segunda-feira, 25 de setembro de 2023

Opinião do dia – Luiz Sérgio Henriques*

“Associando a luta pela igualdade e a democracia política como terreno privilegiado desta mesma luta, o presidente brasileiro afasta-se, afortunadamente, tanto dos “aventureiros de extrema direita”, que menciona, quanto dos de extrema esquerda, que por lapso não menciona. Na mesma viagem, precioso o encontro com o presidente Joe Biden, em que os direitos do trabalho na reconfiguração da economia foram colocados no centro das preocupações do democrata e do petista. Não é de hoje que a esquerda brasileira precisa descobrir vida inteligente entre os liberals norte-americanos, arquivando clichês sobre o imperialismo e descobrindo formas de cooperação.

Além de reafirmar o lugar do trabalho nas sociedades de informação, os dois presidentes demonstram saber que é preciso atrair os que se sentem deixados de lado na globalização. Trata-se de compromissos que, adotados com coerência, contêm elementos essenciais daquela disposição hegemônica para dar conteúdo social a todas as democracias, revigorar as respectivas sociedades civis e projetá-las como capazes de superar pacificamente novas e antigas autocracias.”

*Tradutor e ensaísta, é um dos organizadores das Obras de Gramsci no Brasil. “Contra a lógica das guerras frias”. O Estado de S. Paulo, 24.9.23 e reproduzido no Blog Democracia Política e novo Reformismo.


Fernando Gabeira - Do trabalhador precário ao trabalhador supérfluo

O Globo

Somos simultaneamente ameaçados pela emergência climática, pela precariedade e até pela inutilidade do trabalho

Merece aplausos a iniciativa de Lula e Biden por uma ampla coalizão pela dignidade do trabalho. Por coincidência, na semana passada tratei do tema, escrevendo sobre os entregadores por aplicativos. Ao mesmo tempo que aplaudo, confesso que são muitas as dificuldades a vencer. A precariedade do trabalho não nasceu do nada, mas de um processo econômico e também, em grande medida, da própria revolução digital.

A importante iniciativa de Lula e Biden contém um cálculo político saudável: como evitar que massas de trabalhadores informais caiam nos braços da direita e se afastem das posições dos trabalhadores tradicionais, entre os quais a solidariedade é um valor político e humano.

De modo geral, o trabalhador informal se sente um lutador solitário, um empreendedor. É difícil imaginá-lo contido em organizações sindicais, muitas delas surgidas no contexto do disciplinado trabalho fabril. Mas, por mais que se veja apenas como indivíduo isolado, certamente algumas inquietações surgirão em seu caminho. Uma delas é a expectativa de proteção na velhice, de uma aposentadoria decente.

Marco Aurélio Nogueira* - Em busca de equilíbrio

O Estado de S. Paulo

Afirmações de Lula e de Flávio Dino expressam a dificuldade que a política externa do Brasil tem tido de se equilibrar na nova balança do poder global

No mesmo momento em que relembramos os 50 anos do golpe que derrubou a democracia no Chile (1973), provocando a morte de seu presidente, Salvador Allende, e abrindo um ciclo de horrores, torturas e violências, é paradoxal que o governo brasileiro – nas pessoas de Lula e do ministro da Justiça, Flávio Dino – levante suspeitas sobre o Tribunal Penal Internacional (TPI).

Depois de Lula declarar em 11/9 que desconhecia a existência do TPI e não cumpriria a ordem de prisão de Vladimir Putin, presidente da Rússia, o ministro Flávio Dino não só endossou a posição do presidente, como foi além, acrescentando que o governo brasileiro pode rever a adesão àquele tribunal, que, em sua opinião, funciona de modo “desequilibrado” porque não é endossado por países como Estados Unidos, Rússia e China. Disse o ministro: “O TPI é de algumas nações, e não de todas, e é esse o alerta que o presidente fez, no sentido da necessidade de haver igualdade entre os países. Ou seja: ou todos aderem ou não faz sentido um tribunal que seja para julgar apenas uns, e não outros”.

Denis Lerrer Rosenfield* - O antibolsonarismo

O Estado de S. Paulo

Como o antipetismo de Bolsonaro não podia justificar seus arroubos, o antibolsonarismo não pode ser justificativa para os arroubos retrógrados lulistas

O antibolsonarismo de Lula é o exato contraponto do antipetismo de Bolsonaro. Nenhum disse ou diz algo de positivo sobre o Brasil, planos exequíveis e concretos, para além das platitudes de ocasião. São os mestres da verborragia!

O anterior presidente encontrava comunistas (ou socialistas e petistas) até debaixo da cama, como se isso justificasse todos os seus arroubos, senão ameaças à democracia, à organização republicana, quando não ao meio ambiente graças a todo o seu afrouxamento das instâncias de controle ambiental e aos seus discursos que terminavam por apoiar o desmatamento. Tornou o Brasil um pária ambiental. Contudo, manteve o discurso da responsabilidade fiscal, apesar de nem sempre segui-lo, da necessidade de privatizações e concessões, sempre partindo dos pilares de uma economia de mercado. Do ponto de vista econômico, deixou uma herança bendita que está sendo apropriada pelo petismo, sem enrubescer os seus protagonistas. Nada muito diferente do que Lula 1 fez com a herança bendita do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, escandalosamente dita “maldita”.

Felipe Moura Brasil - O supremo oportunismo

O Estado de S. Paulo

Os ministros responsáveis pela ‘articulação política’ do governo Lula são do STF

O tribunal vem atropelando o Congresso para impor a agenda da esquerda lulista – descriminalização do aborto e do porte de maconha, volta do imposto sindical, rejeição do marco temporal, afrouxamento da lei das estatais –, assim como atropela a Justiça Federal para julgar réus sem foro privilegiado no caso do 8/1 e para blindar o juiz Eduardo Appio, o “LUL22”, mesmo após sua tentativa de intimidar um desembargador do TRF-4 com telefonema para o filho dele, fingindo ser outra pessoa.

Miguel de Almeida - Plebiscito, já

O Globo

População deve dizer se é a favor ou contra a Petrobras furar poços na Margem Equatorial

Não é pule de dez que Lula da Silva consiga o almejado Prêmio Nobel, em sua roupagem de militante ambiental. Mas quase tão certo quanto o general Heleno não estar relendo “Em busca do tempo perdido”, de Proust, é Lula 3 permitir que a Petrobras explore a Margem Equatorial.

São as esquizofrenias da política petista:

1) Elege-se Lula, numa frente ampla, mas é o bolsonarista Arthur Lira quem nomeia vários ministros e ainda diretores de bancos estatais. E exige que a Polícia Federal deixe de cometer exageros, como… investigar seus suspeitos aliados nos cafundós de Alagoas.

2) Em discurso lido na ONU, Lula cobra os países ricos por mais fundos em defesa da Amazônia. Lindo. Meus netos agradecem. Mas antes deixou no Brasil o próximo orçamento com indicativos da exploração de petróleo na Margem Equatorial. Além de seu ministro de Minas e Energia acenar — sim! — que ninguém tasca, a Petrobras vai furar uns poços por ali. A população do Amapá (733 mil habitantes pelo último Censo) recebeu a notícia em viva voz do próprio presidente: pode contar com o novo empreendimento.

Bruno Carazza* - A favor da cota para as mulheres nos três Poderes

Valor Econômico

Não há como imaginar que reserva de lugares para mulheres piorará o país

Faleceu na quinta-feira (21) Tereza Grossi, diretora de Fiscalização do Banco Central entre 2000 e 2003. Servidora de carreira, ela galgou todos os postos de chefia no órgão, sendo a principal responsável pelo processo de modernização dos métodos de supervisão bancária num momento crucial da economia brasileira, quando a estabilização inflacionária expôs as vulnerabilidades das instituições financeiras logo após o Plano Real. Muito elogiada pelos seus contemporâneos em função de sua competência técnica, Tereza Grossi é também lembrada por ter sido a primeira mulher a ser nomeada para a diretoria do Bacen e a integrar o Comitê de Política Monetária (Copom), o colegiado que define a meta da Selic, a taxa básica de juros.

Alex Ribeiro - Copom deve usar o juro no combate ao risco fiscal?

Valor Econômico

Copom está levando em conta a má situação das contas públicas e está calibrando a Selic para combater seus efeitos na inflação projetada e nas expectativas

Especialistas em política monetária, alguns com passagem pelo Banco Central, acham que o Comitê de Política Monetária (Copom) deveria combater, com juros mais altos, os impactos inflacionários causados pela má situação fiscal do país.

O argumento desses economistas é que os documentos oficiais do Copom admitem que uma parte relevante da desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo é causada pelo ceticismo dos agentes econômicos sobre o cumprimento das metas fiscais. Seria trabalho do BC combater qualquer desancoragem, independentemente da origem.

Atualmente, o mercado financeiro projeta no boletim Focus uma inflação de 3,5% a partir de 2025, acima da meta contínua definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), de 3%. O consenso dos analistas, por outro lado, é que haverá um déficit primário de 0,73% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2024, acima do objetivo definido pelo Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias, de zerar esse resultado negativo.

