domingo, 23 de novembro de 2014

Fernando Gabeira - Macunadilma

- O Globo / Segundo Caderno

Dois dias depois do Juízo Final, fui nadar como de costume. Um grupo de torcedores do Flamengo desceu do ônibus e bloqueou o passeio. Eram do Espírito Santo, vieram num ônibus especial. Um deles me olhou com raiva e disse que eu tinha cara de vascaíno. Ele vestia uma camisa vermelha e preta com o símbolo da Alemanha. Um alemão me aporrinhando, pensei, e deixei para cuidar disso, como faço com toda irritação matinal, depois dos 400 metros na água.

A ideia da divisão emergiu na minha cabeça. Estamos divididos. O olhar que me lançou era um olhar de desdém ao vascaíno. O outro dele era o vascaíno com uma série de defeitos que se atribui a ele. Eu mesmo, ao pensar num alemão, no sentido em que se usa nos morros do Rio, fortalecia a ideia de divisão, entre mim e o outro, nós e eles. Passamos por uma campanha eleitoral pesada. O outro do petista era o tucano e vice-versa. Todos falamos em superar a divisão, depois de outubro, e achar sai ; das para os grandes problemas nacionais.

Entre o lugar onde estamos agora e a ilha onde nos reconciliaremos há um oceano de petróleo, na verdade um petrolão, o maior escândalo de nossa História. .

Dilma afirmou na Austrália que seu governo foi o primeiro a combater a corrupção. Jogou o Lula na fogueira, tentando, como um canguru, driblar a tempestade que a ameaça.

Dilma não quis investigar. O que apareceu no escândalo surgiu de um trabalho autônomo da polícia e da Justiça.

Nesse período, Dilma brincou de esconde-esconde. Orientou sua base a boicotar a CPI. Abriu-se um inquérito na Petrobras para apurar denúncias de suborno na compra de plataformas, e constatou-se que nada houve de errado, inocentes. Na Holanda, a empresa SBM confessou ao governo de seu país que pagou US$ 139 milhões a diretores da Petrobras.

Milhões pra cá, milhões pra lá, um diretor indicado pelo partido na cadeia, o tesoureiro do partido denunciado na delação premiada, a cunhada do tesoureiro levada à PF, tudo isso acontecendo, Dilma e o PT fazem cara de paisagem, como se não fosse com eles.

Nos depoimentos até agora, mais de R$ 200 milhões foram entregues ao homem do PT na Petrobras. O homem é amigo do tesoureiro. Talvez Dilma acredite que esse dinheiro todo foi doado à Africa para combater o surto do ebola. Mas a lógica indica que tenha sido usado nas campanhas políticas. Campanhas caras, de líderes e postes, estes mais caros ainda, porque demandam profissionais para redesenhá-los da cabeça aos pés, passando, naturalmente, pelo cérebro.

Estamos entrando numa tempestade, e a única forma de atravessá-la é admitir as evidências e aceitar que o bloco no poder assaltou a Petrobras. Isto vale também para as empresas. Os advogados vão orientá-las a negar, embora já existam tantos depoimentos incisivos. No exterior, o conselho óbvio seria admitir o erro, pagar por ele, reformular sua estratégia. A visão macunaímica de que não importam os fatos, mas sim as versões, certamente será superada pelo realismo.

O bloco no poder pensou que isso poderia ser apenas do tamanho do mensalão. Ignorou que estava assaltando uma empresa com vínculos internacionais. Investigam na Holanda, nos Estados Unidos: o cerco está fechado. Dilma e o PT não perceberiam que estão no fim da linha. E acabaram de ganhar as eleições. Será preciso muita humildade para sobreviver.

E isso não é o forte de quem quer dobrar a aritmética nas contas públicas, esconde o salto de 122% no desmatamento da Amazônia, põe para baixo do tapete números da redução da miséria.

Tudo por um modelo que preserva o emprego, dizia Dilma. Enquanto isso, 30.283 pessoas perderam seus postos de trabalho no mês em que ela se reelegeu. E como não bastasse o domínio dos números, querem o domínio das mentes: o ministro da Justiça diz à oposição como ela deve se comportar diante do escândalo. Todo um complexo político-empresarial que atrasa o Brasil foi por terra no dia do Juízo Pinai. Nem precisava de um impulso tão grande: estava podre,

Quando Dilma se distanciou, olimpicamente, do escândalo da Petrobras, lembrei-me do primeiro artigo que escrevi sobre o tema: "Passa passa Pasadena, quero ver passar". Era o seu título. E veio o petrolão como uma onda gigantesca.

Dilma aprovou a compra de Pasadena "sem ter os dados" Isso cola no Brasil. Nos Estados Unidos, onde a negociata está sendo investigada, a responsabilidade alcança também os dirigentes. Ao se distanciar do escândalo da Petrobras, Dilma parece acreditar que nasceu de novo nas eleições e vai enfrentar a tempestade com guarda-chuva e galochas do marketing.

Vai se molhar. Há uma crise econômica pela frente. Investidores estrangeiros observam cautelosos. Precisamos deles, inclusive no pré-sal. Não dá para enganar mais e erguer o punho cerrado entrando na cadeia. Já era patética a performance de José Dirceu no mensalão. No petrolão, seria um gesto, num certo sentido, libertador: sair dali para uma clínica psiquiátrica.

Dora Kramer - Alegação esfarrapada

- O Estado de S. Paulo

A tese de defesa das empreiteiras pegas na Operação Lava Jato de que foram vítimas de extorsão no esquema de ilícitos que sangrou a Petrobrás é frequentadora assídua do noticiário sobre escândalos de corrupção.

Os advogados buscam refúgio na mesma alegação esfarrapada de políticos que, flagrados diante do indefensável, transferem a culpa de seus atos para os defeitos do sistema. Quem resume a ópera desta vez é o defensor do lobista Fernando Soares: "Não se põe um paralelepípedo no chão sem acerto". Só se faz obra com pagamento de propina e composição ilícita com políticos, diz ele.

Na Petrobrás e certamente em outras estatais, bem como nas instâncias estaduais e municipais Brasil afora. É o que ele traduz como "cultura do País".

No mundo político, quando surge o assunto o costume é transferir a responsabilidade das malfeitorias para o sistema político, partidário e eleitoral, saindo-se em seguida na defesa veemente da "urgente" reforma política sem a qual não será possível resolver nada. E, como vemos há anos, ninguém se mexe para resolver nada.

Inclusive porque o problema não está na reforma das regras, mas na mudança de procedimento das pessoas.

Os políticos alegam que o sistema os obriga a buscar muito dinheiro junto a empresas que, por sua vez, ficam credoras das doações de campanha cobradas depois na forma de favores durante o exercício dos mandatos.

Já as empresas justificam que só conseguem contratos se aceitarem acordos escusos com funcionários e políticos aboletados na máquina loteada.

Funciona assim e ficam todos muito felizes e bem acomodados até que estouram os escândalos. E aí a culpa é do sistema. Ora, e quem põe o sistema para funcionar? As pessoas que dele participam. A tese da extorsão não é crível pela simples razão de que nenhum dos sócios desses tipos de "clubes" saiu perdendo com os negócios.

Gastaram rios de dinheiro com o pagamento das propinas, mas compensaram o que seria um prejuízo superfaturando o valor dos contratos. Então, por favor, vamos ter claro um fato: os únicos prejudicados foram os cidadãos desavisados. Todos eles sabiam perfeitamente que transitavam pelo terreno da mais absoluta e deslavada ilegalidade.

Quando a coisa fica difícil, ficam todos com carinha de anjos de candura amarrados pela cintura. Mas, assim como fez o então procurador-geral da República Antonio Fernando de Souza no caso do mensalão, o atual, Rodrigo Janot, já transmitiu o recado: "Vamos combinar que nessa situação não existem idiotas nem patetas. Ninguém é obrigado a aceitar e ganhar dinheiro com atividade ilícita".

É isso. A quem não quer participar é dada a prerrogativa de ficar de fora ou denunciar.

Corda bamba. A possibilidade da ida de Joaquim Levy para a Fazenda contemplaria a ideia do ex-presidente Lula de resgatar a confiabilidade nos fundamentos da estabilidade econômica. O governo põe isso em questão ao adiar sem explicação o anúncio da nova equipe.

