segunda-feira, 20 de outubro de 2014

José Roberto de Toledo - Na onda do ódio

- O Estado de S. Paulo

Campanha negativa, do contra, o lado B. Entre tantos eventos que marcam a eleição presidencial de 2014, os métodos de desconstrução do adversário são os mais eficientes até agora. Podem eleger o próximo presidente, seja quem for. Em vez de engajamento com a política e de criar afinidade entre cidadão e governante, a anticampanha afasta-os. E reforça a sensação típica do segundo turno: eleger não o melhor, mas o menos pior.

Na mais apertada das eleições presidenciais - da curta história da democracia brasileira - já houve tragédias, reviravoltas, traições. Ondas de opinião surgiram como maremotos e quebraram como marolas. Mas nada teve impacto mais definitivo do que as antigas e novas maneiras de fazer o rival parecer despreparado, frágil, desonesto ou simplesmente ridículo.

Os ringues em que se transformaram os debates do segundo turno entre Aécio Neves (PSDB) e Dilma Rousseff (PT) são apenas a parte mais visível da troca de insultos. Ingenuidade achar que a anticampanha acaba nos sopapos verbais na TV. Isso é só o começo, é munição para a artilharia que vem na sequência.

Uma das febres nos comitês subterrâneos de 2014 é o uso eleitoral do WhatsApp. O aplicativo de mensagens em tempo real funciona em qualquer smartphone e poupa o usuário de pagar por mensagens SMS. Transita seu conteúdo pela internet. É também uma rede social popular, onde grupos de usuários transmitem e recebem mensagens entre si. De tanto sucesso, o Facebook pagou US$ 16 bilhões por ele.

Por essa característica híbrida, meio de telefone meio de computador, o WhatsApp caiu em um buraco negro regulatório no Brasil e acabou escapando à vigilância da Justiça eleitoral. É território livre de regras e proibições, um velho oeste onde hackers e candidatos fazem seu bangue-bangue.

Uma gafe do adversário em um debate televisivo vira imediatamente um vídeo curto e, de preferência, engraçado. Antes de acabar a transmissão na TV, já está nos celulares de centenas de milhares de eleitores, ou apenas nos de um segmento específico do eleitorado, conforme a estratégia da campanha.

Candidato ao governo de Minas Gerais pelo PSDB, Pimenta da Veiga disse em um debate que construiria hospitais em três municípios do norte do Estado, mas ao nomeá-los, citou dois que ficam em outras regiões. Em pouco tempo os eleitores de Teófilo Otoni e Governador Valadares foram bombardeados com vídeos do personagem "Turista da Veiga" situando erroneamente suas cidades na TV.

O uso da campanha negativa eletrônica não tem monopólio partidário. Dilma passando mal após debate no SBT virou meme e, mais do que isso, "prova" disseminada por partidários de Aécio de que o tucano havia nocauteado a petista, ao ponto de derrubar-lhe a pressão e fazê-la pedir para sentar. Não importa ser ou não verdade. Na anticampanha, parecer já basta.

Ao cumprir seu papel de expor os poderosos e despi-los da imagem cuidadosamente composta pelo marketing, a própria imprensa produz ou reproduz matéria-prima que vem e vai pelo lado B da campanha eleitoral. Não é uma novidade desta eleição, porém.

A diferença de 2014 é que desde a ditadura o Brasil nunca esteve tão dividido. Nem 2 milhões de intenções de voto separam Aécio e Dilma. É menos de 1% da população, e diminuindo. A maioria vencedora será absoluta, mas - arrisca-se - por definição apenas. O brasileiro estará cindido em duas metades que a miopia e o ódio eleitorais fazem de tudo para tornar irreconciliáveis.

Sem estabilidade política não há estabilidade econômica. Para alcançá-las, o próximo presidente, não importa quem seja, vai precisar compor-se com o PMDB, com os 17 anões partidários do Congresso, mas não só. Terá de dialogar também com a oposição. A mesma oposição que ele ou ela desconstruiu durante a eleição.

Valdo Cruz - Vende-se a mãe

- Folha de S. Paulo

Uma lógica franciscana às avessas tomou conta da campanha eleitoral. É batendo que se apanha. Pena que não prevaleça na disputa aquele ensinamento cristão "não faça ao teu próximo aquilo que não deseja que façam contigo".

Acrescentaria que não deveríamos repetir com os outros as injustiças das quais fomos vítimas no passado. E deveríamos olhar no espelho antes de apontarmos o dedo na direção do nosso semelhante.

Óbvio que esperar tais comportamentos no mundo da política é uma ilusão, uma ingenuidade, mas tudo tem limites. Nesta eleição, eles foram superados -nos programas de TV, nos debates e nos discursos inflamados da campanha de rua.

Da desonestidade intelectual vista no primeiro turno passamos à desonestidade moral. Se antes vimos um festival patético de distorções de propostas econômicas para minar uma adversária, agora assistimos a ataques pessoais desferidos por donos de telhados de vidro.

Tal tática tem guarida em parcela do eleitorado, sintonizado na mesma baixa frequência de quem a pratica. Por isso é usada. Dá nojo, por sinal, assistir ao vivo os debates eleitorais. Plateias celebram quando o adversário fica zonzo ao sofrer um golpe desferido abaixo da cintura.

Esse tipo de estratégia revela, sempre, certo desespero. É acionada como último recurso quando há risco de derrota. Seu mentor pode até vencer, mas vai ganhar com um gol de mão. Para ele, porém, pouco importa, o fim justifica os meios.

Agora, depois que a Justiça Eleitoral passou a vetar as baixarias, o vale-tudo pode perder espaço na reta final. Não porque os estrategistas ficaram com a consciência pesada, mas porque o eleitorado já não suporta mais a onda de golpes baixos.

Quem sabe teremos uma última semana de campanha mais civilizada, a tempo de o eleitor refletir e votar naquele que considera o melhor para seu futuro. A conferir, porque ontem teve o penúltimo debate.

Renato Janine Ribeiro - O equilíbrio dos poderes

• Nem PT nem PSDB sairá arrasado das eleições

- Valor Econômico

Já afirmei que a campanha presidencial está tão agressiva porque quem perder perderá muito, talvez tudo. Será que o PSDB aguenta quatro derrotas sucessivas de seu projeto de nação? Será que o PT sobrevive de volta à oposição, depois que seu DNA se acostumou ao governo? Mas os resultados de primeiro turno, somados aos que teremos domingo, me fizeram mudar de opinião. Desde 2002 o eleitorado brasileiro, de maneira sistemática, escolhe candidatos de partidos opostos para cargos importantes. Em bom português, ele se recusa a deixar todos os ovos na mesma cesta. Em teoria política, isso se chama: Montesquieu; explicarei a seguir. De duas uma: ou os eleitores são loucos de manter vivo o confronto PT-PSDB, vitaminando ambos ma non troppo, ou seguem um padrão consistente e coerente. Vamos ver.

A agressividade tem razão de ser. Um dos dois grandes partidos vai chorar domingo à noite. Hoje, a seis dias da eleição, não se tem ideia de quem vencerá. Nem dá para confiar nas pesquisas, depois que erraram tanto na votação de Aécio Neves.

Suponhamos que o PT perca. Em 12 anos no poder, ele mudou de natureza. Aprendeu a governar. Isso tem um lado bom. Em 1989, quando esteve a um passo de vencer, o PT entrou discretamente em pânico: não teria quadros para dirigir o país. Hoje tem. Milhares de pessoas de esquerda aprenderam a lidar com a administração. Até poucos anos, entre os quadros habituados à gestão pública, predominava a formação à direita. Hoje, qualquer grande partido que ganhe uma eleição sabe governar.

Mas o partido com mais raízes no povo se afastou dos representados. Nossa política tem uma lógica perversa: qualquer cargo no Executivo vale mais do que a liderança no Legislativo ou no partido. Ora, parlamentares e líderes partidários são quem faz o meio de campo com o eleitor. Num partido popular como o PT, separar a política do poder real e deixá-la para os coadjuvantes é perigoso. Pior do que seria no PSDB, que sempre se concentrou na elite. É por isso que a oposição de esquerda acusa o PT de despolitizar a sociedade.

O PT, na oposição, sofrerá mais do que pré-2002. A mídia não o hostilizava como hoje. Não terá a simpatia da mídia, do patronato e da classe média. Estará reduzido a governar poucos Estados. Precisará recriar um perfil de oposição. O que talvez seja bom, para ele e para o Brasil. A oposição que tivemos estes anos viveu mais de ódio que de propostas.

Suponhamos que o PSDB perca. Será a quarta derrota seguida em eleições presidenciais. Talvez, finalmente, ele descubra que não dá mais para ter um perfil tão elitista - tão elitista que o partido nem percebe a dimensão ou gravidade disso! Talvez possa se retemperar se aproximando ou até se fundindo com setores que apoiaram Marina. Talvez se abra mais ao mundo atual, especialmente nos costumes e valores. Mas pode deixar de ser a oposição, para se tornar uma das oposições. Precisará pensar se em 2018 oferece mais do mesmo, ou algo novo. Há uma enorme quantidade de propostas que poderia ter assumido, mas não o fez. Quem sabe.

Agora, o outro lado. Perdendo, o PSDB ainda assim governará dois Estados importantes, São Paulo e Paraná. Perdendo, o PT ainda assim governará dois Estados importantes, Minas Gerais e Bahia. Nenhum deles sai arrasado.

