaram esses mapas nos longos anos de liberdade?

Maduro é condutor de um processo que arrebata ainda a simpatia de alguns europeus e de uma faixa da juventude de esquerda. O único fator a que se apegam seus defensores é o apoio popular. Mas mesmo esse apoio começa a ser corroído. Ao ler mais atentamente os textos do Tal Cual, percebi que ao mencionar a oposição o jornal diz também que alguns chavistas discordam da repressão de Maduro. Horas depois constatei que falava de algo real: o governador de Táchira, José Vielma Mora, criticou a prisão de López e condenou os métodos do governo. Vielma Mora é chavista.

Num momento tão dramático para o continente, estamos atados a dois nós. Para desatar o primeiro, o econômico, é preciso introduzir um visão de médio prazo. A economia venezuelana está em decadência e muito provavelmente os negócios não serão tão sedutores nem os pagamentos, pontuais. Sempre teremos relações com a Venezuela: é preciso pensar nisso, antes de embarcar na canoa de Maduro.

Para desatar o segundo nó, o ideológico, é preciso levar o governo ao debate, saber o que está vendo na crise venezuelana. Se confiar só em Maduro, verá passarinhos durante o dia e carneirinhos antes de dormir. Como é possível identificar-se com um projeto que melhorou as condições imediatas dos pobres, mas está se mostrando insustentável em termos econômicos, mata misses, sufoca a imprensa, prende estudantes, aterroriza a oposição?

Não tenho esperança de convencê-los, como não tinha de convencer as pessoas de que o mundo não acabaria em 2012. Mas quando se trata de uma questão política que envolve a imagem internacional do Brasil é preciso buscar um mínimo de convergência. É preciso que o governo compreenda que criticar a violação dos direitos humanos na Venezuela não é dar munição aos adversários de Nicolás Maduro. Ela foi dada pelo próprio Maduro quando viu uma tentativa de golpe num movimento de protesto. A munição nasce dos fatos e quando começamos a negá-los por um dever de consciência alguma coisa está errada com o próprio sentido da palavra.

Compreendo que o governo tem ganho as eleições e, no momento, desfruta o apoio da maioria. Mas isso o autoriza a vestir uma camisa partidária em nosso peito juvenil e outros peitos de idade mais avançada?

Traçamos uma linha imaginária no século passado e continuamos a nos orientar por ela. Esquerda ou direita? E estamos levando o nosso rigor geométrico para os cemitérios: mortos de esquerda ou de direita?

Diante de nós, a Venezuela em transe.

*Fernando Gabeira é jornalista.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Luiz Felipe Lampreia: O que diz o Brasil?

Silêncio em relação à Venezuela é um erro

Regimes opressivos e violentos, que desservem às aspirações do povo, acabam um dia colhendo o que semearam: a revolta. É o caso da Ucrânia, onde o que era uma disputa administrável tornou-se confronto sangrento. Mais próxima de nós, está a tragédia da Venezuela.

Sob a presidência de Nicolás Maduro, a quem falta o enorme carisma de Hugo Chávez, o país está descendo às profundezas do desgoverno e da brutalidade. Quando as prateleiras dos supermercados estão vazias, a moeda nacional derrete, a inflação está em alta vertiginosa — é natural que haja manifestações de protesto. Qualquer regime democrático as aceita, sob regras publicamente definidas de local, hora e não violência. O regime de Maduro, ao contrário, alegou que se tratava de uma conspiração fascista financiada pelos EUA e começou a baixar o porrete. 

As forcas policiais usaram fartamente cassetetes e gás lacrimogêneo, a Sebin (a Gestapo venezuelana) usou armas de fogo contra a multidão. Os relatos de tortura, espancamentos e ameaças de morte são numerosos. A imprensa tem sido reprimida na cobertura dos choques e, segundo relatos confiáveis, muitos jornalistas têm sido presos ou agredidos na tentativa de encobrir a repressão. A violência de atirar contra os manifestantes é também levada a cabo pelos esquadrões chamados colectivos, em tudo semelhantes às tropas de choque nazistas da SS ou os squadristi de Mussolini, inclusive por terem sido lançados pelo governo de Maduro.