Assis Moreira - Mais recursos externos para projetos sociais e verdes em 2024

Valor Econômico

Nas Nações Unidas, presidente Lula anunciou mais um objetivo de desenvolvimento sustentável

A revisão estratégica da Cofiex (Comissão de Financiamento Externo) deverá fomentar mais financiamento vindo de bancos multilaterais para projetos ambientais e sociais a partir de 2024, informa a Secretária de Assuntos Internacionais e Desenvolvimento do Ministério do Planejamento, Renata Vargas Amaral.

A Cofiex é responsável por aprovar captação de crédito externo com garantia da União. Em 2023, o limite de garantia soberana pelo Tesouro Nacional para obter financiamentos oficiais externos é de US$ 7,5 bilhões (R$ 36,9 bilhões). A carteira ativa de projetos financiados com recursos externos no Brasil está em US$ 35 bilhões (R$ 170 bilhões) entre projetos aprovados e em negociação.

Mario Mesquita* - Pouso suave, ou a desinflação milagrosa

Valor Econômico

A inflação nos EUA caiu em parte porque se dissiparam os efeitos de uma série de choques e limitações de oferta

A decisão de política monetária dos Estados Unidos, na semana passada, elevou o nervosismo e grau de preocupação nos mercados sobre a trajetória das taxas de juros, com implicações globais.

Como ocorre com frequência com os bancos centrais, os investidores reagiram mais à comunicação do que à decisão em si, de manter a taxa de política monetária entre 5,25% e 5,5% ao ano, que era amplamente esperada. A comunicação do Fed inclui textos (comunicado e ata), projeções, a mediana, bem como visões individuais dos membros do comitê de política monetária, e uma entrevista coletiva do presidente, Jay Powell.

O comunicado, em si, não trouxe grandes novidades na direção hawkish, apenas a mudança na avaliação sobre o ritmo de expansão da atividade econômica, de “moderado” para “sólido” (tradução minha). O mesmo, ligeiramente dovish, reconheceu que a criação de emprego desacelerou, mas se mantém robusta.

Marcus André Melo* - Gilberto Freyre feminino

Folha de S. Paulo

Entre a 'sociologia pouco viril' e o habeas corpus : Freyre e o 'Grande Ruy'

Em Casa Grande & Senzala, publicada há exatos 90 anos, Gilberto Freyre foi acusado de praticar uma "sociologia pouco viril"; "uma sociologia de casas velhas, que sugere preocupações apenas femininas em torno de assuntos melancolicamente mortos ou docemente inofensivos", como escreveu em Sobrados e Mocambos. A obra pecaria, segundo seus críticos, pelo que chamou de falta de "varonilidade sociológica".

Sua preocupação com a casa, um espaço socialmente dominado pela mulher; com a vida privada, a vida sexual de senhores e escravos ("uma sociologia do interior de alcova"; famílias e hábitos. E contrastava com o que entendiam ser uma sociologia masculina "para eles ligada apenas as questões jurídicas e políticas, aos problemas do dia agitados na ágora, na praça, na rua, por homens públicos seguros de tudo poderem resolver dentro do legalismo ou da lei, dentro da constituição ou com o habeas corpus."

Ana Cristina Rosa - 'Coisa de preto' 2

Folha de S. Paulo

Torcendo pelo dia em que 'coisa de preto' seja sinônimo de denunciar crime de racismo.

Num país onde há racismo sem racistas, a cassação do mandato do vereador Camilo Cristófaro (Avante) pela Câmara Municipal de SP é uma vitória a ser enaltecida por todos os que se consideram antirracistas.

Não só pelo ineditismo da decisão – é a primeira vez que um político perde o mandato por quebra de decoro parlamentar em decorrência da prática de crime de racismo. Mas também pelo reconhecimento de que o Estado/Poder Público não deve deixar de punir a conduta de quem reconheceu "ter tido uma fala racista".

Lygia Maria - Aborto em jogo

Folha de S. Paulo

Debate violento e polarizado impede formação de consensos necessários para lidar com grave questão de saúde pública

A polêmica sobre o aborto remete ao postulado de Ludwig Wittgenstein segundo o qual todo problema filosófico é, antes de tudo, um problema de linguagem. A discussão é polarizada e violenta porque os interlocutores têm compreensões muito distintas sobre termos fundamentais ao debate.

Cada grupo utiliza as palavras como peças de tabuleiro em jogos de linguagem com regras específicas.

