Correio Braziliense
Todo aventureirismo é perigoso. O governante
sem limites é aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à
própria vontade
“Aquele que menos se apoiou na sorte reteve o poder mais seguramente.” A
advertência de Nicolau Maquiavel, no capítulo VI de O príncipe (Hemus), merece
reflexão neste domingo. Conquistar o governo e saber governar são capacidades
distintas. As circunstâncias podem abrir as portas do poder a quem não
construiu os meios para exercê-lo. A virtù permite aproveitar a fortuna e
enfrentar suas consequências. Essa correlação ajuda a compreender a disputa
entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição, e o
senador Flávio Bolsonaro, que aspira à Presidência.
Para o pensador florentino, virtù não significa bondade, pureza de intenções ou
obediência à moral religiosa, mas capacidade política, ou seja, discernimento,
coragem, flexibilidade e competência para agir diante das circunstâncias. Já a
fortuna são essas contingências, abrange acontecimentos que escapam à vontade
do governante. Nenhum dirigente controla integralmente o destino, mas é
possível se preparar para as tempestades e aproveitar os ventos favoráveis.
Diante dessa lição de Maquiavel, qual é o papel do indivíduo na história?
Atribuir tudo aos grandes personagens subestima os movimentos sociais que os
embalam. Submetê-los integralmente a forças impessoais também falseia a
compreensão dos acontecimentos. Entre o carisma do líder e o peso das
estruturas há o espaço da ação política, no qual decisões individuais podem
ampliar possibilidades, desperdiçar oportunidades ou precipitar os desastres.
Karl Marx mostrou essa tensão no passagem de O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
(Boitempo), a maior reportagem política já escrita, que relata a segunda
restauração da monarquia após a Revolução Francesa : “Os homens fazem sua
própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias
de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e
transmitidas pelo passado”.
Essa frase ilumina as trajetórias de Lula e Flávio quanto aos limites da
vontade. Os candidatos são expressão de interesses, expectativas e conflitos,
mas suas escolhas diante das contradições do processo político decidem o
destino de todos nós. Lula cumpriu esse papel com notável destaque. Sua
trajetória reúne experiências vividas da transição social do Brasil rural para
o urbano: a migração nordestina, o trabalho industrial, o sindicalismo, a
resistência à ditadura e a organização partidária dos trabalhadores.
Sua liderança nasceu das greves do ABC, ganhou expressão nacional com a
fundação do PT e alcançou a Presidência depois de três derrotas eleitorais. Não
é fruto de um golpe de sorte, muito pelo contrário. Essa resiliência não o
torna infalível ou dispensa o julgamento de seus governos. Sua habilidade de
conciliação produziu acomodações e suas alianças agora cobram o preço de
concessões e contradições. A biografia excepcional não responde automaticamente
aos problemas do presente. A experiência pode produzir prudência, mas também
alimentar a confiança excessiva em soluções que podem já não dar certo.
Quando os tempos mudam
A presença de Lula no poder não pode ser explicada como um acidente eleitoral.
O presidente que busca o quarto mandato ajudou a organizar as forças que o
projetaram e promoveu o reconhecimento, a participação e a inclusão dos mais
pobres. Sua genialidade política foi transformar experiência pessoal em
identificação coletiva. Lula ganhou dimensão histórica porque soube representar
milhões de pessoas que procuravam um lugar nas decisões nacionais.
Entretanto, como já dizia Maquiavel, a maior virtude do governante é perceber
quando os tempos mudam e não subestimar os adversários. Flávio Bolsonaro ocupa
posição distinta. Tem carreira parlamentar, foi deputado estadual e chegou ao
Senado; mostrou ser incorreto tratá-lo como estreante. Entretanto, sua projeção
nacional está inseparavelmente ligada ao patrimônio político do pai. Não
apresenta trajetória equivalente de organização social, construção partidária
ou direção do Executivo. A diferença em relação a Lula ultrapassa a idade:
envolve a origem e a autonomia da liderança.
É nesse sentido que a imagem do príncipe aventureiro de Maquiavel se ajusta à
candidatura de Flávio. O filho do ex-presidente Bolsonaro pode alcançar o poder
beneficiado por circunstâncias que não criou: o desgaste do adversário, a
rejeição ao PT e a disponibilidade de uma identidade política herdada. A
fortuna, aqui, tem sobrenome, base eleitoral e estruturas de mobilização. O
risco começa quando essa herança é apresentada como capacidade para governar e
resgata uma experiencia fracassada quanto ao seu humanismo.
Todo aventureirismo é perigoso quando a
ambição é maior do que a responsabilidade democrática. O príncipe sem limites é
aquele que considera legítimo remover qualquer obstáculo à própria vontade. Na
República, o Congresso e a Justiça, as demais instituições democráticas, a
sociedade civil, a imprensa e a oposição têm funções que transcendem ao
resultado eleitoral, principalmente nos momentos de crise. A vitória concede um
mandato temporário subordinado à Constituição. Não entrega ao vencedor a
propriedade do Estado.
E o voto secreto, direto e universal, na urna eletrônica, garante que cada
brasileiro faça sua escolha e o resultado do pleito seja inequívoco.
Alea jacta est!
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