Caso Master lança suspeita sobre origem de precatórios
Por Folha de S. Paulo
Vorcaro investiu R$ 14,3 bi em ações contra o
poder público que dependiam de tribunais para serem lucrativas
Indícios levaram o CNJ a cancelar o pagamento
de R$ 4,7 bi em precatórios de usinas de açúcar que haviam vendido direitos ao
Master
Em uma nova frente de investigação das
fraudes do Banco Master,
suspeita-se que um dos ramos de atuação da gangue de Daniel
Vorcaro era o suborno de juízes, tentado ou bem-sucedido, a fim de
obter ganhos no mercado de precatórios —dívidas do setor público arbitradas
pelo Poder Judiciário.
Como revelou a Folha, Vorcaro tem ao menos R$ 14,3 bilhões investidos em ações judiciais dependentes de decisões de tribunais para se tornarem lucrativas. Tais ativos estavam entre os principais negócios do Master, operados no mercado de valores a receber de precatórios.
Embora em grande parte rotineiro e regular,
esse mercado cria um incentivo para a manipulação de processos. É possível, por
exemplo, comprar o direito de receber um possível precatório —e é fácil
entender que uma decisão judicial favorável valoriza esse direito de modo
substancial.
Quanto menor a probabilidade de sentença
favorável, maior o deságio a ser pago na compra desses chamados pré-precatórios
e maior o ganho em caso de sucesso. Subornar juízes pode vir a ser investimento
rentável.
Mensagens dão a entender que Vorcaro investiu
na compra de favores e amizades também em tribunais superiores. Tinha
interesse, por exemplo, em indenizações reivindicadas por empresas supostamente
prejudicadas pelo Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), monstrengo corrupto e
burocrático de intervenção na economia extinto em 1990.
Chama a atenção, ainda, o exorbitante
contrato de até R$ 427 milhões firmado entre o Master e a advogada Camilla
Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª
Região —ligado ao ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes
Marques e alvo de
operação do Conselho Nacional de Justiça nesta quinta (24).
O mesmo CNJ cancelou o
pagamento de R$ 4,7 bilhões em precatórios de usinas de açúcar que haviam
vendido direitos ao banco. A medida protege por ora o dinheiro do contribuinte,
mas resta muito a ser investigado.
De 2023 a 2025, o governo federal pagou em
média R$ 112 bilhões em precatórios e RPVs (requisições de pequeno valor), o
equivalente a mais de 4% da despesa. Os valores incluem atrasados por manipulações
fiscais do governo Jair
Bolsonaro (PL),
mas são crescentes. De 2008 a 2014, foram em média de R$ 32 bilhões por ano. De
2019 a 2021, de R$ 62 bilhões.
Em 2025, 42,7% da despesa referia-se a
benefícios previdenciários; cerca de 9%, a casos de servidores; 42,3%, aos
"demais", onde estão grandes dívidas.
Essa montanha de débitos pode se originar de
incompetência, mau funcionamento da máquina pública ou leis ruins. O grande
negócio pode estar em processos antigos e de origem suspeita.
Vorcaro decerto não é o único a atuar nesse
universo. É preciso criar um sistema que permita lançar mais luz sobre os
riscos não apenas fiscais, mas criminais, desse tipo de despesa pública.
Como atrair talentos para a docência
Por Folha de S. Paulo
Levantamento mostra que, em 2024, apenas
14,7% dos ingressantes em licenciaturas se destacaram no Enem
São necessários uma política racional de
salários, progressão baseada em desempenho, melhores condições de trabalho e
bolsas focalizadas
A formação de professores e a valorização da
carreira são elementos centrais para melhorar a aprendizagem. Por isso, são
preocupantes os dados do Anuário Brasileiro da Educação
Básica, levantamento do Todos Pela Educação, da Fundação Santillana e da
Editora Moderna divulgado na terça (22).
Com base no Exame Nacional do Ensino Médio e
no Censo da Educação Superior, verificou-se que, em 2024, apenas 14,7%
dos ingressantes em licenciaturas estavam na faixa de 20% de melhor
desempenho no Enem,
ante 32,6% em direito e 81,2% em medicina. Houve queda significativa em relação
a 2018 (23,9%).
O anuário aponta, ainda, que a formação
acadêmica parece não ser suficiente para superar a defasagem de parte dos
alunos que entram na universidade:
só 20,2% dos concluintes das licenciaturas em 2025 atingiram o nível adequado
de conhecimento na prova teórica do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes
(Enade),
sendo que 42,2% ficaram abaixo do básico.