Prognosticar se o governo de Maduro vai cair não é o escopo deste artigo. O tema principal aqui é a posição do governo brasileiro sobre o massacre que está em curso na Venezuela. Em primeiro lugar, coloca-se a questão de saber se o governo da Venezuela viola seus compromissos jurídicos internacionais. Vale lembrar que, nas normas jurídicas continentais, consta o Compromisso Democrático da OEA, assinado por todos os países membros, que coloca com clareza o que é uma democracia, bem como o Protocolo de Ushuaia do Mercosul (tive a honra de assiná-lo como chanceler brasileiro em 1998), que contém a cláusula democrática e prevê inclusive a suspensão do país que a viole.

Por que o governo brasileiro se omite nessas condições? Por que, por muito menos e de forma altamente discutível e prejudicial aos interesses nacionais, castigou o Paraguai em nome da referida cláusula democrática? E agora, em face das atitudes antidemocráticas do governo venezuelano, nada diz.

O respeitado jornal “La Nación”, de Buenos Aires, publicou matéria no dia 21 de fevereiro em que afirma: “Silêncio cúmplice. Erro estratégico. Postura inadmissível de um suposto líder regional com aspirações globais. Ante a crise que se vive na Venezuela, são cada vez mais numerosas as vozes que condenam a falta de ação do Brasil no conflito que sangra seu vizinho e mais recente sócio no Mercosul.”

Creio, com a maior convicção, que o silêncio do Brasil face à repressão violenta sobre a oposição que está sendo praticada pelo governo Maduro é um erro que afeta a credibilidade de nosso país em sua tradicional defesa dos direitos humanos e dos valores democráticos. É uma mancha para o atual governo, que espero seja apagada por uma postura mais definida .

Fonte: O Globo

Rogério Furquim Werneck: Autoengano e realismo

Lula parece bem mais realista do que certos analistas econômicos

A taxa anual média de crescimento da economia nos três primeiros anos de mandato da presidente Dilma mal chegou a 2%. E é bem possível que, ao fim do mandato, a taxa média dos quatro anos se mostre ainda mais baixa. A sete meses das eleições e com desempenho tão pífio para mostrar, o governo vem enfrentando rápido estreitamento do espaço de manobra para condução da política econômica.

As contas de anos de inconsequência e improvisação parecem ter chegado todas ao mesmo tempo. A política econômica vem sendo dominada pela recorrente necessidade de encobrir efeitos de medidas equivocadas tomadas no passado, com outras medidas equivocadas cujos efeitos terão de ser encobertos mais adiante. Um exemplo emblemático é a política populista de preços de energia, que redundou em deplorável castelo de cartas que hoje tem como pilares centrais o Tesouro e a Petrobras.

Na semana passada, em meio a esse quadro tão adverso, o país, mais uma vez, teve de assistir ao tradicional espetáculo de pirotecnia fiscal de fevereiro, em que o governo renova suas juras de compromisso com a austeridade e promete que os excessos do ano anterior jamais se repetirão. Nesse ano, as cores foram mais dramáticas pois, como deixou claro o próprio ministro da Fazenda, o espetáculo foi inteiramente motivado pela urgência de evitar os danos de um rebaixamento da dívida brasileira pelas agências de avaliação de risco, em pleno ano eleitoral.

O que, afinal, se viu foi uma proposta de ajuste fiscal, baseada em hipóteses róseas acerca da arrecadação e das possibilidades de contenção de gastos, que prevê geração de um superávit primário da ordem de 1,9% do PIB em 2014, mesmo com aumento substancial do dispêndio federal em relação a 2013. Entre outras falhas já bem ventiladas na mídia, a proposta passa ao largo de duas questões cruciais. Como serão financiados os custos de operação das usinas térmicas que o governo vem espetando no Tesouro, para não ter de repassá-los aos consumidores de energia? O que, afinal, deverá acontecer, em 2014, com as gigantescas transferências de recursos provenientes de emissão de dívida pública que o Tesouro vem fazendo ao BNDES, por fora do orçamento e sem registro adequado nas estatísticas de resultado primário e de dívida líquida do setor público?