Ruy Castro - O show de horrores da moda da década de 1970

Folha de S. Paulo

Nunca houve moda masculina mais pavorosa e cafona do que a dos anos 1970; o jeito era andar nu

Sabe os "anos dourados"? São sempre aqueles de 30 anos atrás. Entre outras, porque você tinha 30 anos a menos e já se esqueceu das agruras e amarguras que viveu naquele tempo. Se isso é verdade, significa que, hoje, os anos dourados foram a década de 1990. Só que, na década de 1990, as pessoas também situavam os "anos dourados" 30 anos antes, ou seja, na década de 1960. E assim por diante. Nunca ouvi alguém dizer: "Que maravilha! Estamos vivendo nos anos dourados!"

O que a mídia pensa: editoriais / opiniões

Resultado do Desenrola é incerto

O Globo

Governo prevê leilão para desconto em dívidas enquanto Congresso ainda discute MP que criou o mecanismo

Expira no início da semana que vem a Medida Provisória (MP) que criou o Desenrola Brasil, programa do Ministério da Fazenda para renegociar dívidas de pessoas físicas. Enquanto a MP ainda está em vigor, o governo prevê realizar nesta semana o primeiro leilão de dívidas em que estarão disponíveis recursos do Fundo Garantidor de Operações (FGO). Nele, os credores poderão oferecer descontos aos devedores, e a diferença será coberta pelo Erário até o limite de R$ 8 bilhões.

A meta do governo é limpar o nome de milhões de contribuintes na praça, para que voltem a obter crédito e possam ajudar a empurrar a economia pela via do consumo. Considerando as dívidas até R$ 5 mil, o estoque que poderá ser renegociado é de R$ 78,9 bilhões (ou 65,9 milhões de contratos). Se o limite das dívidas for de R$ 20 mil, o total soma R$ 161,3 bilhões, e o benefício poderia alcançar quase 33 milhões de brasileiros.

Poesia | Ausência - Carlos Drummond de Andrade

 

Música | Nara Leão - O Tic-Tac do meu coração

 

domingo, 24 de setembro de 2023

Luiz Sérgio Henriques* - Contra a lógica das guerras frias

O Estado de S. Paulo

Além de reafirmar o lugar do trabalho nas sociedades de informação, Biden e Lula demonstram saber que é preciso atrair os que se sentem deixados de lado na globalização

Para os adeptos de choques frontais, a passada guerra fria terá sido uma época dourada cujos cacoetes e hábitos mentais carregarão pela vida afora. De fato, capitalismo e comunismo se enfrentavam como sistemas quase fechados e antagônicos num jogo de soma zero. A passagem de um país ao “campo socialista” era uma perda irreversível para o que se chamava de mundo livre, prenunciando um catastrófico efeito dominó, uma vez que outras peças logo seriam derrubadas num movimento sem volta. E posições como a dos não alinhados patinavam sem maior identidade, em busca de uma jamais bem definida via não capitalista de desenvolvimento.

Os atores desse drama tiveram sua dose de razão, quando menos até o ponto em que a rivalidade russo-chinesa, estrategicamente explorada por Nixon-Kissinger, fragmentou o tal campo socialista. Mas antes disso, bem menos visível, a derrota daquele comunismo estava como que inscrita nas coisas. Não importa, aqui, o impacto geral da Revolução

Merval Pereira - O que faltava

O Globo

O acordo do PT com o Partido Comunista Chinês é um passo perigoso do partido do governo na direção do questionamento da democracia como valor universal para o Ocidente.

O presidente Lula recentemente disse que “o conceito de democracia é relativo”, citando como exemplo a ditadura da Venezuela que, segundo ele, tem mais eleições que o Brasil. O ex-ministro da Fazenda de Bolsonaro, Paulo Guedes, por sua vez, disse dias atrás em uma aula num curso online de economia que a ditadura militar do Brasil nos anos 1964 a 1985 “tinha aspectos de um governo conservador”, e alegou que o Congresso funcionava normalmente, dando respaldo às decisões governamentais.

Lula “esqueceu” de dizer que os poderes na Venezuela, assim como as eleições, são apenas aparentes, como o foram na ditadura brasileira que ele tanto critica, e Paulo Guedes também “esqueceu” que o Congresso foi fechado várias vezes no regime ditatorial, partidos políticos foram extintos, e políticos e cidadãos cassados de seus direitos. Sem contar as torturas ocorridas nos dois países. Tudo isso para dizer que o acordo com o Partido Comunista Chinês firmado pelo PT é um passo perigoso do partido do governo na direção do questionamento da democracia como valor universal para o Ocidente.