O levantamento também mostra, a partir do
Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que 7,7% dos
formandos do ensino médio tinham conhecimento satisfatório em língua
portuguesa e matemática, taxa menor do que a já vexatória de 10,3% em 2019,
antes da pandemia.
É preciso, portanto, não só atrair jovens com
nível mais alto de conhecimento para a docência como melhorar a formação.
Relatórios da OCDE
apontam que elevar salários é importante, mas não bala de prata, e que se deve
considerar o impacto fiscal.
Preconizam-se aumento de salário inicial,
adicionais para disciplinas e localidades com falta de docentes e uma
progressão de carreira baseada em desempenho, não só em tempo de serviço. Em
diagnóstico sobre o Brasil, a entidade indica que avaliação e carreira estão pouco conectadas.
Melhorar as condições de trabalho (carga
burocrática, infraestrutura, apoio pedagógico e liderança escolar) é
fundamental —44% dos professores brasileiros disseram estar satisfeitos com as
condições de emprego, excluído o salário, ante 68% na OCDE.
Uma ação relevante, quando aliada a outras, é
a oferta de bolsas para alto desempenho. O Pé-de-Meia Licenciaturas, que
fornece ajuda financeira a estudantes com nota acima de 650 pontos no Enem,
lançado em 2025, é uma medida nesse sentido que deve ser monitorada.
Sem articulação de políticas que tornem a carreira atraente, a educação brasileira continuará num ciclo de formação docente e aprendizagem precárias.
IA segura depende de cooperação entre EUA e
China
Por O Globo
Arcabouço de contenção das armas nucleares
pode servir de inspiração para mitigar riscos da nova tecnologia
O futuro da inteligência artificial (IA) é o
tema mais relevante na agenda da visita do líder chinês Xi Jinping ao americano
Donald Trump. O encontro dos líderes das superpotências ocorre num momento em
que a tecnologia mais avançada da atualidade provoca uma convulsão. Nesta
semana, chegaram oficialmente ao Conselho de Segurança da ONU os temores de que
a IA ponha a humanidade em risco — expressos por ninguém menos que Dario Amodei
e Sam Altman, líderes das duas maiores empresas do setor (Anthropic e Open AI,
respectivamente). A demanda deles — secundada por Elon Musk (xAI) e Demis
Hassabis (Google DeepMind) — é simples: é necessário um acordo global para
desacelerar o avanço da IA antes que ela saia do controle.
Os temores podem ser ilustrados por episódios
recentes de descontrole — como a invasão de sites de empresas e governos por
agentes autônomos de IA capazes de driblar as defesas de cibersegurança melhor
que qualquer hacker. E também por cenários que ainda não se tornaram realidade,
mas não são mais ficção científica — como a possibilidade de agentes assumirem
o comando de arsenais nucleares, sabotarem sistemas de eletricidade e
abastecimento de água ou desenvolverem, sozinhos, vírus e armas biológicas encomendadas
a laboratórios rebeldes. Tudo isso poderia acontecer a partir do momento em que
a tecnologia alcançasse o estágio em que é capaz de se aperfeiçoar de modo
autônomo para adquirir inteligência comparável ou melhor que a humana.
A pergunta óbvia é: se os próprios líderes da
corrida frenética da IA conhecem os riscos, por que não tomam, eles mesmos, a
iniciativa de reduzir o ritmo de desenvolvimento? Numa interpretação puramente
materialista, a pressão por freios externos pode não passar de tentativa de
impedir concorrentes de alcançá-los. Na leitura mais realista, contudo, o
problema é outro: se as empresas americanas desacelerarem, serão ultrapassadas
pelas chinesas — e o país será derrotado na tecnologia mais estratégica para o
futuro da economia global. Daí a necessidade de um acordo de alcance
internacional.
De certa forma, Estados Unidos e China vivem
o clássico dilema do prisioneiro. Se ambos reduzirem o ritmo da IA, a
humanidade ganha tempo para entender os riscos e criar mecanismos para
mitigá-los. Se apenas um desacelerar e o outro não, mantém-se a possibilidade
de a tecnologia sair do controle, ameaçando a todos. O mundo já viveu situação
semelhante com a ameaça nuclear nos anos 1950. Depois de se dar conta da
irracionalidade da escalada armamentista, as duas maiores superpotências
desenvolveram progressivamente um arcabouço para conter a proliferação de armas
atômicas.
Tal arcabouço adquiriu a forma de um tratado
global, fiscalizado pela Agência Internacional de Energia Atômica, com equipes
técnicas autorizadas a realizar inspeções periódicas nos países signatários.