Havia um cenário de horror para o PSDB, um mês atrás: Aécio perder no Brasil e em Minas Gerais; pior, ficar em terceiro na eleição federal. Ele perdeu na vitrine mineira. Mas teve uma boa votação para a Presidência. Mostrou uma firmeza que muitos lhe desconheciam, mostrou coragem ante a adversidade. Se mesmo assim perder, terá apagado a imagem de playboy que seus adversários lhe colam. Manterá popularidade. E o PSDB terá bases políticas, além das midiáticas e empresariais, para continuar lutando.

Se Dilma perder, o PT viverá tempos difíceis, até porque terá menos financiamento privado, mas pode compensar isso com sua capacidade de fazer oposição. Bater-se contra o governo em condições adversas, o PT soube fazer. É difícil saber como o PT fará isso agora, mas ele ainda terá apoio em parte significativa da sociedade.

Com tudo isso, é provável continuarmos com esse par de irmãos inimigos. Por quê? Porque, quando um deles está quase liquidado, o povo brasileiro lhe dá uma sobrevida. Nas eleições de 1994 e 1998, as primeiras em que o presidente foi eleito junto com o Congresso e os governadores, o povo deu tudo ao PSDB e aliados. Levaram Presidência, maioria no Congresso, governadores. Desde 2002, o povo mudou. Deu a Presidência ao PT, no que foi uma verdadeira revolução - a primeira vez que a esquerda assumia o Poder Executivo federal - mas manteve a oposição nos Estados. Daí em diante o PT aumentou suas prefeituras, mas nunca mais houve "o primeiro colocado leva tudo". Esse padrão se repetirá agora, qualquer que seja o resultado do segundo turno. É constante demais para ser mera coincidência - ou para expressar alguma inconsistência do voto, tipo "o povo não sabe votar".

O eleitorado brasileiro optou por Montesquieu. Ele quer o equilíbrio entre os Poderes, que acontece quando um contém o outro para que ele não seja forte demais. Os anos 1994-2002 bastaram, em termos de concentração do poder. Agora, o povo deseja que ninguém possa tudo. Leva a sério, mesmo não a conhecendo, a máxima de Lorde Acton: "O poder tende a corromper. O poder absoluto corrompe absolutamente". Não dá poder absoluto a ninguém. Num país politicamente rachado, ele vota em ambos os lados. Não quer confiar seu destino a um só. Não quer resolver o racha. Parece até exigir que os dois lados se entendam.

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo.

Simon Schwartzman - Ideologia e realidade

• O melhor candidato será aquele que convencer a população de que é capaz de construir consenso

- Folha de S. Paulo

Apesar do afundamento da economia e dos escândalos de corrupção, muitos que ainda apoiam o governo preferem deixar os fatos de lado e fazer uma escolha ideológica -votar na candidata do PT seria votar pelo povo, pela "esquerda", contra o candidato que representaria as elites e a "direita".

O que importa seria a luta de classes, o social contra o mercado, e tudo o demais, parte da guerra de propaganda da oposição, "malfeitos" ocasionais a serem corrigidos, ou problemas criados pelo contexto internacional.

A história das políticas sociais do PT ajuda a entender a dificuldade desse raciocínio.

Lula chegou ao poder em 2002 anunciando o Fome Zero, que pretendia mobilizar a sociedade e colocar toda a produção agrícola do país nas mãos do Estado para garantir a "segurança alimentar" da população. Mal nascido, o programa foi enterrado depois que o IBGE mostrou que, mais do que a fome, o problema do país era a pobreza e a obesidade. Em seu lugar veio o Bolsa Família, inspirado nos programas de "transferência condicionada de dinheiro" que já existiam no México (Oportunidades), Colômbia (Famílias en Acción), Chile (Subsidio Unitario Familiar) e outros.

O grande incentivador desses programas era o Banco Mundial, que propunha que as políticas sociais deveriam ser focalizadas nos mais pobres e que por isto foi acusado de tentar destruir as políticas "universais" que, no Brasil, ainda colocam a maior parte dos recursos nas mãos dos mais ricos.

De direita ou esquerda, o Bolsa Família, embora não tenha tido o impacto esperado na educação ou na saúde nem tenha melhorado a distribuição dos gastos sociais, trouxe algum alívio a milhões de pessoas em situação de pobreza extrema e, por isto, todos hoje concordam que deve ser mantido enquanto necessário.

A segunda dificuldade é que, se por um lado é verdade que existem em toda parte conflitos de interesse entre pobres e ricos, trabalhadores e capitalistas, regiões ricas e regiões pobres, os países que conseguem avançar não são aqueles em que um lado se impõe, dividindo ou se apropriando do pouco que têm, mas os que conseguem construir consensos e gerar oportunidades e riqueza que continuarão a ser objeto de disputas de interesse, só que em patamar mais alto.

Em uma eleição presidencial majoritária, o melhor candidato será aquele que, sem ignorar os conflitos de interesse e favorecer determinadas políticas, conseguir convencer a população de que é capaz de construir e desenvolver este consenso.

O mesmo raciocínio se aplica ao contexto internacional.

É certo que oscilações da economia mundial podem afetar muito fortemente países como o Brasil, mas o que move a economia internacional não são, predominantemente, os conflitos entre o Primeiro e o Terceiro Mundo, e sim os espaços e as possibilidades de cooperação, comércio e intercâmbio de conhecimentos, que beneficiam os que participam e deixam de lado os que se excluem por escolhas ideológicas que ignoram a realidade.

Paulo Brossard - Desconstrução

- Zero Hora (RS)

Desde os tempos de estudante até vestir a toga, participei da atividade política. Vi e senti duas ditaduras, uma guerra mundial, o restabelecimento da democracia e ainda agora o espetáculo das eleições. Ou porque os partidos extintos e refeitos ainda não preencheram sua real finalidade, ou por outra causa, personagens novos, sem voto ou responsabilidade partidária, ganharam importância na cena política, cuja contribuição não foi a desejável para aprimoramento do Estado democrático. Atuando no horário eleitoral, os denominados “marqueteiros”, hoje, ocupam o espaço dos antigos líderes partidários.

A propaganda política faz com que os candidatos compulsoriamente, pelo rádio ou pela TV, entrem nos lares das pessoas, para levar sua mensagem. Em tese isso seria benéfico, mas o mau uso está deturpando os bons propósitos.

Assim como Orwell profeticamente previra, uma nova língua tem surgido para mudar o sentido das palavras. Corrupção foi apelidada de “malfeito”. Eis que surge outra novidade, a “desconstrução”, consistente na repetição sistemática de falsidades contra determinado candidato, para reduzir sua aceitação junto ao eleitorado.

O candidato não usa o nobre espaço que lhe é dado para expor suas ideias ou difundir seus méritos, o tempo é usado para denegrir e injuriar o adversário, tudo feito com talento e arte dos tais propagandistas, que se envaidecem com o processo de “desconstrução”. O nome é original, mas a conduta é criminosa.

É um ultraje alguém entrar na sala de visitas de alguém, sem ser convidado, e lá estando postar-se a dizer inverdades e calúnias em relação a outrem. Nunca pensei que, passado tanto tempo, veríamos a democracia ser “desconstruída” de forma tão explícita e deprimente, nem que a política chegasse a esse ponto.

Mas há um dado que, com desconstrução ou sem ela, enche o plenário atual da nação. É a escolha do presidente da República. Entre os dois mais votados no primeiro turno, um deverá ser escolhido. Aécio Neves ou Dilma Rousseff, que pleiteia a reeleição (pois, por indicação do presidente Luiz Inácio, veio a ser eleita presidente do país). Ambos são definitivos e inalteráveis, salvo em caso de morte ou renúncia. Em tais termos, a este cenário assaz restrito, a escolha do presidente está enterreirada.

Ainda neste mês, no domingo, 26, os brasileiros darão o voto decisivo e irrevogável. Espero que o escolhido esteja à altura dos vastos encargos a enfrentar.

Luiz Carlos Mendonça de Barros - Mundo novo, teorias velhas

• Alguns economistas que previram o fim dos tempos com o fim do bônus demográfico devam rever previsões

- Valor Econômico

A edição de 4 de outubro passado da revista "The Economist" traz um encarte de várias páginas com reflexões sobre um novo mercado de trabalho que estaria se formando nas economias do mundo. Ainda com mais traços especulativos do que certezas comprovadas, o desenho que se apresenta ao leitor atento e de mente aberta é muito interessante e desafiador.

Como sempre acontece em mudanças estruturais fortes, que atingem a humanidade de tempos em tempos, a matéria especula sobre quem serão os eventuais ganhadores e perdedores desta vez. Tendo como pano de fundo a comparação com outras mudanças que ocorreram no passado, o centro da matéria é a revolução tecnológica dos últimos anos no domínio da eletrônica e das comunicações via ondas de rádio.

Uma das questões realmente intrigantes da matéria é a parte na qual se constrói um novo "divided" no mercado de trabalho em resposta a essas mudanças. Em resumo, o que se deprende da leitura é que o fosso entre a remuneração dos trabalhadores com qualificação e os sem formação adequada vem aumentando rapidamente nos últimos anos.

Além disto, um novo elemento do lado da oferta de trabalho não qualificada - os robôs - vem ganhando força e limitando os ganhos salariais dos trabalhadores sem uma qualificação adequada. Estas máquinas, que combinam a eletrônica com movimentos mecânicos, já existem há muito tempo, mas o desenvolvimento dos chamados "sensores" está dando aos robôs modernos uma dimensão totalmente nova.

Estes sensores, com uma micro eletrônica de extraordinária capacidade de reação a mudanças de padrões, estão deixando a geração mais antiga destes homens mecânicos muito para trás. Os atuais, com sensores de última geração, desenvolveram características quase humanas e têm hoje a capacidade de sentir mudanças sutis, de cheirar, de enxergar e de enviar comandos para a área de produção.