Ademais, no processo de escolha do novo ministro, sob o aspecto político ficou um fio solto. Há uma regra básica no ritual de convites feitos a possíveis ministros: são cercados de discrição, precedidos de sondagens e divulgados após a certeza de que serão aceitos, a fim de não expor a constrangimento a figura presidencial.

Pois no caso do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, ocorreu justamente o contrário: o governo fez questão de dar à dupla recusa um tom de estardalhaço.

Ficou parecendo que o setor privado quer distância do governo. Se houve profissionalismo de inspiração maquiavélica, poderia sugerir intenção de queimar indicação assinada por Lula. Caso seja esta uma hipótese excessivamente conspiratória, deu-se um episódio de atrapalhado amadorismo.

Luiz Carlos Azedo - Não conformidades

• A cúpula da Petrobras resolveu entregar as cabeças da antiga diretoria e arrepiar nos escalões inferiores da empresa, mas surgem outros descalabros

- Correio Braziliense

Por mais que a presidente Dilma Rousseff diga que seu governo é que está investigando o escândalo da Petrobras e que tudo fará para que os culpados sejam punidos, doa em quem doer, até agora tudo o que o Palácio do Planalto fez em relação ao descalabro foi minimizar, postergar e tentar manter a atual presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, a salvo dos desgastes da Operação Lava-Jato.

A presidente da Petrobras não viu ou omitiu que sabia o que estava acontecendo. Pelo volume das operações atípicas, segundo o relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), só um executivo autista não perceberia a quantidade de zeros que estava sendo movimentada de forma estranha: R$ 23,7 bilhões, entre 2011 e 2014. Ao todo, o Coaf produziu 108 relatórios com alertas de possíveis irregularidades nas movimentações financeiras do doleiro Alberto Yousseff, do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto da Costa e das empreiteiras acusadas de fraudes em contratos com a estatal.

Somente agora foi divulgado pela cúpula da Petrobras o relatório da Comissão Interna de Apuração que investigou as irregularidades na escandalosa compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, concluído somente em 24 de outubro. À época, a presidente Dilma comandava o Conselho de Administração da empresa e, segundo disse em nota sobre o assunto, fora induzida a aprovar a operação por um relatório do ex-diretor Nestor Cerveró, que omitia informações importantes e que certamente a levariam à rejeição do negócio.

Depois de a presidente da República tirar o gênio da garrafa nesse caso de Pasadena, que estava sendo apurado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), houve um alto lá do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o governo começou uma “operação abafa”, que ainda está em curso no Congresso, para impedir que o caso fosse apurado por uma comissão parlamentar mista de inquérito. O envolvimento de grande número de políticos da base do governo no escândalo seria a razão da obstrução dos trabalhos da CPMI.

Agora que o circo pegou fogo, o relatório da Petrobras culpa o ex-presidente da empresa José Sergio Gabrielli; o ex-diretor de produção Paulo Roberto da Costa, que agora conta tudo o que sabe na Operação Lava Jato; o ex-diretor Nestor Cerveró, que cantou de galo ao depor na CPMI; e Jorge Zelada como responsáveis pelos problemas. Na linguagem mitigada da alta direção da empresa, o que houve foram 11 “não conformidades”: Cerveró está implicado em 10; Paulo Roberto, em três; Gabrielli, em duas; e Zelada, em uma. A refinaria foi comprada da belga Astra Oil por R$ 1,25 bilhão, em duas parcelas, operação que causou um prejuízo de US$ 530 milhões, segundo o balanço da própria Petrobras.

Depois que cúpula da empresa resolveu entregar as cabeças da antiga diretoria e arrepiar nos escalões inferiores da empresa, surgem outros descalabros. Mesmo assim, a presidente Dilma Rousseff está disposta a preservar sua amiga Maria das Graças Foster no comando da empresa.

Sete de Abril
A situação de Graça Foster na Petrobras é complicada. Basta ver o caso da Sete de Abril, empresa criada em dezembro de 2010, ou seja, após a eleição de Dilma Rousseff, para construir 29 sondas de exploração para o pré-sal, da qual a própria Petrobras é acionista com 10% de participação. Nessa época, por indicação do ex-diretor de Engenharia e Serviços da Petrobras Renato Duque, preso na semana passada, Pedro Barusco assumiu a diretoria de Operações e Participações da nova empresa.

Ele é mais um homem-bomba no escândalo, pois resolveu recorrer à delação premiada e colaborar com a Justiça, prometendo devolver US$ 100 milhões que foram desviados da estatal, fruto de “intermediações onerosas”, eufemismo usado por executivos para se referir a propinas. Antes de assumir a nova tarefa, era gerente executivo da diretoria de Engenharia e Serviços da Petrobras. Essa grana toda sumiu dos cofres da estatal nos últimos anos sem que a presidente da empresa, Graça Fortes, sequer desconfiasse, apesar de ser muito dinheiro.

A própria criação da Sete de Abril é uma aberração típica do modelo de capitalismo de Estado adotado pela presidente Dilma Rousseff, graças ao regime de contratação diferenciado criado para “agilizar” as licitações da Petrobras e das obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e de uma legislação feita supostamente para proteger as empresas nacionais de tecnologia, que impedem empresas estrangeiras de disputem as concorrências. Quando não há uma empresa nacional atuando no setor, melhor ainda: cria-se uma.

Graças a essa “reserva de mercado”, a Sete de Abril é dona de 85% de cada uma das sondas de exploração do pré-sal, em parceria com diversas empresas que operam nessas unidades, incluindo a própria Petrobras, que fica com 15%. São os principais donos da Sete de Abril os fundos de pensão dos funcionários da Petrobras (Petros), do Banco do Brasil (Previ), da Caixa Econômica Federal (Funcef) e da Vale (Valia). Quem comanda a Sete de Abril é Eduardo Carneiro, ex-diretor da OGX de Eike Batista, indicado por Graça Foster.

Merval Pereira - A ameaça do Estado Islâmico

- O Globo

Começa hoje em Omã, no Oriente Médio, mais uma conferência da Academia da Latinidade, que reúne intelectuais de diversas partes do mundo para discutir a melhoria da relação entre o Ocidente e o Oriente, desta vez sob a ameaça do que o sociólogo brasileiro Candido Mendes de Almeida, secretário-geral da organização, classifica de “repto-limite à própria noção da coexistência internacional”, o Estado Islâmico. A Academia da Latinidade vem se dedicando à aproximação entre as civilizações e vê com grande preocupação o desaparecimento “do reconhecimento do outro, que identifica a própria noção de progresso e do avanço da vida social contemporânea”.

Os conceitos universais comuns às civilizações, como os direitos humanos, ou a democracia, são colocados em causa quando ações como as do Estado Islâmico não respeitam as diferenças, fazendo esvair-se a contemporaneidade do Estado-Nação diante da emergência dos califados.

A Conferência de Omã também debaterá as mudanças conceituais da democracia, questionada pela falta de representatividade de sua representação política e a necessidade de ampliar-se a participação popular com plebiscitos e referendos.

O professor espanhol Daniel Innenarity abordará os riscos que a democracia pode trazer para si mesma com a baixa política. Dois especialistas farão palestras sobre as experiências locais com temas universais como direitos humanos e democracia. Radwan Al Sayyed, do Líbano, falará sobre os direitos humanos no pensamento contemporâneo islâmico. E Abdulrahman Al-Salimi, de Omã, abordará a experiência de seu país com a coexistência e o pluralismo e as perspectivas para sair do impasse. Marco Luchesi, da Academia Brasileira de Letras, falará sobre novas possibilidades de diálogo entre o Ocidente e o Oriente.

Os avanços conseguidos nas relações internacionais com a chegada dos Brics superando a premissa de globalização, ou a superação da relação de centro e periferia, estão confrontados pela existência do Estado Islâmico, e a Conferência de Omã pretende discutir como avançar nas relações internacionais na visão crítica da crença, muitas vezes ingênua, de que se possa chegar à convivência pela intrínseca virtude ou boa vontade do diálogo.

Depois de quase 15 anos de atividade, a Academia da Latinidade chega à Conferência de Omã constatando que é preciso ir além da mera tolerância com o outro, pois o pluralismo não é mais apenas uma regra da coexistência, mas uma prática indispensável.

O Estado Islâmico, no entanto, está aí para mostrar até que ponto o respeito pelo outro é afetado nos dias atuais. As dificuldades do momento por que passa o mundo podem ser compreendidas pelo título do trabalho de Candido Mendes: “A caminho da impossível coexistência internacional”..

Igor Gielow - Muda mesmo?

- Folha de Paulo

Duas coisas subsistem à confusão que Dilma Rousseff chamou para si na montagem de sua nova equipe econômica.

A primeira é que a presidente pode até estar escutando mais, mas não muda o jeito peculiar de fazer política. Age de forma algo imperial, aparentando ter apenas a estátua de Nossa Senhora ao lado da TV de seu gabinete como testemunha.

Assim, demitiu um ministro da Fazenda e o manteve no cargo, destruindo o fio de credibilidade que a gestão de Guido Mantega pudesse ter --e ainda pediu um plano de ajuste ao auxiliar, no apagar das luzes.

Avisou que iria escolher um novo time e deu a data. Convidou os envolvidos para conversar. Agastou-se com as especulações de mercado e imprensa. Decidiu esperar mais um pouco, como se a interferência desse vácuo na economia fosse algo trivial.

A boa nova, à primeira vista, é que o triunvirato escolhido sinaliza enfim uma mudança. Claro que a posição que Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Alexandre Tombini ocuparão na equipe implica diferenças no rumo, mas o fato é que supõe-se enterrada com eles a lambança atribuída à leniência de Mantega e às gambiarras de Arno Augustin no Tesouro.

Será? Na realidade, Dilma até aqui chefiou a política econômica. Quando fala do tema, seu tom de voz muda, há uma genuína empolgação. É a economista-chefe do governo, e o resultado é público para julgamento.

É certo que Barbosa está no mesmo diapasão "desenvolvimentista" de Dilma, mas Levy é o sujeito que em 2004 atingiu a meta do aperto fiscal do ano todo em setembro. Eles representam pontas de um espectro, com Tombini mais ao centro.

Mais do que qualquer anúncio, será a dinâmica dessa relação entre Dilma e o trio que ditará as condições para o Brasil fazer sua parte na tentativa de sair do enrosco econômico. E poderá dar algum alento a um governo que está nas cordas, atordoado, desde a reeleição.

Elio Gaspari - Um projeto de extorsão contra a Patuleia

• Empreiteiras querem se passar por Madres Teresas

- O Globo

Dois diretores de empreiteiras disseram à Justiça que foram extorquidos pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e seu operador financeiro, Alberto Youssef. Se não pagassem, teriam seus contratos prejudicados ou até mesmo cancelados. A tese é engenhosa. Pressupõe que empresas angelicais que fazem negócios com a Petrobras tornaram-se vítimas de dois demônios. Para que a pizza fosse ao forno, faltaria só o orégano.

A primeira denúncia da extorsão veio de Sérgio Mendes, vice-presidente e herdeiro da tradicional Mendes Junior, fundada em 1953 por seu avô. Ele contou que em 2011, a mando de Paulinho, pagou R$ 8 milhões a Youssef. Se não fizesse isso, estariam fechadas as portas e os guichês da Petrobras. A Mendes Junior opera com o governo brasileiro há três gerações e com a Petrobras há pelo menos duas. Teve negócios bilionários (em dólares) com a cleptocracia de Saddam Hussein no Iraque. Admita-se que jamais molhou mãos alheias. Tendo sido obrigada, em 2011, não denunciou o malfeito. Seria tudo coisa do Paulinho e do Youssef.

A segunda denúncia de extorsão veio do diretor de Óleo e Gás da Galvão Engenharia, doutor Erton Medeiros. Seu advogado, José Luis de Oliveira Lima, explicou por que a Galvão ficou calada: “Se ele denunciasse o que estava acontecendo, era ameaçado de perder os contratos. Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef estão longe de serem Madres Teresas de Calcutá”.

Bingo! Paulinho e Youssef são delinquentes, mas colaboram com a Viúva. Madres Teresas seriam a Galvão Engenharia e suas colegas. Segundo o doutor Erton, na origem de tudo estaria o deputado José Janene (morto um ano antes), e o dinheiro do achaque iria para o Partido Progressista. Bingo de novo, e surge mais uma Madre Teresa: o PT.

Durante a última campanha eleitoral, a Galvão Engenharia deu R$ 1,4 milhão ao Diretório Nacional do PT, partido da doutora Dilma. Portanto, a empresa foi achacada por dois delinquentes, não se queixou, e fez uma bela doação ao partido que, governando o país, nomeou Paulinho para uma diretoria da Petrobras. Entre 2006 e 2012, as grandes petroempreiteiras torraram R$ 856 milhões em doações para campanhas eleitorais. O PT ficou com R$ 266 milhões.

Nessa batida, a coisa fica assim: os dois delinquentes que estão colaborando com a Viúva achacavam empresas, e uma delas entrou na dança levada por um deputado que morreu, em benefício de um partido subsidiário. Tudo o mais seria golpismo, terceiro turno, e coisa de uma elite contrariada. Já a elite lubrificada, à qual ascendeu o comissariado petista, vai bem, obrigado.

Rolf Kuntz - Sem restos para aproveitar

- O Estado de S. Paulo

Sem nada melhor para apresentar, com a credibilidade arrasada e ainda acuado pelo escândalo da Petrobrás, o governo agora se esforça para fechar o ano com um resultado simbólico nas contas públicas - qualquer saldo primário maior que zero. Será uma vitória moral, semelhante à da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1974, na Argentina, como observou um redator da Agência Estado.

"Estamos trabalhando para ter superávit neste ano", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na quarta-feira. Mas qualquer número positivo ainda vai depender de alguma ajuda divina. Será muito difícil compensar o déficit primário acumulado pelo governo central até setembro, R$ 19,47 bilhões, segundo os cálculos do Banco Central. Mesmo esse número só foi possível com uma indisfarçável dose de maquiagem - dividendos antecipados, alguns bônus de concessões de infraestrutura e vigorosas pedaladas, codinome de atrasos em pagamentos. Mas o resultado simbólico dependerá principalmente da eliminação de qualquer compromisso fiscal para este ano.

Para isso o Congresso terá de aprovar o projeto, enviado pelo Executivo, de mudança da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Segundo o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros, a aprovação poderá ocorrer nesta terça-feira. Avalizada a proposta, o governo poderá abater da meta fiscal deste ano qualquer valor, sem limite, de investimentos e desonerações tributárias. O relator do projeto, senador Romero Jucá, ainda tornou a mudança mais permissiva, ao substituir a palavra meta por resultado, compatível com qualquer saldo.

O projeto equivale a uma confissão de fracasso, mas a presidente Dilma Rousseff nunca reconheceu, publicamente, a mínima falha na formulação e na condução da política econômica. Talvez nunca tenha reconhecido nem mesmo no silêncio de sua consciência. Sua insistência nos erros torna difícil imaginar outra hipótese. Mas os fatos são claros. O desastre fiscal de 2014 de certa forma sintetiza o fiasco econômico do primeiro mandato. Numa análise muito caridosa seria possível levar em conta, como atenuante, a paradeira econômica deste ano, com crescimento próximo de zero. Mas para essa caridade seria preciso avalizar um engano.

Se a estagnação econômica fosse consequência de um problema externo, como têm dito a presidente e o ministro da Fazenda, haveria alguma justificativa, embora discutível, para a piora das contas públicas. No jargão dos economistas, o problema seria atribuível, pelo menos em parte, a um fator exógeno. Uma catástrofe natural, como o tsunami no Japão, também valeria como justificativa. Mas nem os danos causados pela seca serviriam como explicação do cenário econômico. O superávit comercial do agronegócio ainda ficou em US$ 69,74 bilhões de janeiro a outubro, mesmo com a queda de preços internacionais.