Apesar dessas omissões e demais falhas, houve quem se apressasse em concluir que, com a proposta, o governo havia conseguido recuperar a credibilidade perdida e afastar o risco de um rebaixamento da dívida em 2014. O despropositado grau de autoengano que tal conclusão requer só pode ser explicado pela demanda quase desesperada por cenários otimistas que hoje se vê no País.

É curioso que, depois de tantos anos, ainda haja quem não perceba que, sem mudança da equipe econômica, tais promessas não são mais críveis. É ingênuo esperar que Mantega, Arno e Coutinho, a linha de ataque que tanto se destacou no lamentável processo de demolição institucional que teve lugar na gestão das contas públicas nos últimos anos, possa agora mostrar seu valor na defesa, levando adiante um programa de austeridade fiscal em pleno ano eleitoral.

Visão bem mais lúcida da real extensão das dificuldades da política econômica do governo é a que agora revelou ter o ex-presidente Lula. No início da semana, Lula deixou vazar que achava que a atual equipe econômica estava com “prazo de validade vencido” (“Folha de S.Paulo”, 24 de fevereiro). É claro que, nessa alusão à perda de validade, Lula não estava incluindo o comando supremo da equipe econômica. Mas dois dias depois, em artigo no “Valor Econômico”, deixou mais do que claro seu desalento com a possibilidade de que os feitos do governo Dilma possam ser vendidos ao eleitorado. Sugeriu que a estratégia mais promissora será tentar vender um pacote fechado de três mandatos, em que as mazelas dos quatro anos de Dilma possam ficar diluídas nos oito de Lula. O que ainda terá a vantagem de não exigir mudança de discurso, caso o PT tenha de partir para o Plano B.

Rogério Furquim Werneck, economista e professor da PUC-Rio

Fonte: O Globo &O Estado de S. Paulo

Campos diz que PIB é medíocre; Aécio não vê retomada

Ricardo Della Coletta, Daiene Cardoso e Débora Álvares

BRASÍLIA - O desempenho da economia no ano passado, que surpreendeu positivamente o mercado financeiro e a equipe econômica do governo, foi recebido com críticas pelos principais pré-candidatos ao Palácio do Planalto nas eleições de outubro. O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves, destacou que o resultado mostra o crescimento brasileiro como o "menor entre as principais economias emergentes". Já o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), considerou "medíocre" o avanço de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB).

Segundo Aécio Neves, o índice "não representa uma efetiva recuperação ou retomada do crescimento da economia brasileira". "Ao contrário do que acusa o governo, os analistas sempre foram menos pessimistas do que os fatos", afirmou o tucano. O senador mineiro argumenta ainda no texto que o desempenho da indústria no período "mal compensou" a queda do PIB industrial em 2012. "O quadro geral é de estabilidade, em um patamar muito aquém do que o país poderia e deveria estar", acrescentou.

Aécio Neves disse que o potencial de crescimento da economia foi reduzido e que isso "não pode ser mais terceirizado e debitado na conta da crise internacional". "Representa queda estrutural do potencial de nossa economia em produzir um futuro melhor para os brasileiros, em função dos erros de política econômica que se acumulam nos últimos anos."

O governador de Pernambuco, Eduardo Campos, usou as redes sociais para criticar o desempenho da economia. "O IBGE acaba de divulgar o medíocre PIB de 2013. Não adianta vir com o velho truque de selecionar outros países mal das pernas e dizer que estão piores do que nós. O povo brasileiro merece coisa melhor", escreveu, em sua página no Facebook.

O presidenciável disse que falta "trabalho duro". "O Brasil não precisa de governantes dedicados unicamente a explicar por que estamos mal. Precisa de um governo que jogue limpo, que seja transparente, que trabalhe duro para fazer o Brasil crescer de verdade, para ressuscitar nossa indústria, para reanimar nossas exportações, para defender nossa economia, que é a base da nossa soberania nacional", acrescentou.