A matéria da "The Economist", na segunda parte, volta suas reflexões para os efeitos destas mudanças sobre o mercado de trabalho. Basicamente as conclusões que podemos chegar de sua leitura são duas:

• essa nova geração de robôs vai intensificar a substituição da mão de obra de baixa qualificação ao mudar as fronteiras entre o trabalhador qualificado e o sem as qualificações necessárias para entrar no novo mercado de trabalho;

• por isto, as condições de salário e emprego no segmento dos trabalhadores sem qualificação vão se deteriorar, com salários reais mais baixos e taxas de desemprego mais elevadas. Esse movimento será mais grave nos países emergentes, que usavam a disponibilidade de mão de obra barata para entrar nos mercados dos países mais ricos.

Um dos antídotos contra esse movimento secular de piores condições do mercado de trabalho, será a criação de novos postos de trabalhos em setores que não exijam esta nova super-qualificação profissional. Um exemplo deste movimento eu vivenciei na China, ao ler em um diário de Pequim um anúncio da "Starbucks", que inaugurava naquele dia 100 lojas no país.

O outro movimento secular que atinge hoje o mundo desenvolvido e alguns dos países emergentes - a redução no crescimento populacional - agirá também no sentido de minorar os efeitos destas mudanças. Com menor crescimento da população haverá uma redução na oferta de mão de obra não qualificada, o que deve facilitar o reequilíbrio do mercado de trabalho.

Volto agora ao domínio das finanças, depois desta visita ao futuro do mercado de trabalho. A maioria dos analistas de conjuntura não incorporam mudanças estruturais como esta, que ocorrem no domínio da economia, às suas leituras. E estão certos em agir assim, pois trabalham com um horizonte de tempo curto demais para levar em conta o longo prazo. Por isto, quando o longo prazo chega e passa a afetar o mundo financeiro, os erros de previsão podem ser grandes.

Como agora, com a aposta de 90% do mercado - cifra de uma pesquisa recentíssima do "Financial Times" - de que com os juros baixos nos Estados Unidos a inflação de salários iria voltar e o Fed teria que mudar sua política de juros mais cedo do que suas previsões. Nada disto ocorreu, pois mesmo com a economia americana voltando a crescer perto do potencial, os salários médios continuam bem comportados. Talvez os Estados Unidos estejam vivendo já a nova dinâmica que foi citada na matéria da "The Economist". Mas, certamente, enquanto isto não é provado o Fed não vai ter pressa para aumentar o rigor de sua política monetária. Prefere errar, no sentido de que este novo mercado de trabalho não existe ainda, e correr atrás do prejuízo de uma inflação de salários revivida.

Finalmente, gostaria de ligar a matéria da "Economist" à questão do chamado bônus populacional e seus efeitos no futuro, quando a população brasileira terá envelhecido. Alguns economistas já gastaram muita tinta prevendo o fim dos tempos em 2025 quando o bônus populacional de hoje tiver acabado. Talvez devam repensar suas previsões de muitas dificuldades e ver isto como um mecanismo compensatório do nível de emprego menor no futuro.

Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações.

Marisa Monte e Monarco - Volta

Fernando Pessoa - Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.

domingo, 19 de outubro de 2014

Opinião do dia - Rubens Bueno

"Nesses 12 anos, só agora admite desvios na Petrobras? Por que não tomou providências na época? Todos queremos que ela seja responsabilizada por isso. Foi responsável como ministra, como presidente do Conselho, e como presidente da República, que ficou ao longo do tempo blindando de toda a forma as investigações. "

Líder do PPS na Câmara dos Deputados, Rubens Bueno

Aécio cobra posição de Dilma sobre denúncias de Paulo Roberto Costa

• Em caminhada na orla de Copacabana, tucano considerou uma 'evolução' a petista admitir desvio de recursos na Petrobrás

Luciana Nunes Leal - O Estado de S. Paulo

RIO - Em entrevista antes de iniciar uma caminhada pela orla de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse que a adversária Dilma Rousseff (PT) "evoluiu" ao admitir desvio de recursos na Petrobrás, mas cobrou manifestação da presidente diante das denúncias do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa de que o tesoureiro do PT João Vaccari recebia dinheiro do esquema montado na empresa, que envolvia partidos e empreiteiras.

"É uma evolução, um avanço. Era isso (reconhecer o desvio) que eu cobrava dela (Dilma) em todos os debates. Quando lutamos para a abertura da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito), diziam que era um grande factoide. Reconheço que é um avanço da presidente admitir o que aconteceu, talvez um pouco tarde. Não vi até agora manifestação da presidente sobre o fato de o tesoureiro ter recebido(recursos desviados)", afirmou o tucano.

Apesar de as denúncias de corrupção na Petrobrás terem sido tema recorrente de Aécio nos debates, o tucano fez um "convite" a Dilma para que, na última semana de campanha, sejam debatidas ideias e propostas.

"Quero fazer um convite à nossa adversária para que possamos debater propostas, debater o que nos separa. Sou de uma escola política em que as ideias devem brigar, e não as pessoas", declarou o candidato.

Aécio pediu empenho dos aliados na reta final da campanha e acusou o PT de contratar cabos eleitorais no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, para espalhar "boatos" sobre o fim do Bolsa Família em caso de vitória do PSDB.

Aécio reuniu para a caminhada em Copacabana o senador eleito José Serra (PSDB-SP), deputados de vários partidos, artistas como Ney Latorraca e Maitê Proença, o técnico de vôlei Bernardinho, o ex-jogador Ronaldo, entre outros.

Andréa Neves. Na concentração para a caminhada na orla de Copacabana, a irmã do tucano, Andréa Neves, que esteve no centro dos ataques da presidente Dilma Rousseff ao adversário nos últimos dias, fez um desabafo e disse jamais ter visto campanha "com tamanho ódio" quanto a do PT.

"É uma luta política covarde e desleal. Dados são alterados sem compromisso com a verdade", afirmou Andréa, que se emocionou e quase chorou em rápida entrevista no Forte de Copacabana, antes da caminhada. "Agora cabe a cada um de nós manter o coração mais firme. Essa campanha com tanta infâmia e calúnia patrocinada pelo PT alerta para o que está por trás disso", disse Andréa.

Aécio é acusado por Dilma de ter praticado nepotismo no governo de Minas Gerais ao contratar a irmã e outros parentes. O tucano nega e diz que Andréa fez trabalhos voluntários, sem remuneração.

"Não há nepotismo em Minas Gerais. Em mais de 30 anos de atividade política, nunca vi campanha com tamanho ódio e mentira", afirmou a irmã de Aécio.

Eleito senador em São Paulo, José Serra (PSDB) veio ao Rio para participar da atividade de campanha na Praia de Copacabana e disse que os adversários "estão aflitos e com muito receio de perder".

De acordo com o tucano, em debates futuros Aécio deve seguir o tom da presidente Dilma Rousseff. "Como ele vai se comportar, depende de como o adversário se comporta. Acho que ele deve regular pelo adversário", afirmou o senador eleito.

Serra evitou falar das especulações de que pode ocupar o Ministério das Relações Exteriores em caso de vitória de Aécio. "Primeiro temos que ganhar as eleições", desconversou.

Sobre as eleições de 2010, quando perdeu a disputa presidencial para Dilma, Serra disse que o cenário era diferente do atual. "Em 2010, o então presidente Lula tinha 87% de aprovação e o sentimento não era de mudança", disse o senador eleito ao chegar a Copacabana.

No Rio, Aécio afirma que vai fazer convite a Dilma para cessar ataques e debater propostas

• Candidato disse achar ‘evolução’ e ‘avanço’ a declaração da rival admitindo desvios na Petrobras

Cássio Bruno – O Globo

RIO — Em tom menos agressivo, o candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, disse na manhã deste domingo em uma entrevista coletiva no clube Marimbás, em Copacabana, Zona Sul do Rio, que pretende dedicar a última semana a debater propostas. Dizendo estar "com a alma mais leve", o tucano evitou fazer novos ataques à presidente Dilma Rousseff, que tenta a reeleição pelo PT. A campanha para o segundo turno tem sido marcada por duros embates entre os dois presidenciáveis, e no último debate, promovido por SBT/UOL/Joven Pan, predominou o clima hostil, com intensas acusações dos dois lados.

— Quero nessa última semana fazer aqui um convite a nossa adversária para que nós possamos debater propostas e falar do futuro do Brasil para que os brasileiros conheçam de forma mais clara e profunda aquilo que nos separa — disse Aécio — Sou de uma escola política do meu avô (Tancredo Neves) que diz que quem deve brigar são as ideias, e não as pessoas.

Aécio disse ainda achar uma "evolução" e um"avanço" a atitude da presidente Dilma de admitir desvios de recursos na Petrobras.

— É uma evolução, um avanço. Foi isso que eu cobrei dela em todos os debates. Quando eu pedi uma CPI no Senado, o PT disse que era um factoide. Quantas vezes eu ouvi que o “Aécio Neves queria denegrir a imagem da nossa maior empresa”. Pois bem: as investigações avançaram. A delação premiada mostra a extensão desta rede. Mas é um avanço a presidente pelo menos admitir que isso aconteceu. Talvez um pouco tarde, mas essa admissão é algo positivo — declarou o tucano.

No entanto, o candidato do PSDB cobrou de Dilma alguma atitude em relação ao tesoureiro do PT, João Vacari Neto.

— Não vi nenhuma atitude da presidente em relação àquele que é denunciado pelo delator como receptor da parcela (de dinheiro) que pertencia ao PT, que é o tesoureiro do partido.

Aécio repetiu aos jornalistas que não vai acabar com programas sociais como o Bolsa Família caso seja eleito.

