Correio Braziliense
A eleição de domingo define o caminho do país
nos próximos tempos. O desafio colocado diante do brasileiro é a escolha de seu
futuro
Não dei sorte. Sonhei e me preparei para votar, quando entrei na maioridade, a favor do famoso slogan JK65, para entregar novo mandato ao presidente Juscelino Kubitschek, que havia promovido revolução pacífica no Brasil. Abriu estradas, construiu hidrelétricas, implantou a indústria automobilística, ergueu Brasília e transferiu a capital para o centro do país. Ele prometia mais cinco anos de prosperidade. O sonho durou pouco. Os militares assumiram o governo em 1964, anunciaram a cassação de vários políticos — entre eles, JK. Nos primeiros momentos, o primeiro presidente militar, Castello Branco, prorrogou seu mandato por um ano para respeitar o calendário eleitoral. Mas o processo desandou, e os militares, de todos os quartéis e níveis hierárquicos, se julgaram capazes de governar o país.
A confusão política, que já era grande,
aumentou. O general Costa e Silva, uma espécie de sargentão, era ministro da
Guerra e anunciou que seria o próximo presidente da República. Acertou. Fui,
como repórter, cobrir sua festa de diplomação, realizada no salão vermelho do Hotel
Nacional. Essa festa não existe mais. Ninguém comemora a diplomação. Naquela
época, era importante demonstrar que o nome do dirigente havia sido digerido
pelos tribunais eleitorais. Coquetel farto. Os integrantes do antigo governo
compareceram e permaneceram por cerca de meia hora. O novo presidente ficou ali
se divertindo com os convidados e assaltando as ilhas de comidas e bebidas.
Determinado momento, as pessoas começaram a sair. Mas o presidente permaneceu
no local. Então, os diplomatas, atentos para não deixar o salão ficar vazio,
chamaram as meninas que ficavam na porta do hotel para agradar os hóspedes.
Elas entraram, comeram, beberam e tiraram fotos ao lado do novo presidente,
visivelmente alcoolizado. Percebi, naquele momento, que o governo não poderia
dar certo.
Foi no governo Costa e Silva que surgiu o
famigerado Ato Institucional número 5, que permitiu a prisão sem culpa formada,
acabou com o habeas corpus, impôs censura à imprensa e começou a tortura nas
cadeias do regime. A mística do brasileiro cordial acabou. Aos montes,
brasileiros fugiram para o exterior. E lá não tinham apoio das embaixadas
brasileiras. Ao contrário, em Paris, os brasileiros que buscavam algum contato
com os serviços diplomáticos eram presos ou denunciados à polícia local. Um
médico exilado há anos na França conseguiu retornar ao Brasil como se fosse
repórter de jornal. Era o disfarce necessário para ele conseguir entrar no país
e retornar a sua cidade no Nordeste. Está lá até hoje, clinicando
discretamente.
Chefiava em Brasília a redação de uma revista
semanal quando Vladimir Herzog foi preso e assassinado em São Paulo, em outubro
de 1975. O editor-chefe me telefonou por volta das quatro da manhã para dizer
que Vlado tinha morrido nas masmorras do Doi-Codi, na Rua Tutoia. Acordei o
porta-voz do governo na madrugada. Humberto Barreto não gostou: " Você me
acorda para desmentir boato?".
Pouco depois, ele me telefonou de volta para
confirmar a morte e passar instruções do governo para a redação de Brasília e
de São Paulo sobre como reagir ao que tinha ocorrido. Pouco tempo depois, uma
repórter, colega em Brasília, estava voltando para sua casa, noite alta, quando
foi interceptada e levada algemada no camburão diretamente para a Rua Tutoia,
em São Paulo. Ficou presa durante bom tempo, sem culpa formada. Fui até lá
levar objetos de higiene pessoal para ela, que as colegas da redação coletaram.
Quis ter informações sobre a prisioneira e recebi desaforos do oficial
responsável: "Se você não sair daqui agora, vai ser recolhido",
rugiu.
Esse Brasil existiu. Vivi essas
circunstâncias como jornalista. Colega nosso foi preso em Brasília, amarrado
numa árvore e submetido a simulação de fuzilamento. Ninguém estava protegido do
governo fanático e ditatorial. Somente após a anistia em 1979, o ambiente
principiou a ficar mais leve. Depois, com a eleição, pelo Colégio Eleitoral, de
Tancredo Neves, o país se encaminhou para retornar as práticas democráticas.
O último representante dessa geração é o
presidente Lula. Ele é metalúrgico, profissão que surgiu quando a indústria
automobilística se estabeleceu no país. Lula, o metalúrgico, é filho do período
JK. Flavio Bolsonaro é descendente direto dos governos militares, sempre
elogiados por seu pai, Jair, que enalteceu a tortura. Não economizou elogios ao
coronel Brilhante Ustra, já falecido, que massacrou muita gente na sua prisão.
O então presidente ironizou os brasileiros que queriam tomar vacina contra a
covid-19.
A eleição de amanhã não se limita à escolha de nomes. Ela define o caminho do país nos próximos tempos. O desafio colocado diante do brasileiro é a escolha de seu futuro. Simples assim.

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