Míriam Leitão - O retrocesso das Forças Armadas

O Globo

Se os militares que tramaram um golpe forem realmente punidos, será a primeira vez que isto acontecerá na história do país

Na noite da quinta-feira, 21, quando o ministro da Defesa, José Múcio, chegou na casa do almirante Marcos Olsen, comandante da Marinha, era o fim de um dia inteiro administrando a tensão entre o governo e as Forças Armadas pela revelação de que o ex-presidente Bolsonaro havia se reunido com os três comandantes e discutido um golpe de estado. O brigadeiro Marcelo Damasceno, comandante da Aeronáutica, foi à tarde ao seu gabinete. Com o general Tomás Paiva, comandante do Exército, o ministro falou por telefone. O general estava na Amazônia. Dos três ouviu a mesma coisa que disse aos jornalistas que o procuraram: as Forças Armadas, como instituição, não entraram no projeto autoritário, e é preciso saber quem individualmente praticou quais crimes.

Dorrit Harazim – Solidão

O Globo

Soluções simples e baratas, como colocar bancos em corredores de blocos de apartamentos sociais, propiciam a prosa entre vizinhos

“All the lonely people/Where do they all come from?”, perguntava em 1961, com terna insistência, o refrão de “Eleanor Rigby”. Pois foi justamente uma chefe de governo britânica, a ultraconservadora Theresa May, que procurou responder à canção dos Beatles quase seis décadas depois. Para espanto e descrédito generalizado, em 2018 ela criou uma nova pasta — o Ministério da Solidão —, cujo nome oficial logo fez a festa em redes sociais e programas de humor.

— Isso soa a eufemismo vitoriano para gigolô — lançou o comediante Stephen Colbert.

— Poderia ser a criação literária de um José Saramago, Haruki Murakami ou Gabriel García Márquez — arriscou Carmen Graciela Díaz.

De lá para cá, a pasta já trocou de titular múltiplas vezes devido à óbvia dificuldade de pensar em estratégias de governo para um problema emocional e individual. Ainda assim, ao completar cinco anos de existência, o ministério já gerou filhotes no Japão e na Alemanha, criou demanda na Austrália e países escandinavos e integra definitivamente as preocupações do doutor Vivek Murthy, atual cirurgião-geral dos Estados Unidos, responsável pela saúde pública do país. Os argumentos de Murthy estão em recente relatório de 81 páginas: a solidão tem letalidade comparável à do cigarro para quem fuma 15 cigarros por dia e superior à do álcool pra quem consome seis doses diárias. Sem falar em possíveis desdobramentos numa série de doenças.

Elio Gaspari - O bom negócio que Rockefeller não viu

O Globo

No próximo dia 4 de outubro, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) julgará um embargo de declaração que envolve a disputa dos municípios de São Gonçalo, Magé e Guapimirim pela partilha dos royalties do petróleo.

Embargos de declaração e partilhas de royalties são assuntos complicados, com “linhas de projeção ortogonais”, “trânsitos em julgado” e “áreas geoeconômicas”. Esse litígio, contudo, expõe a barafunda jurídica instalada no país e os bons negócios que ela permite.

São Gonçalo, Magé e Guapimirim estão dentro da Baía da Guanabara e querem ser reconhecidos como parte da Zona de Produção Principal. Assim, tomada como referência a produção de 2022, receberiam R$ 610 milhões por trimestre. (A partilha varia de acordo com a produção.) Como o dinheiro sai de uma só cumbuca, municípios que ficam diante do mar aberto, como o Rio de Janeiro e Niterói, perderiam com a revisão dos percentuais da partilha.

Luiz Carlos Azedo - O voto histórico de Rosa Weber pelo direito ao aborto

Correio Braziliense

O Código Penal brasileiro, que criminaliza a interrupção da gravidez, é da década de 1940 do século passado, quando as mulheres tinham uma ‘cidadania de segunda classe'”, lembrou a presidente do STF

O conceito de “lugar de fala” ficou famoso após a publicação do livro da filósofa paulista Djamila Ribeiro, O que é lugar de fala, principalmente no movimento negro, sendo adotado como uma espécie de atestado de legitimidade para qualquer tese identitária. Muitas vezes, é desvirtuado e usado como um meio para desqualificar o interlocutor que não vive o mesmo problema ou situação, com o argumento categórico do tipo “você não pode falar sobre isso porque não tem lugar de fala”.

Djamila ampliou a questão do feminismo negro (Quem tem medo do feminismo negro?) na perspectiva de criticar e superar as cisões da sociedade causadas pelas desigualdades e pensar novos marcos civilizatórios. A partir do conceito de “lugar de fala”, a filósofa destaca as denúncias sobre a esterilização forçada de mulheres negras, na década de 1980, que resultaram numa comissão parlamentar de inquérito na Câmara dos Deputados, como uma espécie de gênese do feminismo negro no Brasil.

Eliane Cantanhêde - Congresso X Supremo

O Estado de S. Paulo

Na despedida, Rosa Weber expõe um Supremo na vanguarda e um Congresso conservador

Sabem quando todos brigam e ninguém tem toda razão? É esse o caso da queda de braço entre Supremo e Congresso, em torno de quatro temas que não são partidários nem ideológicos e dizem respeito a toda a sociedade: aborto, porte de pequenas quantidades de maconha, casamento homoafetivo e marco temporal das terras indígenas.

É óbvio (muitas vezes o óbvio precisa ser lembrado) que o Legislativo legisla, o Executivo executa e o Judiciário julga. Porém, o Supremo é acusado há tempos de “furor legiferante”, por tomar decisões com contornos e efeitos de lei e que, portanto, caberiam ao Congresso. Esses quatro temas se encaixam aí.

Celso Ming - Subsídios que põem fogo no planeta

O Estado de S. Paulo

 Na Cúpula de Ambição Climática, realizada dia 20 na sede das Nações Unidas, em Nova York, o secretário-geral da ONU, António Guterres, citou um levantamento do Fundo Monetário Internacional para pedir urgência no tratamento da crise ambiental.

Os subsídios para produção e consumo de combustíveis fósseis atingiram no mundo, em 2022, a bagatela de US$ 7 trilhões – o equivalente a 7,1% do PIB global.

São recursos que poderiam financiar investimentos para acelerar a transição energética. Essa substituição enfrenta a resistência dos governos, seja porque temem o impacto da alta dos combustíveis sobre o custo de vida, seja porque não querem abrir mão da renda proporcionada pelo petróleo ou pelo carvão.

Affonso Celso Pastore - A inflação mundial

O Estado de S. Paulo

No campeonato mundial entre os BCs, o Brasil fica com a taça do que pratica as taxas mais elevadas

Não é apenas o Brasil que vem batalhando para reduzir a inflação à custa de taxas reais de juros elevadas. O curioso é que até o início de 2020 vivíamos a situação oposta. Havia, entre os países desenvolvidos, o fenômeno que Larry Summers chamou de estagnação secular, em que o aumento da longevidade, proporcionada pelos progressos nos campos médico e sanitário, elevou em tal intensidade a poupança dos mais jovens que chegamos a um quadro de insuficiência da demanda agregada, de baixo crescimento econômico e de taxas reais de juros muito baixas.

A pandemia mudou radicalmente este quadro. Após um período de pouco mais de um ano, no qual o afastamento social gerou um adicional “excesso de poupanças”, impedindo que os enormes estímulos fiscais e monetários expandissem rapidamente a demanda agregada, ocorreu o inevitável superaquecimento das economias, que elevou as taxas de inflação. Os bancos centrais ao redor do mundo tiveram de colocar as políticas monetárias em território restritivo, mas na dosagem do remédio estão sendo obrigados a levar em conta que os juros neutros não são mais baixos, e determinados predominantemente pela transição demográfica, e sim altos, devido à política fiscal expansionista.

Rolf Kuntz - A geopolítica pessoal de Lula

O Estado de S. Paulo

Com ele, Brasil voltou a ser um participante normal das relações internacionais, apesar dos tropeços que lembram seu tempo juvenil no palanque em Vila Euclides

O Exército Brancaleone podia ser um trambolho ineficiente e mal-ajambrado, mas era um exército, pelo menos na ficção cinematográfica. O tal Grupo dos 77, oficialmente reunido em Cuba durante a passagem de Lula, mal chega a ser um ente fictício. É pouco mais que um nome, assim como o Sul Global, uma entidade etérea celebrada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em Havana e em Nova York. Em Cuba, foi programado um discurso do presidente brasileiro a autoridades do G-77. Na hora marcada, o auditório estava quase vazio. Mas a lenda parece atraente. Governos anunciaram adesões e com isso o conjunto poderá ultrapassar 130 países. A atuação dos 77 e seus efeitos práticos são pouco visíveis, até agora, e mal se pode especular sobre as consequências da ampliação. Mas nada reduz o valor moral, político e diplomático das palavras de Lula. Além disso, vale a pena registrar o interesse mostrado pelo governo chinês.

Vinicius Torres Freire - Cadeia para militares é difícil após uma década de acordão contra a democracia

Folha de S. Paulo

Degradação institucional dos últimos anos vai sendo incorporada ao sistema e impede justiça

Quem se preocupa com a punição do bolsonarismo e dos militares comparsas do projeto de golpe deveria rememorar a degradação institucional do país na última década, ao menos. Qual a possibilidade de haver processos justos, condenações e uma reforma de fundo das Forças Armadas?

O comando militar estava envolvido em um projeto de intervenção qualquer desde 2018, como ficou evidente com o ataque de Villas Boas ao Supremo e a Lula. Depois, generais e oficiais superiores foram para o governo Bolsonaro a fim de aproveitar a boca rica e assessorar o golpe. Na última semana, apareceram mais pistas fortes de que parte dos oficiais-generais da ativa discutia um golpe e outra assistia a tudo sem denunciar o crime, uma prevaricação fundamental.

Uma tentativa séria de erradicar o golpismo das Forças Armadas exigiria um processo à maneira do que se fez na Argentina e no Chile, ainda que em outra escala, além de mudança de comportamentos, promoções e formação. O mais provável, porém, é que sobrevenha um arranjo em que bodes serão sacrificados e que um acordão deixe tudo como fundamentalmente está. Esse é um resumo dos arranjos que salvaram os podres evidenciados nesta última década.

Celso Rocha de Barros - Cid entregou Bolsonaro

Folha de S. Paulo

Ex-presidente propôs o golpe sabendo que estava propondo uma guerra civil

Se há um sujeito burro o suficiente para morrer na cadeia por Bolsonaro, ele não deve ter sido primeiro colocado em sua turma no Exército.

Por esse motivo, o tenente-coronel Mauro Cid resolveu entregar Jair para a polícia: não quis ser mártir em uma religião cujo messias já planejava se aposentar com mesada do Valdemar Costa Neto e um pé de meia construído com muamba.

Segundo trechos da delação de Cid já obtidos pela imprensa, o então presidente Jair Bolsonaro convocou uma reunião com os chefes das Forças Armadas após ter sido derrotado na eleição presidencial de 2022.

Trazia uma minuta de declaração de golpe que lhe teria sido entregue pelo assessor Filipe Martins. Martins é um seguidor de Olavo de Carvalho, guru do Bolsonarismo que faleceu, com imperdoável atraso, em 2022.

Bruno Boghossian - Manobra reduz impulso de julgamento sobre aborto no STF

Folha de S. Paulo

Tribunal exibe receio de enfrentar um tema que parece depender de artifícios pouco convencionais

Mandar ações do 8 de janeiro para o plenário virtual do STF, sem debate entre ministros e com espaço limitado para as defesas, foi uma barbeiragem de Rosa Weber e Alexandre de Moraes. Usar o mesmo expediente para abrir o julgamento da descriminalização do aborto foi uma manobra mais cuidadosa da presidente.

Hélio Schartsman - Como a loucura mudou a história

Folha de S. Paulo

Livro mostra efeitos de transtornos e doenças mentais sobre governantes

Idi Amin Dada foi um dos mais brutais ditadores da África, continente pródigo em ditaduras brutais. Governou Uganda nos anos 70, quando mandou torturar e matar uns 300 mil. Tomou várias decisões com base em caprichos que depois prejudicaram seu governo. Gostava de atribuir a si mesmo títulos grandiosos como "senhor de todos os animais da terra e peixes dos mares". Idi Amin era louco? E Hitler? Stálin? Putin? Trump?

Muniz Sodré - Ministros em órbita do jogo de poder

Folha de S. Paulo

É de se supor que a democrática representação social de um ministério deva equivaler a um certo grau de respeito político

O imperador romano Septímio Severo (193-211 d.C) mantinha o trono num salão cujas paredes reproduziam o seu horóscopo, traçado por ministros-videntes. Ali estariam os fatos marcantes de sua vida, do nascimento à data da morte, encoberta a olhares alheios. Mais importantes do que outros, esses conselheiros orientavam guerras de conquista, vitoriosas com Severo. Ministério valioso era recurso mágico do imperador.

Nas democracias, ministério guarda uma margem de representatividade social. Vale, assim, evocar Severo neste momento de incerteza pública quanto ao peso real ou apenas simbólico de ministérios. A própria clareza dos fatos leva à perplexidade: Lula entregou pastas à boca pantagruélica do centrão, mas ela continua aberta e votando a bel-prazer.

Samuel Pessôa - O que não fazer com a política fiscal

Folha de S. Paulo

Antecipar receitas de partilha lembra operações que contribuíram para quebra do Banespa

Há pouco, o Congresso Nacional aprovou o novo arcabouço fiscal. O desenho da regra está correto, apesar de ela ser insuficiente. A insuficiência do arcabouço deve-se ao elevado déficit vigente no ponto de partida. Em 2023, o déficit será da ordem de 1% do PIB.

O déficit deve-se ao aumento permanente do gasto, fruto da aprovação da emenda constitucional da transição, no fim de 2022. A aprovação dessa emenda contou com forte apoio da opinião pública.
A estratégia da Fazenda tem sido buscar a elevação da carga tributária por meio de uma série de medidas de combate ao planejamento tributário e do aproveitamento de novas bases tributárias.

Ruy Castro - Daquelas coincidências

Folha de S. Paulo

Comprei uma bengala num antiquário, saí à rua e torci o pé. Por sorte, tinha comprado a bengala

Algumas dessas histórias são, talvez, politicamente incorretas. No dia 16 de julho de 1945, os EUA cometeram o primeiro teste nuclear, no deserto de Nevada. Um membro da tribo local, os peiutes, comunicando-se por sinais de fumaça com um colega da montanha vizinha, viu subir ao longe o cogumelo atômico e exclamou: "Era isso o que eu queria dizer!!!".

Três semanas depois, no exato momento em que os americanos despejaram a bomba sobre Hiroshima, um japonês numa cidade próxima deu a descarga em seu banheiro, escutou a explosão e achou que tinha sido o causador da tragédia.

O que a mídia pensa: editoriais / opiniões

Cidades estão despreparadas para as ondas de calor

O Globo

Altas temperaturas vieram para ficar. Será preciso zelar pela oferta de água, circulação de ar e plantio de árvores

O Brasil ferve nesta passagem do inverno para a primavera. Nos últimos dias, em cidades como Teresina, Cuiabá ou Palmas, as temperaturas beiraram os 40 graus. Em quase todas as capitais, ficaram acima dos 30. O “maçarico”, dizem meteorologistas, se intensificará nos próximos dias. É só uma prévia do verão. O país precisa se preparar não só para este, mas também para os próximos verões, que serão mais e mais quentes.

Nada muito diferente do calorão que atingiu o Hemisfério Norte recentemente. Cidades dos Estados Unidos e da Europa registraram temperaturas acima dos 40 graus. Houve incêndios devastadores e letais. Num cenário que combina os efeitos das mudanças climáticas e o fenômeno El Niño, julho foi o mês mais quente da História.

Que o Brasil viverá dias de calor intenso nos próximos meses, anos e décadas, parece inescapável. A questão é como lidar com isso. Não se trata apenas de reduzir o desconforto para a população. Há um problema de organização urbana, com consequências para a saúde pública. Estima-se que pelo menos 61 mil tenham morrido de causas relacionadas ao calor em 35 países europeus no ano passado. “A onda de calor é um desastre negligenciado”, disse ao GLOBO Renata Libonati, coordenadora do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ.

Poesia | O Rio da Minha Aldeia - Fernando Pessoa

 

Música | Todo Sentimento - Chico Buarque -

 

sábado, 23 de setembro de 2023

Oscar Vilhena Vieira* - Trincheiras da desigualdade

Folha de S. Paulo

Discriminação positiva não viola o princípio da igualdade, como já afirmou o STF

Transformar uma sociedade não é tarefa fácil, especialmente quando o que está em disputa são as relações de hierarquia e subordinação. Poucas ideias têm sofrido tanta resistência ao longo da história quanto a de que todas as pessoas têm igual valor, devendo ser tratadas com igual respeito e consideração, independentemente de suas diferenças.

Nesse sentido, é mais do que bem-vinda a resolução em debate no Conselho Nacional de Justiça, por empenho da ministra Rosa Weber e do movimento de mulheres, voltada a reduzir a assimetria de gênero nos tribunais do país.

Embora as mulheres constituam hoje 51% da população brasileira, são os homens que ocupam 77% das posições em nossos tribunais. Apesar de as mulheres terem ultrapassado os homens no ensino universitário e terem alcançado 40% das vagas na magistratura de primeira instância, muitos ainda são os obstáculos para que cheguem aos tribunais em posição de igualdade. O exemplo mais constrangedor dessa disparidade encontra-se na composição do Supremo, que ao longo de sua história secular contou com apenas três mulheres.

Hélio Schwartsman - Lealdade constitucional

Folha de S. Paulo

Generais não deveriam esperar medalha por não ter embarcado em golpe

Não sei se as revelações do tenente-coronel Mauro Cid sobre movimentações golpistas na alta cúpula militar são verdadeiras nem se ele tem meios de provar o que conta, mas, pelas reações dos envolvidos, há aí uma história a ser esclarecida.

O que já dá para dizer é que os generais não deveriam esperar medalhas por não ter embarcado num golpe. Não fizeram mais do que a obrigação —e talvez menos. Há uma polêmica em relação a se eles tinham o dever legal de denunciar a trama logo que dela tiveram conhecimento. Alguns juristas pensam que sim, outros sustentam que a condição de subordinados os desobrigava de levar as maquinações do chefe a público. Em relação ao dever ético, contudo, não há controvérsia. A denúncia era um imperativo moral. A lealdade última dos comandantes militares é para com a Constituição e o país, não para com inquilinos passageiros do Alvorada.