Apesar dos tropeços e rupturas, ele tem preservado a segurança do planeta. É
verdade que a IA tem características distintas. Não está na mão de nações, e
sim de empresas e de quem quer que possa usá-la. Não depende do beneficiamento
de elementos químicos raros e rastreáveis, como urânio e plutônio. E,
sobretudo, avança em velocidade vertiginosa. Mesmo assim, ela traz para a
humanidade um desafio semelhante. O passado deveria servir de inspiração a
Trump e Xi.
Afrouxar as regras para os fundos de servidores
investirem revela insensatez
Por O Globo
Oito meses depois que caso Master expôs investimentos temerários, governo federal abrandou exigências
É no mínimo insensato que o Ministério da
Previdência, apenas oito meses depois da liquidação do Banco Master, tenha dado
mais liberdade aos fundos de aposentadoria e pensão de funcionários úblicos
para investir seus recursos. De acordo com as investigações, esses fundos de
servidores estavam entre as principais vítimas das falcatruas do ex-dono do
Master, Daniel Vorcaro. A decisão do ministério abre a possibilidade de que,
mesmo sem ter obtido certificação adequada de governança, eles invistam em
quaisquer títulos emitidos por bancos, contrariando uma resolução de fevereiro
do Conselho Monetário Nacional (CMN). O ministério argumenta que não autorizou
investimentos mais arriscados sem critério, mas a situação exposta pelo Master
exigiria das autoridades a imposição de postura mais conservadora nos
investimentos, não de mais liberdade.
Na relação dos fundos públicos que enterraram
dinheiro no Master, o Rioprevidência ocupa o primeiro lugar, com R$ 970 milhões
aplicados apenas em Letras Financeiras. Calcula-se que, ao todo, considerando
os investimentos em toda a cadeia de fundos envolvidos nas fraudes, o
Rioprevidência tenha comprometido R$ 3,7 bilhões no banco de Vorcaro, sem se
preocupar com o futuro dos 230 mil aposentados e pensionistas.
Proporcionalmente, as perdas do Amaprev, do funcionalismo do Amapá, foram ainda
piores. Com 19 mil beneficiários, ele queimou R$ 400 milhões só em Letras
Financeiras do Master.
Os 21 fundos de servidores que investiram em
títulos do banco têm perda potencial calculada em R$ 1,88 bilhão. Para que ela
seja reduzida ou compensada, os estados e municípios prejudicados precisarão se
habilitar como credores da massa falida do Master, um processo lento. Outra
alternativa é recorrer aos respectivos governos afetados — em outras palavras,
passar a conta ao contribuinte.
O envolvimento de governadores e prefeitos
com o Master também precisa ser investigado. No Rio, a Polícia Federal e o
Tribunal de Contas do Estado já identificaram mudanças no quadro de gestão do
Rioprevidência e na política de investimentos, contra indicações técnicas, para
permitir aplicações no Master. Segundo as investigações, o ex-governador
Cláudio Castro exonerou diretores e os substituiu por quem se dispusesse a
fazer os investimentos temerários (Castro nega ter feito isso).
Ao assumir, o governador interino, Ricardo Couto, mudou a diretoria do Rioprevidência e sancionou uma lei dando mais transparência aos investimentos. A nova diretoria adotou regras mais conservadoras para alocar os recursos. Por fim, Couto promoveu uma reforma para exigir qualificação técnica dos gestores do fundo. São medidas que caminham na direção certa e deveriam inspirar não apenas outros estados e municípios, mas o próprio Ministério da Previdência.
As crianças deveriam ser a prioridade
Por O Estado de S.Paulo
Lula passou quase quatro anos sem reajustar o
Bolsa Família, mas, quando finalmente aumentou o valor do benefício, escolheu,
a exemplo de Bolsonaro, a pior maneira possível para fazê-lo
A cada dia que passa, o governo do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva fica mais parecido com o de seu antecessor, o
ex-presidente Jair Bolsonaro. Não satisfeito em encontrar uma maneira de
segurar os preços dos combustíveis a meses da eleição, o petista mais uma vez
adotou o receituário de seu antigo rival e decidiu reajustar o valor do Bolsa
Família a semanas da disputa presidencial. E, a exemplo de Bolsonaro, Lula o
fez da pior forma possível, privilegiando famílias unipessoais em detrimento
das formadas por mães solo e seus filhos.
A correção linear de 15,04% do piso do
benefício, de R$ 600 para R$ 691, não era a única alternativa possível para o
Bolsa Família. Como revelou o jornal Folha de
S.Paulo, foram avaliados outros dois cenários, entre os quais um
que aliava a manutenção do piso a um aumento nas parcelas complementares que
são pagas quando as famílias são compostas por crianças, adolescentes,
gestantes ou mães com bebês em fase de amamentação. Era a escolha preferida por
técnicos do governo, tanto da área social quanto da equipe econômica, por
priorizar as famílias mais numerosas e vulneráveis e, ao mesmo tempo, ser mais
eficiente e menos onerosa para os cofres públicos.
Seria, também, uma maneira de diminuir o peso
de uma distorção criada durante o governo Bolsonaro que, lamentavelmente,
sobrevive até hoje. Ao criar o Auxílio Emergencial com piso de R$ 600 durante a
pandemia de covid-19, independentemente do tamanho de suas famílias, o
ex-presidente induziu os beneficiários a adotar um comportamento oportunista
para ampliar os ganhos: omitir cônjuges e dividir artificialmente os cadastros
das famílias para burlar o limite de renda per capita a partir do qual o
pagamento do benefício é vetado.
Essa lógica foi mantida no antigo Auxílio
Brasil, hoje Bolsa Família, e foi assim que a quantidade de famílias
unipessoais – isto é, formadas por uma única pessoa, em sua maioria homens –
mais que dobrou entre 2021 e 2022. E a despeito de não haver recursos no
Orçamento de 2023 para garantir o pagamento de R$ 600 para todos os
beneficiários, tanto Lula quanto Bolsonaro prometeram, na campanha de 2022, que
o piso seria mantido, como, de fato, foi.
Já se sabia, portanto, que corrigir essa
deturpação não seria algo imediato e levaria certo tempo, mas o fato de o benefício
ter sido reajustado duas vezes no espaço de menos de um ano – de R$ 190 para R$
400, em outubro de 2021, e de R$ 400 para R$ 600, em julho de 2022 – criou a
oportunidade para Lula manter o piso inalterado nos últimos anos e, assim,
resgatar o sentido original do programa, que, como o próprio nome diz, visa a
beneficiar núcleos familiares, e não indivíduos.
Não foi por acaso que, quando o Bolsa Família
foi criado, em 2003, a opção foi privilegiar a mulher como titular do
benefício. Na sociedade brasileira, alimentar as crianças, garantir que elas
frequentem a escola e manter o calendário de vacinação em dia são funções quase
sempre assumidas pelas mães, e não pelos pais. Exigir o cumprimento dessas
contrapartidas não é nem nunca foi mera burocracia, mas uma maneira de proteger
as crianças e atender a suas necessidades básicas no presente, de forma que
elas tenham chance de romper o ciclo de transmissão intergeracional da pobreza
e não se tornem adultos que também dependerão do Bolsa Família para sobreviver.
Lula, no entanto, escolheu reajustar o piso
para alcançar o maior número de pessoas – leia-se eleitores –, em vez das
famílias que mais precisavam. São raras as chances que um governante tem de
aprimorar uma política pública de forma a torná-la mais justa, focalizada e
eficiente, ou seja, de fazer o que é certo para o Estado e a sociedade, e não o
que é mais conveniente e cômodo para si mesmo e seus interesses imediatos.
São escolhas como essa que diferenciam um
estadista de um populista. E essa oportunidade foi desperdiçada por Lula na
semana passada, quando o presidente optou por priorizar sua chance de reeleição
em detrimento da proteção das crianças mais vulneráveis. O problema, afinal, é
que elas não votam.
Como deixar uma emenda ‘amarradinha’
Por O Estado de S. Paulo
Caso Cezinha de Madureira expõe como ‘emendas
cruzadas’, intermediários e falta de rastreabilidade transformaram a destinação
de dinheiro público em oportunidade para negociatas
Uma investigação sobre desvio de emendas
parlamentares em São Paulo revelou uma engenharia especialmente perversa para
movimentar dinheiro público, ocultar seu destino real e, segundo o Ministério
Público, devolver parte dos recursos aos próprios políticos. Trocas de emendas
entre diferentes esferas de governo permitiriam direcionar recursos para onde
havia interesse sem que o acerto aparecesse nos registros oficiais. O que já se
conhece da investigação mostra até onde chegou a deformação de um instrumento que
o Congresso tratou de ampliar ano após ano.
A investigação, revelada pelo Estadão, começou com emendas de
vereadores destinadas a eventos da Secretaria Municipal da Cultura e chegou ao
deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) depois que mensagens indicaram
sua participação numa operação de troca de emendas. Como determinado recurso
federal deveria ser destinado à Saúde, o deputado mandaria o dinheiro para essa
área. Em compensação, um vereador colocaria sua emenda municipal na Cultura ou
em eventos esportivos, onde estava o interesse. Uma mão lavava a outra e, no
meio delas, circulava dinheiro público.
