Folha de S. Paulo
Buscar atores que pensam diferente, inclusive
bolsonaristas, é essencial para o sucesso do novo governo
Plano de sustentabilidade fiscal deve começar
imediatamente, buscando o apoio da sociedade
Ao
se reeleger, Lula
é o primeiro candidato a perder o primeiro turno e vencer no segundo em toda a
redemocratização. Numa campanha impressionante, comandada pelo
"general" Janones na
internet e pelos jovens nas ruas, Lula também será o primeiro a vencer quatro eleições
presidenciais. Uma vitória fantástica por esses dois indicadores, mas o governo
começa nesta segunda-feira (26), e haverá muitas dificuldades no quarto
mandato.
O presidente Lula tem de comemorar, mas precisa tirar lições desta eleição para não cometer os mesmos erros do terceiro mandato. A primeira é que sua vitória se deveu, em boa medida, a uma estratégia voltada para o futuro, com mudanças na comunicação nas redes sociais e lideranças jovens comandando a virada. O PT precisa se renovar urgentemente se não quiser perder relevância nos próximos anos, alçando os líderes do Nordeste, os(as) jovens parlamentares e figuras de fora do partido, como André Janones, a um patamar de maior importância.
Uma segunda lição se refere à necessidade de
ampliar os apoios para além do petismo. O abandono da ideia de frente ampla foi
um dos grandes erros do terceiro mandato. Será fundamental, porém, chegar
também a setores da sociedade que rejeitam o presidente Lula, especialmente à classe
C, grupo que cresceu com as políticas dos primeiros governos petistas e que
agora sonha com novos avanços em sua autonomia econômica. Buscar os atores que
pensam diferente, inclusive eleitores bolsonaristas, dialogar com eles e propor
novas soluções são medidas centrais para o sucesso do novo governo.
Como consequência dessa ampliação, será
preciso atuar em áreas que não foram prioritárias no terceiro mandato. Eis a
terceira lição do processo eleitoral de 2026. Três temas serão inescapáveis. A
segurança pública é a prioridade máxima. A implementação do Susp, com maior
integração entre as forças policiais do governo federal e dos estados, assim
como o combate ao narcotráfico nas fronteiras e o maior uso de instrumentos de
inteligência policial, são medidas essenciais.
Outra questão central é o empreendedorismo,
com a ampliação das oportunidades e do conhecimento sobre como abrir e ter
êxito em pequenos negócios. Isso não significa ignorar a importância dos
trabalhadores com carteira assinada, nem a urgência de aumentar o investimento
das empresas e sua produtividade. O ideal é formular políticas para ambas as
realidades produtivas.
Um assunto deve ser visto com mais cuidado,
porque é fundamental para todos os outros: a sustentabilidade fiscal. Se o
presidente reeleito quiser reduzir a taxa de juros para ampliar o crescimento
do país e diminuir o endividamento das pessoas e das empresas, terá de promover
um ajuste nas contas públicas que aponte, no médio e no longo prazo, para uma
mudança no perfil da dívida pública. Não há solução fácil aqui, mas iniciar
esse processo já no começo do governo, buscando o apoio da sociedade, pode
levar a uma perda imediata de popularidade —só que também poderá garantir um
governo bem-sucedido e o desenvolvimento estrutural do país.
Fazer esses ajustes nas políticas públicas
não significa que o lulismo deva abandonar suas bases e políticas clássicas. O
segundo turno foi muito claro ao ressaltar a relevância das ações sociais para
o voto. Todavia, como quarta lição, percebeu-se que, mesmo nas áreas em que os
governos Lula historicamente tiveram sucesso, é preciso continuar avançando. A
defesa do SUS e
do Farmácia Popular é fundamental, mas melhorar a eficiência dos atendimentos e
exames também é uma pauta prioritária.
A educação é um dos orgulhos do presidente
reeleito, mas vale ressaltar que há uma ampla agenda nessa área que precisa
avançar, incluindo as políticas para a primeira infância, a educação especial
inclusiva, a escola de tempo integral e a educação de jovens e adultos. Soma-se
a elas, como grande questão do quarto mandato, a implantação do Sistema
Nacional de Educação.
Lula se torna o maior líder popular do
período democrático brasileiro. Mas, se quiser terminar sua carreira no auge, o
presidente reeleito terá de apontar um horizonte de futuro para os brasileiros.
Daí decorre a quinta lição das eleições: há um antipetismo forte, contudo, o país
está ávido por um projeto que melhore as políticas e as instituições. Isso
exigirá ir além do discurso petista e descobrir novos caminhos para enfrentar
as intempéries do século 21. O mesmo nível de criatividade que Lula demonstrou
no primeiro mandato será exigido em seu último governo.
Aqui está o maior desafio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário