segunda-feira, 26 de outubro de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais\Opiniões

Virada dá a Lula lugar inédito na História do Brasil

Por O Globo

Presidente terá de lidar com Congresso hostil, mas não pode manchar sua biografia com ressentimentos

Em virada surpreendente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o senador Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno por uma diferença de 3,6 pontos percentuais (51,8% a 48,2%), ou 4,4 milhões de votos, mais que o dobro da diferença sobre Jair Bolsonaro em 2022 — e governará o país pelo quarto mandato. No primeiro turno, Lula fora derrotado por 2,2 milhões de votos. Em três semanas, numa reação determinada, tida como improvável depois da onda bolsonarista que varreu o país em 4 de outubro, reverteu a vantagem de Flávio, fato inédito em quase quatro décadas de eleições presidenciais. Seu lugar na História da República estará garantido como o líder brasileiro a ficar mais tempo no poder pelo voto popular.

A queda na abstenção desempenhou papel fundamental para a vitória de Lula. Eleitores que não compareceram no primeiro turno decidiram votar no segundo, ampliando suas chances num pleito equilibrado. A abstenção ficou em 19,2%, inferior à do primeiro turno, 21,1%. No Nordeste, onde Lula historicamente obtém desempenho melhor, ela caiu de 18,4% para 16,4%. No Sudeste, de 22,7% para 20,2%.

Não foi uma vitória sem transtornos. Foi lamentável a falta de ônibus, relatada por eleitores em diversos estados. O transporte gratuito no dia do pleito é um direito do eleitor. A campanha de Lula acionou a Justiça Eleitoral pedindo extensão da votação, que se encerraria às 17h. No meio da tarde, a campanha de Flávio também solicitou prorrogação, em razão das chuvas no Sul. Mas a Justiça foi lenta. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, não tomou decisão até o fechamento das urnas. Pouco depois das 17h, com algumas já fechadas, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação até as 19h. O transtorno poderia ter sido evitado se autoridades agissem com maior presteza. As suspeitas de crime eleitoral precisam ser investigadas com rigor, e os eventuais responsáveis punidos, mas não prejudicaram a apuração final, como mostram os números.

E nenhum transtorno deve servir de pretexto para questionar o resultado. A eleição acabou, e a voz das urnas precisa ser respeitada. Depois da derrota, Flávio qualificou o resultado de “inaceitável” e insinuou que não aceitaria a prorrogação do horário, solicitada pelo seu próprio partido. Ora, ele obteve desempenho notável e deve entender que derrotas fazem parte da democracia. Espera-se que reaja de forma serena e respeite a escolha dos brasileiros. Quanto a Lula, seus desafios no próximo governo serão proporcionais ao feito histórico.

O mais evidente será governar com um Parlamento hostil. O Congresso que emergiu das urnas tem perfil nitidamente conservador. Com 121 deputados e 28 senadores, o PL de Flávio será o maior partido nas duas Casas do Parlamento, com musculatura suficiente para atrapalhar qualquer iniciativa de Lula. Lideranças centristas aliadas do PT no atual mandato perderam espaço ou foram derrotadas nas urnas. Será preciso maturidade de todos para deixar de lado desavenças eleitorais improdutivas e trabalhar pelo Brasil.

É natural que, numa disputa eleitoral, o discurso por vezes agressivo deixe feridas. Mas é preciso cicatrizá-las. Lula deve ter a compreensão de que precisa trabalhar para unir o país que se dividiu nas urnas, sem soberba nem revanchismo. “Este país tem uma Constituição. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos, com base com o que está escrito na Constituição da relação com o Congresso”, afirmou em seu primeiro discurso depois de reeleito. Foi um sinal positivo. Será preciso que, desta vez, Lula honre suas palavras, em vez de repetir o que fez em 2022, quando foi eleito por uma frente ampla, mas, uma vez no governo, desprezou seus aliados — atitude que quase lhe custou a reeleição.

Na véspera de completar 81 anos, Lula não pode manchar sua biografia extraordinária com ressentimentos. Ele já comandou greves históricas em plena ditadura militar, participou da elaboração da Constituição de 1988, disputou a primeira eleição para presidente em 1989, voltou a concorrer e perdeu em 1994 e 1998, até ser eleito em 2002 e governar por dois mandatos. Depois de condenado e preso na Operação Lava-Jato, os processos foram anulados pela suspeição do juiz — e ele voltou ao poder em 2022. Tornou-se símbolo da democracia ao derrotar Jair Bolsonaro, condenado e hoje preso por tentativa de golpe de Estado.

Mais uma vez, demonstrou força ao derrotar seu filho Flávio, contra as previsões. O revés no primeiro turno forçou mudanças na campanha petista, com ação intensa nas redes sociais, comícios e manifestações de rua. Ao mesmo tempo, os estrategistas corrigiram um dos maiores equívocos do primeiro turno, ao incentivar Lula a participar de debates.

Ao longo da campanha, o confronto entre os dois foi marcado pela discussão superficial de questões essenciais. Nada é mais preocupante que a deterioração das contas públicas, agravada pela profusão de programas populistas no ano eleitoral, ao custo de centenas de bilhões de reais. Desde já, Lula precisa passar a tratar a questão fiscal com seriedade, e não com o desdém manifestado durante a campanha. O Estado brasileiro exige um ajuste urgente e robusto, que acabe com o déficit crônico e reduza a trajetória explosiva da dívida pública, enquanto o programa de governo petista sugere outro, tímido e gradual. Lula precisa enfrentar o problema com determinação.

Também tem o dever de assumir a liderança no enfrentamento às facções criminosas, milícias e gangues que infernizam o país. Aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança e recriar o Ministério da Segurança Pública são iniciativas bem-vindas, mas não bastam. É fundamental que o governo atue de forma coordenada com os estados, de modo a somar esforços. A população brasileira não tem mais condição de conviver com tanta violência e criminalidade.

Por fim, ele não pode ignorar as denúncias que pesam sobre seu círculo mais próximo. Apurações em curso verificam se seu filho mais velho, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, cometeu tráfico de influência para favorecer empresários em contratos com o governo. Outras suspeitas pesam sobre seu ex-chefe de gabinete, acusado pela Polícia Federal (PF) de receber repasse de uma lobista próxima a Lulinha. É fundamental que, no novo mandato, a PF continue a ter a independência necessária para apurar esses casos a fundo e, se comprovados crimes, que os responsáveis sejam julgados e punidos.

Lula acaba de receber do eleitor mais uma chance, muito provavelmente sua última. Mais uma vez, elegeu-se brandindo a bandeira da democracia. Por isso precisa, acima de tudo, entender o papel essencial do jornalismo em qualquer democracia que se preze. Deve ter claro que a imprensa profissional continuará vigilante sobre tudo o que fizer no poder. Crítica quando necessário, propositiva como sempre. É nossa missão — e continuaremos a cumpri-la em seu novo mandato.

Lula ganha nova chance de corrigir seu governo

Por Folha de S. Paulo

Virada inédita e conquista do 4º mandato consolidam petista como maior líder popular brasileiro deste século

Urge que a soberba não o impeça de reconhecer os erros que quase lhe custaram a derrota; incumbente recorreu ao uso descarado da máquina pública

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), prestes a completar 81 anos de idade, deu mais uma mostra de vigor pessoal e político ao conseguir uma inédita virada em segundo turno e reeleger-se, neste domingo (25), para seu quarto mandato presidencial com 52% dos votos válidos.

Se o feito reforça sua condição de maior líder popular brasileiro deste século, urge que a soberba não o impeça de compreender o significado de sua vitória dada como improvável até o dia anterior.

Seu governo foi mal avaliado pela sociedade, o que quase lhe custou ser batido por um político de pouca expressão, nenhuma experiência no Executivo e ligações rumorosas —Flávio Bolsonaro (PL), como se não bastasse, seria também um risco para a normalidade democrática.

Para superar o rival, Lula recorreu, como nunca o fizera em disputas anteriores, ao uso descarado da máquina pública. Empilhou benesses e promessas casuísticas, conspurcou programas e tornou ainda mais pesada a herança de déficits e dívidas que deixará para si próprio.

Ainda que tenha preservado a alto custo sua cadeira no Planalto, não pôde impedir que forças à direita ampliassem, novamente, sua participação no Legislativo e nos estados —o que será outro grande obstáculo desde já.

Tudo isso deveria ser mais do que suficiente para inspirar autocrítica e correção de rumos. Há mais, porém: é tão grave a crise orçamentária semeada pelo petista que será preciso escolher entre um ajuste duro e potencialmente impopular, renegado na campanha, e a rota de um colapso econômico. Sem conter o déficit do governo, os juros permanecerão na estratosfera e levarão a uma recessão que elevará a pobreza e o desemprego.

A nova chance que Lula recebeu do eleitorado será também, muito provavelmente, a última. Sua impressionante trajetória política será enriquecida se encerrada com atitude de estadista, que busca o interesse público antes da popularidade.