Segundo o Grupo de Atuação Especial de
Combate ao Crime Organizado (Gaeco), empresários ligados ao esquema mandavam
aos gabinetes formulários de emendas já preenchidos. O parlamentar precisava
apenas alterar o nome e o valor. Empresas e entidades já estavam escolhidas.
Assessores acompanhavam a tramitação e havia conversas sobre liberações na
Prefeitura. Em uma delas, um empresário disse que os recursos estavam
“amarradinhos” para “não dar ruim depois”.
A suspeita dos promotores é de que entre 20%
e 35% do valor das emendas destinadas a empresas de shows e espetáculos voltava
para os parlamentares, como a boa e velha “rachadinha” já conhecida dos políticos.
Para fazer o dinheiro chegar a determinado lugar, era possível trocar uma
emenda por outra, misturar recursos federais e municipais e colocar empresários
no meio do caminho.
O Congresso gosta de exibir os avanços na
transparência das emendas. Hoje, em algumas modalidades, é possível saber quem
indicou uma emenda e quem recebeu o dinheiro, o que já é alguma coisa diante do
que havia antes. O problema começa justamente depois. No papel, a prestação de
contas pode estar impecável. No caso investigado em São Paulo, um deputado
poderia mandar dinheiro para a Saúde em troca de um vereador destinar recursos
à Cultura. Os dois repasses apareceriam nos registros oficiais; o acordo que os
produziu não.
O caso do filme Dark Horse, tratado recentemente neste espaço, já havia
mostrado outra parte do problema. Recursos destinados a projetos de
empreendedorismo e jiu-jítsu passaram por entidades e empresas até que uma
delas transferisse R$ 750 mil à produtora do filme sobre Jair Bolsonaro. A
Polícia Federal (PF) ainda investiga se era o mesmo dinheiro. Para avançar além
do primeiro repasse, foi preciso cruzar contratos, notas fiscais, contas
bancárias e vínculos entre empresas.
Para um instrumento vendido como forma de
aproximar o Orçamento das necessidades da população, já está complicado demais
simplesmente descobrir para onde foi o dinheiro. No caso de São Paulo, aparecem
agora as “emendas cruzadas”.
O Congresso passou uma década aumentando seu
domínio sobre o Orçamento. Tornou emendas impositivas, criou modalidades, ampliou
valores e resistiu repetidamente às tentativas de impor maior rastreabilidade
ao dinheiro. Tudo sob o argumento de que deputados e senadores conhecem melhor
as necessidades de suas bases e, por isso, devem ter maior participação na
destinação dos recursos públicos.
Quanto mais dinheiro o Congresso tomou para
si, maior deveria ter sido sua disposição para dizer onde cada real foi parar.
Ocorreu o contrário: os valores cresceram enquanto a transparência veio aos
trancos, empurrada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), pelos órgãos de
controle, pela imprensa e por investigações policiais.
O Congresso quis cada vez mais poder sobre o
Orçamento sem aceitar controle equivalente sobre o dinheiro. Transformou as
emendas num convite ao abuso.
Trânsito impossível
Por O Estado de S. Paulo
Em SP, já há 10 milhões de veículos para 12
milhões de habitantes. Não há cidade que aguente
Basta sair às ruas da cidade de São Paulo
para ver: nunca a capital paulista teve tantos veículos automotores em
circulação como tem hoje. Segundo dados da Secretaria Nacional de Trânsito
(Senatran), a frota de carros, motos, micro-ônibus, ônibus e caminhões, entre
outros modelos, passou de 7,8 milhões, em dezembro de 2016, para 10,1 milhões,
em julho deste ano – dados mais recentes disponíveis.
Significa que há quase um veículo automotor
para cada habitante, haja vista que a população de São Paulo é de 11,9 milhões
de pessoas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Não é exagero nenhum afirmar que, logo mais, haverá mais veículos do que
pessoas na cidade.
O número de carros, por exemplo, passou de
5,4 milhões em 2016 para 6,5 milhões neste ano – alta de quase 20%. Já a
quantidade de motos registradas saltou de 895 mil há dez anos para 1,4 milhão
atualmente – um crescimento de 55%.
Vários fatores ajudam a explicar esses
números. O primeiro deles é de ordem cultural: a aquisição de um veículo é uma
legítima aspiração social. E as condições econômicas facilitam essa conquista.
De um lado, há uma crescente oferta de
crédito para a compra de veículos. De outro, há as mudanças no mercado de
trabalho, com o crescimento dos trabalhadores em plataformas digitais, seja
como motoristas, seja como entregadores, que fazem do carro ou da moto um
instrumento de ganha-pão.
Mais carros em circulação implicam ruas mais
cheias. O trânsito em São Paulo vem piorando desde a pandemia, segundo dados da
Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Neste ano, no dia 24 de junho, o
recorde da lentidão foi de incríveis 1.690 quilômetros. É como se se formasse
uma fila de automóveis de São Paulo até Cuiabá.
Com tanto trânsito, os ônibus, por óbvio,
andam devagar. A velocidade média dos coletivos nas ruas está estagnada em 15
quilômetros por hora nos horários de pico da manhã e da tarde. E, além de
lentos, os coletivos estão vazios. A pesquisa Origem e Destino mais recente mostrou que, nas viagens
motorizadas, o transporte individual passou a prevalecer sobre o coletivo a
partir de 2023.
Diante desse círculo vicioso, a Prefeitura de
São Paulo precisa agir. Primeiro, traçando políticas públicas que desincentivem
o uso do transporte individual e reorganizando o sistema de ônibus da cidade –
que, aliás, está à espera de um redesenho desde 2019.
Para reconquistar os passageiros perdidos ao
longo dos últimos anos, o poder público terá de aprimorar a qualidade do serviço
prestado, garantindo aos usuários a previsibilidade, a pontualidade e a
confiabilidade no sistema de ônibus. E já há ferramentas tecnológicas para
isso, como o georreferenciamento dos veículos em tempo real. Falta usá-las com
eficiência.
Se nada mudar, os paulistanos continuarão impelidos a buscar as soluções por conta própria. Eis a vitória do transporte individual sobre o transporte coletivo. O resultado disso será mais trânsito, mais poluição e mais ônibus vazios.
Governo afrouxa contenção de gastos, e
déficit cresce
Por Valor Econômico
A contenção caiu de R$ 17,9 bilhões para R$ 13,6 bilhões, com isso, o déficit real no ano subiu para R$ 80,9 bilhões
O governo oficializou ontem que nem mesmo com
o abatimento de R$ 62,8 bilhões das metas de superávit primário conseguirá
chegar a um resultado positivo nas contas públicas. Estimado em R$ 10,8
bilhões, na terceira revisão de receitas e despesas, o resultado positivo se
transformou em um déficit de R$ 13,6 bilhões — uma diferença entre um bimestre
e outro de R$ 24,4 bilhões —, o que, em tese, exigiria contenção maior das
despesas. Não foi o que aconteceu. A contenção caiu de R$ 17,9 bilhões para R$
13,6 bilhões. O déficit real no ano subiu para R$ 80,9 bilhões. Com isso, o
presidente Lula encerrará seu terceiro mandato com déficits sucessivos e
endividamento em rápida expansão, depois de criar um regime fiscal que prometia
conter o ritmo das dívidas, gradativamente reduzir despesas e deixar as contas
públicas no azul.
No relatório, a piora fiscal ocorreu mesmo
com o aumento das despesas que podem ser abatidas da meta fiscal, de R$ 62,8
bilhões para R$ 67,3 bilhões. Na lei orçamentária, estavam estimados R$ 57,8
bilhões. Sob a aparência de uma redução dos gastos, há uma acomodação de
despesas maiores dentro do elástico resultado permitido pelas regras. Depois de
ter buscado o piso da banda durante dois anos, seria estranho que o Planalto
não fizesse a mesma coisa em ano eleitoral, em que o presidente Lula tenta a
reeleição. A contabilidade oficial é de uma queda de R$ 15,7 bilhões nas
receitas primárias e de R$ 6,8 bilhões na receita líquida de transferências. As
despesas primárias, por seu lado, cresceram R$ 22,1 bilhões, sempre em relação
ao terceiro bimestre do ano. O resultado primário, com isso, muda de direção e
chega-se a um déficit de R$ 13 bilhões pelas regras e outro, efetivo, real, de
R$ 80,9 bilhões, desconsiderados os abatimentos. A explicação para a redução da
contenção para um contingenciamento de R$ 13,6 bilhões, que visa impedir que a
meta seja descumprida, é que as estimativas das despesas com benefícios
previdenciários recuaram R$ 13,6 bilhões, os benefícios de prestação continuada
(BPC) caíram R$ 1,8 bilhão e o peso da folha salarial ficou R$ 4,5 bilhões mais
leve.