"O Brasil precisa parar de festejar a mediocridade, precisa parar de pensar pequeno. Nossa vocação é pensar grande, é trabalhar para que os grandes sonhos e projetos do povo brasileiro virem realidade", finalizou.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Aécio diz que avanço do PIB não exprime retomada do crescimento

Senador comentou resultado do Produto Interno Bruto, divulgado nesta quinta-feira pelo IBGE

O presidente nacional do PSDB, senador Aécio Neves (MG), divulgou nota nesta quinta-feira, 27, na qual afirma que o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) em 2013, de 2,3% segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), "não representa uma efetiva recuperação ou retomada do crescimento da economia brasileira". Aécio, provável candidato tucano ao Palácio do Planalto, também destaca que o desempenho brasileiro é, no acumulado de três anos, "o menor entre as principais economias emergentes".

O IBGE divulgou na manhã desta quinta que a economia brasileira avançou 0,7% nos três últimos meses do ano passado, ante o trimestre imediatamente anterior. O resultado anual (2,3%) é maior do que a evolução do PIB em 2012 (1%) e menor do que o primeiro ano da presidente Dilma Rousseff (2,7%).

Na nota, Aécio também rebateu a afirmação do Planalto de que os analistas são muitas vezes pessimistas ao avaliar o cenário econômico brasileiro. "Ao contrário do que acusa o governo, os analistas sempre foram menos pessimistas do que os fatos", afirma o tucano. O senador mineiro argumenta ainda no texto que o desempenho da indústria no período "mal compensou" a queda do PIB industrial em 2012. "O quadro geral é de estabilidade, em um patamar muito aquém do que o país poderia e deveria estar", acrescentou.

Na mesma linha, ele diz que o avanço dos investimentos "quase não contrabalança" a queda registrada em 2012. "É ainda importante destacar que, quando se olha os números trimestrais, o crescimento do investimento se concentrou na primeira metade de 2013 e já perdeu fôlego no segundo semestre do ano", diz.

Aécio afirma ainda que o potencial de crescimento da economia foi reduzido e que isso "não pode ser mais 'terceirizado' e debitado na conta da crise internacional". "Representa queda estrutural do potencial de nossa economia em produzir um futuro melhor para os brasileiros, em função dos erros de política econômica que se acumulam nos últimos anos", conclui o senador.

Fonte: Estado de Minas

Eliane Cantanhêde:"Tarde triste"

Depois da reviravolta de ontem no Supremo, que agora não reconhece mais o crime de quadrilha no mensalão, o foco está em dois personagens principais e antagônicos: o condenado José Dirceu e o algoz Joaquim Barbosa.

Dirceu foi citado pela Procuradoria Geral da República, pelo então relator Barbosa e pela maioria do antigo Supremo (aquele que condenou) como "chefe de quadrilha" --e condenado como tal pelos indícios e pelo conjunto da obra, mesmo sem provas factuais. E agora? Se não existiu quadrilha, como Dirceu pôde ter sido chefe de quadrilha?

Além da redução de pena e da troca do regime fechado pelo semiaberto, Dirceu está em condições de dar um outro drible na condenação, aproveitando o novo equilíbrio interno no Supremo: a "revisão criminal".

Significa entrar com recurso para uma nova apreciação das outras condenações, mesmo depois de tramitado em julgado. Está previsto no Código do Processo Penal e no Regimento Interno do STF. Você aí, então, pode ir se preparando para a absolvição e, da absolvição, para a santificação.

Vitória de Dirceu, derrota de Joaquim Barbosa. Visivelmente abatido, trocando a arrogância de outros tempos pelo ar de desânimo, ele disse que foi "uma tarde triste para o Supremo" e considerou que "todo o trabalho foi lançado por terra".