Seu terceiro governo já deveria ter sido, como se prometera, de frente política ampla. No entanto as forças ao centro receberam não mais que postos subalternos no primeiro escalão, preenchido muito mais com critérios de afinidade partidária e ideológica que de competência técnica.

Relações de confiança também foram os parâmetros principais para as indicações para a Procuradoria-Geral da República (PGR) e o Supremo Tribunal Federal (STF), o que contribuiu para o descrédito da corte, ora em crise inaudita.

A despeito dos esforços quixotescos de Fernando Haddad na Fazenda, a política econômica foi ditada ora pelas crendices, ora pelas conveniências eleitoreiras de Lula e do PT. Está hoje desacreditada por completo.

O mandatário preferiu reeditar políticas do passado a adaptar-se a um novo contexto doméstico e global, bem mais adverso que o de suas primeiras passagens por Brasília. Que mire o futuro agora e faça um bom quarto governo.

Medida de Zanin tumultua a eleição

Por Folha de S. Paulo

Prorrogação da votação, determinada pouco antes das 17h, criou incertezas sobre procedimentos nas seções

Não há precedente para a medida desde os anos 1990; mudanças súbitas de regras podem colocar em risco a confiança nas instituições

Como se o Supremo Tribunal Federal já não tivesse sua reputação abalada o bastante por decisões voluntaristas e duvidosas, o ministro Cristiano Zanin arvorou-se neste domingo (25) a mudar regras do segundo turno da eleição.

Em uma canetada monocrática e metendo-se na seara da Justiça Eleitoral, Zanin determinou uma inédita prorrogação, por duas horas, da abertura das urnas. A medida foi tomada pouco antes do horário previsto para o encerramento da votação, 17h, "considerando a gravidade dos fatos narrados, que chegaram ao conhecimento do STF às 16h32".

Os fatos mencionados constavam de ação protocolada pela coligação de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo a qual eleitores tiveram dificuldades em chegar às seções eleitorais devido a restrições ao transporte público em diversas cidades do país —entre elas, São Paulo e Salvador.

Se os petistas levantaram suspeitas de sabotagem por parte de prefeituras, a campanha de Flávio Bolsonaro (PL) também pediu a prorrogação da votação até as 19h em regiões afetadas por chuvas intensas e alagamentos.

Pode-se imaginar a confusão provocada pela decisão de Zanin —que, infelizmente, não se limitou a transtornos para mesários e eleitores. Àquela altura, a apuração já havia sido iniciada, com 0,25% de seções contabilizadas.

Não se sabia como proceder nos locais onde as urnas já haviam sido fechadas, e chegou-se a cogitar o uso de cédulas de papel. Em uma reunião promovida às pressas pelos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), definiu-se que a votação prosseguiria somente onde as urnas ainda estivessem abertas.

Não há precedente de mudança de horário de votação desde ao menos os anos 1990, quando as urnas eletrônicas começaram a ser usadas no Brasil. Em 2022, o PT também pediu a extensão do horário, o que foi negado pelo então presidente do TSE, ministro Alexandre de Moraes —que de todo modo garantiu o voto de quem estivesse na fila até as 17h.

O cuidado se justifica. A normalidade e a credibilidade do processo eleitoral são um alicerce da democracia. Tudo o que o Brasil não precisa é de pretextos para que sejam questionadas as regras do jogo. O bolsonarismo já fez ofensiva torpe para desacreditar as urnas, enquanto ministros do STF e do TSE já deram sinais de parcialidade para os dois lados da disputa presidencial.

Cabe ainda esclarecer se havia de fato motivos para justificar a decisão de Zanin, mas certamente a condução do processo deveria ter sido menos tumultuada.

Apesar de tudo, deu Lula

Por O Estado de S. Paulo

O terceiro mandato do petista foi de longe o pior de sua trajetória. Ele só venceu porque a rejeição aos Bolsonaros superou a sua. Resta torcer para que Lula tenha consciência disso

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu a proeza de se reeleger para um quarto mandato, a despeito de ter feito o pior governo de sua trajetória política desde que chegou à Presidência pela primeira vez, no longínquo ano de 2002. As pesquisas mostraram, ao longo dos quatro anos deste mandato, uma consistente rejeição dos brasileiros a seu modo de governar – uma reação natural a um presidente sem projeto para o País, sem responsabilidade fiscal, sem reverência pelo dinheiro do contribuinte e sem a menor ideia de como lidar com um mundo em profunda transformação. Logo, Lula só venceu porque do outro lado do ringue estava um dos Bolsonaros, cuja rejeição provou-se ligeiramente maior que a sua própria. Resta torcer para que o petista tenha consciência disso e faça um governo muito diferente deste que está no fim.

No entanto, não temos muitos motivos para otimismo. Recorde-se que, na eleição anterior, em 2022, Lula derrotou o então presidente Jair Bolsonaro porque prometeu ser o líder de uma “frente ampla” em defesa dos valores democráticos, mas entregou o governo mais petista da história, desprezando os não petistas que, diante das circunstâncias, haviam decidido apoiá-lo e foram cruciais para sua eleição. Portanto, a “frente ampla” foi, no jargão político, um estelionato eleitoral.

Agora, nem de estelionato se pode falar, porque nesta campanha Lula jamais prometeu fazer um governo minimamente responsável. Pelo contrário, a corrida eleitoral mostrou que Lula está no zênite da demagogia, distribuindo dinheiro e fazendo promessas desvairadas para tentar seduzir um eleitorado que lhe tem sido crescentemente hostil. É difícil imaginar que em seu quarto mandato, que se presume seja o último, Lula haverá de se emendar.

Para piorar, será grande a tentação de se julgar dispensado de tarefas mundanas, como governar o Brasil, negociar com o Congresso e enfrentar o dia a dia de um país em crise. Afinal, Lula tornou-se o primeiro brasileiro eleito quatro vezes presidente da República pelo voto direto e, ao fim do novo mandato, terá governado o País por 16 anos, mais do que qualquer outro presidente, à exceção de Getúlio Vargas. O retirante que virou líder sindical, fundou um partido de massas, foi preso e voltou ao Palácio do Planalto é um dos personagens centrais da história brasileira. Com essa trajetória, Lula, que nunca foi exatamente modesto, pode achar que se tornou um totem, que deve ser adorado e sobre o qual não cabem questionamentos.

O problema é que nem todos compartilham a mitologia lulopetista. O Congresso eleito no começo de outubro, por exemplo, será francamente hostil a Lula, que deve levantar as mãos aos céus se conseguir terminar o mandato. Ademais, metade do País o rejeitou nas urnas e mesmo uma parte substancial dos eleitores que votaram nele não o fizeram por considerá-lo um bom presidente, mas porque têm ojeriza aos Bolsonaros.

Tudo isso se dará num cenário desafiador para qualquer presidente. Em agosto, segundo o Banco Central, a dívida pública bruta chegou a R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do PIB, o maior patamar em cinco anos. A taxa básica de juros está em 13,75% ao ano, nível proibitivo para o crescimento econômico. Quem gasta mais do que arrecada paga caro para financiar seus gastos. E Lula não terá um antecessor para culpar, como sempre faz. O perdulário é ele.

Nossa obrigação, malgrado o pessimismo, é cobrar que haja um ajuste fiscal condizente com o tamanho da crise. O próprio governo previu que, a partir de 2028, faltará dinheiro para despesas discricionárias, com risco de paralisação da máquina pública.

Ademais, Lula também governará um país em crise institucional, em grande parte pelo esfacelamento da credibilidade do Supremo Tribunal Federal (STF). O petista terá ao menos quatro vagas a preencher no STF. Espera-se que o Senado faça a sua parte e obrigue Lula a nomear juristas respeitados, em vez dos integrantes da patota petista. Assim, por linhas tortas, pode ser que o STF comece a recuperar sua imagem.

Em resumo, o próximo mandato de Lula, a despeito de seus delírios solipsistas, terá o contorno que a realidade impuser. O Brasil certamente sairá lanhado, mas sobreviverá.

A lambança final do Judiciário na eleição

Por O Estado de S. Paulo

Omissão de Nunes Marques e voluntarismo de Zanin coroam eleição marcada, do início ao fim, pela bagunça causada pelo Judiciário, abrindo as portas para a judicialização do resultado

A Justiça conseguiu a proeza de encerrar a eleição presidencial de 2026 do mesmo modo como a conduziu desde o início: em meio a uma grossa confusão. Às 17h01 deste domingo, um minuto depois do horário oficial de encerramento da votação, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Cristiano Zanin, a pedido do PT, determinou que as seções eleitorais de todo o País permanecessem abertas até as 19 horas, a pretexto de permitir a participação de eleitores que enfrentaram problemas no transporte coletivo em algumas cidades. Àquela altura, muitas urnas já estavam lacradas e a totalização dos votos havia começado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A escolha do presidente da República agora corre o risco de se converter num impasse jurídico sem precedentes, com evidente ameaça de crise institucional.

