segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Presidente receberá uma herança maldita dele mesmo, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

O governo já poderia ter tomado medidas para controlar os efeitos de fatores externos na economia. Não tomou por causa da política

Não deixa de ser uma ironia: Lula receberá uma herança maldita dele mesmo. Na economia e na política. Na economia, a responsabilidade é inteiramente dele. Sim, o ambiente internacional — com guerras, preços essenciais elevados, como combustíveis e fertilizantes, e juros em alta — cria restrições ao crescimento. Mas o governo já poderia ter tomado medidas para controlar os efeitos desses fatores externos.

Não tomou por causa da política. E não foi apenas para ganhar as eleições. Antes mesmo da campanha, a projeção do próprio governo previa um déficit nas suas contas superior a R$ 80 bilhões. Na contabilidade oficial, isso apareceria como déficit zero, mas ninguém mais acredita nesses truques. Nem o governo, quando mostra que a dívida pública subiu nos quatro anos do governo e tem tendência de alta. E, se a dívida sobe, só pode ser porque o governo gasta mais do que arrecada.

Aqui entra a política. Ao déficit previsto antes da campanha, deve ser somado o custo das medidas eleitoreiras tomadas nas últimas semanas. Calcula-se que essas medidas têm custo em torno de R$ 300 bilhões, que comprometem o Orçamento deste ano e do próximo.

É outra ironia: para ganhar a eleição, Lula distribuiu dinheiro e créditos, abriu mão de receitas e prometeu novas bondades — como a tarifa zero no transporte urbano aos fins de semana — que impõem um enorme desafio para sua próxima administração.

Considerou uma bobagem isso de fazer superávit. Para ele, o melhor caminho é promover o crescimento com investimentos e estímulos do governo. Parece fazer sentido. Mede-se a dívida pública pela sua relação com o Produto Interno Bruto (PIB). Essa dívida é hoje de 83% do PIB. Ora, se o PIB crescer mais depressa, essa relação cai, certo? Errado. Não há como o PIB crescer mais depressa, especialmente no atual modelo — com o governo, as famílias e as empresas endividados e pagando juros de agiota.

Já está acontecendo. O país cresce num ritmo anual de pouco mais de 1%, com inflação acima da meta e com o Banco Central mantendo taxa de juros chamada de “restritiva” — taxa que restringe consumo e investimentos. Para que esses juros caiam, só tem um jeito: o governo reduzir seu déficit, gastando menos do que arrecada. Fazer o tal ajuste fiscal — esse que Lula disse que não fará.

Muitos economistas e analistas políticos entendem que esse ajuste será feito por bem ou por mal. No caso, por mal, à medida que a crise econômica avançar. Seria um estelionato eleitoral, é verdade, mas como que inevitável.

Os mercados reagirão mal à vitória de Lula. Isso significa Bolsa em queda, juros em alta, real desvalorizado. Tudo que pode complicar o quadro econômico, apontando para mais inflação, com desaceleração do PIB.

O pessoal esperará uma palavra de Lula sobre uma eventual mudança de política. No mercado, dizem que colaboradores do presidente já mandaram alguns recados. Ocorre que Lula ganha com um Congresso majoritariamente de direita. Encontrará forte oposição, mesmo porque o país está rigorosamente dividido. Essa divisão não acaba depois desta eleição, assim como não acabou depois de 2022, quando Lula ganhou também com apertada maioria.

No terceiro mandato, Lula não ampliou sua base política. Ao contrário, fixou-se na esquerda. Comenta-se agora que o vice Geraldo Alckmin pode cumprir a tarefa de aproximar o governo do centro e dos meios econômicos. Pode ser, mas até agora o que se viu foi uma virada de Alckmin para a esquerda.

Um sinal importante — nesta ou naquela direção — será dado com a eventual formação de um novo ministério, especialmente da equipe econômica. Ocorre que Lula virou a eleição com a esquerda, com a extraordinária mobilização dos últimos dias. É a essa militância que deve seu quarto mandato. A ver.

E o que teria acontecido se Flávio Bolsonaro tivesse vencido? Ele também teria dificuldade para fazer o ajuste fiscal. Além disso, na política, traria um risco à democracia, considerados o passado e o presente da família.

 

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