Joaquim conquistou amor e ódio como relator do mensalão e depois como primeiro presidente negro do Supremo. Virou um personagem nacional, despertou a cobiça de partidos políticos, achou que estava fazendo história --e talvez estivesse, e esteja, mesmo. Mas vale para ele a mesma pergunta feita para Dirceu, às avessas: e agora? Como conviver como minoria num tribunal onde foi maioria? Pior: como deixar de presidir e passar a ser presidido justamente por Lewandowski em novembro?

Assim como Dirceu é candidato a ex-condenado, Joaquim Barbosa bem pode se tornar candidato a senador, presidente... E a luta continua.

Fonte: Folha Online

Dora Kramer: Nada é para já

A mesma voz do bom senso que aconselharia o ministro Joaquim Barbosa a ficar longe da política eleitoral ao menos até esfriarem os ânimos do mensalão diria ao ex-presidente Luiz Inácio da Silva que disputar a Presidência da República de novo não seria um bom negócio.

Em 2014, em 2018 nem nunca mais. O mesmo se aplica ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, guardadas algumas proporções. FH ganhou duas no primeiro turno, saiu na segunda gestão mais para lá do que para cá em termos de popularidade e vive uma ótima vida de homenagens sem deixar de fazer política. Para que concorrer a uma eleição e ainda se arriscar a perder?

Lula saiu consagrado da Presidência. Com popularidade altíssima depois de dois mandatos, capital político mais que robusto, o comandante incontestável de seu partido em plena posse de suas atividades. Em português claro: manda e desmanda, com mandato ou sem.

Porém, governou com céu de brigadeiro e a situação mudou. Por que arriscar esse patrimônio concorrendo a uma eleição se a vida está ótima assim? Para quem saiu com mais de 80% de aprovação, qualquer 75% é perda. Ademais, o horizonte não se desenha risonho e franco para o próximo período.

Ocorre, contudo, que o PT precisa manter o poder. Não tem outro nome além de Lula e se aflige com a possibilidade de não conseguir com Dilma Rousseff. Daí o que o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, chama de "fofocas" sobre a possibilidade de o ex-presidente vir a se candidatar agora no lugar da sucessora.

Há apostas do lado do "sim" e do lado do "não". Hoje a balança pesa mais para a primeira hipótese. Mas, seja qual for a decisão, não seria tomada agora. O ex-presidente tem tempo e razões de sobra para postergar.

Vamos à lista dos motivos: 1.Dilma está na frente nas pesquisas; 2. A oposição ainda não se configura uma ameaça que justifique movimentos radicais; 3. Seria uma precipitação, pois as candidaturas só precisam ser oficialmente definidas em junho; 4. Assumir a candidatura agora equivaleria a dizer que Lula considera Dilma incapaz de ganhar e que, portanto, o governo dela é um fracasso; 5. Fracasso dele, o fiador de gestora tão competente como nunca antes aparecera neste País.

O essencial. Com todos os senões que se possam enxergar no fato de uma decisão do Supremo Tribunal Federal ser reformulada pelos votos de dois ministros que não participaram do julgamento, contrariando a maioria que acompanhou passo a passo o processo, um dado é fundamental.

O projeto do partido no poder de que os réus, ou pelo menos aqueles do chamado núcleo político, fossem absolvidos de maneira a prevalecer a tese de que o mensalão foi uma farsa, não teve êxito.

A ideia de que uma Corte majoritariamente nomeada por governos do PT poderia se submeter aos interesses do partido não vingou. Do ponto de vista institucional na comparação com outros países em que o Poder Executivo eleito de forma democrática, mas exercido de forma autoritária, o Brasil saiu-se muito bem.

Nessa perspectiva tanto faz se altos dirigentes partidários tenham formado uma quadrilha ou um "concurso de agentes" para o cometimento de crimes.

O importante é o reconhecimento de que os cometeram e que, mesmo poderosos e providos de costas quentes, estão pagando por isso. Não foram declarados inocentes nem se podem dizer vítimas de injustiças. Tiveram todas as chances.

Inclusive a oportunidade de um novo julgamento em instância superior, em tese única. Se o enredo não saiu como previam, deve-se à solidez dos homens e mulheres que não deixaram o Supremo Tribunal Federal se curvar às conveniências do Planalto.