— Tem pessoas pagas pelos nossos adversários que estão andando de porta em porta nas regiões mais pobres do Brasil dizendo que, se eu for eleito, vou acabar com os programas sociais. Isso não é contra nós, isso é falta de generosidade.

Acusada nos últimos debates pela presidente Dilma de ser empregada do governo de Minas na gestão de Aécio, o que configuraria nepotismo, a irmã do tucano Andrea Neves, emocionada, atacou o PT:

— O que me impressiona a nós e a milhões de brasileiros é o absoluto descompromisso com a verdade. Como é que dados são falseados, números são alterados, informações são dadas sem nenhum compromisso com a verdade. Cabe a nós, que estamos próximos ao Aécio, manter o coração firme. Essa campanha tem tanta mentira patrocinada pelo PT que vai acabar alertando a população brasileira — disse Andrea, com voz embargada e negando que vai ter qualquer cargo público caso Aécio seja eleito.

Aécio Neves chegou ao clube acompanhado da mãe, Inês Maria Neves, além de celebridades e políticos. Na lista, a mulher dele, Letícia Weber, os atores Milton Gonçalves, Ney Latorraca e Maitê Proença, o senador Francisco Dornelles (PP), candidato a vice-governador na chapa de Luiz Fernando Pezão (PMDB), o presidente do PPS Roberto Freire, o senador eleito José Serra, o deputado federal Alfredo Sirkis, o deputado federal eleito Indio da Costa, o deputado federal reeleito Otavio Leite, a deputada federal Andreia Zito (PSDB-RJ) a cantora Fafá de Belém, o dançarino Carlinhos de Jesus e o filho do ex-governador Sérgio Cabral, Marco Antônio Cabral.

O tucano participou de uma carreata que não chegou a percorrer toda a orla, na qual estiveram políticos, celebridades, esportistas e dezenas de pessoas vestidas de azul. Ele fez um discurso rápido, em que lembrou do debate na TV Record deste domingo e afirmou que "é hora de tirar o PT do poder". Ele em seguida puxou o hino nacional. No carro, Aécio estava acompanhado de sua mulher, Letícia, do ex-jogador Ronaldo, de José Serra e de Roberto Freire.

Entre os presentes estava o deputado federal reeleito Jair Bolsonaro, o mais votado no estado, e o técnico da seleção brasileira de vôlei Bernardinho. Bolsonaro, que não foi convidado para o evento, pretende entregar duas reivindicações para o candidato à Presidência: baixar a taxa de desemprego e reduzir a exportação de bananas para Cuba.

O objetivo da investida de Aécio no Rio é capitalizar os votos da agora aliada Marina Silva, candidata derrotada do PSB à Presidência. Aécio Neves também está prestes a firmar aliança com o deputado federal Romário (PSB), eleito senador no Rio com 4,6 milhões de votos.

Integrantes do movimento Aezão, criado pelo PMDB fluminense, que apoia a candidatura de Aécio e a reeleição do governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) também estiveram no evento.

Pela primeira vez, Dilma admite desvio na Petrobrás

• Presidente diz que houve, de fato, desvio de recursos na estatal e afirma que governo vai requerer ressarcimento

Nivaldo Souza – O Estado de S. Paulo

A presidente e candidata à reeleição pelo PT, Dilma Rousseff, admitiu neste sábado, 18, que "houve desvio" na Petrobrás, conforme denúncias do ex-diretor da estatal Paulo Roberto Costa. Foi a primeira vez que a presidente confirmou a existência de desvio. A confirmação pela candidata ocorreu durante entrevista coletiva nesta tarde, no Palácio da Alvorada, residência oficial da Presidência. "Se houve desvio de dinheiro público queremos ele de volta. Se houve, não. Houve, viu?", afirmou.

Dilma afirmou também que o governo pretende pedir o ressarcimento de todos os recursos desviados pelo esquema comandado por Costa, com recursos desviados por meio de construtoras para financiar partidos políticos - entre eles, o PT, o PMDB e o PP. "Eu tomarei todas as medidas para ressarcir tudo e todos", disse. "Farei todo o possível para ressarcir o País."

A presidente, contudo, disse que ainda não foi informada sobre valores que poderiam voltar para a estatal em razão da recusa do Supremo Tribunal Federal (STF) de permitir o acesso do governo a detalhes da delação premiada de Costa. "Ninguém sabe o que tem para ser ressarcido, porque os dados mais importantes da delação premiada não foram entregues a nós", disse.

Ao ser questionada sobre se o pagamento de R$ 10 milhões por Costa ao ex-presidente do PSDB, Sérgio Guerra, morto no início deste ano, tiraria dos tucanos a bandeira da ética, ela afirmou que "ninguém está acima de suspeita". "Não acho que ninguém no País tenha a primazia da bandeira da ética. Até o retrospecto do PSDB não lhe dá essa condição. Acho que não dá a partido nenhum", comentou. "Acho que ninguém está acima de qualquer suspeita no Brasil."

Dilma admite desvios no esquema de corrupção da Petrobras: ‘Houve, viu?’

• Referindo-se a Sérgio Guerra, petista defendeu que todos os integrantes de partidos que tenham praticado 'mal feitos' paguem pelos seus atos

Júnia Gama – O Globo

BRASÍLIA — A presidente Dilma Rousseff (PMDB), candidata à reeleição, admitiu neste sábado, pela primeira vez, que houve desvio de dinheiro público no esquema de corrupção na Petrobras citado em depoimentos de delação premiada pelo ex-dirigente da estatal Paulo Roberto Costa e pelo doleiro Alberto Youssef. Em entrevista coletiva no Palácio da Alvorada, Dilma afirmou que faria “o possível” para que os valores desviados sejam devolvidos aos cofres públicos. A presidente também demonstrou que o tom da campanha até o segundo turno da eleição continuará sendo de ataques contra o adversário Aécio Neves (PSDB).

— Eu farei todo o meu possível para ressarcir o país. Se houve desvio de dinheiro público, nós queremos ele de volta. Se houve, não; houve, viu? — afirmou a presidente, que não costuma admitir erros.

Ela, no entanto, disse não saber estimar o valor do desvio.

— Daqui para frente, a não ser que eu seja informada pelo Ministério Público ou pelo juiz, não tenho medida nenhuma a tomar, não é o presidente que processa. Eu tomarei todas as medidas para ressarcir tudo e todos, mas ninguém sabe ainda o que deve ser ressarcido, porque a chamada delação premiada, onde tem os dados mais importantes, não foi entregue a nós. Até eu pedi, como vocês sabem, tanto ao Ministério Público, quanto para o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki, mas ambos disseram que estava sob sigilo — disse Dilma.

Hoje, o órgão regulador do mercado americano, a Segurity Exchange Comission, abriu investigação para saber se o escândalo na Petrobras prejudicou acionistas.

Beneficiado pela delação premiada, Paulo Roberto envolveu políticos do PT, do PMDB e do PP, base aliada do governo. As denúncias começaram a partir da Operação Lava-Jato, deflagrada em março pela Polícia Federal, para investigar um esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado R$ 10 bilhões ilegalmente.

Sobre a citação do ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra, morto em março deste ano, na delação premiada de Paulo Roberto Costa, como receptor de propina para que esvaziasse a CPI da Petrobras em 2009, Dilma disse que não iria “comemorar” o vazamento seletivo, que antes havia atingido apenas partidos da base aliada, inclusive o PT. A presidente defendeu que todos os integrantes de partidos que tenha praticado “mal feitos” têm de pagar.

— É interessante notar que os vazamentos seletivos acontecem para todos os lados. Isso não é bom, não vou aqui comemorar nada, Só acho que o pau que bate em Chico, bate em Francisco. Essa é uma lei, né? pontuou Dilma.

— Não acho que alguém no Brasil tenha a primazia da bandeira da ética. O retrospecto do PSDB não lhe dá essa condição, acho que não dá a partido nenhum. Todos os integrantes de partido que tenham cometido crime, delito, mal feito, têm de pagar por isso. Ninguém está acima de qualquer suspeita no Brasil. — completou.

De acordo com o jornal “O Estado de S.Paulo”, Paulo Roberto afirmou na delação que o esquema de corrupção na estatal repassou R$ 1 milhão à campanha da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), em 2010. O marido da senadora, o atual ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, e na época ministro de Planejamento, Orçamento e Gestão do governo Lula, foi quem teria recebido o dinheiro.

'Não é uma fala correta para mulheres'
Questionada se pretende amenizar os ataques contra o adversário tucano após ações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e críticas nos bastidores de integrantes da Corte em relação ao tom bélico da campanha, a presidente negou que o TSE tenha feito qualquer intervenção em sua campanha, alegando que as ações ainda não foram julgadas e, apesar de dizer que o baixo nível deve ser “superado”, deu demonstrações de que devem prevalecer os ataques a Aécio Neves nessa reta final.

— Eu não concordo que o TSE teve qualquer intervenção na minha campanha. Gostaria de saber onde e quando. Acho que isso ainda será julgado. Eu acredito que o que é baixo nível da campanha é algo que deve ser completamente superado — disse Dilma.

A presidente se referiu ainda ao fato de Aécio Neves estar processando a presidente por difamação, calúnia e injúria por propaganda na qual diz que o tucano não respeita as mulheres. Dilma afirmou, na coletiva, que Aécio teria sido desrespeitoso com a presidente e com Luciana Genro, candidata do PSOL derrotada no primeiro turno, por tê-las chamado de “levianas”.