O saldo foi inferior ao de um ano antes, mas atenuou, como tem ocorrido há bom tempo, o mau resultado geral do comércio exterior (déficit de US$ 1,87 bilhão em dez meses). O déficit comercial da indústria é explicável essencialmente por problemas de produtividade e competitividade e pela orientação da diplomacia econômica brasileira. A dependência da Argentina como principal destino da exportação de manufaturados é uma das consequências dessa orientação, assim como a subordinação às limitações do Mercosul, uma união aduaneira emperrada e sem acordos com parceiros relevantes.

A presidente habituou-se a atribuir os problemas brasileiros a fatores externos, como fez há poucos dias na Austrália, em reunião do Grupo dos 20. Nunca foi além disso ao tratar dos problemas de integração internacional. Aparentemente, nunca percebeu a excessiva dependência dos mercados sul-americanos nem a relação semicolonial com a China. O fracasso da política industrial - herdada, em parte, da gestão Lula e agravada por novos erros - está associado à estratégia comercial iniciada em 2003.

O protecionismo, as normas anacrônicas de conteúdo nacional e a ideia de parcerias preferenciais com mercados em desenvolvimento limitaram os horizontes de boa parte da indústria. Uma política mais ambiciosa de integração nos grandes mercados teria, muito provavelmente, proporcionado mais estímulos ao investimento, à busca de produtividade e à inovação. A estagnação da indústria de bens de capital, nos últimos anos, é um reflexo dessa orientação. Outro sinal muito claro é o relatório do BNDES: até setembro, os desembolsos para a indústria, R$ 35,7 bilhões, foram 13% menores que os de um ano antes.

O erro estratégico foi ampliado com a política de incentivos ao consumo. Defensável em 2008-2009, quando a crise externa realmente atingiu o Brasil, essa política em pouco tempo deixou de ser funcional. Foi mantida até agora por um erro de diagnóstico e pela teimosia da presidente e do ministro da Fazenda. Eles preferiram sempre o mundo da fantasia. Nunca levaram a sério, em suas decisões, os números do próprio governo, com as indicações de estagnação industrial e de investimento empresarial muito abaixo do necessário.

Ninguém deveria animar-se com o ligeiro aumento do índice de confiança detectado na indústria de transformação. Segundo sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o indicador variou 3,9% de outubro para novembro, passando de 82,6 para 85,8 (valores acima de 100 apontam otimismo). O número continuou bem abaixo do registrado um ano antes, 99,1, e muito distante da média dos últimos cinco anos, 103,7. Outras pesquisas têm mostrado uma baixa disposição para investir. Investimento maior, segundo os entrevistados, só a partir de 2016, como noticiou o Estado na sexta-feira.

Reeleita há um mês, a presidente Dilma Rousseff continuava na sexta-feira devendo o roteiro do novo governo. Do atual sobrarão somente restos inaproveitáveis. Nem a lição dos erros a presidente parece haver recolhido.

Miriam Leitão - Economia da corrupção

- O Globo

"O governo funciona como nas capitanias hereditárias" disse o executivo de uma grande empreiteira com quem conversei longamente nos últimos dias. Em cada área do governo que uma empresa vai, para discutir projetos, ela é enviada para falar com um político. Num dos negócios que fez, há dois anos, o executivo teve que conversar com Paulo Maluf. Ministros da presidente Dilma sabiam do encontro.

Os detalhes das abordagens são sempre espantosos, Meu interlocutor nega pagamento de propina, mas conta que às vezes fala-se abertamente que a área "pertence" a um partido. Há quem apenas diga indiretamente, mas há quem seja franco, como um prefeito de uma cidade de Tocantins, que pediu "luvas" apenas para não revogar negócio já feito na administração anterior. Concessões, mesmo depois de ganhas, passam a ser pontos de chantagem porque a autoridade sempre pode decretar a caducidade do contrato. Ministros do governo admitem nada poder fazer diante do veto de uma pessoa de terceiro escalão, sob o argumento de que aquela é a "área" de outro grupo ou líder político, É uma total inversão da ordem hierárquica. De fato, tudo funciona como nas velhas capitanias.

Nada me convence, no entanto, de que as empreiteiras, principalmente as maiores que têm décadas de comprovada capacidade, atuação no exterior, não tenham o dever de quebrar o pacto de silêncio. Por que se submetem a ouvir de pessoa do segundo ou terceiro escalão do governo, ou de um gerente da Petrobras, que negócios líquidos e certos só poderão ser feitos se eles pagarem?

Portanto, elas não são vítimas. Se ficam em silêncio, pagando ou não, são cúmplices, são parte da mesma tragédia que se abate sobre o Brasil. A pessoa com quem conversei sobre as entranhas dos negócios com o setor público brasileiro, e outros executivos com quem tenho falado, não tem dúvidas em dizer que a corrupção, evidente* mente, não é coisa nova, mas a escala a que se chegou nos governos do PT não tem precedentes. E justifica o bordão do ex-presidente para louvar seus feitos: "Nunca antes na história deste país."

— Quando o sub do sub se dispõe a devolver US$ 100 milhões, como é caso de Pedro Barusco, é porque a escala do roubo é grande demais –

A explicação dele é que os governos do PT abriram ao mesmo tempo várias frentes de obras, depois de um período de paralisia dos investimentos no governo Fernando Henrique, Na Petrobras, por exemplo, que não fazia refinada há 20 anos, foram iniciadas quatro. Ele acha que isso explica a escalada da corrupção. Isso não explica, no entanto, os vários casos de sobrepreço em cada contrato de importação, fretamento de navio, cada operação de compra da empresa, T\ido era pretexto para se armar a cena em que o empresário é enviado ao "operador" de um dos partidos da base.

A justificativa inicial é que o partido precisa de financiamento, mas, quando se oferecem doações legais, em geral eles ouvem que não é o suficiente. Nos últimos tempos, ficou claro para os empresários que era também para enriquecimento pessoal.

Há empresas que cresceram rapidamente da noite para o dia, sempre à sombra dos seus protetores, verdadeiros fidalgos da corrupção e que têm o poder de abrir a torneira de recursos públicos, ou garantir a vitória em licitação mesmo com todas as evidências de que não estão tecnicamente preparadas.

O dirigente de uma empresa fornecedora de serviços procurou um ministro influente do governo Dilma e explicou que era possível apenas com bom gerenciamento melhorar muito um setor no qual o Brasil tem deficiência crônica, "Parem de gastar dinheiro"," disse o executivo, e mostrou como era possível. Em vez de fazer novas obras, usar a eficiência no que já fora construído para elevar a qualidade do serviço. Foi despachado do gabinete com a afirmação de que não era isso que se procurava.

A presidente Dilma está se comportando como se a operação Lava-Jato fosse patrocinada por ela. A operação é sim uma oportunidade para o país, mas é seu governo que está no meio do turbilhão. Há fios soltos demais que, se puxados, levarão a decisões e negócios feitos nos últimos quatro anos, ou nos últimos 12 anos, no setor de energia, que sempre esteve sob seu controle.

Paulinho da Viola - Coração Leviano

Carlos Drummond de Andrade - Nosso Tempo

I
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.

Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.

II

Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.

Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.

Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.

A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.

III

E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?

Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.

IV

É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

V

Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.

Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.

Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.

Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.

VI

Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.

VII

Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.

VIII

O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.

sábado, 22 de novembro de 2014

Opinião do dia – Fernando Gabeira

“O PT está aí há 12 anos. Lula fez vista grossa para a corrupção? Se você quer definir uma diferença, não se esqueça de que o homem do PT na Petrobrás foi preso. Ele é amigo do tesoureiro do PT. A cunhada do tesoureiro do PT foi levada a depor porque recebeu grana em seu apartamento em São Paulo.

De que passado você fala, Dilma? Como acha que vai conseguir se desvencilhar dele? A grana de suas campanhas foi um maná que caiu dos céus?

Um dos traços do PT é sempre criar uma versão vitoriosa para suas trapalhadas. José Dirceu ergueu o punho cerrado, entrando na prisão, como se fosse o herói de uma nobre resistência. Se Dilma e Lula, por acaso, um dia forem presos, certamente, dirão: nunca antes neste país um presidente determinou que prendessem a si próprio.”

Fernando Gabeira, jornalista. Apocalipse, agora. O Estado de S. Paulo, 21 de novembro de 2014.