Houve, sim, problemas na oferta de transporte público em Salvador. Ao longo do dia, multiplicaram-se relatos de falta ou atraso de ônibus e filas nos pontos. Desde 2023, por decisão do STF, os municípios são obrigados a oferecer transporte gratuito no domingo da eleição e não podem reduzir a frota em relação à oferta nos dias úteis. A cidade é governada por um aliado do candidato Flávio Bolsonaro (PL), adversário de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A desordem começou com a omissão do TSE. Os alertas sobre problemas na oferta de transporte público aos eleitores chegaram à Corte no fim da manhã. Nada foi feito. O presidente do tribunal, ministro Kassio Nunes Marques, limitou-se a dizer que as dificuldades “já estão sendo corrigidas”, enquanto eleitores esperavam ônibus que nunca chegavam. Era dever do TSE agir de acordo com a gravidade da situação e decidir a tempo se, e onde, a votação deveria ser prorrogada. A inércia de Nunes Marques abriu o vácuo que Zanin logo tratou de ocupar.

E o fez de forma completamente atabalhoada. Sua decisão de prorrogar a votação por mais duas horas atendeu a um pedido da coligação petista, que apontava problemas em três municípios baianos. Zanin, no entanto, estendeu os efeitos de sua decisão para todo o Brasil, sem explicar por que eleitores do Amazonas ou de Santa Catarina, por exemplo, poderiam votar até aquele horário por falta de ônibus na Bahia. A fundamentação de sua decisão, estranhamente, não é jurídica. O ministro apegou-se à “gravidade dos fatos” e à “urgência evidente”. Em um primeiro momento, nem uma palavra sobre as urnas já lacradas, que não poderiam ser reabertas, nem sobre os votos já apurados – sem falar no atropelo da competência do TSE. Só depois de criar essa confusão, Sua Excelência esclareceu que a votação estendida era válida apenas para as urnas que ainda não haviam sido fechadas.

Pesa ainda o fato, de resto incontornável, de Zanin ter sido o aguerrido advogado pessoal de Lula antes de ter sido indicado pelo presidente ao STF.

Mas o ministro, após ter sido sorteado, não viu razão para se afastar de um caso de interesse direto de seu mais notório ex-cliente, no exato dia em que este disputava a reeleição.

Esses episódios lamentáveis protagonizados por Nunes Marques e Cristiano Zanin coroam um pleito marcado, do início ao fim, pelas lambanças do Judiciário, particularmente do STF e do TSE. E tudo isso porque, como nunca, os interesses políticos dos magistrados deram as caras numa disputa pelo poder central da República que deve ser arbitrada, única e exclusivamente, pelos eleitores.

Neste domingo, a soma da omissão de um ministro com o voluntarismo de outro levou ao pior cenário para a democracia: a dúvida sobre a legitimidade do resultado das urnas. Uma eleição presidencial que pode ser judicializada abre as portas para o inferno. Basta que o derrotado, Flávio Bolsonaro, conteste os votos dados depois das 17 horas – ou reclame os que deixaram de ser dados nas urnas já lacradas quando Zanin autorizou a prorrogação da votação – para que o Brasil mergulhe em uma disputa de desfecho imprevisível, sobretudo num ambiente já intoxicado pela polarização.

O sistema eleitoral brasileiro é modelo para o mundo. É lastimável que tenha sido tisnado logo por quem tem o dever de defender sua integridade.

Acordo com a UE já rende frutos

Por O Estado de S. Paulo

Após acordo Mercosul-UE, exportações brasileiras para o mercado europeu sobem 30%

Em vigor em caráter provisório desde maio, o acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) já rende bons frutos ao Brasil. De acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as exportações brasileiras para a UE aumentaram 30,7% entre maio e setembro de 2026.

O resultado premia a perseverança brasileira para fazer o tratado vingar e merece ser celebrado. Só se chegou até aqui porque, por mais de duas décadas, o Brasil não se intimidou com as resistências do próprio Mercosul e, sobretudo, da UE, o que permitiu que o acordo finalmente fosse assinado em janeiro deste ano.

Mas celebrar não deve ser senha para acomodação. Para começo de conversa, não se pode perder de vista que o acordo, embora operante, ainda carece de um parecer definitivo do Tribunal de Justiça da União Europeia – processo que pode levar até dois anos para ser concluído.

Inconformados com a eficiência sul-americana no agronegócio, os opositores europeus ao acordo, liderados pela França, não se furtam a buscar subterfúgios para invalidar o tratado. Por isso mesmo, o Brasil precisa estar um passo à frente, antecipando-se a potenciais desafios e armadilhas.

