O Globo
O governo já poderia ter tomado medidas para
controlar os efeitos de fatores externos na economia. Não tomou por causa da
política
Não deixa de ser uma ironia: Lula receberá
uma herança maldita dele mesmo. Na economia e na política. Na economia, a
responsabilidade é inteiramente dele. Sim, o ambiente internacional — com
guerras, preços essenciais elevados, como combustíveis e fertilizantes, e juros
em alta — cria restrições ao crescimento. Mas o governo já poderia ter tomado
medidas para controlar os efeitos desses fatores externos.
Não tomou por causa da política. E não foi apenas para ganhar as eleições. Antes mesmo da campanha, a projeção do próprio governo previa um déficit nas suas contas superior a R$ 80 bilhões. Na contabilidade oficial, isso apareceria como déficit zero, mas ninguém mais acredita nesses truques. Nem o governo, quando mostra que a dívida pública subiu nos quatro anos do governo e tem tendência de alta. E, se a dívida sobe, só pode ser porque o governo gasta mais do que arrecada.
Aqui entra a política. Ao déficit previsto
antes da campanha, deve ser somado o custo das medidas eleitoreiras tomadas nas
últimas semanas. Calcula-se que essas medidas têm custo em torno de R$ 300
bilhões, que comprometem o Orçamento deste ano e do próximo.
É outra ironia: para ganhar a eleição, Lula
distribuiu dinheiro e créditos, abriu mão de receitas e prometeu novas bondades
— como a tarifa zero no transporte urbano aos fins de semana — que impõem um
enorme desafio para sua próxima administração.
Considerou uma bobagem isso de fazer
superávit. Para ele, o melhor caminho é promover o crescimento com
investimentos e estímulos do governo. Parece fazer sentido. Mede-se a dívida
pública pela sua relação com o Produto Interno Bruto (PIB). Essa dívida é
hoje de 83% do PIB. Ora, se o PIB crescer mais depressa, essa relação cai,
certo? Errado. Não há como o PIB crescer mais depressa, especialmente no atual
modelo — com o governo, as famílias e as empresas endividados e pagando juros
de agiota.
Já está acontecendo. O país cresce num ritmo
anual de pouco mais de 1%, com inflação acima da meta e com o Banco Central
mantendo taxa de juros chamada de “restritiva” — taxa que restringe consumo e
investimentos. Para que esses juros caiam, só tem um jeito: o governo reduzir
seu déficit, gastando menos do que arrecada. Fazer o tal ajuste fiscal — esse
que Lula disse que não fará.
Muitos economistas e analistas políticos
entendem que esse ajuste será feito por bem ou por mal. No caso, por mal, à
medida que a crise econômica avançar. Seria um estelionato eleitoral, é
verdade, mas como que inevitável.
Os mercados reagirão mal à vitória de Lula.
Isso significa Bolsa em queda, juros em alta, real desvalorizado. Tudo que pode
complicar o quadro econômico, apontando para mais inflação, com desaceleração
do PIB.
O pessoal esperará uma palavra de Lula sobre
uma eventual mudança de política. No mercado, dizem que colaboradores do
presidente já mandaram alguns recados. Ocorre que Lula ganha com um Congresso
majoritariamente de direita. Encontrará forte oposição, mesmo porque o país
está rigorosamente dividido. Essa divisão não acaba depois desta eleição, assim
como não acabou depois de 2022, quando Lula ganhou também com apertada maioria.
No terceiro mandato, Lula não ampliou sua
base política. Ao contrário, fixou-se na esquerda. Comenta-se agora que o vice Geraldo
Alckmin pode cumprir a tarefa de aproximar o governo do centro e dos meios
econômicos. Pode ser, mas até agora o que se viu foi uma virada de Alckmin para
a esquerda.
Um sinal importante — nesta ou naquela
direção — será dado com a eventual formação de um novo ministério,
especialmente da equipe econômica. Ocorre que Lula virou a eleição com a
esquerda, com a extraordinária mobilização dos últimos dias. É a essa
militância que deve seu quarto mandato. A ver.
E o que teria acontecido se Flávio
Bolsonaro tivesse vencido? Ele também teria dificuldade para fazer o ajuste
fiscal. Além disso, na política, traria um risco à democracia, considerados o
passado e o presente da família.

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