Tanto os benefícios previdenciários como os
gastos com o BPC foram subestimados nas peças orçamentárias do atual governo. É
intrigante que quando uma fila de pelo menos 1,8 milhão de pessoas que
requeriam aposentadoria no ano tenha sido zerada, as despesas, com o aumento de
beneficiários, tenha caído, e não pouco. Talvez o segredo esteja na palavra
estimativas. Comparando-se as rubricas com o previsto na lei orçamentária,
nota-se que os pagamentos a aposentados e pensionistas estão só R$ 3 bilhões
menores — R$ 1,122 trilhão orçado, R$ 1,119 trilhão previsto na quarta revisão
bimestral. Da mesma forma, os gastos do BPC previstos no orçamento, de R$ 132
bilhões, não caíram, mas subiram para R$ 142 bilhões agora.
As previsões de receitas teriam mesmo de ser
revistas diante de um crescimento menor, de 2,27% do PIB no início do ano para
2%, com a economia perdendo ritmo na segunda metade do ano. Mesmo assim, a
arrecadação do governo cresceu em relação à prevista no orçamento, de R$ 3,198
trilhões para R$ 3,221 trilhões.
Por outro lado, as despesas crescem mais que
a arrecadação. As despesas obrigatórias, que têm expulsado progressivamente
gastos de custeio e investimento do orçamento, avançaram R$ 22,9 bilhões nas
estimativas entre o terceiro e o quarto bimestres, mas estão R$ 54 bilhões
maiores do que o previsto na LOA. Há uma acomodação nas despesas
discricionárias do Executivo, que aumentaram R$ 18 bilhões nas estimativas em
relação ao bimestre anterior. No entanto, elas estão exatamente como estavam
quando orçadas, em R$ 244 bilhões. E houve um salto de R$ 20 bilhões nos
créditos extraordinários no bimestre, de R$ 43 bilhões em relação à lei
orçamentária, para acomodar despesas diversas consideradas urgentes. Os
subsídios aos combustíveis, prorrogados ao custo de R$ 7 bilhões mensais,
consumirão R$ 40 bilhões.
O endividamento cresce não apenas por
desequilíbrios orçamentários, mas, em um ano eleitoral, pelas despesas
financeiras do governo (excluídos juros) incorridas para ampliar o crédito em
todos os setores. Estimativa da FGV aponta que o montante chega a R$ 254,8
bilhões, sendo R$ 166,7 bilhões que excluem os financiamentos recorrentes. A
SPE calculou que neste ano o impulso fiscal, que compara gastos públicos feitos
acima do crescimento do PIB com gastos ao ritmo do PIB, foi de 0,8 ponto
percentual. O Banco Central diminuiu sua previsão do avanço da economia para o ano
para 1,8%, enquanto a Fazenda mantém 2%. Um pouco menos da metade da expansão,
portanto, foi incentivada por estímulos fiscais e parafiscais.
O governo Lula vê no avanço dos gastos públicos o motor do crescimento e, diante das restrições da política monetária, com juros altos para conter a inflação, uma forma de evitar que as atividades esfriem a ponto de prejudicar as ambições de continuidade no poder. O resultado é um quádruplo infortúnio: inflação resistente, juros muito elevados, endividamento galopante e economia em desaceleração.
O encontro que o mundo observa
Por Correio Braziliense
O Brasil precisa manter negociações próprias
com Washington e Pequim, tratando cada relação por seus méritos específicos,
sem se deixar transformar em peça no tabuleiro de nenhum dos dois
A visita do líder chinês Xi Jinping à Casa
Branca nessa quinta-feira — recebido com tapete vermelho, revista de tropas e
sobrevoo do bombardeiro B-2 — foi mais do que protocolo diplomático. Foi um
sinal de que, apesar da rivalidade estrutural entre Estados Unidos e China, os
dois países reconhecem que o confronto aberto tem custos que nenhum dos dois
está disposto a pagar. Xi pediu "não conflito e não confronto". Trump
falou em "amizade verdadeira baseada no respeito mútuo". A linguagem
é diplomática e calculada, mas o fato de que ela existe, e que foi dita em cerimônia
pública na Casa Branca, já diz algo.
A relação entre China e Estados Unidos é o
eixo em torno do qual gira boa parte da economia global. Cadeias de suprimento,
mercados de tecnologia, rotas comerciais, fluxo de capital, preço de
commodities: praticamente tudo que movimenta o planeta passa pela capacidade e
pelo desejo dos dois países. Quando as duas potências atritam, o custo se
distribui pelo mundo. Quando cooperam, os benefícios também. Para as economias
que vivem entre os dois polos — o Brasil entre elas —, a equação é simples na
teoria e complexa na prática: o melhor cenário é aquele em que Washington e
Pequim encontram regras de convivência que estabilizem o ambiente global, sem
que nenhum dos dois exija alinhamento exclusivo de seus parceiros.
O tema da inteligência artificial (IA), que
Trump havia anunciado como central na reunião, expôs a única divergência
explícita do encontro. Xi indicou preocupação com a regulação da tecnologia e
defendeu que o desenvolvimento da IA "permaneça sempre sob controle
humano". Trump, que nas últimas semanas tem feito apelos ao avanço
acelerado da IA para não perder terreno para Pequim, ouviu em silêncio. A
contradição é reveladora: cada lado quer liderar a corrida e, ao mesmo tempo,
quer que o outro desacelere. O acordo sobre IA, se vier, será um dos mais
importantes da década.
Para o Brasil, a lição prática desse encontro
é que o país não pode depender do resultado das conversas de outros para
definir sua política externa. A estabilidade que uma boa relação entre China e
Estados Unidos pode trazer ao cenário global é bem-vinda — e o Brasil deve
torcer por ela. Mas torcer não é estratégia. O país precisa manter negociações
próprias com Washington e Pequim, tratando cada relação por seus méritos
específicos, sem se deixar transformar em peça no tabuleiro de nenhum dos dois.
Diversificar parcerias não é neutralidade passiva. É autonomia ativa.
O diálogo entre Trump e Xi não resolve as tensões estruturais entre as duas potências, nem era esse o objetivo. Mas demonstra que, mesmo entre rivais com interesses profundamente opostos, a conversa direta é preferível ao silêncio armado. É uma lição que vale além de Washington. Enquanto houver mesa de negociação, há possibilidade de diálogo e de acordo.
El Niño aponta perigos do aquecimento global
Por O Povo (CE)
Um novo documento do Laboratório de Impacto
Climático da Universidade de Chicago, divulgado em sua plataforma de notícias,
avalia que mais de 451 mil mortes adicionais podem ocorrer devido ao Super El
Niño. O cálculo considera o calor extremo, impacto das secas, incêndios
florestais e inundações, devido às altas temperaturas e alteração no padrão das
chuvas.
O relatório registra que o Super El Niño,
iniciado em junho, vai permanecer até fevereiro de 2027. Assim, a previsão das
fatalidades refere-se ao lapso de tempo durante a ocorrência do evento
climático. Pela projeção dos cientistas, os dias extremamente quentes devem
quase dobrar até fevereiro de 2027, ficando pelo menos 1,2 grau Celsius acima
do normal, em comparação com anos anteriores.
Segundo os pesquisadores, este El Niño pode
se tornar o mais forte já registrado. O estudo prevê as regiões nas quais
poderá haver o maior número de mortes. Portanto, os governos dessas regiões
podem iniciar a preparação de providências com o objetivo de salvar o maior
número possível de vidas.
A maior quantidade de vítimas está no Sul
Global, principalmente nas áreas mais vulneráveis. Com 13,3 mil mortes
previstas, o Brasil deverá ser o país mais afetado da América Latina devido ao
fenômeno causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico. A
maioria das ocorrências em território brasileiro deverá atingir cidades do
Norte e Nordeste, principalmente no Pará (2,3 mil fatalidades), Maranhão (1,3
mil), além de Amazonas e Bahia, com 1,2 mil em cada estado. O Ceará não é
citado no relatório.
Os pesquisadores alertam que o número
apresentado não é uma previsão inevitável de mortes. Trata-se de uma estimativa
que poderá ser evitada com medidas de adaptação adequadas a cada situação.
É preciso atenção especialmente a um ponto do
documento preparado pelos cientistas. Eles dizem que esse Super El Niño seria
uma espécie de "postal para o futuro". Isso significa que as
temperaturas provocadas hoje pelo fenômeno meteorológico poderão se tornar o padrão
em cerca de 20 anos, devido ao aquecimento global.
É de se perguntar por que tema de tamanha
importância é pouco debatido na campanha eleitoral. Seria importante saber o
que cada candidato a presidente tem a dizer e, especialmente a propor, sobre o
assunto. Cidades do Sul e Sudeste já enfrentam os possíveis efeitos do El Niño
com chuvas acima da média e desastres provocados pelas enchentes. Ao mesmo
tempo, o Nordeste ressente-se de precipitações abaixo da média.
Mesmo com todas essas evidências, os negacionistas insistem em dizer que o problema não existe, como fez recentemente o presidente Donald Trump em discurso na Organização das Nações Unidas (ONU).

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