O Globo
Candidato derrotado virou uma caricatura de
líder de oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach
Flávio Bolsonaro conseguiu um feito impressionante. Em tempo recorde, se apequenou como líder da oposição e conseguiu produzir algo que parecia improvável: juntou setores da direita e do governo nas críticas a suas declarações golpistas. Para atingir tal façanha, não foi necessário nenhum fato novo revelado pela Polícia Federal nem a publicação de eventual conversa pouco republicana. Flávio precisou apenas de ausência de tino político, sinapse tortuosa e conselhos ruins de meia dúzia de aloprados. Como resultado, no curto prazo de três dias, fez evaporar parte considerável do capital político adquirido com os quase 60 milhões de votos que recebeu.
A jornada de erros começou com o não
reconhecimento da derrota no domingo. Piorou com a fuga do Brasil, usando argumentos
mal-intencionados sobre perseguição política. Atingiu o absurdo diante da carta
precária e mentirosa, que, entre vários constrangimentos, comporta o erro no
nome do próprio país (chamado numa primeira versão de Estados Unidos do Brazil,
em vez de República Federativa do Brasil, com “s”, por sinal), a comparação com
Rui Barbosa e a autoproclamação como “presidente” (que depois mudou para
“líder”).
Ele conseguiu produzir um strike entre seus próprios
apoiadores. Integrantes do PL e do
Centrão, pragmáticos que são, poderiam ter saído em sua defesa caso houvesse o
mínimo de veracidade nos argumentos ou vantagem política em continuar apoiando
as confusões da família Bolsonaro. Mas ninguém de relevância levantou o dedo
para defendê-lo. Do governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas, a presidentes de partidos que compõem o Centrão, não houve quem
comprasse seu delírio. O presidente americano, Donald Trump,
foi questionado sobre o cosplay de Guaidó e disse que não se envolveria. Aliás,
Bolsonaro Júnior, como já foi chamado por Trump, hoje é um problema para ele.
Às vésperas da importante eleição de meio de mandato, Trump vê a oposição
surfar na concessão de visto para o candidato derrotado no Brasil.
Flávio está isolado. Brasília é repleta de
profissionais da política, e é sintomático que os maiores ph.D.s na matéria não
tenham saído em sua defesa. Não o fizeram porque não querem mais os Bolsonaros.
Entendem que hoje não existe perspectiva de poder em torno deles — e essa
perspectiva é o principal feromônio político. Sabem que Flávio usa a carta como
melhor ataque diante dos rolos pendentes com a Justiça envolvendo sua relação
com Willer Tomaz, o advogado suspeito de lavar dinheiro para político.
Na carta, Flávio agradece a Trump e a Javier Milei,
cuja atuação parece ter sido fundamental para a execução do plano de fuga, com
a ajuda de um jatinho (mais um) de um empresário enrolado com o governo de lá.
Aqui os investigadores também têm dúvidas sobre os dados a respeito do ingresso
pela fronteira argentina. Já está claro, porém, que o presidente argentino foi
fundamental para a fuga, enviando um assessor para facilitar o plano e causando
mais um ruído na relação com o Brasil — por mais que não houvesse mandado de
prisão expedido contra Flávio, ele estava proibido de deixar o país.
O candidato derrotado virou uma caricatura de
líder de oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach. Mostrou que não estava
preparado para a função de presidente da República e abriu espaço para que
outro nome ocupe a liderança da direita. Michelle
Bolsonaro e Tarcísio de Freitas já dão sinais de que estão a postos.

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