Dilma escolhe Levy para a Fazenda, mas adia anúncio

• Bolsa teve a maior alta em três anos; circulou na imprensa informações de que o ex-secretário do Tesouro Joaquim Levy assumirá o Ministério da Fazenda, mas o anúncio foi adiado

Tânia Monteiro - O Estado de S. Paulo

Após a notícia de que o ex-secretário do Tesouro Nacional Joaquim Levy poderá assumir o Ministério da Fazenda, o mercado brasileiro esboçou uma reação positiva. O Ibovespa - principal índice do mercado acionário brasileiro -, que estava testando o patamar de 54 mil pontos atingiu a máxima de 56.214 pontos (alta de 5,26%).

No fechamento, registrou alta de 5,02%, aos 56.084 pontos, a maior valorização desde 9 de agosto de 2011, quando subiu 5,1%. Na semana, acumulou elevação de 8,33%, mais do que apagando a perda de 2,72% acumulada até sexta-feira passada. No mês, o índice registra alta de 2,67% e, no ano, ganho de 8,89%. O giro financeiro totalizou R$ 12,233 bilhões.

O anúncio do novo ministro da Fazenda era esperado para esta sexta-feira, mas foi adiado, segundo fontes do Palácio do Planalto. Não há detalhes sobre o motivo de Dilma deixar a divulgação para depois. A notícia, porém, foi suficiente para influenciar a Bolsa e o dólar, que fechou em queda de 2,26%.

A alta da Bolsa pela manhã se deu em razão de China e Europa. Pequim anunciou um corte na taxa de juros, pela primeira vez desde julho de 2012, de modo a incentivar o avanço da economia. Com a notícia, os preços das empresas vendedoras de commodities foram estimulados, com destaque para Vale e as mineradoras europeias. Vale ON teve alta de 6,45% e Vale PNA subiu 6,93%.

A China também anunciou pela primeira vez dados de suas reservas de petróleo, ao comentar que elas são formadas por 91 milhões de barris, e disse trabalhar para ter instalações capazes de armazenar 500 milhões de barris até 2020. A título de comparação, nos EUA as reservas somam 727 milhões de barris.

Neste cenário, Petrobrás disparou tanto nos papéis ON quanto nos PN, com os investidores também aproveitando para ir às compras após os recuos mais recentes. O papel ordinário da estatal teve alta de 11,17% e o preferencial avançou 11,89%.

Outros ministros. Além de Levy, circulou na imprensa que o ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda Nelson Barbosa, que também estava sendo cogitado para a Fazenda, deve assumir o Ministério do Planejamento. Carlos Hamilton, diretor de Política Econômica do Banco Central, deve deixar a instituição para assumir a Secretaria do Tesouro. Alexandre Tombini deverá permanecer na presidência do BC.

Também circulou a informação de que a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) assumiria o comando do Ministério da Agricultura no segundo mandato de Dilma.(Com Fabrício de Castro e

Dilma convida Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda

• Presidente convida Alexandre Tombini a permanecer no Banco Central

• Escolha de Levy teve apoio de Lula e aval de Trabuco, primeira opção para a pasta; mercado reage bem

Vera Magalhães, Andréia Sadi, Valdo Cruz, Mariana Haubert e Julia Borba – Folha de S. Paulo

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff convidou Joaquim Levy para assumir o Ministério da Fazenda e Nelson Barbosa para o Ministério do Planejamento. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, foi convidado para permanecer no posto.

Os escolhidos aceitaram os convites para a equipe econômica, mas o governo decidiu adiar para a próxima semana o anúncio oficial.

A ida de Levy para a Fazenda teve apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Teve também o aval do presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, primeira opção de Dilma para o lugar de Guido Mantega. Trabuco recusou o convite para atender ao pedido do presidente do Conselho de Administração do banco, Lázaro Brandão, que quer que o executivo o suceda.

Com a postergação do anúncio, no entanto, assessores do Palácio do Planalto passaram a dizer que a presidente ainda pretende definir a área em que cada um atuará. As escolhas devem ser divulgadas até quinta-feira (27).

O mercado reagiu bem à antecipação do convite a Levy, que foi secretário do Tesouro na equipe do ex-ministro Antonio Palocci e hoje é diretor-superintendente da Bradesco Asset Management.

Nelson Barbosa, ex-secretário-executivo da Fazenda, atualmente é professor da Fundação Getulio Vargas.

Durante a semana, Dilma conversou com os três futuros auxiliares separadamente. Ela ouviu cada um sobre os cenários econômicos de 2015 e todos concordaram que deve haver um ajuste fiscal no começo do ano.

Além disso, avaliaram que será um bom sinal ao mercado corte de despesas com seguro-desemprego, pensões por morte e abono salarial a fim de aumentar a economia feita pelo setor público para pagar juros da dívida. "Ela teve a sinalização de que haverá unidade na nova equipe", revelou um ministro.

O governo deve divulgar na próxima semana um pacote fiscal para garantir economia de gastos de 2% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2015. Neste ano, o Tesouro deve fechar com deficit primário.

Depois que a composição da equipe econômica vazou, primeiramente naFolha e depois nos demais jornais e sites, houve reação de setores do PT e do governo.

Um dos principais conselheiros de Dilma na montagem do governo, Aloizio Mercadante (Casa Civil) é um dos que manifestam dúvida sobre a nomeação de Levy, considerado próximo do PSDB e de Armínio Fraga, que seria o titular da Fazenda num governo de Aécio Neves (PSDB).

Pessoas próximas a Levy, no entanto, dizem que ele dificilmente deixará sua posição no Bradesco se não for para comandar a economia. Da mesma forma, o nome de Tombini é considerado de baixa densidade num momento em que a economia patina e o governo precisa emitir sinais de força para o mercado. "Seria transformar o Ministério da Fazenda de uma vez em secretaria", opinou um membro do governo.

Surpresa
Ontem, a Bolsa subiu cerca de 5% e o dólar caiu 2%, com a expectativa do anúncio da nova equipe. Meia hora antes de o mercado fechar, no entanto, o Planalto divulgou que o anúncio não ocorreria nesta sexta (21).

Dilma quer divulgar o pacote completo'' na economia: Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Agricultura e os bancos públicos, como Banco do Brasil e BNDES.

Outra versão é que o Planalto quis esperar a votação do projeto de lei que altera a Lei de Diretrizes Orçamentárias no Congresso, o que permitirá o descumprimento da meta fiscal.

Presidente também atende à indústria e ao agronegócio

• Kátia Abreu, da CNA, e Monteiro, ex-CNI e senador do PTB, vão para pastas da Agricultura e do Desenvolvimento

Ricardo Brito e Nivaldo Souza - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - A decisão da presidente Dilma Rousseff de indicar os senadores Armando Monteiro (PTB-PE) e Kátia Abreu (PMDB-TO) para ocupar, respectivamente, os ministérios do Desenvolvimento (MDIC) e da Agricultura tem por objetivo reaproximá-la dos dois setores. Ao mesmo tempo, Dilma busca isolar o líder do PMDB na Câmara, Eduardo Cunha (RJ), dos movimentos que costura para presidir a Casa Legislativa a partir de 2015.

O convite feito por Dilma para Kátia Abreu irrita principalmente o PMDB da Câmara. Atual presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), ela vai ocupar um ministério que hoje é da "cota" dos deputados do partido, com aliados de Cunha integrando a pasta. A indicação não agradou à bancada peemedebista. Um dos integrantes disse que se a presidente fez isso, ela vai ter de dar a eles outro ministério para "compensar".

O ex-ministro Antônio Andrade (MG) teria saído da pasta em março com a promessa de Dilma de que ele indicaria um deputado para ser o titular da Agricultura em 2015, caso ele conseguisse uma boa vantagem eleitoral para a presidente em Minas. Andrade venceu a eleição mineira como vice na chapa do governador eleito Fernando Pimentel (PT) e estaria trabalhando para emplacar o deputado Mauro Lopes (PMDB-MG) no ministério.

A bancada peemedebista do Senado também não considera que ganharia mais uma pasta com a indicação de Kátia Abreu. A avaliação é de que a senadora reeleita é uma neófita na sigla - saiu do DEM e passou pelo PSD antes do PMDB - e não seria um "espaço" para a legenda. Um senador do partido definiu Katia como "um nome bom", mas que seria da cota pessoal de Dilma.