— É óbvio que tem de ter discussão, aí o candidato adversário não gosta muito e passa para atitudes um tanto quanto desrespeitosas, foram desrespeitosas comigo e com a Luciana Genro. Ele pode inclusive querer processar, mas quem devia querer processar somos nós, porque a nós duas ele chamou de leviana, coisa que não se faz. Não é uma fala correta para mulheres — disse Dilma.

Palanques no Rio
Quanto à sua participação nos palanques dos dois candidatos ao governo do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (PMDB) e Marcelo Crivella (PRB), Dilma afirmou ter uma “relação especial” com ambos:

– Tenho em relação aos dois uma situação muito específica. Com Pezão fiz talvez a parceria mais estreita que o governo federal fez com um governo local. Tenho admiração sincera e acho ele um excepcional gestor, além de uma pessoa excepcional também. Em relação ao Crivella, tenho a mesma opinião, ele foi meu ministro da Pesca, sei a dedicação do Crivella. Se alguém tirou e deixou um legado para continuar tirando a Pesca do anonimato no Brasil, tornando-a um dos setores fundamentais, foi o Crivella. Tenho em relação a ambos uma relação especial – afirmou a presidente.

No 1º turno, ataques de Dilma a Marina
Apesar de agora criticar na sua propaganda política o candidato Aécio Neves (PSDB) por desrespeitar as mulheres, a candidata Dilma Rousseff (PT) e sua equipe de campanha recorreram à tática do ataque à ex-candidata do PSB, Marina Silva, no primeiro turno. Faltando pouco mais de 20 dias para a votação, Marina se queixou publicamente das mentiras que tinham sido espalhadas contra ela e prometeu não atacar “uma mulher”. Como resposta, Dilma disse que "coitadinho" não poderia ocupar o mais alto cargo do país.

— Tem de segurar a crítica, sim. O Twitter é o de menos (referindo-se a críticas nas redes sociais). O problema são pressões de outra envergadura que aparecem e que, se você não tem coluna vertebral, você não segura. Não tem coitadinho na Presidência. Quem vai para a Presidência não é coitadinho, porque, se se sente coitadinho, não pode chegar lá — afirmou Dilma.

Delator diz que pagou R$ 1 mi a ex-ministra

• Dinheiro foi para campanha de Gleisi Hoffmann em 2010, afirma jornal

• Parlamentares teriam recebido até R$ 150 mil por mês de empresas que tinham negócios na Petrobras, diz revista

- Folha de S. Paulo

SÃO PAULO, BRASÍLIA - O ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa disse ao Ministério Público Federal que o esquema de corrupção na empresa estatal repassou R$ 1 milhão para a campanha da ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR) ao Senado nas eleições de 2010, segundo o jornal "O Estado de S. Paulo".

Eleita para o Senado naquele ano, Gleisi licenciou-se para assumir o cargo de ministra-chefe da Casa Civil com a posse da presidente Dilma Rousseff. Nas eleições deste ano, Gleisi concorreu ao governo do Paraná e terminou a disputa em terceiro lugar.

Segundo o jornal, Costa disse que a campanha de Gleisi recebeu ajuda a pedido do doleiro Alberto Youssef, apontado como operador de um esquema que teria desviado recursos da Petrobras para partidos políticos.

Pegos na Operação Lava Jato, os dois estão colaborando com as autoridades em troca de redução de suas penas.

Youssef era parceiro do deputado federal André Vargas, que fazia parte do mesmo grupo político de Gleisi e do marido, o ministro das Comunicações, Paulo Bernardo. Vargas deixou o PT este ano depois que veio a público o seu envolvimento com o doleiro.

A senadora afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, que não conhece Alberto Youssef nem Paulo Roberto Costa, e que todas as doações para sua campanha estão na prestação de contas entregue à Justiça Eleitoral.

Segundo o jornal, Costa afirmou às autoridades que o repasse de R$ 1 milhão à campanha de Gleisi pode ser comprovado por anotações em sua agenda pessoal, apreendida pela Polícia Federal.

Paulo Bernardo afirmou que não conhece Youssef. "Chance zero de Youssef pedir para fazer uma doação para Gleisi", disse. "Ele não a conhece e não me conhece. A troco de quê vai fazer isso?"

Mesada
Reportagem publicada pela revista "Veja" na edição que chegou às bancas neste sábado (18) afirma que Youssef listou em seus depoimentos os nomes de 28 congressistas que receberam propina paga por empreiteiras que trabalham para a Petrobras.

Os valores iam de R$ 100 mil a R$ 150 mil mensais, a depender da importância do político. Costa apontou governadores, deputados e senadores como beneficiários de desvios de recursos da Petrobras.

Segundo Paulo Roberto Costa e Youssef, os contratos da Petrobras eram superfaturados e os políticos recebiam de 1% a 3% de propina, conforme a área da empresa.

Os dois delatores disseram que o esquema irrigou os cofres do PT e de outros dois partidos governistas, o PMDB e o PP, que controlaram postos-chave na estatal no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e no início do governo Dilma.

Em um dos seus depoimentos, Paulo Roberto Costa disse que repassou propina também ao ex-presidente do PSDB Sérgio Guerra, morto em março deste ano, para que ajudasse a esvaziar uma CPI criada pelo Senado em 2009.

‘É uma confissão de culpa’, diz coordenador da campanha do PSDB sobre declaração de Dilma

• Oposição vê declaração da presidente como um reconhecimento tardio de que escândalo ocorreu

Evandro Éboli, Junia Gama e André de Souza – O Globo

BRASÍLIA — A oposição entendeu que as declarações da presidente Dilma Rousseff sobre a crise na Petrobras é um reconhecimento tardio da presidente sobre o escândalo que atinge a estatal. O coordenador da campanha do senador Aécio Neves (PSDB), o também senador Agripino Maia (DEM-RN), classificou a afirmação de Dilma como uma confissão de culpa. Para ele, a presidente reconheceu a corrupção somente agora por uma questão eleitoral.

— É uma confissão de culpa do petismo em relação à Petrobras. Todos os posicionamentos do governo e da presidente em relação a esse tema são sempre tardios, como foi a demissão de Paulo Roberto Costa. Demissão que se deu nos termos que o Brasil inteiro sabe, com o reconhecimento dos grandes serviços prestados por ele — disse Agripino Maia. — Até hoje, os fatos relatados não foram objeto de providências enérgicas do governo. Somente agora, às vésperas das eleições é que a presidente está reconhecendo o dolo praticado pelo petismo. Tudo isso tem um sentido eleitoral, é claro — completou.

O deputado Rubens Bueno (PPS-PR) criticou Dilma, dizendo que as declarações dela vieram após anos e anos de desvios bilionários na Petrobras. Ele cobrou que a presidente seja responsabilizada, lembrando que, ao longo dos últimas 12 anos, ela teve alguma ligação com a estatal, seja como ministra de Minas e Energia, ministra da Casa Civil, presidente do Conselho de Administração da Petrobras, ou presidente da República.

— Nesses 12 anos, só agora admite desvios na Petrobras? Por que não tomou providências na época? Todos queremos que ela seja responsabilizada por isso. Foi responsável como ministra, como presidente do Conselho, e como presidente da República, que ficou ao longo do tempo blindando de toda a forma as investigações — disse Bueno.

O ex-governador de São Paulo Alberto Goldman, coordenador da campanha tucana no estado, disse que a candidata Dilma Rousseff demorou a admitir os desvios na Petrobras.

— Demorou para falar e só falou depois que foi cobrada várias vezes por Aécio para que reconhecesse o episódio. Agora ela vai ressarcir o país como? Como? — questionou Goldman.
O líder do PSDB na Câmara, Antônio Imbassahy (BA), afirmou que o reconhecimento de Dilma de que ocorreu corrupção da Petrobras não exime a presidente de responsabilidade. Para ele, o PT se especializou em corrupção.

— Ela declarar isso agora não isenta a presidente da responsabilidade, principalmente as que envolve todas as falcatruas que aconteceram na Petrobras. Até porque ela presidiu o conselho da empresa e sempre se arvorou em anunciar que tinha o controle total de tudo que ali acontecia. Nenhum brasileiro minimamente informado acredita na declaração que ela deu alguns dias atrás, dizendo que não sabia de nada. É uma esperteza na véspera de uma eleição, que vai consagrar o fim melancólico de um governo e da decadência de um partido que abandonou suas bandeiras e se especializou em corrupção — disse Imbassahy.

O coordenador da campanha de Marina Silva, Walter Feldman, afirmou que o fato de Dilma Rousseff ter admitido que houve desvio de dinheiro em esquema de corrupção na Petrobras seria devido à impossibilidade de negar fatos “evidentes”. Feldman disse ainda que a petista vive um momento de “confusão”, por defender o combate à corrupção como candidata, mas não tê-la combatido como presidente.

— O primeiro ponto é que é impossível negar um fato tão evidente. A Petrobras se transformou no segundo sistema de mensalão da história brasileira. Seria muito estranho um dirigente negar fatos tão evidentes. Agora, há uma tentativa de mostrar que ela tem algum envolvimento com o combate à corrupção, que ela diz fazer como candidata, mas que não fez como presidente. A presidente Dilma vive um momento confuso existencial: ela não sabe se age como candidata ou como presidente — afirmou Feldman.

O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PE), discordou dessa avaliação.
— A presidente Dilma não está fazendo confissão de culpa alguma. Seria se ela tivesse alguma participação nisso, o que não ocorreu. As investigações estão sendo feitas e a presidente acionou a Polícia Federal, há vários inquéritos em curso e o caso está também na CGU (Controladoria Geral da União). Não é confissão de nada — disse Humberto Costa.