Breve pausa. A política se recolhe durante o carnaval, voltando a abrir alas e a pedir passagem na próxima sexta-feira, dia 7.

Fonte: O Estado de S. Paulo

Merval Pereira: Marco positivo

Então fica combinado assim. José Dirceu não é o chefe da quadrilha do mensalão. É simplesmente o mais graduado dos co-autores de crimes como corrupção ativa, corrupção passiva, peculato, lavagem de dinheiro (por enquanto), evasão de divisas.

Os petistas estão eufóricos com a decisão do novo plenário do Supremo Tribunal Federal de absolver os condenados por formação de quadrilha, que sem dúvida tinha um valor simbólico no caso do mensalão. E é o fim desse simbolismo que fez com que os petistas vibrassem tanto, juntamente com a possibilidade de reduzir o tempo de reclusão, em alguns casos saindo da cadeia até mesmo este ano.

A prisão semi-aberta, sabe-se agora, é uma punição bastante rigorosa quando os controladores do sistema prisional não são subordinados a governos petistas. O mais grave dessa decisão é se ela corresponder a uma tentativa de transformar o Supremo em um órgão “bolivariano”, como acusou o ministro Gilmar Mendes.

Tanto ele quanto Joaquim Barbosa advertiram que haverá outras tentativas de reverter o resultado do julgamento à medida que ministros forem sendo substituídos, até a revisão criminal.

É verdade que desde o início do julgamento houve claras manobras, em plenário e por parte dos advogados, para retardá-lo como maneira de fazer com que os ministros Ayres Britto e Cezar Peluso se aposentassem antes do seu final, o que realmente aconteceu.

Peluso, por exemplo, não nem chegou a votar em formação de quadrilha nem em lavagem de dinheiro. A saída dos dois deu margem a que, com os novos ministros, a minoria se transformasse em maioria. Nem ele nem Britto participaram da votação sobre a existência dos embargos infringentes, o que abriu condições de rever o julgamento nos quesitos formação de quadrilha e lavagem de dinheiro.

A revisão criminal, no entanto, é bastante difícil de conseguir, e depende de se provar que a condenação foi feita com base em documentos ou depoimentos falsos, ou de aparecer novas provas de inocência.

Mas se este for mesmo “apenas o primeiro passo”, como alertou o ministro Joaquim Barbosa, pode acontecer que se forme no plenário do STF ao longo dos próximos dois anos (prazo máximo para pedir a revisão) outra "maioria de circunstância” para reformar as sentenças já formuladas. Nesse prazo devem sair do Supremo por aposentadoria os ministros Celso de Mello e Marco Aurélio Mello, e o ministro Joaquim Barbosa.

Espera-se que as piores previsões não se confirmem e que os próximos presidentes continuem enviando ao STF juízes capazes de serem independentes em seus votos. A simples desconfiança de que o plenário seja manipulável, atendendo aos interesses do governo da ocasião, coloca em risco a democracia brasileira, que tem no julgamento do mensalão, apesar de tudo, um marco positivo.

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Não há dúvidas de que quando um crime prescreve o acusado não vai nem a julgamento, como é o caso do ex-ministro de Lula Walfrido Mares Guia que, por ter feito 70 anos, teve reduzido pela metade o tempo de prescrição do crime de que era acusado no mensalão mineiro.

Mas, no caso do mensalão do PT, se tratava de um julgamento já realizado, e, portanto, a prescrição só poderia acontecer se os réus fossem condenados a menos de 2 anos de prisão. Raciocinar, como fizeram os ministros Luis Roberto Barroso e Teori Zavascki, como se as penas não tivessem sido dadas não tem sentido técnico, na opinião de muitos juristas.

Apenas sentido político, isto é, denunciar que as penas foram agravadas com o objetivo de colocar o condenados em regime fechado.

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A coluna volta a ser publicada no próximo dia 5 de março. Bom Carnaval a todos.

Fonte: O Globo