Não foi o que se viu no caso do recente veto às exportações brasileiras de carne bovina, suína, de frango, mel, pescados e ovos para a UE, que passou a valer a partir de setembro. A UE alegou que o Brasil não apresentou informações suficientes que garantam o cumprimento do regulamento europeu de uso de antimicrobianos nas criações, tais como antibióticos.

A reação inicial do governo brasileiro ao veto foi de “surpresa”, o que causa espanto, não só porque as regras da UE sobre antimicrobianos já eram de conhecimento público, mas também porque a Argentina, parceira do Brasil no Mercosul, segue habilitada a exportar carne para o mercado europeu.

Não é aceitável que, após tanto esforço brasileiro para fazer o acordo vingar, o País tenha se permitido dar um cochilo desses. É fundamental que o governo e o setor produtivo trabalhem juntos, colhendo informações na UE e atuando de modo a evitar humilhações dessa monta. A esta altura dos acontecimentos, é previsível que a UE se valerá de barreiras sanitárias, ambientais e regulatórias para disfarçar seu protecionismo.

Ademais, além de continuar trabalhando para que o acordo com o bloco europeu se consolide, o Brasil também precisa seguir buscando novos mercados obstinadamente. Isso passa por superar divergências internas no próprio Mercosul, bloco que já negocia tratados com países como Canadá e Japão.

Não menos importante é que o Brasil – independentemente de alinhamentos ideológicos entre os governos de ocasião – guie-se pelo pragmatismo, negocie com todos e privilegie sempre o interesse da população brasileira.

Penalizado com tarifas injustificadas pelos EUA, o Brasil também vê suas exportações para a China estagnarem em termos de volume. A saída para esse impasse, como demonstram os resultados iniciais do acordo com a União Europeia, sempre foi e continua sendo ampliar horizontes.

Lula, eleito em feito inédito, terá de pacificar o país e atacar problemas

Por Valor Econômico

O presidente precisará governar para todos, o que implica trazer para seu governo forças, grupos e líderes políticos que não estão alinhados com o programa petista, mas que poderiam colaborar para atingir objetivos comuns

Ao vencer sua quarta eleição, o presidente Lula (PT) realizou várias proezas. Provou que é possível virar um pleito em segundo turno, o que ninguém desde a redemocratização havia feito, e tornou-se o presidente eleito por voto direto que por mais tempo governará o país na República. Passado o calor da eleição, terá de superar enormes desafios: pacificar e administrar um país profundamente dividido, em que quase metade dos eleitores o rejeita. Terá de se relacionar com o mais hostil Congresso de todos com que conviveu em 12 anos no Planalto. Precisará agir para debelar uma crise de endividamento público, com margem de manobra menor depois dos muitos programas eleitoreiros às vésperas do pleito. Fora desafios em temas como educação, sem a qual o país não ganhará produtividade, e segurança pública, demanda número 1 dos cidadãos. Após o resultado da eleição, Lula prometeu governar “para 215 milhões de brasileiros”. E emendou: “Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos”. Prometeu, ainda, governar junto com o Congresso eleito pelo povo.

Lula tem uma trajetória de homem público de mais de meio século, com um legado de inclusão social. Depois de fugir da seca em Pernambuco, aprendeu o ofício de metalúrgico em São Paulo, tornou-se líder sindical e dali tentou três vezes se eleger presidente, até conseguir em 2002 e 2006. Após ser preso e condenado na operação Lava-Jato, viu seus processos serem anulados e voltou à presidência para seu terceiro mandato. Ontem, Lula venceu com 64,2 milhões de votos (51,78%) seu rival Flávio Bolsonaro (PL), que teve 59,8 milhões de votos (48,22%), com 99,99% das urnas apuradas. O dia de eleições foi tumultuado. Após denúncias de falta de transporte público em diversas localidades, o ministro Cristiano Zanin, do STF, estendeu o prazo de votação por duas horas quando já havia urnas fechadas.

Nos quatro anos finais da era Lula, ele terá de encontrar solução para um problema que sua longevidade no cargo criou e que o domínio hegemônico de seu grupo político no PT reforçou: não deixou herdeiros políticos com cacife sequer parecido. Lula é maior que o PT, e sua ausência pode tornar o partido menor do que foi à sua sombra. Hábil negociador político, o presidente precisará governar para todos, o que implica trazer para seu governo forças, grupos e líderes políticos que não estão alinhados com o programa petista, mas que poderiam colaborar para atingir objetivos comuns. Há um grande campo de convergência onde isso é possível, a começar pela educação, o ponto mais vital e frágil para o desenvolvimento do país, a saúde, onde há boas experiências e técnicos em várias legendas que possam contribuir para a melhoria e progresso do SUS, e o avanço tecnológico.