A coordenação jurídica da coligação de Aécio Neves apresentou neste sábado na Procuradoria Geral Eleitoral uma representação pedindo abertura de processo contra a Dilma pela veiculação de um filmete acusando Aécio de desrespeitar mulheres. Em entrevista coletiva, a presidente disse que Aécio a teria desrespeitado por tê-la chamado de “leviana” em um debate televisivo, assim como à candidata do PSOL Luciana Genro, derrotada no primeiro turno. Dilma afirmou tratar-se de uma fala que não seria “correta para mulheres".

Essa tentativa de Dilma de criar um embate de gênero com o candidato Aécio Neves (PSDB) provocou indignação em pessoas próximas a Marina, candidata derrotada no primeiro turno e que agora apoia o tucano. Auxiliares de Marina afirmam que a campanha petista está mirando os votos femininos que foram para a ex-senadora no primeiro turno e, para isso, tentam construir uma imagem de Aécio como antagonista dos direitos das mulheres.

— Vir agora com uma posição de vítima por ter ouvido o que todos os brasileiros pensam dela é mais uma vez tentar mudar a realidade. Se tem algo que ela não pode chamar para si é o fato de ser mulher, até porque ela nunca aplicou. Isso é queixa dos próprios auxiliares dela, que dizem que ela é grossa, deselegante e insensível no trato — afirma Walter Feldman.

— Esse embate de gênero só faz sentido na cabeça dela. Como eles não têm limites, tentam explorar isso. Quem é vítima de Dilma são todos os brasileiros, homens e mulheres, que acreditaram que ela, por ser mulher, teria uma gestão mais sensível aos problemas e diferenças do país. Ela tem se mostrado a figura mais autoritária à frente de um governo, superando qualquer homem — completou Feldman.

— Se for homem, pode ser leviano; se for mulher, não pode? É estranho tentar polarizar o debate dessa forma.

No ponto mais baixo da campanha, Lula comanda show de baixarias em Minas

• Ex-presidente insinua que Aécio bate em mulheres. E credita ao tucano a tática de 'partir para cima agredindo'. Comício teve menção ao uso de drogas

Gabriel Castro - Veja

BELO HORIZONTE - Em um comício realizado em Belo Horizonte neste sábado - sem a presença de Dilma Rousseff -, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ultrapassou os limites da inconsequência e comandou um show de baixarias e ofensas desmedidas contra Aécio Neves. Foi o ponto mais baixo da campanha até aqui. E não apenas desta campanha: desde 1989 o Brasil não assistia a um festival de ataques como os que o PT hoje protagoniza em uma campanha. Lula não apenas se utiliza das mesmas armas de que foi alvo na campanha contra Collor, como vai ainda mais longe. No comício, o ex-presidente citou o nome de Aécio muito mais que o de Dilma, que se tornou personagem secundário dos discursos. A ordem era atacar, sem tréguas.

Em um discurso precedido por insultos pessoais ao tucano, Lula disse que Aécio usa violência contra as mulheres, por "experiência de vida", e a tática de "partir para cima agredindo". Ao comentar a estratégia do tucano contra Dilma Rousseff, o ex-presidente insinuou que Aécio costuma bater em mulheres. "A tática dele é a seguinte: vou partir para a agressão. Meu negócio com mulher é partir para cima agredindo", afirmou Lula. O ex-presidente também classificou Aécio de "filhinho de papai" e "vingativo". E o comparou a Fernando Collor. O mesmo Fernando Collor que hoje divide palanques com Dilma, como há uma semana, em Alagoas. Lula ainda voltou a mencionar o episódio em que o adversário deixou de soprar o bafômetro em uma bliz no Rio de Janeiro.

O ato deste sábado deixou claro que a tática do PT na reta final da campanha, após o revés de Dilma Rousseff no debate do SBT, na quinta-feira, será a de expor a presidente Dilma como uma vítima das "grosserias" de Aécio. Foi o que fez Lula neste sábado. "O comportamento dele não é o comportamento de um candidato (...) . É o comportamento de um filhinho de papai que sempre acha que os outros têm de fazer tudo para ele, que olha com nariz empinado. Eu não sei se ele teria coragem de ser tão grosseiro se o adversário dele fosse um homem", disse o presidente.

O ex-presidente comparou Aécio a Fernando Collor porque, segundo ele, a eleição do ex-presidente (aliado do PT) foi fruto da pressão da mídia e de um falso discurso do "novo". "Em 1989, com medo de mim, com medo do Ulysses, do Brizola, com medo do Mário Covas, muitas vezes instigado pela imprensa, este país escolheu o Collor como presidente da República dizendo que era o novo. E vocês sabem o que aconteceu neste país."

Lula também disse que Aécio age como Carlos Lacerda, o estridente líder da oposição a Getúlio Vargas, ao mencionar o "mar de lama" para "esconder o próprio rabo". O petista afirmou que, quando governou Minas Gerais, o tucano perseguiu professores de forma mais intensa do que a ditadura. "Não conheço, em nenhum momento da história, nem no regime militar, um momento em que os professores foram tão perseguidos como foram em Minas Gerais", afirmou Lula. No vale-tudo, Lula tentou até subverter o tempo: indagou o que Aécio fazia quando Dilma foi presa por enfrentar a ditadura - ignorando que, na época, o tucano tinha apenas dez anos de idade.

Inacreditavelmente, Lula tentou definir o adversário com uma frase que resume de forma precisa a tática do PT: "É muito grave, porque as pessoas se acham no direito de desrespeitar os outros com muita facilidade e depois ir para a imprensa se passar de vítima. Não é possível."

Mais ataques - Mais cedo, antes de Lula entrar no palanque, o mestre de cerimônias do comício leu uma carta de uma psicóloga petista que atribui a Aécio a prática de espancar mulheres e de uso de drogas, além de classificá-lo como "ser desprezível", "cafajeste" e "playboy mimado". Ela afirma que o tucano tem um "transtorno mental".

Depois, o rapper Flávio Renegado, que discursou já na presença de Lula, do governador eleito Fernando Pimentel e de parlamentares petistas, disse que Aécio costumava fazer festinhas regadas a "pó royal", uma gíria para cocaína. Durante o discurso de Lula, grande parte da militância presente emplacou um grito de "Aécio cheirador", sob a complacência de Lula - o mesmo que, minutos antes, se orgulhara de nunca ter agido de forma desrespeitosa em nenhuma das campanhas eleitorais das quais participou.

Candidato a vice, Aloysio Nunes critica ataques de Lula a Aécio

• Líder petista comparou candidato tucano à Presidência a Fernando Collor e Carlos Lacerda

- O Estado de S. Paulo

O candidato a vice-presidente pelo PSDB, Aloysio Nunes Ferreira, criticou os ataques feitos ao companheiro de chapa, Aécio Neves, pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Por meio de nota, Aloysio afirmou que o petista "dá as mais baixas declarações em uma campanha presidencial da história”.

Em ato pró-reeleição de Dilma Rousseff (PT), realizado neste sábado em Belo Horizonte, Minas Gerais, Lula fez uma série de ataques pessoais a Aécio Neves e comparou o tucano ao ex-presidente Fernando Collor de Mello. O petista também disse que Aécio se comportou como "filhinho de papai" ao atacar a Dilma durante o debate do SBT, na última quinta-feira. Afirmou ainda que o tucano parece “fidalgo" por ter se recusado a se submeter ao exame do bafômetro ao ser parado por uma blitz em 2011, com a alegação de que não precisaria fazê-lo porque sua carteira de motorista estava vencida. “Bafômetro não é medir carteira de motorista ou não. Bafômetro cheira álcool”, disse.

Na nota, o candidato a vice-presidente pelo PSDB diz que o ataque de Lula é “pior até do que as ofensas que o próprio Lula sofreu em 1989 de Fernando Collor, atualmente seu aliado”. “A explicação para isso vem do desespero pelo risco de o PT perder o poder. Acaba de surgir um novo personagem na política brasileira, falta só definir um nome: Fernando Lula de Melo ou Luiz Inácio Collor da Silva”, afirmou Aloysio.

Por fim, o candidato tucano a vice-presidente pediu esclarecimento sobre as declarações de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobrás, que acusa o PT e outros partidos de receberem propina, e cobrou de Lula “o depoimento sobre o mensalão que a Polícia Federal espera há mais de sete meses." A Polícia Federal informou, em setembro, que tentava, sem sucesso, ouvir o depoimento de Lula, como testemunha, em ação que investiga supostos repasses ilegais da Portugal Telecom para o PT.

A investigação foi aberta a pedido do Ministério Público Federal com base em denúncia do operador do mensalão, Marcos Valério Fernandes de Souza. Em depoimento prestado à Procuradoria-Geral da República em 2012, conforme revelou o Estado na época, Marcos Valério acusou Lula de intermediar pagamento de R$ 7 milhões da telefônica ao partido para pagar dívidas de campanha.

'Não se pode perder a dignidade na política', diz Aécio sobre baixarias petistas

• Candidato tucano voltou neste sábado a convidar a presidente Dilma para um debate de ideias e propostas. Enquanto isso, Lula descia o nível dos ataques

Marcela Mattos - Veja

PORTO ALEGRE - Alvo da campanha de baixarias petista, o candidato do PSDB à Presidência da República, Aécio Neves, voltou neste sábado a convidar a presidente Dilma Rousseff para um debate de ideias e propostas. Em visita a Porto Alegre, o tucano adotou discurso na contramão das apelações protagonizadas pelos adversários e clamou pelo fim do “ringue” na disputa ao Planalto. “Na política, ganhar ou perder as eleições faz parte do jogo. O que não se pode perder na política é a dignidade e a compostura”, afirmou.

Enquanto Aécio fazia o pronunciamento, um comício do diretório mineiro do PT em Belo Horizonte desfilava um repertório de ataques ainda piores do que os de que o próprio Lula foi alvo em 1989. Petistas reduziram ainda mais o nível da campanha e ofenderam o candidato tucano – foram pronunciados xingamentos como "coisa ruim", "cafajeste", "playboy mimado", "moleque" e "desprezível". Ao discursar, Lula insinuou que o adversário agride mulheres costumeiramente e o comparou a Collor. Em meio ao desfile de ofensas, chegou a afirmar que é Aécio quem “parte para cima”.

“Não adianta querer ganhar perdendo. O que os nossos adversários estão fazendo nessa campanha não os dignifica. Eu acho que essa postura já os faz derrotados antes sequer das urnas serem abertas”, afirmou Aécio. “As pessoas querem ouvir as soluções para a saúde, para a segurança pública e para fazermos um Brasil crescer, gerando melhores empregos. Mas eu vejo um governo à beira do desespero, uma candidata à beira de um ataque de nervos e, obviamente não tendo como apresentar ao Brasil uma proposta de futuro, prefere fazer uma campanha com os olhos no retrovisor”, disse. O candidato anunciou que vai ingressar com uma nova ação contra Dilma na Justiça Eleitoral - que tenta, ainda sem sucesso, conter o baixo nível da campanha.

Alianças - Com a bandeira da unificação, Aécio participou de ato multipartidário em Porto Alegre ao lado de representantes de siglas como o PMDB, o PP e o PSB. O tucano defendeu a tese de que não é mais um candidato do PSDB, mas sim representante daqueles que querem um novo governo, e sinalizou que, se eleito, pode convidar nomes dessas legendas para a formação de um “núcleo de governo”. “A minha proposta para o Brasil é absolutamente convergente com aquilo que Marina Silva propôs: no que depender de mim, a base do núcleo do futuro governo está aqui representada, com PSB, PP, PSDB e esse lado tão bom que o PMDB tem representado pelo Rio Grande do Sul.

Diferentemente da aliança nacional, o PMDB gaúcho é oposição a presidente Dilma Rousseff: começou as eleições apoiando Eduardo Campos e Marina Silva, candidatos pelo PSB, e no segundo turno se aliou a Aécio Neves. Na disputa local, o favorito para vencer as eleições contra Tarso Genro (PT) é o peemedebista Ivo Sartori, que tem espalhado pelas ruas fotos ao lado do tucano. “Aqui nós temos um conjunto de forças políticas para dizer que basta de tanto desgoverno e que vamos fazer uma grande parceria para uma gestão da generosidade, da união nacional, do fortalecimento da nossa economia e da geração de empregos”, afirmou Aécio.

Durante ato que lotou o ginásio da Escola de Samba Império da Zona Norte, uma das mais tradicionais do Estado, Aécio foi ungido por diversos parlamentares gaúchos – e ganhou de presente um chimarrão, o qual prontamente tomou no palco. Primeiro a falar, o vice de Marina Silva, Beto Albuquerque (PSB), afirmou que o Brasil não quer mais ser representado por nomes como Fernando Collor (PTB-AL), José Sarney (PMDB-AP) e Jader Barbalho (PMDB-PA) – todos aliados a presidente Dilma – e pediu votos a Aécio. “Eu e Marina fomos ofendidos, vilipendiados por essa turma que não tem mais argumentos para explicar a corrupção no Brasil. Hoje o Aécio não é mais o candidato de um partido ou de uma aliança. É candidato da maioria que quer mudar”, afirmou.

Um dos maiores ícones do PMDB, Pedro Simon também discursou: “Votar na presidente Dilma é uma interrogação cruel. Como ela vai governar se todos os nomes do seu partido estão envolvidos em corrupção?”, questionou. “O Aécio representa a última esperança de paz neste país”, disse.

A esperança contra o ódio - O Estado de S. Paulo / Editorial

Na reta final de uma eleição equilibrada, que vai definir os destinos do País, o mínimo de racionalidade indispensável a uma escolha criteriosa do próximo presidente da República está escoando pelo ralo. Para conquistar votos, candidatos devem ser capazes de falar, sempre honestamente, tanto à razão quanto à emoção dos eleitores. Mas pelo motivo óbvio de que programas de governo lidam com questões objetivas - problemas concretos - a emoção não se pode dissociar da razão na hora de se decidir o voto. Boas causas com dose maior de apelo emocional, como direitos humanos e justiça social, impõem-se porque são, por definição, racionalmente justas, não por serem emocionalmente defensáveis - e exigem soluções racionais.

O marketing, porém, tende a subverter os valores numa campanha eleitoral quando parte do princípio de que os fins justificam os meios. E essa subversão cresce na medida em que aumenta a falta de escrúpulos de candidatos e marqueteiros. Todos sabem o que Collor fez contra Lula na eleição de 1989. Os petistas aprenderam com aquele exemplo e o resultado é que nunca antes na história deste país, como agora, houve tanta apelação e baixaria numa eleição presidencial.

O que se viu no "debate" da quinta-feira no SBT foi deplorável. Por iniciativa de Dilma, o recurso marqueteiro da "desconstrução" do adversário foi reduzido ao mais baixo nível da odiosa demolição de caráter com ataques à honra pessoal do adversário e seus familiares. Não lhe restando opção senão responder à altura, Aécio teve a habilidosa precaução de pedir desculpas aos telespectadores por trazer à luz a nomeação do irmão de Dilma, Igor Rousseff, para um cargo, na Prefeitura de Belo Horizonte, onde recebia sem trabalhar. Faltam ainda dois "debates"!

Nenhum dos candidatos merece medalha de bom comportamento pelo que têm feito e dito nas entrevistas, nos palanques, na propaganda e nos debates. A candidata do PT, no entanto, fiel à convicção que Lula incutiu na mente da companheirada, de que valores éticos e morais são preconceitos "pequeno-burgueses", coisa de "udenistas" e de "babacas", deu carta branca para que seu marqueteiro fizesse "o diabo". E bota diabo nisso, porque a necessidade é premente.

Os petistas proclamam que têm uma proposta política "diferenciada", porque voltada para o interesse e as necessidades da população mais pobre. E por essa razão confrontam as "elites", que só pensam em dinheiro e em explorar os despossuídos. São, portanto, os petistas, gente "do bem", enquanto as elites congregam todos os que são "do mal". E aos paladinos do bem tudo é permitido.

Dividindo os brasileiros entre "nós" e "eles", "bons e maus", "ricos e pobres", inspirada na lógica da luta de classes que ruiu com o Muro de Berlim, o lulopetismo se proclamou detentor do monopólio da virtude e da representação dos fracos e oprimidos. Desde que Lula subiu pela primeira vez no palanque dos metalúrgicos em Vila Euclides, ninguém mais no Brasil tem legitimidade para falar em nome dos trabalhadores.

O combustível dessa pretensa luta dos oprimidos contra os opressores comandada pelo PT é o ódio, ardilosamente insuflado com argumentos essencialmente emocionais. Lula ensina as pessoas a odiar porque... são odiadas. É, portanto, um ódio do bem, legítima defesa.

Lula sempre se esmerou em disseminar o ódio. E sempre teve esmerados aprendizes. Provou-o no momento de sua trajetória política em que vislumbrou pela primeira vez a possibilidade real de chegar ao poder, em 2002, e por conveniência eleitoreira travestiu-se, temporariamente, em "Lulinha paz e amor". Durou pouco, até o mensalão.

As agruras do mundo moderno oferecem motivos para que as pessoas se tornem cada vez mais agressivas no relacionamento social cotidiano. É o que se vê nas manifestações de rua, no trânsito, nos campos de futebol. O PT sabe, portanto, que a semente do ódio tem campo fértil para vicejar - e, assim, fez um projeto de poder sustentado na cizânia social.

Lula declarou em junho, quando a campanha eleitoral começava a esquentar: "Em 2002 lutamos para que a esperança vencesse o medo. Agora, é preciso que a esperança vença o ódio". Que assim seja.

No Rio, Aécio conversa com Romário em busca de apoio

• Aliança com senador eleito será anunciada nos próximos dias

Cássio Bruno – O Globo

RIO — O candidato do PSDB à Presidência, Aécio Neves, está perto de conquistar o apoio do deputado federal Romário (PSB), eleito senador com a marca recorde de 4,6 milhões de votos. Os dois conversaram neste sábado e vão anunciar a aliança para o segundo turno nos próximos dias. O ex-jogador é crítico ferrenho do governo da presidente Dilma Rousseff, que tenta a reeleição pelo PT.

Para fechar o acordo, Romário apresentou uma série de propostas a Aécio Neves. Entre elas, a criação de centros de referência de diagnósticos e de tratamento para pessoas com doenças raras e com deficiência física, e mais atenção ao esporte, principalmente ao futebol.

Apelos feitos também ao PMDB
As reivindicações foram as mesmas apresentadas por Romário ao governador Luiz Fernando Pezão, candidato do PMDB à reeleição, em troca de apoio, apesar de o deputado passar toda a campanha centrando ataques ao PMDB e ao ex-governador Sérgio Cabral. No primeiro turno, Romário pediu votos para o candidato derrotado do PT, Lindbergh Farias.

Aécio e Romário já vinham negociando há algumas semanas uma aproximação. O objetivo do tucano é conquistar os eleitores da ex-candidata do PSB Marina Silva nesta reta final de campanha. No estado, Marina ficou em segundo lugar no primeiro turno com 2.592.292 votos. Dilma chegou em primeiro, com 2.971.736. Aécio conquistou 2.249.662.

O PSB fluminense liberou os filiados a apoiarem quem quiserem, tanto para presidente como para governador. Após ser eleito, Romário expôs a crise dentro do partido e afirmou que não teve apoio da legenda na campanha. A aliança com Aécio ganhou mais força depois que Marina aderiu à campanha do tucano.

O candidato do PSDB esteve neste sábado em Porto Alegre, pela manhã, onde afirmou que, caso seja eleito, contará com um núcleo formado pelo PSDB, PSB, PP e pelo “lado bom” do PMDB.

"O baixo nível reflete a desqualifícação dos partidos"

Entrevista - Marco Aurélio Nogueira

• O cientista político diz que a radicalização se deve à crise do sistema partidário e à amplificação de um debate político cada vez mais pobre, feito nas redes sociais

- Revista Época

O cientista político Marco Aurélio Nogueira sentiu na pele a radicalização política destas eleições quando anunciou a seus 751 seguidores no Facebook o voto em Marina Silva (PSB) no primeiro turno. Ainda não fez as contas de quantos amigos perdeu ao tomar partido. "Ouvi mais elogios, mas muitos falaram: "Que decepção!"", diz. Professor de teoria política da Universidade Estadual Paulista (Unesp), ele se prepara agora para perder mais amigos depois de ter assinado um manifesto de intelectuais que se identificam com o rótulo de "esquerda democrática", em apoio à candidatura de Aécio Neves (PSDB). Nogueira já militou no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) e ainda se identifica como "eurocomunista".

ÉPOCA - Por que a polarização política chegou a nível de radicalização destas eleições?
Marco Aurélio Nogueira - É um fato inédito. Depois da ditadura para cá, a que se aproxima mais desta eleição foi a disputa entre Fernando Collor e Lula, em 1989, quando houve muita apelação. Agora, há uma diferença importante: a reverberação. As redes sociais são câmaras de eco que incrementam tudo o que se fala. O barulho de um alfinete se compara a um trovão. O baixo nível do debate também reflete a desquali-ficação dos partidos. Os partidos perderam a capacidade de orientar seus militantes. Não há orientação clara a respeito do que deve ser feito, especialmente quando se tenta pensar a política como um exercício que não é dedicado a destruir o adversário. A política tem uma face nobre. Quem tem condições de impulsionar a face nobre da política são os que estão bem colocados no jogo político: as grandes lideranças, os intelectuais, os partidos. Os partidos deveriam ser canais de agregação de lideranças e intelectuais que pudessem funcionar como educadores cívicos. Mas não atuam assim.

ÉPOCA - É pela falta de qualidade dos quadros políticos?
Nogueira - É devido mais à perda da capacidade de agregação dos quadros que aos quadros individualmente considerados. O ponto nevrálgico dessa discussão são os partidos
políticos, que podem fazer a mediação institucional e associativa. Quem pode organizar a qualidade da política não são os indivíduos. Os partidos precisam ser recriados. Os partidos continuam a ser símbolos que orientam as pessoas. Mas não conseguem mais funcionar como modeladores e organizadores da sociedade - como os partidos comunistas já foram no passado -, porque as pessoas não querem mais ser comandadas. Como eles se recriarão? Não sei. Mas não conseguirão dar esse salto para a frente na base da recuperação de qualquer mentalidade burocrática ou autoritária. Não basta uma direção de fibra de aço.

ÉPOCA - A crise dos partidos não é mundial?
Nogueira - Não é um problema exclusivamente brasileiro. Parte do problema tem a ver com nossa época, em que o eixo passou a ser a individualização, não a associação. Vemos isso naquela propaganda que diz: "O importante é ser você mesmo". Ou seja: vire-se. Faça o melhor da sua parte, que o resto acontecerá por extensão. Isso não é verdade. São necessárias mediações para produzir uma espécie de força coletiva que venha das diferentes individualidades. Ainda não conseguimos resolver bem isso no Brasil. Onde há grandes tradições associativas e maior vida comunitária, como nos Estados Unidos e na Europa, o problema é menor.

ÉPOCA - Após as jornadas de junho, o senhor disse que "nas redes sociais, não há debate democrático" e que, no Brasil, "o debate é movido pelo ódio, mais que pelo bom-senso e pela paixão cívica". Qual é a explicação para isso?
Nogueira - Quando você se comunica com alguém pelas redes, é movido pela explosão, não pela reflexão. Você escreve uma frase de 140 caracteres e aperta uma tecla. O debate político, vivido dessa maneira, fica irremediavelmente empobrecido. Pode-se dizer que isso representa o início de uma nova forma de fazê-lo. Reconheço que há grandes vantagens de rapidez, interação e troca de opiniões. É algo que ainda precisa ser assimilado. Talvez, fora de uma disputa eleitoral, isso ocorra com mais facilidade. Sou freqüentador das redes sociais e já tive boas discussões. Fora da eleição. Na eleição, é quase impossível. Nestas eleições, sob estas circunstâncias, é mais impossível ainda.

ÉPOCA - Quais serão os desdobramentos dessa polarização?
Nogueira - Não acho que o mundo acabará, mas também não vejo nenhuma conseqüência positiva. Um dos piores efeitos da polarização PT-PSDB foi forçar a sociedade a um tensionamento de A contra B, que não produz vida coletiva muito positiva. Além da polarização PT-PSDB, temos a polarização Nordeste-Sudeste, ricos contra pobres. Os partidos contribuíram para isso. Especialmente o PT, porque foi assim que ele se constituiu. Se apresentou sempre como o polo que regeneraria a sociedade pela ascensão dos explorados. O PT amadureceu sem completar o movimento, que seria propor-se a ser partido de toda a sociedade. O PT continua a se apresentar como o partido dos pobres. Inevitavelmente, isso transporta uma polarização social para a política.

ÉPOCA - Uma corrente de cientistas políticos vê a polarização PT-PSDB como positiva, porque organiza o sistema partidário, muito fragmentado. Qual sua opinião?
Nogueira - Se for para corrigir os excessos da fragmentação partidária, é bom que tenhamos uma confluência do sistema para dois polos. Mas isso não resolve o problema da qualidade da polarização. Se cada um dos polos não consegue apresentar aos espectadores o que os diferencia, não sei o que ganhamos com isso. A polarização PT-PSDB não deixou claro o que os diferencia, a não ser na base de uma certa apelação: "Nós somos os pobres, vocês são os ricos", "Nós somos keynesianos, vocês são neoliberais". Para mim, as visões entre PT e PSDB não são tão distintas assim, mas são apresentadas como se fossem completamente divergentes, numa simplificação da discussão substantiva. Onde está o busílis da questão econômica entre PT e PSDB? Na maior ou menor atribuição de peso à regulação estatal. Ao que me consta, o PSDB nunca foi inimigo visceral da regulação estatal. O PT acredita mais na regulação estatal, mas não impediu que o governo Lula continuasse e corrigisse a política econômica do PSDB. No passado, houve a expectativa de uma composição PT-PSDB. Como inimigos mortais puderam cogitar trabalhar juntos? Talvez porque a diferença entre eles não seja tão grande. Talvez porque ela tenha sido artificialmente amplificada.

ÉPOCA - Por que Marina não conseguiu quebrar a polarização?
Nogueira - Ela apanhou demais e não teve condições de fixar sua voz no cenário. Marina caiu do céu como candidata num dia de agosto e não teve tempo de se preparar. Quem tinha o discurso afinado era Eduardo Campos. Ele colocaria na mesa o debate sobre a nova política. E o faria do jeito Eduardo Campos. O jeito Marina é diferente: mais à esquerda, ambientalista, temperamental, com uma linguagem empolada, oscilante, fala uma coisa, depois corrige. Ela é parte integrante de um movimento - a Rede, os verdes, os ecologistas -, de um pessoal que não se cansa de discutir. As conferências de uma hora duram quatro! Eles não param! É um negócio perturbador! Eles procedem pelo consenso, mas um candidato tem de dar respostas num curtíssimo prazo. Marina lançou o programa num dia e, no dia seguinte, já tinha de corrigir. Se eu tentasse extrair da Marina a visão de nova política, perceberia também várias falhas, devido a uma visão um pouco romântica da política e a dificuldades de formulação. Não é verdade que a nova política seja feita pelos melhores. Isso é um papo bobo.

ÉPOCA - Dá para haver terceira via no Brasil?
Nogueira - Vale a pena perguntar se "terceira via" é o modo correto de pensar essa questão. A terceira via, como conceito, é o caminho entre o socialismo e o capitalismo. Podemos traduzir isso como um expediente para quebrar polarizações - uma terceira opção com o que há de melhor no polo A e no polo B. Isso é possível no Brasil. Poderia criar uma dinâmica política e social mais interessante. Mas não vejo a possibilidade desse terceiro polo mediante o surgimento de uma força que não está no cenário e caia do céu. Marina foi uma tentativa disso e mostrou que não tem viabilidade.

ÉPOCA - No primeiro turno, o senhor declarou voto em Marina pelo Facebook. Quantos amigos perdeu por isso?
Nogueira - Ainda não fiz essa conta. Quando você publica uma coisa assim, há dois tipos de manifestação. A grande maioria concorda com você. Faz isso porque é mais fácil, não quer atrito, gosta de você ou não tem tempo para desenvolver uma contestação. Ouvi muito mais elogios. Mas muitos falaram: "Que decepção!". Assinei um manifesto em favor de Aécio - e continuo de esquerda. O manifesto é de pessoas de esquerda que não são revolucionárias ou adeptas da luta de classes, mas formam uma esquerda democrática. Quantos amigos perderei? Se pegar o povo da universidade, a maioria é petista. Perderei muitos amigos, mas não tenho objeção a isso. A vida tem de ser calculada levando em conta as perdas e os ganhos (risos).