Atualmente, o PMDB tem cinco pastas: Minas e Energia, com o senador licenciado Edison Lobão; Previdência, com o também senador licenciado Garibaldi Alves Filho; Agricultura, com Neri Geller; Turismo, com Vinícius Lages; e Aviação Civil, com Moreira Franco.

No caso da escolha de Armando Monteiro, a intenção é tentar levar o PTB a apoiar uma candidatura à presidência da Câmara que será lançada pelo PT para tentar derrotar Cunha. O partido elegeu 25 deputados e terá três senadores a partir do ano que vem.

Ao Estado, Monteiro reconheceu que o partido tem seu "peso" na Congresso. Sem entrar em detalhes, ele disse que, durante a conversa que teve com Dilma ontem, discutiu também a situação política atual. Para ele, porém, uma eventual confirmação sua para o MDIC, seria uma indicação da "cota pessoal" da presidente.

Nomes para banco públicos também começam ser definidos

Renata Veríssimo - O Estado de S. Paulo

Apesar de ter descartado para esta sexta-feira, 21, o anúncio dos novos ministros, a formação do ministério para o segundo mandato de Dilma Rousseff começa a ganhar forma. Além de Armando Monteiro Neto para o Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), a presidente Dilma Rousseff também teria decidido manter Luciano Coutinho à frente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Segundo uma fonte ouvida pelo Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, Coutinho ficará como presidente da instituição pelo menos no primeiro ano do segundo mandato da presidente.

Dilma avisou hoje pela manhã ao ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges, que ele não ficará no cargo. Um interlocutor próximo ao ministro acredita que ele deve compor a equipe do governo eleito de Minas Gerais, Fernando Pimentel, de quem é amigo e trabalhou junto no governo Dilma. Borges ajudou o então ministro Pimentel na elaboração da política industrial do governo e foi presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Borges, segundo fonte, não pretende esperar até o final do ano para deixar o cargo. A informação que circula é a de que Monteiro Neto deve tomar posse já nos próximos dias. Esse pode ser o destino também do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Interlocutores do governo admitem que ele pode não esperar até 31 de dezembro para deixar o cargo.

Além do BNDES, uma fonte disse que a presidente também teria decidido que não haverá mudança na Caixa. O petista baiano Jorge Hereda tem a simpatia de Dilma e é muito ligado ao governador da Bahia, Jaques Wagner. Hereda ocupa a presidência da Caixa desde 2011, quando foi alçado ao cargo, depois de exercer a vice-presidência de Governo da instituição.

Dilma fará mudança, no entanto, na presidência do Banco do Brasil. O secretário executivo do ministério da Fazenda, Paulo Rogério Caffarelli, continua sendo o mais provável para substituir Aldemir Bendine.

Planalto vaza nomes, Bolsa sobe, mas Dilma não confirma

• Joaquim Levy será o novo ministro da Fazenda

• Nelson Barbosa assumirá o Ministério do Planejamento.

• Governo vai esperar aprovação da nova meta fiscal para fazer anúncio oficial. Nomes agradam ao mercado, e Bovespa sobe 5%, maior alta em três anos. Escolha de Kátia Abreu para Agricultura irrita o PMDB

Martha Beck e Eliane Oliveira - O Globo

BRASÍLIA - Contrariando expectativas, o governo decidiu não anunciar oficialmente os novos ministros nesta sexta-feira. O GLOBO confirmou, no entanto, que o ex-secretário do Tesouro Joaquim Levy será o novo ministro da Fazenda no segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. O ex-secretário executivo da Fazenda Nelson Barbosa vai assumir o Ministério do Planejamento.

Barbosa foi chamado por Dilma e se reuniu com a presidente nesta sexta. Auxiliares presidenciais afirmaram que Barbosa, Levy e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, devem formar o núcleo duro da área econômica. Além deles, a senadora Kátia Abreu (PMDB-GO) é a mais cotada para assumir a pasta da Agricultura.

Levy ajudou Antonio Palocci, quando este assumiu o Ministério da Fazenda, no ajuste fiscal realizado nos primeiros meses do governo Lula, em 2003.

Carioca e especialista em contas públicas, Levy foi chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento, na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Também foi subsecretário de Política Econômica da Fazenda e, em seguida, passou a secretário do Tesouro, cargo que deixou, três anos depois, para assumir a vice-presidência de Finanças e Administração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). De lá, foi convidado para ser secretário da Fazenda do estado do Rio, no primeiro mandato do governador Sergio Cabral.

A confirmação do nome de Joaquim Levy para substituir Guido Mantega ocorre após o governo ter sondado o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, na quinta-feira. Procurado pelo Planalto, o executivo recusou o convite. Segundo interlocutores da presidente, Trabuco seria um bom nome para o mercado, mas sua ida para o governo implicaria contornar uma série de questões societárias e de sucessão no Bradesco.

— Houve uma operação para trazer Trabuco para o governo, mas não deu certo — contou um ministro.

Diretor do Bradesco, Levy é nome bem visto pelo mercado

• Especialista em contas públicas, economista ajudou no ajuste fiscal no governo Lula

Eliane Oliveira – O Globo

BRASÍLIA - Nome bem-visto pelo mercado, o carioca Joaquim Levy foi secretário do Tesouro Nacional na gestão do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci num momento difícil da economia, quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência da República, em 2003. Levy foi um dos responsáveis pelo ajuste fiscal feito à época, que deu credibilidade ao governo e pôs as contas em ordem.

Especialista em contas públicas, Levy foi chefe da assessoria econômica do Ministério do Planejamento, na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Também foi subsecretário de Política Econômica da Fazenda e, em seguida, passou a secretário do Tesouro, cargo que deixou, três anos depois, para assumir a vice-presidência de Finanças e Administração do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). De lá, foi convidado para ser secretário da Fazenda do estado do Rio, no primeiro mandato do governador Sérgio Cabral.

Atualmente, Levy é diretor-superintendente do Bradesco Asset Management (Bram), com a tarefa de consolidar seu processo de internacionalização. Sua ida para a Fazenda foi uma indicação do presidente do Conselho de Administração do Bradesco, Lázaro Brandão.

Nascido em 1961 no Rio de Janeiro e formado em Engenharia Naval, o novo ministro da Fazenda é doutor em Economia pela Universidade de Chicago. Por isso, sua linha de atuação é mais afinada com o pensamento econômico em defesa do livre mercado e distante da linha desenvolvimentista de Dilma.

A indicação de Levy para ministro da Fazenda foi bem recebida pelo mercado financeiro. Um executivo ouvido pelo GLOBO classificou-o como preparado para o desafio: “alguém que conhece bem as políticas públicas e também o sistema financeiro”.

— É alguém preocupado em criar uma agenda positiva para os empresários. O maior problema do Brasil é a crise de confiança — disse o executivo, acrescentando que, se ele aceitou o cargo, é porque obteve garantia de liberdade de ação à frente da Fazenda. — Ele é um cara que trabalha sete (dias) por 24 (horas).

Sob o comando de Levy, o patrimônio cuidado pela gestora de recursos do Bradesco passou de R$ 184 bilhões, em junho de 2010, para os atuais R$ 335 bilhões. Já, quando era secretário do Tesouro, Levy foi o responsável por zerar a cobrança de Imposto de Renda para investidores estrangeiros em títulos públicos, o que ajudou a atrair mais recursos para o país.

No mesmo período, Levy levou a melhor numa queda de braço com Henrique Meirelles, então o poderoso presidente do Banco Central. Levy defendeu que as emissões de títulos da dívida externa do país, atribuição que era do BC, passassem para a ser feitas pelo próprio Tesouro Nacional. E ganhou a briga. O Tesouro, hoje, é quem cuida de suas captações externas.

Nos três anos e meio que ficou à frente da Secretaria estadual de Fazenda do governo do Rio, Joaquim Levy foi responsável por criar o modelo de gestão fiscal que ajudaria o governo a ter sucessivos recordes de arrecadação. E o modelo foi organizado a partir de algumas medidas, entre elas, a reestruturação da Secretaria, que não fazia concurso para novos fiscais há 17 anos.

O governador Luiz Fernando Pezão aprovou a escolha. Quando Levy era secretário de Fazenda, o atual governador ocupava a Secretaria de Obras do estado, e teve que botar a pasta para funcionar com pouco dinheiro:

— Ele é botafoguense doente igual a mim. Vai ver tudo de perto, acompanha tudo. É um grande executivo. Não tinha ninguém melhor no mundo para juntar dinheiro igual a ele. Nos dois primeiros anos do governo (Cabral), a tesoura cantou. (No ministério) Acredito que ele vai virar o jogo em um ano.

Integrantes do governo Cabral confirmam que ele é da linha ortodoxa e não gosta de improvisar. No Rio, estendia a jornada até tarde da noite para cumprir as metas do governo. Mas mantinha a rotina de visitar, de tempos em tempos, a família que ficou nos Estados Unidos, quando ele se transferiu para o Rio.

Levy estava em Paris com Cabral, outros secretários e o empresário Fernando Cavendish, em 2009, no episódio batizado pela imprensa como a “farra dos guardanapos”. Em fotos divulgadas à época, Cabral e alguns secretários aparecem celebrando com guardanapos na cabeça. Levy, no entanto, não está entre eles.

Convite a Katia Abreu para Agricultura abre crise com PMDB

• Cúpula do partido se revolta por não ter sido consultada e ameaça impedir votação da meta fiscal

Fernanda Krakovics - O Globo

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff convidou, na última quarta-feira, a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO), que é presidente da Confederação Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), para assumir o Ministério da Agricultura, e ela aceitou. Porém, o vazamento da informação, nesta sexta-feira, abriu uma crise no comando do PMDB, que não foi consultado. Pegos de surpresa, peemedebistas ameaçam se unir à oposição e implodir a votação do projeto de lei que altera a meta fiscal na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2014, caso o governo confirme oficialmente a ida da senadora para a pasta.

Filho da senadora, o deputado federal Irajá Abreu (PSD-TO) chegou a parabenizar a mãe na rede de microblogs Twitter, “por mais essa conquista”. Irajá, que também reproduziu uma notícia informando que sua mãe fora convidada para o ministério e havia aceitado, acabou retirando a publicação da rede social.
Atualmente, o Ministério da Agricultura é da cota dos peemedebistas da Câmara, e Kátia é considerada uma “cristã nova” na bancada do Senado. Ela trocou o PSD pelo PMDB há apenas ano, e há senadores peemedebistas mais antigos na fila por um ministério.

Dilma ainda não abriu a conversa com os partidos sobre a reforma ministerial. Segundo peemedebistas, a informação do Palácio do Planalto era que a presidente estava tratando apenas da equipe econômica, que pretendia inicialmente anunciar ontem. Só depois ela negociaria os demais ministérios. O vice-presidente da República, Michel Temer, que é presidente do PMDB, não foi informado sobre o convite feito à Kátia e só ficou sabendo ontem, quando a informação vazou.

Hoje, o PMDB tem cinco ministros: Edison Lobão (Minas e Energia), Garibaldi Alves (Previdência), Moreira Franco (Aviação Civil), Neri Geller (Agricultura) e Vinícius Lages (Turismo). Parte do partido defende a permanência de Geller na Agricultura. Ele também tem como padrinho o senador Blairo Maggi (PR-MT).

A saída de Lobão do Ministério de Minas e Energia é dada como certa. Ele ficou desgastado depois de ter sido citado no escândalo da Petrobras. O ministro nega envolvimento no esquema de desvio de dinheiro. Ainda assim, diante do aprofundamento da operação Lava-Jato, da Polícia Federal, a presidente deve tirar o PMDB do comando da pasta e colocar alguém de sua confiança.

Aproximação gradual
Com a devassa que está sendo feita pela Polícia Federal e pela Justiça na Petrobras, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, integrantes do PMDB afirmam que a pasta virou um “pepino” e que o partido não faria questão de mantê-la. Mesmo assim, vão tentar uma compensação.

Egressa do DEM, Kátia Abreu foi um dos expoentes da oposição na gestão de Lula. A aproximação do governo foi feita em etapas. Primeiro, ela se filiou ao PSD, criado pelo ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab para dar suporte ao governo, mas que, num primeiro momento, adotou postura de independência. Ela se aproximou de Dilma durante a discussão do marco regulatório dos portos, matéria de interesse da bancada ruralista para escoamento da produção.

Ministérios: Dilma arrisca para mostrar que não está refém da Lava-Jato

• As escolhas de Armando Monteiro e Kátia Abreu para o governo são uma tentativa da presidente demostrar que não está refém das denúncias na Petrobras. Nomes, contudo, passam longe da unanimidade

Paulo de Tarso Lyra, Grasielle Castro - Correio Braziliense

Embora tenha adiado o início da reforma ministerial, a presidente Dilma Rousseff convidou ontem dois nomes políticos de peso para compor a sua futura equipe de trabalho: o senador Armando Monteiro Neto (PTB-PE) para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic) e a senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) para o Ministério da Agricultura. Com isso, a presidente tenta passar o recado de que as pastas políticas não ficarão refém da Operação Lava-Jato e da lista de parlamentares envolvidos nas denúncias de corrupção na Petrobras, o que poderia adiar a formação do novo governo para depois de janeiro. Pelo movimento da petista, isso não deve ocorrer.

Monteiro e Kátia, embora não sejam unanimidades nas legendas às quais são filiados nem nos setores que, em tese, representam, são considerados pelo Planalto nomes representativos para estabelecer um diálogo com empresários e ruralistas. Além disso, tiveram papel preponderante durante a corrida eleitoral: o petebista concorreu ao governo de Pernambuco, ao lado do PT; e a peemedebista comprou a briga por Dilma Rousseff junto de representantes do agronegócio, avessos à presidente e declaradamente simpatizantes à candidatura do tucano Aécio Neves (PSDB-MG).

No caso de Armando Monteiro, há ainda uma outra questão: Dilma sinaliza com gratidão a Pernambuco, estado que lhe deu quase 2 milhões de votos de vantagem sobre Aécio no segundo turno das eleições, apesar da família do ex-governador Eduardo Campos ter declarado apoio ao presidenciável tucano.

Interlocutores pernambucanos, contudo, pontuam que Monteiro, apesar de hábil, tem pouco trânsito com os empresários que comandam o PIB nacional. Os representantes da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp) e da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) são rompidos com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), que foi presidida por Monteiro por oito anos durante o governo Lula.

O jogo de cena na Fazenda - O Estado de S. Paulo / Editorial

Ninguém com pelo menos dois neurônios funcionando pode ter-se surpreendido com o fato de o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco, ter gentilmente recusado o convite de Dilma Rousseff para se tornar ministro da Fazenda. Trabuco compareceu ao Palácio da Alvorada acompanhado de Lázaro Brandão, o presidente do Conselho do banco, sabendo que estava apenas cumprindo o dever de cortesia que a situação impunha. Não estivesse a presidente reeleita trabalhando com uma lista espantosamente pequena de nomes cogitados para o cargo, seria o caso de afirmar que ela nunca teve a intenção de ter o presidente de um dos maiores bancos do País à frente do Ministério da Fazenda, e só chamou Trabuco a Brasília porque sabia que o convite não seria aceito. Seu objetivo era fazer publicamente um gesto de simpatia e "confiança" ao mercado.

O fato é que toda a movimentação do Palácio do Planalto em torno da escalação do Ministério do segundo mandato, em particular da pasta da Fazenda, demonstra que não se pode esperar, a partir do ano que vem, uma presidente da República diferente daquela que o País conheceu nos últimos quatro anos, à frente de uma administração comprovadamente incompetente: ideologicamente sectária e pessoalmente autoritária e intransigente. Dilma Rousseff é intervencionista por formação e militância e como tal nutre extrema desconfiança - se não completa aversão - pelo empreendedorismo privado.
Esse perfil é completado por um temperamento irascível, que se manifesta diante de qualquer contrariedade. Que o digam os auxiliares que com ela convivem, inclusive os ministros.

A renovação de um mandato presidencial não significa necessariamente a necessidade de reformulação do primeiro escalão do governo. Partindo do princípio de que não se mexe em time que está ganhando, a unanimemente reconhecida necessidade da escalação de novos auxiliares para cargos importantes como o de ministro da Fazenda revela apenas que a chefe do governo e seu criador sabem muito bem que nos últimos quatro anos quase tudo deu errado.

Essa questão foi colocada nas eleições de outubro e democraticamente resolvida nas urnas. Dilma Rousseff será a presidente de todos os brasileiros por mais quatro anos e como tal deve ser aceita e respeitada.

Resta, portanto, a cada um cumprir seu papel na discussão nacional sobre a formação do novo governo, emblematicamente simbolizada pelos entendimentos para a escolha do sucessor de Guido Mantega no Ministério da Fazenda. Um ministro que, aliás, tem todos os motivos para não estar nada satisfeito com o fato de que sempre fez rigorosamente tudo o que a chefe mandou e agora é descartado como se fosse o responsável único pelo mau desempenho da economia.

Se dependesse de Lula, que sempre exibiu poderosa intuição e forte sensibilidade política, a condução da economia voltaria a ser entregue a um ministro mais identificado com o mercado e capaz de recuperar a confiança dos empreendedores nacionais e dos investidores estrangeiros. Não há, afinal, outra maneira de o País voltar a crescer social e economicamente.

Dilma, porém, é teimosa. Jamais se disporá a abrir mão da prerrogativa de comandar ela própria a política econômica, o que significa que provavelmente o País continuará a ter mais do mesmo.
Diante disso, é praticamente certo que o novo ministro da Fazenda - que não havia sido escolhido até o momento em que escrevíamos este editorial - será alguém disposto a colocar sua biografia a serviço dos desígnios de uma chefe de Estado obcecada pela ideia anacrônica de que o Estado é fim e não meio.

Receber convite para assumir a pasta da Fazenda sempre foi motivo de orgulho e honra para qualquer homem público. Hoje essa investidura parece estar restrita a quem estiver disposto a pagar o preço de - em troca de alguma notoriedade passageira - levar a culpa se as coisas não derem certo ou aplaudir a chefe na improbabilidade de ocorrer o contrário.

Técnicos alertaram para ‘consolidação de danos’ após veto de Lula

• Equipe do Congresso emitiu parecer sobre riscos três dias após o então presidente barrar suspensão de obras da Petrobrás em 2010

Ricardo Galhardo - O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO - No dia 29 de janeiro de 2010, três dias depois de o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetar uma decisão do Congresso que determinava a suspensão de quatro obras da Petrobrás suspeitas de irregularidades, técnicos da Câmara e do Senado emitiram uma nota conjunta que alertava para a "consolidação de danos" na estatal caso o veto presidencial fosse mantido.

De acordo com os técnicos do Congresso, as justificativas apresentadas por Lula para vetar a suspensão das obras não mencionam em momento algum as irregularidades graves apontadas pelo Tribunal de Contas da União (TCU). No veto, o então presidente se refere aos indícios de corrupção como "pendências".

Na época, os técnicos do Congresso já alertavam que a decisão de Lula de permitir a continuidade das obras, apesar dos graves indícios de irregularidades, poderia provocar prejuízos irreparáveis à estatal – o veto acabou mantido pelos congressistas.

Passados mais de quatro anos, as quatro obras liberadas pelo petista são citadas pelos envolvidos na Operação Lava Jato como fontes de recursos que alimentaram o esquema de corrupção na Petrobrás.

Graças à decisão de Lula, foram repassados mais de R$ 13 bilhões para as obras nas refinarias de Abreu e Lima (PE), Presidente Getúlio Vargas (Repar), Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e o complexo de Barra do Riacho (ES). O custo total dos empreendimentos é de mais de R$ 80 bilhões.

Em meados de 2009, o TCU alertou o governo sobre indícios de superfaturamento, pagamentos indevidos, obstrução dos trabalhos de fiscalização e omissão de documentos por parte da Petrobrás, nas quatro obras. Para o tribunal, os indícios eram suficientes para pedir a paralisação das obras. Meses depois, o Congresso acatou a recomendação e determinou ao governo, em um anexo da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2010, a suspensão dos repasses. Lula contrariou a determinação, vetou a decisão do Congresso e permitiu a continuidade das obras suspeitas.

Nas justificativas para o veto, o então presidente alegou que a paralisação provocaria demissão de 25 mil trabalhadores, além de prejuízos mensais de R$ 268 milhões por "degradação" dos trabalhos já realizados e de outros R$ 577 milhões em função do atraso da produção.

Disse ainda que algumas obras estavam 90% prontas e que havia "consenso" entre TCU, Congresso e governo sobre a criação de um grupo de trabalho que permitiria corrigir as irregularidades sem parar as obras. Os técnicos rebateram dizendo que o cálculo não leva em conta os prejuízos causados pelas irregularidades.

Simplismo. "Raciocínios simplistas que ponderem apenas uma parte desta equação, ou seja, apenas o prejuízo causado pela paralisação e não o dano decorrente da continuidade de empreendimentos", diz a nota.

Segundo os técnicos, a análise parcial dos contratos de apenas dois empreendimentos (Abreu e Lima e Comperj) aponta prejuízo de R$ 250 milhões decorrentes de superfaturamento e pagamentos por equipamentos não utilizados.

Em março de 2010, numa visita à Repar ao lado da então pré-candidata a presidente Dilma Rousseff, Lula usou a manutenção dos empregos para justificar o veto. Segundo ele, os trabalhadores não poderiam pagar pela desconfiança do TCU.

"Se tem que fazer investigação, que façam, se tem que apurar, que apurem, mas não vamos fazer com que um trabalhador, um brasileiro que está levando o pão para sua casa, fique desempregado porque alguém está desconfiando de alguma coisa", disse Lula.

O governo nega que a gestão de Lula não tenha dado a devida atenção às suspeitas. Segundo a Casa Civil, ainda em setembro de 2009, antes, portanto, do veto presidencial, a Corregedoria-Geral da União foi acionada pela então ministra Dilma para apurar as suspeitas. Na mesma época, o grupo de acompanhamento do Programa de Aceleração de Crescimento também foi acionado para examinar o relatório do TCU.

Ainda de acordo com o governo, em uma reunião realizada no dia 20 de janeiro de 2010, seis dias antes do veto presidencial, TCU, Casa Civil, Ministério de Minas e Energia e Petrobrás decidiram acompanhar a solução das irregularidades em "reuniões regulares que efetivamente ocorreram".

O governo alega ainda que no ano seguinte o Congresso retirou o embargo às obras e em 2013 o próprio TCU também deixou de recomendar a suspensão dos repasses para os quatro empreendimentos da estatal.

A Petrobrás não negou a acusação de obstrução à fiscalização. Segundo a assessoria da estatal, "Petrobrás e TCU estão em constante processo de entendimento".

Permitir prejuízo ao erário público é improbidade

• Se o TCU descobrir irregularidades graves, o Legislativo pode sustar a execução de contratos

Carlos Ari sundfeld – O Estado de S. Paulo

Cabe ao Tribunal de Contas da União e ao Congresso Nacional a fiscalização externa da administração federal. Se o TCU descobrir irregularidades graves, o Legislativo pode sustar a execução de contratos, evitando, assim, prejuízos para os cofres públicos. No projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2010, o Congresso, alertado por seu órgão auxiliar, que é o Tribunal de Contas, incluiu a previsão de que certos contratos da Petrobrás seriam paralisados.

Mas como o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou a sustação, alegando que a medida seria prejudicial e que providências corretivas estariam em curso, chamou a si uma responsabilidade que em princípio não era sua.

O risco é ficar provado que o veto não tinha fundamento. Em condições normais nem o presidente nem a Casa Civil, à época comandada pela hoje presidente Dilma Rousseff, envolvem-se diretamente com contratos das estatais, que são autônomas. Mas nesse caso os contratos só seguiram em curso depois de uma ação direta da cúpula do Executivo federal.

Permitir ou concorrer para que alguém cause prejuízo ao erário público é improbidade administrativa, punida judicialmente com suspensão dos direitos políticos de até oito anos e multa. Em tese, Lula e Dilma poderão ter problemas se ficar provado que agiram maliciosamente - com dolo - ou de modo imprudente ou negligente - com culpa.

Carlos Ari sundfeld é professor de Direito Administrativo da FGV Direito SP