É possível obter razoável apoio pluripartidário para que a política externa brasileira se mantenha equidistante das duas superpotências econômicas, EUA e China, siga diversificando mercados e obtendo novos acordos comerciais em um mundo cindido pela geopolítica. É importante procurar aprofundar a integração econômica com o Mercosul e países latino-americanos, minimizando desavenças ideológicas com os vizinhos, que hoje, na maioria, giram na órbita do presidente Donald Trump.

Os problemas mais graves estão na condução da economia. Mais quatro anos da mesma política produzirão resultados ruins. A economia cresceu 3% nos primeiros anos do atual mandato, à custa de gastos fiscais e parafiscais que esgotaram seu poder de estímulo de expansão. Ela esteve apoiada em um regime fiscal que não cumpriu a missão a que se propôs: reduzir e depois estabilizar a dívida pública em relação ao PIB. O orçamento de 2027 contempla exceções de gastos à regra e terá de encontrar mais R$ 53,6 bilhões em recursos apenas para começar a executar as promessas feitas aos borbotões.

Mesmo ganhando a eleição com uma plataforma que corroborava a resistência de Lula ao superávit fiscal, o presidente terá de ser realista e corrigir rumos. Sua própria equipe indicou que em 2028 não haverá dinheiro suficiente para atender as despesas contratadas, o que, sem mudanças, acabará por paralisar partes da máquina pública e reduzir os investimentos. Esse é um obstáculo central: a economia se chocou com o muro de taxas de juros muito elevadas pelo aumento das dívidas públicas, que desaceleram as atividades para deter a inflação. Há margem de manobra para ajustes fiscais graduais, ao longo do tempo. Importa sinalizar a direção, com metas críveis e vontade política.

As relações com o Congresso serão mais difíceis, depois que o PL se tornou o maior partido. Uma participação direta de mais partidos no governo atrairia mais apoio no Congresso, onde o Planalto precisará do Centrão para aprovar seus projetos. Ainda que a relação tenha sido conflituosa no terceiro mandato, há espaço para negociações em torno de projetos importantes. Avesso a se tornar refém do PL, o Centrão se uniu para reconduzir Hugo Motta, que apoiou Lula, à presidência da Câmara. No Senado, a correlação de força é muito mais desfavorável, o que pode trazer reveses nas indicações para agências reguladoras e Supremo Tribunal Federal.

Nossa democracia no teste da maturidade

Por Correio Braziliense

Lula escreverá o epílogo de sua vida pública desafiado a vencer uma corrida de obstáculos.

Os sobressaltos que marcaram o último ato das eleições de 2026 — o décimo pleito presidencial direto desde a redemocratização — descortinam as linhas gerais do enredo para o próximo mandato, desde o primeiro ato. Múltiplos fatores que vinham se acumulando nos últimos anos, sobre o pano de fundo da polarização em escalada da sociedade, confluem numa espécie de tempestade perfeita. Aos 40 anos recém-completados, nossa democracia enfrenta o teste definitivo de maturidade. E terá à frente um governante que ingressa no quarto mandato, feito inédito na história do país, depois de ter virado o resultado do primeiro turno — outra marca sem precedentes. Lula escreverá o epílogo de sua vida pública desafiado a vencer uma corrida de obstáculos.  

Um sintoma captado na reta de chegada expressa em números o significado prático dos impasses que se cristalizam no sistema político e no arcabouço institucional do país. A quatro dias da votação, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contabilizava 804 ações judiciais desde o início da campanha, mais que o dobro das 325 registradas nas eleições de 2022. A disputa no "tapetão", tomando emprestado o jargão do futebol, ganhou corpo — não por acaso — no segundo turno, que até as teclas das urnas eletrônicas sabiam que seria acirrado.

A judicialização desenfreada dos processos eleitorais cruza linhas com a sucessão das quedas-de-braço travadas, em escala crescente, entre os Três Poderes da República. Em especial, Legislativo e Judiciário disputam terreno palmo a palmo na esfera institucional. O Executivo, no mandato que se encerra, teve porção expressiva de suas atribuições constitucionais abocanhadas pelo Congresso, mais notadamente no que diz respeito ao Orçamento da União.

O mapa político-institucional desenhado para os próximos quatro anos aponta para a multiplicação potencial dos focos de disputa ou mesmo confronto. No Legislativo, o bloco de forças alinhado desde logo ao quarto governo Lula manteve, no fundamental, o espaço — minoritário — que ocupava. Mas o bolsonarismo cresceu, tomando terreno do Centrão e de outras forças de direita. Se o Planalto teve enormes dificuldades de articulação nos últimos quatro anos, é de esperar que elas sejam ainda maiores nos próximos quatro.  O mesmo se pode esperar no Supremo Tribunal Federal (STF), ademais consumido em escândalos e disputas intestinas.

A esse quadro desafiante no plano institucional se somam desafios igualmente cruciais na agenda econômica, a começar pelo de equilibrar as contas públicas, reduzir os juros e encaminhar o país a um novo ciclo de crescimento, sustentável e alinhado com a transição global para a economia pós-carbono. O cenário mundial, aliás, recomenda igualmente cuidados, começando por uma vizinhança em descompasso com a política externa presumível do governo Lula 4 e, em especial, a presença na Casa Branca, por mais dois anos, de Donald Trump — que não escondeu, nos últimos meses, a ambição de ter no Planalto mais um governo aliado.

Por contraditório e difícil que pareça, é na mobilização impressionante dessa sociedade polarizada, um fenômeno testemunhado nas três semanas decisivas do segundo turno, de norte a sul do país, que pode ser traçado o caminho para um reencontro. Em especial, o engajamento da juventude em uma campanha que marca época deve ficar estampada em nossa memória coletiva como um aceno de esperança. O compromisso da nova geração com o futuro político do país se insinua como raiz promissora para que a nossa democracia seja definitivamente aprovada no teste do amadurecimento.

Após as eleições, começa o desafio de governar

Por O Povo (CE)

A conquista enriquece ainda mais a epopeia de um migrante nordestino que conquistou o feito, inédito na história, de presidir o Brasil por quatro vezes, chegando ao poder por meio do voto

Que seria uma eleição acirrada, com os candidatos disputando voto a voto, era de conhecimento geral. No entanto, ninguém se atrevia a arriscar um palpite sobre quem ocuparia a cadeira de presidente a partir do dia 5 de janeiro de 2017.

Neste domingo, aquele que dispõe do poder constitucional de decidir sobre uma questão crucial para os destinos do País, deu seu veredito nas urnas: confirmou mais um mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o quarto de sua carreira política. Saiu derrotado o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado.

Pelo que fez até agora, Lula já tem marcado seu nome na história do Brasil, como um dos políticos mais importantes de todos os tempos. Mas a conquista enriquece ainda mais a epopeia de um migrante nordestino que conquistou o feito, inédito na história, de presidir o Brasil por quatro vezes, chegando ao poder por meio do voto.

Mas é depois da eleição, por mais dura que seja a disputa, que começa a parte mais difícil, que é governar. Primeiro, o presidente reeleito precisa reconhecer que a eleição dividiu o Brasil ao meio, o que inevitavelmente deixará feridas abertas. Cabe ao presidente entender que é tarefa do vitorioso demandar pela reconciliação, buscando entender por que metade do País rejeitou suas propostas.

De outra vista, caberia a Flávio Bolsonaro e seus aliados aceitarem o resultado das urnas, pois é assim que funciona uma democracia. Os eleitos assumem a administração e quem perdeu reorganiza-se para fazer oposição. No entanto, esse talvez seja um alerta vazio, pois Flávio disse que não reconhecerá a vitória de Lula e que pedirá o cancelamento das eleições.

Também não contribui nesse aspecto o comportamento do senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio que, em declaração à Folha de S.Paulo, classificou como "golpe judiciário" a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) de mandar estender até às 19 horas o atendimento nas seções eleitorais de todo o País.

A discussão começou quando se observou que, em várias cidades brasileiras, especialmente em Salvador — a capital que mais deu votos a Lula no primeiro turno —, houve redução da quantidade de ônibus em circulação, com o objetivo de dificultar o transporte de eleitores. Como o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Nunes Marques, demorou a tomar uma decisão, o caso foi encaminhado ao STF.

Além disso, a campanha de Flávio também foi beneficiada pela decisão do STF, pois havia pedido prorrogação na votação em cidades de Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo e Santa Catarina, por razões como falta de energia, chuvas e enchentes.

Por fim, em seu discurso à militância, Lula deu um sinal pelo fim da beligerância, afirmando que, depois de ganhar as eleições, deixou de ter adversários. Parece que não será ouvido. 

Nenhum comentário: